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sexta-feira, 30 de outubro de 2026

FOLCLORE POLÍTICO: Porandubas 741

Armado de admiração

Tenório Cavalcanti, udenista e adversário político de Vargas, foi ao Catete numa comissão de deputados. Andava nas manchetes dos jornais por causa de suas estripulias em Caxias, na base da "Lourdinha" (metralhadora) e da capa preta. Getúlio o cumprimentou, olhou bem para o volume do revólver embaixo do braço esquerdo, sob o paletó:

– Deputado, o senhor está armado?

Tenório ficou vermelho, mas não perdeu o bote:

- Armado de admiração por Vossa Excelência.

Fonte: Gaudêncio Torquato (GT Marketing Comunicação).

https://www.migalhas.com.br/coluna/porandubas-politicas/357021/porandubas-n-741


quarta-feira, 21 de outubro de 2026

Políticas públicas baseadas em valores e informadas por evidências

Por Alexandre Sobreira Cialdini (*)

A Secretaria do Planejamento e Gestão do Ceará (Seplag-CE) e a Escola de Gestão Pública do Estado do Ceará (EGPCE) estão realizando o programa Políticas Públicas baseadas em Valores e informadas por Evidências. A formação é ministrada pelo professor Paulo Jannuzzi, da Escola Nacional de Ciências Estatísticas (Ence), vinculada ao Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Com 73 anos de trajetória, a Ence é a mais tradicional escola de estatística do Brasil e a primeira do gênero na América Latina. Na abordagem adotada pelo programa, constituem evidências não apenas dados, estatísticas, estudos e documentos preparatórios, mas também o conhecimento tácito acumulado sobre as políticas públicas e seus programas. Esse conjunto de informações e saberes é fundamental para subsidiar o desenho, a implementação e o aprimoramento das atividades, dos produtos e dos resultados da ação governamental.

A metodologia desenvolvida pelo professor Jannuzzi aproxima os participantes do estado da arte contemporâneo da administração e das políticas públicas. Fruto da parceria entre Seplag-CE, Ence e EGPCE, a formação tem como objetivo fortalecer a capacidade técnica de servidores e gestores estaduais envolvidos na formulação, implementação, monitoramento e avaliação de políticas públicas.

A abordagem das políticas públicas baseadas em valores e informadas por evidências ganhou crescente relevância nos círculos governamentais e acadêmicos. O debate contemporâneo tem contribuído para superar a concepção de um modelo idealizado e "puramente científico" de formulação das políticas públicas, em favor de uma perspectiva mais realista, que reconheça a necessidade de integrar evidências, valores, experiência administrativa e contexto político.

Essa compreensão encontra respaldo nos estudos de Brian Head, uma referência no debate internacional sobre políticas públicas informadas por evidências. Em seus trabalhos, Head defende que a formulação de políticas eficazes depende de um equilíbrio entre diferentes tipos de conhecimento: a evidência científica (pesquisa acadêmica), a evidência organizacional/administrativa (a experiência dos funcionários públicos) e o conhecimento político (valores, julgamentos e pressões sociais).

É nesse contexto que se insere o programa desenvolvido no Ceará. A iniciativa resulta de uma profícua colaboração entre a Seplag-CE, o Instituto de Pesquisa e Estratégia Econômica do Ceará (Ipece) e a EGPCE, com o apoio incondicional do IBGE, por meio do presidente Márcio Pochmann.

Esse esforço conjunto busca estruturar um modelo de avaliação de políticas públicas e capacitar servidores e gestores estaduais para formular, implementar e aperfeiçoar políticas públicas fundamentadas no conhecimento científico e, ao mesmo tempo, calcadas na viabilidade administrativa e política.

(*) Mestre em Economia e doutor em Administração Pública e Secretário de Finanças e Planejamento do Eusébio-Ceará.

Fonte: O Povo, de 17/09/26. Opinião. p.15.


terça-feira, 20 de outubro de 2026

ENTREVISTAS PRESIDENCIAIS

Por Raimundo Padilha (*)

O sistema de comunicação da Rede Globo realizou um programa de entrevistas com candidatos à Presidência da República do Brasil, que apresentaram os maiores níveis de pontuação nas pesquisas de opinião.

Inegavelmente o sistema de comunicação da Globo detém o maior nível de audiência dentre todos os veículos.

Nos anúncios das entrevistas, a meu juízo, a estrutura do programa seria diferente. Mas quem sou eu para me atrever a sugerir modelo de programa para qualquer veículo de comunicação? Posso ser um crítico, mas não tenho talento suficiente para a sua elaboração.

Na minha visão, não obstante alguns candidatos tenham algumas restrições no seu passado político, o tempo dedicado a este assunto me pareceu exagerado, prejudicando aquilo que julgo essencial para o eleitor, notadamente, o indeciso.

Obviamente todos aqueles que têm o passado com algumas restrições, iam se colocar negando e os entrevistadores tinham que indagá-los. A minha crítica não está na indagação dos maus feitos, mas na persistência do assunto diante do tempo dedicado ao programa e a variedade de temas não tratados.

Numa análise fria e simplória, o último candidato entrevistado, o dr. Augusto Cury, por não ter passado político, foi o único que teve oportunidade de apresentar suas ideias de futuro com mais liberdade, embora se possa descordar de muitas delas.

Não quero dizer que o passado dos candidatos seja uma página virada, mas no tempo do programa a persistência nas falhas por eles cometidas avançou muito no tempo útil do programa, ficando o eleitor indeciso na mesma indecisão quanto ao futuro do País. Perdemos uma excelente oportunidade de uma discussão mais abrangente de um olhar mais objetivo para o futuro.

O sistema de entrevista foi uma inovação em substituição ao debate coletivo dos candidatos, já que os maiores pontuados nas pesquisas não se dispuseram a participar. Repito, a crítica está na persistência do passado, o que lembrou os discursos entre si, dos candidatos num processo entediante de xingamentos. O público que assistiu às entrevistas esperava os projetos dos candidatos e não as suas defesas de pecados cometidos, defesas, aliás, algumas vezes falseando a verdade.

Não critico os entrevistadores, mas o seu roteiro. Insisto, um longo tempo com perguntas sobre as feridas do passado, principalmente, de Lula e Flávio, que hoje são os mais prováveis a chegar ao segundo turno.

Temas de relevante importância foram omitidos e que seriam do vivo interesse dos telespectadores.

Aguardamos que, nas próximas eleições, melhorem os programas dos veículos e o perfil dos candidatos.

(*) Economista, professor aposentado da UFC e membro da Academia Cearense de Economia.

Fonte: O Povo, de 2/09/26. Opinião. p.19.


sexta-feira, 16 de outubro de 2026

FOLCLORE POLÍTICO: Porandubas 734

Voltei reanimado

Porandubas está de volta, depois de um bom tempo fora do ar. Recolheu-se, como o profeta Zaratustra, para analisar as curvas da vida e prenunciar os tempos de amanhã. Para não perder o costume volta com uma historinha do coronel Juca Peba, da PB.

O coronel Juca Peba

Desconfiado e matreiro, o coronel Juca Peba não era de muita conversa. Tinha dinheiro, e muito, guardado sob o travesseiro. Até o dia que inauguraram a Agência do Banco do Brasil, em Cajazeiras. A gerente foi procurar o coronel Juca Peba com o argumento:

– Coronel, bote o dinheiro no banco. Vai ser guardado, bem guardado, e vai render juros.

Depois de muita conversa, e muitos cafés no varandão da casa, o coronel, ainda desconfiado, foi ao banco com 100 contos numa bolsa de couro. Tirou devagar o pacote. Contou. Uma, duas, três vezes. Depositou. Matreiro, ficou na espreita, na calçada, olhando, espiando o movimento do banco. Para ver se aquele troço não era tramoia. A desconfiança aumentou. Entrou no banco. Foi ao Caixa. Ordenou:

– Quero os 100 contos que eu botei aqui. Já.

Aflito, o bancário foi buscar o dinheiro. O coronel pegou o maço. Conferiu. Uma, duas, três vezes. E devolveu, sob a expressão juramentada:

– Eu só queria mesmo conferir. Pode guardar.

Fonte: Gaudêncio Torquato (GT Marketing Comunicação).

https://www.migalhas.com.br/coluna/porandubas-politicas/354213/porandubas-n-734

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

ESMOLA versus VÍCIO

Por Pedro Jorge Ramos Vianna (*)

Não sou contra a ação social do Governo. Ou seja, sou a favor das ações nas áreas de justiça e segurança, os chamados "bens públicos" e das ações nas áreas de saúde e educação públicas, os chamados "bens meritórios". Entretanto, advogo o que era defendido pelo Barão Mauá, em 1878:

O melhor programa econômico do governo é não atrapalhar aqueles que produzem, investem, poupam, empregam, trabalham e consomem.

Infelizmente, esta não é a prática dos últimos governos brasileiros. Não só a burocracia, a desonestidade, a política econômica sem rumo e o excesso de "esmolas" à população, distribuído quase que aleatoriamente, são óbices ao desenvolvimento.

E o que isso tem a ver com a frase do Barão de Mauá? Os programas de esmolas do Governo estão criando uma geração brasileira de viciados em não trabalhar.

Há muitas evidências sobre pessoas que recebem o Bolsa Família que só querem emprego com a não assinatura da Carteira de Trabalho. E isso tem atrapalhado o emprego e, portanto, a produção, porque os empresários, por força de lei, só podem ter empregados com carteira assinada.

Na realidade, isso já era previsto em uma canção do Luiz Gonzaga e Zé Dantas, de 1953, que dizia: "Mas, doutor, uma esmola para um homem que é são ou lhe mata de vergonha ou vicia o cidadão".

Aqui, também, vale relembrar uma frase do filósofo e político romano Marco Túlio Cícero, escrita em 55, a.C.: "As pessoas devem novamente aprender a trabalhar. Em vez de viver às custas do Estado".

Outra frase, desta feita de Margareth Tatcher, merece reflexão: "Para cada pessoa que recebe sem trabalhar, uma outra deve trabalhar sem receber".

É esta a situação atual do emprego no Brasil.

Por que, no lugar do "Bolsa Família", não se cria o "Bolsa Emprego"? O que seria essa bolsa?

O "Bolsa Emprego" teria a seguinte característica: toda pessoa que fosse do Bolsa Família poderia se empregar recebendo o salário mínimo mais um percentual do que recebia pelo Bolsa Família. O salário seria pago pelo empregador e a outra parte, pelo Governo.

Como isso poderia acontecer? Todas as pessoas do "Bolsa Família" seriam cadastradas no "Bolsa Emprego", e haveria a oferta de emprego para essas pessoas.

Quem não pudesse, comprovadamente, trabalhar, seja por questão de saúde, seja por incapacidade física, continuaria no "Bolsa Família".

Para aquelas mulheres que não teriam com quem deixar seus filhos, os empregadores ofereceriam creches para cumprirem essa função. Mas quem pudesse trabalhar e não se empregasse perderia tal Bolsa.

Os salários de lei seriam pagos pelo empregador. As condições sociais fariam o resto.

É uma proposta. Cabe discussão.

(*) Economista e professor titular aposentado da UFC,

Fonte: O Povo, de 23/08/26. Opinião. p.18.


domingo, 4 de outubro de 2026

E ESSE TIPO DE GENTE TAMBÉM VOTA!

Um amigo meu comprou um refrigerador novo e para se livrar do velho, colocou-o em frente do prédio, na calçada, com o aviso:

"Grátis e funcionando. Se quiser, pode levar".

O refrigerador ficou três dias na calçada sem receber um olhar dos passantes.  Ele chegou à conclusão que as pessoas não acreditavam na oferta. Parecia bom de mais para ser verdade e mudou o aviso:

"Refrigerador à venda por R$ 200,00.

No dia seguinte, tinha sido roubado! Cuidado! Este tipo de gente vota!

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Ao visitar uma casa para alugar, o meu irmão perguntou à agente imobiliária para que lado era o Norte, porque não queria que o sol o acordasse todas as manhãs. A agente perguntou: "O sol nasce no Norte?" Quando o meu irmão lhe explicou que o sol nasce a Nascente (aliás, daí o nome e que há muito tempo que isso acontece!) ela disse: "Eu não estou atualizada a respeito destes assuntos".

Ela também vota!

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Trabalhei uns anos num centro de atendimento a clientes em Ponta Delgada - Açores. Um dia, recebi um telefonema de um sujeito que perguntou em que horário o centro de atendimento estava aberto.  Eu respondi: "O número que o senhor discou está disponível 24 horas por dia, 7 dias por semana." Ele então perguntou: "Pelo horário de Lisboa ou pelo horário de Ponta Delgada?" Para acabar logo com o assunto, respondi: "Horário do Brasil."

Ele vota!

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Um colega e eu estávamos a almoçar no self-service da empresa, quando ouvimos uma das assistentes administrativas falar a respeito das queimaduras de sol que ela tinha, por ter ido de carro para o litoral. Estava num conversível, por isso, "não pensou que ficasse queimada, pois o carro estava em movimento."

Ela também vota!

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A minha cunhada tem uma ferramenta salva-vidas no carro, para cortar o cinto de segurança, se ela ficar presa nele. Ela guarda a ferramenta no porta-bagagens!  A minha cunhada também vota!

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Uns amigos e eu fomos comprar cerveja para uma festa e notámos que os engradados tinham desconto de 10%. Como era uma festa grande, comprámos 2 engradados. O caixa multiplicou 10% por 2 e fez-nos um desconto de 20%.

Ele também vota!

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Saí com um amigo e vimos uma mulher com uma argola no nariz, ligada a um brinco, por meio de uma corrente. O meu amigo disse: "Será que a corrente não dá um puxão cada vez que ela vira a cabeça?" Expliquei-lhe que o nariz e a orelha de uma pessoa permanecem à mesma distância, independentemente da pessoa virar a cabeça ou não.

O meu amigo também vota!

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Ao chegar de avião, as minhas malas não apareciam na área de coleta da bagagem. Fui então ao setor de bagagem extraviada e disse à mulher que as minhas malas não tinham aparecido. Ela sorriu e disse-me para não me preocupar, porque ela era uma profissional treinada e eu estava em boas mãos. "Agora diga-me, perguntou ela... o seu avião já chegou?"

Ela também vota!

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À espera de ser atendido numa pizzaria observei um homem a pedir uma pizza para levar. Ele estava sozinho e o empregado perguntou se ele preferia que a pizza fosse cortada em 4 pedaços ou em 6. Ele pensou algum tempo, antes de responder: "Corte em 4 pedaços; acho que não estou com fome suficiente para comer 6 pedaços."

Isso mesmo, ele também vota!

Fonte: Disponível na home page “Tudoporemail”.


sexta-feira, 18 de setembro de 2026

COMPOSTURA, SENHORES!

Heládio Feitosa de Castro Filho (*)

Compostura, senhores! - repetia o velho professor de Direito Processual, batendo a régua na mesa, sempre que um aluno exagerava no tom ou na vontade. A palavra soava antiquada, quase um mimo de museu. Mas era a senha para o templo: ali, a toga não era fantasia; era reverência.

Hoje, ao acompanhar as notícias do Supremo Tribunal Federal, tenho a impressão de que o velho professor bate a régua em vão. E os alunos - agora ministros - parecem ter esquecido que a toga não lhes pertence.

Divergência jurídica é saudável. O problema começa quando o conflito deixa de ser apenas processual e passa a envolver acusações recíprocas, suspeitas sobre decisões e a impressão de que a própria Corte se tornou cenário de uma disputa interna de poder.

A crise atual do STF, com questionamentos sobre relatórios da Polícia Federal e decisões de afastamento, não pode ser tratada como simples desacordo entre colegas. Não se trata de antecipar culpa, nem de transformar suspeitas em condenações. Trata-se de reconhecer que, quando a imparcialidade é questionada, a transparência deixa de ser gentileza e passa a ser dever.

O Supremo não é a soma de onze vontades individuais. É uma instituição. E instituição se fortalece quando seus membros aceitam limites, submetem decisões controversas ao debate público e preservam a autoridade do conjunto acima da conveniência de cada gabinete.

O cidadão, porém, não acompanha apenas os votos. Acompanha também o espetáculo. Quando um ministro determina o afastamento do diretor-geral da Polícia Federal e outro reverte a medida, o que chega à calçada é a impressão de que o Estado fala com vozes desencontradas. E a pergunta inevitável é: quem controla quem?

É nesse ponto que a compostura deixa de ser virtude decorativa e passa a ser exigência democrática. Não significa silêncio diante do abuso. Significa que a reação ao abuso deve respeitar as formas que dão legitimidade à Justiça.

O cidadão não espera santos. Espera juízes. Não exige concordância, mas divergência dentro das regras. Não pede uma Corte infalível. Pede uma Corte capaz de reconhecer e corrigir seus erros.

- Compostura, senhores! - repetiria o professor. - Não confundam autoridade com imunidade à crítica. Não confundam independência com ausência de controle.

Se a Justiça precisa de reforma, que se faça. Reformar não é desmoralizar. Criticar não é destruir. Exigir limites não é atacar a democracia. É tentar preservá-la.

O velho professor bate a régua na mesa.

- Compostura, senhores!

Talvez a régua deva ser também uma medida: a distância entre o poder e a vaidade; entre a autoridade e o arbítrio; entre o homem que veste a toga e a instituição que ele tem o dever de honrar.

Porque, quando a Justiça perde a compostura, o cidadão perde a sensação de que existe, acima das disputas, um lugar onde a lei ainda é maior que os homens.

E esse lugar precisa continuar existindo.

Compostura, senhores. Não como favor. Como dever.

(*) Médico cirurgião e professor da UFC. Da Academia Cearense de Medicina e da Academia Cearense de Médicos Escritores.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 18/09/2026. Opinião. p.16.


FOLCLORE POLÍTICO: Porandubas 730

Abro a coluna com a solidariedade em Petrópolis.

Sou solidário e não pago

Antônio Carlos Portela era um senhor rico e bom. Dava aval a todo o mundo, em Petrópolis. Gostava de política. Gostava demais. Quando chegava a campanha eleitoral, sua maneira de ajudar os amigos era avalizar empréstimos para as despesas de campanha. Certa eleição, avalizou um título para um candidato a deputado, que perdeu feio e ficou em dificuldades de pagar. O gerente do banco, sabendo que não receberia do devedor, foi ao avalista:

– Senhor Portela, o título está vencido. Preciso que o senhor pague. Como avalista, o senhor é solidário.

– Sou, sim. Sou muito amigo dele e estou inteiramente solidário com ele. Se ele não pagou, é porque tem seus motivos. Porque estou solidário, não pago também.

Fonte: Gaudêncio Torquato (GT Marketing Comunicação).

https://www.migalhas.com.br/coluna/porandubas-politicas/351366/porandubas-n-730



quarta-feira, 16 de setembro de 2026

DE MAU A PIOR

Por Raimundo Padilha (*)

O mundo está passando por aceleradas e profundas transformações. Na área da tecnologia, a velocidade tem sido inimaginável. A inteligência artificial veio para ficar e, com ela, profundas transformações. Igualmente, as energias alternativas já se constituem uma nova realidade.

O mundo avança a passos largos, não obstante a política e as guerras se constituem um retrocesso. Aliás, a política e a corrupção convivem em harmonia, comprometendo o homem nos seus valores morais. A política é praticada com "p" minúsculo, em que predomina o jogo imoral do salve-se quem puder.

No Parlamento, legisla-se em causa própria, buscando as vantagens pessoais. Raros são os honestos. E mais raros ainda são os projetos de qualidade votados em benefício da coletividade. A corrupção com suas mais diversas facetas, enlameando a ética e a moral, inclusive do cardinalato republicano. A justiça é perniciosamente lenta, estimulando a prática dos crimes e da sua impunidade.

Nestas áreas, estamos de mau a pior. E falta homem de estatura moral elevada que dê o grito de basta. Por isso, estamos a caminho do pior. A coletividade já não crê nos homens públicos. E se avizinham as eleições e a ameaça de dias piores.

Não tenho filiação partidária, não obstante tenha tido amizade com os três coronéis Adauto Bezerra, César Cals e, principalmente, Virgílio Távora, que militaram na política do Ceará por alguns anos.

Há um desencontro visível entre os estatutos partidários e a prática dos seus militantes, acho até que eles não leem referidos estatutos. Talvez só o PT guarde alguma identidade, mesmo assim distante das suas origens.

Antes da revolução de 64, os partidos guardavam maior fidelidade. Nesse período, houve o bipartidarismo: Arena e MDB. A Arena era um partido do Governo central, e o MDB se constituía numa frente com diversos matizes, no que se assemelha ao "Centrão" de hoje.

Atualmente funcionam perto de 30 partidos, quase todos de cores desbotadas. Somente dois personagens agrupam a maioria dos eleitores no que são acompanhados pelos demais partidos, inclusive os nanicos.

Dos grandes temas nacionais, quase nenhum é debatido congressoalmente. A coletividade é marginalizada, somente sendo procurada próximo às eleições. Estamos com a nossa democracia ameaçada? Como politizar a população? Existem, todavia, os apaixonados de raiz, num radicalismo entediante. Já não se debatem projetos ou programas de governo. Os xingamentos estão presentes na pauta, traduzindo-se num show de baixarias. Pobre política, desavergonhados políticos, com algumas exceções. A qualidade dos políticos está ladeira abaixo. Como será o nosso amanhã? 

(*) Economista, professor aposentado da UFC e membro da Academia Cearense de Economia.

Fonte: O Povo, de 5/08/26. Opinião. p.15.


sexta-feira, 21 de agosto de 2026

FOLCLORE POLÍTICO: Porandubas 727

Abro a coluna com uma historinha de Pernambuco.

Perspectivas e características

Quais as perspectivas que se apresentam ao Brasil nesse contexto de crise entre os Poderes? Confesso que não sei responder. Mas uma historinha de Pernambuco pode nos apresentar as perspectivas.

Luís Pereira, pintor de parede, dormiu com 200 votos e acordou como deputado Federal. Era suplente de Francisco Julião, líder das Ligas Camponesas, em Pernambuco, cassado pela ditadura. Chegou a Brasília de roupa nova e coração vibrando de alegria. Murilo Melo Filho melou o jogo, logo no aeroporto, com a pergunta abrupta:

– Deputado, como vai a situação?

Confuso, nervoso, surpreso, sem saber o que dizer, querendo causar boa impressão tascou:

– As perspectivas são piores do que as características.

Pois é, a esta altura, tem muito deputado imitando Luís Pereira e traçando o panorama do amanhã.

Começo minha análise política com o poema do beco, de Manuel Bandeira.

Que importa a paisagem, a Glória, a baía, a linha do horizonte?

-O que vejo é o beco.

Fonte: Gaudêncio Torquato (GT Marketing Comunicação).

https://www.migalhas.com.br/coluna/porandubas-politicas/349574/porandubas-n-727


quinta-feira, 13 de agosto de 2026

QUANDO O GLOBAL ENCONTRA O LOCAL

Por Sofia Lerche Vieira (*)

Para além dos territórios nacionais, as políticas educacionais contemporâneas circulam globalmente. Neste cenário orientações de organismos internacionais com foco em direitos, inclusão, equidade e sustentabilidade convivem com políticas de avaliação externa e controle de resultados, fenômeno que alguns estudiosos têm denominado de "datificação". Essas ideias, nem sempre convergentes, atravessam fronteiras e chegam às mais diferentes realidades, incluindo as escolas.

Ao aportar no Brasil, tais iniciativas ganham relevo. O país, entretanto, nunca foi um terreno de simples reprodução de políticas. Nosso sistema federativo constitui uma realidade complexa onde União, Estados e Municípios compartilham responsabilidades e preservam margens de autonomia.

Assim, no âmbito local, as políticas globais são apropriadas, negociadas e recriadas. A homogeneidade de formulações globais perde terreno para a heterogeneidade de políticas locais em ambientes marcados por tensões e contradições.

Seus avanços educacionais resultam de políticas locais consistentes de cooperação, avaliação e fortalecimento das redes municipais. As iniciativas, contudo, não chegam a todos os municípios da mesma forma. Embora compartilhem diretrizes comuns, estes constroem caminhos próprios, definem prioridades distintas e inventam diferentes formas de governar a educação.

Em alguns casos, traços do velho clientelismo persistem e imprimem marcas a políticas supostamente novas. Pesquisa recente sobre o tema, cujos resultados estão reunidos no livro "Desafios da Educação na Região Metropolitana de Fortaleza", permitiu perceber que não existe uma única experiência metropolitana, mas múltiplas formas de traduzir orientações comuns em políticas concretas.

A heterogeneidade é, pois, incorporando sentidos tanto das políticas globais quanto da singularidade de suas invenções. A experiência do Programa Alfabetização na Idade Certa (Paic), que o Ceará vem exportando para o mundo, é uma evidência virtuosa do encontro entre o global e o local

(*) Professora do Programa de Pós-Graduação em Educação da Uece e consultora da FGV-RJ.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 13/07/26. Opinião. p.18.


sexta-feira, 7 de agosto de 2026

FOLCLORE POLÍTICO: Porandubas 726

Abro a coluna com uma fábula.

Em cinco anos, tudo pode ocorrer

Um poderoso sultão, sábio entre os sábios, possuía um camelo muito inteligente. Obedecia a todas as ordens que nem precisavam ser emitidas de viva voz. Faltava-lhe apenas o dom da palavra. Esse detalhe entristecia sobremaneira o sultão. Um dia, decidiu convocar o Grande Conselho e chamou o grão-vizir.

- Quero que ensine meu camelo a falar!

- Mas isso é impossível.

- Cortem a cabeça dele! Tragam-me o adjunto!

Mesma afirmação de desejo sultanesco, mesma resposta, mesma sentença. A cena repetiu-se diversas vezes e cabeças rolaram. Exasperado o sultão declarou.

- Aquele que ensinar meu camelo a falar será meu grão-vizir.

Silêncio! O sultão repetiu a exortação. Eis que surgiu um humilde ajudante de cozinheiro. Disse:

-Dá-me, ó incomparável senhor, um prazo de cinco anos, e farei falar teu camelo.

Estupefação geral. Seguida do cumprimento da promessa.

-Doravante, és meu grão-vizir! Mas se falhares, sabes o que te espera!

- Bem sei!

Encantado, o jovem fez profunda reverência e saiu correndo para dar a boa notícia à esposa.

- Infeliz, acabas de assinar tua condenação.

- Não é bem assim, meu bem. Pedi cinco anos. Você sabe que muitas coisas poderão acontecer em cinco anos: morre o camelo, morre o sultão...

(Fábula enviada pelo atento Alexandru Solomon). Nada a ver com as próximas eleições.

Fonte: Gaudêncio Torquato (GT Marketing Comunicação).

https://www.migalhas.com.br/coluna/porandubas-politicas/349194/porandubas-n-726


sexta-feira, 24 de julho de 2026

FOLCLORE POLÍTICO: Porandubas 872

Abro a coluna com uma historinha dos mineiros, contada por Sebastião Nery.

Desde que o dinheiro venha

Mais uma da matreirice mineira. Benedito Valadares chegou a Curvelo/MG, para visitar a exposição de gado do município. Na hora do discurso, atrapalhou-se:

- Quero dizer aos fazendeiros aqui reunidos que já determinei à Caixa Econômica e aos bancos do Estado a concessão de empréstimos agrícolas a prazos curtos e juros longos.

Lá do povo, alguém corrigiu:

- É o contrário, governador! Empréstimo a prazo longo e juros curtos.

- Desde que o dinheiro venha, os pronomes não têm importância.

Fonte: Gaudêncio Torquato (GT Marketing Comunicação).

https://www.migalhas.com.br/coluna/porandubas-politicas/421845/porandubas-n-872


quinta-feira, 16 de julho de 2026

VOLTANDO À (IN)TOLERÂNCIA

 Por Vladimir Spinelli Chagas (*)

Em 2020 estreei nessas páginas com um simbólico artigo "No Reino da Tolerância", por sentir que se agravava, cada vez mais, a falta de diálogo, o desrespeito às opiniões alheias, a falta de reflexão. Então, propunha que eu e você nos tornássemos mais tolerantes para debater fatos e não irmos ampliando as discussões como uma guerra.

Voltei ao tema mais quatro ou cinco vezes, sempre com a perspectiva de que, conseguindo adesão de meia dúzia de pessoas, já teríamos um bom início para que a convivência se tornasse mais amigável, mesmo entre aqueles que defendem ideologicamente campos opostos. Afinal, em que parte do Livro da Vida temos alguma lei que estabeleça a Verdade Absoluta? Não conheço. Pelo contrário, todo ele sempre se dedica a destacar que o amor ao próximo é uma regra pétrea.

Ora, como amar sendo intolerante? Os momentos de mais tensão se deram nos processos eleitorais que vivenciamos desde então. Agora mesmo, começamos uma nova refrega, na qual veremos menos propostas reais em benefício do povo e mais agressões e violência. Ora, nós eleitores seremos, mais uma vez, vítimas de nossas ações e omissões, aceitando esse quadro de discussões estéreis em vez de exigirmos, como é de nosso direito, que o debate vá para o campo de ações públicas?

Já perdemos demais com um Legislativo que não honra o passado de tantos cidadãos até hoje respeitados por suas posições como verdadeiros representantes do povo, que lhe dá os votos. O poder executivo, em todos os níveis, também não é exemplo de real preocupação com a população, que também os elegeu e tem visto um distanciamento das poucas promessas de campanha que a beneficiaria.

Em relação ao Judiciário, as notícias que são estampadas diuturnamente também ferem de morte o direito do cidadão. Nos níveis superiores, não foram eles eleitos, mas escolhidos por quem o foi, com um compromisso assumido de pugnar pela Justiça, pela Democracia e pela defesa intransigente da Constituição, de que são os guardiões.

"Tolerância, mesmo que utópica, continua sendo uma ideia que defendo com veemência. E uma reflexão que proponho mais uma vez." E uma vez mais.

(*) Professor aposentado da Uece, membro da Academia Cearense de Administração (Acad) e conselheiro do CRA-CE. Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Fortaleza.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 15/06/26. Opinião. p.18.

sexta-feira, 10 de julho de 2026

FOLCLORE POLÍTICO: Porandubas 870

Abro a coluna com uma historinha que o ex-governador do Piauí, Alberto Silva, contava. Análise da índole piauiense.

Sou do Piauí, e daí?

Alberto Silva dizia que a alma piauiense sofria de complexo de inferioridade. Na Sudene, em Recife, ouvi dele esse chiste: um interlocutor pergunta a outro: o senhor é de onde? Resposta: sou do Piauí e daí? E já mostrava os punhos para esmurrar o interlocutor.

E foi pensando nisso que ele, quando governador, decidiu criar a Potycabana, uma praia de Copacabana, às margens do rio Poty. Importou equipamentos que faziam ondas nas águas. Não foi bem sucedido. No dia da inauguração, discursou: não precisamos ao Rio de Janeiro para tomar banho em Copacabana. Temos a nossa Potycabana. A criançada, em algazarra, mergulhou nas ondas barrentas. Uma criança morreu. O sonho foi embora.

Bonecos de Olinda, prazer!

Certa feita, acompanhei Michel ao Recife para uma visita ao senador Jarbas Vasconcelos, então governador do Estado. Fazia parte da liturgia do presidente do PMDB ouvir as lideranças do partido, ainda mais se tratando de Jarbas Vasconcelos, que realizou um grande trabalho pelo partido, desde os tempos em que o presidiu.

Chegamos já tardinha, com o sol se pondo. A casa do governador parecia um museu a céu aberto. Pela coleção de bonecos, o artesanato pernambucano se fazia intensamente presente nos cômodos. Sentamo-nos na sala de recepção. Os raios do sol abriam uma pequena claridade numa sala contígua, onde em uma mesa de jantar/almoço, convivas pareciam se regalar com os acepipes.

Fiquei curioso. Michel, então, muito educado, pediu licença de Jarbas, levantou-se e se dirigiu aos convivas, querendo cumprimentar cada um.

Mão estendida para o primeiro, veio o susto. Eram 7 ou 8 bonecos de Olinda, em tamanho natural, sentados à mesa e diante de pratos e talheres. Disfarçando o gesto risível, o presidente da Câmara volta ao nosso convívio sem conseguir o riso.

Fonte: Gaudêncio Torquato (GT Marketing Comunicação).

https://www.migalhas.com.br/coluna/porandubas-politicas/420911/porandubas-n-870

segunda-feira, 6 de julho de 2026

O que é preciso mudar no Brasil: políticos?

Por Pedro Jorge Ramos Vianna (*)

Há tempos venho defendendo que são quatro os fatores essenciais que determinam o grau de desenvolvimento de qualquer região do planeta. São os fatores naturais, os históricos, os aleatórios e os que eu denominei de institucionais, os produzidos pelo homem. Analisemos, agora, o "fenômeno", Brasil.

- Quanto aos fatores naturais, nosso País tem abundância de terra, a maioria muito produtiva; grandes bacias hidrográficas; climas normalmente amenos; não sofremos de grandes desastres ecológicos. O fator natural não foi problema para o nosso desenvolvimento;

- O fator histórico mais importante foi ter sido descoberto por Portugal, que nunca se preocupou em desenvolver a Colônia Brasil. O importante era extrair as riquezas e levar para Portugal;

- O fator aleatório digno de nota foi a revolução no Haiti em 1791-1804. Esta revolução ganha pelos escravos que trabalhavam nos canaviais do Haiti, à época o maior produtor de açúcar do mundo, teve consequências na produção açucareira do Brasil, atuando como um catalisador para o seu crescimento. O vácuo deixado pelo Haiti permitiu que o açúcar brasileiro supervalorizasse no mercado internacional.

- Quanto aos fatores institucionais, ah, esses são os maiores males deste País:

d.1) A Corrupção - É o mais importante fator institucional que impede um desenvolvimento socioeconômico em nosso País. E começou já no Brasil-Colônia: Pero Borges, que havia sido condenado em Portugal por ladroagem, foi nomeado como Ouvidor-Geral do Brasil, em 1549. Os escândalos do INSS e do Banco Master, atuais, comprovam esta tese. Somos um País de Corruptos, essencialmente, os políticos.

d.2) A Incompetência Político-Administrativa - Essa também é uma praga que sempre contaminou a administração pública no Brasil. Vou citar alguns fatos que demonstram esta tese. O primeiro plano de industrialização do Brasil, o do Presidente Juscelino Kubitschek, criou a indústria automobilística brasileira, mas cometeu erro terrível ao determinar que o nosso sistema de transporte de carga se desse via rodoviária. Outro plano de desenvolvimento, desta vez em relação ao Nordeste, foi o Plano da Sudene. Em Monografia de 1978, "Desenvolvimento do Nordeste e Alternativas" (1º lugar em Prêmio do BNB), demonstrei que o Plano de Desenvolvimento da Sudene para o Nordeste embutia alguns erros crassos: uns na concepção; outros na execução.

Dado o caráter teórico das demonstrações não cabe aqui repeti-las.

(*) Economista e professor titular aposentado da UFC,

Fonte: O Povo, de 31/05/26. Opinião. p.18.


sexta-feira, 26 de junho de 2026

FOLCLORE POLÍTICO: Porandubas 869

Abro com o repeteco de uma historinha. Sempre solicitada por alguns dos meus leitores.

Levo ou não?

A historinha é conhecida e, por ser muito boa, merece um repeteco.

Rui Barbosa, o Águia de Haia, chegava em casa, à noitinha, quando ouviu um barulho vindo do quintal. Chegando lá, viu um ladrão tentando levar seus patos de criação. Aproximou-se vagarosamente do indivíduo e, surpreendendo-o, ao tentar pular o muro com seus amados patos, passou-lhe um pito:

- Oh, bucéfalo anacrônico! Não o interpelo pelo valor intrínseco dos bípedes palmípedes, mas sim pelo ato vil e sorrateiro de profanares o recôndito da minha habitação, levando meus ovíparos à sorrelfa e à socapa. Se fazes isso por necessidade, transijo; mas se é para zombares de minha elevada prosopopeia de cidadão digno e honrado, dar-te-ei com minha bengala fosfórica bem no alto da sua sinagoga, e o farei com tal ímpeto que te reduzirei à quinquagésima potência que o vulgo denomina nada.

E o ladrão, perplexo e confuso, com um fio de voz, perguntou:

- Doutor, eu levo ou deixo os patos?

Fonte: Gaudêncio Torquato (GT Marketing Comunicação).

https://www.migalhas.com.br/coluna/porandubas-politicas/420579/porandubas-n-869


sexta-feira, 12 de junho de 2026

FOLCLORE POLÍTICO: Porandubas 868

A prisão... suavemente...

José Maria Alkmin, o matreiro mineiro, foi advogado de um crime bárbaro. No júri, conseguiu oito anos para o réu. Recorreu. Novo júri, 30 anos. O réu ficou desesperado:

- A culpa foi do senhor, dr. Alkmin. Eu pedi para não recorrer. Agora vou passar 30 anos na cadeia.

- Calma, meu filho, não é bem assim. Nada é como a gente pensa da primeira vez. Primeiro, não são 30, são 15. Se você se comportar bem, cumpre só 15. Depois, esses 15 são feitos de dias e noites. Quando a gente está dormindo tanto faz estar solto como preso. Então, não são 15 anos, são 7 e meio. E, por último, meu filho, você não vai cumprir esses 7 anos e meio de uma vez só. Vai ser dia a dia, dia a dia. Suavemente.

(Sebastião Nery conta a historinha).

Fonte: Gaudêncio Torquato (GT Marketing Comunicação).

https://www.migalhas.com.br/coluna/porandubas-politicas/420140/porandubas-n-868

segunda-feira, 25 de maio de 2026

A EDUCAÇÃO SEM ESCOLA POLÍTICA

Por Raimundo Padilha (*)

No ensino superior quando foi quebrado o sistema seriado, substituído pela oferta por disciplina, se deu uma ruptura na educação política. No sistema seriado as turmas fechadas com seus 40 ou 50 alunos, facilmente eram identificados os seus líderes e com eles formados os seus Centros Acadêmicos, uma excelente escola de formação política. As suas lideranças se revelavam e eram facilmente identificadas.

Desta estrutura foram forjados líderes, que posteriormente foram atraídos para a militância político partidária levando valores que passaram a ocupar os parlamentos municipais, estaduais e federais. O nível médio dos parlamentares era bem mais elevado do que os atuais, tendo como consequência um debate de conteúdo e um maior e melhor nível de projetos.

O pensamento deles era voltado para a sociedade, ao contrário do que predomina hoje, que são voltados para os interesses pessoais dos próprios políticos, tendo como exemplo o absurdo de emendas parlamentares. A maioria dos eleitores não sabe em quem votou e a comunicação dos parlamentares com o eleitorado se dá predominantemente no período eleitoral à caça de votos para suas eleições e/ou reeleições. As casas legislativas não são avaliadas pelos seus eleitores, tendo como consequência mandatos sucessivos, quase que se transformando num emprego vitalício. E ainda há, o chamado "baixo clero", que vegeta e dorme em todo o seu mandato. É muito triste e pobre, o nosso parlamento, respeitadas as raríssimas exceções. Precisamos de muitas reformas e quem tem coragem de propor, se a nossa política é da conveniência pessoal? Está cômodo para eles e o povão que se lasque.

Foi apagado o processo de formação de líderes e ninguém contesta o fechamento da antiga escola política, nem alunos, nem professores. É como se estivéssemos no estado da arte, embora, com um parlamento fraco e sem visão de futuro. E onde está o MEC, que não enxerga o mal causado pelo período militar e que ainda persiste? Por conveniência, miopia ou frouxidão, nesta área, nada ou quase nada se faz no nosso país, a superficialidade é o que predomina.

Quando estudante do curso ginasial, hoje ensino fundamental participei ativamente dos Grêmios Literários. Eram verdadeiras escolas de formação política, havendo inclusive eleições bastante disputadas. Nos grêmios se praticava o exercício da oratória, de artes cênicas, dentre outras manifestações culturais. Isto era a base da formação de um caldo de cultura que tinha prosseguimento no período universitário, para aqueles vocacionados, sendo um caminho aberto para as atividades político partidárias. Daí o contraste entre os políticos de ontem e de hoje.

(*) Economista, professor aposentado da UFC e membro da Academia Cearense de Economia.

Fonte: O Povo, de 15/04/26. Opinião. p.21.


sexta-feira, 22 de maio de 2026

FOLCLORE POLÍTICO: Porandubas 867

Abro a coluna com uma historinha de Tancredo Neves, que mostra a índole matreira do grande político das Minas Gerais.

Um disfarçado sorriso

No segundo semestre de 1984, como chefe do Departamento de Jornalismo da Faculdade de Comunicação Cásper Líbero, coordenei um debate com os presidenciáveis Tancredo Neves e Paulo Maluf. Eram candidatos à presidência em eleição indireta, que ocorreria em 15 de janeiro de 1985, quando Tancredo venceu Maluf com 480 contra 180 votos e 26 abstenções. Salão nobre do Teatro Gazeta, enorme, lotado. Tancredo veio primeiro. Aplaudido de pé após um debate que terminou por volta de 23h. Por sugestão do banqueiro e ex-prefeito de São Paulo, Olavo Setúbal, fomos (pequeno grupo de professores) jantar com ele no elegante restaurante-pub de Geraldo Alonso, o famoso publicitário, o Santo Colomba, na rua Padre João Manoel. Sentei-me ao lado dele. Puxei conversa. Falamos de política. "Gaudêncio, de onde você é?", indagou. Observara o sotaque. Respondi: "Sou do RN". A conversa girou então sobre Dinarte Mariz, Aluízio Alves, Djalma Marinho, os Rosados etc. O vinho bom descia suave. De repente, no meio de animado papo, Tancredo fecha os olhos e abre um leve bocejo. Nem houve aviso prévio. Fiquei preocupado. Será que a conversa está chata? Setúbal, sentado na nossa frente, com sua voz de barítono, pisca o olho e avisa, sabendo que ele iria ouvir:

- Professor, não se incomode. É assim mesmo. Quando ele quer ir embora, não fala. Simplesmente, inventa que está dormindo.

Mas era visível seu cansaço. Olhei de leve para nosso ex-primeiro-ministro e confesso ter observado um disfarçado sorriso nos lábios. Setúbal pagou a conta e saímos. Felizes por termos participado de um histórico encontro com a matreirice mineira.

Mais uma de Tancredo.

Conchavo

Premido pelos casuísmos, Tancredo Neves foi obrigado a fundir o seu PP com o MDB de Itamar. Alguns pepistas pularam do barco e protestaram alegando conchavo. Tancredo foi curto e seco: "Conchavo é a identificação de ideias divergentes formando ideias convergentes." Tinha razão. Muitas curvas desembocam em retas.

Fonte: Gaudêncio Torquato (GT Marketing Comunicação).

https://www.migalhas.com.br/coluna/porandubas-politicas/419809/porandubas-n-867


 

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