Mostrando postagens com marcador EUA. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador EUA. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 15 de abril de 2026

O ataque ao Irã e a geopolítica do caos

Por José Nelson Bessa Maia (*)

O planeta Terra testemunha hoje o colapso da ordem liberal internacional do Pós-Segunda Guerra Mundial, com o abandono das regras e princípios civilizacionais há muito consagrados pela Carta da Organização das Nações Unidas (ONU) de respeito à soberania dos estados, não interferência em assuntos internos das nações e a integridade territorial dos países. Causa espanto a entrada em cena de uma truculência às claras que não se registrava há muito na história.

O mais curioso é que as ameaças e o descontrole da potência hegemônica decadente são recebidos por muitos analistas como algo normalizado e até com regozijo em certos círculos da política, das finanças e da mídia internacionais.

Os ataques em curso dos EUA e Israel contra o Irã constituem grave ameaça à paz mundial e à estabilidade da economia global. Repete-se a agressão a um país do Oriente Médio sem nenhuma justificativa cabal. Um ataque bélico sem declaração formal e sem aprovação legislativa, enquanto havia em curso conversações diplomáticas entre ambos os lados.

Um ataque covarde e cruel com vistas a eliminar fisicamente a elite dirigente iraniana e festejado como grande feito sob a promessa de promover mudança de um regime e voltar a entronizar a antiga elite monárquica iraniana subordinada aos interesses do Ocidente e capaz de abrir mão do controle nacional sobre os seus hidrocarbonetos.

Assiste-se, portanto, a uma verdadeira releitura da "Geopolítica do Caos", termo cunhado pelo jornalista franco-espanhol Ignacio Ramonet em seu ensaio de 1997 em que defende que o paradigma de comunicação global aferidor da lógica de mercado, a qual tem como modelo central os mercados financeiros, valoriza a teoria dos jogos e a teoria do caos sobre a mecânica newtoniana.

É então sob a roupagem de numa nova mecânica, ou na ausência dela (a incerteza e instabilidade), em que se assenta o atual sistema de relações internacionais. As ações agressivas da atual administração norte-americana seriam justamente os instrumentos dessa nova mecânica geopolítica.

Na verdade, o ataque preventivo ao Irã faz parte de uma estratégia desesperada dos EUA de retomar o controle sobre o Oriente Médio e de seus abundantes recursos energéticos para enfraquecer a segurança da China e colocá-la mais dependente de fornecimentos de petróleo do Oriente Médio administrados por empresas americanas ou ocidentais, visto que a China importa da região cerca de 50 a 54% do petróleo que consome.

Como os EUA já controlam a Arábia, Saudita, o Iraque e os pequenos países do Golfo, onde mantém bases militares (por isso que estão sendo bombardeados pelos mísseis iranianos), falta só derrotar o atual regime do Irã para poder exercer o controle total sobre o petróleo e gás da região. É simples assim.

(*) Ex-secretário de Assuntos Internacionais do Governo do Ceará, mestre em Economia e doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (UnB) e, atualmente, consultor internacional.

Fonte: O Povo, de 15/03/26. Opinião. p.20.


quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Acordo Mercosul-União Europeia: um anteparo ao protecionismo americano e à concorrência chinesa

Por José Nelson Bessa Maia (*)

Após 26 anos de negociações, o Conselho da União Europeia finalmente aprovou há pouco o Acordo de Parceria Mercosul-União Europeia cuja assinatura ocorrerá em breve. Após aprovação parlamentar pelos membros da Comunidade Europeia e do Mercosul, o Acordo integrará dois dos maiores blocos econômicos do mundo, reunindo cerca de 720 milhões de habitantes, um território de 16,8 milhões de km2 e um PIB conjunto superior a US$ 22 trilhões, sendo 13,4% do total referentes ao Mercosul. Trata-se do maior acordo de livre comércio do mundo, partindo de um intercâmbio bilateral de US$ 130 bilhões em 2024.

Embora celebrado por governos, o acordo ainda enfrenta reações de agricultores europeus e ecologistas, que criticam possíveis repercussões sobre o clima e a suposta concorrência desleal em produtos agrícolas. A implantação de seus dispositivos será gradual e os efeitos práticos só serão sentidos nos próximos anos. Mesmo assim, em um ambiente internacional assolado pelo protecionismo americano e sua truculência diplomática, esse Acordo indica que o multilateralismo ainda não acabou e que os países e blocos de nações podem negociar de forma civilizada seus interesses na busca de remover entraves ao comércio internacional e facilitar transações econômicas entre países.

O recém-anunciado acordo tem imperfeições e deixa de contemplar adequadamente as vantagens comparativas e competitivas associadas aos recursos naturais da região sul-americana. Mesmo assim, é o acordo possível nas circunstâncias que se impuseram ao longo de um quarto de século de negociação. Sua eventual aprovação final pelos parlamentos será uma vitória estratégica para ambas os lados. Os principais ganhos, contudo, não residem apenas nos dispositivos comerciais do acordo, mas especialmente em seus impactos positivos esperados sobre o ambiente econômico, os fluxos interblocos de investimento estrangeiro e o estreitamento das relações produtivas entre Mercosul e União Europeia.

Acuada pela suposta e temida ameaça da Rússia na frente oriental, a agressiva política comercial dos EUA e pela forte concorrência dos produtos chineses em seus mercados, as lideranças da União Europeia não tiveram senão a opção de buscar agilizar os trâmites para a aprovação do acordo e mostrar aos seus dois grandes concorrentes que a União Europeia tem condições de ganhar novos mercados na América do Sul e reduzir sua crônica dependência dos parceiros americanos e chineses. Uma forma de atestar sua capacidade competitiva e a relevância e atratividade de suas economias em um mundo imerso na desordem e crescentemente fragmentado, mas ainda assim marcado por cadeias globais de valor integradas e sujeito a intensas transformações tecnológicas e geopolíticas.

(*) Ex-secretário de Assuntos Internacionais do Governo do Ceará, mestre em Economia e doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (UnB) e, atualmente, consultor internacional.

Fonte: O Povo, de 18/01/26. Opinião. p.22.


segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

O preço da força no fim da ditadura de Maduro

Por Heitor Férrer (*)

A prisão de Nicolás Maduro, decorrente de uma intervenção direta dos Estados Unidos na Venezuela, provoca sentimentos contraditórios em quem defende, de forma inegociável, a democracia. De um lado, cai um ditador abominável, um lixo, um verme humano que jamais deveria ter recebido afagos de qualquer nação civilizada. De outro, impõe-se ao mundo uma lógica perigosa: a força como instrumento de reorganização geopolítica.

Maduro já deveria ter caído há muito tempo. Não pelas mãos de potências estrangeiras, mas pelo levante legítimo do povo venezuelano, guindado pela democracia que lhe foi sequestrada. Seu regime, herdado do autoritarismo de Hugo Chávez, sustentou-se em eleições fraudulentas, no controle absoluto das instituições e na negação sistemática das liberdades. Um monstro político que transformou uma nação rica em petróleo em um território de miséria, êxodo e humilhação.

É compreensível, portanto, que muitos venezuelanos aplaudam o fim do tirano, ainda que isso custe a soberania nacional. Entre a submissão a um ditador e a tutela estrangeira, muitos optam por se livrar do algoz. A queda de Maduro, em si, merece ser festejada. Ditadores não merecem reconhecimento, tampouco carinho diplomático.

Entretanto, o método importa. Ao anunciar que controlará a Venezuela e suas principais riquezas, especialmente o petróleo, os Estados Unidos inauguram uma nova ordem mundial baseada, não no direito internacional, mas na imposição da força, uma lógica que remete ao Império Romano, onde o imperador decidia, com suas legiões, quais povos seriam conquistados e submetidos.

Esse precedente é grave e não pode ser ignorado. Hoje é a Venezuela, amanhã pode ser qualquer outra nação. Sob o argumento de uma "causa nobre" ou de um "interesse global", abre-se espaço para que potências decidam quem governa e quem administra as riquezas de um país. Imagine-se, por exemplo, se os Estados Unidos resolvessem intervir no Brasil justificando que a Amazônia não estaria sendo devidamente protegida e, em nome da humanidade, invadisse nosso território. Aceitaríamos? Aplaudiríamos? Claro que não.

Em 2023, critiquei, publicamente, a forma prestigiosa como o presidente Lula recebeu Maduro no Brasil. Maduro era ilegítimo, fraudou eleições, negou as atas exigidas internacionalmente e jamais deveria ter sido recebido como chefe de Estado legítimo. Seu governo precisava cair, sim, mas pela pressão interna do povo venezuelano e pelo isolamento diplomático, nunca por invasão de força estrangeira.

A democracia não pode ser defendida atropelando a soberania dos povos sob pena de fortalecer o discurso conveniente dos mais fortes. Amanhã, poderemos ser o próximo.

P.S.: Enquanto escrevo este artigo, Trump publica nas redes sociais: "o hemisfério ocidental é nosso". Que horror...

(*) Médico e deputado estadual (Solidariedade).

Fonte: Publicado In: O Povo, de 9/01/2026. Opinião. p.15.


quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Breakneck e as lições para o Brasil

Por Lauro Chaves Neto (*)

"Breakneck: China's Quest to Engineer the Future", de Dan Wang, da Universidade de Stanford, na Califórnia, publicado em 2025, e considerado por parte da mídia mundial o livro do ano, apresenta a ideia central de que "os EUA são governados por advogados, enquanto a China é governada por engenheiros", enquanto os americanos priorizam o jurídico e o regulatório, os chineses colocam a engenharia e a execução prática no centro de sua estratégia nacional.

O livro destaca que a estratégia chinesa envolve uma visão articulada de futuro, na qual infraestrutura é sinônimo de influência geopolítica, segurança nacional e projeção global, combinando planejamento estatal, inovação tecnológica e diplomacia econômica, sem esquecer os lados negativos da engenharia social, incluindo a vigilância de minorias étnicas, a repressão política e os traumas da política do filho único e da Covid zero.

Em contraste, os EUA são governados por advogados que são realmente eficientes em bloquear as coisas, o que pode ser ruim e bom. Podem barrar ideias sem sentido, assim como reduzir a velocidade e aumentar o custo da economia.

O livro oferece lições relevantes para o Brasil ao mostrar como a China articula planejamento de longo prazo, coordenação institucional e investimentos estratégicos em infraestrutura. A principal lição é a importância de definir projetos estruturantes que sejam sustentados por políticas de Estado, não apenas de governo.

A experiência chinesa também revela o valor de integrar infraestrutura física, digital e energética, ampliando competitividade e conectividade regional, além de estimular inovação tecnológica com foco em produtividade.

O livro também alerta que infraestrutura só gera prosperidade quando integrada a políticas industriais, inovação e logística sustentável - caso contrário, transforma-se em ativo caro e subutilizado.

Por fim, ressalta que velocidade não substitui participação social, nem os princípios democráticos, isso significa a necessidade de ampliar diálogo com comunidades, setor produtivo e academia, garantindo que o desenvolvimento seja inclusivo e estratégico.

(*) Consultor, professor doutor da Uece e conselheiro do Conselho Federal de Economia.

Fonte: O Povo, de 5/01/26. Opinião. p.22.

sábado, 24 de janeiro de 2026

SAIAM JÁ DO CARRO!

(Esta é uma história tida como real, registrada na Polícia de Sarasota, Flórida, EUA)

Uma senhora idosa, na Flórida, fez as suas compras e, ao retornar ao seu carro, encontrou quatro homens saindo com o seu veículo. Largando as compras, ela sacou sua arma, gritando a plenos pulmões: "Eu tenho uma arma, e sei usá-la! Saiam já do meu carro!" Os quatro homens não esperaram por uma segunda ordem e saíram correndo como doidos.

A senhora, bastante agitada, começou a colocar as compras no banco de trás e, feito isto, sentou-se ao volante. Estava tão nervosa que não conseguia colocar a chave na ignição. Tentou várias vezes sem sucesso, até que ela entendeu por quê não conseguia. Era pelo mesmo motivo que havia uma bola de futebol, um taco de beisebol e uma embalagem com 12 latas de cerveja no assento da frente.

Minutos mais tarde, ela encontrou o seu carro estacionado uns 5 espaços adiante. Ela colocou suas compras no carro e dirigiu-se até a Delegacia de Polícia para registrar o seu engano. O sargento a quem ela relatou sua história não conseguia parar de rir. Ele apontou para a outra ponta do balcão, onde quatro homens pálidos estavam registrando um roubo de carro feito por uma anciã maluca, com menos de 1,55, cabelos brancos e encaracolados, usando óculos e portando um enorme revólver. A queixa foi retirada.

Fonte: Disponível na home page “Tudoporemail”.


sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

A América do Sul não é Quintal de Ninguém

Por José Nelson Bessa Maia (*)

O mundo vive uma completa desordem e um clima de hostilidade e descaso pela soberania das nações e os direitos humanos. O declínio acelerado do império dos EUA não pode mais conter a ascensão do sul global. Por conta disso, sucedem-se as ameaças protecionistas e de agressões armadas justificadas pela atual elite dirigente norte-americana como necessárias para preservar sua segurança e seus interesses nacionais. Velhos chavões como a "Doutrina Monroe" e o "Destino Manifesto" voltam à cena para reafirmar os supostos direitos dos EUA de intervir em seus vizinhos das Américas.

Os EUA têm hoje quase 10% de toda a sua imensa frota naval em operação no mar do Caribe e um grupo de ataque de porta-aviões norte-americano chegou próximo à costa da Venezuela e da Colômbia, nossos vizinhos.

Dado que os EUA já bombardearam pelo menos 20 pequenas embarcações acusadas sem provas de tráfico de droga, matando pelo menos 80 pessoas (a chamada Operação "Lança do Sul"), prevê-se que ataquem agora alvos terrestres na Venezuela, num claro objetivo de promover uma mudança de regime no país (eufemismo para deposição violenta de seu presidente), tema de um debate acalorado em curso na mídia internacional apontando para os riscos de uma escalada militar em um continente que tem sido há quase um século uma zona de paz como é a América do Sul.

Mesmo deixando de lado a questão da identidade das pessoas eliminadas nos barcos abatidos pela Marinha de Guerra dos EUA, não há qualquer fundamento para estes ataques, nem na legislação norte-americana nem no Direito Internacional. Mesmo assim, isso não impediu a administração Donald Trump de tentar criar uma justificação legal para os mesmos, referindo-se aos alegados traficantes como "combatentes inimigos ilegais". O termo foi agora ressuscitado para justificar a execução extrajudicial de suspeitos de tráfico de droga, comparando-os a terroristas.

O que é mais estranho nessa estória é que muita gente no Brasil apoia e parece vibrar com essa agressão naval contra os pretensos narcotraficantes no Caribe. Alguns políticos chegaram até a defender de forma venal e impatriótica uma ação semelhante na baía da Guanabara. O que muitos não entendem é que tudo isso é uma cortina de fumaça e desinformação para ocultar os reais desígnios da elite dos EUA de intervir toda vez que achar necessário em algum país da região para mudar governos incômodos a seus interesses econômicos e colocar no poder títeres e sequazes locais que lhes sejam favoráveis e funcionais.

A América do Sul não é quintal de ninguém e seus países são independentes e soberanos. Seus povos merecem respeito e esperam a condenação mundial a tais tentativas de intervenção e rapina em seus territórios.

(*) Ex-secretário de Assuntos Internacionais do Governo do Ceará, mestre em Economia e doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (UnB) e, atualmente, consultor internacional.

Fonte: O Povo, de 23/11/25. Opinião. p.22.

segunda-feira, 24 de novembro de 2025

A guerra tributária Brasil versus USA

Por Pedro Jorge Ramos Vianna (*)

Estamos vivenciando no momento uma "guerra" tributária entre o Brasil e os EUA, isto porque após o "tarifaço" imposto pelo Trump sobre grande parte dos bens exportados pelo Brasil para aquele país, o governo brasileiro não se intimidou e não foi a Washington rogar ao que se acha todo poderoso Donald Trump o "favor" de minorar essa política.

O problema é que Trump associou tal medida como uma represália pela instalação do processo criminal contra o ex-presidente Bolsonaro.

Ora, isso na verdade não tem nada a ver com economia. É uma intromissão no sistema jurídico brasileiro, tendo como a ação predatória do "tarifaço", o motivo maior.

Assim, não há por que o Presidente brasileiro ir a Washington pedir as bênçãos do megalomaníaco Trump.

Por outro lado, o governo americano resolveu enquadrar alguns brasileiros na Lei Global de Responsabilidade de Direitos Humanos Magnitsky, que estende a estrutura da lei original para penalizar qualquer estrangeiro, em todo o mundo, que tenha praticado "atos de violações dos direitos humanos ou corrupção significativa", autorizando o congelamento de seus bens nos EUA e a suspensão de visto, bem como penalizando qualquer entidade econômica que mantenha negociações com tal pessoa.

Sobre este assunto assisti um vídeo de um analista brasileiro que descreveu a situação, caso o governo brasileiro não se sujeitasse a essa pressão, como catastrófica. Se isso acontecesse, no dizer de tal analista, o Brasil seria praticamente alijado do comércio internacional...

Outro analista veio a público contestar as afirmações daquele articulista, chamando-as "asneiras".

O grande problema aqui é a interpretação da Lei Magnitsky.

Entretanto, tal debate já teve seus efeitos sobre alguns empresários brasileiros que pediram às autoridades do Brasil, mais moderação no trato com os EUA.

Para entender melhor o problema li a referida peça legal (para os americanos) e fiquei cada vez mais convencido que muitos americanos, principalmente seus Presidentes, acham que têm o direito de intervir economicamente e, às vezes, militarmente, sempre que acharem que estão sendo prejudicados por ações exercidas por outros países.

O que cabe, então, ao governo brasileiro? Internamente, a adoção de medidas que contrabalancem os efeitos deletérios do tarifaço, medidas estas voltadas somente para as empresas que foram prejudicadas.

Lembro aqui que o Brasil já usou taxa cambial diferenciada como política econômica. No caso atual poder-se-ia ter o Real subvalorizado nas exportações e nas importações, no comércio com os EUA. Não precisaria, então, de política tarifária.

Vale a pena analisar a validade de se adotar tal política.

No próximo artigo voltarei a esta questão.

(*) Economista e professor titular aposentado da UFC,

Fonte: O Povo, de 19/10/25. Opinião. p.22.

segunda-feira, 6 de outubro de 2025

O PAVOR SUPREMO DA LEI MAGNITSKY

Por Antonio Jorge Pereira Júnior (*)

A Lei Magnitsky, criada em resposta ao assassinato do auditor russo Sergei Magnitsky em 2009, tornou-se uma ferramenta internacional contra a impunidade. Seu propósito é aplicar isolamento econômico a indivíduos e entidades envolvidas em graves violações de direitos humanos e corrupção, promovendo um cerco financeiro global.

A lei visa responsabilizar e coibir abusos. Impõe sanções (congelamento de ativos, proibições de viagem em países que a adotam, como EUA, Canadá, Reino Unido, UE) para cortar o acesso ao sistema financeiro global. Isso gera isolamento severo: dificuldades em transações, negócios, crédito e movimentação de fundos, resultando em ostracismo financeiro e de reputação. A mensagem é clara: abusos não compensam.

A Magnitsky também atinge parceiros de empresas norte-americanas. Negociar com sancionados acarreta risco de sanções secundárias. Isso exige rigorosa "due diligence": bancos evitam processar transações, e empresas globais, inclusive as ligadas aos EUA, devem garantir relações comerciais sem vínculos com sancionados. O receio de contaminação por "dinheiro sujo" e de violações regulatórias leva ao afastamento, protegendo a integridade financeira e a reputação.

Em resumo, a Lei Magnitsky converte a indignação moral em uma barreira financeira, deslegitimando e descapitalizando aqueles que operam à margem da lei e dos direitos humanos.

Para entender a aplicação da lei contra autoridades brasileiras, pesquise "Oeste", "Entrevista Eduardo Tagliaferro", "Vaza Toga". Também encontrará explicações no perfil "Te atualizei" do YouTube, sem filtros. Por tais canais poderá ter acesso à ponta do iceberg de aberrações jurídicas no Brasil, perpetradas por autoridades supremas. São tantas as violações que é impossível uma pessoa honesta continuar a apoiar tais autoridades ao se defrontar com a verdade, quando liberta do cativeiro informacional.

E as sanções estão apenas começando. Investigações americanas começam a revisar o desmonte da Lava Jato, pois cidadãos e empresas dos EUA foram prejudicados por corruptos condenados neste processo. Também por isso autoridades supremas, cujos "familiares" lucraram com anulações de condenações, começam a se apavorar. Aguardem.

(*) Doutor e mestre em Direito - USP, professor do Programa de Mestrado e Doutorado em Direito da Unifor.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 28/08/25. Opinião, p.18.

terça-feira, 30 de setembro de 2025

EUA, grana versus granada

Por Pedro Jorge Ramos Vianna (*)

A história dos EUA é repleta de operações militares em guerras ou conflitos armados em outros países. Alguns por interesse próprio, outros para "ajudar" países parceiros em seu comércio exterior. Fora as guerras internas: da independência, da secessão e do massacre dos indígenas, essa nação já se envolveu em treze conflitos armados fora de seu território. Deve-se dizer que esses conflitos armados trouxeram bons lucros para os EUA. Daí o título deste artigo.

As "granadas" trouxeram recursos e prestígio para aquele país. A começar pela guerra da independência de Cuba, que lhe trouxe o domínio de algumas colônias espanholas. Deve-se ressaltar, entretanto, que nem sempre o país se imiscuiu por vontade própria em uma guerra, como aconteceu com a I Grande Guerra, mas foi obrigado a entrar na batalha, como foi o caso da II Grande Guerra, quando a Inglaterra de Churchill pressionou muito para que os EUA se envolvessem na guerra. Mas, sobretudo, porque a Alemanha e a Itália declararam guerra àquele país.

Aqui vale chamar a atenção que as guerras na Europa nos meados do século dezoito determinaram uma transferência de mão de obra europeia muito qualificada para o país, o que lhe possibilitou expandir seu sistema produtivo. Mas, foi a imigração de centenas de cientistas europeus (principalmente alemães), antes e depois da II Grande Guerra, que possibilitou o grande avanço da ciência americana no Século Vinte.

Cito aqui alguns físicos só para o leitor ter uma ideia da importância dessa migração: John Von Neumann, Albert Einstein, Enrico Fermi, Edward Teller, Werner Von Braum, Leo Sziilard, Eugene Wigner, Theodor von Karman, George de Nevesy, Hans Bethe, Felix Bloch, Konrad Dannenberg, Walter Thiel, Winter Dornberger. Por outro lado, a produção industrial bélica, custeada pelo Governo Federal, se expandiu para a produção industrial civil e o País se tornou a nação economicamente mais poderosa do mundo.

Também é importante citar a execução do Plano Marshall (Programa de Recuperação Europeia), posta em prática pelos EUA e, também, custeado pelo governo federal. Para se ter uma ideia dos valores envolvidos no Plano Marshall, a preços de 2020, estudo realizado pelo IPEA, em 2021, estima que durante os quatro anos de sua vigência foi dispendida pelos EUA, a cifra de US$1.35 trilhão.

Vale registrar que as principais ações patrocinadas por aquele país, na vigência do Plano Marshall, foram programas de subsídios e financiamentos econômicos. De qualquer forma, esse Plano deu aos EUA a importância política que ele ainda hoje ostenta. Portanto, foram as "granadas" que trouxeram não só o poderio militar para aquele país, mas determinaram seu poderio socioeconômico.

(*) Economista e professor titular aposentado da UFC,

Fonte: O Povo, de 24/08/25. Opinião. p.18.


segunda-feira, 18 de agosto de 2025

Choque do Tarifaço de Trump sobre o Ceará

Por José Nelson Bessa Maia (*)

O recente anúncio pelo presidente americano Donald Trump de taxação de 50% sobre as exportações brasileiras para os EUA por razões não econômicas, mas sim geopolíticas (BRICS) e de interferência em assuntos internos do Brasil gerou indignação e repúdio por parte dos diversos segmentos da opinião pública. Afinal, o Brasil é um país cronicamente deficitário em suas transações de comércio com os EUA e não se encaixaria no argumento comumente usado pela Administração americana para taxar com altas tarifas seus parceiros comerciais.

Em caso dos EUA não aceitarem rever a medida e o Brasil retaliar mesmo que de forma seletiva isso criará, além de perda de receita e empregos no setor exportador, uma pressão de custos sobre o agronegócio brasileiro que importa máquinas, equipamentos e óleo diesel dos EUA, gerando uma inflação adicional e uma perda de atividade no setor com efeitos em cadeia.

Trata-se, portanto, de um grave contencioso e que exigirá do Brasil muita habilidade negocial, jogo de cintura e, ao mesmo tempo, capacidade para abrir espaço em novos mercados de destino para os segmentos econômicos mais afetados pelo tarifaço.

No caso do Ceará, que depende mais do que o Brasil do mercado americano para suas exportações, os impactos serão relativamente mais fortes do que para o país como um todo. Os EUA são o principal mercado para nossas exportações, cerca de US$ 658,9 milhões em 2024 (44,8% naquele ano e 52,2% no primeiro semestre de 2025), mas tinham sofrido forte queda (-31,4%) em relação ao ano anterior. Assim, mesmo sem o aumento de tarifas, as vendas de produtos cearenses aos EUA já vinham em forte declínio, não compensado pelo aumento que se verificou nos seis primeiros meses deste ano.

Com a eventual imposição de 50% de tarifas, as receitas de exportação para o mercado americano terão uma queda ainda mais acentuada. Dado o peso dos produtos siderúrgicos (ferro fundido, ferro e aço) na pauta exportadora e a importância dos EUA (cerca de 80% das vendas externas desses produtos) como destino, o impacto sobre as receitas da Companhia Siderúrgica do Pecém (CSP) serão consideráveis.

Em face dos riscos que essa situação impõe para a economia cearense, cabe aos responsáveis locais pelas decisões, tanto no setor público quanto privado, articular com o Governo Federal uma estratégia de negociação com o Governo dos EUA que reveja o tarifaço ou minimize seus efeitos e, simultaneamente, procurar promover, via suporte da APEX-BRASIL, exportações em terceiros mercados, de modo a reduzir a dependência crônica em relação aos EUA.

Urge, portanto, uma ação rápida e pragmática para resguardar o nível de atividade e emprego no Complexo do Pecém e superar esse enorme choque externo contra a dinâmica de crescimento do Ceará.

(*) Mestre em Economia e doutor em Relações Internacionais pela UnB e ex-secretário de Assuntos Internacionais do governo do Ceará. Pesquisador independente das relações China-Brasil, China-Países Lusófonos e China-América Latina.

Fonte: O Povo, de 17/07/25. Opinião. p.21.

terça-feira, 12 de agosto de 2025

PROTECIONISMO E A NOVA ORDEM GLOBAL

Por Célio Fernando Bezerra Melo (*)

"Precisamos resolver nossos monstros secretos, nossas feridas clandestinas, nossa insanidade oculta" Michel Foucault

Desde 2025, os EUA adotam uma postura cada vez mais agressiva no comércio internacional, impondo tarifas de até 50% ao Brasil e a outros países, refletindo uma retórica de isolamento. A China foi o primeiro alvo, mas aliados também sofreram retaliações. Essa mudança radical na política comercial americana impacta a economia global e sinaliza uma transformação nas dinâmicas de poder mundial.

O crescimento do bloco do Brics, com um PIB de cerca de US$ 31 trilhões em 2024, frente aos US$ 29 trilhões dos EUA, evidencia a crescente influência de economias emergentes. Paralelamente, a decadência tecnológica dos EUA, especialmente em inteligência artificial, semicondutores e inovação digital, enfraquece sua hegemonia, como aponta John Darwin em "Ascensão e Queda dos Impérios Globais".

O avanço do Brics desafia o modelo ocidental de poder, consolidando-se como alternativa em comércio, tecnologia e diplomacia. Sua ascensão ocorre junto ao declínio tecnológico dos EUA, que perde vantagem competitiva e influência militar, dependendo cada vez mais do conhecimento, sem considerar sanções impostas as principais academias americanas.

Essa combinação de protecionismo e perda de inovação gera fragmentação na ordem internacional, promovendo a formação de blocos de poder como o Brics, que busca uma nova ordem multipolar. Tarifas elevadas, como as de 50%, representam uma tentativa de reequilíbrio, mas alimentam retaliações e aumentam a instabilidade global.

Histórico, como a Lei Smoot-Hawley de 1930, mostra que o protecionismo extremo tende a agravar crises econômicas. Medidas de isolamento sem diálogo aprofundam conflitos e recessões. É fundamental repensar estratégias comerciais, priorizando cooperação para evitar uma crise semelhante à da Grande Depressão.

Segundo John Darwin, a ascensão e queda de impérios globais dependem da inovação e adaptação. Os EUA, sustentados por tecnologia, finanças e diplomacia, enfrentam declínio dessas vantagens, enquanto a China cresce. Essa dinâmica coloca os EUA em vulnerabilidade, ecoando previsões de ciclos históricos de poder.

Conclusão, o cenário atual aponta para uma fase de transição, na qual o protecionismo agressivo aliado à perda de liderança tecnológica desafia a hegemonia americana. O crescimento do Brics indica uma nova ordem multipolar, mais dispersa e diversificada. Para evitar maior instabilidade, é fundamental investir em inovação, diálogo e cooperação internacional, deixando para trás discursos populistas e fortalecendo identidades culturais e políticas que contribuam para a estabilidade global.

Os apedeutas são superficiais na análise estratégica, lendo de forma literal as mensagens, que nos desvios de caráter da humanidade, se utilizam do silêncio para esconder as reais contextualizações na mesa do poder global.

O que você achou desse conteúdo?

(*) Economista. Vice-presidente da Academia Cearense de Economia.

Fonte: O Povo, de 12/07/25. Opinião. p.17.

terça-feira, 3 de junho de 2025

A POLÍTICA TARIFÁRIA DOS EUA

Por Pedro Jorge Ramos Vianna (*)

Vou aqui analisar alguns aspectos da política tarifária em termos gerais.

Primeiro, qualquer economista sabe que a tarifa aduaneira é uma política que sempre foi utilizada para defender a indústria nascente do país. O Brasil a utilizou com muita frequência. Segundo, ela é uma política danosa para o comércio mundial e condenada pela OMC (Organização Mundial do Comércio) porque ela afeta a distribuição dos fatores de produção no país em seu processo produtivo. Terceiro, ela sempre tem a possibilidade de retaliação por parte dos países que sofrem os efeitos de tal política.

Assim, ela é uma política que deve ser usada com parcimônia. Por outro lado, a política tarifária de um país tem efeitos no país que a adota e efeitos nos países exportadores do bem tarifado.

No país que a adota o maior efeito é proteger a indústria nacional que produz o bem tarifado e diminuir as importações, podendo modificar o saldo do balanço de pagamentos. Talvez tenha sido este o "leit motiv" da política do Sr. Trump.

É notório que há décadas os EUA são um país deficitário em seu comércio internacional. Isso determina que eles sejam, também, os maiores devedores do mundo. Em 2024 o FMI estimou a dívida americana externa em torno de US$28.8 trilhões.

Mas também é verdade que a política tarifária pode servir para proteger indústrias ineficientes. E a indústria metalúrgica dos EUA é dita ser ineficiente.

Voltemos, agora, à política tarifária atual dos EUA.

Essa política do Sr. Trump é claramente uma política para punir os países, inclusive seus parceiros comerciais. Não seguiu qualquer ditame econômico. A regra básica é: tarifar com uma taxa metade do que os EUA medem que o país punido tarifa os bens americanos, inclusive para aqueles países que taxam os bens americanos com 20,0% ou menos, haja vista que a tarifa ora imposta para eles é de 10,0%. Note-se que o Brasil contestou a afirmação sobre quanto o nosso País taxa o produto americano. Assim, eles podem ter errado nos seus cálculos.

Portanto, não há nenhuma fórmula matemática, como foi anunciado, para justificar esses valores. Estaríamos, então, vivenciando a 'teoria do louco"?

Há alguns anos se cunhou de "teoria do louco" a atitude de algum político que assumia atitudes consideradas loucas quando necessitava se utilizar de uma negociação coercitiva. Dizem que esta denominação foi cunhada por Richard Nixon.

Será que na atualidade temos um adepto de tal teoria: o Sr. Donald Trump?

Eu me pergunto se o "tarifaço" é fruto dessa teoria ou da incompetência de seus assessores.

Veja-se que o The Council of Economic Advisers é composto por um time de economistas que não são considerados como os melhores economistas dos EUA. Será que o CEA apenas obedece a Trump?

(*) Economista e professor titular aposentado da UFC,

Fonte: O Povo, de 4/05/25. Opinião. p.18.

quarta-feira, 21 de maio de 2025

Trump e o cerco às universidades

Por Sofia Lerche Vieira (*)

O mundo assiste perplexo à chegada de Trump ao poder. Medidas comerciais extremas, que abalam os mercados mundiais, são uma pequena amostra do que pode acontecer em seu segundo mandato. O isolacionismo subjacente à apologia do "Faça a América Grande Outra Vez" (Make America Great Again) se associa a perseguições de diversas ordens, a começar pelos imigrantes. O cerco às universidades é outro componente desses tempos de crescente intolerância, onde convive-se com reedições de racismos e ameaças à diversidade de um passado que permanece insepulto.

Conhecidas por se constituírem como ilhas de liberdade intelectual, ao longo de sua história, as universidades norte-americanas se tornaram celeiros de excelência, sobretudo por abrigarem cérebros de todas as nacionalidades, o que veio a contribuir para a pujança intelectual expressa em prêmios Nobel em todas as áreas do conhecimento. Este cenário começa a mudar perante a disseminação de uma "ideologia anti-intelectual" que se expressa em um duplo movimento: gigantescos cortes financeiros e supressão da liberdade acadêmica e individual. Universidades de grande prestígio da chamada Ivy League, como Columbia, Princeton, Harvard e Pensilvania, estão perdendo recursos incalculáveis de seu orçamento. Em tempos de caça às bruxas, estudantes com manifestações pro-Palestina estão sendo presos até mesmo na rua e sob risco de deportação iminente, caso da estudante turca Rumeisa Osturk, aluna de doutorado na Universidade Tufts.

Embora tenha havido protestos de rua contra essas medidas, a reação pública ainda parece tímida face à envergadura do que ocorre. Poucos são os que se posicionam contrários a tais extremismos, como fez Christopher Eisgruber, reitor de Princeton, em entrevista à Bloomberg, ao afirmar que "temos de ter a disposição de dizer não a um financiamento se isso vai restringir nossa capacidade de buscar a verdade". Afinal, como dizia Karl Jaspers, filósofo alemão e importante pensador desta instituição: "a universidade é o lugar da busca da verdade sem constrangimentos". E se isso não pode ser, não faz sentido existir.

(*) Professor aposentado da Uece, membro da Academia Cearense de Administração (Acad) e conselheiro do CRA-CE. Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Fortaleza.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 21/04/25. Opinião. p.16.

quinta-feira, 20 de março de 2025

Aumento de Tarifas dos EUA contra a China Prejudica o Mundo

Por José Nelson Bessa Maia (*)

As relações entre a China e os EUA remontam a 1844, quando ambos firmaram o Tratado de Wanghia. Nos 180 anos seguintes, seu relacionamento oscilou entre fases de aproximação e afastamento.

Com a ascensão pacífica da China a partir de 1978 e seu rápido desenvolvimento os meios dirigentes dos EUA sentem-se incomodados com o risco de perda de sua hegemonia. Os Estados Unidos como a China se vêm então envolvidos numa competição que abrange os campos econômico, tecnológico e geopolítico, com impactos sobre a governança global.

Atualmente, China e EUA, apesar de sua interdependência produtiva e de serem as maiores economias e exportadores mundiais, não contribuem igualmente para a estabilidade e o dinamismo econômico do Planeta. Enquanto a China atua positivamente, os EUA se tornam cada vez mais protecionistas e menos cooperativos, afetando adversamente a economia internacional.

De fato, o novo governo dos EUA aplicou tarifa adicional de 10% sobre bens importados da China, sem uma razão plausível. Trata-se de imposição unilateral de tarifas que viola as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC). Uma medida que barra a tão necessária cooperação econômica entre a China e os EUA e ameaça as cadeias globais de suprimentos, com impactos adversos sobre a produção industrial e o comércio internacional.

A China reagiu com tarifa extra de 15% sobre carvão e GNL dos EUA e de 10% para petróleo bruto, equipamentos agrícolas e certos tipos de automóveis. Ademais, apresentou contestação na OMC pelas tarifas discriminatórias impostas pelos Estados Unidos sobre seus produtos e impôs controles de exportação a minérios estratégicos. No entanto, apesar da retaliação defensiva, a China mantém-se aberta ao diálogo para resolver esse impasse e normalizar suas relações comerciais com os EUA.8

A nova onda protecionista dos EUA não influenciará negativamente apenas o fluxo comercial e o crescimento das economias. Sua visão "neomercantilista" e abordagem truculenta afetará também os alinhamentos geopolíticos atuais. Mesmo países aliados perderão a confiança nos Estados Unidos como parceiro comercial. Isso poderá levar a uma reconfiguração de laços entre a Europa e a Ásia. As tarifas mais altas aumentarão a distância geopolítica no mapa do comércio global, ampliando o fosso diplomático entre os Estados Unidos e outros países.

(*) Mestre em Economia e doutor em Relações Internacionais pela UnB e ex-secretário de Assuntos Internacionais do governo do Ceará. Pesquisador independente das relações China-Brasil, China-Países Lusófonos e China-América Latina.

Fonte: O Povo, de 19/02/25. Opinião. p.19.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2025

A VOLTA DA DIPLOMACIA DAS CANHONEIRAS?

Por José Nelson Bessa Maia (*)

O mundo chega ao final do primeiro quartel do século XXI numa situação de fragmentação econômica, com uma velha ordem internacional disfuncional e sérias ameaças geopolíticas. Conflitos civis, guerras de conquista, lutas assimétricas e massacres de populações se tornam episódios corriqueiros e isso não parece mais comover a opinião pública global nem causar repercussão na mídia ou repúdio de autoridades e organismos internacionais.

Nesse contexto ameaçador a volta ao poder de Donald Trump nos EUA introduz um complicador em um sistema internacional já tão abalado e fragilizado. As declarações recentes do presidente eleito americano de anexação do vizinho Canadá, de absorção da Groelândia e da reocupação do Canal do Panamá sem descartar o uso de força militar faz ressurgir uma faceta antiga do imperialismo na forma da chamada “diplomacia das canhoneiras”, baseada na noção da Escola Realista das Relações Internacionais, que prioriza a segurança do estado-nação e o interesse nacional sobre princípios morais ou legais internacionais.

Em outras palavras, a diplomacia das canhoneiras pode ser entendida como um método de intimidação ou intervenção em assuntos internos de outros países por meio da mobilização de força militar para, sem recorrer à declaração formal de guerra, perseguir objetivos nacionais expansionistas em terceiros países.

Tal método serviu tanto à preservação de vantagens quanto à tentativa de evitar perdas no exterior. Na prática, no passado a ameaça ou o uso efetivo de forças navais limitadas perseguiu os objetivos de cobrar dívidas externas, garantir a ordem política ou/e social e preservar áreas de influência, colônias, mercados ou protetorados.

Como exemplos históricos da diplomacia das canhoneiras podem-se citar a abertura forçada do Japão pelo comodoro Matthew Perry dos EUA, entre 1853 e 1854; a crise de Agadir, em 1911, quando a Alemanha enviou navio de guerra para o porto marroquino de Agadir; a Guerra do Ópio na China, em 1840 e 1856; A Questão Christie, entre o Império do Brasil e o Império Britânico, entre 1862 e 1865; a intervenção da França no México em 1861 e a ocupação britânica da ilha brasileira da Trindade em 1895.

Embora o período clássico da diplomacia das canhoneiras já tenha passado, é inquietante a volta nas declarações públicas de ameaça de uso de força militar como instrumento de coerção na política externa pelo novo governo estadunidense. Sobretudo se essa ameaça fosse eventualmente empregada para a mudança forçada de governos, como seria no caso da Venezuela e seu contestado regime do presidente Nicolás Maduro.

Em suma, manifestações como essas do Sr. Trump em prol de anexar territórios de outras nações sob o pretexto de garantir os interesses econômicos e a segurança de seu país devem ser rebatidas com veemência nos fóruns internacionais. A truculência e o desrespeito à soberania dos estados-nações não podem prevalecer no sistema de governança global.

O retrocesso civilizacional na convivência entre os diversos países precisa ser combatido a todo o custo e o diálogo pela paz e a busca da cooperação deve prevalecer nas relações entre estados e povos.

(*) Mestre em Economia e doutor em Relações Internacionais pela UnB e ex-secretário de Assuntos Internacionais do governo do Ceará. Pesquisador independente das relações China-Brasil, China-Países Lusófonos e China-América Latina.

Fonte: O Povo, de 16/01/25. Opinião. p.19.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2025

E AGORA, JOSÉ?

Por Romeu Duarte Junior (*)

À memória do chefe Sitting Bull (Touro Sentado)

Meu nome é José, Zé para os chegados. Ou Joe, como sou (era) conhecido por aqui. Há três horas estou em pé nesta fila, com mulher e filho na mesma situação, aguardando o embarque na aeronave do governo dos EUA com destino ao Brasil. Ninguém nos informou ainda o local de chegada, talvez Belo Horizonte, já que muita gente de Governador Valadares veio para cá. À nossa volta, como cães de guarda, militares armados até os dentes e com a cara de pouquíssimos amigos. Nunca esperei ter que passar por isto, apesar de saber que poderia acontecer a qualquer momento. Imigrante ilegal é fogo, principalmente agora quando somos criminalizados. Minha mulher chora baixinho, meu filho parece não compreender o que ocorre. A enorme porta traseira do avião se abre.

Nasci em Fortaleza, no Pirambu, no ano de 1990. Nunca gostei do Brasil, do Ceará e da cidade onde vim ao mundo. Pobre, com cara de índio, amorenado, era sempre visto com desconfiança pelas pessoas. Comecei cedo a dar duro, fiz de um tudo. Sempre admirei meus patrões, mesmo sendo todo dia humilhado por eles. Jamais dei valor, é verdade, àquela esquerdalha comunista que ficava na porta da fábrica falando de mais valia e exército de reserva. Quando a Dilma foi eleita, disse: "Já deu para mim, dois governos do sapo barbudo e agora vem essa mulher". Decidi ir para a terra do Tio Sam. Juntei uns trocados e me mandei. Entrei pela fronteira mexicana. Foi dureza, mas consegui. Acabei no Queens, em New York. Aqui fui faxineiro, entregador de pizza, lavador de carro, yes, biscates.

Conheci uma venezuelana, Rosario, moradora do mesmo bairro e também ilegal, numa festa no Bronx. Decidimos viver juntos num cortiço na área central, onde a polícia dava batida diariamente atrás de viciados e traficantes, barra pesada total. Vivia sem dinheiro, mas nunca passei fome. Melhor ser livre para fazer o que quiser do que viver em um país dominado pelo marxismo. Hoje lá, com toda certeza, seria chamado de pobre de direita. Oh, my God, fuck anyone who thinks like that! Passado um tempo após a minha chegada, não conseguia aprender a língua local e estava esquecendo a minha. Hoje domino bem o inglês, mas terei que dar conta do português novamente, it's life, right? Em 2015, nasceu nosso filho Bob, nossa sonhada garantia de ficar aqui. Agora estamos dentro do avião.

Na hora que o asa-dura levantou voo, Rosario chorava feito criança, com Bob tentando consolá-la. Tememos ser separados pela diplomacia norte-americana quando chegarmos ao Brasil e ela ter que voltar à sua terra natal, dominada pelo ditador Maduro. O jus soli a que Bob tinha direito, babau. Mesmo não podendo votar e apesar do que estou passando, sempre idolatrei o Trump, o cara que, se pudesse, gostaria que fosse presidente eterno dos EUA. Sua parceria com o Musk, o Bezos e o Zuckerberg fará a América grande de novo. Quando chegar ao Brasil vou me ajuntar aos bolsonaristas. Será que ainda estão acampados nas portas dos quartéis? Temos que colocar o Mito de novo no poder. Súbito, somos informados que o avião teve um problema e vai pousar em Manaus. Shit!

(*) Arquiteto e professor da UFC. Sócio do Instituto do Ceará. Colunista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 27/01/25. Vida & Arte. p.2.


quinta-feira, 23 de janeiro de 2025

AS FUTURAS POLÍTICAS ECONÕMICAS DE TRUMP

Por Pedro Jorge Ramos Vianna (*)

Apesar de suas múltiplas ameaças aos países parceiros dos Estados Unidos, neste começo de ano, o Senhor Trump não fez referências a elas. Mas, obviamente, as ameaças podem só estar engavetadas.

De há muito estou convicto que os norte-americanos pensam e agem como se os EUA fossem o centro do mundo. Não resta dúvida que eles, são, ainda, o país mais rico deste planeta.

Talvez por isso e por consequência de seu poderia bélico, eles se acham o Hobin Hood da humanidade. Com uma pequena diferença: eles até podem ajudar alguns países, mas sempre se aproveitando da condição de "benfeitor". E, assim, enriquecer cada vez mais.

O Senhor Trump, me parece, é a expressão legítima do pensamento da maioria dos americanos.

Talvez seja hora de examinarmos o comportamento deles.

E algumas perguntas me veem à mente. Como foi que eles transformaram o Havaí em estado americano? Por que eles se acham com o direito de manter uma base militar em Cuba, um País livre?]

Por que o Senhor Trump quer impor que o dólar continue a ser a moeda universal, para tanto ameaçando os países que procuram uma outra moeda alternativa?

Por que eles acham que podem dar calote no mundo a qualquer hora e quando bem quiserem?

Eles já deram calote no mundo, quando suspenderam, em 15/08/1971, a convertibilidade dólar/ouro.

Até aquela data, existia um consenso entre os países de que haveria uma paridade moeda/ouro para as moedas envolvidas no comércio internacional. Todos os países obedeciam à essa regra. Assim, cada país estabelecia uma relação moeda nacional/onça troy. Inclusive o Brasil.

No caso dos Estados Unidos, a paridade antes estabelecida era US$35.0 por onça-troy de ouro.

Pois, naquela data, o Presidente Richard Nixon, unilateralmente, simplesmente determinou que os EUA não mais trocariam dólar por ouro.

À época, exceto talvez a França, todos os países do mundo capitalista tiveram perdas em seus tesouros por terem dólar como reserva internacional. A França não sofreu grandes problemas porque o Presidente Charles de Gaule havia trocado as reservas francesas em dólar por ouro.

Por que, ainda hoje, mesmo depois desse calote governamental e das crises bancárias naquele país, o dólar tem que ser a moeda universal?

O Senhor Trump quer, então, punir os países que comercializam com os EUA, com uma tarifa de 100,0% sobre as importações, se eles se juntarem aos países que estão buscando encontrar uma nova moeda universal, que não o dólar.

A pergunta, agora, é: será possível que se consiga sair dessa embrulhada?

É claro que ser "a" moeda internacional é uma beleza. Basta imprimir as "verdinhas" e eles podem comprar o que os brasileiros produzem a duras penas.

A União Europeia perdeu esta oportunidade.

(*) Economista e professor titular aposentado da UFC,

Fonte: O Povo, de 12/01/25. Opinião. p.20.

sexta-feira, 22 de novembro de 2024

MÉDICOS PROCESSADOS NOS EUA

Segundo estudo publicado no livro "Blink", cujo autor é o americano Malcon Gadwell, a maioria dos médicos processados nos EUA. segue o mesmo padrão.

Vejam, de forma sintética, os 7 pontos encontrados no estudo:

1 - Os pacientes não processam os médicos que eles gostam;

2 - Na maioria das vezes o processo médico não ocorre por um erro médico real, e sim pela forma como o paciente é (foi) tratado pelo médico;

3 - Os pacientes dificilmente processam os médicos que os tratam com humanidade, respeito, dignidade;

4 - Muitas vezes, os especialistas mais qualificados e os mais arrogantes, que tratam pacientes como se fossem seres inferiores, são os médicos mais processados;

5 - Quanto maior o tempo do atendimento médico, menores são as chances do médico ser processado;

6 - Os médicos menos processados são aqueles que orientam pacientemente, explicam até o paciente entender bem, verificam se restou alguma dúvida, e fazem escuta ativa (demonstram interesse real em ouvir o que o paciente deseja falar);

7 - Utilizar um tom de voz dominante (autoritário) aumenta a chance do médico ser processado.

Portanto, o que o estudo pretende demonstrar é que o processo médico, na maioria das vezes, não está ligado ao erro profissional, mas sobretudo, ao modo como o médico se relaciona com o paciente.

Pensando no acolhimento aos pacientes e na importância da relação médico-paciente, julgamos importante conhecerem e divulgarem o referido estudo.

Fonte: Internet (circulando por e-mail e i-phones). Sem autoria explícita.

sábado, 24 de agosto de 2024

ERIC MORAES GURGEL

Por Paulo Gurgel Carlos da Silva (*)

Filho de brasileiros do Ceará, o estadunidense Eric Moraes Gurgel, de 11 anos, faz versão para o inglês das gírias e expressões brasileiras que ele aprende em casa com os pais Felipe e Anna. Ou quando ele vem com os pais ao Brasil para curtir as suas preferências (banho de mar, água de coco e brigadeiro).

Em seu canal Aprenda Inglês com Eric, o garoto bilíngue posta vídeos sobre o tema para os seus atuais 31 mil seguidores no Instagram.

Hoje (23/08/24), às 14h30, ele é assunto de uma reportagem no programa Se Liga VM, da TV Verdes Mares.

Neto mais velho de meu irmão médico, escritor e professor Marcelo Gurgel, o professor-mirim Eric é per via consequentiae meu sobrinho-neto.

(*) Médico pneumologista, escritor e blogueiro.

Postado por Paulo Gurgel no Blog Linha do Tempo em 17/08/2024.

http://gurgel-carlos.blogspot.com/2024/08/eric-moraes-gurgel.html

Nota do Blog do Marcelo Gurgel: O programa Se Liga VM, inicialmente previsto para ir ao ar em 17/08/24, foi suspenso em virtude do falecimento do comunicador Sílvio Santos.


terça-feira, 2 de abril de 2024

CEARENSE AMERICANO? Menino de 11 anos dá dicas de inglês para brasileiros com gírias do Ceará


Eric Gurgel, filho de Felipe Gurgel e Anna Paula, residente em Columbia Missouri (USA).

Por Mariana Reouças, jornalista de O Povo

Filho de cearenses, estadunidense de 11 anos ensina ‘inglês nativo’ para brasileiros nas redes sociais

Já pensou em aprender inglês com um professor meio estadunidense e meio brasileiro? O pequeno Eric, de apenas 11 anos, diverte e dá dicas de pronúncia nas redes sociais. Com mais de 17 mil seguidores no Instagram, o menino vem encantando muitos brasileiros que querem aprender mais sobre a língua estrangeira.

“Dicas de inglês e curiosidades da vida americana”, é assim que o perfil Aprenda Inglês com Eric é apresentado. Administrada pelos pais, a ideia do canal surgiu pelo próprio menino, há 3 anos. Na época, mesmo com pouca idade, o pequeno já conseguia conversar em português, apesar de trocar algumas palavras ou letras.

Menino de 11 anos diz que gosta de ensinar coisas que os cursos não ensinam

Sobre a aptidão do garoto, a mãe, Anna Paula, contou, em entrevista ao O POVO, que ela e o marido se mudaram para os Estados Unidos em 2011, mas continuaram mantendo as visitas ao Brasil e os costumes brasileiros em casa, inclusive falando português. Segundo ela, o menino sempre foi comunicativo e com desenvoltura para as câmeras.

Com português fluente, o professor-mirim explica que pensa nos conteúdos e grava sozinho, contando com o apoio dos pais na edição. “As pessoas têm dificuldade em falar inglês e eu gosto de ensinar coisas que os cursos não ensinam, por isso criei o canal e até agora estou gostando”, contou Eric Gurgel ao O POVO.

Em ‘cearês’, menino de 11 anos dá dicas de inglês nas redes sociais

Sem perder a ‘gaiatice’ nata, o pequeno professor aproveita algumas das gírias cearenses para mostrar aos seus alunos que podem se comunicar bem sem perder a originalidade. “Abestado”, “amostrado”, e até o “que diabo é isso?” são algumas das expressões mostradas por Eric no Instagram.

Apesar dos dialetos não serem comuns no estado onde a família mora, em Missouri, os jargões são comuns em casa.

Segundo a mãe do menino, os pais tentam manter a rotina e os costumes brasileiros com os filhos, Eric e o caçula George, de 4 anos. O primogênito viu a rotina como uma oportunidade: “Às vezes presto atenção em frases que eles falam e como dá pra ser em inglês e penso se pode ou não ser uma dica boa [para os vídeos]”.

“Até antes da pandemia, a gente ia duas ou três vezes pro Brasil, então acaba que a imersão dele [na língua portuguesa] é muito grande”, afirma Anna Paula. Ela acrescenta, ainda, que em Nova Iorque, estado de nascimento de Eric, a família tinha muitos amigos brasileiros.

Menino que ensina inglês para brasileiros no Instagram fala sobre o Brasil

Como toda criança, Eric possui atividades favoritas e relembra, com amor, sua saudade do Brasil. “Eu amo o Ceará, amo Fortaleza. Minha coisa favorita de lá é a praia e já que Missouri é bem no meio, então não tem praia e aí dá falta”. Eu amo tomar banho de mar, passar tempo com a família e eu amo a água de coco, é muito melhor no Brasil”, completa.

Entre as comidas, o menino confessa ter uma paixão por um dos doces mais populares do Brasil: o brigadeiro. “Eu amo brigadeiro! Normalmente quando tem aniversário e as pessoas levam tipo bolo ou coisa assim, eu normalmente faço brigadeiro e todo mundo ama”.

Notas: perfil ‘Aprenda Inglês com Eric’; veja vídeo Instagram

Fonte: https://www.opovo.com.br/divirtase/2024/03/29/cearense-americano-menino-de-11-anos-da-dicas-de-ingles-para-brasileiros-com-girias-do-ceara.html#container-main


 

Free Blog Counter
Poker Blog