quarta-feira, 2 de novembro de 2011

PINÇANDO O NOME

Corria os anos sessenta, na Faculdade de Medicina da UFC, e os acadêmicos do segundo ano estavam revoltados por conta do comportamento de um professor. Liderados pelo Diretório Acadêmico XII de Maio, eles decidem fazer uma representação oficial contra esse mestre, na Congregação da Faculdade, com registro prévio da denúncia em cartório, que conteria a assinatura de todos os integrantes da turma.
O recolhimento das assinaturas do documento-denúncia seguia fácil, com a plena adesão dos estudantes, cônscios da justeza do pleito. Havia um acadêmico, no entanto, filho de um professor da faculdade, que embora estivesse de acordo com a proposição, tergiversava, protelando, ganhando tempo, talvez na tentativa de ser esquecido, pois tinha receio de que seu pai, um dos membros da Congregação, ficasse chateado com ele, ou, quem sabe, por não desejar se indispor com os professores, amigos do seu genitor.
Quando somente faltava a sua assinatura, o assédio crescia e o cerco se fechava, com ele no meio, percebeu que poderia até cair no ostracismo; daí, concordou, finalmente, em participar do abaixo-assinado, porém, temendo alguma conseqüência pessoal ou familiar, assinou-o, com letras pequenas, nas entrelinhas, usando apenas parte do seu nome: Carlos Heitor (nome fictício).
Não se sabe se houve qualquer intencionalidade ou por mero acaso, mas, para azar dele, o tabelião pinçou o seu nome, para fins de protocolo do documento-denúncia, registrando: Carlos Heitor e outros. O tiro, como se vê, saiu pela culatra.
Marcelo Gurgel Carlos da Silva
Sobramista e membro da ACM
* Publicado In: SOBRAMES – CEARÁ. Passeata literária. Fortaleza: Sobrames-CE/Expressão, 2011. 232p. p.176.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

PUGILISMO SEMIÓTICO

Por Ricardo Alcântara (*)
O hit brega “Entre tapas e beijos” talvez fosse a melhor trilha sonora para um enredo sobre o relacionamento esquizóide do grupo político do governador Cid Gomes com os aliados da prefeita Luizianne Lins.
Enquanto governador e prefeita evitam manifestar publicamente suas maiores diferenças, há gente escalada por pelo menos um deles para dar os recados mais duros e expor o custo da aliança a patamares alavancados.
Curioso é que, agora, a artilharia não obedece ao comando das lideranças do PT, cujo DNA registra a virulência como modelo recorrente. Os pugilistas estão ao lado do governador. Bem ao lado do governador, diga-se.
Enquanto o secretário Arialdo Pinho, cão de guarda de todos os contratos, dispara seus mísseis pelo twitter, o irmão Ciro Gomes usa os meios convencionais de imprensa para esculachar com a gestão de Luizianne.
Aos ataques frequentes, o PT vinha dando o calado como resposta por acreditar que, suportando em contrição os desaforos, conseguiria, ao fim, emplacar um nome do partido e manter a aliança na sucessão de Luizianne.
O observador dos fatos precisa compreender que o nome disso é Teatro. O estado de ânimo, manifestado com tinturas de espontaneidade, obedece a um roteiro onde se criam, no plano simbólico, gestos de simulação.
O que ocorre ali, mais do que um confronto substantivo, é, paradoxalmente, um diálogo e, através dele, o que menos se pretende é medir forças, como aparentemente é sugerido, e sim desenhar afirmações simbólicas.
Assim, o que mais objetivam os arroubos de uns é preservar uma “identidade positiva”, susceptível de desgaste na práxis de uma aliança com quem está, naquele momento, percebido com ressalvas pela opinião pública.
Para duvidar da sinceridade de Ciro Gomes quando se mostra indignado com as mazelas da cidade basta constatar que, mesmo no poder a mais de vinte anos, ele fala como se a sua atuação não fosse parte do problema.
Se as manobras de simulação serão, mais adiante, reproduzidas no campo de batalha eleitoral, vai depender menos do estado de ânimo pessoal e mais do que for indicado pela conjuntura: em política, os intoleráveis se toleram.
Em encontro recente, a direção petista decidiu não mais deixar tais críticas sem resposta. Com a contrita passividade como as suportaram, haviam já dado eles à percepção pública suficiente demonstração de boa vontade.
Agora, foi prometido ali praticar-se o método básico: “bateu, levou”. A reação imediata na outra margem da aliança foi um eloquente silêncio. Pois antes tarde do que nunca. Havia mesmo um forte odor de covardia no ar.
(*) Jornalista e escritor. Publicado In: Pauta Livre.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

PRÊMIO IgNOBEL - 2008

Arqueologia: Astolfo Gomes de Mello Araújo e José Carlos Marcelino, do Brasil, por demonstrarem que os tatus podem misturar os vestígios em um sítio arqueológico.
Biologia: Marie-Christine Cadiergues, Christel Joubert e Michel Franc, pela descoberta de que as pulgas que vivem nos cães pulam mais alto do que as que vivem nos gatos.
Química: Sheree Umpierre, Joseph Hill e Deborah Anderson, por constatarem que a Coca-Cola é um espermicida eficiente, e C.Y. Hong, C.C. Shieh, P. Wu e B.N. Chiang, por provarem o contrário.
Ciências cognitivas: Toshiyuki Nakagaki, Hiroyasu Yamada, Ryo Kobayashi, Atsushi Tero, Akio Ishiguro e Ágota Tóth, por descobrirem que os micetozoários podem resolver problemas e quebra-cabeças.
Economia: Geoffrey Miller, Joshua Tyber e Brent Jordan, por descobrirem que dançarinas de strip tease ganham mais dinheiro nos períodos de fertilidade.
Literatura: David Sims, por seu estudo “You Bastard: A Narrative Exploration of the Experience of Indignation within Organizations” (Seu idiota: investigação da experiência da indignação dentro das organizações).
Medicina: Dan Ariely, por demonstrar que placebos caros são mais eficientes do que placebos baratos.
Nutrição: Massimiliano Zampini e Charles Spence, por demonstrarem que a comida é mais saborosa quando soa crocante.
Paz: O Comitê Federal Suíço de Ética em Biotecnologia Não-humana e os cidadãos suíços, por adotarem o princípio legal de que as plantas têm dignidade.
Física: Dorian Raymer e Douglas Smith, por provarem que montes de corda ou cabelo inevitavelmente embolam.
Fonte: wikipedia.org

domingo, 30 de outubro de 2011

O BRASIL ANEDÓTICO XXXIII

VÃO DISCUTINDO...
Tobias Monteiro - Pesquisas e depoimentos", pág. 114.
Espalhada a notícia dos acontecimentos de 10 de abril de 1892, os políticos começaram a correr para o Itamaratí oferecendo os seus serviços. De repente, soube-se que o estado de sítio fora decretado, e que o Marechal ordenara a prisão de diversos congressistas.
Esta última notícia alarmou os próprios amigos do ditador, alguns dos quais comentavam o caso em um dos corredores da residência presidencial, quando Floriano passou por eles e indagou:
- Que é que vocês conversam?
Um deles, mais íntimo, disse a verdade. Achavam a medida violenta e perigosa.
- Bom, - fez Floriano, ciente do assunto.
E afastando-se:
- Vão discutindo que eu vou mandando prender.
UMA INJÚRIA
Osvaldo Cruz - Discurso de recepção na Academia Brasileira de Letras, 1913.
Era Raimundo Correia promotor público em São João da Barra, quando um chefe político o procurou, pedindo-lhe uma palavra em particular. Atendido, este explicou-lhe, nervoso:
- Contaram-me, doutor, uma coisa muito grave a seu respeito, mas eu confesso-lhe que não acreditei. Para tranqüilidade minha, porém, venho contar-lhe o que se anda dizendo por aí do senhor.
- Andam dizendo que o senhor é poeta!
- É falso! É falso! - protestou Raimundo, de pé.
E estendendo-lhe a mão:
- O senhor fica autorizado, em meu nome, a rebater essa "ofensa"!
O LAR E A RELIGIÃO
Múcio Teixeira - "O Imperador visto de perto", pág. 116.
Em sua última viagem, em 1886, ao interior de São Paulo, o Imperador Pedro II visitava uma escola, quando uma menina de oito anos, a mandado da professora, começou a recitar o Credo. Em certa altura, quando a pequena dizia que Jesus fora concebido de Maria Virgem, "virgem antes do parto, durante o parto e depois do parto", o monarca interrompeu-a e, voltando-se para a educadora:
- Não acrescente nada ao Credo; esta oração é a síntese completa da nossa religião. Nem entre na questão da Conceição, que é um dogma muito recente.
E virando-se para um jornalista:
- A religião deve ser ensinada pelas próprias mães; só na falta destas é que pode ser confiada à professora.
OS PEIXES DO BRASIL
Afonso Arinos - Discurso na Academia Brasileira de Letras
De regresso de uma das suas viagens à Europa, trouxe Eduardo Prado para a sua fazenda do Brejão uma infinidade de anzóis, pesos, iscas artificiais, destinados à pesca, no rio. Ante as minhocas de borracha que os caboclos supuseram enfeite para pescoço, Eduardo explicou:
- É com isto que se pesca na Inglaterra.
- Quá, seu dotô! - fez, rindo, o caboclo mais velho.
E incrédulo:
- Os nosso peixe de cá não pega nisso, não! eles são muito velhaco! quando nas iscas de devéra eles custa, quando mais, nessa!...
Fonte: Humberto de Campos. O Brasil Anedótico (1927).

sábado, 29 de outubro de 2011

PARTICIPAÇÃO EM “PASSEATA LITERÁRIA”


Um alentado público, composto de mais de duzentas pessoas, compareceu ontem (28/10/11), à Célula de Arte e Cultura da Unicred Fortaleza, para acompanhar o lançamento de PASSEATA LITERÁRIA, a Antologia da Sobrames de 2010, produzida sob a nossa organização, reunindo contribuições literárias de cinqüenta participantes.
Além da apresentação, nela publiquei quatro textos de nossa autoria: Pinçando o nome; Decisão sacramental; Do público à privada; e Os pares cranianos. Esse material será postado neste blog, observando a seqüência citada.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

DIAGRAMAS CONVINCENTES

Dois amigos estavam fumando maconha e foram pegos pela polícia.
No dia do julgamento o juiz, que estava de bom-humor, disse:
- Vocês parecem ser boas pessoas, por isso lhes darei uma segunda chance!
- Ao invés de irem pra cadeia, vocês terão que mostrar para as pessoas os terríveis males das drogas e convencê-las a largá-las!
- Compareçam ao tribunal daqui uma semana, pois eu quero saber quantas pessoas vocês convenceram!
Na semana seguinte os dois voltaram e o juiz perguntou para o primeiro homem:
- Como foi sua semana, rapaz?
- Bem, meritíssimo, eu convenci 17 pessoas a pararem de consumir drogas para sempre!
- 17 pessoas? - disse o juiz, satisfeito - Que maravilha. O que você disse para elas?
- Eu usei um diagrama, meritíssimo. Desenhei 2 círculos como estes:
O o
Aí apontei pro círculo maior e disse:
- Este é o seu cérebro em tamanho normal... - e apontando pro menor - E este é o seu cérebro depois das drogas!
- Muito bem! - aplaudiu o juiz, virando-se para o outro sujeito - E você? Como foi sua semana?
- Eu convenci 234 pessoas, meritíssimo!
- 234 pessoas? - exclamou o juiz, pulando da cadeira - Incrível!Como você conseguiu isso?
- Utilizei um método parecido com o do meu colega. Desenhei 2 círculos como estes:
o O
- Mas eu apontei para o círculo menor e disse:
- Este é seu c... antes da prisão - apontando para o menor - E...
Fonte: Internet (circulando por e-mail).

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

ALIANÇA PT-PSB: ruim com ela, pior sem ela?

Por Ricardo Alcântara (*)
O cenário atual do processo de definição eleitoral para a sucessão municipal de Fortaleza indica que temos mais pré-candidatos “alternativos” do que propriamente de oposição ao nome que será indicado pelo partido da prefeita.
Os que poderiam ser tomados como opositores – se oposição de fato fizessem – seriam os partidos excluídos da base de apoio ao eixo hegemônico que começa em Brasília, faz escala no Abolição e termina no Palácio do Bispo.
O estado de letargia deles tem lá suas causas: temem retaliações a um enfrentamento, ainda sofrem o trauma com o débâcle da liderança de Tasso Jereissati e não fizeram lá muita coisa para que a cidade neles se reconheça.
Assim é que os que se insinuam à disputa vêm da própria composição governista e, como tal, não se apresentam como oposição a Luizianne, mas somente como uma alternativa “provavelmente mais qualificada”.
PDT (Heitor Férrer), PCdoB (Inácio Arruda) e PMDB (Danilo Forte) não apenas estão impedidos de partir para o confronto aberto com a prefeita como são postulantes vulneráveis às pressões das três esferas de governo.
Somente o aliado mais forte, o PSB do governador Cid Gomes, vejam só, é que deflagrar projetos com força para estabelecer um discurso eleitoral francamente contestador ao desempenho da administração petista.
Fora disso, o jogo está marcado: se a oposição “Cinderela” continuar dormindo e o governador conter os conflitos numa aliança que se derrete como gelo à luz do sol, poucas chances terá o PT de colocar tudo a perder.
Já o fim da aliança, no qual alguns já apostam, fracionaria a base de apoio ao governo federal no âmbito estadual, tornando a permanência do PT na prefeitura, mal avaliada nas pesquisas, apenas uma possibilidade a mais.
(*) Jornalista e escritor. Publicado In: Pauta Livre.

 

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