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quinta-feira, 16 de julho de 2026

VOLTANDO À (IN)TOLERÂNCIA

 Por Vladimir Spinelli Chagas (*)

Em 2020 estreei nessas páginas com um simbólico artigo "No Reino da Tolerância", por sentir que se agravava, cada vez mais, a falta de diálogo, o desrespeito às opiniões alheias, a falta de reflexão. Então, propunha que eu e você nos tornássemos mais tolerantes para debater fatos e não irmos ampliando as discussões como uma guerra.

Voltei ao tema mais quatro ou cinco vezes, sempre com a perspectiva de que, conseguindo adesão de meia dúzia de pessoas, já teríamos um bom início para que a convivência se tornasse mais amigável, mesmo entre aqueles que defendem ideologicamente campos opostos. Afinal, em que parte do Livro da Vida temos alguma lei que estabeleça a Verdade Absoluta? Não conheço. Pelo contrário, todo ele sempre se dedica a destacar que o amor ao próximo é uma regra pétrea.

Ora, como amar sendo intolerante? Os momentos de mais tensão se deram nos processos eleitorais que vivenciamos desde então. Agora mesmo, começamos uma nova refrega, na qual veremos menos propostas reais em benefício do povo e mais agressões e violência. Ora, nós eleitores seremos, mais uma vez, vítimas de nossas ações e omissões, aceitando esse quadro de discussões estéreis em vez de exigirmos, como é de nosso direito, que o debate vá para o campo de ações públicas?

Já perdemos demais com um Legislativo que não honra o passado de tantos cidadãos até hoje respeitados por suas posições como verdadeiros representantes do povo, que lhe dá os votos. O poder executivo, em todos os níveis, também não é exemplo de real preocupação com a população, que também os elegeu e tem visto um distanciamento das poucas promessas de campanha que a beneficiaria.

Em relação ao Judiciário, as notícias que são estampadas diuturnamente também ferem de morte o direito do cidadão. Nos níveis superiores, não foram eles eleitos, mas escolhidos por quem o foi, com um compromisso assumido de pugnar pela Justiça, pela Democracia e pela defesa intransigente da Constituição, de que são os guardiões.

"Tolerância, mesmo que utópica, continua sendo uma ideia que defendo com veemência. E uma reflexão que proponho mais uma vez." E uma vez mais.

(*) Professor aposentado da Uece, membro da Academia Cearense de Administração (Acad) e conselheiro do CRA-CE. Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Fortaleza.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 15/06/26. Opinião. p.18.

sábado, 16 de maio de 2026

O QUE ACONTECEU?

Por Rev. Munguba Jr. (*)

Normalmente não assisto TV aberta. Prefiro selecionar conteúdos sob demanda e, assim, construir um conjunto de informações mais equilibrado, contemplando visões diferentes e, muitas vezes, até discordantes entre si. No entanto, nas últimas semanas, percebi uma mudança de direção nos editoriais da grande mídia.

O que, até pouco tempo atrás, era tratado como ataque ao Judiciário e à democracia, passa agora a ser apresentado sob a antiga e apropriada perspectiva da liberdade de imprensa. Na realidade, nunca se tratou de ataque, mas de críticas, algo essencial em qualquer sociedade democrática.

Fico satisfeito em perceber o retorno de um jornalismo mais firme, combativo e investigativo, comprometido com a apresentação honesta dos fatos. Quando os diferentes lados de uma notícia são expostos com clareza, todos ganham.

Em momentos recentes, aplausos foram direcionados ao ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes, mesmo diante de decisões controversas, como prisões e condenações severas, além de medidas monocráticas que atingiram jornalistas e cidadãos comuns por manifestações de pensamento divergente. Esse cenário levanta reflexões importantes sobre limites, equilíbrio e responsabilidade institucional.

Não se trata de direita ou esquerda. A polarização sempre existiu e continuará existindo. O ponto central é a defesa de uma imprensa livre, equilibrada e corajosa, não subserviente a qualquer poder.

A Bíblia afirma que a nossa palavra deve ser "sim, sim; não, não". Isso remete à clareza e à honestidade. É legítimo que o jornalista expresse sua opinião, desde que o faça de forma transparente, distinguindo claramente o que é fato, o que é interpretação e o que é posicionamento pessoal.

A recente cobertura de temas como o Banco Master e o INSS, sem poupar agentes de diferentes espectros políticos, traz um novo fôlego ao jornalismo.

O Brasil precisa, com urgência, de seus jornalistas plenamente ativos: livres, íntegros, investigativos e profundamente comprometidos com a verdade.

(*) Pastor Munguba Jr. Embaixador Cristão da Oração da Madrugada e Erradicação da Pobreza no Brasil e presidente da Igreja Batista Seven Church.

Fonte: O Povo, 11/04/2026. Opinião. p.20.


terça-feira, 7 de outubro de 2025

"REALPOLITIK"

Por Carlos Roberto Martins Rodrigues Sobrinho (Doutor Cabeto) (*)

Discordo da estratégia que justifica a forma pragmática que perpetuamos o poder em nosso país. Refiro-me a escolha de estratégias de poder em detrimento de noções ideológicas, ou seja, às custas do sacrifício do bem comum. Faz-se, frequentemente, com políticas coercitivas e imorais. Para Nietzsche, trata-se de um tipo de ceticismo moral, onde as relações de poder tendem a destruir todas as pretensões de fundamentação moral.

No pragmatismo desprovido de qualquer conceito ideológico se estabelece uma relação promíscua entre os poderes, visto que a lei rege as relações entre o poder e a sociedade. Sócrates afirmava que a ruína de uma sociedade acontece pela sujeição da lei ao governante e sua salvação pela imposição da lei sobre os governantes, tornando-se, a si mesmos, obedientes à lei. Infelizmente, nos dias atuais, continuamos a assistir a implantação de leis formuladas para manter os interesses dos governantes.

Assim, a “Realpolitik” é aplicada para assegurar interesses, requerendo o sacrifício de princípios ideológicos. Um dos exemplos, aconteceu nos EUA durante as administrações de Nixon e Reagan, as quais, frequentemente, apoiaram governos que violavam os direitos humanos, em princípio, para assegurar o interesse nacional norte-americano.

No Brasil, podemos citar a proposta da reeleição e, principalmente, a governabilidade obtida pela cooptação do legislativo através de favores e emendas parlamentares desprovidas de qualquer critério de eficiência em sua aplicação. Assim sendo, formam-se concepções diferentes. Pois, para os opositores são atitudes imorais, enquanto para os situacionistas um argumento de que estariam operando nos limites práticos.

Pois bem, o que fazermos para reverter esse destino social perverso?. A meu entender, alguns pontos devem ser lembrados para uma análise mais crítica. Em primeiro aspecto foi a vida em comunidade que permitiu a expansão da civilização humana, e através da preservação da sua identidade, dos seus conceitos e valores. Em segundo, entendemos o mundo como comunidades, países sem fronteiras.

Dessa forma, seria conveniente pensar sobre uma outra proposta de organização de sociedade, ou seja, revertendo o modelo atual e de séculos passados. Luc Ferry propôs uma "política de civilização" que norteia-se em questões práticas, fundamentadas no coletivo a serviço das pessoas. Trata-se de uma mudança de paradigma, pois modifica a atual visão de Estado e volta-se para o binômio família e empresas, propondo estratégias objetivas, econômicas e sociais, como meio de mudança da realidade atual.

Mas, para tal, precisamos crer na possibilidade de mudar, como dizem realizar um “Turnaround”, ou seja, romper com a “realpolitik”. Creio ser a única forma de restabelecer a credibilidade e fortalecer a democracia. Provavelmente, uma saída inexorável. Espero que aconteça de forma espontânea, inteligente e justa. Se não, vamos assistir ao aumento da barbárie em que já vivemos.

(*) Médico. Professor da UFC. Ex-Secretário Estadual de Saúde do Ceará.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 6/09/2025. Opinião. p.21.


terça-feira, 9 de setembro de 2025

POSOLOGIA

Por Luiz Gonzaga Fonseca Mota (*)

As atividades desenvolvidas por um médico, guardam muita semelhança com aquelas executadas pelos economistas. Nas duas são, relativamente, mais fáceis os diagnósticos e as terapêuticas, isto é, a identificação de uma doença ou problema e a determinação dos meios adequados para superação. Todavia, a grande dificuldade para encontrar uma solução eficaz está em definir a posologia, ou seja, a dosagem correta do medicamento ou da política econômica, não implicando em efeitos colaterais negativos. Muitas vezes um paciente toma uma dose de dipirona para combater uma dor de cabeça e o resultado é uma agressão ao fígado ou, de forma descontrolada, ingere antibióticos para debelar uma infecção provocando resultados indesejáveis na flora intestinal. Por sua vez, na economia, ao adotar-se uma política de combate à inflação, mediante a elevação da taxa de juros, via de regra, o resultado poderá ser uma expansão do nível de desemprego ou então manter um câmbio fixo poderá implicar numa queda de competitividade dos bens e produtos de exportação, com reflexos não interessantes no balanço de pagamentos. Dessa forma, tudo tem que ser conduzido de forma racional, observando as dosagens e as políticas corretas. Além dos efeitos colaterais, tanto os médicos como os economistas devem observar os fatores externos ou as possíveis variáveis aleatórias, pois podem causar impactos não esperados. O grande desafio desses profissionais, em última análise, é, de um lado, conciliar objetivos conflitantes, o que não é fácil, de outro, determinar com precisão a posologia adequada. A rigor, ambos os profissionais trabalham com a vida humana. O primeiro de uma forma mais direta e o outro de uma maneira mais ampla. Assim, diz-se que quando um médico se engana, a consequência, geralmente, é no varejo; por sua vez, quando o economista erra na formulação de uma diretriz, o efeito é no atacado. Um remédio prescrito de forma inadequada pode ser fatal. Já uma política salarial injusta, por exemplo, definida para um país, poderá provocar resultados negativos que atingem uma grande quantidade de pessoas.

(*) Economista. Professor aposentado da UFC. Ex-governador do Ceará.

segunda-feira, 11 de setembro de 2023

OS FARAÓS DO BRASIL

Por Pedro Henrique Chaves Antero (*)

Costuma-se dizer, em linguagem proverbial, que a história se repete. Acertos e erros, praticados no passado, voltam a ocorrer sempre que os homens agem em relação aos seus semelhantes ou aos seus negócios.

No Egito, por volta do século 13 antes de Cristo, os descendentes de Jacó ali viveram por mais de 450 anos e constituíram uma nação conhecida como a nação de Israel. E, sob o governo de uma dinastia de faraós autoritários, os egípcios começaram a encarar o povo israelense como uma ameaça a seu império, submetendo esse povo, então, a rígido controle e à restrição de suas liberdades.

Após perseguições e sofrimentos, foi necessário o surgimento de um grande líder, de nome Moisés, que chefiou os israelitas na libertação da escravidão, rumo à terra de Canaã, a assim chamada "terra prometida".

À semelhança da antiga nação israelita, o povo brasileiro está marchando, a passos largos, para uma situação de opressão por parte do governo Lula, em parceria com o Supremo Tribunal Federal. Essa Corte, de modo ostensivo, tem adotado um ativismo político e oprimido muitos daqueles que discordam de sua visão de mundo e de governo. Lula prega o comunismo, sem reservas e com ar de vingança, e estreita, cada vez mais, seu relacionamento com os países dirigidos por ditadores de esquerda. Venezuela, Cuba e Nicarágua, na América Latina, tornaram-se protótipos da ideologia e da administração desejadas pelo nosso presidente.

Embora o povo brasileiro tenha elegido, em 2018, um presidente que poderia ter barrado essa marcha para a ditadura esquerdista, as ações políticas, adotadas por Bolsonaro e consideradas "dentro das 4 linhas", não produziram os efeitos desejados. Ao contrário, as práticas democráticas do ex-presidente foram destruídas por um ativismo judicial que atendeu de pronto às necessidades da esquerda para a tomada do poder. Assim é que Lula foi solto e eleito presidente, o regime de presos políticos foi inaugurado e a retomada da corrupção e da gastança do dinheiro público foi comemorada pelos companheiros.

Os faraós do Brasil sufocam, neste momento, a população brasileira que sonha com o liberalismo democrático, apenas degustado durante quatro anos no governo Bolsonaro. Agora, resta esperar o que acontecerá com as eleições municipais de 2024 e as eleições gerais de 2026. Serão elas capazes de reorientar a política brasileira no caminho certo da liberdade? Ou outras ações se farão necessárias?

Israel teve Moisés para organizar o seu êxodo. O Brasil democrático, tendo em vista a inelegibilidade de Bolsonaro, seu maior líder, terá que preparar políticos de envergadura para evitar a consumação do comunismo e a consequente escravidão do povo brasileiro.

(*) Ex-professor de Ciências Políticas.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 6/08/23. Opinião, p.18.

segunda-feira, 28 de agosto de 2023

JUROS E INFLAÇÃO

Por Luiz Gonzaga Fonseca Mota (*)

Entendemos por política monetária a fixação de determinados instrumentos pelas autoridades, visando ao controle dos meios de pagamentos. Dessa maneira, o objetivo básico é influenciar o nível de oferta de moeda, mediante mecanismos expansionistas ou contracionistas. Ao longo do tempo, aqui no Brasil, foram usados instrumentos como as operações de redesconto e de mercado aberto, os recolhimentos compulsórios, principalmente com relação aos depósitos à vista e as modificações diretas nas taxas de juros. A Utilização desses instrumentos pode variar de governo para governo e de época para época. As dificuldades com a aplicação da política monetária estão associadas à complexidade dos elementos integrantes do mercado financeiro e, notadamente, à existência, quase sempre, de objetivos conflitantes relacionados com crescimento econômico, inflação e emprego. De maneira geral, pode-se dizer que os principais efeitos da política monetária são levados ao setor real da economia por meio de alterações nas taxas de juros e na disponibilidade de crédito. As principais aplicações da política monetária dizem respeito a três situações: tendência deflacionista, tendência inflacionista e déficits orçamentários. No Brasil, nos últimos anos, com receio da volta da inflação, as autoridades vêm adotando políticas contracionistas, ou seja, reduções na oferta de moeda, motivando o desestímulo à produção, à redução do nível de emprego, bem como ao arrefecimento da procura. Vale ressaltar que uma política monetária fortemente antiinflacionária pode levar a economia de um país de uma situação com perspectiva de elevação de preços para uma depressão. Dessa forma, sua aplicação deve ser feita, criteriosamente, levando-se em conta uma dosagem adequada, como também as peculiaridades sociais do país. Por outro lado, acreditamos que a política monetária, isoladamente, apresenta eficiência duvidosa, sendo que sua aplicação deve ser concretizada dentro de uma política econômica ampla, abrangendo componentes fiscais, cambiais etc. Ademais é preciso levar em consideração o tipo de inflação, isto é, se de demanda, de custo ou setorial. Outro ponto significativo, por exemplo, diz respeito à estrutura de passivo das empresas, de vez que unidades pouco capitalizadas necessitam de empréstimos a qualquer taxa de juros, transferindo o custo financeiro para os compradores, o que poderá realimentar um processo inflacionário em vez de conter. Por fim, consideramos, de um lado, ser a inflação um processo circular em que é difícil o estabelecimento de relações de causalidade e, por outro, que a interação existente entre as forças de mercado, mesmo diante de interferências das autoridades governamentais, pode distorcer a sistemática de análise.

(*) Economista. Professor aposentado da UFC. Ex-governador do Ceará.

Fonte: Diário do Nordeste, 30/06/2023. Ideias.

quarta-feira, 2 de agosto de 2023

IDEOLOGIA, QUEREMOS UMA PARA VIVER!

Por Carlos Roberto Martins Rodrigues Sobrinho (Doutor Cabeto) (*)

Há tempos me questiono sobre o nosso futuro, e do porquê desse vazio, de um certo apagão de ideais.

Alguns dizem que já não existem homens que servem aos sonhos coletivos, especialmente os que tratam de benefício à sociedade. Refiro-me a um certo tempo de dedicações ao intangível, sobre solidariedade, sensibilidade e capacidade de ceder. Pois, costumo dizer que ganha quem cede. Trata-se do exercício de desprender-se das "verdades", e entender outras vertentes.

A ideologia nos norteia, toma forma sob diversos conceitos, de uma ciência das ideias, termo estabelecido pelos ideólogos franceses, à visão marxista sobre a consciência falsa- um conjunto de ideias que oculta a realidade como forma de estabelecer uma relação de domínio.

Mas como construir essa ideologia num mundo globalizado, que une culturas e civilizações diferentes? Como elaborar ideais num mundo Vuca, complexo, volátil e ambíguo?

Os inimigos não são mais palpáveis ou perceptíveis. Não são nações e seus valores ligados a qualquer modelo de estado. Não é o comunismo, o capitalismo ou qualquer outro regime que hoje nos aflige, e sim uma transformação instantânea da forma de viver, de amar e de desejar, sem citar um certo desvio das virtudes, valores que conduzem a uma sociedade mais justa.

Tudo está sendo posto em questão, os títulos, os tratamentos pessoais, a hierarquia e até os métodos científicos.

Em alusão a esse momento, Dr. Adrian, professor de medicina da Universidade da Catalunha, resgata em artigo valores atemporais como a honestidade, a honradez, a lealdade, a integridade, o talento, a responsabilidade e a dedicação.

A evolução tem seu caminho, e por Freud em três grandes transições que passam pela percepção do universo de Copérnico, pela teoria da evolução das espécies e da descoberta do inconsciente.

Enfim, o mais evidente é a desconstrução do egocentrismo, e da percepção das nossas vulnerabilidades diante da inexorabilidade do tempo. Tudo que transforma tudo em relativo! Assim sendo, evoluir é amadurecer, pressupõe dar colo a alma e ao espírito, significa dar cabimento às mudanças e às diferenças, permitindo-nos uma passagem mais terna.

(*) Médico. Professor da UFC. Ex-Secretário Estadual de Saúde do Ceará.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 18/06/2023. Opinião. p.19.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023

LOJAS AMERICANAS PELO RETROVISOR

Por Henrique Soárez (*)

"Todos os pagamentos foram feitos." E "o efeito no caixa é imaterial." Tradução: ninguém se apropriou indevidamente de recursos da empresa. E entretanto, se bem feita a contabilidade, a empresa tem dezenas de bilhões de dívida além do que os credores imaginavam. E os diretores foram recompensados por lucros que a rigor não existiram.

Nada disso é inédito. Diz Ray Dalio: "depois que os bancos centrais aumentam os juros os credores pedem falência, fraudes são expostas e a contratação do crédito pode impactar a economia real." Nas Lojas Americanas as despesas com juros, por exemplo, subiram de R$ 542 milhões nos 3 primeiros trimestres de 2021 para R$ 1,6 bilhão no mesmo período de 2022.

Na década de 60, Warren Buffet decidiu que valia a pena pagar para que a American Express saísse limpa de um escândalo envolvendo a substituição de óleo de cozinha (que deveria servir como garantia de transações de crédito) por água do mar em dezenas de tanques. A companhia honrou os credores porque os acionistas apostaram que a reputação da firma era um ativo que iria gerar retornos maiores no longo prazo.

Eugene Soltes, professor de Harvard, é autor de um interessante livro sobre fraude corporativa. Em 2021 ele elaborou um estudo de caso sobre a disposição da InBev para utilizar inteligência artificial na identificação de fraude e corrupção nas suas operações em mais de uma centena de países. É interessante notar que acionistas cuidadosos devem investir energia tanto para detectar desvios pequenos entre vendedores e gerentes quanto para evitar decisões questionáveis de diretores e executivos "C-level".

Algumas destas decisões começam pequenas e crescem até serem impossíveis de ignorar. Quando houve a combinação de B2W e Americanas no 2º trimestre de 2021, de certo houve uma cuidadosa comparação linha-a-linha dos dois balanços para determinar a razão de troca de ações. Ficam então algumas perguntas para os especialistas no tema: as práticas contábeis das duas empresas eram as mesmas? Os acionistas minoritários que detinham 37,6% do capital social da B2W permanecem satisfeitos com a troca após as divulgações das últimas 2 semanas?

(*) Engenheiro eletricista, diretor do Colégio 7 de Setembro e da Uni7.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 26/01/23. Opinião, p.20.


terça-feira, 24 de janeiro de 2023

JANEIRO, 2023

Por Vladimir Spinelli Chagas (*)

Comecei o ano de 2021, neste espaço, com uma reflexão sobre a nossa tendência a fazermos um balanço de ativos e passivos no período findante, colocando o que consideramos positivo de um lado, balanceando com o que classificamos como negativo.

Agimos como se nos espelhássemos nas empresas, que precisam desse balanço para apurar os resultados, cumprir suas obrigações e reabrir a contabilidade para um novo período, avaliando necessidades de mudanças no percurso.

Avaliar nossos momentos dentro desse tempo-calendário não é fora de propósito. Até entendo que o devamos fazer mais amiúde, pois nossos ativos e passivos são muito mais importantes do que os empresariais. Envolvem sentimentos que transmitimos e que recebemos.

Quando atravessamos essas "festas de fim de ano", época sempre propícia para essas práticas, nem sempre conseguimos fazer esse "encontro de contas "da melhor forma. Carregamos as tintas naquilo que colocamos na conta dos arrependimentos, como se um retorno ao passado fosse possível e, se o fosse, pudéssemos mudar esse passado.

Ora, continuo com meu pensamento de que, tudo o que nos aconteceu durante qualquer que seja o período que analisemos, foram experiências de vida que nos permitiram crescer. Às vezes, apanhando como massa de bolo. Outras, de forma leve e agradável.

O certo é que tudo no universo se rege por ciclos. A Lua, por exemplo, no espaço de duas semanas passa da invisibilidade para totalmente vestida de luz. Mais duas semanas e estará novamente na escuridão. O Sol, a cada 24 horas, vai aparecer no horizonte, mesmo que, por vezes encoberto por pesadas nuvens.

Nos chamados Reinos da Natureza, também temos a regência de ciclos. Uma rocha, por mais dura que possa ser, a cada dia estará diferente, mesmo que não percebamos. Vegetais e animais nascerão, crescerão e fenecerão, em períodos maiores ou menores, mas inexoráveis.

Assim, penso que aproveitar da melhor forma possível todas as experiências vividas, sempre as considerando positivas por nos proporcionarem lições para a frente, é um exercício nem sempre fácil, mas absolutamente indispensável. 

(*) Professor aposentado da Uece, membro da Academia Cearense de Administração (Acad) e conselheiro do CRA-CE.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 2/01/23. Opinião, p.20.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2023

NO REINO DA TOLERÂNCIA IV

Por Vladimir Spinelli Chagas (*)

Meu primeiro artigo para essa série de colaborações no O POVO, em fevereiro de 2020, trouxe o tema O Reino da Tolerância por já sentir, à época, um recrudescimento da intolerância nas relações pessoais, por motivações que não considero minimamente justificáveis.

Foi assim em relação às ações no enfrentamento à Covid19, especialmente nas questões envolvendo economia e saúde, vacinação, adoção de medidas de isolamento ou distanciamento social, dentre outras. O quadro eleitoral não poderia fugir a este triste e lastimável padrão.

As discussões continuaram estéreis, pois preferimos nos fechar em nossas convicções, como se não fosse possível haver algum indício sequer de inteligência, naqueles que pensem de forma diferente da nossa. Quanta ilusão!

O alargamento das interferências do Judiciário, com decisões muitas vezes mais propulsoras do que redutoras desse clima, e os ataques ao Supremo passaram a ser mais um ponto a mostrar a divisão entre os brasileiros, sempre a partir da intolerância.

Chegamos agora a avanços contra as liberdades individuais em "defesa da democracia", como se Democracia sobrevivesse sem liberdade plena. Mas não vemos, também aqui, uma reflexão racional sobre a dose do remédio aplicado. Isto não parece necessário ao todo, mas apenas a quem a medida atinge. Se meu bandido, aplaudo! Se meu herói, reclamo!

Repito a percepção que tenho de que não há interesse em se defender causas dentro do mínimo de respeito às escolhas do outro. Passamos a nos sentir os únicos a deter a razão e, com isso, a ter o direito de agredir o adversário, sem admitir a esse a possibilidade do revide. Queremos que ele se cale!

Assim como em fevereiro de 2021 e em fevereiro de 2022, volto a pugnar pela necessidade de praticarmos a tolerância, mesmo que se a possa considerar utópica, em vez de continuarmos nos Garantido x Caprichoso ou Fla x Flu. Lamentavelmente, o que temos visto são ações cada vez mais intolerantes de todas as partes.

Por intolerância, nós, cidadãos e eleitores, continuaremos vítimas de nossas próprias ações ou omissões. E acumularemos um passivo que adiante nos será cobrado.

(*) Professor aposentado da Uece, membro da Academia Cearense de Administração (Acad) e conselheiro do CRA-CE.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 5/12/22. Opinião, p.20.

quarta-feira, 18 de maio de 2022

MARTE OU ÁFRICA?

Por Vladimir Spinelli Chagas (*)

Desde 18 de fevereiro de 2021 o Providence, um veículo tipo rover, encontra-se explorando alguns quilômetros de Marte, com fotos, vídeos e sons daquele ainda misterioso planeta.

Para ter mais informações, serão coletadas amostras de diferentes locais da cratera onde se encontra o Providence. Mas essas amostras serão armazenadas lá mesmo e resgatadas pela Nasa, possivelmente depois de 2030.

Recentemente, assisti parte de um documentário sobre as explorações em Marte, em que eram mostradas hipóteses para uma sobrevivência humana naquele planeta, explorando vários pontos inicialmente negativos para isto. Uma questão, por exemplo, é que uma viagem a Marte tem que ser planejada para ocorrer em momento programado. Qualquer mudança de planos atrasaria o projeto em 26 meses, para retornar ao único ponto de alinhamento em que se consegue pousar com segurança.

A fina e fraca atmosfera marciana, composta em 98% de dióxido de carbono, obrigar-nos-ia a inalar 14 mil vezes, para respirarmos como aqui. As perigosas tempestades de poeira cobrem o planeta por meses. Água, somente nas calotas polares, na forma de gelo. Temperaturas variando de -125, no inverno, a 22 graus celsius, no verão marciano.

Tornar Marte habitável vem exigindo elevados investimentos. De 1960 a 1972, os norte-americanos investiram U$107 bilhões (preços de 2016) e, no atual orçamento, projetam outros U$26 bilhões, dos quais grande parte para o programa Artemis, que pretende retornar o homem à Lua, como uma espécie de escala para uma futura ocupação de Marte.

Enquanto isso, o ambiente na Terra vem sendo sistematicamente destruído pelo próprio homem, lembrado somente em intermináveis encontros das grandes potências, em discussões que nunca se tornam ações de fato. Se dele cuidássemos, não precisaríamos de outra casa.

E a África? Bem mais próxima, com inúmeras vantagens, uma população carente de tanto, extensas áreas que podem ser aproveitadas com tecnologias adequadas... Marte ou África? O bom senso aponta para África, mas a visão megalômana do homem, não. Destruir a Terra e partir para Marte parece ser o plano. 

(*) Professor da Uece, membro da Academia Cearense de Administração (Acad) e conselheiro do CRA-CE.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 25/04/21. Opinião, p.18.

quarta-feira, 10 de novembro de 2021

AS DOENÇAS DA INFORMAÇÃO

Por Henrique Soárez (*)

Em 1798, Timothy Dwight, presidente de Yale College, alegava que Thomas Jefferson era o candidato da Ordem dos Iluminados à presidência dos Estados Unidos. Em 1920, Winston Churchill alertava sobre uma aliança entre "judeus internacionais" e comunistas para abolir a religião e os estados-nação.

Fake news e teorias conspiratórias são coisas diferentes. Fake news são informações inverídicas circuladas intencionalmente (para descreditar algum indivíduo, por exemplo). Já uma teoria conspiratória é proferida por alguém que acredita, mesmo arriscando receber um diagnóstico de paranoia clínica, ter descoberto um plano sorrateiro em andamento para conquistar poder.

Fake news atacam pessoas, teorias conspiratórias mobilizam seguidores através do medo comum.

A relevância das teorias conspiratórias parece ter se mantido estável na última década, segundo a análise do cientista político Joseph Uscinski. Já as notícias falsas crescem rapidamente em influência: a plataforma NewsGuard calcula que o engajamento do cidadão americano médio com fontes não-confiáveis dobrou entre 2019 e 2020.

Mentiras jogadas em grupos de WhatsApp resistem até à exposição por núcleos de "fact-checking" - serviços nascidos para combater a desinformação, que logo são rotulados de tendenciosos. Assim, é preocupante que os dois principais candidatos à presidência da república em 2022 tenham relacionamentos tão inamistosos com a livre imprensa.

Bolsonaro chama de canalhas os jornalistas que o desagradam. Suas redes sociais abusam da criatividade nas narrativas para nutrir a fidelidade dos seus seguidores.

Lula, por outro lado, torna a falar em regulação social dos meios de comunicação, alude a organizações típicas de regimes autoritários e acena com a dependência de financiamento público por parte dos veículos da imprensa.

Não existe democracia sem imprensa livre. O exercício da cidadania pressupõe que o direito do voto será exercido por pessoas bem-informadas. Candidatos democráticos deveriam trabalhar diligentemente pela qualidade das informações que circulam em nosso país.

(*) Engenheiro eletricista, diretor do Colégio 7 de Setembro e da Uni7

Fonte: Publicado In: O Povo, de 7/10/21. Opinião, p.22.

quinta-feira, 4 de novembro de 2021

CRÔNICAS EM TEMPOS DA COVID-19

Por Marcelo Gurgel Carlos da Silva (*)

Em setembro de 2020, sobreveio-me a ideia da editoração de um livro coletivo, de modo a se constituir uma memória da pandemia da Covid-19, por meio de crônicas publicadas em O POVO e no Jornal do Médico Digital, no período de março a dezembro de 2020.

Essa obra, sem qualquer interesse comercial em venda de exemplares, foi lançada no formato de e-book, de livre acesso público, via download da home page da Editora da Uece.

Para a organização dessa edição, que contou com a anuência dos editores dos dois jornais, privilegiou-se o caráter cronológico em obediência à data de cada publicação. Os créditos biográficos dos colaboradores ficaram restritos aos constantes nas respectivas qualificações que acompanhavam seus artigos.

São 49 autores que contribuíram com 86 crônicas, das quais 76 de O POVO; a maioria (31) com apenas uma participação isolada; porém, 18 autores entraram com duas ou mais crônicas.

Desses colaboradores, como seria esperado, há a predominância dos profissionais da saúde, com 28 cronistas, observando a seguinte composição: médicos (24), enfermeiras (2), farmacêutico (1) e veterinária (1). Outras áreas tiveram as seguintes cifras: Exatas (6), Humanas (10) e Sociais Aplicadas (5).

Os participantes engajados na docência universitária somaram 28, assim distribuídos: Fiocruz (2), Uece (13), UFC (8), Urca (1), Unichristus (2), Uni7 (1), UniFB (1), dos quais cinco eram os dirigentes principais das suas respectivas instituições de ensino superior.

Ainda que se possa sofrer de algum viés de seleção da parte do organizador dessa obra que não se pautou por critérios de uma amostragem probabilística, o conteúdo nela reunido é bem representativo do que tem significado a Covid-19 para uma substancial parcela de articulistas e de formadores de opinião do Ceará.

Com a expectativa de que tempos mais amenos cheguem com máxima brevidade e que não se tenha mais a motivação para se escrever sobre essa pandemia, como algo do momento corrente, mas sim usando um tempo pretérito, indicando a superação do problema, aguarda-se que os cearenses saiam bem fortalecidos desse embate pandêmico.

(*) Professor titular de Saúde Pública da Uece.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 3/11/2021. Opinião. p.18.

segunda-feira, 1 de março de 2021

UM MUNDO MELHOR

Por Luiz Gonzaga Fonseca Mota (*)

Nosso objetivo é refletir sobre algumas questões que preocupam a opinião pública mundial em nossos dias. A ganância de determinados países motiva uma desconfiança que prejudica o entendimento, gerando desigualdades políticas, econômicas, sociais e culturais. Nessa linha de raciocínio, surgem a exploração desordenada dos recursos naturais não renováveis, a miséria crescente, a corrida armamentista, a falta de solidariedade humana, a ausência de uma paz estável, dentre outros problemas.

O ideal decadente traduz a falta de perspectiva das novas gerações e deixa num clima de perplexidade os mais velhos. Precisamos renascer a cada dia. O ideal se conquista com o trabalho sério, a verdade e os mecanismos justos de colaboração. O radicalismo tem influenciado de forma negativa as alterações de comportamento e de organização social. Crises e violência decorrem de movimentos radicais que não buscam soluções, mas modelos errôneos do ponto de vista socioeconômico e político. Todavia, é difícil encontrar um modelo capaz de gerar uma unanimidade. Enfim, qual o mundo tolerável? Na nossa opinião, não deverão prevalecer a ganância, a falta de ideal, o fundamentalismo, o ódio e as ações não democráticas. Por sua vez, conforme Norberto Bobbio, “A primeira grande distinção no universo das doutrinas políticas é a que contrapõe teorias idealistas do Estado perfeito, ou da melhor forma de governo, e teorias realistas”.

A ideologia, quando é verdadeira, busca aspectos táticos e pragmáticos, torna-se estratégica, vence os obstáculos, alcançando a certeza da existência de Deus. Por sua vez, quem procura resultados apenas de curto prazo não consolida uma situação racional e sustentável. A história nos mostra que as manifestações, quando consistentes, levam-nos a caminhos pacifistas, éticos, de liberdade, de solidariedade e democráticos.

(*) Economista. Professor aposentado da UFC. Ex-governador do Ceará.

Fonte: Diário do Nordeste, Ideias. 4/2/2021.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

HOJE MARAVILHÁVEL. MARAVILHOSA FOI E SERÁ

Por Tales de Sá Cavalcante (*)

Imaginemos que a primeira-ministra da Dinamarca chegou de surpresa ao Rio de Janeiro em 22/12/20. Dirigiu-se ao concierge do hotel e, ao manifestar seu desejo de falar com o prefeito, foi informada ser impossível.

"Por quê?", perguntou. "Ele acaba de ser detido." A visitante indagou: "E o governador?". "Não vai dar." "Por quê?". "Está afastado, com impeachment em andamento, e, pelo visto, poderá ser um preso que foi juiz e também governador." "E o substituto que assumiu?". "Eu a aconselho a ir rápido, pois o vice Cláudio Castro tem processo nas costas, e houve uma operação de busca e apreensão em sua casa."

Em entrevista à revista Veja, Castro declarou ter sido convidado a ser o segundo de Witzel por exclusão. Afirmou ele: "Estavam em busca de uma pessoa com certa densidade de votos, que não falasse besteira, fosse minimamente preparada (…) Virei vice porque não tinha outro."

"Então, quero falar com um dos últimos que estiveram à frente do Governo", disse a turista. "Dos cinco anteriores eleitos, um é o ex-juiz, em vias de ser impedido. Outro está preso e, conforme a mídia, relatou já na prisão: 'reconheço que exagerei na mão'. Os três restantes foram todos detidos e, atualmente, aguardam o julgamento em liberdade."

A primeira-ministra, ao observar o caos na política, na segurança e nas finanças públicas do Estado, ficaria perplexa ao compará-lo com seu país.

Contudo, há inúmeros bons fluminenses que poderiam reverter o quadro. Talvez, a impunidade reinante há tempos tenha levado o Brasil a uma crise moral, com ênfase no Rio. Ademais, o antigo status de Capital do País, a ambientar as decisões nacionais, o título de Cidade Maravilhosa, a Lei de Gérson (levar vantagem em tudo) e o glamour do município podem ter contribuído para o atual contraste entre a corrupção e a beleza natural do Rio. Alguns cariocas não souberam dosar bem trabalho e lazer e esqueceram a importância do voto.

Já é hora de os cidadãos brasileiros se arregimentarem, não para invadir legislativos e desvalorizar o precioso sufrágio, como fizeram nos EUA, senão para escolher, pelo voto, estadistas, e não populistas. 

(*) Reitor do FB UNI e Dir. Superintendente da Org. Educ. Farias Brito. Membro da Academia Cearense de Letras.

Fonte: Publicado In: O Povo, Opinião, de 14/1/21. p.16.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

JANEIRO, 2021

Por Vladimir Spinelli Chagas (*)

Enfim, recomeçamos a contar o tempo em nova sequência de 365 dias, como se convencionou a partir da adoção do calendário gregoriano, aprovado em 24 de fevereiro de 1582 e implantado em 15 de outubro daquele ano, que na realidade seria dia cinco. Era a forma de "corrigir" erro do então calendário juliano.

Esta forma de "contar o tempo" tem alegadas vantagens, como a de padronizar esse tempo entre os diversos países, facilitando as relações entre eles, embora algumas criticadas incongruências no terreno da Astronomia e, na vida prática, as contagens dos dias diferenciadamente entre meses e, em consequência, as semanas quebradas entre meses distintos.

E do ponto de vista da vida? Por óbvio que um calendário não altera, por si só, a natureza das nossas escolhas, mas essa parada-recomeço por certo que nos faz, mesmo que por um momento, refletir sobre o que vivemos nos 365 dias daquele ano e, possivelmente com a melhor das intenções, planejar os próximos 365.

Estou certo de que a força dos pensamentos positivos que se estabelecem nesses planos, sempre de melhoria, significam fluídos favoráveis a inundar o espaço, em benefício de todos. No entanto, esse mesmo momento normalmente carrega a negatividade daquilo que estabelecemos como o que não deu certo no ano que passou. E esta outra força, no mínimo, diminui os fluídos positivos do olhar para o futuro.

O que me move nessas elucubrações é uma reflexão sobre essa tendência de interpretar tudo o que "não deu certo" como negativo, quando foi pelo menos a oportunidade que tivemos para olhar de outra maneira para algo que nos parecia tão indispensável e não se concretizou.

Como todos, passei por experiências dessas em 2020, como já venho passando desde 1947. Não nego que pensamentos negativos foram emitidos, mas sempre procurei resgatar o que aquilo poderia de fato significar como experiência de vida. E aprendi, em cada um deles, a importar-me um pouco mais com o outro. Ainda é pouco. Preciso de mais.

Feliz recomeço. Que o passado seja entendido como experiência e os planos da passagem, buscados com muito amor na nova oportunidade. 

(*) Professor da Uece, membro da Academia Cearense de Administração (Acad) e conselheiro do CRA-CE.

Fonte: Publicado In: O Povo, Opinião, de 4/1/21. p.18.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

SEM RIMA. UMA SOLUÇÃO?

Por Dom Manuel Edmilson da Cruz

Mesmo em tempo de vírus corona, e talvez ainda mais, convém expor ideias capazes de ajudar a resolver situações difíceis, dessas que precisam de solução certa, urgente e imediata. A ideia que passo a expor me parece ser desse tipo. Há meses ela surgiu na minha mente. Já expus ao senhor governador Camilo Santana que me ouviu com atenção e prometeu refletir atentamente sobre ela. Posteriormente numa edição de domingo neste mesmo jornal, uma surpresa: o dr. Eudoro Santana, pai do sr. governador, abordou-a resumidamente, sinal de que os dois haviam falado sobre o assunto. Com isso senti-me incentivado a apresentá-la ao grande público. Não por presunção, mas ao contrário muito modestamente e com grande respeito a todos, sem qualquer presunção de ensinar padre-nosso a vigário ou de estar descobrindo a pólvora, aceitando críticas e, no caso de aprovado, agradecendo emendas e sugestões para torná-la mais aceitável. Esta, a ideia: ela tem duas faces, melhor, dois fundamentos. O primeiro: o IPTU que no caso deve ser reduzido ao mínimo. O segundo: a indústria da construção civil, nesta incluída toda e qualquer construção desde a casa do pobre até o colosso das barragens, tudo rigorosamente anotado: a construção, o tempo de trabalho, desde o trabalho de traçar a cal aos cálculos dos engenheiros. Cada um receberia o seu salário e contribuiria equitativamente para a formação de um depósito permanente a serviço de todos. Não entendo desse assunto, repito aceito e agradeço críticas e colaborações. Não sei se entendi no tempo, mas parece-me que em seu primeiro mandato o ex-presidente Lula adotou alguma coisa parecida com o que acabo de expor. O resultado foi admirável: 30 milhões de brasileiros saíram da situação de indigência para a classe média baixa o que equivale à população da Argentina. Será pretender demais tratar de aplicar ao nosso Brasil esta solução possível, honesta e justa? Sobretudo nesta situação de vírus corona? 

(*) Bispo emérito de Limoeiro do Norte e membro fundador do MCP - Movimento Ceará de Paz.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 30/12/20. Opinião, p.16.

sábado, 30 de janeiro de 2021

ANUNCIADO HOSPITAL UNIVERSITÁRIO NA UECE

Editorial de O Povo, de 29 de janeiro de 2021.

Em um momento de grande significado para a saúde pública, o governador Camilo Santana (PT) assinou na última quarta-feira, 27, a ordem de serviço para construção do Hospital Universitário do Ceará (HUC), a ser instalado no Campus do Itaperi, da Universidade Estadual do Ceará (Uece). O equipamento abarcará uma área de 79,5 mil metros quadrados e terá 654 leitos (470 de internação geral e 184 de terapia intensiva). O projeto prevê um edifício de três torres — clínica, cirúrgica e materno-infantil. Ao todo, serão erguidos sete pavimentos que reunirão mais de 30 especialidades médicas. A obra inclui um heliporto, e já no próximo ano (2022) espera-se que seja entregue ao público. Quase R$ 275 milhões, bancados pelo governo estadual, se destinarão a pôr a edificação de pé.

Por suas proporções será o maior hospital público do Ceará, destinando-se ao atendimento terciário, isto é, aos casos de alta complexidade. Ao mesmo tempo, dará suporte a hospitais da Região Metropolitana de Fortaleza e do interior do Estado. Se sua missão se resumisse só a isso, já estaria plenamente justificada. Mas, é bem mais importante, complexa e frutífera: vai ser um centro formador de profissionais médicos para o Ceará, unindo ensino, pesquisa e extensão. Tratando não apenas da parte teórica, mas da prática profissional médica. Esta última é muito cobrada pela sociedade para que possa se sentir confiante quando posto sob os cuidados de um recém-formado. Ou seja: além de dar o embasamento teórico, o HUC vai treinar o profissional, integrar universidade e hospital e, através da extensão, prestar um bom serviço à população.

Embora o binômio ensino-assistência prevaleça como marca desse tipo de instituição, a definição de hospital universitário (HU) é mais abrangente, implicando também a pesquisa, isto é, a produção do conhecimento, o fazer ciência. Não é à toa que o reitor da Uece Hidelbrando Soares enfatizou a junção desse eixo: "Essa aproximação - hospital, ciência, ensino e extensão - tem tudo para tornar essa área um polo de inovação no Estado do Ceará".

Criar uma unidade como essa, no momento em que a ciência, no âmbito do poder mais alto da República, se torna cada vez mais rarefeita como referencial civilizatório, é uma aposta lúcida que descortina um horizonte menos asfixiante. Isso assim também foi entendido pelo secretário da Saúde do Estado do Ceará, Carlos Roberto Rodrigues, no comentário sobre a importância de "juntar ensino e prática como reconhecimento da valorização da ciência e do conhecimento como mecanismo de transformação social".

Dessa forma, é possível saudar o projeto da construção do Hospital Universitário do Ceará como uma decisão histórica da jovem geração governante cearense, que honra a capacidade prospectiva do seu povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 28/1/21. Editorial, p.18.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

Opinião: "ACADEMIAS E CROCODILOS"

Por Humberto Cunha Filho (*)

A morte de Paulo Bonavides, dentre as inumeráveis perdas, deixou vaga a Cadeira nº 17 da Academia Cearense de Letras (ACL), para o preenchimento da qual foram abertas inscrições, em processo que animou a esposa do falecido intelectual a lançar uma carta aberta aos membros da mencionada instituição, na qual pugna para “que o escolhido seja alguém que, por sua produção acadêmica, sua trajetória intelectual, honre a cadeira”.

O apelo público de Dona Yeda Bonavides, para que as coisas ocorram da forma como imaginamos ser a rotina, dá a entender um receio de que possa existir alguma anomalia no processo de escolha dos imortais cearenses. Por outro lado, lança um peso montanhesco sobre os eleitores e a pessoa que vier a ser eleita, dado o status de intelectual fora do comum representado por Paulo Bonavides.

Sem conhecer os meandros do funcionamento, o episódio da sucessão de Bonavides, anima a investigação, em abstrato, sobre o que é uma academia e a importância de participar de uma delas. Antecipa-se que é um tipo de instituição historicamente envolvida em polêmicas e com variações conceituais entre o uso da palavra na antiguidade e na modernidade, o que inclui as ideias de apropriação e gentrificação cultural. Originalmente, a expressão remete à escola situada nos jardins de Academos - um herói mítico -, onde Platão, um ex-escravo educado pelo dialético método maiêutico de Sócrates, ministrava aulas enquanto caminhava sob as oliveiras. Por ter sido considerada pagã, a academia platônica foi extinta por Justiniano em 529 da era de Cristo.

O ressurgimento na modernidade, conservou apenas o nome, se for observada a história da instituição até hoje supostamente paradigmática para as suas congêneres, a Academia Francesa (AF), criada em 1635 por iniciativa do Cardeal de Richelieu, título religioso de Armand Jean du Plessis, o Primeiro Ministro de Luís XIII. Detalhe importante: o criador da AF é considerado o arquiteto do absolutismo, regime político que foi levado a efeito em sua máxima potência pelo rei sucessor, Luís XIV, o imputado autor da reveladora frase “o Estado sou eu”.

Desta feita, a instituição foi o abrigo dos “titulados, mitrados e letrados”, que nos seus primeiros 100 anos serviu de instrumento ao monarca, sobremodo em algo estratégico para a unidade da França, a língua, o que pode ser visto no artigo inaugural do seu estatuto, até hoje vigente: “A principal missão da Academia será a de trabalhar com todo o cuidado e toda a diligência possíveis para dar regras precisas à nossa língua e garantir a sua pureza, eloquência e torná-la apta a lidar com as artes e as ciências”.

O caráter elitista era tão proeminente, que dentre os períodos de submersão existencial esteve o da Revolução Francesa, por a Academia representar o clero e a nobreza, justamente as fatias da sociedade contra as quais foi feita a revolta do Terceiro Estado. Todavia, a despeito das ideias de excludência e elitismo presentes em qualquer que seja o regime político no qual a academia moderna funcione, decorrentes do simples fato da limitação de cadeiras, tal sentimento de apartação é diminuído pelo objetivo adotado, quando esse é nobre e de interesse social.

No caso da Academia Brasileira de Letras (ABL), que tem natureza de associação privada, fundada em 20 de julho de 1897, por iniciativa, dentre outros, de um simples mas genial servidor público e literato, Machado de Assis, o intuito de existência da instituição assemelha-se ao da francesa, precisamente, “a cultura da língua e da literatura nacional”.

Antecedendo à brasileira, a Academia Cearense de Letras, também associação privada, foi fundada em 15 de agosto de 1894; todavia, certamente dada a limitação territorial da atuação, seu objetivo foi traçado de forma mais difusa e, por conseguinte, menos precisa: “a preservação, o cultivo e o desenvolvimento da literatura e da produção científica, filosófica e cultural reconhecida como de qualidade superior no âmbito da sociedade cearense”.

Além de ramificado, o objetivo da ACL, ao receber o complemento de que a atividade precisa ser “reconhecida como de qualidade superior”, abre o flanco para dúvidas e ambições, pois a pessoa escolhida passa a compor uma elite cuja obra recebe um selo de que supostamente tem maior perfeição e valor que as demais, o que é extremamente problemático, dado o caráter de incomparabilidade das criações intelectuais, algo reconhecido desde gigantes da literatura, como Victor Hugo, chegando até mesmo aos redatores das leis de licitações.

Mas isso, em sociedades que valorizam as aparências, ao invés de ser um obstáculo, é um estímulo: aqueles - mesmo os destituídos de pendores literários - que querem e têm meios de acrescentar ao seu patrimônio esse “capital simbólico” (expressão consagrada na obra de Pierre Bourdieu), fazem questão de ingressar na academia, desde que entre seus confrades existam nomes incontestáveis, que servem exatamente para qualificar o ambiente no qual todos que estejam nele usufruirão do prestígio gerado por simples proximidade. Superar a falta de produção intelectual, para os intelectuais por agregação, passa a ser o menor dos problemas.

Certamente as academias existentes no Brasil, em seus processos de renovação, já enfrentaram situações que lembram as relatadas por Hélène Carrère d’Encausesse, ao historiar “incidentes eleitorais” da francesa, como o que, diante da morte de Corneille, a instituição correu o risco de preterir o irmão do dramaturgo, Thomas, porque o Duque do Maine, então com 15 anos, “quase iletrado”, adentrou na fantasia de ser imortal, tendo providenciado a prova de sua precocidade literária, com base na qual fez publicar suas “obras selecionadas” de quando tinha 7 anos de idade.

O fato é que esse tipo de problema é insolúvel para a concepção fechada de academia que se conserva até hoje, para a qual a resposta tem sido de algum modo tola, que é a de fazer pulular novas agremiações similares, com o mesmo modelo aromatizado com as ideias de distinção e genialidade. E alternativas há, inclusive no universo privado, sendo a mais evidente delas a da Academia de Artes e Ciência Cinematográficas (de Hollywood), a do Oscar, pujante em suas realizações, transfronteiriça, baseada na criação intelectual permanente, que abriga milhares de membros.

As possibilidades apresentadas sugerem que o modelo acadêmico moderno precisa ser repensado, uma demanda que certamente já se transformou em lugar-comum e, segundo a observação de Horace Engdahl (o secretário perpétuo da Academia Sueca, de 1999 a 2009), com chances ínfimas de sucesso, uma vez que para ele, o conservadorismo dessas instituições é tão acentuado ao ponto de inspirar a observação metafórica de que as academias são os crocodilos do mundo social”.

(*) Humberto Cunha Filho é professor de Direitos Culturais nos programas de graduação, mestrado e doutorado da Universidade de Fortaleza (UNIFOR). Autor, dentre outros, do livro “Teoria dos Direitos Culturais: fundamentos e finalidades”.

Fonte: Anunciado In: O Povo, de 18/1/2021. Vida & Arte. p.3.

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