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segunda-feira, 9 de março de 2026

ARQUIVO NIREZ: a memória da Cidade

Por Raymundo Netto (*)

Escrever sobre Miguel Ângelo de Azevedo, o nosso Nirez, é tarefa das mais complexas.

Aos 92 anos, é acervista, possuidor da maior coleção de discos de cera do Brasil e da mais completa coleção fotográfica do estado do Ceará. Pesquisador, é autor de obras de importância fundamental, como: "Fortaleza de Ontem e de Hoje", "A História Cantada no Brasil em 78 Rotações" - no tema, uma das maiores do País - e "Cronologia Ilustrada de Fortaleza", todas esgotadas.

Nirez é uma biblioteca viva, o maior guardião da história cearense, cumprindo o papel de um "mestre da cultura", transferindo amavelmente seus saberes, seus achados, fomentando e possibilitando pesquisas, ensaios, produções literárias e audiovisuais. Acessível e acolhedor, recebe em sua casa, sede do singular Arquivo Nirez, centenas de historiadores, pesquisadores, jornalistas, artistas, editores, produtores, políticos e curiosos que sabem encontrar ali não apenas o acervo raríssimo, mas o seu curador, que muitas vezes se dá entusiasmadamente como consultor.

É impossível, ao ouvir os seus relatos, não se encantar num vórtice temporal e encontrar-se com personagens de nossa história "transformados em gente" e/ou se ver em locais da Cidade que não existem mais - o que é bem do nosso desleixado desapego. E, claro, ao final, esperar o momento daquela piada guardada como troça de menino travesso.

A sua obsessão pela coleta, guarda, catalogação e manutenção de todo esse conteúdo - LPs, fotografias, filmes, livros, revistas, jornais, gravuras e máquinas, instrumentos, peças das mais diversas naturezas - já nos revela uma fortaleza extraordinária, imagine saber que todo esse legado está sendo construído e mantido bem debaixo de nosso nariz sem qualquer apoio do poder público.

Recursos financeiros o Ceará tem demais, basta acompanhar o seu desaguar na leitura de jornais ou assistir aos noticiários de rádio e TV. Mas, em todos esses anos de existência, nunca de alguma iniciativa por meio do governo estadual nem municipal. Houve, sim, por atitude de amigos do arquivo, proposições a gestores do poder executivo ou diretores de instituições. Porém, nada se realizou, mesmo quando aqueles que ocupam tais cadeiras sabem quem ele é e reconhecem a importância do seu acervo. Talvez entendam ser a cultura um território de pouco valor eleitoral, o que justifica a caquexia eterna dos equipamentos culturais mais tradicionais, sempre colocados em segundo plano diante do "elefante branco" do momento. Não raro sabemos de acervos desfeitos, perdidos ou roubados pela falta de atenção desses representantes e da população sempre distraída ao que lhe é usurpado todos os dias pela falta de pertencimento. É inadmissível fechar os olhos para a relevância desse legado a ser preservado, um patrimônio que, embora particular, é de extremo interesse público, o que por si já justificaria a mobilização e articulação dos órgãos e entidades de poder: Secretaria da Cultura do Governo do Estado e do município, Museu da Imagem e do Som do Ceará (MIS), Assembleia Legislativa, Câmara Municipal, Universidade Federal do Ceará (UFC), Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), Organizações Sociais (Instituto Mirante e Dragão do Mar), entre tantos outros.

Um dia, na sua agudeza de espírito, Nirez me disse: "Eu me sinto como se estivesse no futuro. O hoje é o meu futuro". Sim, ele atravessou o tempo e cabe a nós apresentar para ele um futuro melhor, sem celebrações vazias e pirotécnicas de 300 anos de uma cidade desmemoriada, que insiste em debochar da perda contínua de sua história e patrimônio.

(*) Jornalista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 26/01/26. Vida & Arte, p.2.

terça-feira, 3 de setembro de 2024

BONECAS, TANTAS PARA VER E BRINCAR

Por Célia Perdigão (*)

Ali, nas cercanias do Campus do Pici, ao invés dos Zepelins do tempo da segunda guerra mundial, aterrissaram dezenas de bonecas. Juntas, constituíram um museu comunitário, chancelado pelas instituições oficiais. E o que ele nos apresenta?

Lá na rua Deputado Joel Marques, uma singela e florida fachada nos convida a entrar. De pronto, a sala do fazer, toda adornada com estampados tecidos multicor, aviamentos e uma máquina de costura daquelas de suscitar doces lembranças. Várias bonecas de tamanhos variados, suspensas, nos cumprimentam.

Como são belas!

No cômodo a seguir, duas outras personagens mostram, em um painel, a importante missão do museu. Na lateral, uma integrante de grande impacto. Sem os sentidos regulares, sua fisionomia nos incita a múltiplas reflexões. E se...

Em sequência, o grande salão. Isoladas ou agrupadas por alguma similaridade, lá estão quilombolas, brancas, originárias, pretas, portadoras de deficiência física e até estrangeiras.

Lampião e Maria Bonita, palhaços, Emília e ciganas marcam presença.

Entre os mamulengos e dedoches, alguns despertam especial atenção. A vovozinha, o lobo mau e a Chapeuzinho Vermelho integram uma única peça. Só questão de movimento. A menina que nasce de uma flor na mesma toada. Delicadeza de metamorfose.

Outros há que ocupam o pódio. A Metanki mágica, eslava, que protege as famílias e quando se desmancha atende pedidos. Duas Abayomi, pretas, sem linha nem agulha. Acredite, apenas nós. A turma do meio ambiente com os entes da floresta. Presença essencial nos tempos que sobrevivemos. Para concluir, a turma do Bumba meu Boi com estandarte e tudo. Muita cor, brilho e beleza. Estão dançando de verdade?

Agora a sala das oficinas e brincadeiras. Uma gigante vovó nos aguarda com dois baús cheios de surpresas. Quantas possibilidades! Tudo sob o olhar atento de peças de famosos escritores e até uma pequena boneca compenetrada em sua gravidez.

Valeu, Professora Liduína. Seu sonho solitário é um motor possante, gerador de magia, sonhos, memórias e belezas. Avante...

(*) Arquiteta. Especialista em história e conservação de monumentos antigos na França.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 29/07/24. Opinião, p.22.


quinta-feira, 6 de junho de 2024

A IMPORTÂNCIA DO MUSEU DA INDÚSTRIA

Por Roberto Macedo (*)

Neste ano em que o Museu da Indústria completa 10 anos (2014-2024), vem-me o desejo de compartilhar uma breve reflexão sobre a importância desse equipamento, inaugurado na minha gestão como presidente da Federação das Indústrias do Estado do Ceará (Fiec), e que continua sendo o único museu do Brasil com essas características dentro das estruturas do Sesi.

Lembro-me de que fomos buscar o que, então, existia de mais avançado no mundo da museografia para oferecer aos fortalezenses e turistas um museu interativo voltado para a cultura e o desenvolvimento. Todo esse aparato vem funcionando na última década, sob a gestão competente do Luís Carlos Sabadia, com programações mensais, experiências de formação e estímulos à economia criativa.

A possibilidade de organizar em um lugar atraente e de apresentar ao público a obra de industriais cearenses e seus vínculos culturais e ambientais, nos motivava intensamente. Revelei esse sentimento no meu livro "Made in Ceará" (Edições Demócrito Rocha, 2014): "O nosso museu oferece testemunhos da caminhada industrial no nosso Estado, desde os seus pioneiros até os visionários que hoje estão trabalhando as potencialidades portadoras de futuro" (p.546).

É animador ver o nosso Museu da Indústria seguindo cada vez mais consistente em sua tarefa de conectar sociedade e conhecimento. Tanto que marcará as comemorações dos seus dez anos, em 10 de setembro, com a exposição o Futuro das Profissões, do Sesi Lab de Brasília (CNI), em uma oportuna aproximação do mundo da cultura com o mundo do trabalho.

Esse chamado para a conscientização do trabalho nos novos tempos tem paralelo na relevância que precisa ser atribuída à retomada da industrialização brasileira e cearense, por meio de discussões e acervos abertos à utilização por parte da sociedade. Entre os passos necessários para isso estão a potencialização dos diferenciais de nossas vocações e a expansão da nova indústria de fontes renováveis.

Pensar na importância dos 10 anos do Museu da Indústria é pensar no despertar da população, em especial da juventude, para o interesse pela indústria como cultura e pela cultura como indústria. Recomendo.

(*) Economista. Empresário.

Fonte: O Povo, de 13/05/24. Opinião. p.26.

quinta-feira, 19 de maio de 2022

CONVITE: Reinauguração da Capela do Museu Comendador Ananias Arruda

 


O Presidente da Fundação Comendador Ananias Arruda, Raimundo Luiz Furtado de Arruda, tem a honra de convidar os amigos e colaboradores do Museu CAA, de Baturité, para a reinauguração da capela, que foi revitalizada com a valorosa contribuição dos amigos, familiares e de um grupo de médicos católicos.

A reinauguração será realizada em Baturité-CE, sábado, dia 21 de maio de 2022, às 10h30min, com uma missa presidida pelo Padre Luiz Furtado, sobrinho neto do Comendador Ananias Arruda.

terça-feira, 12 de outubro de 2021

Mosteiro dos Jesuítas: mais que um hotel de charme

Por Lêda Maria Feitosa Souto (*)

Mosteiro dos Jesuítas em Baturité vai completar 100 anos de história. O tempo exige uma reforma geral de seu interior, acompanhada de outra beneficiando os lados externos de onde se descortinam todas as paisagens do maciço. Ali, o empreendedor Eugênio Pacelli, em seus planos e orações de padre fervoroso, abençoado por Santo Inácio, e com passe livre da congregação, tem um grande projeto: impulsionar o turismo religioso, para garantir atividades religiosas, acolhida para muitos beneficiados com o funcionamento do mosteiro, transformado em verdadeiro hotel de charme, pós-reforma e restaurações. Tudo começa já, com profissionais envolvidos, busca de recursos e obras. O complexo funcionará em 2022 com 59 apartamentos, restaurante, cafeteira, salão para eventos, museu, igreja secular, áreas de meditação, horta e outras "dádivas".

(*) Jornalista; colunista de O Povo; membro da Academia Fortalezense de Letras.

Fonte: O Povo, de 11/10/2021. Vida & Arte. p.5.

quinta-feira, 8 de abril de 2021

A INQUISIÇÃO EXTERMINOU 30 MILHÕES DE PESSOAS?

Para muitos, estes supostos dados de “milhões de mortes” são as provas claras e literais do obscurantismo e corrupção da Igreja católica durante a “Idade das Trevas.” Podemos então afirmar a veracidade destes números que pressupõem que um verdadeiro “holocausto” foi promovido por parte do clero da Igreja Católica?

É comum vermos na literatura secular, em filmes e documentários, – pior – nas escolas do ensino fundamental e médio e até em faculdades e universidades, a afirmativa de que a Igreja “torturou e matou milhares”; alguns falam em milhões de pessoas aniquiladas pela Inquisição. Há também diversos ambientes acadêmicos no Brasil em que é nítido tal interpretação; são muitos autores e professores universitários a partilhar dessas objeções.

É inegável a atuação da Inquisição, assim como os julgamentos; qualquer contraposição é uma aberração, um erro grotesco de História. A crítica veiculada neste texto é dirigida aos números de mortes e incidentes referentes aos cerca de 386 anos de atuação, deste Tribunal Eclesiástico.

Muitos podem até dizer que “números não importam; contudo, ela matou e torturou”. A questão é que nesta situação os números representam o maior pretexto e fonte de contradições à temática, pois tendem a alimentar e propagar a ideia de uma tragédia histórica, sem controle; um crime, um perverso e criminoso ato, vindo da Igreja contra a humanidade. Não levando em conta os fatores, o contexto e as posições religiosas da época, estaria correto colaborar com estas argumentações e afirmações? Teria sido uma ferramenta de perseguição e extermínio de quem ousava pensar diferente? Ou trata-se de posições subjetivas oriundas do homem contemporâneo?

Vale salientar que estas sociedades eram claramente ligadas ao bem e “alegria social” (cf. Pernoud, 1997) e da religião “em função da fé cristã” (cf. Daniel Rops, Vol. 3, p. 43); tinham como ferramentas de prevenção, a condenação de grupo ou individuo, para evitar a contaminação de confusões e divisões que ruíam “todo o sistema e a ordem social da época” (cf. Gonzaga, 1994), além de evitar a propagação de heresias e divisões entre os fiéis na Cristandade. Com efeito, os Códigos Penais abraçavam e previam comumente a tortura e a morte do réu; e o povo entendia que estes eram os princípios jurídicos e inquisidores (cf. Mateus 18,6-7) que evitavam a expansão de cismas e heresias.

Mas seriam verdadeiros estes indicies sobre a Inquisição? Ou é maquinação vinda dos inimigos da religião, que tiram proveito não só da Inquisição ou das Cruzadas, mas centram-se também nos erros e faltas morais de alguns filhos da Igreja, para fazê-los de “cavalo de batalha na sua guerra [pessoal] contra a religião e para perpetuamente as estarem lançando em rosto à Igreja?” Como disse o historiador e padre W. Devivier, S.J., o fato é que “é da natureza da Igreja provocar ira e ataque do mundo”, segundo Hilaire Belloc.

A principal finalidade deste artigo não é amenizar os efeitos da Instituição ou fazê-la mais branda, mas trazer à tona os fatos e verdadeiros números da referida instituição, cujos estudiosos sérios testemunham, para que possamos construir uma justa interpretação do tema, sem nos veicularmos a nenhuma propaganda anticatólica.

Vamos tomar como referência as Atas do grande Simpósio Internacional sobre a Inquisição, em que 30 grandes historiadores participaram, vindos de diversas confissões religiosas, para tratar historicamente da Inquisição — proposta motivada pela Igreja. O Papa João Paulo II afirmou certa vez: “Na opinião do público, a imagem da Inquisição representa praticamente o símbolo do escândalo”. E perguntou: “Até que ponto essa imagem é fiel à realidade?

O encontro realizou-se entre os dias 29 e 31 de Outubro de 1998. Com total abertura dos arquivos da Congregação do Santo Ofício e da Congregação do Índice. As Atas deste Simpósio foram, anos depois, reunidas e apresentadas ao público, sob forma de livro, contendo 783 páginas, intitulado originalmente de “L’Inquisione”, pelo historiador Agostinho Borromeo, professor da Universidade de La Sapienza de Roma. O mesmo historiador lembrou: “Para historiadores, porém, os números têm significado” (Folha de S. Paulo, 16 junho 2004).

As Atas documentais do Simpósio já foram utilizadas em várias obras de historiadores e continuam a ser. Tais documentos são resultados de uma profunda pesquisa sobre os dados de processos inquisitoriais; as seguintes afirmações foram declaradas pelo historiador Agostinho Borromeo:

SOBRE A FAMIGERADA E TERRÍVEL INQUISIÇÃO ESPANHOLA

“A Inquisição na Espanha celebrou, entre 1540 e 1700, 44.674 juízos. Os acusados condenados à morte foram apenas 1,8% (804) e, deste total, 1,7% (13) foram condenados em ‘contumácia’, ou seja, pessoas de paradeiro desconhecido ou mortos, que em seu lugar se queimavam ou enforcavam bonecos”.

SOBRE AS FAMOSAS CAÇAS ÀS BRUXAS

Dos 125.000 processos da sua história [=Tribunais Eclesiásticos], a Inquisição espanhola condenou à morte “59 bruxas; na Itália, 36; e em Portugal, 4”. E a propaganda é a de que “foram milhões”!

Constatou-se que os Tribunais Religiosos eram mais brandos do que os Tribunais Civis: tiveram poucas participações nestes casos, o que não aconteceu com os tribunais civis, que mataram milhares de pessoas.

SENTENÇAS DE UM INQUISIDOR FAMOSO

Em 930 sentenças que o Inquisidor Bernardo Guy pronunciou em 15 anos, houve 139 absolvições, 132 penitências canônicas, 152 obrigações de peregrinações, 307 prisões e 42 “entregas ao braço secular” (cf. AQUINO, Felipe. “Para entender a Inquisição”. Lorena: Cleofas, 1ª ed., 2009, p.23).

O Simpósio conclui que as penas de morte e os processos em que se usava tortura, representam números pouco expressivos, ao contrário do se imaginava e foi propagado. Os dados são uma verdadeira demolição e extirpação de muitas ideias falsas e fantasiosas sobre a Inquisição.

Hoje em dia, os historiadores já não utilizam o tema da Inquisição como instrumento para defender ou atacar a Igreja. Diferentemente do que antes sucedia, o debate se encaminhou para o ambiente histórico, com estatísticas sérias” (cf. o historiador Agostinho Borromeo, presidente do Instituto Italiano de Estudos Ibéricos: AS, 1998).

Bom que tudo isto tem mudado e é sinal de esperança. Tomara que haja uma nova reconstrução “hermenêutica”, sendo esta uma necessidade histórica. Que com uma justa crítica acurada, superem-se as ambiguidades historiográficas.

Pena que as correntes históricas perduram e os teóricos antigos – dizem eles, “conceituados” – continuam a ser as “referências fidelíssimas”, assim na prática pedagógica e histórica. Seja superior (acadêmica) ou média e fundamental, no ensino público continua a ritualista tradição a-histórica, não transparente sobre os acontecimentos, e de tom feiticista e alienado, incluindo entre estes, muitos estudiosos, professores e jornalistas brasileiros e do resto do mundo. “Há milhões de pessoas que odeiam o que erroneamente supõem que seja a Igreja Católica” (cf. John Fulton Sheen, Bispo norte-americano).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AQUINO, Felipe. “Para entender a Inquisição”. Lorena: Cleofas, 1º ed., 2009.

DEVEVIER, W. “A Historia da Inquisição: curso de apologética cristã”. São Paulo: Melhoramentos, 1925.

L’INQUISIONI. “Atas do Simpósio sobre a Inquisição”, 1998.

PERNOUD, Régine. “A Idade Média: Que não nos ensinaram”. São Paulo: Agir, 1964.

ROPS. Henri-Daniel. “A Igreja das Catedrais e das Cruzadas”. Vol. 3. São Paulo: Quadrante, 1993.

Fonte: Centro Santo Afonso de Ligorio, publicado em 27/8/2019.

Nota do Blog: Esse ensaio, sem autoria explícita, circulou largamente nas mídias sociais e está postado em vários sites e blogs. As cifras das vítimas podem até ter sido majoradas ao longo do tempo, embora se deva levar em conta o contexto histórico da época e dos lugares, nada justifica a existência desses tribunais do Santo Ofício e de seus desdobramentos, mesmo que se tratassem de algumas poucas dezenas de condenações, pois foi uma prática abominável, da qual a Igreja Católica se penitencia nos dias atuais, fazendo uma releitura de sua antiga doutrinação impositiva.

Vale salientar que outras religiões, em diferentes momentos, recorreram a expedientes violentos e nefastos aos que divergiam da sua doutrinação. Convém rememorar, entre igrejas protestantes, o julgamento das bruxas de Salem, a série de audiências e processos de pessoas acusadas de bruxaria na Colônia de Massachusetts, entre fevereiro de 1693 e maio de 1694. Desse julgamento, mais de duzentas pessoas foram acusadas e 30 foram consideradas culpadas, das quais 19 foram executadas por enforcamento; a “hieromaquia” está claramente assinalada no curso da história das grandes civilizações, a exemplo das guerras santas, como as “jihad” islâmicas, passando no fio da espada os considerados infiéis, dos descalabros dolorosos das investidas dos “Cruzados” para a conquista da Terra Santa. O fato comum, encontrado na História, é que novas religiões são muito perseguidas em seus nascedouros, mas quando se consolidam agem no sentido de coibir o surgimento ou crescimento de credos considerados concorrentes.

Em março de 1984, conheci em Lima, no Peru, o Museu da Inquisição, equipamento que preserva o arsenal de torturas desse braço obscuro da religião cristã, sob a tutela da Igreja de Roma, fiquei estarrecido diante do instrumental disponível para arrancar as confissões requeridas pelos inquisidores, ainda que carentes de veracidade da parte das vítimas.

Não menos assustador foi conhecer, em junho de 2018, o Mittelalterliches Kriminalmuseum, o Museu Criminal Medieval, mais conhecido como o museu da tortura, situado em Rothenburg ob der Tauber, na Alemanha, com uma diversidade de instrumentos capazes de “chocar” até mesmo os indivíduos mais sádicos. Muitos dos apetrechos reunidos nesse museu foram provenientes de burgos operados pelo “braço secular”, por instituições laicas e não sujeitas à hierarquia eclesiástica.

Marcelo Gurgel Carlos da Silva

Editor do Blog


terça-feira, 29 de março de 2016

CASA DE CULTURA CHRISTIANO CÂMARA


Christiano Câmara e sua esposa Douvina.
Por Raymundo Netto (*), especial para O POVO.
Rua da Escadinha ou Travessa Baturité, 162. Casa centenária que abrigou entre outros, Gilberto Câmara, jornalista, responsável pela campanha que edificou o mais belo conjunto escultórico de Fortaleza, aquele que representa José de Alencar, na homônima praça, e um dos maiores incentivadores da fundação da Associação Cearense de Imprensa, a ACI. É também a casa que hospedou o poeta paulista Guilherme de Almeida, em 1925, quando em suas peregrinações Brasil afora em defesa da corrente modernista. Ao final, abrigo de um dos maiores pesquisadores e defensores do patrimônio artístico, arquitetônico e cultural brasileiro e cearense: Christiano Câmara.
Há cerca de 9 anos o conheci. Bati palmas ao portão, sendo recebido por Douvina, a sua sempre guardiã e relações públicas, quando me disse, no corredor que dá para cozinha, onde colava tirinhas de papel em fitas K-7: “Se for jornalista, não recebo!” Estava zangado pelos inúmeros que o procuravam para explorá-lo, tomá-lo horas no cumprimento de pautas, mas que não se atrincheiravam com ele na defesa daquilo que lhe era mais sagrado: a história que exibia em suas paredes. “Nunca vi isso. Impressionante... eles não denunciam, não cobram nada às autoridades!” Deu-me como souvenir um texto impresso “Fortaleza sem Rosto”, escrito por ele em 2000: “No Brasil, 3% da população não tem do que reclamar, enquanto 97% não tem a quem”. Sentia-se sozinho em última trincheira, que a cada dia via mais espremida naquela rua, tomada por shoppings de camelôs, oficinas mecânicas, comércio de botijões de gás, estacionamento de caminhões, “um inferno!” Os políticos e autoridades iam lá, pediam-lhe a benção, beijavam-lhe as mãos e depois as lavavam e deixavam Christiano a ver navios, claro, se pudesse vê-los novamente, pois se vendia a beira-mar para arranha-céus de luxo, geralmente dos mesmos donos, os donos do Ceará, aqueles cuja fortuna tinha origem no contrabando, na especulação, em negociatas políticas do passado a preço da ignara alma popular. Afirmava o Christiano: “Raymundo Netto, não adianta. Nunca que essa elite burra e analfabeta vai atrás de passado e de manter tudo isso. Sabe por quê? Por que essa elite veio da merda e eles querem esquecer dessa merda toda!” – nessa hora, d. Douvina tentava acalmá-lo: “Meu velho, você não é de falar palavrão! Não precisa...”.
Há 5 anos, doído e quase choroso, confessou-me que dormia quando ouviu a voz da mulher discutindo com um caminhoneiro na calçada. Ela pedia educadamente que ele abaixasse o volume do som, “pois seu velho estava dormindo”. O caminhoneiro riu e aumentou ainda mais. Christiano foi à calçada, pegou-a pelo braço e a chamou para casa. O motorista falou: “É. Leva essa doida, mesmo!”. Christiano respondeu: “Vou levar, sim, mas só porque, infelizmente, nessa casa não existe mais um homem!”. Foi uma das declarações mais dolorosas que ouvi na vida. Não nos enganemos: esse foi o tratamento que mereceu o nosso Christiano nos últimos anos de sua vida. Aquele que recebia a todos com paixão, brilho nos olhos, falando alto e com entusiasmo sobre um mundo cada vez mais deixado para trás, também seria lembrado apenas pela máquina de afetos que alguns denominam, quando o tem, de coração.
Pois é, a morte não podemos impedir, mas o legado de Christiano podemos, sim, manter. Agora, alguns urubus caíram em cima, tentarão com promessas doces tomar o que puder para si, comprando ou não, algumas raridades. Outros, membros de associações pseudoculturais de vagas vendidas a preço de pagamento de dívidas, ou órgãos oficiais em que os responsáveis se escondem por trás das portas tentarão ganhar vantagem. A hora é de cautela e objetividade. Vejam a luta que seu deu para a permanência da Casa de Juvenal Galeno. É possível, sim.
E, Christiano, que Deus o receba, ao lado de seu Gilberto e dom Helder, com aquilo que ele criou e que você carregou com tanto amor em seus braços: a boa música.
(*) Raymundo Netto é escritor e promotor cultural.
Fonte: Postado no Blog Almanacultura. Publicado In: O Povo, Vida & Arte, de 26/03/2016. p.3.

sexta-feira, 17 de julho de 2015

CONVITE: Projeto Jovem Explorador e Ecomuseu de Pacoti


 
 

Os filhos e amigos de Pacoti-CE estão sendo convidados para o lançamento do Selo Postal Personalizado do Projeto Jovem Explorador e da placa de anúncio das obras do futuro Ecomuseu de Pacoti.
Data: 18 de julho de 2015 (sábado).
Horário: 8 horas.
Local: UECE – Estação Ecológica – Campus de Pacoti-CE.
 

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