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sexta-feira, 3 de abril de 2026

DO DESERTO À VIDA NOVA

Por Pe. Reginaldo Manzotti (*)

A Quaresma já caminha há alguns dias. Este tempo santo não é feito apenas de começos, mas de continuidade, porque talvez tenhamos feito, na Quarta-feira de Cinzas, propósitos que já foram colocados à prova. É exatamente aqui que a Quaresma revela sua verdade mais profunda: ela nos ensina a perseverar, a permanecer. Perseverar quando a oração parece árida. Perseverar quando mudar exige renúncia. Quando amar custa mais do que gostaríamos. Se em algum momento falhamos nos propósitos assumidos no início dessa caminhada, não devemos desanimar. Sempre é tempo de recomeçar. O Senhor é rico em misericórdia e não se cansa de nos oferecer novas oportunidades. Cada dia é um novo chamado à conversão.

Esse é um tempo oportuno para rever o caminho. Não com culpa, mas com sinceridade. Como está nossa oração? Temos reservado um espaço para Deus em meio às preocupações diárias? O jejum que escolhemos está nos tornando mais livres ou apenas mais rígidos? E a caridade, tem se traduzido em gestos concretos de atenção, escuta e partilha?

Estamos nos preparando para a Páscoa, para a vitória da vida sobre a morte, da luz sobre as trevas. Mas não chegaremos à alegria pascal sem antes atravessar o deserto.

Dentro deste itinerário, a Igreja celebrou, no dia 19, a solenidade de São José, esposo de Maria. Poderia parecer estranho uma festa tão solene em meio à sobriedade da Quaresma, mas São José é o modelo perfeito para este tempo. Ele foi um mestre silencioso da conversão diária, um homem justo que soube ouvir Deus no silêncio e obedecer com prontidão, mesmo quando não compreendia plenamente os caminhos que lhe eram propostos.

São José simboliza virtudes como a humildade, a obediência e a fé. Sua vida de entrega e serviço, especialmente ao cuidar de Maria e Jesus, reflete o espírito de sacrifício e dedicação são centrais na Quaresma.

Que este mês de março nos ajude a viver uma Quaresma mais profunda, menos apressada e mais verdadeira. Que não caminhemos movidos apenas por sentimentos, mas sustentados pela confiança em Deus. Que São José interceda por nós, para que saibamos perseverar neste tempo de graça, guardando no coração a esperança da Ressurreição.

(*) Fundador e presidente da Associação Evangelizar é Preciso e pároco reitor do Santuário Nossa Senhora de Guadalupe, em Curitiba (PR).

Fonte: O Povo, de 21/03/2026. Opinião. p.16.


quinta-feira, 17 de abril de 2025

QUARESMA: um tempo de transformação interior

Por Pe. Reginaldo Manzotti (*)

O mês de março é especialmente significativo para os católicos, pois marca o início de importante período litúrgico e a celebração de um dos mais queridos santos, São José.

Com a Quarta-feira de Cinzas iniciamos nossa caminhada de preparação espiritual para a Páscoa. Neste dia, somos convidados a refletir sobre a fragilidade da vida e a necessidade de nos voltarmos para Deus com humildade e arrependimento. As cinzas impostas em nossas frontes nos lembram que "somos pó e ao pó voltaremos", mas também nos impulsionam a buscar uma transformação interior.

A Quaresma é um tempo litúrgico, que nos convida a seguir o exemplo de Jesus durante seus 40 dias no deserto. Ao longo da Quaresma, somos chamados a intensificar nossas práticas de oração, jejum e caridade. Esse é um período propício para nos dedicarmos a uma profunda renovação espiritual, à reflexão sobre nossa relação com Deus e com o próximo, à renúncia de hábitos prejudiciais e ao fortalecimento de nossa fé.

A prática do jejum e da abstinência é recomendada, não só como um ato de penitência, mas também como um gesto de solidariedade com os menos favorecidos. Lembremos que Isaías critica duramente aqueles que jejuam apenas para mostrar sua religiosidade, mas continuam a oprimir os outros e a agir de maneira injusta. Segundo Isaías, o verdadeiro jejum não se limita à abstinência de alimentos; ele implica em combater a injustiça, libertar os oprimidos, compartilhar o pão com os famintos, oferecer abrigo aos desabrigados e vestir os que estão nus.

O profeta destaca que o jejum verdadeiro é uma prática de justiça e compaixão, que busca transformar a sociedade e aliviar o sofrimento dos necessitados. É um chamado para que a fé se traduza em ações concretas de amor e solidariedade (cf. Is 58, 6-7).

A caridade, a oração e a meditação sobre a Paixão de Cristo nos ajudam a nos preparar para a celebração da Páscoa, o ponto culminante de nossa fé cristã. Nesse período, somos chamados a intensificar nosso compromisso com a conversão pessoal e a busca por uma vida mais conforme o Evangelho.

Em março, também celebramos a festa de São José, esposo de Maria e pai adotivo de Jesus, no dia 19. São José é um modelo de virtude e uma figura inspiradora e emblemática dentro da tradição cristã. Conhecido como o esposo de Maria e o pai adotivo de Jesus, sua vida é um exemplo de humildade, fé e devoção.

São José era um carpinteiro simples, mas a grandeza de seu coração e espírito fez dele o guardião de Jesus Cristo e Maria. Ele foi escolhido para proteger e cuidar da Sagrada Família e, apesar dos desafios e incertezas, sempre demonstrou uma fé inabalável em Deus. Muitas vezes descrito como um homem justo, sempre buscando fazer o que era correto aos olhos de Deus. Mesmo diante de situações difíceis, como a fuga para o Egito, José sempre confiou nos planos divinos e obedeceu às orientações recebidas em sonhos.

Além disso, São José nos ensina o valor do trabalho digno e do cuidado com a família. Ele foi um homem de ação silenciosa, sempre presente, cumprindo sua missão de forma discreta, mas plena.

São José é o patrono da Igreja Universal, e é especialmente invocado pelos trabalhadores e pelas famílias. Em tempos de dificuldades, podemos recorrer a ele como intercessor, pedindo sua ajuda para fortalecer nossa fé, nossa vocação e nossos relacionamentos.

Que este mês de março seja um tempo de graça, onde possamos nos reconciliar com Deus, renovar nossa fé e nos preparar para celebrar a Páscoa com um coração puro e transformado, nos inspirando no exemplo de São José.

(*) Fundador e presidente da Associação Evangelizar é Preciso e pároco reitor do Santuário Nossa Senhora de Guadalupe, em Curitiba (PR).

Fonte: O Povo, de 22/03/2025. Opinião. p.16.


quinta-feira, 28 de março de 2024

JESUS DIANTE DE SUA MORTE

Por Pe. Eugênio Pacelli SJ (*)

Estamos nos aproximando da Semana Santa, quando celebramos o grande mistério e centro de nossa fé: Paixão, morte e ressurreição de Jesus.

Diante deste evento, percebe-se que para muitos a cruz de Cristo tem sido equivocadamente interpretada como indicativo do abandono puro e simples de Deus ao Filho. Inclusive, a deturpação da imagem de Deus, na qual este Deus é visto como entidade sádica e apática que precisa do sofrimento para apaziguar o ânimo para com a humanidade pecadora.

Para melhor compreender tal questão deveríamos nos perguntar qual o sentido que Jesus deu à sua morte. Os evangelhos apresentam a vida de Jesus entre dois polos significativos: Galileia e Jerusalém. A Galiléia faz referência à atividade missionaria de Jesus: O Anuncio do Reino acompanhado por sinais e milagres, provocando assombro e admiração (Mc 127-29; 4,41).

Jerusalém faz referência à realização dessa missão no centro político e religioso de Israel, tendo que passar pela entrega da Vida nas mãos das autoridades judaicas e romanas chegando à Morte da Cruz.

Os textos evangélicos deixam claro que Jesus não foi ingenuamente à morte. Ele a aceitou e assumiu livremente. Ele não a buscou. Esta lhe foi imposta por uma conjuntura que se criara. Certamente Jesus compreende sua morte à luz da tradição do martírio dos profetas.

Ele conhecia o destino de todos os profetas. Portanto, Jesus contou com a possibilidade da morte violenta no contexto da missão pelo Reino e sua relação com o Pai. Sua morte não foi alheia ao conteúdo de sua mensagem ou o sentido da missão. Sua morte foi consequência de sua vida coerente com a missão do Reino e a relação filial com o Pai.

Ele vive sua Paixão por Deus e pelos homens até padecer o sofrimento e a morte na cruz. Deus pessoalmente está envolvido na história da Paixão de Cristo, não como o " deus apático e sádico", provocador do sofrimento.

Na comunhão da Trindade o Pai se mostra solidário, próximo e unido ao Filho na plenitude do seu ser, isto é, do seu Amor. E a resposta do Pai à morte injusta do Filho será a Ressurreição. A Palavra última de Deus será sempre Vida, mesmo quando a morte parece prevalecer. Quem crê assim em Deus não silencia diante da morte, mas proclama sempre a vitória de Deus sobre o sofrimento, injustiça e morte. Pois: 'só um Deus que padece é capaz de se compadecer do sofrimento de seus filhos"

(*) Sacerdote jesuíta e mestre em Teologia. Escritor. Diretor do Mosteiro dos Jesuítas de Baturité e do Polo Santo Inácio. Fundador do Movimento Amare.

Fonte: O Povo, de 9/03/2024. Opinião. p.18.

terça-feira, 26 de março de 2024

QUARESMA TEMPO DE GRAÇA, TEMPO DE DEUS!

Por Pe. Reginaldo Manzotti (*)

Mais uma vez vamos viver o tempo da Quaresma, que nos prepara para celebrar a Páscoa, o mistério central da nossa fé.

Um aspecto interessante da Quaresma é a sua relação com o deserto. O deserto é um lugar simbólico na Bíblia, que representa tanto a provação quanto a revelação. No deserto, o povo de Deus experimentou o sofrimento, a tentação, a fome, a sede, a solidão, mas também a presença, a proteção, a provisão, a aliança e a libertação de Deus. No deserto, os profetas e os santos buscaram a Deus em oração, em silêncio, em contemplação, e receberam dele a Sua Palavra, a Sua vontade, a Sua missão.

A Quaresma também nos remete ao deserto da Igreja, que, como povo de Deus, caminha na história, entre as dificuldades, as perseguições, as crises, as divisões, mas também entre as graças e bênçãos.

O deserto é um lugar de dependência de Deus, lugar de provação, de silêncio, de solidão, de confronto com as nossas fraquezas e limites. Mas também é um lugar de encontro, de escuta, de purificação, do essencial, de conversão e de confiança em Deus.

No deserto, Jesus nos ensina a viver de toda Palavra que sai da boca de Deus, a não colocar Deus à prova, a não adorar outros deuses. Ele nos ensina a vencer o pecado pela força do Espírito Santo, que O conduziu ao deserto e que O sustentou em Seu ministério.

A Quaresma nos convida a seguir Jesus no deserto, a enfrentar as nossas tentações com a sua graça, a nos alimentar da sua Palavra e do seu Pão (Eucaristia), a nos deixar guiar pelo seu Espírito e a nos preparar para a sua Páscoa.

Neste tempo somos convidados a nos afastar das distrações, dos ruídos, dos apegos, das falsas seguranças, das ilusões deste mundo. É um tempo de nos voltarmos para Deus, de nos colocarmos à Sua disposição, de nos abrirmos à Sua graça, de nos deixarmos transformar pelo Seu amor.

A Quaresma é um tempo de graça, que nos faz descobrir a beleza e a riqueza do nosso interior, onde Deus habita e nos fala. Portanto, é um tempo de deserto, mas também de oásis, um tempo de provação, mas também de revelação, um tempo de morte, mas também de vida.

A Igreja nos propõe, na Quaresma, algumas práticas penitenciais, como o jejum, a esmola e a oração. Essas práticas nos ajudam a vencer as tentações, a purificar o nosso coração e a praticar a caridade. O jejum nos fortalece no domínio sobre nós mesmos, a esmola nos liberta da ganância, a oração nos aproxima de Deus.

Além dessas práticas, podemos fazer outras penitências, como evitar o que nos leva ao pecado, oferecer os nossos sofrimentos, fazer obras de misericórdia, perdoar os que nos ofendem etc. O importante é que a nossa penitência seja sincera, humilde e alegre, e que nos leve a uma maior comunhão com Deus e com os irmãos.

Especialmente nesse tempo de deserto, somos convidados a celebrar o Sacramento da Penitência, também chamado de Confissão ou Reconciliação, que é o meio que Jesus nos deixou para obter o perdão dos nossos pecados e a paz interior. É um encontro pessoal com o amor misericordioso de Deus, que nos acolhe, nos cura e nos renova.

Vivamos a Quaresma como um tempo de graça, um tempo de Deus, tempo de amor, de esperança, de alegria, de paz. Tempo de nos preparar para a Páscoa, a festa da vida da luz, e da vitória.

(*) Fundador e presidente da Associação Evangelizar é Preciso e pároco reitor do Santuário Nossa Senhora de Guadalupe, em Curitiba (PR).

Fonte: O Povo, de 24/02/2024. Opinião. p.18.


domingo, 24 de março de 2024

QUARESMA É TEMPO DE REFLEXÃO E BELEZA

Por Pe. Eugênio Pacelli SJ (*)

Pode ser contraditório, mas Quaresma não é tempo de tristeza, mas de beleza, de estreitar e fortalecer nossa amizade com Jesus. Tempo de assumir erros, avaliar sentimentos e valores. A beleza da quaresma está na reflexão sobre como nos desvincular de situações que causam mal e nos levam à prática do pecado, acarretando dor e sofrimento a nós e aos outros.

A Quaresma é um convite à mudança qualitativa de vida. Mudança essa relacionada às atitudes diante de si mesmo, das coisas, das pessoas e de Deus. Tempo de peregrinação interior para visitar os lugares mais íntimos de si mesmo, ter acesso ao "eu profundo", sob o olhar cuidadoso de Deus. Tempo de entender que somos peregrinos, trilhando caminhos desafiadores, com tropeços, erros e acertos. É abrir possibilidades para fazer a estrada mais leve e perceber os sinais que nos impulsionam adiante, nos enchem de ousadia e coragem. Tempo de trocar a roupa da alma! Repensar ações e modos de estar no mundo, se desintoxicar do ritmo frenético de atividades, da sede de produtividade, pensamentos negativos e murmurações.

Isso supõe tempo, silencio e calma para estar consigo mesmo, fazer o exercício de discernimento para filtrar o que me convém e ter liberdade interior de recusar e livrar-me do que faz mal.

Neste sentido a Igreja nos convida a entrarmos na milenar prática do jejum. Sempre renunciamos por algo melhor! A vivência quaresmal exige reconhecer sombras, curar feridas, estar a serviço do bem e da solidariedade. Essa vivência é muito mais que se privar de doces, refrigerantes e álcool, e sim fazer a experiência do encantamento pela Pessoa de Jesus Cristo, para conhecê-lo amá-lo e segui-lo .

Em Jesus vemos o rosto do Pai e encontramos o nosso verdadeiro eu. A amizade com Ele abre as portas para grandes possibilidades de dilatar o coração e transformar a realidade. Jesus faz a vida livre, nova, bela e plena!

Este contato mais íntimo com Ele, "cristifica" o olhar e o coração. Aprendemos a olhar como Jesus, ultrapassando aparências, vendo o mundo sem pré-conceitos e pré-juízos, vendo em tudo o sinal da ternura Dele. Quando Deus quer falar ao coração, Ele sempre convida ao "deserto" ou ao "monte". Convido-te a subir ao "monte", em Baturité, no Mosteiro dos Jesuítas, nesta Quaresma e Semana Santa, lugar propício para o silêncio, a reflexão e a paz, onde a natureza exuberante favorece o encontro forte e emocionante com Deus. Venha caminhar conosco nesta preparação Quaresmal em direção a Pascoa.

Santa e abençoada Quaresma!

(*) Sacerdote jesuíta e mestre em Teologia. Escritor. Diretor do Mosteiro dos Jesuítas de Baturité e do Polo Santo Inácio. Fundador do Movimento Amare.

Fonte: O Povo, de 10/02/2024. Opinião. p.18.

domingo, 9 de abril de 2023

O GRITO DE JESUS NA CRUZ E O GRITO DOS QUE SOFREM

Por Pe. Eugênio Pacelli SJ (*)

A expressão "O grito de Jesus na cruz e o grito dos que sofrem" refere-se à conexão que existe entre o sofrimento humano e o sacrifício de Jesus na cruz. Na tradição cristã, a morte de Jesus na cruz é vista como uma expressão suprema do amor de Deus pela humanidade, e exemplo de solidariedade de Jesus com os que sofrem.

O grito de Jesus na cruz, "Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?" (Mateus 27:46), é visto por muitos como uma expressão do sofrimento humano e da sensação de abandono e desesperança que muitos experimentam em suas vidas.

Na homilia jesuíta, essa conexão é explorada para mostrar que o sofrimento humano não é estranho ou separado da experiência de Jesus, mas algo que Ele compartilhou e redimiu por meio de sua própria dor e morte. Ao mesmo tempo, a homilia enfatiza que o sofrimento humano não deve ser romantizado ou idealizado, mas enfrentado com coragem e esperança, à luz da mensagem de amor e salvação de Jesus.

Certamente, a reflexão sobre a conexão entre o grito de Jesus na cruz e o grito dos que sofrem é tema profundamente significativo e relevante para a vida cristã.

Ao contemplar o sofrimento humano, muitas vezes nos sentimos desamparados e impotentes diante da dor e da injustiça que nos cercam. Mas a mensagem da cruz é uma mensagem de esperança e redenção, que nos encoraja a perseverar na fé, mesmo em meio ao sofrimento.

Jesus não se afastou do sofrimento humano, mas o encarou, oferecendo sua vida em sacrifício pelo bem da humanidade. Sua morte foi um ato de amor supremo, que nos mostra que, mesmo em meio à escuridão e ao sofrimento, há esperança.

Ao contemplar o grito de Jesus na cruz, somos convidados a refletir sobre a natureza do sofrimento humano e sobre o papel que podemos desempenhar para aliviar o sofrimento dos outros. Somos chamados a seguir o exemplo de Jesus, colocando nossa própria vida a serviço dos outros e sendo agentes de amor e compaixão no mundo.

Em última análise, a conexão entre o grito de Jesus na cruz e o grito dos que sofrem é uma conexão de amor e solidariedade. Que possamos nos inspirar por esse exemplo de amor e seguir em frente, com fé e esperança, mesmo em meio às dificuldades e desafios da vida.

(*) Sacerdote jesuíta e mestre em Teologia. Diretor do Seminário Apostólico de Baturité.

Fonte: O Povo, de 8/04/2023. Opinião. p.18.

sexta-feira, 7 de abril de 2023

CARDEAL CANTALAMESSA: cuidado com o niilismo; Deus é verdade que transcende

O pregador da Casa Pontifícia trouxe para a homilia desta Sexta-feira Santa (7/4/23), na Basílica de São Pedro, em celebração presidida pelo Papa, a reflexão sobre a existência de uma narrativa diversa para a morte de Deus, "ideológica, não histórica", proclamada pelo anúncio que Nietzsche põe na boca do "homem louco". Como crentes, convida Raniero Cantalamessa, "é nosso dever mostrar o que está por trás ou sob aquele anúncio".

Por Andressa Collet - Vatican News

No dia em que os fiéis são convidados a fixar o olhar em Jesus Crucificado, que carregou na cruz os pecados de toda a humanidade para salvá-la, o Papa Francisco presidiu a Liturgia da Palavra na Basílica de São Pedro. Na homilia desta Sexta-feira Santa (7) de celebração da Paixão do Senhor, o cardeal Raniero Cantalamessa reforçou o convite para se continuar - "mais convictos do que nunca" - às palavras que dizemos a cada missa há dois mil anos, após a consagração: “Anunciamos, Senhor, a vossa morte e proclamamos a vossa ressurreição. Vinde, Senhor Jesus!”.

O homem no lugar de Deus

"A Igreja anuncia e celebra, neste dia, a morte do Filho de Deus na cruz", recorda o pregador da Casa Pontifícia, que logo lembra, porém, da "existência de uma narrativa diversa" para a "morte de Deus - ideológica, não histórica" proclamada "há um século e meio, e hoje, em nosso ocidental descristianizado". Cantalamessa explica que "esta morte diversa de Deus encontrou a sua perfeita expressão no conhecido anúncio que Nietzsche põe na boca do 'homem louco', que chega sem fôlego à praça da cidade: - Para onde foi Deus? – exclamou – É o que vou dizer. Nós o matamos – vocês e eu!... nunca houve ação mais grandiosa e aqueles que nascerem depois de nós pertencerão, por causa dela, a uma história mais elevada do que o foi alguma vez toda essa história".

Uma ideia de que "a história não seria mais dividida em antes de Cristo e depois de Cristo, mas antes de Nietzsche e depois de Nietzsche", ou seja, continua Cantalamessa, o homem, o “super-homem”, o “além-homem”, é colocado no lugar de Deus. "Não demorará, contudo, a se dar conta de que, ao ficar só, o homem não é nada"; pois "estamos errando como num nada infinito”.

A verdade transcendente

Mas, "não nos é lícito julgar o coração de um homem que somente Deus conhece", recorda o pregador da Casa Pontifícia, e também o autor daquele anúncio teve a sua parte de sofrimento na vida. E Cantalamessa recorda a oração de Jesus na cruz: “Pai, perdoa-lhes! Eles não sabem o que fazem!” (Lc 23,34). A consequência, porém, que aquele anúncio teve, "aquela sim, podemos e devemos julgar", enfatiza o cardeal, pois acabou virando moda e declinada nos mais diferentes modos:

"O denominador comum a todas estas diversas declinações é o total relativismo em todo campo: ética, linguagem, filosofia, arte e, naturalmente, religião. Nada mais é sólido; tudo é líquido, ou mesmo vaporoso. Na época do romantismo, deleitava-se na melancolia, hoje, no niilismo. Como crentes, é nosso dever mostrar o que está por trás ou sob aquele anúncio, isto é, a trepidação de uma antiga chama, a erupção repentina de um vulcão jamais extinto desde o início do mundo."

Isto é, afirma Cantalamessa: "há uma verdade transcendente que nenhuma narrativa histórica ou raciocínio filosófico poderia nos transmitir": 

Cristo Jesus, existindo em forma divina, não considerou um privilégio um privilégio ser igual a Deus, mas esvaziou-se, assumindo a forma de servo e tornando-se semelhante ao ser humano. E encontrado em aspecto humano, humilhou-se, fazendo-se obediente até a morte – e morte de cruz!”

A ressureição conduz à apoteose da vida

Mas "por que falar disto em uma liturgia da Sexta-feira Santa?", se questiona o cardeal. "Não para convencer os ateus de que Deus não está morto!", porque "para convencê-los são necessários outros meios, mais do que as palavras de um velho pregador. Meios que o Senhor não deixará faltar a quem tem o coração aberto à verdade". O verdadeiro objetivo "é preservar os crentes – quem sabe, talvez apenas alguns estudantes universitários – de serem atraídos para dentro deste vórtice do niilismo, que é o verdadeiro 'buraco negro' do universo espiritual". O pregador da Casa Pontifícia finaliza, então, a homilia:

“'Deus? Nós o matamos – vocês e eu!': Esta coisa tremenda se realizou, de fato, uma vez na história humana, mas em sentido bem diferente daquele bradado pelo 'homem louco'. Porque é verdade, irmãos e irmãs: fomos nós - vocês e eu - que matamos Jesus de Nazaré! Ele morreu pelos nossos pecados e também pelos de todo o mundo (1Jo 2,2). Mas a sua ressurreição assegura-nos que este caminho não conduz à derrota, mas, graças ao nosso arrependimento, conduz àquela 'apoteose da vida', em vão buscada em outros lugares.”

Tradução das palavras do cardeal Cantalamessa: Fr. Ricardo Farias, ofmcap

Fonte: Vatican News, em 7/04/2023.

A BELEZA DA QUARESMA

Por Pe. Eugênio Pacelli SJ (*)

Quaresma não é tempo de tristeza. É uma oportunidade para estreitar a nossa amizade e o nosso relacionamento com Jesus e assumir seus pensamentos, sentimentos, critérios e valores. A beleza da quaresma está em adquirirmos a liberdade interior, desvinculando-nos do mal e do pecado. O momento quaresmal exige que devemos assumir nossas sombras, curar nossas feridas, libertar nossa alma para a prática do serviço, da solidariedade fraterna e do bem comum. Isso faz parte da penitência quaresmal.

Durante esses 40 dias, sugiro que você tire um tempo para fazer a experiência do encantamento pela pessoa de Jesus Cristo, para conhecê-lo interiormente, amá-lo ardentemente e segui-lo generosamente. Em Jesus vemos o rosto do Pai e encontramos o nosso verdadeiro eu. Daí a necessidade de fixar os nossos olhos Nele. Jesus faz a vida livre, nova, bela e grandiosa. A amizade com Ele abre as portas para grandes possibilidades, para a dilatação do coração e para a transformação da realidade.

O tempo é propício para entender que na travessia para o novo e desconhecido, somos peregrinos, trilhando um caminho cheio de desafios que podem borrar a visão e nos colocar à margem contudo, depende de nós abrir as possibilidades para fazer a estrada mais leve e percebê-lo repleto de sinais que nos impulsionam para frente e preenchem nosso coração de coragem e ousadia.

Convido vocês a viver uma experiência ímpar, aqui no Mosteiro dos Jesuítas, em Baturité, onde a natureza linda e exuberante favorece o encontro com Deus de forma muito tocante e profunda. Na Semana Santa conduzirei um retiro espiritual com extensa programação de quatro dias, incluindo todos os ritos e culminando com o dia mais feliz do calendário cristão: o Domingo de Páscoa.

Vamos preparar o coração para viver este tempo cheio de significado, aprender a escutar os apelos de Deus e retornar ao Seu amor. Sempre é tempo de recomecar.

"Convertei-vos a mim. A Quaresma é uma viagem de regresso a Deus que lança um apelo ao nosso coração. Na vida, sempre teremos coisas a fazer e desculpas a apresentar, mas agora é tempo de regressar a Deus", Para Francisco.

(*) Sacerdote jesuíta e mestre em Teologia. Diretor do Seminário Apostólico de Baturité.

Fonte: O Povo, de 25/03/2023. Opinião. p.18.

quarta-feira, 13 de abril de 2022

O JEJUM QUE VERDADEIRAMENTE AGRADA A DEUS

Por Pe. Reginaldo Manzotti (*)

A Quaresma é um tempo privilegiado para intensificar nossa conversão, mudança de vida, transformação de nossa consciência e do modo de agir. Muito propício para o Tempo de Quaresma é o exercício penitencial do jejum, tão esquecido e desvirtuado atualmente.

Fala-se muito em jejum "detox", jejum intermitente, que podem ser ferramentas eficazes para emagrecer, mas não tem nenhum valor espiritual. É importante observar que o jejum não é uma dieta, mas uma pratica espiritual que aumenta nossa intimidade com Deus, e fortalece a virtude da temperança.

Segundo Santo Agostinho, o jejum "purifica a alma, eleva a mente, subordina a carne ao espírito, cria um coração humilde e contrito, espalha as nuvens da concupiscência, extingue o fogo da luxúria e acende a verdadeira luz da castidade" (Sermão sobre a oração e o jejum).

Podem e devem fazer jejum todos os católicos maiores de idade até os 60 anos completos.

Como fazer jejum? Vou citar o básico, chamado jejum da Igreja, é aquele em que se toma o café da manhã e deixa-se de fazer uma refeição, a escolha almoço ou jantar, substituindo a refeição escolhida por um lanche simples. O importante é não comer nada fora dessas refeições.

O jejum que Deus quer é aquele que vem fruto da humildade. O próprio Jesus disse que há certos pedidos certas orações que só conseguiremos somados a jejum e penitência (cf. Mt 17,20). Jejuar e orar nos ensinam a confiar mais em Deus e no seu auxílio, bem como vencer as batalhas espirituais.

De nada adianta o jejum se o coração é orgulhoso, se a língua é ferina, e se usamos do jejum para prática da injustiça, porque o jejum que agrada a Deus, como Ele diz através do Profeta Isaías, é aquele que quebra a cadeia da injustiça, é aquele que rompe, liberta os que estão sendo oprimidos.

O jejum verdadeiro é aquele que partilhamos o alimento com quem não tem, a prática da caridade faz parte do jejum. O jejum que agrada a Deus e que nos é proposto como prática quaresmal inclui obra de caridade, é cobrir o que está nu, levar o consolo aos doentes, dar pão a quem tem fome, água a quem tem sede. Esse é o jejum verdadeiro que brota de um espírito contrito. Só assim não será só mais um gesto externo, mas sim uma transformação de vida.

A oração suplica a Deus, o jejum ajuda a alcançar a graça e a caridade estende-se a quem necessita. Que Deus nos ajude a viver santamente o tempo da Quaresma.

(*) Fundador e presidente da Associação Evangelizar é Preciso e pároco reitor do Santuário Nossa Senhora de Guadalupe, em Curitiba (PR).

Fonte: O Povo, de 26/03/2022. Opinião. p.18.

terça-feira, 12 de abril de 2022

QUARESMA, TEMPO DE VIVER PARA DENTRO

Por Pe. Eugênio Pacelli SJ (*)

A Quaresma nos convida a cuidar da nossa vida interior. Para nós, cristãos, o tempo é precioso demais para ser desperdiçado. "Deixa a vida me levar" não é opção de vida para nós, cristãos.

A vida é sempre uma travessia para o novo e desconhecido. Somos peregrinos, num caminho de desafios que podem atrofiar a visão e nos colocar à margem do caminho, sozinhos, sem perspectivas ou em um caminho repleto de sinais que nos impulsionam para frente e preenchem nosso coração de ousadia.

O tempo da Quaresma é para nós, cristãos, um privilégio, uma retomada do ritmo da marcha, de esvaziar as mochilas do supérfluo, reabastecer-nos do essencial, retomar as metas discernidas e assumidas diante de Deus.

O que dá sentido ao tempo vivido é a atenção que damos ao nosso mundo interior. A maior parte das pessoas vive ignorando a vida interior, esquecem que a vida de dentro se revela na de fora. A vida interior precisa de tempo para morar no silêncio.

Silêncio é lugar de entrega e encontro. Esse tempo da quaresma nos chama a realizar uma faxina interior e a nos desfazer das bagagens tóxicas que consumimos na rotina agitada e estressante.

*A oração, a esmola e o jejum* são atitudes do tempo da Quaresma. *A oração *é adentrar-nos no nosso próprio interior para ouvir a voz de Deus*.* Mas, dificilmente podemos entrar no interior se nos encontrarmos com o coração endurecido, hermético, agitado.

*O jejum *é um "olhar amoroso e vigilante" sobre e para si mesmo, uma tomada de consciência sincera na direção da transformação profunda*.* Tem a finalidade de nos possibilitar a experiência da falta*.*

Descobrir que, além dos alimentos, é o Senhor da vida que nos nutre. O jejum e a sobriedade favorecem a aproximação espiritual a Deus e aos irmãos que sofrem.

Diante de uma sociedade que valoriza o ser humano em função do que consome - "consumo, logo existo" - nosso jejum é o grito que anuncia que o ser humano é valioso em si mesmo, porque assim o é para Deus.

A oração e o jejum nos capacitam a compartilhar com os outros a generosidade que Deus desperta. E isto tem um nome: esmola. Quanto mais vivemos em Deus, menos somos nós o centro e mais nos doamos.

(*) Sacerdote jesuíta e mestre em Teologia. Diretor do Seminário Apostólico de Baturité.

Fonte: O Povo, de 12/03/2022. Opinião. p.18.

sábado, 3 de abril de 2021

QUARESMA E PANDEMIA

Por Pe. Eugênio Pacelli SJ (*)

O mundo está perplexo e sofrido diante da devastação causada pela pandemia da Covid-19. Há um ano, um vírus invisível instalou-se entre nós e deixou pegadas de dor e morte.

O sofrimento inocente e o mundo imerso em lágrimas são a estrada mais árdua para compreender a fé. É nas experiências do sofrimento que emerge a pergunta: Onde está Deus? Na dor e no sofrimento, o crente e o ateu perguntam por Ele.

A Igreja afirmava, no Vaticano II, que "uma das causas do ateísmo e do indiferentismo religioso se deve ao silêncio de Deus diante do sofrimento (Gs 19).

Em decorrência dessa realidade, surgem questionamentos: por que existe dor, se Deus nos ama? Qual o motivo do silêncio diante da dor? Onde Deus está? Percebe-se que algumas respostas causam revolta contra Deus. Mostram uma concepção da onipotência de Deus, que resulta em insensibilidade diante do sofrimento humano.

Nessa perspectiva, o mal expressa o desejo divino de punir a humanidade por seus pecados. Se assim fosse, Deus não passaria de um sádico, que se alegra com nosso sofrimento. Tal imagem alimenta e origina uma fé equivocada.

Para falar de Deus em situações de sofrimento precisamos escutar o grito de Jesus na cruz. A Cruz nos apresenta Deus sub contrário, isto é, sob seu oposto: na humildade, debilidade e no sofrimento.

Na cruz de Jesus, Deus se revela, sofre e se solidariza com seus filhos. Ele não está alheio, sofre conosco.

O silêncio na cruz de Jesus não representa indiferença, e sim o silêncio de quem escuta e se compadece. Deus fala no silêncio, deixa-se conhecer na ausência e mostra seu poder na debilidade. Só um Deus que padece é capaz de se compadecer. Portanto, vejo Deus em tudo, nesta crise.

No trabalho exaustivo de médicos, profissionais de saúde, cientistas, educadores que precisaram reaprender a ensinar, nos que rezam e espalham esperança, alimentam famintos e animam o olhar para além da tragédia.

Deus age o tempo inteiro. Ele necessita de cada um de nós para se revelar, contudo precisamos de fé para ver além do óbvio. Deus sempre se revela no poder do amar e servir! 

(*) Sacerdote jesuíta e mestre em Teologia. Diretor pastoral do Colégio Sto. Inácio.

Fonte: O Povo, de 13/3/2021. Opinião. p.18.

quinta-feira, 1 de abril de 2021

QUARESMA, ITINERÁRIO PARA A VIDA NOVA

Por Pe. Reginaldo Manzotti (*)

Neste mês, em 17 de fevereiro, com a celebração da Quarta-feira de Cinzas, com o tema proposto pela Campanha da Fraternidade desse ano: “Fraternidade e diálogo: compromisso de amor”, e como lema o trecho da carta de Paulo aos Efésios: “Cristo é a nossa paz: do que era dividido fez uma unidade” (Ef 2, 14ª), iniciaremos mais um Tempo Santo de Quaresma. Tempo de renovação espiritual, uma espécie de retiro estruturado no tripé: oração, jejum e caridade

São Pedro Crisóstomo, dizia: “Três são, irmãos, as colunas que fazem com que a fé se mantenha firme, a devoção constante e a virtude permanente. Essas três colunas são: a oração, o jejum e a misericórdia. Porque a oração chama, o jejum intercede e a misericórdia recebe”.

A Liturgia desse tempo, especialmente o Evangelho nos preparam para a grande celebração da Páscoa, pelo mistério da Salvação, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo.

O 1º Domingo da Quaresma do Ano B, nos apresenta a vitória de Jesus sobre as tentações feitas pelo Diabo, no deserto (Mc 9, 2-10). Nos encoraja a lutar, munidos pela Palavra de Deus e animados pelo Espírito Santo, contra as seduções do maligno, e permanecer fortes na luta contra as tentações no dia a dia.

O 2º Domingo da Quaresma nos chama a subir a montanha com Jesus. Ao transfigurar-Se Ele resplandece e manifesta a Luz de Sua glória divina (Mc 9, 2-10). Esse acontecimento mostra que a cruz é o caminho para a glória, e revela sua identidade de Filho amado do Pai, a escutar seu Filho. Essa experiência de fé deve nos levar a nos transformar e transformar o que está ao nosso redor.

O 3º Domingo da Quaresma nos apresenta uma reação de indignação de Jesus, pela exploração do povo, que acontecia por parte dos comerciantes no interior do templo. Jesus expulsa a todos os profanadores e restabelece o amor e o zelo por aquele lugar de oração. Agora, o verdadeiro Templo é Jesus, a nova aliança. N’Ele, com Ele e por Ele, somos libertados de toda escravidão, do pecado e da injustiça.

O 4º Domingo da Quaresma é chamado Laetare, Domingo da alegria, pois já estamos mais próximos da Páscoa. No encontro com Nicodemos Jesus descreve o projeto de salvação do Pai. Faz o anúncio de Sua paixão, como prova de amor à humanidade (Jo 3,9-21). É o convite para o acolhimento do amor de Deus, para passarmos das trevas para a luz, do pecado à reconciliação.

O 5º Domingo da Quaresma apresenta Jesus como grão de trigo que cai na terra e morre para produzir muito fruto. Ele livremente quer dar a vida, e aceita passar pela morte, dando então a maior prova de amor. Cristo elevado na cruz atrai todos para Si, e institui a nova e eterna Aliança (Jo 12, 20-33). O caminho que o Senhor nos aponta é o caminho do amor absoluto, da obediência, da entrega total a Deus e aos irmãos.

Ainda vivemos os efeitos da pandemia, mais que nunca devemos aproveitar o Tempo de Quaresma. Exercitemos a oração, a escuta da Palavra de Deus, a caridade. Busquemos a reconciliação com Deus e com os irmãos, assim poderemos celebrar adequadamente o centro da nossa fé, a Ressurreição de Jesus, na grande Solenidade Pascal.

(*) Fundador e presidente da Associação Evangelizar é Preciso e pároco reitor do Santuário Nossa Senhora de Guadalupe, em Curitiba (PR).

Fonte: O Povo, de 27/2/2021. Opinião. p.17.

domingo, 12 de abril de 2020

QUARESMA E QUARENTENA


Por Pe. Eugênio Pacelli SJ (*)
De repente tudo mudou! Um vírus invisível colocou parte do mundo em isolamento. O vírus fez da quaresma uma quarentena. Tal realidade me fez lembrar a obra do português José Saramago: Ensaio sobre a cegueira, que retrata uma cidade inteira que fica cega e as pessoas ficam enclausuradas. Uma metáfora de uma sociedade que em momentos, de perigo e angústia, mostra suas luzes e escuridões. A pandemia mostra o pior e o melhor da sociedade.
Nem todos têm esse hábito de recolhimento e solidão. Mas, é necessário recuperar a sabedoria e o gosto de estar em casa consigo e com os outros. Cuidar do emocional, manter e alimentar a fé, olhar para dentro e corrigir atitudes, sentimentos e comportamentos. Em meio à rotina, manter a calma, pois o medo é mal mais terrível que a própria doença. Reencontrar o caminho para si mesmo é saudável.
Viver a Quaresma em quarentena dando oportunidade de repensar ações e modos de estar no mundo. Desintoxicar do ritmo frenético de atividades, da sede de produtividade e consumo. Gostar de estar consigo mesmo. Refazer laços e contatos, já esquecidos, conversas em família e a escuta atenta do outro.
Iluminar, olhar sob a ótica pela fé é acreditar que esta situação não encerra apenas temores, mas possibilidades singulares. Possibilidade de viver a pura alegria do dom e do agradecimento. Aprofundar e alimentar a fé na presença de Deus em "noites escuras", descobrindo suas pegadas nas vítimas desta pandemia, nos médicos e agentes de saúde que os atendem, nos cientistas que buscam vacinas antivírus, em todos os que nestes dias colaboram na solução do problema, nos que rezam pelos demais e espalham esperança. Deus necessita de cada um de nós, para se revelar, portanto, que nossa solidariedade seja mais forte que o egoísmo que, às vezes, nos habita. Na dor e na calamidade coletiva sentimos que somos menos desiguais do que pensamos. A pandemia não tem ideologia, raça, credo e sexo. Que nossa solidariedade seja mais contagiante que o vírus. Que as forças reconstrutoras, renováveis, resilientes que possuímos dentro de nós, em situações assim, desabrochem. 
 (*) Sacerdote jesuíta e mestre em Teologia.
Fonte: O Povo, 4 de abril de 2020. Opinião. p.12.

sexta-feira, 10 de abril de 2020

QUARESMA É TEMPO DE CONVERSÃO


Por Pe. Reginaldo Manzotti (*)

Estamos na Quaresma. Tempo de muitas provações porque é um tempo favorável de conversão e aprofundamento da fé. A Igreja, como mãe e mestra, propõe por meio da oração, do jejum, da caridade uma preparação individual e comunitária para celebrar o centro de nossa vida cristã que é o Mistério Pascal: Paixão, Morte e Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Quaresma é tempo de conversão. A maioria de nós pode pensar: eu tenho fé e constantemente ouço as pessoas dizerem: "Eu não sou lá muito católico, mas eu rezo, eu acredito em Deus". Claro que entre fé nenhuma e pouca fé, escolhamos a segunda opção, mas isso é uma fé muito infantil, uma fé primária, uma fé que não compromete nada, que não leva à verdadeira conversão.
E a Quaresma é o tempo ideal que nos cabe uma reflexão profunda, se de fato, temos uma fé amadurecida. Para a grande maioria se eu perguntar: Quem acredita em Deus? Todos levantam a mão. Mas em que Deus nós acreditamos? Um Deus que não compromete? Um Deus que não tenha nada a ver comigo? Não podemos ficar com esta fé do milagre, esta fé que acreditamos só quando vemos cura. Uma fé baseada somente em fatos extraordinários, paranormais.
Conversão nos leva a tomar posições, nos leva a viver de acordo com a Palavra de Deus. Implica em ter uma postura de vida, dentro de casa, na sociedade, na família e na comunidade.
Tenho certeza que vocês, como eu, estão buscando de algum jeito, às vezes cambaleando, meio machucados, meio feridos, servir a Deus.
Bem sabemos, tanto em nossa vida pessoal, quanto em nossa vida familiar, como precisamos de graças, porque todos nós temos pessoas da família, que por uma razão ou outra, estão distantes da Palavra, distantes de Deus, enfronhados somente nas coisas materiais. Por isso, aproveitemos a Quaresma e ofereçamos a Deus nossa vida, nossos jejuns, nossas orações.
Eu creio meus irmãos, que se a nossa penitência for reta no objetivo, na intenção, não passará despercebida diante de Deus. Quaresma é tempo de graça. É uma dádiva do Senhor. É tempo de bênção. Busquemos em Deus as forças necessárias para superarmos todas as tentações, verdadeiramente nos convertermos e deixarmo-nos transfigurar pelo Seu Amor.
(*) Fundador e presidente da Associação Evangelizar é Preciso e pároco reitor do Santuário Nossa Senhora de Guadalupe, em Curitiba (PR).
Fonte: O Povo, de 21/1/2020. Opinião. p.14.

sábado, 20 de abril de 2019

A RESSURREIÇÃO DE CRISTO


Por Pe. Reginaldo Manzotti (*)

"É uma pena que muitos tenham reduzido essa festa apenas ao chocolate", escreve o padre Reginaldo Manzotti

Jesus ressuscitou. A história ganha um novo significado. O que aconteceu com Jesus é milhares de vezes mais forte do que qualquer força que possamos descrever, porque o sepulcro era o fim de todos nós, a morte era a rival que no final da história dizia: "eu te venci!". Mas Ele ressuscitou, então a morte que era o fim, vira uma passagem. Esta vida que era tudo, ganha uma outra dimensão com Deus, em Cristo Jesus.
Quem celebra a Semana Santa e se debruça sobre os acontecimentos, sabe que, verdadeiramente Jesus padeceu. É fato que Pôncio Pilatos existiu, é fato que o Cristo foi traído, que o homem de Nazaré, o Mestre da Galileia, terminou de uma forma horrenda e decepcionante para aqueles que pensavam em uma glória imediata. Uma morte numa cruz, escarnecido e desfigurado.
Uma morte desumana, crucificado às 9h e vindo a morrer às 15h. Quem já esteve no leito de morte de uma pessoa, sabe que diante do sofrimento agonizante, minutos se tornam horas e horas se tornam uma eternidade. Acredito no Santo Sudário, mas não há maior evidência, não há prova maior do que aconteceu, senão que o sepulcro estava vazio. Isso foi testemunhado e confirmado pelas mulheres na madrugada da ressurreição, assim como, pelos amados de Jesus.
Não é uma questão científica e histórica, mas os sinais do Ressuscitado falam por si só. Os sinais da presença do Deus vivo transformam a vida. São Paulo diz sobre o Cristo Ressuscitado: "Já não sou eu que vivo, pois é Cristo que vive em mim" (Gl 2,20). Não tem expressão melhor que essa. A certeza do Ressuscitado sentimos em nossa carne, em nossa vida, nosso pensar, nosso agir, nosso querer, nosso buscar. Vale a pena acreditar e ter esperança.
Uma santa e feliz Páscoa acontecerá na medida em que nos abrirmos à graça do Ressuscitado. E esse processo não é só um dia, a Páscoa não é somente um dia. É uma pena que muitos tenham reduzido essa festa apenas ao chocolate. Somos chamados a celebrar a grande Festa da Páscoa em oito dias, como se fosse um dia só, é a Oitava da Páscoa. Vale lembrar que todos os domingos, quando participamos da celebração eucarística, estamos fazendo memória da Páscoa do Senhor. 
(*) Fundador e presidente da Associação Evangelizar é Preciso e pároco reitor do Santuário Nossa Senhora de Guadalupe, em Curitiba (PR).
Fonte: O Povo, de 13/4/2019. Opinião. p.28.

sexta-feira, 19 de abril de 2019

OLHAR AMOROSO E VIGILANTE SOBRE SI MESMO


Por Pe. Eugênio Pacelli SJ (*)
Dizem que no Brasil tudo só começa depois do Carnaval. Para nós, cristãos, o tempo é precioso demais para passar sem ser percebido. "Deixa a vida me levar" não é opção de vida do cristão.
A vida é sempre uma travessia. Travessia para o novo e desconhecido. Somos peregrinos, num caminho povoado de desafios que podem atrofiar a visão e nos colocar à margem do caminho, sozinhos, sem encanto e sem sonhos, ou um caminho repleto de sinais que nos impulsionam para frente e preenchem nosso coração de ousadia.
O tempo da Quaresma é para nós, cristãos, tempo privilegiado para retomar o ritmo da marcha, esvaziar as mochilas do supérfluo, reabastecer-nos do essencial, retomar as metas discernidas e assumidas diante de Deus. Já diziam os mais antigos: tempo é questão de preferência. O que dá sentido ao tempo vivido é a atenção que damos ao nosso mundo interior. A maior parte das pessoas vive como se a vida interior não precisasse de tempo, esquecem que a vida de dentro se revela na de fora. A vida interior precisa de tempo para morar no silêncio. Silêncio é mistério, é lugar de entrega e encontro. O tempo da Quaresma nos convida a cuidar da nossa vida interior.
A oração, a esmola e o jejum são as três atitudes mais características do tempo da Quaresma. A oração é adentrar-nos no nosso próprio interior, porque aí se faz ouvir a voz de Deus. O jejum é um "olhar amoroso e vigilante" sobre e para si mesmo, uma tomada de consciência sincera na direção de uma transformação profunda. Tem a finalidade de nos possibilitar a experiência da falta. Descobrir que, além dos alimentos, é o Senhor da vida que nos nutre. O jejum e a sobriedade favorecem a aproximação espiritual a Deus e aos irmãos que sofrem. Diante de uma sociedade que valoriza o ser humano em função do que consome - "consumo, logo existo" - nosso jejum é o grito que anuncia que o ser humano é valioso em si mesmo, porque assim o é para Deus. A oração e o jejum nos capacitam a compartilhar com os outros a generosidade que Deus desperta. E isto tem um nome: esmola. Quanto mais vivemos em Deus, menos somos nós o centro, menos dependentes das coisas e mais receptivos somos aos outros.
(*) Sacerdote jesuíta e mestre em Teologia.
Fonte: O Povo, de 9/3/2019. Opinião. p.16.

domingo, 19 de março de 2017

Eis o tempo favorável! Eis o dia da Salvação

Por Pe. Reginaldo Manzotti (*)
Neste mês de março vivemos o tempo de Quaresma, tempo favorável de conversão, aprofundamento da fé. Por meio da oração, do jejum e da caridade, nos preparamos para celebrar o centro de nossa vida cristã, que é o Mistério Pascal: paixão, morte e ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Desde 1964, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) promove a Campanha da Fraternidade como itinerário evangelizador para o tempo de Quaresma a partir de uma realidade específica de exclusão. A Igreja ao propor como tema da Campanha deste ano: “Fraternidade: biomas brasileiros e defesa da vida”, e o lema: “Cultivar e guardar a criação” (Gn 2.15), pretende, especialmente à luz do Evangelho, dar ênfase à diversidade de cada bioma e criar relações respeitosas com a vida e a cultura dos povos que neles habitam.
Três exercícios espirituais são intensificados neste período de preparação, e busca de conversão: esmola, oração, jejum. Eles devem nos levar ao reconhecimento da necessidade da partilha, a evitar que nosso coração seja prisioneiro dos bens materiais, a nos voltarmos ao Senhor e só a Ele servir.
Não podemos ficar com esta fé do milagre, esta fé que acreditamos só quando vemos cura. É tempo de conversão
Jesus nos apresenta algumas máximas, e uma delas é: “não podeis servir a dois senhores” (cf. Lc 16,1-13), e Jesus dá nome a esses dois senhores: Deus e ao dinheiro.
Jesus não está dizendo que nós teremos que viver sem dinheiro, sem bens. Pensar assim é ter uma visão muito simplista da palavra de Deus. O que Nosso Senhor está dizendo é que nós não podemos nos apegar e colocar nosso coração nos bens materiais, manipular o próximo para proveito próprio, sermos coniventes com a injustiça.
Não quero aqui fazer apologia à pobreza nem à riqueza. O que Deus quer de nós é que sejamos solidários, que tenhamos essa disposição de partilhar o que temos, porque essa desigualdade de poucos terem muito, e muitos terem nada, não agrada a Deus.
Na Quaresma nos cabe uma reflexão profunda, se, de fato, temos uma fé amadurecida. Para a grande maioria, se eu perguntar: quem acredita em Deus? Todos levantam a mão. Mas em que Deus nós acreditamos? Um Deus que não compromete? Um Deus que não tem nada a ver conosco?
Não podemos ficar com esta fé do milagre, esta fé que acreditamos só quando vemos cura. É tempo de conversão, de voltar-se ao Senhor. É uma luta constante, mesmo na vida dos santos; é a busca de servir a um único Deus, vivo, que requeira esforço. E isso não se dá de uma só vez, mas a cada dia, renunciando a tudo o que nos afasta de Deus e nos aproximando da luz que é Jesus Cristo.
(*) Fundador e presidente da Associação Evangelizar é Preciso e pároco reitor do Santuário Nossa Senhora de Guadalupe, em Curitiba (PR).
Fonte: O Povo, de 6/3/2017. Espiritualidade/Opinião. p.17.
 

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