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segunda-feira, 9 de março de 2026

Uma casa para o Plebeu

Por Izabel Gurgel (*)

O Plebeu Gabinete de Leitura é a biblioteca que a leitora Adelaide Gonçalves vem construindo ao longo de uma vida cheia de vidas.

O amor aos livros e à leitura é um modo singularmente alegre de estar no mundo. Aprendizado iniciado na infância com a mãe, o pai e professores, no interior do Ceará. Torna-se pesquisadora a menina auxiliar de biblioteca na escola em Tauá, no sertão dos Inhamuns.

Professora de História da Universidade Federal do Ceará (UFC), nossa Adelaide imensidão fez do Plebeu, de vários modos, um nascedouro de livros. Com gente amiga e colaboradores, o Plebeu faz e acontece, publica, tem banca itinerante e um sebo do qual podemos fruir todo segundo sábado do mês no Centro Frei Humberto, no bairro São João do Tauape, em Fortaleza, quando da Feira da Reforma Agrária (dia 7 de fevereiro, a próxima edição da feira). O MST também é doido por livro e leitura.

Jardim das veredas que se bifurcam, o Plebeu não para de dar cria. Aqui, mais uma estante nova, bem sortida, sobre a história do livro e da leitura. Ali, mesas com tu-do (tudo mesmo!) de um autor, o que fez o tradutor de Garcia Márquez para a língua portuguesa, escritor Eric Nepomuceno, dizer "Nem eu tenho todas as edições dos meus livros" quando da visita ao gabinete de leitura.

O mobiliário do Plebeu, ele próprio, conta o contínuo (re)desenhar de nossas casas e espaços públicos. Velhos gaveteiros e ficheiros encontram um bom destino lá. Cristaleiras, escrivaninhas e birôs, carteiras escolares, mesas, bancos e cadeiras de lugares e feituras tão diferentes nos ensinam o co-habitar, a incidência dos passados, a sábia acumulação, a desejada sedimentação em nome da fertilidade da terra, na Terra. O Plebeu é um sim à vida.

Adelaide segue ampliando a biblioteca que sempre teve uso para além do privado, pessoal. Na casa da professora, foi partilhada por estudantes, aprendizes e mestres do pesquisar, criaturas leitoras que receberam delas (biblioteca e Adelaide) sombra e água fresca para florescerem.

Em 2012, Adelaide tornou a biblioteca de casa mais social ao levá-la para o Centro de Fortaleza. Surge o Plebeu Gabinete de Leitura. Tem imagens lindas das duas primeiras sedes, ambas no edifício-sede da Associação Cearense de Imprensa.

Encaixotado, o Plebeu está mais perto de ter uma morada pra gente chamar de nossa. Uma legião cultivada pela Adelaide conspira para realizar o sonho, brasileiríssimo, que pulsa no coração da gente trabalhadora do país tão rico quanto desigual, o da casa própria.

Vai ser a rua mais bonita da cidade. Biblioteca é canteiro, jardim de calçada, pomar e horta, parque, mata, floresta. Enrama feito melão-de-são-caetano. Só existe se enlaça, entrelaça, tece, feito renda, bordado.

Quer saber mais? @plebeulivros no Instagram.

"Uma casa para o Plebeu".

Bora?

(*) Jornalista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 1/02/26. Vida & Arte, p.2.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

PARTILHANDO UMA REFLEXÃO

Por Pedro Bezerra de Araújo – Pierre Nadie (*)

Ler é uma conquista da civilização, nos seus pródromos, alçada ao poder e dirigida ao domínio dos senhorios, ainda hoje sem o alcance de muitas populações, instrumento tanto de sanas informações, como de manipulação de mentes e espíritos.

Ler conjuga-se com o escrever, sem o que não há o que se ler.

Rochas, pergaminhos e monumentos trazem a maneira de expressão de suas gentes, de seus costumes, de suas guerras, de suas conquistas.

Aprender a ler suas memórias traz-nos experiências, as mais diversas e disparatadas, de concepções de vida, desde o tempo das cavernas.

Todavia, não basta saber ler, é preciso saber compreender, palmilhando a história, na sua real origem, cujos rastros não se podem apagar: pode-se destorcer fatos ocorridos, prendendo-os numa visão parcial, totalmente subjetiva e ideológica ou dar-se conta de boas lições para veredas e ou caminhos de nossa jornada.

Há os que se fazem cegos e outros, 'imunes cognitivos', não conseguem ver um palmo à frente do nariz, tampouco fazer uma crítica isenta dos passos da humanidade, suas consequências e suas "sequelas". Nesse caso, não cabe a exortação, referente ao historiador Heródoto de que ‘a história é mestra da vida’.

O bom entendedor não nasce, faz-se, aprendendo a ver, a ouvir e escutar a realidade da miséria e da riqueza, da manipulação e da alienação, da escravidão e da liberdade, do desenvolvimento e da estagnação, do genocídio e do bem-estar dos povos, considerando, imparcialmente, avanços, excessos, limites e frustrações.

E, assim, a história continua 'mestra da vida' para quem a vida mostra a história real: erros para não se repetirem, novas limitações surgirem e a humanidade prosseguindo na sua ânsia de liberdade, de felicidade e de amor, diante de desafios novos e velhos.

E nada melhor do que refletir sobre esse anexim, sempre tão real: 'In medio virtus'. Ou seja, nas diferenças e diversidades dos séculos, o caminho mais sensato é o meio da estrada, sem tombar para nenhum lado, mas, enriquecendo-se de suas lições.

A história revive nas leituras dos acontecimentos, narrados na inteireza dos fatos já ocorrido. Sua memória oportuniza-nos novos horizontes ou embrenha-nos em situações mais incômodas, insalubres e, até mesmo macabras, se não sabemos lê-la ou a vemos com vieses suspeitos.

Somos construtores de nosso bem-estar ou de nossa escravidão.

A alienação é o outro lado da medalha da vida, lado sombrio e aterrador. A manipulação, a única linguagem do ditador.

É, nesses casos, que a leitura mergulha no caos, onde tanto faz mentira quanto verdade, não se sabendo mais o que é certo e o que é errado.

Desaparece história, vêm narrativas.

Culpa não cabe aos olhos, senão à mente que os decifra.

Tenhamos uma boa segunda-feira,  com as bênçãos de Deus!!!

(*) Pediatra e professor da Uece aposentado. Enviado por WhatsApp em 19/01/26.


terça-feira, 8 de julho de 2025

O GOSTO DA LEITURA

Por Izabel Gurgel (*)

Tem pé-de-moleque da padaria Globo, que fica em uma das esquinas das ruas Padre Mororó e Pedro Pereira. Bom para levar inteiro.

Ainda no Centro de Fortaleza, teria a bolacha de massa folhada, feita nas grandes formas retangulares de madeira da padaria Ideal, na Praça da Lagoinha. Fechou.

Tem mais pé-de-moleque, o da Pão e Pães, a padaria das libanesas na Pereira Filgueiras, a rua que nasce, ou finda, quase no Pajeú passando no Paço Municipal.

Que seja aberto à fruição pública o Paço Municipal, jardim-pomar com anfiteatro e uma cacimba coberta de acústica de excelência. Teatro Máquina fez ali, intérpretes de patins deslizando na coberta sobre as águas, uma sessão de Leonce & Lena.

Gerson Augusto de Oliveira Jr. autografou lá, em 2006, meu exemplar de "Torém, brincadeira dos índios velhos", dissertação de mestrado contemplada com o Prêmio Sílvio Romero, de 1997, do Ministério da Cultura, Fundação Nacional das Artes (Funarte) e Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular.

De volta à Pão e Pães, que encerra atividades no último dia útil de junho. Bolo de grude e bolo de goma do Piauí, apresentado também como rosca de queijo. Será que as irmãs libanesas deixam a receita pra gente?

No Nossa Senhora das Graças tem O Boleiro. Pelo cheiro de bolo no forno, você pode morder o fiteiro. É o vale tudo do bem quente. O com abacaxi, melhor esfriar um pouquinho.

Laranja com damasco. Bolo da Le Pain, Le Café da Professor Dias da Rocha. Já leu sobre a coleção dele no Museu do Ceará? Livro de bolso de Felipe Bottona da Silva Telles e Diva Maria Borges-Nojosa. Nhac.

Em Icó, na padaria Vale do Salgado, rosquinhas com açúcar e canela. E uns cafés com os livros dos arquitetos Clóvis Ramiro Jucá Neto (Icó e Aracati) e José Clewton do Nascimento (Icó e Sobral). Em Sobral, pêtas da região. Em Aracati, canjirão do Fortim, com cheiro de fogo de lenha. Tem no mercado.

Faz-de-conta que deu a hora de uma comida mais fornida. Paçoca do Deca ou do Galinha Caipira, ainda em Icó. Paçoca da Lúcia, no restaurante que tem o nome dela, na estrada da Caponga, em Cascavel. Delícia: é proibido som de carro. Lúcia foi do Ravengar, restaurante de outrora nas mesmas áreas, com salão sob mangueiras de copas cheias e a mais esgarçada das carnes em paçoca de pilão.

Tem paçoca com cebola roxa, feita na capital, que levo de presente como se fosse fruta do pé. É a do Sabor da Picanha, na João Cordeiro com Santos Dumont. De abrir a quentinha na hora da entrega, desfrutar do cheiro e ouvir o coro de huuummm.

...

E você, anda lendo o que?

...

Nunca se produziu tanta comida quanto nos dias de hoje. É o mesmo mundo que mais produz gente com fome.

(*) Jornalista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 8/06/25. Vida & Arte, p.2.


quinta-feira, 5 de junho de 2025

TUDO QUE É SÓLIDO DESMANCHA NO AR

Por Cláudia Leitão (*)

O grande alento de um leitor é o de ter tempo para revisitar velhas leituras. Há alguns dias, Marshall Berman me seduziu a revisitá-lo. Durante um par de horas vaguei e naveguei, por meio das transfigurações do Fausto de Goethe, na tragédia do desenvolvimento moderno.

Desde as primeiras linhas do prefácio do seu "Tudo que é sólido desmancha no ar: a aventura da modernidade", Berman nos alerta sobre o fascínio do pertencimento a um "mundo moderno" nas suas diversas dimensões e possibilidades.

Há na modernidade um desejo fundador de mudança que nos (co)move, apesar de suas contradições. Acometidos da vertigem da autotransformação e da transformação do mundo em nosso redor, imaginamos sociedades seguras e organizações controladoras, mas o que experimentamos é a desintegração e a desorientação.

Impossível não perceber o grande paradoxo ou a triste ironia entre o INSS e a cidadania — organização e expressão modernas. Tudo o que é sólido desmancha no ar. Aposentadorias, medicamentos, moradias decentes, empregos, educação de qualidade, entre tantas outras promessas da Modernidade-Mundo, também desaparecem diante de nós. Afinal, a realidade é mesmo a maior das "fake-news". Rousseau, na sua obra "A nova Heloísa" traduz como ninguém a metáfora de Cartola de que "o mundo é um moinho".

O jovem camponês Saint-Preux reflete sobre sua nova vida na cidade em carta enviada para sua amada Julie: "Tudo é absurdo, mas nada é chocante, porque todos se acostumam a tudo... o bom, o mau, o belo, o feio, a verdade e a virtude têm uma existência apenas local e limitada".

Desde o século XVIII, parecemos estar perplexos com a vida moderna, ou melhor, com a (des)humanidade que a mesma aos poucos produziu. A moderna humanidade implodiu os ideais cristãos da integridade da alma e da aspiração à justiça e à verdade. Nietzsche se refere à "morte de Deus" para refletir sobre o niilismo do nosso tempo. O novo papa parece simbolizar o adiamento da implosão do Cristianismo. A esperança é mesmo a última que morre.

(*) Cientista Social. Professora da Uece. Diretora do Centro Internacional Celso Furtado para o Desenvolvimento.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 12/05/25. Opinião. p.20.


quinta-feira, 6 de março de 2025

MAIS LIVROS, MAIS LITERATURA

Por Irenísia Oliveira (*)

A última pesquisa "Retratos da leitura no Brasil", realizada pelo Instituto Pró-Livro (IPL), revelou que o Brasil perdeu 7 milhões de leitores nos últimos anos e que a escola é cada vez menos lugar de referência para a leitura, tendo sido mencionada apenas por 19% dos entrevistados.

O declínio acentuado vem desde 2015, coincidindo com o golpe neoliberal na presidenta Dilma e todos os retrocessos sociais que vieram na sua esteira. Leitura, portanto, depende do emprego, da renda do trabalhador, da inclusão educacional, de bons currículos escolares, de políticas públicas para a cultura, de tudo o que decaiu nos anos pós-golpe.

O fenômeno da Internet e das redes sociais pode ser apresentado como explicação imediata, mas o problema da concorrência com tecnologias emergentes não é novo para a leitura. Em tempos não tão distantes, a televisão, o cinema e antes o rádio foram vistos como ameaças e ela continuou tendo seu espaço.

A leitura é um requisito básico no mundo moderno. E estar fora da leitura é, em grande parte, um indício de se estar excluído desse mundo. Ademais, em tempos de desinformação, melhorar a leitura e a compreensão de textos pode nos livrar das piores armadilhas, sobretudo nas redes sociais. Verdade que também existe leitura que aliena e manipula e, para esta, a resposta deve ser a ampliação e a diversificação do universo de leitura disponível.

Mas, ao contrário disso, o tempo dedicado à literatura diminuiu nas escolas depois do Novo Ensino Médio, enquanto bibliotecas públicas e comunitárias são escassas e muitas vezes negligenciadas. Em relação à escola, não se trata apenas de aumentar as aulas de literatura, mas que estas se dediquem efetivamente à leitura e à discussão de romances, poesia, teatro, incluindo autores/as contemporâneos/as. As universidades públicas poderiam contribuir muito para isso se a formação continuada de docentes da rede pública não estivesse entregue a institutos privados.

Assim como a educação, a leitura depende de melhoria da vida social e requer novos currículos e práticas, mais tempo, espaço e livros disponíveis, desde a escola até a comunidade, o bairro e a cidade.

(*) Professora de Literatura da UFC e Presidente da ADUFC.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 12/02/25. Opinião. p.18.


quarta-feira, 26 de fevereiro de 2025

LEIA!

Por Patrícia Soares de Sá Cavalcante (*)

Não sei dizer, precisamente, quando me tornei uma leitora assídua; foi um processo gradual. Sempre tive uma capacidade imaginativa forte, mas, quando criança, frequentemente, dispersava-me durante a leitura, perdendo o fio da meada. No entanto, na maioria das vezes, minha distração transformava-se em devaneios originados das histórias que eu lia.

Quando comecei a fazer análise, há 15 anos, percebi uma semelhança entre a associação livre do pensamento — algo fundamental para que a análise ocorra — e o que acontecia em minha mente, quando eu estava com um livro nas mãos.

Tenho a impressão de que, à medida que fui compreendendo e elaborando essas associações, solidifiquei o hábito de ler e, mesmo quando me perdia nos devaneios, encontrava uma forma de me reencontrar.

Só tomei consciência dessa dinâmica, quando Marina, minha filha mais velha, era pequena. Ao ler para ela, encontrava trechos que despertavam minhas memórias, e novas histórias surgiam dentro da narrativa original, tornando-a mais rica e criativa. Ela, muito perspicaz, perguntava-me: "Mãe, essa parte está no livro?".

Minha primeira leitura do ano foi A invenção da solidão, de Paul Auster. Ele afirma que o livro é apenas um objeto inanimado até que alguém coloque os olhos nele. Cada leitor lê um livro diferente. Cada um fará sua própria leitura a partir de uma perspectiva única, e essa é a beleza da coisa. Considera também que o romance é o único lugar no mundo onde dois estranhos podem se conhecer intimamente.

Outro fato interessante é que podemos ler o mesmo livro em momentos diferentes de nossas vidas e o que captamos da obra pode ser distinto a cada leitura. Podemos nos surpreender com um "novo" livro.

Acredito, firmemente, no poder transformador da literatura. Muitas vezes, o que lemos é uma tradução do que sentimos, o que até então éramos incapazes de colocar em palavras. Passamos a compreender melhor nós mesmos, os outros e o mundo.

Eles estão aí: Machado de Assis, Proust, Dostoievski, Clarice Lispector, Lygia Fagundes Telles, Gabriel García Márquez, Fernando Pessoa, Graciliano Ramos, Tolstói, Saramago, entre tantos outros. Abra-os, dê-lhes vida, transforme-se.

(*) Médica psiquiatra.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 28/01/2025. Opinião. p.16.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2025

ABPC — Mais um exemplo de solidariedade

Por Vladimir Spinelli Chagas (*)

Em novembro de 2019 acompanhei o meu governador Gonzaga Mota em uma entrega de livros, programa de sua iniciativa para distribuir material de leitura abrangente, disseminando o seu PEC, "Partido da Educação e Cultura", como relatava.

Naquele dia, a entidade escolhida foi a Associação Beneficente Parque do Cocó (ABPC), com um trabalho social para o desenvolvimento de crianças e adolescentes da Comunidade do Trilho, em ações, programas e projetos no campo de educação, arte, cultura, geração de renda, saúde e assistência social.

A missão da ABPC, de prestar assistência espiritual, educativa e social àquelas crianças e adolescentes é mais uma demonstração positiva de que o trabalho abnegado em direção aos menos favorecidos encontra-se disseminado em muitos locais, como complemento às ações do poder público.

Para a ABPC, valores como justiça social, solidariedade, equidade, sustentabilidade e espiritualidade devem ser cultivados de forma participativa, com o objetivo de que as práticas educativas sejam de fato transformadoras.

Apoiar as atuais 85 crianças e adolescentes e suas famílias, em situação de vulnerabilidade, leva em conta a integração com a comunidade, na defesa das necessidades fundamentais garantidas pela legislação de amparo especial a essa parcela da população, dando-se ênfase ao acesso à educação e inclusão social.

São diversas as atividades, como oficinas de arte e leitura, esportes, informática, lazer, palestras e outras formas de integração, dentro de dois programas básicos. Um deles é de apoio ao desenvolvimento em família na comunidade, para o público de três a sete anos. O outro se destina às crianças de oito a dezesseis anos e tem o sugestivo nome de Sementes do Parque.

Inscrita no Programa Sua Nota tem Valor, como fonte de recursos para o desenvolvimento das ações, recebe apoio também de uma instituição religiosa e de padrinhos que, enxergando a nobreza do projeto, se sentem felizes em fazer parte de um trabalho social, pois a inclusão de uma família ou mesmo de uma única criança já é um passo grandioso de redução das nossas tão perversas desigualdades.

(*) Professor aposentado da Uece, membro da Academia Cearense de Administração (Acad) e conselheiro do CRA-CE. Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Fortaleza.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 2/12/24. Opinião. p.18.

terça-feira, 12 de novembro de 2024

ESPAÇO DA LEITURA PIO RODRIGUES NETO

Por Paulo Gurgel Carlos da Silva (*)

A leitura é um exercício que estimula a percepção e aguça a criatividade, e pensando nos benefícios que esta atividade pode proporcionar para as pessoas, a Secretaria do Meio Ambiente e Mudança do Clima (Sema), inaugurou, neste domingo (10/11/24), o Espaço da Leitura Pio Rodrigues Neto, no Parque Estadual do Cocó.

O local é uma homenagem ao ambientalista, empresário e membro do Conselho Gestor da Unidade de Conservação (UC) estadual, que em 2017, promoveu o plantio de 40 mil árvores nativas às margens do rio Cocó e em áreas específicas do Parque, em celebração aos 40 anos da C. Rolim Engenharia, empresa que Pio Rodrigues Neto à época dirigia. Ele também é celebrado por suas obras literárias e por seu compromisso com a preservação ambiental.

A cerimônia de inauguração contou com a presença da titular da Sema, Vilma Freire; do secretário executivo, Fernando Bezerra; do homenageado e seus familiares. Além de frequentadores do Parque e cidadãos engajados com a causa ambiental.

Durante a inauguração, o homenageado, que também possui o título de "Amigo do Cocó", fez um discurso emocionado. “Eu não tenho nenhuma dúvida que plantar árvores faz parte da minha missão e eu fico extremadamente feliz com esta honraria de ter meu nome preservado, aqui no parque, recebo isso com o coração cheio de gratidão, mas isso também me serve de forte incentivo para continuar trabalhando. Eu acho que é uma missão cidadã, é uma missão de um ser humano que entende um pouco essa necessidade do verde em Fortaleza”, declarou Pio Rodrigues Neto.

http://www.sema.ce.gov.br

Na segunda-feira (11/11/24), fui ao Parque do Cocó para conhecer esta iniciativa, tendo deixado para o acervo do Espaço de Leitura um exemplar do livro "Edição Êxtase", de minha autoria.

(*) Médico pneumologista, escritor e blogueiro.

Postado por Paulo Gurgel no Blog Linha do Tempo em 12/11/2024.

https://gurgel-carlos.blogspot.com/2024/11/espaco-da-leitura-pio-rodrigues-neto.html


quarta-feira, 12 de julho de 2023

O PRÍNCIPE DE OZ

Por Eduardo Jucá (*)

"O Pequeno Príncipe" de Saint-Exupéry, foi meu primeiro clássico, aos 8 anos. Antes que cheguem as pedras de quem coloca a obra em um patamar inferior, certifico que ela preenche os critérios de um clássico. Com inúmeros leitores ao redor do mundo, aborda temas universais como amor e amizade, com personagens memoráveis. Influenciou gerações, gerando filmes e perpetuando frases na cultura geral.

Com o amor pela literatura sendo central em minha vida introvertida e ao reconhecer o mesmo amor pelos livros em minha filha, surgiu a expectativa de que ela crescesse conhecendo o príncipe, a rosa e a raposa. Comprei uma edição especial, com ilustrações originais, o aguardado passaporte para sua introdução aos clássicos.

O presente foi dado com a cerimônia de quem transfere um tesouro. No entanto, para surpresa e decepção do pai, a empolgação dela ao receber não foi tão grande quanto a minha ao oferecer. O livro ficou fechado na mesa de cabeceira, lentamente migrando intocado para uma prateleira alta. Parecia que o sonho de ter uma companheira de leitura tinha acabado.

Com as esperanças já acinzentadas, a menina apareceu com "O Mágico de Oz" em suas mãos. Foi espontaneamente atraída a acompanhar Dorothy pela estrada de tijolos amarelos e ajudar o Espantalho em busca de um cérebro, o Leão em busca de coragem, e o Homem de Lata em busca de um coração. No caminho, reacendeu o encantamento do pai por essa obra fantástica de Frank Baum, que também é um clássico e continua abrindo as portas da literatura para tantos novos leitores.

Eu queria ensinar minha filha a ler os clássicos. Na verdade, foi ela quem me ensinou. Que não há um caminho único. Que não podemos controlar cada passo de nossos filhos, mas podemos nos encantar com os caminhos que eles escolhem e aprender com suas decisões, participar e crescer juntos. Que cada cérebro é único. E que o amor pela literatura pode nascer no Planeta B612 ou em Oz. E que o amor entre pai e filha pode florescer em qualquer página.

(*) Médico neurocirurgião pediátrico, professor, pesquisador e palestrante.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 4/06/2023. Opinião. p.19.

terça-feira, 22 de novembro de 2022

O LIVRO E A LEITURA NO CEARÁ

Por Casemiro Campos (*)

O incentivo à leitura é fundamental para que o livro se realize como produto cultural. O setor da economia criativa, diga-se a economia do livro, precisa do incentivo da sociedade que agrega a aquisição do livro como bem individual, em que o indivíduo descobre um título e o compra para o seu consumo, mas é importantíssimo que se viabilizem propostas políticas que promovam o livro, a leitura e a literatura de forma coletiva.

Para que isso se torne realidade é fundamental que os governos, federal, estadual e municipal tenham o compromisso de investir em projetos e programas que valorizem editoras, escritores, autores, poetas, cordelistas... ilustradores, designers, livreiros... posto que a cadeia produtiva do livro precisa na sua realização, que o livro possa chegar em todos os lugares e para aqueles cidadãos que tem mais dificuldades possam ter acesso ao livro e daí a leitura.

No Ceará, estado e os municípios têm a responsabilidade em incentivar políticas culturais com o aumento dos recursos, instituir programas de compra de livros para a atualização dos acervos das bibliotecas, particularmente, com obras de autores cearenses. É urgente a revitalização das bibliotecas públicas municipais e das bibliotecas escolares.

O conceito de biblioteca foi profundamente alterado nas últimas décadas. Veja a Biblioteca Pública Estadual do Ceará - BECE, um equipamento cultural revitalizado, do maior significado para a cadeia produtiva do livro, leitura, literatura e bibliotecas.

Produzimos uma literatura da melhor qualidade. Temos autores premiados, livros de referência nacional e internacional, porém, nos falta fortalecer o que aqui fazemos. A Industria gráfica do nosso estado tem qualificado a produção no mais alto nível da impressão do livro. O que aqui fazemos pode ser equiparado ao que se realiza em qualquer grande centro cultural. É preciso o compromisso de todos os agentes que estão envolvidos e fazem a cultura e a educação, seja no setor público, seja no setor privado em nosso estado, selar um pacto pela valorização do livro, leitura, literatura e bibliotecas. 

(*) Professor, doutor em educação e presidente da Câmra Cearense do Livro.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 2/11/22. Opinião, p.20.

segunda-feira, 10 de maio de 2021

O CORDEIRO E O LOBO

Por Luiz Gonzaga Fonseca Mota (*)

O rebanho de cordeiros era formado por animais pacíficos e diariamente todos eles pastavam num campo fértil onde não faltava alimentação e água pura. Um pouco distante, havia uma floresta muito bonita, com uma fauna diversificada e com muitas feras bravas e indóceis. Geralmente, quando os cordeiros estavam pastando, a alcateia - muitos lobos - ficava observando e esperando o momento certo para atacar e fazer algumas presas. Era difícil acontecer, pois existiam pastores armados e muitos cães ferozes a eles pertencentes. Como sempre, havia um cordeiro que na hora do sol quente, quando os demais iam repousar, ele ficava sob uma árvore lendo textos variados: romances, poesias, contos etc. Era um ovino extremamente inteligente e se dedicava, nos momentos possíveis, à leitura. Tinha certeza que mediante a leitura, poderia conseguir condições melhores de vida. Certo dia, não percebeu que o rebanho se afastou, de vez que estava concentrado nos livros, e então resolveu sem orientação dos pastores caminhar pelo pasto em busca de sua morada. Preocupado, mas com coragem, pois acabara de ler o poema “Navegar é Preciso” de Fernando Pessoa e lembrou-se, também do mesmo autor, da frase “Tudo vale a pena quando a alma não é pequena”. Com esse estímulo o cordeiro continuou sua caminhada. Ao passar por um rio de águas transparentes, mas revolto, observou no meio da correnteza um lobo se afogando e pedindo socorro. Implorava para que o ovino, chamando-o de amigo, o salvasse daquela cruel situação. O pacífico e inofensivo cordeiro pensou: vou salvá-lo no entanto colocarei minha vida em perigo. Ele vai me devorar. Todavia, a alma do cordeiro era grande, mesmo correndo sério risco. Concluída com muita dificuldade a operação de salvamento, o lobo olhou para o corajoso cordeiro e num gesto inesperado perguntou: que queres que eu faça por você? Não persiga nunca mais os meus irmãos cordeiros. Certo, disse o lobo. Agora lhe pedirei um outro favor: ensina-me a ler, uma vez que sua generosidade decorreu de suas leituras. Gostaria de ser correto e ter bom caráter como você. Moral da história: até os desalmados podem ter momentos de lucidez.

(*) Economista. Professor aposentado da UFC. Ex-governador do Ceará.

Fonte: Diário do Nordeste, Ideias. 23/4/2021.


 

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