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quinta-feira, 10 de setembro de 2026

VIOLÊNCIA NA ESCOLA: quando o alvo são os professores

Por Sofia Lerche Vieira (*)

Recente editorial de jornal de circulação nacional (Folha de São Paulo, 28 jul. 2026) trata de uma face pouco discutida da violência no interior da escola - a agressão física, verbal e psicológica a professores. Mais do que um problema isolado, reflete um cenário mais amplo de intolerância, conflitos e fragilidade nas relações sociais. O ambiente do qual se espera desenvolvimento humano e aprendizagem tornou-se, para muitos, um espaço de insegurança.

A esse respeito, o Brasil é destaque negativo no cenário internacional. Pesquisa da OCDE (2024), mostra que 47% dos professores do país consideram intimidações e abusos verbais praticados por alunos uma importante fonte de estresse, percentual superior à média de 18% registrada entre cerca de 50 países. O Brasil ainda lidera o tempo perdido com interrupções e indisciplina, comprometendo a qualidade do ensino.

Outro dado impactante refere-se a estudo do Centro do Professorado Paulista -CPP (2025), onde há registro de que 65% dos docentes já sofreram algum tipo de agressão no ambiente escolar. A violência verbal lidera as ocorrências, atingindo 71% dos casos, seguida pela psicológica e moral (58%), institucional (27%) e física (19%). Além disso, 74% dos professores afirmam não se sentir seguros em sala de aula.

Se casos de maior gravidade devem ser investigados pelas autoridades competentes, situações de tal natureza demandam, sobretudo, prevenção. O Unicef, por exemplo, recomenda a criação de protocolos específicos para lidar com agressões, sistemas acessíveis de denúncia e monitoramento, além de programas voltados à mediação de conflitos, cooperação, autocuidado e educação emocional.

Especialistas defendem ainda maior integração entre escola, família e comunidade, sem esquecer ação efetiva do Estado no combate a toda sorte de crimes de ódio. Tão importante quanto valorizar os professores, melhorar suas condições salariais e trabalhistas é assegurar sua integridade física e psicológica. Há algo de assustador em uma sociedade que aceita com naturalidade que seus professores se tornem alvo de violência.

(*) Professora do Programa de Pós-Graduação em Educação da Uece e consultora da FGV-RJ.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 10/08/26. Opinião. p.18.


segunda-feira, 6 de abril de 2026

ESSES ERROS DE TODOS NÓS

Por Luiz Gonzaga Porto Pinheiro (*)

No nosso genoma estão os seres que cruzamos na evolução. Predadores carniceiros e rapineiros estão em alguns dos nossos genes. A expressão de uma ou a repressão de outra proteína pode se manifestar como ganância, inveja, preconceito, soberba ou crueldade. Uma paixão, uma frustração, álcool, alucinógenos ou uma injustiça explícita podem liberar formas bizarras de comportamento no homem. Veja-se a atitude de dois jovens ditos normais, no metrô de São Paulo: embriagados, espancaram até a morte um morador de rua que defendia um homossexual.

Acho que uma parte destes comportamentos atípicos se explica pela frustradora sociedade de consumo. Todos querem ter tudo que lhes agrada. Coletivamente também surgem comportamentos predatórios: países fortes se apropriam do poder, corrompem ou são corrompidos, perseguem minorias e expoliam Estados fracos.

Nações promovem guerras por interesses geopolíticos, religiosos, comerciais ou ideológicos. Impérios dominam extensas áreas do planeta e usam artefatos nucleares e químicos para manter seus privilégios. Nem o meio ambiente escapa dos homens. Espécies extintas, a natureza degradada, mostra a insensibilidade coletiva. Necessário que se exercite a ética, centrada na vida, embasada em coletivo justo, identifique desvios, controlando-os e punindo os culpados.

O Estado deve dar chances iguais a todos, corrigir as desigualdades e facilitar o crescimento dos cidadãos. Enquanto as respostas não chegam, evite-se soluções violentas, a criação de um estado policialesco, onde a ação policial é distorcida com mortes evitáveis pela ação violenta desnecessária.

O controle da criminalidade não pode ser usado como estímulo ao armamento da população que levara ao aumento da violência. Que em cada um de nós prevaleça o bom senso, o autoconhecimento, a observação dos modelos de honestidade, solidariedade e de generosidade; que a esperança vença o niilismo forjando o equilíbrio interior entre o Dionisíaco e o Apolíneo, sonho humanista do nosso animal interior com a sabedoria criada pelo córtex evoluído.

(*) Médico. Professor aposentado da UFC. Presidente da Sociedade Cearense de Cancerologia, presidente do GEEON e pesquisador CNPq.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 28/02/2026. Opinião. p.16.


segunda-feira, 16 de março de 2026

Colunistas parciais maculam a seriedade de um veículo

Por Marcos L Susskind (*)

O jornal O POVO é, sem dúvida, um dos mais influentes veículos do Ceará. Foi em suas páginas que a colunista Mônica Dias Martins escreveu artigo iniciando por uma acusação feita pelo grupo Women in Black em Jan/2004 que demonizava soldados Israelenses. Mas a mesma Women in Black, pacifista, não condenou o massacre do Hamas.

Não é segredo que grupos de esquerda e pro-palestina abusem de acusações sem fundamento sobre violência sexual por parte de soldados Israelenses, jamais documentadas, mas originadas apenas nas falas de mulheres palestinas.

No entanto, estas mesmas organizações calam-se quando são exibidos fotos e vídeos de corpos de mulheres israelenses violentadas, com imenso sangramento vaginal, com seus quadris quebrados e até mesmo espancamentos com bastões em vias públicas. Assim, movimentos feministas como “Me Too”; “Ni Una Menos” e “Marcha das Mulheres” calaram-se ou emitiram notas apenas superficiais.

A orientação política de esquerda da autora do artigo em questão parece dar-lhe licença para demonização de tudo que diz respeito a Israel enquanto silencia sobre atrocidades de palestinos ou até as glorifica. Nenhuma linha sobre assassinato por estrangulamento dos bebês Bibas, das sevícías nos moradores de Nir Oz.

Artigos anteriores da mesma autora saúdam a flotilha de Greta Thumberg, extremamente vocal contra Israel, mas desaparecida em relação aos massacres do Irã, numa clara evidência que não lhe importam direitos humanos e sim propaganda anti-israelense. Outros artigos investem contra os Estados Unidos, mas silenciam sobre a opressão na Venezuela, Nicarágua e Cuba.

Israel, como qualquer nação, tem defeitos - mas tem inegáveis qualidades, que a autora faz questão de ignorar.

Quando uma pessoa defende veementemente apenas um lado, ela perde a função de jornalista e passa a ser apenas panfletária. É uma pena que uma pessoa assim tenha assento como professora numa universidade onde ao invés de formar, ela deforma seus alunos, usando apenas de uma visão parcial maniqueísta.

E, ainda, é lastimável que O POVO lhe dê tribuna para inculcar ideias parciais a seus leitores.

(*) Palestrante e Ativista Social. Autor do livro "Combatendo o Antissemitismo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 10/02/26. Opinião, p.16.

domingo, 1 de fevereiro de 2026

DA NARRATIVA À REALIDADE

Por Carlos Roberto Martins Rodrigues Sobrinho (Doutor Cabeto) (*)

Escrevi num domingo, não publiquei imediatamente, dei um tempo. Foi num dia diferente, pelo menos para mim. Numa manhã, após sair do Hospital, hábito que cultivo há 35 anos, dirigi-me para encontrar minha irmã. A poucos metros da sua casa, resolvi parar numa venda para comprar algumas surpresas para o domingo de Páscoa. Ao descer do carro fui surpreendido por um jovem nervoso e agressivo, descendo de uma moto. Apontou-me um revólver aparentemente velho, não hesitou em bater com o cano no meu tórax.

Não vou entrar nos detalhes, já que isso é diário para milhares de cearenses. Mas o que mais me surpreendeu foi a postura da polícia ao chegar no local do assalto. Naquela ocasião, o policial sem sequer descer do carro, disse-me, ao ser informado por amigo que se tratava de um médico e ex-secretário de saúde do Estado, "não tem problema, é rico". Naquele momento tive dúvida se a minha indignação se devia à violência ou ao descaso com a sociedade. Entre o discurso de um governo fraco, essencialmente por sua forma medíocre, amparado por um esquema de sedução dos poderes, à situação calamitosa em que estamos.

Não que sejamos únicos, mas estamos entre os piores indicadores de violência no Brasil.  como todos vocês, a reação tem uma mistura de vários sentimentos, entre eles impotência e, sobretudo, tristeza. Depois de algumas reflexões, resta-nos crer que em algum momento, mudaremos. Pois, de nada adianta falar do passado, de uma nação que desde o início foi extorquida. Para quem não sabe, por curiosidade, era proibido aos que estavam no Brasil emitir notícias a Portugal, ensurdecendo os absurdos.

Passados todos esses anos, já é o momento de romper com esse "homem cordial", afeito a informalidade, adaptando-se em qualquer situação. Se por um prisma é conveniente, por outro induz ao jeitinho brasileiro, associado à corrupção, à falta de civismo e ao personalismo.

Dizer que a educação é a solução para todos os males, parece-me simplista e infantil, quando não se esclarecem os métodos e os objetivos, quando assistimos aos sucessivos erros. Refiro-me a uma realidade perversa, um desempenho trágico das competências cognitivas dos alunos do ensino público. Em dados publicados em 2025 constatamos que somente 5% dos alunos de escola pública atingem conhecimento mínimo em matemática. Infelizmente os resultados são bem diferentes das narrativas.

Cabe-nos responsabilizar as nossas lideranças. Uma parte importante dessa mudança, da transformação, de impedir essa sentença determinista de "sempre foi assim e não vai mudar", passa, evidentemente, pela política. A frase de "esse é o jogo", que ouvi de uma certa liderança do nosso Estado, fez a autointitulada esquerda crer que era preciso entrar no jogo para mudar. Embora, do ponto de vista da história, pareça tolice, passaram a vestir o papel da antítese de suas propostas. Ou seja, chegaram para mudar, se corromperam, e, agora, fazem parte do sistema. Assim mesmo, a teimosia é um surto, e nesse, empregamos uma força que não reconhecemos. Nessa ruptura que está por acontecer.

(*) Médico. Professor da UFC. Ex-Secretário Estadual de Saúde do Ceará.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 27/12/2025. Opinião. p.15.


sábado, 31 de janeiro de 2026

Cidadãos de bem, vítimas do mal

Por Emanuel Freitas da Silva (*)

Passavam dois dias do Natal e faltavam quatro para a passagem de ano quando as redes sociais foram tomadas pelas imagens de dois turistas mato-grossenses, espancados por vendedores na praia de Porto de Galinhas, em Pernambuco, após recusarem-se a pagar taxas abusivas cobradas ali de quem senta-se para aproveitar a praia.

As cenas mostravam dois homens espancados, ensanguentados, por uma turba que parecia excitada pela ânsia de violentar. Vários contra dois.

Com a repercussão das imagens em veículos da mídia tradicional, o caso se nacionalizou e a solidariedade se ampliou ao se saber que se tratava de um casal. Nas redes sociais, revolta pelo ocorrido e relatos aos montes se juntaram para denunciar a prática abusiva que seria recorrente ali; com o avançar do tempo, outras barracas de praia também tinham a cobrança abusiva relatada por dezenas de brasileiros.

A revolta e o estupor foram gerais. A governadora do estado se pronunciou e cobrou diligências. A prefeitura de Ipojuca fez-se obrigar, somente depois disso, a fiscalizar o cumprimento de lei sancionada em 2019, emitindo novo decreto.

Pois bem, (quase) tudo mudou depois que se começou a desconfiar da identidade política do casal. A sunga usada por um deles despertou a desconfiança de que seriam “bolsonaristas”, “gays de direita”, que visariam reproduzir, através do caso, estereótipos sobre o Nordeste, o que só se agravaria com a informação de que passaram a virada de ano em Balneário Camboriú, a convite da prefeitura.

Politizou-se: o caso, a violência, a cobrança, o desfecho.

A realidade da extorsão abusiva, seguida de pancadas que os fizeram sangrar, instantaneamente passou a compor um repertório de menos gravidade ao se identificar os dois como do polo político oposto.

Não seriam vidas dignas, não pertenciam ao “lado de cá”. Era a versão, à esquerda, da ideia de “cidadão de bem” ou do “humano direito”; daí, “todo castigo é pouco”.

O tribunal das redes é implacável, e sua solidariedade é efêmera. Triste fim de nosso tempo. Não existem humanos em geral; a condição humanoide é dada pela filiação a um espectro político.

(*) Professor adjunto de teoria política da Uece/Facedi.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 7/01/26. Opinião. p.14.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

AS VIOLÊNCIAS NO CEARÁ

Por Heitor Férrer (*)

A violência contra a vida tornou-se uma tragédia nacional e, no Ceará, ela atinge proporções insuportáveis. Dentre as 27 unidades da federação, somos o 3° estado mais violento. Em 2023, foram 2.893 assassinatos; em 2024, o número saltou para 3.178 vidas ceifadas. Foram 264 mortes por mês. É como se, a cada mês, um avião lotado de cearenses caísse e matasse todos os passageiros.

Quando a morte é coletiva, como num desastre aéreo, o país se comove. O noticiário se ocupa por dias, autoridades se pronunciam e o luto é nacional. Mas quando as mortes são individuais, uma aqui, outra acolá, a indignação se dilui e a tragédia se banaliza. São nove assassinatos por dia. Nove histórias interrompidas e ninguém se espanta. Tudo vira rotina. Essa é a forma mais cruel da violência, a que elimina a vida. No entanto, não é a única.

O Ceará convive com tantas outras violências, silenciosas, persistentes e igualmente devastadoras, que corroem, profundamente, a dignidade humana. Vejamos, por exemplo, a violência da saúde. Mais de sessenta mil cearenses aguardam por uma cirurgia. Muitos morrem nessa espera. É uma decretação de pena de morte oficial imposta pelo estado.

Existe também a violência da moradia. O déficit habitacional no Ceará passa de duzentos mil domicílios; mais de um milhão e meio de pessoas vivem em condições sub-humanas. Milhares sequer dispõem de um banheiro. Homens, mulheres e crianças dividem, sem qualquer pudor, o que deveria ser o último reduto da intimidade humana. É uma brutalidade animalesca.

No saneamento básico, a situação não é menos vergonhosa. Apenas 30% dos lares cearenses tem esgotamento sanitário. Sete em cada dez casas despejam seus dejetos a céu aberto. A violência social é patente. Dos 9 milhões de cearenses, 4,5 milhões vivem em situação de pobreza e 876 mil, de miséria.

Com tamanha degradação, o que esperar dos que emergem desse ambiente? Pessoas que crescem sem dignidade, que adoecem sem assistência e que vivem sem o mínimo de salubridade tendem, inevitavelmente, a reproduzir a violência que as cerca. É o ciclo perverso da exclusão. O Estado fabrica violência e depois tenta contê-la pela força.

O episódio recente no Rio de Janeiro, onde 121 brasileiros, entre eles quatro policiais militares, foram mortos em uma única operação, é o retrato mais doloroso desse colapso civilizatório.

No mundo ocidental, não há paralelo. Só aqui a barbárie conseguiu naturalizar-se a ponto de parecer rotina. A violência tem muitos prismas e todos refletem o mesmo abandono.

Enquanto continuarmos tratando o problema como uma questão apenas de segurança pública, achando que é caso de polícia, ignorando suas raízes sociais, seguiremos contabilizando mortos e justificando o injustificável.

(*) Médico e deputado estadual (Solidariedade).

Fonte: Publicado In: O Povo, de 14/11/2025. Opinião. p.19.


domingo, 19 de outubro de 2025

ELE NÃO MORREU

Por Rev. Munguba Jr. (*)

Herança é aquilo que conseguimos juntar para deixar aos nossos filhos. Legado é o que conseguimos imprimir nos corações e mentes deles. A herança pode ser desperdiçada, mas o legado permanece gravado no mais profundo do ser.

Nos últimos quinze dias, vivemos momentos de fortes emoções. Deixe-me explicar: um jovem, que recebeu de seus pais as melhores oportunidades, conquistou uma bolsa para uma excelente universidade nos Estados Unidos. Em apenas um ano e meio, rompeu com a família, passou a questionar os valores que recebera e acabou se tornando um assassino.

Do outro lado da história, havia um pai amoroso, marido exemplar, com apenas 31 anos de idade. Pai de dois filhos, dedicou onze anos de sua vida a um projeto inspirador com universitários. Sua maior alegria era ir de campus em campus para dialogar com jovens sobre valores cristãos como liberdade, amor, acolhimento, salvação, propriedade privada, respeito à vida, meritocracia e tantos outros que formam a base da civilização ocidental.

O respeito ao diferente era a marca de seu projeto de vida. Seu lema era: "Prove que eu estou errado." Assim, abria mentes e corações para pensar fora das bolhas em que normalmente vivemos.

Imagine a cena: um dia ensolarado, milhares de jovens reunidos, debates públicos acontecendo, como se diante de nossos olhos recriássemos a Ágora na Grécia Antiga. Liberdade para pensar e falar.

De repente, um som seco, um estampido. O desespero toma conta. A filha de Charlie Kirk corre para os braços do pai, assustada com a correria da multidão. Mas ele já não reage. Seu corpo está imóvel no chão. Um tiro. Apenas um. No pescoço. Rápido, silencioso, fatal.

Charlie Kirk não morreu. Ele apenas mudou de endereço. Está agora na presença d'Aquele a quem mais amou em toda a sua existência: nos braços do Pai.

E o legado? Esse não se perdeu. Pelo contrário, ficou marcado na história. Suas redes sociais triplicaram após sua partida. No culto fúnebre, mais de cem mil pessoas se reuniram para celebrar sua vida e missão. Sua esposa, com coragem sobrenatural, perdoou publicamente o assassino.

Milhares de jovens entregaram suas vidas a Cristo. Universidades, empresas e igrejas foram impactadas. Os cultos enchem-se de pessoas, filas se formam à porta, e os valores que ele defendia florescem em corações decididos.

Sim, ele não morreu.

(*) Pastor Munguba Jr. Embaixador Cristão da Oração da Madrugada e Erradicação da Pobreza no Brasil e presidente da Igreja Batista Seven Church.

Fonte: O Povo, 27/09/2025. Opinião. p.18.

segunda-feira, 13 de outubro de 2025

Prefeitura de Fortaleza aceita conviver com estupro de crianças?

Por Luiz Eduardo Girão (*)

Quando pensamos ter visto tudo em violações do PT, somos surpreendidos por mais um escândalo contra valores e princípios dos cearenses. Após mensalão, petrolão e, agora, roubo do INSS contra aposentados - que parece envolver até o irmão do Lula, a “gestão” petista municipal escolhe um caminho perigoso que pode levar à aceitação da pedofilia como algo natural. É a mensagem que transmite a decisão da prefeitura de Fortaleza ao promover o implante subdérmico de etonogestrel como método contraceptivo em crianças e adolescentes a partir de 10 anos de idade!

Segundo o Ministério da Justiça, foram praticados 87.545 estupros no Brasil em 2024, sendo 2.028 só no Ceará. De janeiro a maio desse ano, foram mais 769 casos no estado. O flerte dessa turma com violações morais não é de hoje; nos primeiros dias do “Lula 3” foi revogada a fundamental Portaria 2561 de 2020 que obrigava médicos e profissionais a comunicar às autoridades policiais abortos decorrentes de estupro. O objetivo foi claramente favorecer o assassinato de crianças por nascer, mesmo que também facilitasse a prática do estupro.

O fato é que a alegação da prefeitura de Fortaleza, ao implantar esse programa com pretexto de reduzir a gravidez precoce, não se sustenta, pois admite a atividade sexual de crianças, ou seja, um crime previsto no Código Penal, que considera o sexo com menores de 14 anos estupro de vulnerável. É simplesmente uma confissão da falência do Estado no enfrentamento da erotização e da sexualização infantil.

Isso é semelhante à política de redução de danos defendida pelo PT, que, em vez de enfrentar os entorpecentes prendendo e punindo traficantes e tratando dependentes químicos nas comunidades terapêuticas, opta por conviver com o uso das drogas, tentando apenas reduzir malefícios.

Já pedi oficialmente explicações à Secretaria de Saúde, representei junto aos Conselhos Federal e Regional de Medicina visando anular essa medida, e aprovamos no Senado um requerimento meu para audiência pública ouvindo especialistas. Fazemos isso em consonância com o artigo 227 da Constituição que afirma ser dever da família, da sociedade e do Estado assegurar a crianças e adolescentes seus direitos fundamentais.

São necessárias políticas que reprimam severamente o estupro e a pedofilia e garantam a integridade da infância com a valorização da família para uma sociedade saudável. Isso não se resolve disseminando uso de contraceptivo, uma “bomba hormonal” com altos riscos para a mulher, e mais beneficia o lobby da indústria farmacêutica.

Portanto, a quem interessa aceitar conviver com a barbaridade do estupro de menores em vez de priorizar a prevenção e punição dos criminosos? Paz & Bem

(*) Empresário. Senador pelo Podemos/CE.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 3/09/25. Opinião, p.19.

quarta-feira, 1 de outubro de 2025

Saúde como escudo contra a violência doméstica

Por Priscila Figueiredo (*)

A violência doméstica permanece como uma chaga social que afeta milhares de mulheres brasileiras diariamente. No Ceará, dados revelam uma realidade preocupante que exige ação coordenada entre diversos setores. Neste contexto, o acesso aos serviços de saúde emerge como ferramenta fundamental na prevenção e combate a este tipo de violência.

Profissionais de saúde são frequentemente os primeiros a identificar sinais de violência doméstica. Uma consulta de rotina pode revelar marcas físicas ou comportamentos que indicam abuso. Hematomas em locais específicos, fraturas recorrentes, ansiedade excessiva ou relutância em falar sobre ferimentos são indicadores que merecem atenção especial. Quando adequadamente capacitados, esses profissionais tornam-se agentes essenciais na rede de proteção, oferecendo acolhimento, orientação e encaminhamento às vítimas.

A Agenda 2030 da ONU reconhece esta interconexão. O ODS 5, especificamente a meta 5.2, visa eliminar todas as formas de violência contra mulheres e meninas. Para alcançá-la, o ODS 17 destaca a importância das parcerias: unidades de saúde trabalhando com delegacias especializadas, centros de referência, assistência social e o sistema de justiça.

O acolhimento humanizado nos postos de saúde e hospitais cria ambiente seguro para que vítimas relatem suas experiências. A privacidade durante consultas, a escuta sem julgamentos e o respeito ao tempo da vítima são elementos fundamentais nesse processo. Quando uma mulher encontra no posto de saúde um ambiente seguro para relatar sua situação, inicia-se um processo de ruptura do ciclo de violência.

No entanto, ainda enfrentamos desafios. A subnotificação dos casos, a falta de recursos adequados e a necessidade de melhor articulação entre os serviços representam obstáculos a serem superados. É necessário investir na formação continuada dos profissionais de saúde, criar protocolos claros de atendimento e fortalecer a articulação entre os serviços. A saúde pública não pode ser vista isoladamente, mas como parte de uma estratégia integrada de proteção.

A redução da violência doméstica passa, inevitavelmente, pelo fortalecimento do SUS e pela construção de pontes entre saúde, segurança e justiça. Cada unidade básica de saúde pode ser um ponto de apoio na construção de uma sociedade mais justa e segura para todas as mulheres.

(*) Médica e ex-prefeita de Quiterianópolis.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 30/08/2025. Opinião. p.16.


segunda-feira, 9 de junho de 2025

O ESTADO E O CRIME

Por Romeu Duarte Junior (*)

Às vezes penso (penso, não, tenho certeza) que, no Brasil, o crime já ganhou do Estado há muito tempo. Não vou nem me reportar às violências comezinhas do cotidiano (feminicídio, transfobia, estupro de vulnerável, morte por bala perdida e um longo etc.) porque aí seria apenas perder tempo e aumentar o tempo de choro. Refiro-me à captura da honestidade, da administração pública e do Direito, algo que no passado, era promovido e defendido pelo Estado, pela onipresente, violenta e insaciável bandidagem. Organizações criminosas essas, aliás, estabelecidas em diversos níveis e com variadas atuações. Longe está o tempo em que temíamos os ladrões de galinha; hoje são os afanadores das penosas de ouro que mandam. E o pior é quando os dois do título se confundem.

Primeiro réu da chacina do Forró do Gago (ia escrevendo Lady Gaga), na qual foram mortas 14 pessoas, é condenado a 790 anos de prisão. Pergunto aos meus botões: quanto tempo de pena cumprirá? Ou arrumará um atestado médico no qual se afirmará que sofre de mazelas incuráveis, tal como procedeu recentemente um ex-presidente da República, para ficar em casa num dolce far niente, lustrando a tornozeleira eletrônica? Dono de rádio é assassinado por policiais militares no dia do seu aniversário na porta de uma padaria. Advogado teria sido morto por não conseguir soltar cliente. Ex-lutador do UFC é preso por fornecer armas e munições ao CV, ação facilitada por ser CAC, absurdo criado no desgoverno do inominável. Desse jeito, teremos que dar razão ao Marcola...

Pois é, meu povo, as páginas dos jornais gotejam sangue. Quando não o é rubro líquido da vida, é a bílis do ódio por ter sido roubado por quem deveria tomar conta da gente. Quantas vezes presenciei o calvário dos velhos na fila do INSS quando tinha que resolver questões ligadas ao benefício da minha tia. Idosos e idosas chegando em cadeiras de rodas e até em macas para provarem que estavam vivos, numa asquerosa humilhação. De repente, aparece um rombo de mais de R$ 6 bilhões, arquitetado por associações de aposentados e pensionistas e gente do próprio órgão mediante rachadinhas (o nome da treta já diz da sua origem temporal), que começa a ser resolvido agora. O problema é saber como fazer dinheiro transformado em bens ir para os seus legítimos donos.

Como se tudo isso fora pouco, assistimos diariamente às incansáveis tentativas dos seguidores do réu inelegível em livrá-lo da cadeia. O Brasil precisa se encontrar consigo mesmo e um dos caminhos é o Estado virar o jogo em relação ao crime. A pergunta surge imediata: como, cara-pálida, se o Estado está em boa medida contaminado pelo delito, a corrupção e os desmandos? Como aceitar que deputados e senadores peçam anistia para aqueles que destruíram as sedes das instituições onde trabalham, além das demais na Praça dos Três Poderes? Não têm sequer dignidade, ou melhor, vergonha na cara? A raiva já me inflamava quando ouvi alguém, passando na calçada, gritar: "Viva o Papa Leão!". Saí e saudei o sujeito. Com a camisa do Ceará, falou: "É o Vozão, doido".

(*) Arquiteto e professor da UFC. Sócio do Instituto do Ceará. Colunista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 12/05/25. Vida & Arte. p.2.

quinta-feira, 5 de junho de 2025

O ESTADO E O CRIME

Por Romeu Duarte Junior (*)

Às vezes penso (penso, não, tenho certeza) que, no Brasil, o crime já ganhou do Estado há muito tempo. Não vou nem me reportar às violências comezinhas do cotidiano (feminicídio, transfobia, estupro de vulnerável, morte por bala perdida e um longo etc.) porque aí seria apenas perder tempo e aumentar o tempo de choro. Refiro-me à captura da honestidade, da administração pública e do Direito, algo que no passado, era promovido e defendido pelo Estado, pela onipresente, violenta e insaciável bandidagem. Organizações criminosas essas, aliás, estabelecidas em diversos níveis e com variadas atuações. Longe está o tempo em que temíamos os ladrões de galinha; hoje são os afanadores das penosas de ouro que mandam. E o pior é quando os dois do título se confundem.

Primeiro réu da chacina do Forró do Gago (ia escrevendo Lady Gaga), na qual foram mortas 14 pessoas, é condenado a 790 anos de prisão. Pergunto aos meus botões: quanto tempo de pena cumprirá? Ou arrumará um atestado médico no qual se afirmará que sofre de mazelas incuráveis, tal como procedeu recentemente um ex-presidente da República, para ficar em casa num dolce far niente, lustrando a tornozeleira eletrônica? Dono de rádio é assassinado por policiais militares no dia do seu aniversário na porta de uma padaria. Advogado teria sido morto por não conseguir soltar cliente. Ex-lutador do UFC é preso por fornecer armas e munições ao CV, ação facilitada por ser CAC, absurdo criado no desgoverno do inominável. Desse jeito, teremos que dar razão ao Marcola...

Pois é, meu povo, as páginas dos jornais gotejam sangue. Quando não o é rubro líquido da vida, é a bílis do ódio por ter sido roubado por quem deveria tomar conta da gente. Quantas vezes presenciei o calvário dos velhos na fila do INSS quando tinha que resolver questões ligadas ao benefício da minha tia. Idosos e idosas chegando em cadeiras de rodas e até em macas para provarem que estavam vivos, numa asquerosa humilhação. De repente, aparece um rombo de mais de R$ 6 bilhões, arquitetado por associações de aposentados e pensionistas e gente do próprio órgão mediante rachadinhas (o nome da treta já diz da sua origem temporal), que começa a ser resolvido agora. O problema é saber como fazer dinheiro transformado em bens ir para os seus legítimos donos.

Como se tudo isso fora pouco, assistimos diariamente às incansáveis tentativas dos seguidores do réu inelegível em livrá-lo da cadeia. O Brasil precisa se encontrar consigo mesmo e um dos caminhos é o Estado virar o jogo em relação ao crime. A pergunta surge imediata: como, cara-pálida, se o Estado está em boa medida contaminado pelo delito, a corrupção e os desmandos? Como aceitar que deputados e senadores peçam anistia para aqueles que destruíram as sedes das instituições onde trabalham, além das demais na Praça dos Três Poderes? Não têm sequer dignidade, ou melhor, vergonha na cara? A raiva já me inflamava quando ouvi alguém, passando na calçada, gritar: "Viva o Papa Leão!". Saí e saudei o sujeito. Com a camisa do Ceará, falou: "É o Vozão, doido".

(*) Arquiteto e professor da UFC. Sócio do Instituto do Ceará. Colunista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 12/05/25. Vida & Arte. p.2.

terça-feira, 13 de maio de 2025

Intervenção federal na segurança do Ceará já!

Por Luiz Eduardo Girão (*)

Temos em Mateus e Lucas esta exortação de Jesus: "Deixai que os mortos enterrem seus mortos". O Mestre aproveitou o respeito e a comoção do enterro para reforçar a principal finalidade da vida: a evolução do espírito imortal. Mas no Ceará nem os mortos estão mais livres da ação do crime, que teve a audácia de invadir um velório, ateando fogo ao caixão, impedindo a família de concluir o enterro. Barbárie, faroeste, Idade Média? O que mais falta para o governador ter a humildade de reforçar ao presidente (do seu partido!) o meu pedido de imediata intervenção federal fundamentado em 20 laudas que já está há 20 dias na mesa de Lula? Chacinas e extorsões do poder paralelo das facções nas comunidades já viraram rotina em nosso Estado.

Uma das atividades mais perseguidas pelo crime são os provedores de internet com destruição total de equipamentos e veículos. Em Fortaleza e Caucaia, 19 bairros ficaram isolados, sem conexão, pela omissão e incompetência do governo petista. Circula um vídeo - talvez seja por isso que o PT queira regular as redes, via PL da Censura (para a verdade não ser entregue à população) - dizendo que serão retirados todos os cabos nos bairros da Capital e que só a “CVNet” continuaria. Muitas empresas já foram embora gerando desemprego em massa para os cearenses. No Centro da cidade, quase todos os comerciantes são extorquidos.

Estamos mergulhados no caos em que a população está sendo violada em seu sagrado direito de "ir e vir". Em 2024 atingimos 35,9 assassinatos por 100 mil habitantes. Segundo padrões intencionais, um índice superior a 10 já configura uma epidemia. Recentemente, no 2° Congresso do Cariri, o desembargador Raimundo Nonato da Silva (TRE-CE) fez a seguinte declaração: "O Estado Legal foi engolido pelo estado marginal".

Em 2020, no governo de Camilo Santana foi necessária uma ação federal pela Garantia da Lei e da Ordem (GLO) quando a Força Nacional permaneceu no Estado por 16 dias até o restabelecimento da normalidade.

Diante de um quadro tão sério de descontrole da criminalidade, deve prevalecer o espírito público por parte do presidente e do governador. Não se trata aqui de uma questão ideológica de "esquerda X direita" ou "contra ou a favor do governo", e, sim, de cuidar pela vida dos nossos conterrâneos. E, para isso, precisa reconhecer urgente a incapacidade de enfrentar as facções e pedir socorro ao Governo Federal para evitar mais tragédias. Enquanto é tempo! Paz & Bem!

(*) Empresário. Senador pelo Podemos/CE.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 11/04/25. Opinião, p.19.

quinta-feira, 3 de abril de 2025

2026: A redenção do Ceará 30 anos depois

Por Luiz Eduardo Girão (*)

Minha avó Maria, nos ensinava: "ou aprendemos pelo amor ou pela dor…". Infelizmente, o despertar dos nossos conterrâneos está vindo através da dor, diante das grandes provações que os cearenses têm sofrido, especialmente na área da segurança pública.

Todos os dias, as páginas deste jornal escancaram um cenário típico da Idade Média, em um Estado cada vez mais dominado pelas facções criminosas, que humilham sem piedade nossos cidadãos, enquanto o governo do PT "assiste de camarote". O clima de medo desse faroeste urbano acontece à luz do dia e, o pior, vitima até idosos e crianças, tanto na capital quanto no interior, consequência da completa omissão e incompetência do governo aliado ao aparelhamento político e ideológico de instituições que deveriam fiscalizar e cobrar ações efetivas do executivo, mas "preferem" silenciar. E quem paga por essa inoperância institucional dos burocratas é quem, de fato, trabalha, carregando nas costas a máquina estatal cheia de privilégios.

Só neste início de fevereiro, além das dezenas de assassinatos que já viraram regra mensal, tivemos a tentativa de chacina em Caucaia, com cinco pessoas baleadas, além de mais uma onda de ataques a empresas provedoras de internet, deixando a população de 4 municípios sem comunicação. Enquanto isso os jovens adoecem pelas drogas e são cooptados neste barco estado que vivemos! Gente, onde vamos parar com essa barbárie?

O que me conforta é constatar um movimento forte e crescente em nossa sociedade, de não mais se curvar a essa velha e má política que nos colocou nessa humilhante situação, onde as trevas e sombras teimam em sufocar a "Terra da Luz". Mas não vão conseguir! Os ventos e o sol da mudança já apontam no horizonte, tal como aconteceu há tempos, em 1986, quando houve a quebra de paradigmas e um novo ciclo na gestão pública!

Tenho muita fé e esperança no levante de irmãs e irmãos de ideal — algo que já está em curso pleno e vigoroso — despertando a consciência desse povo de fibra e libertário por natureza que trará de volta o encanto que está ausente e tirará a ferrugem dos sorrisos! Percebo, nos quatro cantos do Ceará, uma legião do bem se unindo como nunca e tomando as rédeas do próprio destino por meio de uma participação mais ativa na vida política prestes a dar um grito de liberdade que acordará a "vizinhança inteira"!

Aliás, um aperitivo dessa mobilização ordeira e pacífica, inspirada pela indignação dos cearenses diante da inversão de valores e dos "poderosos de plantão", ocorrerá neste próximo domingo, 16/3, às 16h, na Praça Portugal. A organização é da Marcha pela Família.

Estarei lá e convido você a se juntar a nós; pelos nossos filhos e netos! Que Deus nos abençoe.

Paz e Bem!

(*) Empresário. Senador pelo Podemos/CE.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 14/03/25. Opinião, p.17.


segunda-feira, 10 de março de 2025

Cearense na "panela quente"; anestesiado pelo CR1M3!

Por Luiz Eduardo Girão (*)

A banalização da violência por omissão do governo petista do Ceará teima em manter a Terra da Luz nas trevas e o povo como presa fácil das facções. O que acontece é a tese “acomodação social numa situação crítica” do professor Peter Senge: a do “sapo na panela quente”. Nela um sapo é tirado do lago e colocado numa panela com a mesma água do seu habitat, mas o fogo aquece lentamente a água até causar sua morte. Totalmente diferente se o sapo for jogado numa água já fervente, quando pularia imediatamente. A indignação dos justos precisa ser resgatada diante de tragédias diárias, quando num único mês houve 320 assassinatos! Imagine quanta dor de pais, avós, irmãos… todos conterrâneos.

Nasci em Fortaleza em 1972. Na infância, jogava bola na rua, andava de bicicleta para todo lugar. Os vizinhos colocavam cadeiras nas calçadas. Hoje, isso não existe e a “normose” toma conta do governador. Elmano, ex-advogado do MST, enrola a população afirmando, após a posse, que “bandido será tratado como bandido”.

Depois dessa fala, episódios de terror se multiplicam com direito a chacinas frequentes. Na Rosalina, quatro pessoas assassinadas, dentre elas uma criança de 11 anos. No bairro Ellery, homens armados cobram pagamento de "pedágio" sob pena de fechar as portas de uma escola. O medo dos pais levou o estabelecimento a suspender as aulas.

O risco faz também empreendedores tomarem a difícil decisão de encerrarem seus negócios causando desemprego em massa. No Carlito Pamplona, um veículo de prestação de serviços de internet foi incendiado por não ter autorização do crime para trabalhar na área!

É o poder paralelo da criminalidade mandando na distribuição de gás, no aluguel de residências chegando ao ponto de expulsar moradores que não se submetem aos marginais impondo tempo para famílias saírem de suas casas…É um retrato da falência do Estado de Direito e o fortalecimento do "narco-estado".

É preciso vontade política para enfrentar o caos na segurança, investindo pesado na inteligência policial. E não precisa tomar mais empréstimos bilionários como essa turma já fez para se perpetuar no governo endividando até nossos tataranetos... Basta cortar os gastos abusivos com cargos de confiança, propaganda enganosa de bilhões e jatinhos que dá e sobra. E você? Vai morrer na “panela quente” ou vai se mobilizar para libertar nossa terra daqueles que só pensam no poder pelo poder? Paz & Bem

(*) Empresário. Senador pelo Podemos/CE.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 14/02/25. Opinião, p.17.

segunda-feira, 5 de agosto de 2024

Segurança, o Ceará não tem disso, não...Por quê?

Por Luiz Eduardo Girão (*)

Para qualquer líder que se preza, o uso da palavra é determinante para influenciar opiniões, demonstrando suas intenções. Na posse do novo Secretário de Segurança, o governador Elmano de Freitas, do PT, cometeu um "ato falho" que revela muito sobre a tragédia da violência que meus conterrâneos sofrem diariamente: "a partir de agora, bandido será tratado como bandido!". Só faltou ele explicar de qual forma eram tratados até então. Como cidadãos? A fala de Elmano evidencia seu perfil; foi advogado de invasores de terras e conivente com práticas duvidosas! Poucos dias depois de sua fala desastrosa, acontecia mais uma chacina por aqui; desta vez na pacata cidade de Viçosa, onde 8 pessoas foram enfileiradas em praça pública e friamente assassinadas.

A omissão da oligarquia PT e PDT diante do crime organizado não é de hoje. Vem de mais de uma década! Isso ajuda a explicar a profunda crise da segurança pública no Estado e, especialmente, em nossa Capital. Segundo o Atlas da Violência, nos últimos 10 anos, o Ceará se manteve dentre os Estados com mais crimes no Brasil. Só nos primeiros 4 meses do ano foram quase mil assassinatos. Em Fortaleza a situação é igualmente alarmante; estamos entre as 10 cidades mais perigosas do mundo, segundo o Conselho Cidadão.

Esses indicadores afastam novos investimentos em todas as áreas. Em 2018, quando a situação ainda não era tão crítica, houve uma grande oportunidade de enfrentar a criminalidade com a instalação da CPI do Narcotráfico na Assembleia Legislativa. Mas Evandro Leitão, à época líder do governo petista, articulou para impedir sua instalação dizendo que não assinaria pois tinha medo de represálias do crime organizado contra a sua família…

É esse deputado o escolhido pelo PT para ser o candidato a prefeito de Fortaleza que já tem vários bairros dominados pelas facções. Além de assinar uma CPI para investigar o crime organizado, fui de gabinete em gabinete e consegui 32 assinaturas de senadores - 5 a mais do necessário. Ela foi lida pela Mesa em julho de 2022, mas arquivada no mesmo ano devido ao final da legislatura. Então mudei a estratégia; em 2023 recolhi novas assinaturas de Senadores para uma CPMI do mesmo tema, mas ainda falta completar a de deputados (lá são necessárias 171 assinaturas). Fiz e tô fazendo a minha parte no Senado para trazer paz aos cearenses.

Confio que este ciclo vicioso de poder pelo poder esteja chegando ao fim. Esse é um ano de eleição. Oportunidade para a manifestação do voto consciente e libertário de um povo honesto e trabalhador como é o nosso. Somos a Terra da Luz e não das trevas. Paz & Bem

(*) Empresário. Senador pelo Podemos/CE.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 5/07/24. Opinião, p.19.

quarta-feira, 29 de maio de 2024

SEM LUZ NO FIM DO TÚNEL?

Por Luiz Eduardo Girão (*)

Enquanto cabeças literalmente rolam nos corredores dos hospitais e facções desfilam armadas "até os dentes" diante da covardia de parlamentares aliados ao governo petista cearense, nos "iluminados" corredores da Assembleia Legislativa, deputados que deveriam confrontar a Enel, concessionária responsável pelo fornecimento de energia do Estado, voltam as costas para a população e tentam descaradamente patrocínios milionários, "justamente" de quem eles deveriam investigar. Conflito de interesse mais flagrante eu nuca vi.

A ENEL carrega o obscuro título de campeã em reclamações, que vão desde a falta de energia até cobranças irregulares e, por isso, já foi multada 11 vezes, totalizando a exorbitante quantia de 85 milhões de reais. Eu mesmo já trouxe o Senado Federal até Fortaleza há dois anos, para debater com meus conterrâneos sobre esse descaso da Enel.

Agora o mais grave, depois de tantas crises, finalmente foi instalada uma CPI na Assembleia Legislativa. No entanto, o presidente da Comissão, deputado Fernando Santana, figura como intermediador junto a Enel de uma doação de 1 milhão de reais ao município de Barbalha, com o objetivo de financiar uma festa junina.

Em um outro extremo, vemos a escalada descontrolada da violência na "Terra da Luz". E não falo de furtos e roubos que ocorrem aos milhares enquanto a população fica acuada. Falo da matança impune que faz escorrer sangue das vítimas pelas ruas sombrias de Fortaleza, a 2ª cidade mais violenta do Brasil e a 9ª com mais assassinatos do mundo (Fontes: Conselho Cidadão para a Segurança Pública e Justiça Penal e World Índex).

O crime de morte, antes justificado pelo fato das pessoas assassinadas estarem ligadas às facções criminosas que tomaram o Ceará pela fraqueza da oligarquia política do PT e PDT, agora é cometido por pessoas tidas como comuns e até em hospitais. Foi o que o fortalezense assistiu atônito, no mês passado, nas dependências do maior hospital de emergência do Ceará.

Enquanto isso, descansa na gaveta do presidente da Assembleia, deputado Evandro Leitão, a CPI do crime organizado. Nesse caso, Evandro justifica a sua omissão por temer a ação das facções contra ele e a sua família. Só espero que, semelhantemente ao seu aliado que se socorreu financeiramente com quem deveria investigar, o presidente da Assembleia não busque associação eleitoral com o crime que deveria ser enfrentado.

(*) Empresário. Senador pelo Podemos/CE.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 10/05/24. Opinião, p.19.

terça-feira, 7 de novembro de 2023

Uma epidemia macabra, Governo do Ceará e sua omissão na segurança

Por Luiz Eduardo Girão (*)

A ONU define o quantitativo de 10 homicídios por 100 mil habitantes como o índice máximo tolerável. As cidades que ultrapassam esse limite são consideradas em situação de epidemia de violência.

A maioria dos países europeus mantém há décadas um índice inferior a 5 Hom/100mil. Se o nosso Estado fosse um país, seria considerado um dos mais violentos do mundo, porque ostenta há muitos anos um índice superior a 35 Hom/100mil. Durante os dois mandatos do PT na "Terra da Luz" a segurança pública degringolou. Pela flagrante omissão, parecem querer transformar o nosso Ceará em uma terra sem lei e das sombras pois foram assassinadas 30.897 cearenses. São números elevadíssimos, e em alguns casos, semelhantes ao número de pessoas mortas em decorrência de conflitos bélicos entre nações e guerras civis sangrentas.

Todavia, essa triste epidemia em "terras alencarinas" ainda possui um agravante: comunidades inteiras vivem sob o domínio de facções criminosas que impõem toque de recolher e expulsam - sem rodeios - moradores que não se submetem a esse "governo paralelo", num triste retrato da falência e incompetência dos "poderosos de plantão", que só querem saber como fazem para se perpetuarem no Palácio da Abolição.

Meus conterrâneos, libertários por natureza, estão rendidos por "gestores" despreparados que buscam solucionar essa epidemia exclusivamente com a repressão promovida pelas forças policiais que tentam garantir a Paz. Entretanto esse mesmo governo não dá as condições mínimas para o enfrentamento ao crime organizado, como, por exemplo, investindo em inteligência na área de segurança assim como o urgente enfrentamento à extrema pobreza.

Dentre os quase 9 milhões de habitantes, quase 6 milhões de cearenses vivem na pobreza, sendo que 1 milhão e 400 mil na mais absoluta miséria. Quando os governantes privam parte expressiva da população de direitos básicos, estão sabotando a ordem pública.

A epidemia de violência só poderá ser vencida quando o executivo não inverter a prioridade nos gastos públicos. E o exemplo tem que vir de cima! Mas quando temos um governador que torra dinheiro com mordomias superiores a R$ 10 milhões só com aluguel de jatinhos e helicópteros, apenas este ano, além de seu grupo político ter "usado e abusado" do dinheiro suado do pagador para desperdiçar 1.1 bilhão de reais com propaganda e publicidade, a situação fica mais difícil, pois ele perde autoridade moral para enfrentar e vencer qualquer crise. Paz & Bem

(*) Empresário. Senador pelo Podemos/CE.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 29/09/23. Opinião, p.19.


terça-feira, 24 de outubro de 2023

VIDA E MORTE EM DUAS RODAS

Por José Lima de Carvalho Rocha (*)

O filme "Sem Destino" influenciou a utilização de motos durante a década de 1970. Os atores Peter Fonda e Dennis Hopper apresentavam a ideia de que pilotar motos era sinônimo de liberdade. Viver o hoje sem pensar no amanhã. Nessa mesma década, existiam poucas motos em Fortaleza. Hoje as motos possibilitam vida para muitos profissionais, seja realizando entregas, transportando passageiros, seja propiciando diletantismo.

Esses fins, associados ao incentivo à fabricação, implementaram crescimento geométrico na quantidade desses veículos. Uma das consequências visíveis no interior e litoral do Ceará é o aumento da quantidade dos nossos irmãos que caminham e trotam felizes. Hoje o jumento tem pouca "serventia".

Em 2022, existiam no Ceará 3.625.994 veículos. Desse total, 43,3% eram motocicletas. Entre os anos de 2009 e 2022, 25.869 pessoas tiveram óbito causado por transporte terrestre. Considerando esse total, os óbitos que envolvem motos chegaram a 39,1%. Na década de 1980, essas tragédias ocasionaram o fim da era romântica para os usuários das motos.

Preocupados com o grande número de mortes e acidentes, no dia 13 de setembro, a Academia Cearense de Medicina promoveu Fórum em que foram debatidas as causas e consequências dos acidentes envolvendo motocicletas. Coordenado pelo Dr. Lineu Jucá, o evento teve a participação de representantes da PRF, PRE, AMC, Aprece, Acert e Detran.

Estudos apontam que o cumprimento das leis que regulam o trânsito das motocicletas evitaria a maior parte dos acidentes e mortes. São medidas lógicas, como o uso do capacete, respeito ao regramento durante os percursos, a não ingestão de bebida alcoólica ou outras drogas e o transporte apenas de um passageiro. São necessárias ações educativas e a efetiva aplicação das penas, já previstas no código de trânsito, para os infratores.

Estudos devem continuar. Faz-se importante pesquisar sobre os motivos pelos quais, em parte do Ceará, não existe o cumprimento das leis do trânsito para motocicletas. Com o diagnóstico correto, medidas adequadas precisam ser implementadas, diminuído assim óbitos e acidentes.

(*) Médico e pedagogo. Reitor do Centro Universitário Christus (UniChristus) e diretor do Colégio Christus. Membro da Academia Cearense de Medicina.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 29/09/2023. Opinião. p.16.

sexta-feira, 7 de julho de 2023

MAIO AMARELO: Motocicleta é o transporte que mais mata no trânsito de Fortaleza

Segurança viária para motociclistas ainda está longe do ideal na Capital, apesar dos avanços recentes na política de mobilidade urbana

Por Luciano Cesário (*)

Quem trafega em motocicletas nas vias públicas de Fortaleza tem 12 vezes mais chances de morrer no trânsito do que um motorista de automóvel. O grau de risco tem como base dados divulgados pela Autarquia Municipal de Trânsito (AMC) que apontam as motos associadas a quase metade dos óbitos por acidentes viários registrados em 2022 na Capital.

De acordo com as estatísticas, dos 157 óbitos registrados entre janeiro e dezembro, 49% envolviam pilotos ou passageiros de veículos motorizados de duas rodas, o que corresponde a praticamente cinco em cada dez sinistros fatais. Nos veículos automotores, o percentual foi de 4%. Em números absolutos, foram 76 vítimas de acidentes com motocicletas contra seis em ocorrências de veículos automotores.

Os números seguem uma tendência histórica. Desde 2014, os condutores de motocicletas são maioria entre as mortes decorrentes de acidentes de trânsito em Fortaleza. Durante este período, a proporção de sinistros fatais com motociclistas foi até dez vezes maior em relação aos motoristas de carros. Em 2017, por exemplo, foram 130 mortes de motociclistas e 13 de motoristas ao volante.

A desproporcionalidade evidencia que a segurança viária de quem trafega sobre duas rodas no trânsito da quinta maior cidade do Brasil ainda está longe do ideal, apesar do alto investimento em mobilidade urbana feito pela Prefeitura na última década.

Desde 2013, as autoridades apostam em políticas de expansão do transporte público e no incentivo ao uso da bicicleta como estratégias centrais para otimizar o espaço coletivo e reduzir o número de acidentes.

Nos últimos dez anos, os corredores exclusivos para ônibus aumentaram de 4,11 km para 132,8 km, segundo informou a AMC. A medida serve para desafogar o fluxo de veículos nas artérias mais movimentadas, principalmente nos horários de pico, aumentando a velocidade média dos coletivos e dando maior fluidez ao trânsito.

Simultaneamente, a malha cicloviária cresceu mais de 500%. Em 2013, Fortaleza contava com 68 km de ciclofaixas ou ciclovias. Atualmente, segundo o órgão municipal de trânsito, são 419,2 km. Somente nos últimos dois anos a Capital ganhou cerca de 71,2 km de espaço exclusivo para circulação de bicicletas, expansão recorde para o período.

As ações surtiram efeito. Em dez anos, o patamar de acidentes de trânsito caiu 57%, passando de 369 ocorrências em 2012 para 157 em 2022. Desde 2014, as quedas nas estatísticas são consecutivas. O índice de mortes por 100 mil habitantes também foi reduzido de 14,8 para 6 no mesmo período.

Apesar dos avanços, o gerente de educação para o trânsito da AMC, André Luís Barcellos, afirma que a segurança viária dos motociclistas ainda é um “grande desafio" no trânsito da Capital.

Ele sublinha que a alta proporção de acidentes de motos em relação aos veículos automotores não é uma equação fácil de se explicar. “Isso se deve a uma série de fatores, mas principalmente porque é um usuário mais exposto e a moto é um veículo mais vulnerável diante de um carro e de um caminhão, por exemplo”.

Em Fortaleza, segundo o Departamento Estadual de Trânsito (Detran), existem 358 mil motocicletas em circulação. É a maior frota entre as nove capitais do Nordeste. O número de motos é pouco mais da metade dos cerca de 632 mil automóveis registrados.

Para prevenir conflitos viários entre os veículos de duas e quatro rodas, Fortaleza tem investido nas faixas de retenção, também conhecidas como “motobox”, um tipo de sinalização horizontal que dá prioridade aos motociclistas na abertura do sinal. “Temos quase 200 áreas com essas faixas atualmente. Como a moto fica à frente dos carros, a chance de colisão reduz drasticamente”, frisa o gerente da AMC.

Segundo Barcellos, entre as infrações mais recorrentes cometidas pelos condutores de motos estão transitar nas ciclofaixas, avançar sinal vermelho, realizar conversões irregulares e não utilizar capacete. Todas elas, comenta o gerente, são determinantes para a alta proporção de acidentes.

Mirando nessas irregularidades, o órgão de trânsito tem intensificado blitze exclusivas para motociclistas. Nas fiscalizações, os agentes observam os equipamentos obrigatórios, o sistema de iluminação e o estado dos pneus dos veículos, além de checar o uso adequado do capacete e exigir a habilitação dos condutores.

Custo do tratamento a acidentados de motos cresce quase R$ 10 milhões

Tragédia pessoal para as vítimas, os acidentes de trânsito com motociclistas custam caro aos cofres públicos. Em dez anos, o gasto médio do Sistema Único de Saúde (SUS) para atender pacientes acidentados em veículos de duas rodas no Ceará cresceu mais de 150%. O montante passou de R$ 5,6 milhões em 2012 para R$ 14,1 milhões em 2022.

Os dados constam no Sistema de Informações Hospitalares, do Ministério da Saúde, e foram fornecidos ao O POVO pela Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa). São números referentes àqueles pacientes que estiveram em leitos públicos de internação (enfermaria ou UTI) antes do falecimento.

O recorde de despesas no decênio foi registrado em 2021, com R$ 14,2 milhões aplicados no tratamento dos enfermos. No total, mais de R$ 118 milhões saíram do orçamento público nas três esferas para pagar despesas hospitalares de motociclistas envolvidos em sinistros de trânsito. O valor corresponde a 62% do total investido nas internações das vítimas de todas as categorias veiculares (R$ 178,4 milhões) durante o período.

Mesmo com o alto investimento, pessoas acidentadas em motos têm mais chances de morrer ou desenvolver sequelas físicas que as incapacitam para o trabalho e atividades quotidianas. É o que afirma o cirurgião vascular e pesquisador da área de segurança viária, Lineu Jucá, autor de um estudo abrangente sobre as causas e consequências dos acidentes de motos no Ceará.

Realizada entre 2011 e 2012, a pesquisa acompanhou o tratamento de 604 pacientes ao longo de 13 meses no IJF, hospital de referência para atendimento de vítimas com fraturas múltiplas. Com base nos resultados da observação, o médico aponta que acidentes com motocicletas são 27,5% mais graves do que os automobilísticos e matam até 7 vezes mais em relação aos sinistros com veículos de quatro rodas.

Segundo Jucá, a alta incidência de acidentes com motocicletas reflete uma combinação de três agravantes: falta de fiscalização, condutores inabilitados e ingestão de bebidas alcoólicas. “A moto chegou e ficou. Não tem como você ir contra essa realidade, mas por ela ser mais vulnerável, a atenção deveria ser maior e o que a gente vê é justamente o contrário”, disse o médico em entrevista ao O POVO.

Na pesquisa que conduziu, ele disse ter identificado uma correlação “muito forte” entre os acidentes de motos e as bebidas alcoólicas. “42% dos pacientes relataram ter consumido álcool antes do acidente. E o que mais chama a atenção é que 62% dos sinistros ocorreram entre sexta-feira e domingo, o período em que as pessoas mais bebem”, pontuou.

Aliado à ingestão de álcool, cerca de 55% dos hospitalizados admitiram que não tinham habilitação para conduzir motos, segundo detalhou o médico. “Se nós temos motociclistas inabilitados e alcoolizados circulando pelas ruas, o que falta é fiscalização”, sublinhou Jucá, que também é membro da Academia Cearense de Medicina (ACM).

Além de maior controle sobre o tráfego, o médico sugere mudanças na legislação. Para ele, o acesso à habilitação deveria ser mais rigoroso e em níveis diferenciados a partir das cilindradas das motos. Citando o exemplo de Medellin, capital da Colômbia, também propõe que os capacetes sejam identificados com a mesma numeração da placa das motocicletas para multar condutores que não utilizam o item de proteção.

A aposta na prevenção, na visão do especialista, é o caminho mais promissor para reduzir os acidentes e evitar sequelas permanentes para os sobreviventes. Entre os pacientes acompanhados pela pesquisa, 64% tiveram lesões nos membros inferiores e 36% nos superiores.

Álcool e imprudência: O caminho das vítimas desviado para o hospital

Nas enfermarias do Instituto Doutor José Frota (IJF), em Fortaleza, muitas histórias se cruzam pelo mesmo caminho. Os jovens Felipe Almeida, 18, e Marcelo Mendes, 20, ambos do interior do Ceará, ilustram essa realidade. Os dois foram parar nos leitos do hospital pelo mesmo motivo: acidente com motocicletas.

As razões também são idênticas. No dia dos sinistros, eles trafegavam sem capacete, voltavam de festas para casa e tinham ingerido bebidas alcoólicas. A consequência também foi a mesma: traumatismo craniano. Socorridos em estado grave, os dois passaram por cirurgias de emergência.

Felipe, que mora em Itapipoca, no Litoral Oeste do Estado, deu entrada na unidade no dia 7 de abril, no feriado da Sexta-Feira Santa, após colidir frontalmente a moto que pilotava com outra motocicleta, na CE 402, que liga Itapipoca a Amontada. Ele estava na companhia de uma amiga, que teve apenas ferimentos leves.

Já o condutor, que não tinha habilitação, sofreu um forte impacto na cabeça. O paciente foi submetido a uma cranioectomia descompressiva e teve parte da calota craniana cortada e colocada no lado esquerdo da parede abdominal.

Ainda com lapsos de memória, em decorrência da cirurgia, o jovem diz não recordar detalhes do acidente, mas reflete que tudo poderia ter sido evitado. “Acho que não dei muita atenção por conta da bebida”, admite Felipe, cujo pai, o agricultor José Cleumir, o acompanha no hospital desde o início da internação.

“Se ele estivesse andando de capacete, não teria dado essa pancada grande na cabeça. Mesmo assim, a gente tem que agradecer a Deus. Ele morreu e nasceu de novo, o médico foi quem me disse isso”, contou Cleumir, que aguarda a liberação de uma nova cirurgia para o filho, a cranioplastia, procedimento para a reconstrução do crânio.

Internado numa enfermaria do mesmo andar, Marcelo, que mora em Quixadá, no Sertão Central, sofreu acidente exatamente um mês após Felipe, no dia 7 de maio, após perder o controle da motocicleta que pilotava, na CE 265.

“Acho que as cervejas que bebi deram sono, e era de madrugada, estava muito frio, aí o juízo da pessoa fica mais lento”, relembra ele ao falar sobre as causas do sinistro.

Também submetido a uma cirurgia no crânio, no dia 14 passado, ele se recupera do trauma com a esperança de voltar para casa o mais breve possível. “A coisa que mais quero é receber alta e poder voltar com minha vida normal. Nunca mais vou andar sem capacete ou tendo bebido”, afirmou o paciente.

De acordo com o superintendente adjunto do IJF, Fernando Façanha, os motociclistas são a grande maioria nos atendimentos motivados por acidentes de trânsito. No primeiro quadrimestre deste ano, foram cerca de 2,9 mil internações, ou 71% do total (4,1 mil).

“A maioria dos pacientes está na idade produtiva, são jovens. Eles eventualmente usam a moto como meio de transporte para trabalhar, mas também como meio de lazer, o que envolve a ingestão de álcool e acaba resultando nos acidentes”, explicou Façanha.

O superintendente destaca que o número de atendimentos está em crescimento há dois anos. De 2020 para 2021, passou de 8,4 mil para 9 mil, alta de 7,1%. Em 2022, chegou a 9,4 mil, aumento de 4,4% em relação ao ano anterior.

A maior parte dos pacientes, segundo o médico, vem de municípios do Interior. “A rede estadual não está capacitada para atender esses casos mais complexos”. O aumento na demanda, segundo Façanha, tem pressionado a capacidade de atendimento do hospital.

“Estamos realizando reuniões com a Secretaria da Saúde do Estado (Sesa) para pedir que parte desses pacientes sejam absorvidos pelos hospitais regionais para descentralizar mais essa demanda”, completa. Dos pacientes atendidos entre janeiro e abril deste ano no IJF, 55% são do Interior e 45% da Capital.

Menos velocidade, mais vida: Fortaleza amplia controle sobre trânsito para reduzir acidentes

Na esteira da campanha nacional Maio Amarelo, cujo objetivo é conscientizar motoristas e pedestres sobre os cuidados no trânsito, a Prefeitura de Fortaleza anunciou que vai expandir a redução dos limites de velocidade para mais dez avenidas.

Os trechos serão readequados de 60 km/h para 50 km/h. Desde 2018, quando a medida começou a ser implantada, 50 vias da Capital passaram a operar sob esse padrão. No começo de maio, as avenidas Dom Manuel e Aguanambi, entre os bairros Centro, Joaquim Távora e Fátima, também tiveram os limites reduzidos

Até o fim do mês, a readequação também será realizada nas avenidas Treze de Maio, no Benfica, e na Porto Velho, entre o Henrique Jorge e o João XXIII. Nos próximos três meses, mais seis vias terão velocidade reduzida, segundo informou André Luís Barcellos, da AMC, que classifica a medida como estratégica e eficaz para a redução dos acidentes de trânsito na Capital.

“Quando você reduz a velocidade, você melhora o tempo de reação e a pessoa passa a ter uma visão mais ampla do seu redor. Sem contar que é um elemento que diminui o grau de severidade de acidente”. Segundo o gerente, nas vias com a velocidade reduzida, as chances de sobrevivência aumentam dez vezes em caso de sinistros.

A redução é recomendada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que aponta a velocidade excessiva como causa de uma em cada três mortes por acidentes de trânsito em todo o mundo.

De acordo com a AMC, houve redução de acidentes e mortes em todas as avenidas de Fortaleza onde a política foi implantada. A primeira a receber a redução foi a avenida Leste-Oeste, que corta cinco bairros da Capital, em 2018.

A via, que era considerada uma das mais perigosas da cidade, principalmente para usuários vulneráveis como pedestres e ciclistas, encerrou 2022 sem registrar nenhuma morte no trânsito. Entre 2010 e 2017, foram 11 óbitos.

De acordo com Barcellos, os locais que passam pela readequação não são escolhidos aleatoriamente. “Primeiro, a gente estuda a via, melhora a sinalização, aumenta as áreas de travessia para pedestres, faz algumas intervenções nas calçadas, melhora a iluminação e depois de tudo isso é que a sinalização de velocidade é trocada”.

Após a troca dos limites, os motoristas têm até seis meses para se adequar à nova regra. A atuação por excesso de velocidade está prevista após esse período da adaptação.

(*) Jornalista de O Povo, luciano.cesario@opovo,com.br

Fonte: Publicado In: O Povo, de 26/05/23. Reportagem. Cidades, p.4-5.

 

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