segunda-feira, 19 de setembro de 2022

AIRTON MONTE: Especial Vida & Arte III

MEU NOME É MULTIDÃO

Organizado por Lara Montezuma, jornalista de O POVO

Dez anos sem Airton Monte: cronistas reverberam a relevância do escritor cearense

Escritores do Vida&Arte repercutem a influência de Airton Monte na cena literária cearense e destacam a importância da preservação das obras do contista

A escritora Tércia Montenegro acredita que Airton está imortalizado como um dos grandes nomes da crônica cearense. Para ela, o "mestre" deste gênero literário era capaz de aliar a observação do cotidiano com uma dimensão poética, agregando toques de humor e ironia. "Ele tinha, de fato, um conhecimento de ritmo cronístico insuperável", comenta. O primeiro trabalho do contista lido por Tércia foi a coletânea "Moça com Flor na Boca" (2006) e, desde então, o escritor se tornou referência em seu repertório literário. "O que me remete ao Airton é mais uma atmosfera, não só um personagem, cena ou palavra. Acho que é um conjunto de características que gera um reconhecimento, é o estilo dele que acaba sendo uma marca do todo. Ele logo mostrou uma personalidade muito festiva e acolhedora. Sempre que eu lembro do Airton, eu penso em situações engraçadas, leves e descontraídas".

Já a jornalista e professora Izabel Gurgel considera o poeta um "polinizador" capaz de "lançar mundos no mundo", como entona Caetano Veloso na canção "Livros", de 1997. A obra do cearense chegou em suas mãos por meio da experiência de outros leitores. "Sempre me interessa ouvir, ver, saber como as pessoas são tocadas por aquilo que leram e estão lendo", atesta. Izabel sintetiza os ensinamentos de Airton em uma frase do próprio: "claro que o mundo não pára enquanto dormimos". Apesar de não ser uma novidade, a jornalista diz que a sentença "tem a beleza da precisão do desenho do alvo, que se realiza no encontro com a flecha, o dardo".

Na visão do escritor Pedro Salgueiro, Airton é um dos integrantes de uma geração expoente na literatura cearense, justamente por volta dos anos 1970, época das revistas literárias. Os dois se aproximaram por volta de 2006, quando ambos tiveram livros indicados para o vestibular da Universidade Federal do Ceará (UFC). Juntos, percorreram escolas públicas e privadas do Estado para apresentar palestras. "Adorava fazer eventos com ele, porque ele falava demais", brinca. Depois, se encontravam ocasionalmente em bares, lançamentos e reuniões do Clube do Bode, no tradicional Florida Bar. "Eu comentava com ele: como você consegue? Eu escrevo de quinze em quinze dias e falta assunto, no décimo quinto dia eu estou finalizando a crônica a fórceps. Ele fazia uma crônica por dia, quando ele estava numa veia boa fazia quatro ou cinco por dia. Ele era muito anárquico, principalmente ao falar, mas tinha a rotina dele. Contava sobre a Dom Jerônimo, os encontros familiares, a macarronada na casa do pai dele. Isso rendeu cinquenta ou mais crônicas, com pequenas variações".

Salgueiro contesta que "todo cronista tem seus assuntos" e, entre as eventuais repetições, Airton acabou cativando incontáveis leitores. "Ele conseguia penetrar nos leitores mais jovens, tinha essa capacidade de fidelizar várias gerações. Ele criava muitos causos, causava risos. Eu gostava também de um viés dele, ele era muito bom quando estava com raiva de alguém. Apesar de ser um 'bonachão', quando pisava nos calos dele, virava uma fera", lembra. Para o escritor, Airton é uma das últimas grandes figuras emblemáticas da Cidade. "A morte dele foi uma tristeza geral para todo mundo, mesmo para quem convivia pouco. Ele era um personagem cultural, não só no mundo das letras, e agitava até doente. Hoje todo mundo é muito comum, as figuras exóticas já se passaram. O mundo que o Airton viveu tinha os bares, botecos e jornais como palcos", acrescenta.

As ideias de Airton, portanto, devem continuar influenciando as futuras gerações. "A maneira do escritor se perpetuar é pelo trabalho dele, tanto verbalizando, como por escrito. Daria para, pelo menos, a cada cinco ou dez anos, fazer uma edição das crônicas dele. Ou, então, reeditar os contos, os livros. Fazer essa obra circular de novo é a melhor maneira de ajudar um escritor", sugere. O primeiro passo aconteceu com o lançamento da coletânea de crônicas "A Primeira Esquina", organizada em 2014 pela Edições Demócrito Rocha (EDR), com apresentação do jornalista Demitri Túlio.

Gerente editorial e de projetos da Fundação Demócrito Rocha (FDR), Raymundo Netto adianta que um novo projeto será lançado em 2023. "Existe um projeto da EDR para lançar, até o ano que vem, o livro "Da Janela de Estimação", de Airton Monte. É uma coletânea de textos que foram publicados no O POVO", informa. A iniciativa terá apresentação de Sarah Diva Ipiranga e é uma maneira de perpetuar o legado do cearense na literatura. "Ainda há muito a ser explorado. Eu fico imaginando nos dias de hoje, nesses tempos sombrios que estamos vivendo, o que o Airton Monte estaria dizendo para a gente no jornal. Isso para mim é uma curiosidade que, infelizmente, é irremediável", alega Raymundo.

Fonte: O POVO, de 10/09/2022. Vida & Arte. p.3

domingo, 18 de setembro de 2022

MARTA MEDEIROS: um reforço articular na Academia Cearense de Medicina

        Marta Maria das Chagas Medeiros, filha de José Victor Medeiros e Maria Alfa Medeiros, nasceu em Sobral-Ceará, em 26/08/1958.

Ingressou no Curso de Medicina da Universidade Federal do Ceará (UFC) em janeiro de 1977, concluindo-o em 1982.

Dra. Marta Medeiros cumpriu Residência Médica em Clínica Médica no Hospital Universitário Walter Cantídio (HUWC) da UFC (1983-1984) e em Reumatologia na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FM/USP-RP) (1985-1986).

Estendeu a sua permanência em Ribeirão Preto-SP, para cursar o Mestrado em Reumatologia da Faculdade de Medicina da USP-RP (1987-1988), ao tempo em que foi médica assistente em Reumatologia no Hospital Universitário da FM/USP-RP.

Retornou a Fortaleza, em 1989, ao ser aprovada em concurso de Professor Assistente do Departamento de Medicina Clínica da Faculdade de Medicina (FAMED) da UFC, galgando os passos da carreira acadêmica de Professora Adjunta e de Associada, culminando, brilhantemente, mediante concurso, como Professora Titular, se aposentando em 2017.

No percurso de sua trajetória acadêmica, a Profa. Marta Maria das Chagas Medeiros fez o Doutorado em Reumatologia na Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) (1996-1998) e a Especialização em Epidemiologia Clínica (1996). Foi bolsista do American College of Physician (ACP), como fellow na Universidade de Toronto, Canadá (junho-julho 2008).

Durante o seu vínculo funcional com a UFC (1989-2017), assumiu os seguintes encargos: Coordenadora do Programa de Residência Médica do HUWC (1995); Diretora da Unidade de Epidemiologia Clínica / Núcleo de Medicina Baseada em Evidências (1998-2000); Diretora de Ensino e Pesquisa do HUWC (1999); Coordenadora de Curso de Pós-Graduação (Epidemiologia Clínica) no Mestrado do Departamento de Medicina Clínica (1999-2004); Coordenadora da disciplina de Reumatologia do Departamento de Medicina Clínica /FAMED (1999-2000) e (2005-2011); Chefe do Serviço de Reumatologia do HUWC (2000-2005); Coordenadora do Projeto de Extensão Núcleo de Estudos em Lúpus Eritematoso Sistêmico (2001-2004); Coordenadora do Comitê de Ética em Pesquisa do HUWC (2006-2008); Supervisora da Residência Médica em Reumatologia do HUWC (2003-2015); e Vice-chefe do Departamento de Medicina Clínica (2013).

Sua produção científica se destaca pela publicação de 49 artigos, principalmente em temáticas relacionadas a doenças autoimunes, em revistas médicas nacionais e internacionais, e pela participação em 16 capítulos de livros. Foi a coordenadora do livro Manual de Reumatologia para o Residente”, publicado em 2014.

Sua participação em bancas examinadoras se expressa com as seguintes cifras: concursos públicos (19), doutorado (8), mestrado (4) e trabalhos de conclusão curso (27).

Como demonstração de benquerença dos seus alunos, e por sua competência didática, ela foi professora homenageada por 21 turmas de concludentes de Medicina da Faculdade de Medicina da UFC e cedeu seu nome à turma de médicos formados da UFC de 2016.1.

A Profa. Marta Medeiros foi aquinhoada com as seguintes honrarias: homenagem da Sociedade Cearense de Reumatologia (2015-2017) pelo trabalho de valorização da Reumatologia, tendo em vista a sua dedicação ao ensino e excelência de atendimento aos pacientes reumáticos; homenagem do Hospital Universitário Walter Cantidio/EBSERH/UFC por ocasião dos 60 anos do referido hospital (2019), pela dedicação a formação humana e qualificada dos profissionais de saúde; homenagem da Assembleia Legislativa de Estado do Ceará, pelo transcurso do Dia Mundial da Luta Contra o Reumatismo (2017); e membro titular da Academia Brasileira de Reumatologia (Cadeira 18), desde setembro de 2019.

A Dra. Marta Medeiros, a despeito da sua aposentadoria no serviço público, mantém-se ativa no ensino e na pesquisa médica, concorrendo com o seu proficiente labor na formação do corpo discente do Curso de Medicina da Universidade de Fortaleza, desde 2020.

Eleita em 22/06/2022, sob o número acadêmico 130, tomou posse na Academia Cearense de Medicina (ACM) em 22/07/2022, assumindo a Cadeira 52, patroneada por Arthur Enéas Vieira de Figueiredo, que fora anteriormente ocupada por Sérgio Gomes de Matos, falecido em 2019, sendo recepcionada pelo Acad. Sebastião Diógenes Pinheiro.

A chegada da ilustre reumatologista aos umbrais da arcádia médica cearense configura um importante reforço na capacidade articular dessa entidade.

Acad. Marcelo Gurgel Carlos da Silva

Titular da cadeira 18 da ACM

*Publicado In: Jornal do médico digital, 3(28): 38-40, agosto de 2022.

RD-28-Agosto-2022-app.pdf (jornaldomedico.com.br)


AIRTON MONTE: Especial Vida & Arte II

MEU NOME É MULTIDÃO

Organizado por Lara Montezuma, jornalista de O POVO

Airton Monte: Caminhos cruzados

Antônio Airton Machado Monte nasceu na capital cearense em 16 de maio de 1949, "de parto normal, filho do primeiro amor e do primeiro descuido". A criação ocorreu no declarado "território mágico" da rua Dom Jerônimo, no bairro Benfica, e nos arredores da Gentilândia, Otávio Bonfim e Parque Araxá. Foi alfabetizado em casa pela avó paterna, Dona Maroca, e concluiu os estudos no Colégio Padre Champagnat, onde participava do Clube dos Poetas Cearenses. Conseguiu o diploma de Medicina pela Universidade Federal do Ceará (UFC) e atuou como psiquiatra em instituições como o Mira y Lopes e o Hospital de Saúde Mental de Messejana.

Como escritor, começou a publicar textos durante a década de 1970, nas revistas Etc. e O Saco. Ao lado de Rogaciano Leite Filho, foi um dos fundadores do grupo literário Siriará. O autor colecionou títulos de contos como "O Grande Pânico" (1979), "Homem Não Chora" (1981), "Alba Sanguínea" (1983) e "Os Bailarinos" (2010). Ele também participou de coletâneas como "Os Novos Poetas do Ceará III" e "Antologia da Nova Poesia Cearense". Já na década de 1980, integrou o suplemento Pixote, considerado um grande aprendizado para a carreira como cronista. Airton colaborou diariamente nas páginas do O POVO e também fez passagens como roteirista de televisão e comentarista de rádio, assim como escritor de peças de teatros. O cearense era fã de futebol, principalmente do Fortaleza, Botafogo e da Seleção Brasileira. Admirava São Francisco, ou "Chiquinho", quem considerava um revolucionário. Em destaques mais singelos, foi esposo de Sônia e pai de Bárbara e Pablo.

Fonte: O POVO, de 10/09/2022. Vida & Arte. p.1.

sábado, 17 de setembro de 2022

AH, FORTALEZA! LIBERAL DE CASTRO

Por Ana Miranda (*)

Nos anos em que morei na Prainha, passava diante do Mercado de Carnes na mimosa Aquiraz e achava bonito o prédio antigo, cheio de portas. Era meio abandonado, mas de repente ganhava um restauro. Eu ficava admirada de ele estar inteiro, ao lado de tantas casas desfiguradas por ladrilhos e grades. Ouvi um morador da cidade reclamando da "velharia" que precisava ser derrubada. Um dia fui com meu amigo, o arquiteto Ricardo Bezerra, comprar umas roscas que um senhor fazia ali ao lado e fiquei sabendo que o Mercado era tombado pelo Patrimônio Nacional, por ação do professor Liberal de Castro.

E não apenas o Mercado estava intacto por obra desse mestre da arquitetura. Também o Theatro José de Alencar. E o teatro São João, em Sobral. E a casa onde nasceu José de Alencar, no Alagadiço Novo. Antes de vir morar no Ceará eu já conhecia de nome o arquiteto Liberal de Castro. Foi um encanto ver pessoalmente sua figura luminosa e reverenciada. Sentamos lado a lado em duas ocasiões, quando pude ouvir suas palavras, seu pensamento inovador, sua sabedoria e solidez política. Como todo bom professor, ele gostava de falar. As memórias que trazia do Rio de Janeiro eram de convivência com Lucio Costa, Sérgio Bernardes, Reidy, Burle Marx. Conheceu o poeta Drummond, que trabalhava mesa a mesa com Lucio Costa e o inspirava poeticamente. O que Liberal de Castro testemunhou em sua geração de arquitetos era um verdadeiro avanço de mentalidade. Seu nome é profético: José Liberal. E castros eram antigas povoações fortificadas.

Tesouros são seus estudos, preocupados com a memória. São referência sobre a arquitetura antiga do Ceará. Li sobre a igreja matriz em Viçosa, que me toca o coração por saber que por ali pisaram os pés descalços do padre Vieira, no século 17; sobre o ecletismo da arquitetura cearense, sobre estátuas do nosso Passeio Público; o livro Ah, Fortaleza, que guardo com carinho, e algo mais. Tudo o que ele escreveu é fonte de conhecimento para o Ceará - e fonte literária para meus livros, minhas crônicas. Sou sua admiradora e sempre lhe serei grata. Todos nós, cearenses, lhe seremos gratos. Ele nos tornou melhores.

Não havia escola de arquitetura no Ceará, só de engenharia. Ao criar, com um grupo de arquitetos, a escola de arquitetura da UFC, Liberal de Castro abriu as possibilidades de nosso estado. Modernizou-nos. Foi um trabalho tão bem formulado que, poucos anos depois, alunos receberam medalha de ouro na Bienal de São Paulo. Com seus conhecimentos, sua generosa atuação, sua visão ampla e profunda, Liberal de Castro incluiu o Ceará no cânon nacional da arquitetura. E mudou o destino de nossa cidade. Ali está o Castelão para nos alegrar. Ali estão edifícios novos da universidade, pensados com delicadeza e o respeito à História de quem a conhece tão bem. E escolas, hospitais, casas de pessoas com mente aberta, como o professor Eduardo Diatahy.

Ouvi de Bete Dias: a sensação é de que uma biblioteca desapareceu. Uma maravilhosa biblioteca. Liberal de Castro é uma dessas raras pessoas que, quando partem, levam consigo todo um tempo.

(*) Escritora. Colunista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 18/09/22. Vida & Arte, p.2.


AIRTON MONTE: Especial Vida & Arte I

 

MEU NOME É MULTIDÃO

Organizado por Lara Montezuma, jornalista de O POVO

Dez anos sem Airton Monte: vivências traduzidas em crônicas

Neste 10 de setembro marca os dez anos da partida do poeta, contista e cronista Airton Monte, colaborador do Vida&Arte

"Quem diria, os muitos que eu sou e nem sabia, sequer desconfiava. De repente, se a gente prestar atenção aos vários papéis que desempenhamos durante o dia e a vida, perceberemos espantadíssimos que uma verdadeira multidão reside em cada um de nós". Em texto publicado pelo O POVO em janeiro de 2003, o poeta, contista e cronista Airton Monte (1949 - 2012) revela algumas de suas múltiplas facetas. Rememora o diploma de Medicina e o período no catolicismo, mas se considera "o mais tímido dos anárquicos pátrios". É pai e filho, cearense afeiçoado pela "cidade louramente desposada de sol", o que não o impede de manifestar indignação pelas contrariedades injustas de Fortaleza. Também é personagem e narrador, ator e plateia, "sócio da vida". Nas últimas linhas, destaca a função como cronista do caderno Vida&Arte, profissão atravessada pelo "transitório e efêmero".

Escreveu diariamente nas páginas do jornal entre a década de 1990 e o ano de 2012, uma produção contínua feita em meio aos cadernos pautados e guardanapos de bares. Assinou o último texto no dia oito de agosto, nomeado "Domésticos Percalços", no qual passeava por um domingo qualquer cotidiano. Pouco mais de um mês depois, há exatos dez anos, Airton faleceu em decorrência de um câncer no fígado. "Às vezes quando você conhece um escritor, fica a curiosidade de onde está aquele movimento todo que você lê no jornal, onde se encaixa naquela pessoa. O Airton era a pessoa que ele escrevia, é capaz de ouvir ele contando aquelas histórias. Ele não falava da literatura como uma coisa majestosa, ele fazia a dele. A gente se encantava pelo o que ele dizia e como ele dizia", indica o escritor, produtor cultural e gerente editorial da Fundação Demócrito Rocha (FDR), Raymundo Netto.

Como muitos, Raymundo conheceu Airton pelas crônicas ou, como prefere pontuar, pelo "ato heroico de escrever todos os dias". Entretanto, ele frisa o início da carreira do profissional como contista - a partir da publicação do livro "O Grande Pânico" (1979) - e o viés poético do cearense. Entre os temas mais corriqueiros nos textos de Airton, Raymundo lista a relação com a Capital, a casa e o núcleo familiar, por exemplo. "A maior parte das pessoas quando falam de Fortaleza falam com amor e ódio. O Airton tinha saudosismo, voltava muito ao passado. Contava histórias da família, era um grande admirador do pai dele. Ele também falava de sentimentos, do amor, da perda, da morte, das dificuldades do dia-a-dia. Ele era muito variado, nem poderia ser diferente, passava por questões da própria humanidade, fugia para as incompreensões com o mundo".

Os escritos do cronista transformam em inspiração os acontecimentos banais, assim como oferecem protagonismo aos personagens comuns. As narrativas falam sobre os mendigos nas praças da Gentilândia, os novos casais nos bares ou os amigos da Praia de Iracema. Muitas das figuras são, inclusive, companheiros da vida real. É o caso do Moita, colega descrito como "muito exaltado" em entrevista de 1997 ao O POVO, ou o Newton, um "libanês gente boa". O escritor constrói camadas de personalidades e inventa novos ares, ao mesmo tempo em que mescla tópicos íntimos e universais. "Ele era uma pessoa inteligente, cativante. Essencialmente na crônica dele havia muita poesia, tinham crônicas que eram fantásticas e era só ele ali, sentado em casa. O Airton tem uma riqueza monstruosa de texto", complementa Raymundo.

Nas Páginas Azuis do O POVO de 2007, Airton afirma que considera a escrita um ato solitário. Entretanto, argumenta que manteve boa relação com as gerações mais antigas e mais jovens, sendo uma pessoa que trafegava entre "católicos, crentes, ateus, políticos de esquerda e de direita". Em relação à velhice e incertezas futuras, detalha que guardava o medo de se tornar obsoleto. "Ele é um nome inesquecível. Até hoje eu vejo menções de leitores que dizem que o O POVO perdeu muito sem o Airton. Ele deixou uma geração viúva", opina Raymundo. 

Fonte: O POVO, de 10/09/2022. Vida & Arte. p.1

sexta-feira, 16 de setembro de 2022

Adoção da Praça General Tibúrcio pela Academia Cearense de Letras

 

Ontem, no Palácio da Luz, ocorreu a solenidade de adoção da Praça General Tibúrcio pela Academia Cearense de Letras, cujo termo foi entregue pelo vice-prefeito de Fortaleza, Élcio Batista, ao presidente da ACL, dr. Lúcio Alcântara.

Na ocasião, a ACL fez a entrega do troféu Mecenas às seguintes personalidades: Dra. Fátima Vera (Reitora da UNIFOR, representando Dra. Lenise Querioz Rocha - Fundação Edson Queiroz); Beto Studart (representado por Regina Fiúza); Dr. Luiz Gastão Bittencourt (presidente da Fecomércio, representado por Sérgio Braga); Dr. Assis Cavalcante (Presidente da CDL Câmara de Dirigentes Lojistas de Fortaleza); José Lima de Carvalho Rocha.

Por fim, foi procedida a abertura da Exposição do Bicentenário da Independência do Brasil, a qual conta com documentos raros do acervo pessoal do acadêmico José Augusto Bezerra, bem como da própria ACL.

A mesa de abertura foi composta pelo presidente da ACL, dr. Lúcio Alcântara, pelo vice-prefeito de Fortaleza, Élcio Batista, além do General Júlio Lima Verde, presidente do Instituto do Ceará.

Postado no Grupo de WhatsApp da ACL pela Acad. Grecianny Carvalho Cordeiro em 16/09/22.


O TROTE (Medicina da UFC-1966)

Por Paulo Gurgel Carlos da Silva (*)

"A primeira aula não se dá e à última não se assiste."

No primeiro dia de aula, assim como fizeram muitos calouros da instituição, eu me apresentei com o cabelo já cortado a zero. Sabendo que teria o cabelo tosquiado, da pior forma possível, pelos alunos veteranos da Faculdade de Medicina da UFC.

O trote acontecia no "Território Livre das Mangueiras", no campus de Porangabussu. Não era violento, mas receei estar marcado para o pior dos trotes. Na qualidade de aluno do cursinho pré-vestibular do Diretório Acadêmico XII de Maio, no ano anterior eu tinha sido muito observado pelos veteranos enquanto transitava nas dependências da Faculdade.

Da programação do trote constavam: beber óleo de rícino, ser tosquiado (com "caminhos de rato" sendo feitos no couro cabeludo), receber pinturas corporais, fingir-se de estátua, fazer agachados etc.

O veterano Manassés, que fora meu professor no cursinho do DA XII de Maio, me pegou para Cristo. Ordenando-me que eu fizesse uns agachamentos, enquanto ele contava até dez. E, quando eu estava prestes a findar uma série de agachamentos, ele passava a contar em decimal.

De qualquer maneira, foi a parte mais agradável do trote e eu, que não era besta. procurei não me distanciar dele.

Em 1966, o trote era leve. Não tinha comparação com o que meu pai levou, em 1943, ao ingressar na Faculdade de Direito. Na ocasião, os calouros de nossa Salamanca saíram em uma passeata com faixas pelas ruas de Fortaleza. Uma delas, com uma exortação à participação do Brasil na II Guerra Mundial, na qual se lia: "Casar para evitar convocação é covardia!".

Nada contra a cobra ir fumar na Itália. Não fosse o meu genitor ter sido obrigado a desfilar vestido de "noiva", como ficou registrado em uma fotografia da época.

Voltando ao trote no campus de Porangabussu. Por ter umas gordurinhas a mais, um de nossos colegas foi posto em plano superior e na posição de lótus para receber as honrarias de Buda dos demais "trotandos".

No final das brincadeiras, o "bicho" (tratamento carinhoso dado ao calouro) comprava uma boina branca com a inscrição MEDICINA e os convites para uma calourada que dava direito a apreciar os veteranos se divertindo.

No ano seguinte, pude executar meu plano de vingança. Nessa nova edição do trote, por desfrutar da prerrogativa de ser um aluno veterano, eu aproveitei para tirar um amigo do cercadinho.

Aí fomos comemorar tomando umas cervejas no Dozinho.

(*) Graduado em Medicina pela UFC Turma de 1971.

Publicado no Blog Linha do Tempo de Paulo Gurgel em setembro de 2022.

http://gurgel-carlos.blogspot.com/2022/09/o-trote.html

 

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