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terça-feira, 28 de julho de 2026

URCA: 40 anos promovendo o desenvolvendo regional

Por Carlos Kleber Oliveira (*)

A Universidade Regional do Cariri (Urca) nasceu de um sonho coletivo. Criada em 9 de junho de 1986 e implantada em 7 de março de 1987, foi resultado da mobilização de lideranças e da sociedade civil organizada, que compreendiam a importância de uma universidade pública no interior do Ceará para impulsionar o desenvolvimento regional por meio da educação, da ciência e da cultura.

Naquele momento, reunindo cursos oriundos da então Faculdade de Filosofia do Crato e da Universidade Estadual do Ceará, a instituição iniciou suas atividades com oito cursos de graduação, concentrados nos municípios de Crato e Juazeiro do Norte.

Ao longo desses 40 anos, a Urca cresceu e se consolidou como uma das mais importantes instituições de ensino superior do Nordeste. Atualmente, conta com 35 cursos de graduação, 13 mestrados, quatro doutorados e cerca de 20 especializações distribuídos em sete municípios - Crato, Juazeiro do Norte, Barbalha, Missão Velha, Campos Sales, Iguatu e Mauriti, além de ofertar 5 cursos de graduação na modalidade à distância, em vários municípios do Estado.

Durante esses anos a Urca formou aproximadamente 33 mil graduados, 944 mestres e 44 doutores, contribuindo decisivamente para a qualificação profissional e para o desenvolvimento social, econômico e cultural do Cariri e de todo o Ceará.

A presença da URCA pode ser percebida em praticamente todos os setores da sociedade, como docentes para a educação básica e superior, e profissionais para as áreas de saúde, indústria, serviços, construção civil, jurídica, além de desenvolver pesquisas voltadas para os desafios e potencialidades da região.

A Urca abriga ainda importantes equipamentos científicos e culturais. Se destaca o Geoparque Araripe Mundial da UNESCO, o primeiro das Américas, e que está intrinsicamente inserido no território da Araripe. Tem o Museu de Paleontologia Plácido Cidade Nuvens, em Santana do Cariri, uma referência internacional na área da paleontologia, sendo também referência na repatriação de fósseis, que retornam ao território de origem.

A universidade possui em seu quadro pesquisadores que estão entre os 2% mais influentes do mundo. Participa ativamente de grandes projetos, que impactam no desenvolvimento, na preservação e no reconhecimento do território em que se situa, como por exemplo, dos esforços para que a Chapada do Araripe obtenha o reconhecimento como Patrimônio Mundial da Humanidade pela UNESCO.

Olhando para o futuro, a perspectiva é de continuidade do crescimento institucional, se consolidando como uma universidade cada vez mais inovadora, inclusiva e internacionalizada, mantendo seu compromisso histórico com o desenvolvimento regional.

(*) Reitor da Universidade Regional do Cariri (Urca).

Fonte: Publicado In: O Povo, de 26/06/26. Opinião, p.17.


quinta-feira, 11 de junho de 2026

Defesa de Memorial de Neto Cisne para Professor Titular da Administração da Uece

Flagrante da Comissão Especial Julgadora, logo depois da defesa do Memorial do economista JOSÉ JOAQUIM NETO CISNE. O Prof. Neto Cisne está ladeado pelo professor Almir Bittencourt da Silva, à direita, e por Profs. Jair do Amaral Filho, Marcelo Gurgel Carlos da Silva e Ana Augusta Ferreira de Freitas, à esquerda. (Foto cedida por Prof. Neto Cisne).

Ocoeeeu na tarde de ontem, quarta-feira (10/06/26), no Miniauditório Áurea Bessa do Centro de Estudos Sociais Aplicados da Universidade Estadual do Ceará - CESA/Uece, a Defesa de Memorial, seguida da avaliação de desempenho, para a promoção funcional da referência “O” de professor associado para referência “P” da classe Titular do Grupo Ocupacional Magistério Superior-MAS, da Professor Titular do docente do Curso de Administração da Uece.

A Comissão Especial Julgadora, formada pelos Profs. Drs. Ana Augusta Ferreira de Freitas (efetivo Uece), Jair do Amaral Filho (efetivo UFC), Almir Bittencourt da Silva (efetivo UFC), Marcelo Gurgel Carlos da Silva (suplente interno) e Krishnamurti de Morais Carvalho (suplente interno), tendo por secretária a Profa. Dra. Thiciane Mary Carvalho Teixeira, aprovou o Memorial apresentado pelo professor doutor JOSÉ JOAQUIM NETO CISNE.

Congratulações efusivas ao professor Neto Cisne, por atingir o topo da carreira univsersitária, consolidada em sua decação à vida acadêmica, com substantivos feitos profissionais e pessoais, que sacramenam o seu pendor científico e a sua dedicação valioosa ao ensino superior.

Também dignos de encômios estão a graduação em Administração e os programas de pós-graduação em Administração da Uece, por contarem com o professor Neto Cisne em os seus quadros docentes.

Marcelo Gurgel Carlos da Silva

Professor do PPSAC-Uece


segunda-feira, 25 de maio de 2026

A EDUCAÇÃO SEM ESCOLA POLÍTICA

Por Raimundo Padilha (*)

No ensino superior quando foi quebrado o sistema seriado, substituído pela oferta por disciplina, se deu uma ruptura na educação política. No sistema seriado as turmas fechadas com seus 40 ou 50 alunos, facilmente eram identificados os seus líderes e com eles formados os seus Centros Acadêmicos, uma excelente escola de formação política. As suas lideranças se revelavam e eram facilmente identificadas.

Desta estrutura foram forjados líderes, que posteriormente foram atraídos para a militância político partidária levando valores que passaram a ocupar os parlamentos municipais, estaduais e federais. O nível médio dos parlamentares era bem mais elevado do que os atuais, tendo como consequência um debate de conteúdo e um maior e melhor nível de projetos.

O pensamento deles era voltado para a sociedade, ao contrário do que predomina hoje, que são voltados para os interesses pessoais dos próprios políticos, tendo como exemplo o absurdo de emendas parlamentares. A maioria dos eleitores não sabe em quem votou e a comunicação dos parlamentares com o eleitorado se dá predominantemente no período eleitoral à caça de votos para suas eleições e/ou reeleições. As casas legislativas não são avaliadas pelos seus eleitores, tendo como consequência mandatos sucessivos, quase que se transformando num emprego vitalício. E ainda há, o chamado "baixo clero", que vegeta e dorme em todo o seu mandato. É muito triste e pobre, o nosso parlamento, respeitadas as raríssimas exceções. Precisamos de muitas reformas e quem tem coragem de propor, se a nossa política é da conveniência pessoal? Está cômodo para eles e o povão que se lasque.

Foi apagado o processo de formação de líderes e ninguém contesta o fechamento da antiga escola política, nem alunos, nem professores. É como se estivéssemos no estado da arte, embora, com um parlamento fraco e sem visão de futuro. E onde está o MEC, que não enxerga o mal causado pelo período militar e que ainda persiste? Por conveniência, miopia ou frouxidão, nesta área, nada ou quase nada se faz no nosso país, a superficialidade é o que predomina.

Quando estudante do curso ginasial, hoje ensino fundamental participei ativamente dos Grêmios Literários. Eram verdadeiras escolas de formação política, havendo inclusive eleições bastante disputadas. Nos grêmios se praticava o exercício da oratória, de artes cênicas, dentre outras manifestações culturais. Isto era a base da formação de um caldo de cultura que tinha prosseguimento no período universitário, para aqueles vocacionados, sendo um caminho aberto para as atividades político partidárias. Daí o contraste entre os políticos de ontem e de hoje.

(*) Economista, professor aposentado da UFC e membro da Academia Cearense de Economia.

Fonte: O Povo, de 15/04/26. Opinião. p.21.


quinta-feira, 21 de maio de 2026

AUTONOMIA UNIVERSITÁRIA EM RISCO

Por Sofia Lerche Vieira (*)

A origem da universidade remonta à Idade Média. Concebida sob o princípio da "busca da verdade sem constrangimentos", sua autonomia é condição para a liberdade de ensinar, pesquisar e produzir conhecimento. Tal princípio, assegurado pela Constituição Federal de 1988 (Art. 207), é um componente essencial das democracias modernas.

Esse elemento fundamental da universidade, porém, enfrenta pressões crescentes. Nos Estados Unidos, por exemplo, intensificaram-se críticas às universidades, utilizadas para justificar restrições orçamentárias, vigilância sobre conteúdos e limitações à presença de estudantes e pesquisadores estrangeiros, afetando diretamente a diversidade e a produção acadêmica.

O cenário atinge tanto universidades de reputação internacional, como Harvard, Columbia e Princeton, quanto outras instituições do sistema de ensino superior norte-americano, antes livres de ameaças à autonomia. O movimento "No Kings" ("Sem Reis"), que tem levado milhares de cidadãos a protestos de rua naquele país, expressa, em alguma medida, a resistência da sociedade às perseguições em curso, incluindo aquelas dirigidas às universidades.

Esse contexto dialoga com riscos já conhecidos no Brasil. Em cenários de avanço de agendas autoritárias, universidades frequentemente se tornam alvo por sua natureza crítica e questionadora. A história brasileira demonstra que perseguição a professores e estudantes, controle de conteúdos e restrições à liberdade acadêmica já comprometeram o papel das instituições de ensino superior.

A situação nos Estados Unidos permite vislumbrar possíveis desdobramentos sob governos de extrema direita: maior controle político na escolha de dirigentes, enfraquecimento da liberdade intelectual e cortes de financiamento. Trata-se de um padrão em que o pensamento crítico passa a ser visto como ameaça.

A fragilização da autonomia universitária impacta não apenas a educação, mas também a capacidade da sociedade de refletir, inovar e sustentar suas instituições democráticas. Trata-se, portanto, de um alerta global: defender a universidade livre é defender a democracia.

(*) Professora do Programa de Pós-Graduação em Educação da Uece e consultora da FGV-RJ.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 20/04/26. Opinião. p.18.


terça-feira, 19 de maio de 2026

Hospitais de ensino para fortalecer o SUS

Por Josenília Gomes (*)

Desde que foi vinculado à HU Brasil, antes chamada Ebserh, o Complexo Hospitalar da UFC teve sua capacidade de resposta à rede de saúde fortalecida por um modelo de gestão que garante previsibilidade, qualificação de processos e melhores condições para o cuidado em saúde. No último ano, essa parceria institucional se traduziu em resultados que evidenciam isso.

A Maternidade-Escola Assis Chateaubriand seguiu referência para a gestação de alto risco com emergência obstétrica e cuidados a recém-nascidos prematuros extremos, oferecendo cirurgia fetal como correção intrauterina de meningomielocele e fetoscopia a laser para síndrome de transfusão feto-fetal. Também acolheu mulheres vítimas de violência, em tratamento de endometriose e para neovagina com pele de tilápia. Foram realizados quase 490 mil procedimentos com foco no cuidado da mulher durante a gestação e fora dela.

No Hospital Universitário Walter Cantídio, foram registrados quase 400 mil atendimentos ambulatoriais, cinco mil cirurgias, mais de um milhão de exames diagnósticos, 13 mil procedimentos oncológicos e 254 transplantes. Destaque para a primeira infusão da medicação Spinraza para o tratamento de crianças com atrofia muscular espinhal.

Em 2025, o CH-UFC avançou ainda na qualificação do ensino em saúde, com o fortalecimento da formação de preceptores, a ampliação dos programas de residência e a diversificação dos campos de estágio. O período também foi marcado pela conquista do Prêmio PIT HU Brasil/MEC 2025, que reconheceu iniciativas tecnológicas.

A gerência da HU Brasil no CH-UFC trouxe avanços em infraestrutura, como ampliação de consultórios, modernização da unidade de pesquisa clínica e laboratório de simulação para treinamento prático simulado, além da reorganização de unidades administrativas. Foram mais de R$ 11 milhões investidos em obras e aquisição de equipamentos.

Em 2026, será necessário consolidar políticas permanentes de formação, continuar investindo em inovação pedagógica, fortalecer indicadores de qualidade e integrar ainda mais gestão, ensino, assistência e pesquisa. É o caminho para o Complexo Hospitalar da UFC, para a HU Brasil, para o SUS e, sobretudo, para a população que dele depende.

(*) Médica. Superintendente do Complexo Hospitalar da UFC/HU Brasil.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 3/04/2026. Opinião. p.20.

domingo, 22 de fevereiro de 2026

Causo Médico: A NOTA 12

Conta-se que em uma determinada escola de Medicina, nos anos sessenta do século XX, havia uma bela aluna, que estava muito mal nas provas parciais de uma dada cadeira, e que, mesmo obtendo a nota máxima, um dez, na última avaliação, ficaria reprovada, já que ela necessitava de doze para ser aprovada.

Na véspera dessa tal prova, a jovem fez uma demorada e privada visita ao catedrático e regente da cadeira, em seu gabinete de trabalho. Esse velho professor tinha a fama de galanteador do belo sexo e gostava de lançar olhares fulminantes direcionados aos decotes e às pernas das acadêmicas.

Aplicada a prova, e passados os dois dias previstos da correção, os alunos que aguardavam os resultados da correção estavam não apenas preocupados com as próprias notas, mas igualmente curiosos quanto ao desfecho reservado à colega previamente reprovada.

O catedrático convocou os discentes ao anfiteatro, para anunciar as notas e comentar as respostas às questões discursivas. Apesar de observar a ordem alfabética da lista de chamada, o magister, propositadamente, saltou o nome da aluna em questão, o que deixou a turma muito intrigada.

Praticamente conclusa a entrega das notas, o professor, portando uma pasta de couro, finalmente, dirige-se à turma ali reunida:

– Meus diletos discípulos, gostaria de dar conhecimento a todos, de uma situação muito especial.

Nisso, retirou da pasta a prova remanescente, exibindo-a, à distância, lá do púlpito, onde se encontrava.

– Como eu ia dizendo, ao corrigir as provas de vocês, deparei-me com esta preciosidade – falou, elevando o caderno de papel almaço rabiscado.

– Era uma perfeição! O seu conteúdo reproduzia, com absoluta integridade, o teor dos melhores livros-textos, inclusive, com a indicação das várias obras consultadas, patenteando o vasto domínio da matéria, próprio de quem se dedica com afinco ao estudo.

Os alunos observavam o entusiasmado mestre, na expectativa de logo ver aflorar o veredicto.

O professor prosseguiu com suas explicações:

– Essa prova, na tentativa de identificar alguma falha, porque eu não acreditava no que viam esses cansados olhos, que a terra um dia haverá de comer, foi lida e revista. Até a busca de erros gramaticais foi perpetrada e nada achei. Em vista disso, com incontido júbilo, concedi-lhe dez, com louvor.

Os discentes se entreolhavam, e alguns até piscavam os olhos, enquanto o docente seguia com a sua narrativa:

– Ao fazer a média de vocês, notei, contudo, que a única acadêmica que tirara a nota máxima ficara entre os poucos reprovados.

Ele fez uma longa pausa, espalma a mão direita na cabeça, abrindo os dedos por seus cabelos. Depois, deu sequência à sua locução:

– Então, eu comecei a cogitar. Essa prova mereceu nota máxima “cum laude”, e não é um mero dez. Daí, não titubeei e lancei um doze, o que permitiu à aluna alcançar a média de aprovação.

Os alunos estavam pasmos, pareciam não crer no que ouviam, face à estranheza do fato, e começaram a cochichar no anfiteatro. O lente não perdeu a esportiva e continuou:

– Pois bem! Eu lancei o doze na caderneta; porém, o secretário do departamento me alertou que a universidade não aceita nota superior a dez em nenhuma condição.

Um dos estudantes, ressabiado com o comportamento anômalo do catedrático, apressa-o, provocando:

– E aí, professor! Como o senhor resolveu esse “imbróglio”?

– Como era uma perfeição de prova, jamais por mim vista na minha longa carreira de magistério, digna do doze ou até mais do que isso, alterei para dez, mas atribuí os dois pontos que sobraram ao exame anterior, adicionando-os, naturalmente, à nota passada.

Marcelo Gurgel Carlos da Silva

Da Sobrames/CE e da Academia Cearense de Médicos Escritores

Fonte: SILVA, Marcelo Gurgel Carlos da. Medicina, meu humor! Contando causos médicos. 2.ed. Fortaleza: Edição do Autor, 2022. 144p. p.70-72.

 Republicado In: SILVA, M.G.C. da. Causo médico: a nota 12. Revista AMC (Associação Médica Cearense). Maio de 2024 - Edição n.33. p. 32-33 (online). (Doc. Nº 8.2.728).


terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Educação superior une governo e sociedade pelo desenvolvimento do Ceará

Por Cândido B.C. Neto (*)

O desenvolvimento científico, tecnológico e humano contemporâneo depende substancialmente do conhecimento e da capacidade de produção do país, da região e de cada comunidade.

A competitividade, a agregação de valores, a criação de oportunidades com impactos positivos sobre a distribuição de renda, a inovação dos processos de produção e de seus produtos, dentre outros aspectos, passa essencialmente pela geração e difusão do conhecimento coletivo, seja pelas áreas de P&D das empresas, seja dentro das universidades ou institutos de pesquisa científica.

Nesse contexto, as Instituições de Ensino Superior têm papel relevante como promotoras, incentivadoras e indutoras do setor produtivo, através da oferta de uma "Educação Humanista com Inclusão Produtiva", com ensino de qualidade e programas de apoio à ciência, tecnologia e inovação.

O Governo do Ceará, por meio da Secretaria da Ciência, Tecnologia e Educação Superior (Secitece) e de parceiros, tem promovido um espaço de debate e de construção coletiva ao ampliar a articulação com diversos setores, tendo em vista o desenvolvimento harmonioso e igualitário o estado.

Reconhecendo, acima de tudo, ser a Educação um compromisso com a condição humana, o Governo do Ceará está implantando o Programa de Universalização da Educação Superior como ação do Plano de Desenvolvimento Integral da Educação Superior (MAPP 241Secitece).

O objetivo principal do programa é trazer, durante os próximos anos, um novo cenário para o Plano Nacional da Educação (PNE), focado nas principais demandas dos municípios e na redução das desigualdades regionais, destacando a política de cooperação federativa e o regime de colaboração interinstitucional para os avanços e desenvolvimento do Ceará.

Teremos, por assim dizer, um dos mais importantes momentos da história da educação cearense, unindo o Ceará através do binômio "educação-desenvolvimento" para construção, com a sociedade, de uma realidade tão almejada pelo nosso povo.

(*) Professor da Uece e coordenador da Educação Superior da Secitece.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 3/01/26. Opinião. p.16.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Formação médica no Brasil preocupa ministérios e entidades

Por Ana Ruth Ramires, jornalista de O Povo.

Com resultado do Enamed, entidades reiteram riscos de cursos com desempenho insuficiente. Entidades particulares contestam exame.

O desempenho insatisfatório de parcela significativa dos cursos de medicina no Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) 2025, especialmente em instituições privadas, preocupa Governo Federal e entidades médicas. Cerca de 30% das 351 instituições que participaram obtiveram conceitos 1 e 2, considerado insatisfatório, e passarão por medidas de supervisão do Ministério da Educação (MEC).

Os resultados foram divulgados na segunda-feira passada, 19. "Há uma grande preocupação nos ministérios da Educação e da Saúde em assegurar que os cursos oferecidos aos alunos brasileiros possam garantir a qualidade da formação médica nesse País, até porque são profissionais que cuidam da vida das pessoas", disse Camilo Santana, ministro da Educação.

Marcelo Gurgel, professor titular e decano do curso de Medicina da Universidade Estadual do Ceará (Uece), argumenta que o aumento de escolas médicas no País, que supera numericamente nações muito mais populosas, compromete a formação acadêmica e exige mecanismos de avaliação mais rigorosos.

Para ele, os resultados do Enamed são reflexo de uma expansão desordenada e de um modelo de "formação em massa". Para solucionar essas deficiências, ele propõe a adoção de um modelo de avaliação por etapas, que permitiria identificar falhas específicas em diferentes ciclos da graduação.

"A formação básica de disciplina básica, de anatomia, de fisiologia tá muito boa, mas o ciclo clínico tá ruim. Aí serve para orientar o que a instituição precisa melhorar", exemplifica.

Ele acredita que, a despeito de sanções imediatas, o mercado servirá de balizador, pois as pessoas evitarão se matricular em cursos com notas mais baixas, o que pode levar ao esgotamento e fechamento natural de cursos deficientes.

Diante do resultado divulgado na segunda, o Conselho Federal de Medicina (CFM) quer impedir que os estudantes do último semestre de Medicina que não atingirem a nota mínima no exame recebam o registro profissional.

Segundo Estevam Rivello Alves, diretor de Comunicação do CFM, "o Enamed é um extrato daquilo que as entidades médicas já vêm falando há cerca de duas décadas". O médico elogia a realização do Enamed, mas considera que o exame precisa ser melhor implementado.

"Essa é uma avaliação que foi feita só de forma objetiva, uma prova de múltipla escolha, com 100 questões, é necessário que se tenha uma avaliação em estações práticas, que é o que é feito também no mundo, né, pra que a gente tenha a noção exata se esse estudante tá bem avaliado", pormenoriza.

O CFM também defende a criação de um exame de proficiência médica para regular a atuação na área (PL 2.294/2024). "No Senado Federal, nós já fomos aprovados, esse projeto já foi aprovado na Comissão de Educação, está na Comissão de Assuntos Sociais em última votação e em terminando ela pode ser remetida já diretamente para a Câmara", diz sobre o PL.

Nessa quinta-feira, 22, o ministro da Saúde Alexandre Padilha, contudo, afirmou que o Governo Federal vai propor ao Congresso Nacional que o Enamed se torne também um exame de proficiência.

"Primeiro porque ele [o exame] vai ser feito no segundo, no quarto e no sexto ano (de faculdade), ou seja, ele avalia o progresso. E ele é feito pelo Ministério da Educação, que tem como interesse principal a formação médica, e não por outra entidade que possa ter qualquer outro interesse com relação a isso", declarou o ministro em coletiva de imprensa no Rio de Janeiro.

Padilha esclareceu que a proposta só pode entrar em vigor após uma mudança na legislação brasileira, portanto, valeria para edições futuras do Enamed e não para a edição de 2025. (com Agência Brasil)

Entidades criticam metodologia e "falta de transparência"

De outro lado, associações de ensino como a Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (Abmes) e a Associação Nacional das Universidades Particulares (Anup) criticam a metodologia do exame, alegando falta de transparência e critérios definidos tardiamente.

Questionada sobre os resultados das universidades privadas no Enamed, a Anup responde ao O POVO que a avaliação da formação médica "não pode se apoiar em um único dado ou em um único instrumento, sobretudo quando esse instrumento ainda está em processo de consolidação". A entidade se preocupa com "a forma como esses dados foram produzidos, tratados e comunicados".

A Anup cita "inconsistências nos dados utilizados, critérios divulgados apenas após a aplicação da prova, problemas de representatividade da amostra - incluindo a participação de estudantes do 11º período - e a utilização de um exame inaugural para sanções regulatórias".

Para se consolidar como ferramenta essencial de avaliação, conforme a entidade, é necessária "definição prévia de critérios, um regime de transição adequado, integração com os demais instrumentos do sistema regulatório e engajamento efetivo dos estudantes".

A Abmes publicou nota afirmando que o Enamed "não demonstrou que a saúde da população brasileira esteja em risco, tampouco que a criação de uma prova de proficiência para egressos seja a solução para o aprimoramento da formação médica no País".

Associação cita que "os estudantes realizaram a prova sem o devido comprometimento, uma vez que não foram previamente informados de que o exame serviria como parâmetro de proficiência, nem de que haveria um corte mínimo de 60 pontos".

Ainda em nota pública, a entidade critica o que chama de "interesses corporativistas" das entidades médicas e reforça que "as instituições privadas mantêm firme compromisso com a qualidade da formação médica e apoiaram a criação do Enamed como instrumento de avaliação educacional".

"No entanto, a primeira edição do exame foi marcada por inconsistências (erros), ausência de critérios previamente definidos, falta de diálogo com a comunidade acadêmica e descumprimento do cronograma, o que comprometeu a previsibilidade, a transparência e a segurança jurídica do processo", acrescenta.

81% dos resultados insatisfatórios são de instituições privadas

Conforme o Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) 2025, dos 107 cursos com resultados insatisfatórios, 81% (87) são de instituições privadas. Quase metade (49,4%) dos cursos privados registraram notas 1 e 2, resultado considerado insuficiente e passível de sanções.

César Eduardo Fernandes, presidente da Associação Médica Brasileira (AMB), por meio de comunicado, defende que os dados do Exame "evidenciam uma forte assimetria na formação médica no Brasil". "Universidades públicas federais e estaduais concentram mais de 84% de seus cursos nas faixas de excelência, enquanto os piores resultados ocorrem principalmente em instituições municipais e privadas com fins lucrativos", analisa.

Ele cita os riscos da expansão desordenada de escolas médicas. Segundo o presidente da AMB, muitas vezes, as instituições são abertas "sem infraestrutura adequada, corpo docente qualificado ou condições mínimas para a formação segura de novos médicos, nem residência médica".

"Não se trata de formar mais médicos, mas de formar bons médicos, preparados para atuar no SUS e para responder às necessidades da população brasileira", acrescenta César Eduardo Fernandes.

Conforme Marcelo Gurgel, professor titular e decano do curso de Medicina da Universidade Estadual do Ceará (Uece), muitas faculdades privadas não possuem hospitais próprios e utilizam a rede pública para o internato. Ele cita também a oferta de vagas para residência.

"A melhor formação de um médico é na residência. Nós tínhamos vaga para residência médica que alcançava 70% dentro dos egressos. De cada 10 formados, sete deles iam para a residência médica. E, atualmente, com a grande oferta de vagas em Medicina, nós vamos ter menos de 30% de vagas em residência para os que estão se formando", relaciona.

Ele cita também que muitas instituições aumentam a oferta de vagas sem ampliar a estrutura proporcionalmente. "Quando o curso é reconhecido e consegue um upgrade para Centro Universitário ou para Universidade, ela tem autonomia para expandir as vagas sem dar satisfação ao MEC. Então, ela tem uma autorização inicial para receber 50 alunos e quando menos espera tá com 200 alunos", afirma o médico Marcelo Gurgel.

Conforme o Ministério da Educação, os cursos que obtiveram conceito Enade nas faixas 1 e 2 — menos de 60% dos seus estudantes apresentaram desempenho considerado adequado no Enamed — e passarão por ações de supervisão da Secretaria de Regulação e Supervisão da Educação Superior (Seres) do MEC.

Medidas incluem a suspensão total de ingresso de novos alunos; redução do número de vagas autorizadas; restrição de acesso a programas federais, como o Fundo de Financiamento Estudantil (Fies).

Sobre as medidas aplicadas aos cursos que não atingiram o nível mínimo de aprendizagem, o ministro Camilo Santana destacou que o objetivo "não é aplicar sanções ou penalidades intencionais a qualquer instituição, mas assegurar a formação de médicos de qualidade no Brasil".

Os 99 cursos que não obtiveram resultado satisfatório, terão 30 dias para apresentar a defesa ao MEC após a publicação dos resultados no Diário Oficial da União, antes que as sanções entrem em vigor. Após o prazo, as medidas valerão até a próxima aplicação do Enamed, prevista para outubro de 2026.

Fonte: O Povo, 23/01/2026. Reportagem. p.4-5.


quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Cursos de medicina mal avaliados serão punidos

O Povo, Editorial.

O resultado da primeira edição do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) mostrou uma situação preocupante dos cursos de medicina no Brasil. Foram avaliadas 351 instituições públicas e privadas. Dos cursos participantes em todo o Brasil, 30% tiveram desempenho considerado insatisfatório pelo Ministério da Educação (MEC), a maioria de faculdades particulares. É preciso dar destaque a esse dado, pois o maior número de formandos atualmente é oriundo de faculdades privadas.

Segundo estudo da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), publicado na página da Associação Paulista de Medicina, das 494 escolas médicas do País (2025), com 50.974 vagas anuais de graduação, 80% dos estudantes estão em instituições privadas.

O levantamento também mostrou uma nova fase de expansão do ensino médico. De acordo com a FMUSP, entre janeiro de 2024 e setembro de 2025, o MEC autorizou 77 novos cursos de Medicina. O estudo avalia que o Enamed é parte do esforço para assegurar a qualidade dos cursos de formação de futuros médicos.

É preciso ressaltar que não se trata de desconsiderar o papel importante desempenhado pelas faculdades privadas, mas de preservar aquelas que oferecem ensino de qualidade e obrigar a evoluir aquelas que tiraram notas baixas. São muitas as instituições privadas que conseguem administrar o empreendimento educacional, sem descuidar da preparação de seus alunos e dos interesses da sociedade, que precisa de profissionais bem formados, em área tão sensível, que cuida da saúde e da vida das pessoas.

No Ceará, nove cursos participaram do exame, sendo que três deles obtiveram nota 5 (máxima); três (nota 4); duas (nota 3) e uma (nota 2).

Existe outra proposta, de iniciativa do Senado, já aprovada na Comissão de Assuntos Sociais, que visa criar o Exame Nacional de Proficiência em Medicina (Profimed), que ficou conhecido como "OAB da Medicina". Seria exigência de uma prova obrigatória para médicos recém-formados receberem o registro profissional. Para o ministro Camilo Santana, o Enamed já cumpre esse papel, juntamente com mais rigor no monitoramento dos cursos, inclusive com visitas presenciais.

As sanções, conforme as notas obtidas, podem incluir redução de vagas de ingresso (nota 2), chegando à suspensão do curso (nota 1). Os conceitos 1 e 2 ainda terão suspendidos os contratos de financiamento estudantil (Fies) e o de bolsas (Prouni). Caso não haja melhora ou as medidas exigidas pelo MEC não forem cumpridas, os cursos poderão ser extintos.

O relevante é que o tema está sendo debatido e o MEC tem implementado medidas positivas, como maior fiscalização e punições aos cursos que obtiverem notas insuficientes.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 21/01/2026. Editorial. p.16.


NOTA DA AMB ENAMED 2025

Nota da Associação Médica Brasileira (AMB) sobre os resultados do Enamed 2025 e a qualidade da formação médica no Brasil

Após a divulgação dos resultados do Enamed 2025 (Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica), a Associação Médica Brasileira (AMB) vem a público demonstrar sua extrema preocupação com os números que foram apresentados, que revelam uma realidade gravíssima na formação médica do país.

O exame, que mede o desempenho dos estudantes e a qualidade dos cursos de Medicina no país, revela um cenário alarmante, que exige respostas firmes e responsáveis por parte das instituições de ensino e das autoridades regulatórias.

Os dados foram apresentados nesta segunda-feira (19/01/2026) pelo Ministério da Educação (MEC), da Saúde e pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep).  Acreditamos que esta avaliação vem em bom tempo para nos mostrar objetivamente a realidade do ensino de graduação médica em nosso país.

Foram avaliados 351 cursos de Medicina. Desse total, 99 cursos sob regulação federal obtiveram conceitos 1 ou 2, faixas consideradas insatisfatórias pelo Inep. Embora 67,1% dos cursos estejam entre conceitos 3 e 5, a presença de 32,6% de cursos com desempenho abaixo do mínimo aceitável segue preocupante. Entre os 39.258 estudantes concluintes avaliados, apenas 67% demonstraram proficiência adequada, enquanto cerca de 13 mil alunos não atingiram o nível esperado para o exercício seguro da Medicina.

 Os cursos de medicina no Brasil são terminais. Ou seja, quando o aluno conclui o curso de graduação, ele recebe o diploma de formado em medicina. Com base neste certificado, vai ao Conselho Regional de Medicina (CRM) do seu estado, obtém o seu registro profissional e o seu número de inscrição no CRM. Uma vez portador desta documentação, está legalmente habilitado para atender pacientes e exercer a medicina em nosso país.

Nestas circunstâncias, equivale dizer que esses 13.000 médicos apontados pelo Enamed como não proficientes podem, de acordo com a legislação atual, atender pacientes em nosso país. Isso nos permite afirmar, sem sombra de dúvidas, que a nossa população atendida por esse contingente de médicos não proficientes ficará exposta há um risco incalculável de má prática médica.

Esses números apontam claramente para a necessidade de instituirmos o mais breve possível exame de proficiência médica como um pré-requisito para o exercício da medicina. Sendo mais claro, não comprovada a proficiência médica pelos egressos dos cursos de medicina, não lhes seria concedido o registro profissional pelos CRM, impedindo-os, desta forma, de atender pacientes.

Esta seria uma ação muito bem-vinda em direção a proteção e segurança dos pacientes. Esta não é uma medida contra o egresso de medicina. É uma medida com finalidade voltada única e exclusivamente à boa prática da medicina e a segurança dos pacientes.

Os dados do Enamed também evidenciam uma forte assimetria na formação médica no Brasil. Universidades públicas federais e estaduais concentram mais de 84% de seus cursos nas faixas de excelência, enquanto os piores resultados ocorrem principalmente em instituições municipais e privadas com fins lucrativos.

Estes achados reforçam alertas históricos da AMB sobre os riscos da expansão desordenada de escolas médicas, muitas vezes abertas sem infraestrutura adequada, corpo docente qualificado ou condições mínimas para a formação segura de novos médicos, nem residência médica.

O Ministério da Educação anunciou, na direção correta, sanções para as instituições avaliadas com desempenho insuficiente, incluindo suspensão total de ingresso, redução do número de vagas e restrição de acesso a programas federais como o Fundo de Financiamento ao Estudante do Ensino Superior (Fies). As instituições terão 30 dias para apresentar defesa e as penalidades permanecerão em vigor até o próximo Enamed, previsto para outubro de 2026.

Consideramos essas medidas necessárias para proteger a população e garantir padrões mínimos de qualidade no ensino médico e reforça que o Enamed representa um avanço importante para o país ao oferecer um diagnóstico objetivo da formação médica e ao fortalecer a transparência na avaliação das instituições.

Porém alertamos que a questão central não é ampliar indiscriminadamente o número de vagas, mas assegurar que cada futuro médico tenha formação adequada, sólida e compatível com as demandas reais do sistema de saúde. Não se trata de formar mais médicos, mas de formar bons médicos, preparados para atuar no SUS e para responder às necessidades da população brasileira.

A Associação Médica Brasileira reitera seu compromisso permanente com a educação médica de qualidade e com a proteção da sociedade.

Continuaremos trabalhando junto ao MEC, ao Ministério da Saúde, ao Conselho Federal de Medicina, ao Conselho Nacional de Educação e aos órgãos reguladores para aprimorar as diretrizes curriculares, fortalecer os estágios e o internato e estabelecer critérios rigorosos para abertura de novos cursos e ampliação de vagas.

O país precisa de uma política nacional de formação médica pautada pelo rigor acadêmico, pela responsabilidade social e pelo compromisso com a segurança do paciente.

Associação Médica Brasileira (AMB)

20 de janeiro de 2026


quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

Os Mestres Nunca Morrem

Convivi com o Dr. Moreira desde o começo de minha formação médica. Como aluno, monitor, bolsista de iniciação à pesquisa, interno e depois residente do Departamento de Cirurgia, o contato com o professor José Moreira Lima foi, não só obrigatório, como marcante. Preceptor dedicado, cirurgião destemido - personalidade forte e envolvente -, Dr. Moreira nunca passou despercebido. Estou falando de uma época onde o cirurgião geral fazia de tudo, tempo das grandes incisões, da rapidez cirúrgica, das habilidades múltiplas... Destaque desde a época de aluno da faculdade de medicina, quando foi presidente do Centro Acadêmico no final dos anos 1950, depois como discípulo primoroso do grande professor Paulo Machado na década de 60, Dr. Moreira marcou sua trajetória como cirurgião e mestre nos mais importantes hospitais escolas de sua geração. Dono de uma grande clientela, pontificou como cirurgião geral na época áurea da Casa de Saúde São Raimundo. Médico cirurgião do Hospital Geral de Fortaleza desde a sua fundação, ali consolidou seu nome como mestre, cirurgião e gestor. Coordenou a Residência de Cirurgia e dirigiu o hospital na década de 80, deixando como principal legado a construção da nova emergência, ocasião em que foi realizado um grande concurso público para contratação de uma quantidade expressiva de novos médicos.

Na Faculdade de Medicina, fez história. Muito presente e atuante, nas suas aulas visitas, emergia sempre o professor extremamente exigente. Não aceitava essa desculpa de "não sei não senhor", os residentes eram obrigados a ter domínio completo das enfermarias. No centro cirúrgico, destacou-se na correção das grandes hérnias da parede abdominal. Qualquer vacilo dos residentes era repreendido com firmeza, tal como eram também elogiados com desvelo os bons desempenhos, "belo ponto, meu filho, merece uma tragada". Na sua gestão como chefe do Departamento de Cirurgia, criou a Jornada Científica do Departamento, hoje já na sua trigésima primeira edição, e foi o responsável pelo desencadeamento das negociações que acabaram por determinar a construção do novo hospital de cirurgia.

Associativamente, o professor Moreira também atuou de forma significante. Muito ativo no Colégio Brasileiro de Cirurgiões (CBC), foi membro Titular, Mestre do Capítulo Ceará/Piauí/Maranhão, vice-presidente setorial e Membro Honorário do CBC, tendo recebido a Medalha do Mérito Cirúrgico por ocasião do XXIX Congresso do CBC, realizado em Fortaleza no ano de 2011.

Já aposentado da UFC e do HGF, em 2002 o professor Moreira foi convidado pelo professor Manassés, na ocasião Reitor da Universidade Estadual do Ceará, para colaborar na organização inicial do Curso de Medicina que lá se instalara. Como era de costume acontecer em todo projeto no qual se envolvia, dedicou-se de corpo e alma, dando aula incansavelmente em várias disciplinas no início do curso, o que lhe rendeu inúmeras homenagens e convites para dar nome e ser patrono ou paraninfo das primeiras turmas que lá se formaram. Vem desta época minha maior aproximação dele. Membro da banca examinadora do concurso que prestei para professor de Cirurgia do Curso de Medicina da UECE, passamos a conviver de perto por um bom período. Tornamo-nos verdadeiramente amigos e pude apreciá-lo mais ainda. Juntos fomos vozes dissonantes na ideia da construção do Hospital Universitário da UECE, na época proposta repugnada pela direção do Curso e Reitoria. Ver o Hospital Universitário hoje em pleno funcionamento enche-me de orgulho, e embora os alunos de hoje não saibam, nos corredores daquele hospital estão impregnados os lampejos dos sonhos e da inteligência de um homem obstinado.

Acompanhei de perto suas últimas internações, mas ontem, ao receber a notícia de sua morte, confesso que senti um misto de tristeza e saudade. A constatação da partida definitiva de um mestre querido enche-nos de vazios e faz com que nos sintamos vivendo em um mundo menor do que este que está ai desabrochando para muitos. É como se a morte deles estivesse levando também um pouco de nós. Mas, pensando bem, é justamente o contrário. A verdade mesmo é que os nossos mestres nunca morrem, eles estarão eternamente aqui impregnados em nossas atitudes, em nossos ensinamentos.

Assim, aquela risada franca, aquela mão estendida vigorosa e aquela opinião firme e forte do Dr. Moreira estarão sempre por aqui a nos guiar e ajudar a encontrar respostas e soluções. É isso, vai meu velho e bom amigo, descanse em paz.

Fortaleza, 15 de dezembro de 2025

Prof. Fernando Antônio Siqueira Pinheiro

Departamento de Cirurgia da Famed UFC


segunda-feira, 6 de outubro de 2025

Compromisso e autonomia na vida acadêmica

Por Vinícius Pereira (*)

O ingresso no ensino superior marca uma das fases mais transformadoras da vida. Para além da formação técnica e científica, a universidade é também um espaço de amadurecimento, responsabilidade e construção da autonomia. É nesse ambiente que o estudante, agora discente, se depara com o desafio de ser protagonista de sua própria formação.

Mais do que assistir às aulas ou cumprir tarefas acadêmicas, seu papel é ativo e estratégico. Cabe a ele gerenciar seu tempo, aprofundar o conhecimento, buscar fontes confiáveis, dialogar com professores e colegas, abrir-se à crítica e, principalmente, entender que sua formação vai além da sala de aula.

Compromisso e autonomia caminham juntos nesse percurso. Compromisso com a excelência, com a ética e com o futuro. Autonomia para escolher caminhos, tomar decisões e compreender que a responsabilidade pelo aprendizado é, em grande parte, pessoal.

A vida acadêmica exige planejamento, disciplina e envolvimento constante. Não basta apenas passar pelas disciplinas e cumprir as exigências curriculares; é preciso absorver os conteúdos, aplicar os aprendizados, questionar o que é ensinado, contribuir com ideias e refletir sobre o impacto desse conhecimento na prática profissional e na sociedade.

A universidade oferece múltiplas oportunidades de crescimento, mas cabe ao aluno aproveitá-las com intencionalidade e compromisso. Participar de grupos de pesquisa, projetos de extensão, monitorias, eventos científicos, atividades culturais e ações sociais enriquece a jornada, amplia a visão de mundo e proporciona vivências que extrapolam o conteúdo teórico, contribuindo diretamente para uma formação mais completa.

É também nesse contexto que o estudante desenvolve habilidades essenciais para o mundo contemporâneo, como liderança, empatia, pensamento crítico, criatividade, resiliência e capacidade de resolver problemas complexos. Essas competências são cada vez mais valorizadas no mercado de trabalho e fazem diferença na atuação profissional. O ambiente acadêmico favorece essa formação multidimensional ao oferecer experiências diversas, desde que o aluno esteja disposto a se engajar ativamente, com propósito e disposição para sair da zona de conforto.

Temos a missão de formar profissionais capazes de atuar com competência e humanidade em suas áreas, mas também cidadãos conscientes, críticos e engajados. Acreditamos que, ao assumir seu papel com seriedade e propósito, o discente torna-se não apenas um bom aluno, mas um agente de transformação social. Afinal, a educação não é apenas um meio para alcançar um diploma, é uma ferramenta poderosa de mudança para o indivíduo, para sua comunidade e para toda a sociedade.

(*) Reitor do Centro Universitário Estácio Ceará.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 23/08/25. Opinião, p.15.

terça-feira, 16 de setembro de 2025

Da interiorização à universalização, o novo mapa da educação superior do Ceará

Por Cândido B.C. Neto (*)

Somos frutos de avanços internacionais recentes. Nos diversos cantos do mundo, se expande uma realidade tecnológica que desafia o humanismo. Nacionalmente, ainda carregamos a mordaça do silêncio e do obscurantismo. Fomos educados para calar, apesar de recentes ensaios da palavra nesta conflitiva gênese da democracia brasileira. Regionalmente, nos impõem um separatismo" nordestinizado" que, historicamente, não desejamos.

Esses fatos nos levam a reflexões maiores sobre o cotidiano regional e ao aprofundamento de algumas análises. Começamos com o questionamento de administradores dentro dos padrões e anseios populares. A educação não pode continuar atendendo aos interesses das classes dominantes. Precisamos transformar essa situação, de tal sorte que venha a educação a desempenhar o seu papel social, colocando-se a serviço da nossa população, capacitando-os a gerir os seus destinos.

No contexto da política de interiorização, iniciamos uma ação objetiva e ampliamos as expectativas. Feita por quem conhece a realidade do interior do Ceará, essa "interiorização da ação desenvolvimentista" não pode ser confundida com municipalização. A interiorização é ampla e atinge todos os segmentos socioeconômicos, numa interação entre as diversas instituições, na tentativa de superação das questões básicas e na busca de um progresso necessário. O homem é o objetivo final e razão de ser de todo esse processo.

Num mundo onde "laboriosamente crescem as coisas absurdas", abençoados sejamos todos nós amantes desta terra. Apesar de todos os desencontros históricos, ainda encontramos força e vontade de ver nosso Ceará desenvolver-se, e ainda sonhamos e realizamos metas e estratégias capazes de elevar nosso povo a estágios melhores. Estágio fecundado pelo amadurecimento de uma nova geração.

Precisamos, urgentemente, da participação de todos no Programa de Universalização da Educação Superior do Ceará - por meio da UAB-Ceará, em favor da interiorização, rompendo toda passividade e pulverizando, no imaginário popular, o "ousar e fazer" como palavras de ordem. Esse "ousar e fazer", sempre a marca dos grandes homens da história da humanidade, deve pairar sobre todos nós.

(*) Professor da Uece e coordenador da Educação Superior da Secitece.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 16/08/25. Opinião. p.18.

segunda-feira, 25 de agosto de 2025

MEC acerta com ações sobre cursos de Medicina

O Povo, Editorial

O Ministério da Educação precisa levar à frente as iniciativas anunciadas, aplicando-as com rigor, de modo a corrigir os erros que hoje se apresentam, deixando funcionar somente os cursos em condições de oferecer formação de qualidade

O ministro da Educação, Camilo Santana (PT-CE), anunciou, nesta quarta-feira, que o Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (EnaMed) será aplicado pela primeira vez em outubro deste ano. Lançado em abril, a prova tem o propósito de avaliar a qualidade dos cursos de Medicina no País.

A partir de agora, o EnaMed será obrigatório para o estudante que quiser participar do Exame Nacional de Residências (Enare). Portanto, será um incentivo para comparecerem ao EnaMed. E a decisão do MEC já fez efeito. Durante todo o ano de 2024, houve 32 mil inscrições no EnaMed, número que subiu para 96 mil nos sete primeiros meses de 2025.

Segundo Camilo Santana, "o grande objetivo" do EnaMed é melhorar a formação médica, a par de outras medidas que serão aplicadas. Entre elas, mais rigor no monitoramento e visitas presenciais de fiscais do MEC nos cursos, a partir de 2026.

O resultado da avaliação é que vai determinar as providências que terão de ser tomadas pelos cursos mal avaliados, em uma escala que vai de 1 (nota mínima) até 5 (máxima).

As punições que serão tomadas em relação aos cursos mal avaliados variam conforme o índice obtido pelo curso. As sanções podem incluir redução de vagas de ingresso (nota 2), chegando à suspensão do curso (nota 1). Os conceitos 1 e 2 ainda terão suspensos os contratos de financiamento estudantil (Fies) e o de bolsas (Prouni). Caso não haja melhora ou as medidas exigidas pelo MEC não forem cumpridas, os cursos poderão ser extintos.

Segundo a Radiografia das Escolas Médicas no Brasil, publicada pelo portal do Conselho Federal de Medicina, além da falta de estrutura adequada para o funcionamento de muitos cursos, existe um "aumento desenfreado no número de faculdades e de vagas nos últimos anos". A partir de 2010, foram criadas 210 novas escolas médicas em todo o território nacional, sendo 150 particulares e 60 públicas.

Age corretamente o MEC ao apertar a fiscalização sobre as faculdades de Medicina que proliferam pelo Brasil, boa parte delas funcionando precariamente. Um controle rigoroso da qualidade dos cursos reduzirá o risco de médicos receberem o diploma sem a formação adequada para atender à população.

Mesmo com altas mensalidades, há uma grande demanda pelos cursos de Medicina. Devido a isso, constituem-se um mercado de alta rentabilidade, atraindo a iniciativa privada. Por óbvio, não se pede ao mercado que faça benemerência, mas quando se trata da vida humana, o lucro não pode ser o único objetivo.

Portanto, o MEC precisa levar à frente as iniciativas anunciadas, aplicando-as com rigor, de modo a corrigir os erros que hoje se apresentam, deixando a funcionar somente os cursos em condições de oferecer formação de qualidade.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 21/08/2025. Editorial. p.18.


 

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