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quarta-feira, 19 de novembro de 2025

SEBO DO GERALDO

Por Pedro Salgueiro (*)

A frase marcante da autobiografia "De amor e trevas", do israelense Amós Oz, me remete sempre aos "sebos" de velhos livros: "Quando eu era pequeno, queria ser um livro quando crescesse. Não escritor de livros, livro mesmo. Gente se pode matar como formigas. Escritores também não são tão difíceis de matar.

Mas livros, mesmo se os destruirmos metodicamente, sempre há chance de sobrar algum, nem que seja apenas um exemplar, a continuar sua vida de prateleira, eterna, discreta e silenciosa em uma estante esquecida de alguma biblioteca remota". Sebos que frequentei pela vida inteira; pois os sebos, a despeito de parecerem "cemitérios de livros", ou "museus de livros", são na verdade "maternidade de livros", pois se não nascem nesses ambientes geralmente caóticos, renascem, voltam para a vida.

Já vi amigo escritor dar chilique por ter encontrado livro seu, devidamente autografado, na prateleira de um sebo, o que nunca entendi, porque fico numa felicidade sincera, pois sei que ali ele começará vida nova, eterna feito Sísifo, nesse vai-e-volta contínuo que as obras fazem entre as ditas livrarias e os sebos.

Para fortalecer meu argumento ao vaidoso amigo escrevinhador, sustento que finalmente o livro dele se tornou um "clássico", e que meu próximo lançamento se dará diretamente numa dessas "maternidades de livros", para encurtar o caminho que ele naturalmente fará.

Um desses templos sagrados dedicados aos livros, que frequento há mais de duas décadas, funciona numa casa verde forte na rua 24 de Maio, em pleno Centro de Fortaleza, numa área aparentemente inóspita às "coisas da cultura", de comércios variados, desde bares e restaurantes frequentados por trabalhadores da região a lojas de ventiladores, paradas de ônibus e consertos vários.

Quem entrava na porta larga era recebido pelo sorriso cativante do senhor Geraldo, que acompanhado pela sua fiel escudeira, a cunhada e funcionária Estela, deixava o freguês à vontade para se perder nos muitos corredores entulhados de livros, numa aparente desorganização que assusta; digo aparente porque quem ia (vai) conhecendo descobre que existe uma ótima organização no meio do caos: cada assunto na sua vereda, cada livro na sua estrada, nesse imenso sertão de livros.

Apesar da amizade longa com o proprietário, de já o considerar um amigo próximo, nunca troquei uma palavra sobre livros com ele, que seu Geraldo era de outra natureza, dos homens da vida e que adorava falar sobre a vida; queria vê-lo feliz perguntasse sobre como ele começou essa longa aventura com os livros, ele marejava os olhos contando que "comecei mesmo foi na pedra, os livros poucos e espalhados na calçada, era ali perto dos correios, depois da Praça do Ferreira", daí invariavelmente descambava a falar das coisas que passava na época, onde guardava os parcos exemplares, até conseguir comprar uma banca de revista, onde passou a funcionar.

Nesse tempo todo de rápidas e entrecortadas conversas atrapalhada por fregueses, fiquei sabendo não só dos livros e sua vigem longa da "pedra" até aquela loja grande abarrotada de revistas, discos e principalmente de livros, mas de detalhes de suas sofrida mas gostosa vida de negociante de papel.

Precisaria não de uma crônica, porém de um livro inteiro para falar dessa aventura quixotesca do seu Geraldo, vida simples apesar do êxito (sempre foi o mais lembrado para reportagens e entrevistas sobre o assunto dos jornais e TVs, vez em quando estudantes iam lá para ouvi-lo), tão simples que um dia como hoje, sexta-feira, ele estaria sentado em seu velho birô com uma gaveta cheia de moedas, distribuindo-as para uma fila de velhinhos que desde cedo rondavam sua calçada.

Quando eu chegava, nessa ocasião das sextas, invariavelmente perguntava: "Geraldo, tá bom de aumentar essa cota para 5 reais!", no que ele abria um sorriso largo e respondia: "Tá querendo me quebrar!?", e desatava a contar quando fez essa promessa das moedinhas da sexta-feira.

Não tive coragem de ir ao seu velório e enterro, nem de voltar ao velho sebo da 24 de Maio, mesmo sabendo que só tenho boas lembranças de lá, mesmo sabendo que sua viúva Albaniza, seu filho Janderson e sua cunhada Estela levarão adiante essa aventura sem fim de vender sonhos.

(*) Cronista e articulista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 17/10/25. Vida & Arte, p.2.

terça-feira, 18 de abril de 2023

LIVRARIA CULTURA, VÍTIMA OU ALGOZ?

Por Raymundo Netto (*)

A falência da Livraria Cultura, decerto, não seria uma surpresa. Digo "seria", pois após intensa choradeira, este mês, ela foi (por ora) suspensa. De todo modo, desde setembro de 2021, quando fechou as portas da sede do RioMar Fortaleza, ela não fazia mais parte do corpo da cidade. A Saraiva segue o mesmo caminho. Não demora e ouviremos os mesmos suspiros e lamentos de uma outra história, que é a mesma, e é só.

Por outro lado, há outras histórias tristes, tristíssimas, que poucos conhecem (ou lembram). Antes da chegada das megalivrarias, existiam outras, as "de bairro" ou "de rua", com seus nichos e públicos acolhidos que se reconheciam nelas. Contudo, o apelo comercial (leia-se marketing pesado), os cafés, o glamour e a imensa diversidade de títulos e produtos outros, acrescidos ao fascínio do fortalezense pela novidade, as esvaziaram, de forma que elas também cerraram as suas portas. No entanto, os lamentos ouvidos não deixaram o mercado nervoso.

Enquanto isso, as mega prosperavam, cobravam 50% do valor de capa dos livros que vendiam, botavam banca para receber livros e pressa nenhuma em prestar contas dessas vendas às editoras, e isto quando as faziam, além de não ter compromisso algum em disponibilizar espaço para os(as) autores(as) locais, o que seria uma simpática e justificada iniciativa. Ou seja, pousaram na cidade como discos voadores repletos de luzes coloridas, abduziram os clientes das modestas livrarias, acabando com a concorrência, não ofereciam vantagens para as editoras e escritores locais, e o resultado hoje é uma dívida enorme, inclusive com diversas editoras – é possível que tenham quebrado algumas também –, além de ter deixado, como pragas, uma cidade árida de livrarias.

Aliás, sabia que no século XIX tínhamos em Fortaleza mais livrarias do que temos hoje? Advirto: nada disso tem a ver com a discussão cansada de que "ninguém mais lê" ou que "o livro físico vai acabar" e o sucesso – que não aconteceu – das vendas de e-books. Claro, falar em mercado editorial é tão mais complexo quanto discutir se a fruta do pecado é a maçã inglesa ou a aramaica manga. Todas as cadeias desse negócio estão se rebolando para encontrar estratégias e alternativas de sobrevivência. Insumos caros, economia péssima e um apoio governamental de sobrar espaço no pires.

Para piorar, a pirataria tecnológica, que transforma tudo que é belo em PDF, está à solta nas mãos de qualquer leitor proficiente em smartphones e as lojas virtuais das grandes editoras concorrem com essas livrarias a insistir em abrir as portas para visitas, hoje, muito parecidas como as de museus. 

(*) Jornalista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 14/03/23. Crônica, p.16.

terça-feira, 22 de novembro de 2022

O LIVRO E A LEITURA NO CEARÁ

Por Casemiro Campos (*)

O incentivo à leitura é fundamental para que o livro se realize como produto cultural. O setor da economia criativa, diga-se a economia do livro, precisa do incentivo da sociedade que agrega a aquisição do livro como bem individual, em que o indivíduo descobre um título e o compra para o seu consumo, mas é importantíssimo que se viabilizem propostas políticas que promovam o livro, a leitura e a literatura de forma coletiva.

Para que isso se torne realidade é fundamental que os governos, federal, estadual e municipal tenham o compromisso de investir em projetos e programas que valorizem editoras, escritores, autores, poetas, cordelistas... ilustradores, designers, livreiros... posto que a cadeia produtiva do livro precisa na sua realização, que o livro possa chegar em todos os lugares e para aqueles cidadãos que tem mais dificuldades possam ter acesso ao livro e daí a leitura.

No Ceará, estado e os municípios têm a responsabilidade em incentivar políticas culturais com o aumento dos recursos, instituir programas de compra de livros para a atualização dos acervos das bibliotecas, particularmente, com obras de autores cearenses. É urgente a revitalização das bibliotecas públicas municipais e das bibliotecas escolares.

O conceito de biblioteca foi profundamente alterado nas últimas décadas. Veja a Biblioteca Pública Estadual do Ceará - BECE, um equipamento cultural revitalizado, do maior significado para a cadeia produtiva do livro, leitura, literatura e bibliotecas.

Produzimos uma literatura da melhor qualidade. Temos autores premiados, livros de referência nacional e internacional, porém, nos falta fortalecer o que aqui fazemos. A Industria gráfica do nosso estado tem qualificado a produção no mais alto nível da impressão do livro. O que aqui fazemos pode ser equiparado ao que se realiza em qualquer grande centro cultural. É preciso o compromisso de todos os agentes que estão envolvidos e fazem a cultura e a educação, seja no setor público, seja no setor privado em nosso estado, selar um pacto pela valorização do livro, leitura, literatura e bibliotecas. 

(*) Professor, doutor em educação e presidente da Câmra Cearense do Livro.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 2/11/22. Opinião, p.20.

quarta-feira, 15 de junho de 2022

O LIVREIRO GABRIEL

Por Rosemberg Cariry (*)

Tive a honra de visitar o livreiro Gabriel José da Costa, recentemente. Nos seus 90 anos de idade, ali estava ele, em boa forma e vigorosa prosa, recebendo correspondências e embalando livros de várias partes do mundo, para enviá-los, à sua custa, a bibliotecas públicas.

A história de Gabriel é feita de lutas humanitárias e amor aos livros. Ainda jovem, organizava pequenas bibliotecas e creches, em comunidades rurais e na periferia pobre de Recife (década de 1950/60), como militante de esquerda. Visitou e estudou em outros países (o pai era dono de navios mercantes).

Por conta das perseguições políticas, no tempo da ditadura militar, que apreendeu a sua biblioteca de mais de 30 mil volumes, Gabriel deixou Pernambuco e chegou a Fortaleza, onde abriu a sua "Livraria Gabriel". Embora pequena, foi, pouco a pouco, sendo o ponto de encontro de escritores e intelectuais.

Os livros, difíceis de se conseguir no mercado, chegavam por encomendas diretas de Gabriel, por intermédio de editoras de vários países da Europa, América Latina e África, com imensos riscos para a sua segurança. Era assim que tínhamos acesso a muitas artes e pensares que fervilhavam no mundo.

A Livraria Gabriel, também editora, ajudou na publicação de livros, jornais e revistas, como Nação Cariri, animando alguns movimentos literários e sociais do Ceará, entre a década de 1970 e os anos 1980, quando o país vivia o processo de redemocratização e esperançava maior justiça social. Acredito mesmo que Gabriel gastou boa parte da fortuna que herdou do seu pai distribuindo livros e ajudando escritores e artistas.

Depois, a Unifor o recebeu com a sua livraria, e ali ele continuou sendo um mecenas, querido dos estudantes e, também, um grande protetor dos gatos. Gabriel virou mesmo uma referência naquele campus, de onde se afastou por conta da covid 19. Se a história da vida de Gabriel, com suas viagens e aventuras, amores e lutas, dá um bom filme ou romance, registre-se que ele também tem as suas próprias incursões literárias, reunidas pelo filho, Gustavo Costa, no livro "Escritos", em e-book disponível na Amazon. Para a minha geração, que com ele tanto conviveu, ele continua sendo uma pessoa admirável.

(*) Cineasta.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 1/06/22. Opinião, p.18.

quinta-feira, 11 de novembro de 2021

FORTALEZA, um cemitério de livrarias

Por Juliana Diniz (*)

É sempre motivo de melancolia quando uma livraria anuncia que não resistiu ao estado da economia e, por isso, fechará as portas, como aconteceu nos últimos dias com a Livraria Cultura em Fortaleza. Quando uma livraria se vai, é uma comunidade que se despedaça, porque toda loja de vender livros é antes de tudo um ponto de encontro para seus leitores.

Digo isso porque meu luto pela Livraria Cultura foi vivido há mais tempo, quando a empresa encerrou as atividades em sua unidade de origem. Era um espaço enorme, com um pé direito generoso de onde pendia uma escultura de madeira em caracol. Aos pés do grande bicho, almofadas coloridas demarcavam a área das crianças, sempre ruidosa e povoada, estrategicamente posicionada ao lado dos livros de autoajuda, ciências ocultas e misticismo.

A livraria era um lugar acolhedor. Abrigava um bom auditório, onde muitos eventos culturais aconteceram confortavelmente. Suas prateleiras de madeira eram bem iluminadas e podia-se encontrar com relativa facilidade as sessões dos livros. Quem se serve com frequência deles sabe que é imperdoável a iniciativa de transformar prateleiras em sessões itinerantes que mudam sem anúncio.

Podia-se trabalhar por horas no seu café sem ser incomodado. Escrevi ali boa parte do romance que publiquei há alguns anos, pontual como tantos dos frequentadores vespertinos da livraria. A valiosa mesa de fundo era o lugar cativo de uma muito distinta confraria de acadêmicos que se reunia religiosamente tão logo o sol começasse a amansar.

Numa tarde de sorte, era possível trocar cumprimentos gentis com o professor Filomeno Moraes ou simplesmente reparar nos movimentos elegantes do bibliófilo Lúcio Alcântara e do sociólogo e professor Agamenon Bezerra. Era um prazer reparar de longe a cumplicidade antiga daquele grupo, tomando nota das suas sutilezas e me inspirando em sua dignidade.

Aquele abrigo de todos nós se foi, sem piedade, quando migrou para um shopping a fim de vender mais, despejando-nos. A nova loja abriu com muito alarde, anunciada como obra de arquitetos excepcionais.

Era iluminada por refletores multicoloridos que mudavam de cor e temperatura a cada segundo, tornando penosa a tarefa de ler uma página que fosse. Uma visita podia valer uma crise de labirintite ou de ansiedade, e devo ter ido uma dezena de vezes, vagando como alma penada à cata das sessões de livros organizadas por uma lógica insondável.

Um ar condicionado glacial gelava o mar de petróleo exibido em um telão afixado no alto, onde uma baleia solitária saltava de vez em quando. Houve dias em que, olhando para o poço sem fundo de espelhos instalado do centro da loja, me senti mais solitária e condenada que aquela baleia de pixels, caindo eternamente, sem um país das maravilhas para me esperar do outro lado.

A loja, por pior que fosse, se foi como tantas outras livrarias destinadas a definhar numa cidade pouco gentil, hostil à calma, à cultura e às rotinas constantes que pede a leitura dos livros. Uma cidade que ama o novo, o importado e o farsesco, insensível à sua memória e ao seu patrimônio, ignorante de seu passado, sem imagem clara de si que possa projetar para o futuro. 

(*) Doutora em Direito. Professora da UFC.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 9/10/21. Opinião, p.16.


 

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