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segunda-feira, 14 de setembro de 2026

A Missão da IA para o desenvolvimento seguro e compartilhado da humanidade

Por José Nelson Bessa Maia (*)

O debate internacional sobre inteligência artificial (IA) entrou em nova fase. A discussão se concentra agora não apenas no potencial da nova tecnologia, mas em regulá-la e utilizá-la para aumentar a produtividade e potencializar o desenvolvimento de todos os países. Há divergências entre o Ocidente e a China quanto aos objetivos estratégicos, ao papel do Estado, à governança, ao tratamento dos dados e à forma de equilibrar inovação, segurança e direitos individuais.

A divergência entre as abordagens ocidental e chinesa não decorre de avaliação diferente sobre a importância da IA - ambas a consideram uma tecnologia decisiva para o futuro. A principal diferença está no modelo de governança. Em linhas gerais, o Ocidente baseado no Liberalismo tende a privilegiar a inovação liderada pelo mercado, com dispositivos de proteção a direitos individuais e de regulação de riscos.

A China, por sua vez, adota a estratégia de coordenação pública em que a IA é tratada como ativo estratégico para impulsionar o desenvolvimento, modernização industrial, prestação de serviços públicos e segurança nacional.

Na Conferência Mundial de IA 2026 e em Xangai em 17-20 de julho, a China fez quatro observações importantes sobre a IA: primeiro, a necessidade de cooperação mutuamente benéfica e o estímulo à inovação. Para tal o código aberto, o compartilhamento para facilitar a inovação, o desenvolvimento industrial e a aplicação seriam essenciais para o avanço da IA.

Segundo, a percepção dos riscos e a garantia de que a IA seja segura e controlável, devendo estar sempre sob o controle humano e evitar a ênfase excessiva do conceito de segurança nacional no campo da IA.

Em terceiro, foi destacado o incentivo à inclusão e promoção do aprendizado mútuo entre as nações, uma vez que o avanço da IA e sua aplicação não devem minar a diversidade entre os países. Por último, a China defende a solidariedade e o aprimoramento da governança global, cabendo à ONU um papel nessa mediação, de modo a dar alinhamento e coordenação às estratégias de desenvolvimento, as regras de governança e os padrões técnicos da IA.

A posição chinesa tem méritos já que o debate sobre IA deixou de ser só tecnológico para se tornar uma questão de estratégia econômica, competitividade industrial e política pública. Passou a ser sobre uma ferramenta essencial para o crescimento no século XXI, comparável ao papel que as ferrovias, a eletricidade e a própria internet desempenharam no passado. Portanto, para os países do Sul Global a cooperação internacional será essencial para transformar a IA em aumento da sua competitividade e modernização, contribuindo para a transferência efetiva das novas tecnologias digitais e colocá-las a favor de seu genuíno desenvolvimento e soberania.

(*) Ex-secretário de Assuntos Internacionais do Governo do Ceará, mestre em Economia e doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (UnB) e, atualmente, consultor internacional.

Fonte: O Povo, de 25/07/26. Opinião. p.23.

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

BREXIT: Dez anos depois, a economia avalia

Por Lauro Chaves Neto (*)

Dez anos após o referendo que retirou o Reino Unido da União Europeia, o Brexit passou do campo das promessas para o da avaliação empírica.

Antes do Brexit, quase metade das exportações britânicas destinava-se ao mercado europeu. A saída do bloco introduziu barreiras alfandegárias, custos regulatórios e maior burocracia, especialmente pequenas e médias empresas. O resultado foi uma perda de dinamismo comercial e uma redução da competitividade.

Estimativas do Office for Budget Responsibility (OBR) indicam que o Brexit deverá reduzir, no longo prazo, cerca de 4% do PIB potencial do Reino Unido em relação ao cenário de permanência na União Europeia. Estudos do Banco da Inglaterra apontam que o investimento empresarial permaneceu aproximadamente 15% abaixo do que seria esperado sem a ruptura, refletindo a elevada incerteza institucional. O comércio de bens com a União Europeia sofreu desaceleração, enquanto setores como agricultura, logística, hotelaria e saúde passaram a enfrentar escassez de mão de obra em razão das novas restrições migratórias.

É verdade que o Reino Unido firmou novos acordos comerciais, recuperou autonomia regulatória e fortaleceu o controle sobre sua política migratória. Entretanto, os ganhos econômicos decorrentes dessas medidas ficaram muito aquém das perdas provocadas pela redução da integração com seu principal parceiro.

A experiência britânica revela um aspecto preocupante: decisões econômicas estruturais podem ser fortemente influenciadas por agendas políticas e identitárias. O debate público privilegiou temas como imigração e nacionalismo, relegando a segundo plano questões centrais como produtividade, investimentos e crescimento de longo prazo.

O maior ensinamento do Brexit é que, na economia contemporânea, soberania e integração não são conceitos antagônicos!

Em um mundo organizado por cadeias globais de valor, inovação e fluxo internacional de capitais, competitividade depende da capacidade de cooperar, e não apenas de decidir de forma independente, independência só gera prosperidade quando é acompanhada de produtividade, inovação e competitividade.

(*) Consultor, professor doutor da Uece e conselheiro do Conselho Federal de Economia.

Fonte: O Povo, de 20/07/26. Opinião. p.18.


terça-feira, 4 de agosto de 2026

Como superar a persistente lacuna de produtividade no Brasil

Por José Nelson Bessa Maia (*)

Tornou-se um lugar-comum afirmar que a baixa produtividade é um dos principais entraves ao crescimento econômico do Brasil, permanecendo praticamente estagnada há décadas. Por causa disso o país enfrenta uma "armadilha de baixo crescimento", com trabalhadores produzindo, em média, cerca de um quinto do que nos EUA, tido como referência nessa matéria.

A comparação internacional de produtividade costuma ser feita em PIB por trabalhador empregado em dólares internacionais ajustados por Paridade de Poder de Compra. Os dados mostram que o Brasil teve forte perda relativa entre 1980 e 2000 e depois ficou praticamente estagnado. Hoje, um trabalhador brasileiro produz 24% do que produz um trabalhador norte-americano médio.

Por outro lado, a China partiu de base extremamente baixa em 1980, mas teve o maior avanço da história econômica recente. Com isso, a produtividade chinesa passou de 4% da americana para 40% em pouco mais de quatro décadas.

O dado mais impressionante é que, em 1980, o Brasil possuía uma produtividade de oito vezes superior à da China. Hoje, a situação se inverteu: a produtividade média do trabalhador chinês já é 60% maior que a do trabalhador brasileiro. O Brasil permaneceu praticamente estagnado por quatro décadas, enquanto a China convergiu rapidamente para os níveis das economias avançadas.

Entre as principais causas estão a falta de concorrência, dificuldades de acesso a crédito, distorções tributárias e regulatórias e má alocação de recursos, que impedem empresas mais produtivas de crescer. Além disso, grande parte da força de trabalho está concentrada em setores de baixa produtividade, como agricultura e comércio.

Para resolver esse impasse e superar o desafio da baixa produtividade, diversos estudos apontam a necessidade de promover reformas estruturais, maior integração produtiva, maiores investimentos em pesquisa e desenvolvimento (P&D), melhoria na educação básica, média e superior e maior abertura a investimentos estrangeiros. Esse pacote de medidas poderia impulsionar a produtividade do trabalho e alavancar o crescimento em bases sustentáveis. Além disso, muitos defendem a estímulos direcionados a setores intensivos em conhecimento, inserção planejada em cadeias globais de valor e modernização da agroindústria.

Em um país com tantas potencialidades, como recursos naturais abundantes, sistema financeiro sofisticado, grande mercado interno e boas universidades como o Brasil, conclui-se que, embora o problema seja estrutural, há uma janela de oportunidade para se evitar mais uma década perdida, desde que governos, empresas e universidades atuem de forma coordenada no bojo de uma Estratégia Nacional de Desenvolvimento para romper o circuito da baixa produtividade e superar a armadilha da renda média.

(*) Ex-secretário de Assuntos Internacionais do Governo do Ceará, mestre em Economia e doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (UnB) e, atualmente, consultor internacional.

Fonte: O Povo, de 27/06/26. Opinião. p.25.


terça-feira, 28 de julho de 2026

URCA: 40 anos promovendo o desenvolvendo regional

Por Carlos Kleber Oliveira (*)

A Universidade Regional do Cariri (Urca) nasceu de um sonho coletivo. Criada em 9 de junho de 1986 e implantada em 7 de março de 1987, foi resultado da mobilização de lideranças e da sociedade civil organizada, que compreendiam a importância de uma universidade pública no interior do Ceará para impulsionar o desenvolvimento regional por meio da educação, da ciência e da cultura.

Naquele momento, reunindo cursos oriundos da então Faculdade de Filosofia do Crato e da Universidade Estadual do Ceará, a instituição iniciou suas atividades com oito cursos de graduação, concentrados nos municípios de Crato e Juazeiro do Norte.

Ao longo desses 40 anos, a Urca cresceu e se consolidou como uma das mais importantes instituições de ensino superior do Nordeste. Atualmente, conta com 35 cursos de graduação, 13 mestrados, quatro doutorados e cerca de 20 especializações distribuídos em sete municípios - Crato, Juazeiro do Norte, Barbalha, Missão Velha, Campos Sales, Iguatu e Mauriti, além de ofertar 5 cursos de graduação na modalidade à distância, em vários municípios do Estado.

Durante esses anos a Urca formou aproximadamente 33 mil graduados, 944 mestres e 44 doutores, contribuindo decisivamente para a qualificação profissional e para o desenvolvimento social, econômico e cultural do Cariri e de todo o Ceará.

A presença da URCA pode ser percebida em praticamente todos os setores da sociedade, como docentes para a educação básica e superior, e profissionais para as áreas de saúde, indústria, serviços, construção civil, jurídica, além de desenvolver pesquisas voltadas para os desafios e potencialidades da região.

A Urca abriga ainda importantes equipamentos científicos e culturais. Se destaca o Geoparque Araripe Mundial da UNESCO, o primeiro das Américas, e que está intrinsicamente inserido no território da Araripe. Tem o Museu de Paleontologia Plácido Cidade Nuvens, em Santana do Cariri, uma referência internacional na área da paleontologia, sendo também referência na repatriação de fósseis, que retornam ao território de origem.

A universidade possui em seu quadro pesquisadores que estão entre os 2% mais influentes do mundo. Participa ativamente de grandes projetos, que impactam no desenvolvimento, na preservação e no reconhecimento do território em que se situa, como por exemplo, dos esforços para que a Chapada do Araripe obtenha o reconhecimento como Patrimônio Mundial da Humanidade pela UNESCO.

Olhando para o futuro, a perspectiva é de continuidade do crescimento institucional, se consolidando como uma universidade cada vez mais inovadora, inclusiva e internacionalizada, mantendo seu compromisso histórico com o desenvolvimento regional.

(*) Reitor da Universidade Regional do Cariri (Urca).

Fonte: Publicado In: O Povo, de 26/06/26. Opinião, p.17.


quarta-feira, 22 de julho de 2026

JUROS ALTOS, RISCOS PERSISTENTES

Por Lauro Chaves Neto (*)

O cenário econômico brasileiro volta a se deteriorar de forma evidente, frustrando a expectativa, ainda recente, de um ciclo mais consistente de queda da taxa Selec ao longo de 2026.   O que se desenhava como um processo gradual de afrouxamento monetário deu lugar a um ambiente de maior incerteza.

Parte dessa mudança vem do cenário externo. As tensões no Oriente Médio mantêm o petróleo em patamares elevados, pressionando custos logísticos e produtivos. Ao mesmo tempo, o El Niño já projeta impactos sobre a produção agrícola, com reflexos diretos sobre os preços dos alimentos.

Some-se a isso a resiliência da economia americana, que reduz o espaço para cortes de juros pelo Federal Reserve e pressiona o câmbio em países emergentes como o Brasil.

No plano doméstico a política econômica contribui para esse quadro. A ampliação de estímulos fiscais e creditícios, em um ambiente já pressionado, reforça expectativas inflacionárias. Não por acaso, as projeções para o IPCA seguem em trajetória ascendente, afastando-se do centro da meta e exigindo cautela do Banco Central.

Nesse contexto, a autoridade monetária se vê diante de um dilema clássico. Diante de uma inflação de 4,72% nos últimos 12 meses, portanto acima do teto da meta, reduzir juros prematuramente pode significar subestimar choques que se mostram persistentes. Por outro lado, manter a Selic em patamares elevados prolonga o custo financeiro para famílias, empresas e o próprio setor público.

Os sinais já são visíveis. A inadimplência cresce, os pedidos de recuperação judicial se multiplicam e o mercado financeiro reage com maior aversão ao risco. O otimismo que marcou o início do ano dá lugar a uma maior volatilidade da bolsa e do câmbio.

O risco não é apenas inflacionário, é também de um esgotamento gradual da capacidade de crescimento sustentado, caso a política econômica permaneça refém de estímulos de curto prazo. Em um ambiente global mais adverso, disciplina fiscal e previsibilidade deixam de ser opções e passam a ser condições necessárias para restaurar a confiança e abrir espaço para a redução sustentável dos juros.

(*) Consultor, professor doutor da Uece e conselheiro do Conselho Federal de Economia.

Fonte: O Povo, de 22/06/26. Opinião. p.16.

quarta-feira, 13 de maio de 2026

Prosperidade compartilhada versus barbárie bélica

Por José Nelson Bessa Maia (*)

Em meio a absurda guerra em curso dos EUA e Israel contra o Irã e seus efeitos caóticos sobre a economia global, o mundo assiste a uma reconfiguração da ordem internacional, gerando uma verdadeira época dos monstros em que, segundo o falecido pensador italiano Antonio Gramsci (1891-1937), "o velho mundo está morrendo e o novo mundo luta para surgir." Diante disso duas abordagens civilizacionais diametralmente opostas saltam aos nossos olhos.

De um lado, a potência hegemônica por 80 anos luta belicosamente para manter sua supremacia em um contexto crescentemente multipolar e de claro esgotamento do financiamento de sua estrutura imperial pelo planeta afora. Por outro, a China, em sua ascensão pacífica, avança com vigor em termos econômicos, tecnológicos e de bem-estar rumo à posição de maior e mais desenvolvida economia do mundo.

Enquanto as manchetes da mídia estavam centradas na guerra no Oriente Médico e suas implicações sobre os mercados financeiros, o Parlamento da China aprovava no início de março de 2026 o seu 15º plano quinquenal (2026-2030), que traça por meio de planejamento de médio e longo prazo a direção das políticas, objetivos de desenvolvimento e reformas a serem executadas nos próximos cinco anos, revelando uma previsibilidade que contrasta com governos obcecados por ciclos eleitorais curtos e/ou intervenções em assuntos de outros países.

O esboço do 15º Plano Quinquenal estabelece uma série de metas, tendo o "desenvolvimento de alta qualidade" no topo da agenda. Apesar dos desafios estruturais, como o envelhecimento populacional, desequilíbrios setoriais e a transição energética, a China propõe um modelo de desenvolvimento próprio que prioriza o bem-estar social e a autonomia tecnológica, servindo como um farol alternativo para o Sul Global.

Os principais vetores do Plano são a inovação tecnológica, a expansão do mercado interno com bem-estar social, a transição para a economia verde e o fortalecimento da segurança nacional. A ênfase do 15º Plano Quinquenal no citado "desenvolvimento de alta qualidade" oferece uma fonte de certeza em meio a uma crescente incerteza global, e ajudará a escrever um novo capítulo na trajetória chinesa de rápido crescimento e estabilidade social de longo prazo.

Em um momento em que alguns países recorrem ao protecionismo, a China abre seu vasto mercado, compartilhando sua prosperidade como fonte de oportunidade e cooperação globais. O crescimento equilibrado de seu imenso comércio externo permitirá mais estabilidade e dinamismo na economia global. Com determinação estratégica o país avança para ocupar o lugar que lhe cabe, mas compartilhando com os seus parceiros os frutos de seu desenvolvimento acelerado e de seus avanços tecnológicos.

(*) Ex-secretário de Assuntos Internacionais do Governo do Ceará, mestre em Economia e doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (UnB) e, atualmente, consultor internacional.

Fonte: O Povo, de 12/04/26. Opinião. p.20.


terça-feira, 12 de maio de 2026

A dificuldade de integrar municípios pauperizados ao polo Crajubar

Por Rita Fabiana Arrais (*)

A sala de aula é um dos melhores lugares para uma professora de economia aprender mais sobre a sua região e os problemas que permeiam o cotidiano de cada aluno que sonha alcançar - por meio do curso superior - à emancipação financeira.

É visível a angústia com que questionam a situação econômica do seu município, ao mesmo tempo em que buscam qualificação para atuar em um grande centro urbano.

Por que no meu município não tem emprego? Esse questionamento é necessário para compreendermos que o atraso estrutural dos municípios, a curto prazo, os torna financeiramente endividados e dependentes de empréstimos federais.

Na Região Metropolitana do Cariri esse debate acirra-se em período eleitoral a fim de encontrar respostas para a invisibilidade de alguns municípios que permanecem com baixíssimos indicadores socioeconômicos, dificultando a captação dos investidores privados.

Esses indicadores (renda, nível educacional, taxa de desemprego, saúde, saneamento, estradas etc.) são imprescindíveis para atrair capital para o município, pois mostram não só a economia, mas as condições reais da população e do mercado consumidor.

É importante pensarmos na RMC para além do Crato-Juazeiro-Barbalha, visto que a concentração de investimentos públicos e privados acelera a desigualdade interna.

No ano de 2024, o Cariri tinha 27 cidades com Índice de Desenvolvimento Socioeconômico na linha da pobreza, como por exemplo: os municípios de Abaiara, Potengi e Caririaçu.

Esses dados revelados dos Índices Firjan (2025) corroboram para o aprofundamento do debate, a fim de buscar soluções para encurtar a distância dos municípios menos desenvolvidos para o polo mais dinâmico.

A desigualdade interna avança pela Chapada do Araripe e exige uma mudança na rota dos investimentos públicos para que haja possibilidade de diversificação econômica nesses municípios, evitando a cristalização das atividades econômicas voltadas para o pequeno comércio e o setor público.

Será que podemos pensar no Cariri mais integrado? E como podemos expandir a economia do Crajubar beneficiando o entorno? Esses gargalos que são perceptíveis não ocupam a esfera do problema fácil de se resolver.

Para modificar o cenário, é preciso trabalho conjunto. Não é só uma questão de dinheiro em abundância. É preciso as Parcerias Público-Privadas conectando as cadeias produtivas locais às grandes empresas.

Como diz a professora: sua cidade pode ser produtiva utilizando as ferramentas que se tem de melhor, mas é preciso que você retorne com mais conhecimento e ajude a transformar essa realidade.

(*) Economista.

Fonte: O Povo, de 10/04/26. Opinião. p.21.

terça-feira, 5 de maio de 2026

A GOVERNANÇA DE DADOS E A PRODUTIVIDADE

Por Alexandre Sobreira Cialdini (*)

O economista Paul Krugman afirmou: "A produtividade não é tudo, mas, a longo prazo, é quase tudo". Aumentar a produtividade é essencial para alcançar empresas sustentáveis e criar empregos qualificados. Elementos fundamentais para qualquer estratégia de desenvolvimento que tenha como principal objetivo a melhoria da vida das pessoas e passam, necessariamente, por uma boa governança de dados, com cadastros confiáveis e interoperáveis. Embora a produtividade não signifique apenas trabalhar mais, mas sim criar mais valor com eficiência, ela é crucial para o crescimento sustentável e competitivo.

A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) demonstrou, em estudos disponíveis, que os dados dos setores público e privado têm o potencial de gerar benefícios sociais e econômicos equivalentes a um intervalo entre 1% e 2,5% do PIB. No entanto, esse resultado ainda não foi atingido devido a desafios como a falta de confiança, os interesses conflitantes entre diferentes partes interessadas e a fragilidade cadastral.

Nesse contexto, o Governo do Ceará, por meio da Secretaria do Planejamento e Gestão do Ceará (Seplag-CE), firmou um acordo de cooperação técnica com a Secretaria Especial da Receita Federal do Brasil para fortalecer o apoio institucional aos municípios cearenses no cumprimento de obrigações fiscais, previdenciárias e trabalhistas.

O acordo tem como objetivo auxiliar as administrações municipais, durante as edições da Caravana Ceará um Só 2026, na correta prestação de informações ao Sistema de Escrituração Digital das Obrigações Fiscais, Previdenciárias e Trabalhista (eSocial), além de orientar sobre procedimentos de regularização no âmbito do Programa Receita Social – Autorregularização. 

A iniciativa é mais uma conquista que pode ser creditada à importância do Programa de Governança Interfederativa Ceará um Só, realizado na gestão do governador Elmano de Freitas. O delegado da Receita Federal, Paulo Régis Paulino, ressaltou a participação do Fisco na jornada interfederativa deste ano e valorizou o ineditismo da experiência conduzida pela Secretaria.

Pelo documento, a Seplag-CE e a Escola de Gestão Pública do Ceará serão responsáveis pela articulação com os municípios, pela organização das atividades e pela disponibilização de materiais de apoio. Já a Receita Federal atuará compartilhando orientações técnicas e participando das ações conforme sua disponibilidade, sendo cada órgão responsável pelo custeio das atividades relacionadas à execução das ações. 

Trata-se de mais uma boa prática da Secretaria do Planejamento e Gestão, reconhecida por um órgão federal e disseminada para os municípios cearenses. O trabalho já teve início nas regiões do Maciço de Baturité e do Sertão de Canindé, evidenciando a importância da governança de dados para a melhoria da produtividade em todos os municípios cearenses.

(*) Mestre em Economia e doutor em Administração Pública e Secretário de Finanças e Planejamento do Eusébio-Ceará.

Fonte: O Povo, de 2/04/26. Opinião. p.19.


segunda-feira, 13 de abril de 2026

Os impedimentos institucionais ao desenvolvimento

Por Pedro Jorge Ramos Vianna (*)

Em 1981, quando da defesa de minha Tese de Professor Catedrático, na UFC, defendi que quatro são os fatores determinantes do nível de desenvolvimento econômico em qualquer época e em qualquer país. São eles, os fatores institucionais, os fatores históricos, os fatores naturais e os fatores aleatórios. E que o mais importante deles, em qualquer situação, é o fator institucional.

Em 2024 os economistas que defenderam essa tese receberam o Nobel de Economia.

Em muitos trabalhos em que analisei o sistema econômico brasileiro e nordestino, utilizei essa tese.

Hoje volto ao tema. O "leit motiv" foi uma reportagem publicada no O POVO em 6/1/2026, sobre a logística de transporte no Estado, um dos fatores mais importantes para explicar o péssimo desenvolvimento econômico do Brasil.

Apenas para tratar dos aspectos mais recentes, cito como o primeiro grande erro, no Brasil, em termos de desenvolvimento econômico, a decisão do presidente do Brasil em estabelecer, nos anos 1950 um modelo de crescimento baseado no transporte rodoviário, o tipo de transporte terrestre mais caro que existe.

O transporte marítimo é o tipo de transporte mais barato que existe, e como temos uma costa medindo entre 7.491 km a 10.900 km, dependendo da estimativa, não se compreende como até hoje essa dádiva não é bem aproveitada.

Mas poderíamos ter escolhido o transporte ferroviário, o segundo mais barato. E também não o fizemos. Por isso estamos pagando até hoje.

Dado este quadro, o que nos cabe discutir no que diz respeito à situação atual do Ceará?

O trabalho publicado no O POVO, acima citado, mostra que o desenvolvimento do Ceará é prejudicado pela falta de equipamentos adequados para o escoamento de produtos.

Os eixos, dentro deste contexto, mais importantes são: a) as rodovias federais: BR 116, 222 e 020, estradas que não são duplicadas (a BR 116 apresenta, apenas, pouca quilometragem de duplicação); elas também apresentam índices apenas razoáveis de adequação para o transporte o que é seguido pelas CEs que apresentam um percentual de 62,5% como condição regular, ruim ou péssima; b) o Anel Viário, que deveria ligar as três rodovias federais (110, 222 e 020) e as rodovias estaduais (CEs 010, 040, 060 e 065), cujo projeto começou em 2010 e com extensão prevista de 32km. Estamos em 2026 e não sabemos quando ele estará pronto; c) a Ferrovia Transnordestina.

Sobre esta já escrevi um pouco neste mesmo Jornal. Não vale aqui repetir minhas críticas.

Para terminar, lembro o trabalho do Dr. Marcos Holanda "Qualidade x Quantidade", publicado no Blog do Eliomar, no dia 6/1/2026. Ali, o autor escreve textualmente que o Estado investiu R$ 121,0 milhões para gerar um acréscimo de R$ 1,00 na renda das famílias cearenses. E para mostrar o descalabro desses investimentos, ele assegura que o VLT que vai ser expandido até o Castelão transportará em um mês apenas 60% dos passageiros que o sistema de ônibus transporta em um dia.

Será possível se imaginar investimentos mais dispendiosos, em termos per capita, do que esses?

Tendo em vista que é a ação do homem o fator que mais influencia a trajetória do desenvolvimento econômico de uma sociedade, não é de se admirar o atual estágio de subdesenvolvimento do Ceará.

(*) Economista e professor titular aposentado da UFC,

Fonte: O Povo, de 8/03/26. Opinião. p.18.


quarta-feira, 1 de abril de 2026

O desenvolvimento industrial cearense e a infraestrutura

Por Lauro Chaves Neto (*)

O desenvolvimento sustentável pressupõe uma indústria forte. A atividade industrial é a que mais gera encadeamentos produtivos, inovação, empregos qualificados e renda. No Estado do Ceará, representa 18,3% da economia, 82% das exportações e sustenta 387 mil empregos formais - cerca de 28% do total do estado. Esses números, por si só, já justificam prioridade a uma agenda estratégica: infraestrutura moderna, integrada e orientada ao futuro.

Infraestrutura não é gasto; é investimento estruturante. É ela que reduz custos, amplia competitividade e transforma potencial em realidade econômica. A ampliação das redes de transporte, energia, segurança hídrica e telecomunicações não pode ser vista como opção, mas como condição para que o Estado consolide seu protagonismo industrial no Nordeste e no Brasil.

No campo logístico, a duplicação de corredores rodoviários, a melhoria da mobilidade urbana e a integração efetiva com o interior produtivo fortalecem a conexão com o Complexo Industrial e Portuário do Pecém.

A conclusão da Ferrovia Transnordestina, integrada ao sistema porto-rodovia, representa um divisor de águas para o escoamento de grandes volumes, reduzindo custos e elevando a competitividade das nossas cadeias produtivas.

No eixo energético, já demonstra vocação para liderar a transição. A expansão das energias renováveis, o avanço do hidrogênio verde, os projetos eólicos offshore e a atração de data centers posicionam o estado na fronteira da economia de baixo carbono. Trata-se de uma oportunidade histórica de industrializar com inovação, agregar valor e gerar empregos qualificados.

Segurança hídrica e infraestrutura digital completam esse ciclo virtuoso, ampliando a resiliência produtiva e interiorizando oportunidades. A digitalização e a adoção de tecnologias da Indústria 4.0 não são tendências, são exigências do presente.

O Estado do Ceará reúne condições únicas para consolidar-se como polo logístico, industrial e energético. Mas isso exige visão estratégica, continuidade de políticas e investimentos. O desenvolvimento industrial cearense está intimamente ligado à evolução da infraestrutura.

(*) Consultor, professor doutor da Uece e conselheiro do Conselho Federal de Economia.

Fonte: O Povo, de 2/03/26. Opinião. p.18.

quarta-feira, 4 de março de 2026

ECONOMIA CIRCULAR: caminho estratégico para a indústria do futuro

Por Lauro Chaves Neto (*)

A Economia Circular deixou de ser apenas uma pauta ambiental para se consolidar como estratégia essencial de competitividade para a indústria. Em um cenário de escassez de recursos, aumento de custos e pressão por sustentabilidade, reaproveitar materiais, reduzir desperdícios e redesenhar processos produtivos não é mais opção - é necessidade.

Para que essa transformação aconteça de forma consistente, é fundamental promover a colaboração integrada entre os diferentes níveis de governo, os elos da cadeia produtiva e os trabalhadores do setor industrial. A atuação conjunta permite superar barreiras regulatórias, alinhar políticas públicas e criar um ambiente favorável à inovação. Cabe ao poder público criar incentivos, atualizar legislações e oferecer segurança jurídica.

A indústria ocupa papel central nesse processo. É nela que surgem as maiores oportunidades de redução de impactos ambientais, economia de insumos e aumento da produtividade. A adoção de modelos circulares possibilita às empresas reduzir custos operacionais, otimizar o uso de energia, reaproveitar resíduos e desenvolver novos produtos a partir de materiais antes descartados, ampliando também a competitividade nacional e internacional.

Nesse contexto, a colaboração público-privada é decisiva. Parcerias estratégicas estimulam o desenvolvimento de tecnologias limpas, a modernização dos processos produtivos e a criação de novos modelos de negócio. Reconhecer e divulgar experiências bem-sucedidas é fundamental para inspirar outras indústrias a adotarem práticas sustentáveis.

Além dos ganhos ambientais, esse modelo gera impactos sociais positivos, com a criação de empregos, valorização do trabalho local e fortalecimento das cadeias produtivas regionais. Investir em Economia Circular é apostar em desenvolvimento econômico com responsabilidade social.

Para a indústria brasileira, a Economia Circular não é uma escolha, é uma imposição do presente. Permanecer preso a modelos ultrapassados significa perder competitividade, mercados e oportunidades. O futuro da produção exige inovação e uso inteligente dos recursos.

(*) Consultor, professor doutor da Uece e conselheiro do Conselho Federal de Economia.

Fonte: O Povo, de 2/02/26. Opinião. p.20.


As normas contábeis e a reforma tributária

Por Alexandre Sobreira Cialdini (*)

As dificuldades de relacionamento e negociação entre empresas de diferentes países levaram à criação, nos anos 1970, do International Accounting Standards Committee (IASC), organismo independente formado por entidades contábeis da Alemanha, Austrália, Canadá, Estados Unidos, França, Irlanda, Japão, México, Países Baixos e Reino Unido. O objetivo era definir normas contábeis que pudessem ser utilizadas globalmente.

As primeiras medidas foram publicadas pelo International Accounting Standards Board (IASB), que ficou responsável pela emissão das Normas Internacionais de Relatório Financeiro (IFRS). A instituição possui mais de 140 entidades contábeis profissionais, inclusive do Brasil. No mundo empresarial, se cada organização seguir as normas contábeis do seu país, não existirá um padrão para as demonstrações contábeis, consequentemente, estas informações não serão comparáveis. No entanto, se for aplicado o mesmo padrão nos diferentes países a compreensão das informações fluirá de forma natural.

O processo de adoção das normas internacionais de padrões contábeis no Brasil teve início em 2005, com a criação do Comitê de Pronunciamentos Contábeis (CPC), responsável pela tradução e adaptação das normas internacionais às normas brasileiras de contabilidade (NBC). Em 2007, as normas IFRS tornaram-se obrigatórias para as empresas de capital aberto, que tiveram um prazo de adaptação de três anos para implementá-las.

Atualmente, o CPC é responsável pelo alinhamento das regras contábeis brasileiras, emitidas por diversas entidades regulatórias, com os padrões internacionais IFRS e são editadas pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM). A última edição aconteceu em 24 de dezembro passado, que tornou obrigatória para as companhias abertas o aprimoramento e a apresentação das demonstrações contábeis, exigiu a divulgação em notas explicativas de medidas de desempenho definidas pela administração e introduziu novos princípios para a agregação e desagregação de informações contábeis.

A Reforma Tributária muda profundamente o papel da contabilidade, exigindo adaptação dos sistemas, revisão de processos e capacitação, com o CPC tendo um papel crucial na normatização do IVA Dual (CBS e IBS) e na orientação sobre a não cumulatividade plena, créditos fiscais mais amplos e novas obrigações acessórias. O CPC será fundamental para emitir pronunciamentos que interpretem e orientem a aplicação das novas regras do IVA Dual, do conceito de "estoques" e da apuração de créditos.

Em resumo, a reforma tributária exige uma reengenharia dos processos contábeis, direcionando o foco para uma gestão mais estratégica e integrada ao negócio, com o CPC liderando a normatização desse novo cenário.

(*) Mestre em Economia e doutor em Administração Pública e Secretário de Finanças e Planejamento do Eusébio-Ceará.

Fonte: O Povo, de 22/01/26. Opinião. p.19.


segunda-feira, 17 de novembro de 2025

ECONOFÍSICA: um modelo para aplicação no desenvolvimento regional

Por Alexandre Sobreira Cialdini (*)

A Econofísica é um campo de pesquisa dinâmico que faz a interface entre a física e a economia, no qual técnicas analíticas e computacionais da física são empregadas para estudar as propriedades dos sistemas econômicos.

O rigor, a precisão e o prestígio da física sempre exerceram grande fascínio sobre nós, economistas. O físico Isaac Newton, por exemplo, criou o modelo gravitacional que influenciou o modelo de comércio gravitacional, o qual prevê naturalmente o comércio entre parceiros, utilizando uma interpretação metafórica da lei universal de Newton - aplicada a países, regiões ou empresas.

Esse modelo foi desenvolvido em 1962, quando o físico e economista Jan Tinbergen, vencedor do primeiro Prêmio Nobel de Economia em 1969, propôs um estudo econométrico sobre o padrão que prevaleceria nas relações entre países sem barreiras comerciais. Segundo ele, “os fluxos de comércio estão diretamente relacionados com a dimensão econômica dos países envolvidos e inversamente proporcional à distância entre eles”.

Tinbergen identificou os países mais afetados por medidas protecionistas, confrontando os resultados com o modelo gravitacional de Newton, segundo o qual “cada partícula do universo atrai todas as outras com uma força (F) diretamente proporcional (k) ao produto de suas massas (m1 e m2) e inversamente proporcional ao quadrado da distância (r).

A adaptação dessa lei ao comércio internacional sugere que o volume de trocas é diretamente proporcional ao Produto Interno Bruto (PIB) -- as “massas” dos países – e inversamente proporcional à distância entre eles. Assim, grandes economias tendem a comercializar mais entre si.

A distância, por sua vez, funciona como um obstáculo: quanto maior, menor tende a ser o comércio, já que custos de transporte e fatores logísticos influenciam negativamente os fluxos.

Nesse contexto, eu e o pesquisador Raimundo Costa (físico), em parceria com outros estudiosos, estamos desenvolvendo um modelo para analisar os efeitos do quadripé Transnordestina–Porto Seco--ZPE–Porto do Pecém, com base na organização dos Arranjos Produtivos Locais (APLs) em seis dimensões: a) territorial; b) diversidade de atividades e de atores econômicos, políticos e sociais; c) conhecimento tácito; d) inovação e aprendizado interativo; e) governança; e f) grau de enraizamento.

Os estudos preliminares estimam que esse complexo multimodal envolverá investimentos de R$ 1,75 bilhão em dez anos, com retorno de R$ 7,2 bilhões no mesmo período. Em apenas quatro anos, espera-se uma profunda transformação no PIB do Estado e da região, com efeitos diretos em 28 municípios.

O modelo gravitacional em desenvolvimento demonstra que os fluxos comerciais crescem quando os custos de transporte diminuem e quando há grandes economias interconectadas. Os portos secos atuam exatamente nesses dois aspectos, ampliando fluxos e fortalecendo a rede de comércio regional.

(*) Mestre em Economia e doutor em Administração Pública e Secretário de Finanças e Planejamento do Eusébio-Ceará.

Fonte: O Povo, de 16/10/25. Opinião. p.15.

segunda-feira, 10 de novembro de 2025

Índice CFA de governança municipal para um desenvolvimento sustentável

Por Vladimir Spinelli Chagas (*)

Em 2015, a Organização das Nações Unidas (ONU) propôs, pela Agenda 2030, 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), com 169 metas, visando à erradicação da pobreza, a proteção do planeta e a garantia da prosperidade e de todos os povos, orientada pelos princípios dos 5Ps: Pessoas, Planeta, Prosperidade, Paz e Parcerias.

Tratando-se de ação integrada, global e corporativa, envolvendo governos, setor privado, sociedade civil e cidadãos, o Conselho Federal de Administração (CFA) entendeu dever participar ativamente, montando o Índice CFA de Governança Municipal (IGM-CFA) como forma de apoiar os municípios brasileiros no alinhamento de suas políticas públicas aos ODS, nas dimensões financeira, de gestão e de desempenho.

O IGM-CFA oferece diagnósticos de maior eficácia da realidade dos municípios, permitindo decisões baseadas em análises documentais, levantamentos estatísticos, estudos de caso, dentre outras ações, favorecendo, para além do alinhamento ao ODS, o aprimoramento da gestão, a melhoria da qualidade de vida dos habitantes, o acesso a fontes de financiamento mais adequadas e a sustentabilidade.

Esses estudos permitem mostrar, com mais clareza, os principais desafios com que se defrontam os gestores municipais, em termos técnicos, orçamentários e culturais, mostrando-se como uma inovação a reforçar o desenvolvimento de cidades sustentáveis, inclusivas e resilientes, diretrizes expostas na agenda urbana orientada para resultados.

O envolvimento dos profissionais de Administração é fundamental, dados os conhecimentos acumulados em sua formação. Assim, o Conselho Regional de Administração (CRA-CE) vem apoiando esses trabalhos, cujas experiências já mostram resultados promissores no Ceará.

Recentemente, em reunião na Academia Cearense de Administração (Acad), o projeto foi amplamente debatido, levantando-se novas perspectivas para a expansão dessa iniciativa, considerando-se que é nos municípios que residem as pessoas, neles estando, portanto, os problemas, mas também as soluções mais adequadas, que ferramentas como o IGM-CFA apontarão com maior segurança.

(*) Professor aposentado da Uece, membro da Academia Cearense de Administração (Acad) e conselheiro do CRA-CE. Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Fortaleza.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 6/10/25. Opinião. p.18.

quinta-feira, 16 de outubro de 2025

A DESIGUALDADE, O SOCIAL E O ECONÔMICO

Por Lauro Chaves Neto (*)

A desigualdade extrema permanece como uma das maiores mazelas do Brasil, manifestando-se de forma territorial, econômica e social, com agravantes relacionados à cor e ao sexo.

Socialmente, escancaram a exclusão e a vulnerabilidade para uma parcela expressiva da sociedade brasileira. Economicamente, constituem um gargalo ao desenvolvimento, ao reduzir o potencial do mercado interno.

O Observatório Brasileiro das Desigualdades monitora a sua evolução. Seu relatório de 2025 aponta que, dos 43 indicadores acompanhados, 25 apresentaram avanços, três tiveram retrocessos e oito permaneceram estagnados.

Em 2024, o rendimento médio cresceu 2,9%, alcançando R$ 3.066. Ainda assim, as mulheres receberam apenas 73% do rendimento dos homens. O percentual de crianças de 0 a 3 anos matriculadas em creches subiu para 34,6%.

O Ensino Médio atingiu 74% de escolarização, enquanto o Ensino Superior chegou a 22,1%. A taxa de analfabetismo funcional entre pessoas de 15 a 64 anos manteve-se estagnada em 29,4% entre 2018 e 2024, o que limita a possibilidade de ganhos mais expressivos de produtividade para a economia brasileira.

As desigualdades regionais persistem. A violência letal contra jovens continua concentrada nas regiões Norte e Nordeste, que também enfrentam os maiores índices de pobreza, insegurança alimentar, mortalidade infantil, déficit de acesso à água e saneamento.

Em 2024, o 1% mais rico da população ganhou, em média, 30,5 vezes mais que os 50% mais pobres, com a maior disparidade registrada no Nordeste (32,0) e a menor no Sul (23,3). O sistema tributário aprofunda o problema da concentração de renda.

A elevada carga de tributos indiretos, com a reforma tributária estabelecendo a alíquota do IVA como uma das mais altas do mundo, tende a agravar esse quadro. A estrutura regressiva penaliza as famílias mais pobres.

Apesar de alguns avanços, os indicadores revelam que um Brasil marcado por desigualdades estruturais e regionais, que afetam diretamente áreas como saúde, educação, segurança e condições de vida, exigindo políticas públicas consistentes, integradas e de longo prazo.

(*) Consultor, professor doutor da Uece e conselheiro do Conselho Federal de Economia.

Fonte: O Povo, de 15/09/25. Opinião. p.22.

terça-feira, 23 de setembro de 2025

COP 30 e a Insustentabilidade Turística

Por Dárdano Nunes de Melo (*)

A COP 30 representa um momento único para o Brasil mostrar ao mundo a sua pujança na sustentabilidade, o que além de dar visibilidade, poderá atrair investimentos tendo em vista as metas alcançadas na área climática, na preservação da Amazônia, no multilateralismo e enfim, no desenvolvimento sustentável.

Um encontro desta magnitude, à nível turístico poderia dar ao país um reforço em sua imagem, como perfeita estratégia de marketing, divulgando o Pará, a Amazônia e o Brasil. Como observador do desenvolvimento turístico nacional e analista de suas políticas públicas, afirmo com toda segurança que existe uma elevada discrepância nos avanços alcançados nos segmentos correlatos ao evento em relação ao atraso no setor turístico, tanto no aspecto do planejamento, da promoção, da infraestrutura, da tecnologia, da segurança e principalmente da estratégia operacional.

Por exemplo, enquanto no Agro, cientistas do mais alto gabarito da Embrapa recebem, anos seguidos, premiação tipo Nobel no setor, na Embratur e no Ministério do Turismo o que se vê é uma gestão feita por leigos e despreparados, além de serem órgãos verdadeiros cabides de emprego e de há muito denunciado por corrupção e destituídos de total controle de produtividade por resultados pífios.

Como admitir que um país que tem a maior biodiversidade do planeta, incomparável patrimônio cultural e artificial aparece na humilhante escala da OMT com os piores índices de receptivo? Esta lanterna na estatística do turismo internacional retrata perfeitamente a incapacidade de transformar este precioso recurso em um produto altamente rentável. O turismo representa 12% do PIB mundial e gera quase meio bilhão de empregos diretos e outros bilhões em seu cluster econômico.

O descaso com o turismo é tamanho que as Nações Unidas sugeriram transferir dopara outro lugar, tendo em vista que o Brasil não fez o básico: planejamento (estudo de capacidade de carga, acerto prévio de preços e reservas de hospedagem, serviços de receptivo e segurança, controle e tabelamento da área de alimentação etc.).

O desconhecimento da psicologia social e da antropologia cultural do empresário e de sua falta de ética no Brasil que adota a famosa ¨lei do Gerson¨, blindou a visão de Marina Silva e Celso Sabino que veio apagar o fogo quando e estrago estava feito: Empresas cobrando até 20 vezes mais que o preço de mercado, um absurdo! Colasuonno (1980) disse; ¨Explorem o Turismo não o turista¨.

(*) Academia Cearense de Turismo.

Fonte: O Povo, de 19/08/25. Opinião. p.18.

segunda-feira, 22 de setembro de 2025

ESG real ou para inglês ver?

Por Lauro Chaves Neto (*)

O desenvolvimento sustentável é aquele que satisfaz as necessidades atuais sem comprometer a capacidade das próximas gerações de atender as suas. Esse conceito foi desenvolvido pela ONU, na década de 70.

Apenas algumas nações praticando a sustentabilidade não é o suficiente. O Setor Produtivo precisa implantar a ética e a transparência na sua governança, cuidar do meio ambiente desde a seleção dos seus fornecedores até a gestão dos resíduos, e cuidar das pessoas, não só de acionistas e colaboradores, assim como atuar pro ativamente na transformação da sociedade.

O ESG (ambiental, social e governança, na sigla em inglês) é a transição da visão macro para a ação microeconômica na promoção da sustentabilidade, pois será a disseminação da cultura ESG que irá transformar em sustentável a nossa sociedade.

O tema ESG já é o foco dos investidores nas suas decisões de financiamento. Avaliar a sustentabilidade e o impacto social de um negócio passou a ser determinante para o valor das empresas.

Algumas práticas, no entanto, são rotuladas de ESG e não conseguem agregar valor ao negócio, já outras, possuem um viés ainda mais danoso, o de se divulgar ações que não possuem conexão com a realidade.

Uma empresa que tenta mostrar que faz, pelo meio ambiente, mais do que aquilo que realmente executa, poderia ser descrito como propaganda enganosa, porém o vocabulário corporativo prefere usar "greenwashing", nesses casos. Já quando são "falsas" informações sobre iniciativas sociais é comum se usar o termo "socialwashing".

Um dos erros que mais se repete é divulgar iniciativas sustentáveis, social ou ambiental, que foram planejadas e ainda não implantadas, ao invés de focar nos resultados efetivos de iniciativas exitosas já implantadas.

Vincular as questões ambientais, sociais e de governança à cadeia de valor da organização é uma estratégia de negócios que irá contribuir para a sustentabilidade da empresa! O oposto do greenwashing e do socialwashing. A Certificação, como por exemplo o Selo ESG da Fiec com auditoria internacional, é uma das melhores alternativas para verificar o propósito.

(*) Consultor, professor doutor da Uece e conselheiro do Conselho Federal de Economia.

Fonte: O Povo, de 19/08/25. Opinião. p.18.

quarta-feira, 3 de setembro de 2025

O território caririense e os desafios das políticas públicas

Por Rita Fabiana Arrais (*)

O estudo mais recente divulgado pelo Instituto de Pesquisa e Estratégia Econômica do Ceará (Ipece) traz dados relacionados às desigualdades territoriais de renda no Ceará, ao mesmo tempo em que estimula uma reflexão a respeito das discrepâncias quanto ao maior valor médio de renda mensal de pessoas responsáveis pelo domicílio em cidades da mesma região.

O estudo tem como base o Censo do IBGE de 2022 e o salário mínimo nacional deste ano no valor R$ 1.212,00.

A Grande Fortaleza segue no topo das regiões com maior renda média mensal (R$ 2.609,36), enquanto a Região do Cariri apresenta-se em segundo lugar (R$ 1.570,30).

Buscando analisar de forma sintética o distanciamento (em relação à renda disposta na pesquisa) entre as cidades de Crato (R$ 1.910,24), Barbalha (R$ 1.896,87) e Juazeiro do Norte (R$ 1.867,85) comparando-as as demais cidades da região, constata-se não só um abismo financeiro, mas também uma ineficácia (que pode ser superada) de políticas públicas territoriais propostas ao longo de décadas na região.

Para exemplificarmos melhor, as cidades de Araripe (R$ 1.098,46), Santana do Cariri (R$ 1.067,71) e Caririaçu (R$ 1.150,97) revelam valores de renda média mensal abaixo do salário nacional do ano de 2022.

A escolha dessas três cidades não se dá apenas pela questão financeira, mas também pelo fato de se localizarem próximas a um grande centro urbano com ascensão econômica no Nordeste, estamos falando de Crato, Juazeiro do Norte e Barbalha. Contudo essa aproximação não promove melhorias no nível de renda das populações locais.

Ainda é comum na região que essas cidades sejam apenas dormitórios para alguns de seus habitantes, pois estes deslocam-se para o centro econômico a fim de encontrarem oportunidades de trabalho e melhores salários que promovam crescimento profissional e desenvolvimento intelectual.

Assim, ao mesmo tempo em que encontram espaços para construírem suas carreiras, impulsionam a economia local ao serem consumidores potenciais do mercado, injetando dinheiro na economia num processo cíclico de ganhos e gastos.

O Cariri é um território rico não só da diversidade cultural, mas traz aspectos políticos e econômicos que moldam os espaços ocupados por seus atores sociais. De acordo com Saquet (2009) "[...] território significa articulações sociais, conflitos, cooperações, concorrência e coesões". Nesse sentido, torna-se menos complicado compreendermos as deficiências das políticas públicas territoriais.

É evidente que não só o Estado territorializa suas políticas. O setor privado executa recortes espaciais priorizando retornos volumosos aos investimentos realizados, impactando a economia e a longo prazo produzindo uma desigualdade, considerável, na renda dos caririenses.

(*) Economista.

Fonte: O Povo, de 1/08/25. Opinião. p.17.

quarta-feira, 20 de agosto de 2025

BNB é vital para o desenvolvimento

Por Rita Josino (*)

O Banco do Nordeste do Brasil (BNB) completa 73 anos de existência em 19 de julho e a data é motivo de celebração para toda uma Região e para o País. O BNB é um dos principais instrumentos de desenvolvimento na sua área de atuação que engloba, além dos estados do Nordeste, o norte de Minas Gerais e do Espírito Santo. É responsável pelo maior Programa de Microcrédito Produtivo e Orientado da América Latina, o Crediamigo e Agroamigo; por programas com foco nas mulheres, no financiamento de energia solar, inovação e mais recentemente pela parceria no Acredita no Primeiro Passo, programa do Governo Federal voltado à inclusão produtiva de empreendedores inscritos no Cadastro Único (CadÚnico).

Ao longo das mais de sete décadas tem sido um porto seguro para grupos que historicamente seriam excluídos do sistema financeiro, além de formador de gerações de profissionais qualificados para inúmeros cargos nas esferas municipal, estadual e federal.

Apesar da relevância para a economia da Região, com geração de empregos, renda, apoio a pequenos e grandes negócios no campo e na cidade, nós, da Associação dos Funcionários do BNB (AFBNB) estamos permanentemente vigilantes e prontos para intervir quando percebemos outros interesses que possam fragilizar o BNB, seja atacando sua principal fonte de recursos - o FNE, seja tratando-o como moeda de troca política.

A própria AFBNB foi criada num contexto de defesa do Banco, tendo sido protagonista durante a Assembleia Nacional Constituinte e tendo sua luta vitoriosa, junto com outras entidades, com a criação dos Fundos Constitucionais de Desenvolvimento (FNE, FNO e FCO).

Neste aniversário outras questões também devem ser motivo de atenção no Banco: as pautas que a AFBNB aponta no que se refere ao ambiente de trabalho, condições adequadas e saudáveis, compatíveis com uma instituição diferenciada como é o BNB. Vislumbrar um Banco cada vez melhor e pujante é tarefa a ser buscada diuturnamente, afinal, uma instituição só é forte se seus trabalhadores se sentirem valorizados! Vida longa ao BNB!

(*) Diretora-presidente da AFBNB.

Fonte: O Povo, de 19/07/25. Opinião. p.19.

segunda-feira, 4 de agosto de 2025

Setor da Construção Civil no Cariri apreensivo com a taxa de juros elevada

Por Rita Fabiana Arrais (*)

No último dia 18 de junho o Comitê de Política Monetária (Copom) elevou a taxa Selic (Sistema Especial de Liquidação e Custódia) para 15% ao ano, gerando apreensão na economia.

Os constantes aumentos das taxas de juros, principalmente da Selic, trouxeram consequências para inúmeros setores da economia, em especial, a construção civil que depende do equilíbrio entre a oferta e a demanda por imóveis para permanecer competitiva.

No final do último ano (2024) o crescimento da construção civil fechou em 4,2%. Esse valor consolidado está intrinsecamente ligado ao volume de capital investido, e de empregos gerados. como também no aquecimento e fortalecimento do setor varejista.

Na Região Metropolitana do Cariri o quantitativo de empresas no ramo da construção civil aponta mais de 1800 empreendimentos ativos. São construtoras de grande e médio porte que ao longo das décadas foram (são) importantíssimas para o crescimento econômico da região.

É cabível de registro que as políticas econômicas expansionistas ligadas ao crédito - tanto para o ofertante quanto ´para o demandante – e as novas regras do Programa Minha Casa Minha Vida com a proposta de liberação de crédito para a aquisição da moradia, foram importantes para a manutenção no mercado dessas construtoras.

De acordo com a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (2025) as perspectivas de crescimento para este setor são de 2,3%, considerado pelos empreendedores do ramo como um prognóstico realista e até possível de se alcançar, ainda que o ciclo de elevações dos juros tenha impactado intensamente todo o envolto deste setor, ocasionando redução nos investimentos privados, nas ofertas de imóveis e nos empréstimos bancários para a sua aquisição.

Uma das características da construção civil carirense está no lançamento de imóveis direcionados para classe média, com preços iniciais de R$ 180 mil reais. A estratégia de preços e a localização do imóvel são fatores que proporcionam a manutenção da demanda local estável.

É importante destacar que há mais de 20 anos a especulação imobiliária na região do cariri alcança valores extraordinários, se comparado as grandes capitais no Brasil. Contudo, há na região um deslocamento das construções para bairros com um contingente populacional mediano/ pequeno, em que a infraestrutura disponível para uma moradia de qualidade encontra-se em fase de implantação, ou muitas vezes é inexistente.

A questão da alta de juros não impõe restrições de ganhos e perdas apenas para o investidor. A estagnação do crescimento corrói toda a cadeia produtiva do setor. Assim, de forma lenta e gradual os custos mais elevados dos insumos para a produção, bem como do crédito de financiamento chegarão a nós consumidores.

(*) Economista.

Fonte: O Povo, de 4/07/25. Opinião. p.23.

 

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