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quarta-feira, 24 de setembro de 2025

Setembro Amarelo e o papel do ajustamento criativo nos processos autodestrutivos

Por Marluce da Mata Martins (*)

Falar sobre ideação suicida e processos autodestrutivos nunca é tarefa simples. Trata-se de um tema delicado, cercado de tabus — mas que precisa ser discutido com responsabilidade, empatia e acolhimento. Muitas pessoas, em diferentes momentos da vida, enfrentam sentimentos de incapacidade, insegurança, medo de não pertencer e até pensamentos suicidas.

Quando o sofrimento não encontra espaço de escuta e apoio, pode levar ao isolamento, ao adoecimento do corpo e da mente — e até à perda do sentido de viver. Segundo a Gestalt-Terapia, esses processos envolvem não apenas dor psíquica, mas também uma dimensão existencial profunda.

A ausência de acolhimento e suporte pode intensificar mecanismos autodestrutivos, como a introjeção — quando o indivíduo passa a viver a partir das expectativas alheias, desconectando-se de sua própria essência. No auge do sofrimento, o suicídio pode surgir como uma aparente solução permanente para problemas passageiros.

No entanto, a experiência clínica e teórica nos mostra que, quando há hetero-suporte (apoio vindo do outro), vínculos saudáveis e um espaço real de pertencimento, é possível ressignificar a dor e reconstruir a vida. A Gestalt-Terapia propõe o conceito de ajustamento criativo — a capacidade de desenvolver novas formas de lidar com o sofrimento. Esse movimento pode transformar experiências autodestrutivas em aprendizado e crescimento.

O amor, o acolhimento e a possibilidade de pedir ajuda são elementos fundamentais nesse processo. Neste Setembro Amarelo, é essencial reforçar: O sofrimento pode ser ressignificado. O amor e o acolhimento têm poder de cura. Pedir ajuda é um ato de coragem. Ninguém precisa enfrentar a dor sozinho. Falar salva vidas. Que possamos criar espaços de escuta, cuidado e pertencimento, fortalecendo a consciência de que sempre há possibilidade de recomeço.

Nós, da SAS Brasil, cuidamos da saúde mental para que mais pessoas tenham acesso a atendimento psicológico e qualidade de vida. Nosso projeto apoia quem precisa de ajuda e não tem condições de pagar por um acompanhamento.

(*) Diretora da SAS Brasil.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 2109/2025. Opinião. p.18.

sábado, 1 de fevereiro de 2025

Morre professor Erasmo Ruiz, docente de cursos da área de Saúde da Uece

Por Gabriel Damasceno, jornalista de O Povo.

Além do trabalho como professor, Erasmo mantinha uma página do Instagram, que soma mais de 40 mil seguidores

O professor Erasmo Ruiz, docente dos cursos de Enfermagem, Serviço Social, Psicologia, Terapia Ocupacional e Medicina da Universidade Estadual do Ceará (Uece), morreu nessa quinta-feira, 30. Ele tinha experiência na área de Psicologia Social, com ênfase em Tanatologia e Análise Institucional.

Além do trabalho como professor, Erasmo mantinha uma página do Instagram, que soma mais de 40 mil seguidores, onde falava sobre temas como luto, vida, finitude e amor.

"Papai amava postar aqui no Instagram dele, amava ver esse mundo de likes e visualizações, amava mostrar um pouco do trabalho incrível dele e principalmente, amava ajudar as pessoas", escreveu a filha, Carmen Ruiz, em nota de pesar publicada nas redes sociais.

"Prof. Erasmo Ruiz foi uma referência central na minha formação em Tanatologia. Sempre me recebeu bem e ficava empolgado com a minha pesquisa na área", lembra Diego Benevides, jornalista, pesquisador e tanatólogo. "

"Era um apaixonado por cinema e cumpriu uma trajetória linda que impactou a vida de inúmeros estudantes com muita sabedoria, gentileza e doçura. Deixa um legado imenso como pensador da finitude", continua.

Segundo a psicóloga e ex-aluna de Ruiz, Cristina de Oliveira, o estudioso sempre prorizou a vida. Entre muitos dos ensinamentos que deixou aos companheiros de pesquisa, o principal era de aproveitar cada momento da vida para que a morte fosse um momento tranquilo.

"Ele sempre falava 'carpe diem. Aproveite o dia. Porque quando você tem uma vida plena, você pode ter uma morte plena'. Sempre queria que todo mundo vivesse uma vida plena, uma vida feliz, uma vida que você fosse atrás do seu sonho e não deixasse as coisas para depois", comenta a ex-orientanda e amiga pessoal do professor.

Em nota, a Uece lamentou a partida do docente e ressaltou as contribuições feitas por ele à comunidade acadêmica, como trabalhos na Editora Uece (EdUece) e vice presidência do curso de Terapia Ocupacional.

O professor Erasmo Ruiz será lembrado como alguém que marcou muitos alunos e profissionais, a quem inspirou; colegas que conviveram com sua inteligência, alegria e humor fino; leitores que receberam os livros que produziu e ajudou a publicar, além de centenas de pessoas que passaram por uma perda dolorosa, mas a quem ele ensinou a lidar com o luto, em seus estudos e projetos sobre tanatologia. Um mestre nunca morre: suas palavras continuam ecoando naqueles que com ele aprenderam a semear novos caminhos", acrescentou a Universidade.

Erasmo se formou em psicologia pela Universidade de São Paulo (USP), em 1989. Cinco anos depois, em 1994, concluiu um mestrado em educação pela Universidade Federal de São Carlos (Ufscar) e, em 2002, se tornou doutor, também em educação, pela Universidade Federal do Ceará (UFC).

Fonte: Jornal O Povo, de 31/01/25. Escrito por Gabriel Damasceno


Morre Erasmo Ruiz, professor da Uece pioneiro no estudo da Tanatologia no Ceará

 

Foto: Diário do Nordeste. Entrevista.

Lembrado por alunos e colegas como um profissional empático e dedicado, Erasmo pesquisava temas como morte, luto e cuidados paliativos

Morreu, nesta quinta-feira (30/01), o psicólogo, tanatólogo, professor e pesquisador Erasmo Miessa Ruiz, aos 62 anos. Professor da Universidade Estadual do Ceará (Uece) há 27 anos, Erasmo foi pioneiro nos estudos da tanatologia do Ceará e se tornou referência nacional na área. Nos últimos meses, ele estava em tratamento contra um câncer. A causa da morte não foi divulgada pela família.

Em nota de pesar publicada no perfil de Erasmo no Instagram, a filha do professor, Carmen Ruiz, destacou o quanto o pai gostava de compartilhar conhecimento também nas redes sociais, que Erasmo usava como espaço de diálogo e aprendizado. Com frequência, o professor publicava no Instagram textos e vídeos com reflexões sobre vida, morte, luto, amor, arte e questões sociais importantes na contemporaneidade. Na rede, ele era acompanhado por mais de 40 mil pessoas.

"Papai amava postar aqui no Instagram dele, amava ver esse mundo de likes e visualizações, amava mostrar um pouco do trabalho incrível dele e, principalmente, amava ajudar as pessoas", destacou Carmen.

Ruiz se formou em psicologia pela Universidade de São Paulo (USP) em 1989 e, após a graduação, cursou um mestrado em Educação na Universidade Federal de São Carlos (Ufscar) e um doutorado em Educação pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Entre as diversas contribuições relevantes para a área da saúde, ele foi consultor da Política Nacional de Humanização do Ministério da Saúde (PNH/MS) e coordenou cursos e pesquisas sobre Cuidados Paliativos no Ceará.

Atualmente, ministrava aulas nos cursos de graduação em Psicologia, Serviço Social, Terapia Ocupacional, Enfermagem e Medicina e era vice-coordenador do curso de Terapia Ocupacional da Uece. Também lecionava no mestrado profissional de Ensino na Saúde da instituição.

A Uece divulgou uma nota de pesar lamentando a partida do docente e ressaltando a inteligência, alegria e bom humor de Erasmo, que era muito querido na comunidade acadêmica.

"A Universidade se faz de pessoas, e todas elas são importantes. Cada vez que a comunidade acadêmica 'perde' uma delas, o primeiro sentimento é o de lamento. O segundo passo deve ser sempre o de celebrar a alegria de ter estado junto. O professor Erasmo Ruiz será lembrado como alguém que marcou muitos alunos e profissionais, a quem inspirou; colegas que conviveram com sua inteligência, alegria e humor fino; leitores que receberam os livros que produziu e ajudou a publicar, além de centenas de pessoas que passaram por uma perda dolorosa, mas a quem ele ensinou a lidar com o luto, em seus estudos e projetos sobre tanatologia”. “Um mestre nunca morre: suas palavras continuam ecoando naqueles que com ele aprenderam a semear novos caminhos", diz parte do comunicado.

O Sindicato de Docentes da Uece (Sinduece) também publicou uma nota de pesar, destacando a atuação sindical de Erasmo e "sua fina capacidade de aliar o pessimismo a inteligência, como um nato apreciador de Gramsci".

"Além de um ser humano singular, Erasmo era um dedicado docente, psicólogo e sindicalista, múltiplas faces que ele exercia com maestria. Hoje, torna-se para nós uma saudade irreparável: de um amigo insubstituível, parceiro de conversas, um mestre, um guia e um pai amoroso. Sua partida nos deixa um vazio imenso, mas também a certeza de que seu legado seguirá vivo em cada conquista que celebrarmos", destaca a nota.

Nas redes sociais, diversos alunos, colegas de profissão e amigos lamentaram a partida do professor, que tem recebido uma série de homenagens. Uma delas partiu do grupo "Sobreviventes Enlutados", voltado para a prevenção do suicídio e o apoio às famílias que perderam entes queridos.

"Sua paixão pela psicologia e dedicação ao ensino são verdadeiramente inspiradoras. Agradecemos não apenas pelo conhecimento que compartilhou, mas também pela empatia e apoio que sempre demonstrou. O impacto que o senhor teve em nossas vidas é imensurável e levaremos seus ensinamentos conosco sempre. O senhor se foi, mas o seu legado ficará para sempre", diz uma publicação do grupo.

"lidar com a morte é uma forma de potencializar a existência"

Durante as últimas décadas, Erasmo Ruiz se dedicou a ajudar as pessoas a lidarem melhor com a morte para viver uma vida mais plena, fosse por meio da docência ou do apoio a grupos de apoio e pesquisa.

Em entrevista ao Diário do Nordeste em outubro de 2023, o professor comentou a importância da tanatologia, área da ciência que estuda a morte e seus impactos sociais. "Aprender a lidar com a morte é uma forma de potencializar a sua existência, porque você entende que ela é efêmera", destacou, à época.

O professor defendia que essa aprendizagem deveria ser estimulada especialmente nos cursos de saúde, como Psicologia, Enfermagem e Medicina, como modo de formar profissionais mais humanos e preparados para lidar com a dor dos pacientes.

Erasmo Ruiz deixa esposa, filha e um grande legado para a comunidade científica cearense.

Fonte: Escrito por Redação producaodiario@svm.com.br

31 de janeiro de 2025 - 11:50 (Atualizado às 11:53)


sexta-feira, 31 de janeiro de 2025

Nota de Pesar pelo falecimento do professor Erasmo Miessa Ruiz

A Universidade Estadual do Ceará (Uece) manifesta profundo pesar pelo falecimento do professor Erasmo Miessa Ruiz, ocorrido nesta quinta-feira, 30 de janeiro, aos 62 anos.

O professor Erasmo ingressou na Uece em 1998 e estava lotado no Centro de Ciências da Saúde (CCS). Era vice-coordenador do curso de Terapia Ocupacional e ministrava aulas para os cursos de graduação em Enfermagem, Serviço Social, Psicologia, Terapia Ocupacional e Medicina, além do Mestrado Profissional de Ensino na Saúde.

Com vasta produção científica, atuava principalmente nos seguintes temas: trabalho, luto, humanização na saúde, tanatologia, educação para a morte e redes sociais. Ruiz era psicólogo, especialista em Psicologia Social e pioneiro no estudo da Tanatologia no Ceará.

Teve ampla participação na história da Editora da Uece (EdUece), estando à frente da Editora de 2012 a 2021, ocupando, atualmente, um assento em seu conselho editorial.

A Universidade se faz de pessoas, e todas elas são importantes. Cada vez que a comunidade acadêmica “perde” uma delas, o primeiro sentimento é o de lamento. O segundo passo deve ser sempre o de celebrar a alegria de ter estado junto. O professor Erasmo Ruiz será lembrado como alguém que marcou muitos alunos e profissionais, a quem inspirou; colegas que conviveram com sua inteligência, alegria e humor fino; leitores que receberam os livros que produziu e ajudou a publicar, além de centenas de pessoas que passaram por uma perda dolorosa, mas a quem ele ensinou a lidar com o luto, em seus estudos e projetos sobre tanatologia. Um mestre nunca morre: suas palavras continuam ecoando naqueles que com ele aprenderam a semear novos caminhos.

O professor Erasmo Ruiz está sendo velado nesta sexta-feira, 31 de janeiro, a partir de 9h da manhã, na Igreja Presbiteriana Nova Jerusalém, localizada na Avenida Nila Gomes de Soares, nº 155, Cidade 2000, em Fortaleza. Um culto fúnebre será celebrado às 13h e, em seguida, o sepultamento ocorrerá no Cemitério Parque da Paz, às 16h.

A Reitoria da Uece, em nome de toda a comunidade acadêmica, solidariza-se com os familiares e amigos do professor Erasmo Miessa Ruiz neste difícil momento de dor.

Fonte: Uece/ Assessoria de Comunicação, em 31/01/2025.

PESAR PELO FALECIMENTO DO PROF. ERASMO MIESSA RUIZ

 

É com intenso pesar que aqui assinalo o desaparecimento terreno ontem, 30 de janeiro de 2025, do Prof. ERASMO MIESSA RUIZ, psicólogo especialista em Psicologia Social e um pioneiro do estudo da Tanatologia no Ceará, professor associado da Universidade Estadual do Ceará (Uece), cujo falecimento entristece seus familiares e o seu amplo ciclo de amigos e colegas.

O seu currículo na Plataforma Lattes, por ele atualizado em 23/04/2024, pouco antes de ele adoecer, está sumarizado assim:

“Possui graduação em Psicologia pela Universidade de São Paulo (1989), mestrado em Educação pela Universidade Federal de São Carlos (1994) e doutorado em Educação pela Universidade Federal do Ceará (2002). Atualmente é professor associado da Universidade Estadual do Ceará onde ministra aulas nas graduações de enfermagem, serviço social, psicologia, terapia ocupacional e medicina. Também ministra aulas no seguinte programa de pós graduação: Mestrado Profissional de Ensino na Saúde. Já foi professor dos seguintes programas de Pós-Graduação: Mestrado Profissional de Saúde da Família e Mestrado Acadêmico de Saúde Coletiva, todos na UECE. Foi coordenador acadêmico da Especialização em Cuidados Paliativos (UECE/Unimed). É atualmente coordenador do Curso de Cuidados Paliativos Multiprofissionais do Centro Universitário Farias Brito. Foi Consultor da Política Nacional de Humanização do Ministério da Saúde (PNH/MS). Tem experiência na área de Psicologia Social, com ênfase em Tanatologia e análise institucional, atuando principalmente nos seguintes temas: Trabalho, Tanatologia, Luto, Humanização na Saúde, Educação para a morte e Redes Sociais.”

O corpo do Prof. Erasmo Ruiz está sendo velado hoje (31/01/2025), desde às 9h, no velatório IP Nova Jerusalém, à Av. Nila Gomes de Soares, Nº 155, Cidade 2000, em Fortaleza. Um culto fúnebre será celebrado às 13h e, em seguida, seus despojos serão transladados ao cemitério Parque da Paz para o sepultamento marcado para às 16h.

Marcelo Gurgel Carlos da Silva

Professor do Curso de Medicina-Uece


domingo, 1 de setembro de 2024

O PAPEL TRANSFORMADOR DA PSICOLOGIA

Por Luan Teixeira (*)

O Dia do Psicólogo, celebrado em 27 de agosto no Brasil, é uma data dedicada a homenagear e reconhecer o trabalho essencial dos profissionais da psicologia. Esta comemoração marca a regulamentação da profissão no país, que ocorreu em 1962 com a promulgação da Lei nº 4.119. Desde então, os psicólogos têm desempenhado um papel fundamental na promoção da saúde mental, no apoio ao desenvolvimento pessoal e na melhoria da qualidade de vida de indivíduos e comunidades.

A psicologia é uma ciência vasta com diversas áreas de atuação, sendo a psicologia clínica a mais comum e amplamente reconhecida. Os profissionais dessa área trabalham diretamente com indivíduos para tratar uma variedade de questões emocionais e comportamentais. Existem também diversas outras áreas de atuação menos conhecidas, mas igualmente importantes. Por exemplo, a psicologia organizacional e do trabalho foca na aplicação de princípios psicológicos para melhorar o ambiente de trabalho, aumentar a produtividade e promover o bem-estar dos funcionários.

A psicologia educacional concentra-se em entender e melhorar o processo de aprendizagem e as dinâmicas escolares. Outras áreas menos visíveis incluem a psicologia do esporte, que aplica técnicas psicológicas para otimizar o desempenho de atletas, e a psicologia ambiental, que estuda como o ambiente influencia o comportamento humano e busca promover práticas sustentáveis.

Os psicólogos também têm um papel importante na construção de uma sociedade mais justa e inclusiva, pois atuam na promoção de políticas públicas de saúde mental e em programas sociais voltados para o acolhimento e tratamento de populações vulneráveis. A atuação desses profissionais é cada vez mais necessária em tempos de crise, como durante a pandemia de COVID-19, que trouxe à tona a importância do suporte psicológico no enfrentamento do isolamento, do luto e das incertezas.

Neste dia, também é importante refletir sobre a importância da saúde mental e a necessidade de quebrar o estigma associado aos problemas psicológicos. Reconhecer o trabalho é também valorizar a busca pelo autoconhecimento, pelo bem-estar emocional e pela construção de uma sociedade mais saudável e equilibrada.

A data é uma oportunidade para agradecer a esses profissionais por sua dedicação, empatia e compromisso com o cuidado e o desenvolvimento humano. É um momento para celebrar as conquistas da psicologia e reafirmar a importância de continuar investindo na formação e valorização desses profissionais que tanto contribuem para o bem-estar coletivo.

(*) Docente do Curso de Psicologia da Estácio.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 30/08/2024. Opinião. p.26.


quarta-feira, 8 de maio de 2024

EPIDEMIA DE AUTISMO

Por Sabrina Matos (*)

Quando o psiquiatra austríaco Leo Kanner, radicado nos EUA, definiu o autismo em 1943, a denominação inicial era de distúrbio autístico do contato afetivo, sinalizando uma condição com características específicas, como perturbação das relações afetivas com o meio, solidão autística extrema, inabilidade com o uso da linguagem para comunicação, comportamentos ritualísticos, início precoce e incidência predominante no sexo masculino.

O que nos chama a atenção enquanto profissional da saúde mental (e já não é de hoje) é o desmedido nos diagnósticos de autismo, do transtorno do espectro autista, assim como também dos diagnósticos de transtorno de déficit de atenção e hiperatividade. Nem vou abordar aqui os excessos nos diagnósticos de depressão e ansiedade, igualmente estarrecedores.

No que tange ao autismo, lembro-me de uma matéria em uma revista de circulação nacional que apontava um percentual de prevalência de 25% na população, ou seja, a cada 100 pessoas, 25 seriam autistas. Um dado absurdo sob todos os aspectos. Urge nos questionarmos: a quem isso serve? Sim, porque o cenário é o de uma verdadeira indústria do autismo. Uma epidemia de diagnósticos que serve a uma outra indústria: a dos psicofármacos. Mas também a um mercado de diversos "produtos" que vão de suplemento vitamínico para autistas, clínicas especializadas, brinquedos e até o partido político dos autistas, o "Agir".

Precisamos nos atentar para o fato de que falar de autismo implica sempre algo complexo por abranger etiologias múltiplas e deixar de lado discursos ancorados em pseudociências que enfeitiçam, ancoradas, na maioria das vezes, nos pausterizados protocolos de reeducação comportamental, por exemplo. É preciso que se considere que cada sujeito é singular e único, a despeito de sintomatologias que podem ser idênticas. Cada sujeito tem sua história, ocupa um lugar na família, está inserido em um tempo, faz parte de uma cultura. Como já disse o colega psicanalista Éric Laurent, falar de autismo é sempre uma batalha.

(*) Psicóloga e psicanalista. Professora da Unifor.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 19/04/2024. Opinião. p.22.


sexta-feira, 20 de janeiro de 2023

JANEIRO BRANCO E O AUTOCUIDADO

Por Daphinis Brito (*)

Como uma folha em branco, janeiro chega com um sentimento comum a todos, ou pelo menos à grande maioria das pessoas, o da renovação. É o período em que estamos mais propensos à reflexões acerca de nossas vidas e também mais abertos a fazermos as mudanças que planejamos ainda no ano anterior. Um tempo para olhar pra si diante de um novo ciclo que se inicia. Dentro dessa perspectiva, foi criado o movimento do Janeiro Branco, campanha que tem como proposta chamar a atenção para questões relacionadas à Saúde Mental e Emocional a partir da conscientização sobre a importância do autocuidado e do reconhecimento das próprias necessidades físicas, mentais, sociais e emocionais.

Cercado de muitos estigmas e tabus, o tema da saúde mental vem ganhando cada vez mais atenção nos últimos anos, principalmente em decorrência da pandemia. Essa tendência tem sido notória a partir do crescimento do número de casos e atendimentos. O Brasil hoje perde apenas para os Estados Unidos em número de casos de depressão nas Américas, por exemplo, segundo levantamento da Organização Mundial de Saúde. Já quando falamos em ansiedade, temos a maior prevalência de ansiedade no mundo, 9,3%. Por isso, falar sobre o assunto é ainda mais importante.

A saúde mental é um aspecto fundamental da saúde geral e pode afetar todos os âmbitos da vida de uma pessoa. Por isso, é importante lembrar que cuidar da saúde mental é tão importante quanto cuidar da saúde física. Algumas dicas para cuidar da saúde mental incluem praticar exercícios físicos regularmente, manter uma dieta saudável, dormir o suficiente, manter relações sociais saudáveis, aprender a gerenciar o estresse e buscar ajuda profissional, se necessário.

O Janeiro Branco é uma ótima oportunidade para refletir sobre a própria saúde mental e tomar medidas para cuidar dela. Se você ou alguém que conhece estiver passando por dificuldades emocionais ou de saúde mental, não hesite em procurar ajuda profissional. Existem muitos recursos disponíveis, incluindo terapia e grupos de apoio, que podem ajudar a lidar com esses problemas de forma saudável. Cuide-se. 

(*) Médica psiquiatra e diretora clínica do Grupo Nosso Lar.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 13/01/2023. Opinião. p.20.

terça-feira, 3 de janeiro de 2023

A TEORIA DAS JANELAS QUEBRADAS

Há alguns anos, a Universidade de Stanford (EUA), realizou uma experiência de psicologia social. Deixou duas viaturas idênticas, da mesma marca, modelo e até cor, abandonadas na via pública. Uma no Bronx, zona pobre e conflituosa de Nova York e a outra em Palo Alto, uma zona rica e tranquila da Califórnia. Duas viaturas idênticas abandonadas, dois bairros com populações muito diferentes e uma equipe de especialistas em psicologia social estudando as condutas das pessoas em cada local.

Resultou que a viatura abandonada em Bronx começou a ser vandalizada em poucas horas. Perdeu as rodas, o motor, os espelhos, o rádio, etc. Levaram tudo o que fosse aproveitável e aquilo que não puderam levar, destruíram. Contrariamente, a viatura abandonada em Palo Alto manteve-se intacta.

Mas a experiência em questão não terminou aí. Quando a viatura abandonada em Bronx já estava desfeita e a de Palo Alto estava há uma semana impecável, os pesquisadores partiram um vidro do automóvel de Palo Alto. O resultado foi que se desencadeou o mesmo processo que o de Bronx, e o roubo, a violência e o vandalismo reduziram o veículo ao mesmo estado que o do bairro pobre. Por quê que o vidro partido na viatura abandonada num bairro supostamente seguro, é capaz de disparar todo um processo delituoso? Evidentemente, não é devido à pobreza, é algo que tem a ver com a psicologia humana e com as relações sociais.

Um vidro partido/quebrado numa viatura abandonada transmite uma ideia de deterioração, de desinteresse, de despreocupação. Faz quebrar os códigos de convivência, como de ausência de lei, de normas, de regras. Induz ao “vale-tudo”. Cada novo ataque que a viatura sofre reafirma e multiplica essa ideia, até que a escalada de atos cada vez piores, se torna incontrolável, desembocando numa violência irracional.

Baseados nessa experiência, foi desenvolvida a ‘Teoria das Janelas Partidas’, que conclui que o delito é maior nas zonas onde o descuido, a sujeira, a desordem e o maltrato são maiores. Se se parte um vidro de uma janela de um edifício e ninguém o repara, muito rapidamente estarão partidos todos os demais. Se uma comunidade exibe sinais de deterioração e isto parece não importar a ninguém, então ali se gerará o delito.

Se se cometem ‘pequenas faltas’ (estacionar em lugar proibido, exceder o limite de velocidade ou passar com o sinal vermelho) e as mesmas não são sancionadas, então começam as faltas maiores e delitos cada vez mais graves. Se se permitem atitudes violentas como algo normal no desenvolvimento das crianças, o padrão de desenvolvimento será de maior violência quando estas pessoas forem adultas.

Se os parques e outros espaços públicos deteriorados são progressivamente abandonados pela maioria das pessoas, estes mesmos espaços são progressivamente ocupados pelos delinquentes.

A Teoria das Janelas Partidas foi aplicada pela primeira vez em meados da década de 80 no metrô de Nova York, o qual se havia convertido no ponto mais perigoso da cidade. Começou-se por combater as pequenas transgressões: lixo jogado no chão das estações, alcoolismo entre o público, evasões ao pagamento de passagem, pequenos roubos e desordens. Os resultados foram evidentes. Começando pelo pequeno conseguiu-se fazer do metrô um lugar seguro.

Posteriormente, em 1994, Rudolph Giuliani, prefeito de Nova York, baseado na Teoria das Janelas Partidas e na experiência do metrô, impulsionou uma política de ‘Tolerância Zero’. A estratégia consistia em criar comunidades limpas e ordenadas, não permitindo transgressões à Lei e às normas de convivência urbana. O resultado prático foi uma enorme redução de todos os índices criminais da cidade de Nova York.

A expressão ‘Tolerância Zero’ soa a uma espécie de solução autoritária e repressiva, mas o seu conceito principal é muito mais a prevenção e promoção de condições sociais de segurança. Não se trata de linchar o delinquente, pois aos dos abusos de autoridade da polícia deve-se também aplicar-se a tolerância zero.

Não é tolerância zero em relação à pessoa que comete o delito, mas tolerância zero em relação ao próprio delito. Trata-se de criar comunidades limpas, ordenadas, respeitosas da lei e dos códigos básicos da convivência social humana.

Essa é uma teoria interessante e pode ser comprovada em nossa vida diária, seja em nosso bairro, na rua onde vivemos.

A tolerância zero colocou Nova York na lista das cidades seguras.

Esta teoria pode também explicar o que acontece aqui no Brasil com corrupção, impunidade, imoralidade, criminalidade, vandalismo, etc.

www.psiconlinews.com

Fonte: Internet (circulando por e-mail e i-phones). Sem autoria explícita.

quarta-feira, 26 de outubro de 2022

GREGOS, DEUSES, MITOS E NOSSOS DIAS

Por Paulo Roberto Carvalho de Almeida (*)

A Grécia antiga tem influenciado muitos povos, desde a antiguidade até os dias atuais. Os gregos tinham uma mitologia muito rica, inúmeros deuses e deusas, que também eram mitos. Entre eles, havia um, considerado deus supremo, senhor dos céus e da luz, que despejava raios e fazia chover, o que fazia brotar, na terra, a vida. Seu nome era Zeus. Daí alguns dizem, ter se originado a palavra Deus. Outro deus-mito – parente do primeiro, pois eram da mesma natureza – controlava o mundo subterrâneo, da escuridão e das sombras. Era chamado Hades, senhor do que depois se chamou inferno. Era o mito da morte, que se opunha à vida. Houve muitas versões desses mitos/deuses ao longo da história. Hitler foi um deles. Alguém tem dúvida de qual foi sua inspiração?

Na alegoria da caverna de Platão, seres prisioneiros de si mesmos enxergam eles próprios e objetos do mundo real como sombras, pois o fogo que ilumina a caverna está distante e rodeado de obstáculos. Assim, aquelas imagens distorcidas e veladas pareciam-lhes ser a primeira e única representação do mundo possível.

A Psicologia, principalmente junguiana, traz os conceitos de luz e sombra como elementos da Psique. Cada um de nós porta em si arquétipos milenares que, de alguma forma não completamente compreendida pelo racionalismo científico, fazem parte de nós, nos constroem e/ou, nos destroem. A tomada da consciência da sombra que existe em todos nós é um passo essencial no caminho do autoconhecimento. O desafio é tentar compreendê-la e integrá-la à luz da consciência, na realização de si mesmo.

Numa variação antropológica do mesmo tema, há a lenda dos dois lobos, dos índios cherokees. Nela, o pequeno índio sente-se confuso em situações do dia a dia, dividido entre sentimentos conflitantes: de um lado, ódio, raiva, crueldade, inveja, egoísmo, ressentimento, intolerância e desejo de violência; do outro, amor, serenidade, humanidade, empatia, generosidade, compaixão e desejo de paz. Pergunta, então, ao ancestral nativo:

– Vô, disseram que tenho dentro de mim dois lobos, um bom e um mau. Mas como vou saber qual o lobo que vai ser o mais forte? O que vai me dominar?

E a resposta do ancestral:

– O que você alimentar!

Nos tempos atuais (como em todos os tempos), temos uma escolha. Qual alimentar?

(*) Médico patologista e professor da UFC. Musicólogo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 29/09/2022. Opinião. p.19.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

SETEMBRO AMARELO E SUICÍDIO DE MÉDICAS

Meraldo Zisman (*)

Médico-Psicoterapeuta

… as médicas têm maior taxa de mortalidade por autocídio do que os seus colegas do sexo masculino, embora os casos de suicídio sempre tenham sido mais prevalentes nessa área profissional, quando comparados à população denominada de Educação Superior…

As médicas têm maior taxa de mortalidade por suicídio do que os médicos. A promoção “Setembro Amarelo” é um alerta para todos quanto à prevenção do suicídio. O aviso é para que cada um de nós passe a ouvir/ dialogar com mais empatia com pessoas de todos os ofícios. Sim, porque, por ironia, nesta era da comunicação estamos cada vez mais apartados, já mesmo antes dessa ‘quarentena pandêmica’.

Um dos poucos fatos mencionados neste tal mês de setembro agora colorido de amarelo é o de que as médicas têm maior taxa de mortalidade por autocídio do que os seus colegas do sexo masculino, embora os casos de suicídio sempre tenham sido mais prevalentes nessa área profissional, quando comparados à população denominada de Educação Superior.

O fato não é novo. Desde 1980 as taxas de mortalidade por suicídio têm sido mais altas entre as médicas e mais baixas entre os médicos, segundo demonstram os resultados de revisões sistemáticas das mais diversas pesquisas clínicas realizadas por publicações médicas. Se computadas as ocorrências de “automutilação” como aviso/sinal/ do autocídio, a cifra de prenúncios do suicídio é ainda maior.

Estimativas precisas das verdadeiras taxas de suicídio entre médicas podem ainda escassear ou carecer de notificação, seja por subnotificação ou preconceito, mas as consequências são amplas, pois a saúde mental passou a ser o fator mais importante e prevalente na Saúde Coletiva, principalmente após os endeusados avanços tecnológicos. Assim, o aumento das patologias ditas psicossomáticas, justo neste momento de crise (Covid-19), assoalha, mostra, grita, demonstra o que foi ou estava camuflado, escondido da vista da maioria.

O suicídio avulta de importância em relação a outras causas de mortalidade entre médicos. Portanto, as pesquisas sobre as características de suicídio médico devem ser direcionadas à definição de políticas de proteção a esses profissionais.

A Medicina é uma ciência da incerteza e uma arte da probabilidade, dizia o Dr. William Osler (1849-1919), médico canadense considerado o pai da Medicina Moderna. A incerteza leva à insegurança da profissão médica, o que é altamente estressante. Como veterano professor de medicina, digo:

– Médico, não se esqueça de cuidar de você mesmo! Sobretudo da sua saúde mental.

(*) Professor Titular da Pediatria da Universidade de Pernambuco. Psicoterapeuta. Membro da Sobrames/PE, da União Brasileira de Escritores (UBE), da Academia Brasileira de Escritores Médicos (ABRAMES) e da Academia Recifense de Letras. Consultante Honorário da Universidade de Oxford (Grã-Bretanha). 

quinta-feira, 15 de outubro de 2020

CÉLULAS ESPELHOS

Meraldo Zisman (*)

Médico-Psicoterapeuta

…Os neurônios-espelho fornecem um mecanismo neurobiológico aceitável que explica por que a exposição à violência na mídia leva à violência imitativa. Isto é só um aviso!…

O 1% restante das pessoas já tinha um problema sério bem antes de ver as fotos ou ler as reportagens — e não serão os jornais que irão resolvê-lo”. Diz a Folha de São Paulo de 20/03/2019, no artigo intitulado Imprimatum assinado pelo colunista Hélio Schwartsman.

Não faz bom jornalismo o profissional que acende o pavio da explosão midiática para realizar-se com furos jornalísticos. No caso da tragédia em Suzano a pirotecnia continua pipocando. E não me venham explicar, senhoras e senhores midiáticos, que é necessário ilustrar as reportagens dantescas sejam elas ao vivo, fotografadas, noticiadas ou pelos filmezinhos feito pelos Iphone dos colaboradores ad hoc, para demonstrar que não é normal ou edificante o que está acontecendo ou aconteceu.

Valer-me-ei do antigo conhecimento da “psiconeurociência”, não tão atual para os leigos (1916), a qual, pela velocidade dos avanços recentes, já pode ser considerada uma senhora idosa, apesar de que a ciência não tem idade, atualizando-se sempre em constantes mutações e progressos.

Comecemos pelos primatas e depois pelos seus derivados mais inteligentes, os homens. Ambos são possuidores de células nervosas (neurônios) especializadas e que aprendem as funções e atuações das mais diversas, pela observação de animais da mesma espécie. Se um ser presenciar um outro ser da mesma espécie fazendo alguma coisa, repete o que o outro estava realizando.

Aprende assim a descascar amendoim com o semelhante, dependendo da agilidade do observado. Este é um processo cultural de aperfeiçoamento que, como tudo na vida, poderá ser considerado positivo ou negativo

Em 1996/8 neurocientistas que examinavam o cérebro de um macaco depararam-se com um curioso aglomerado de células no córtex pré-frontal, uma área do cérebro responsável pelo planejamento de movimentos, localizado no lobo frontal.

Quando um macaco avista outro macaco executando uma ação, imita-o como se fosse sua imagem refletida num espelho.

O aglomerado de células dispara não apenas quando o macaco executa uma ação, mas também quando o macaco vê a mesma ação executada por outra pessoa.

O mesmo ocorre com as pessoas. As células respondem da mesma maneira. Pouco importa se o macaco estendeu a mão para agarrar uma banana, ou apenas observou – com inveja – outro macaco ou um humano comendo a fruta. Como as células refletem as ações que o macaco observa, os neurocientistas chamam-nas de “neurônios-espelho”.

Experimentos posteriores confirmaram a existência desses neurônios-espelho, mais aperfeiçoados, em humanos e revelaram outra surpresa.

Além de espelhar ações, as células excitavam-se (ou refletiam) no caso de sensações e emoções. “Os neurônios-espelho sugerem que pretendemos estar no lugar mental de outra pessoa”. Se estamos preparados para internalizar automaticamente os movimentos e estados mentais dos outros, nossos semelhantes, então o que isso sugere é a forte influência de filmes violentos, programas de televisão, videogames e outras cositas, mas…nas nossas emoções e desejos.

Carecemos de ter mais cuidado com o que assistimos. Caberia ao pessoal da mídia profissional saber o que podem causar e ter mais cuidado com o que estão apresentando aos seus leitores e espectadores (fregueses e consumidores, na era do domínio do Mercado, merecem respeito!).

Isso difere muito do que andam afirmando por aí, do perigo dos videogames…. e outras tantas asneiras.

Os próprios cientistas estudiosos dessas formações neurológicas citam o escritor Marcel Proust (1871-1922) que, no seu livro “No Caminho de Swann” dizia: O que censuro nos jornais é fazer-nos prestar atenção todos os dias a coisas insignificantes, ao passo que nós lemos, apenas três ou quatro vezes na vida, os livros em que há coisas essenciais.

Os neurônios-espelho fornecem um mecanismo neurobiológico aceitável que explica por que a exposição à violência na mídia leva à violência imitativa. Isto é só um aviso!

(*) Professor Titular da Pediatria da Universidade de Pernambuco. Psicoterapeuta. Membro da Sobrames/PE, da União Brasileira de Escritores (UBE), da Academia Brasileira de Escritores Médicos (ABRAMES) e da Academia Recifense de Letras. Consultante Honorário da Universidade de Oxford (Grã-Bretanha).

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

ANSIEDADE


Meraldo Zisman (*)
Médico-Psicoterapeuta
Perguntas que Não Devem/Podem Ser Feitas
Eficácia e Segurança dos Antidepressivos e Psicoterapia para Crianças e Adolescentes
O transtorno de ansiedade infantil é um dos diagnósticos de desordem mental mais frequentes, com uma taxa de prevalência de 15% a 20% e está associado a comprometimento significativo na criança e no adolescente.
Existem várias opções de tratamento para transtornos de ansiedade infantil, incluindo psicoterapia, farmacoterapia e abordagens de tratamento combinado, porém nenhum deles tem se mostrado de eficácia, comprovada.
Diante desse quadro onde as estatísticas apontam que cerca de um em cada quatro americanos terá um transtorno de ansiedade em algum momento de sua vida, seria bom começarmos a pensar na frequência de tal nosologia.
Esses presságios são tão graves quanto as demais inseguranças aportadas com o progresso científico e tecnológico desta contemporaneidade.
Sublinho. Os transtornos de ansiedade são problemas de saúde mental frequentemente vistos em crianças e adolescentes, e não sabemos o que dizer de sua importância/repercussão na vida adulta. A idade média em que os sintomas de ansiedade começam é a de 11 anos. Aproximadamente 5% a 13% das crianças menores de 18 anos apresentam transtorno de ansiedade.
Conferir em: (Arch Pediatr. Adolesc. Med. 2010; 164 (10): 984. doi: 10.1001 / archpediatrics.2010.179). (JAMA Pediatr. Published online August 31, 2017 doi:10.1001/jamapediatrics.2017.3036).
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Existem vários tipos de transtornos de ansiedade. Os sintomas nas crianças incluem preocupação grave e incontrolável com vários aspectos de sua vida. Essas manifestações podem incluir timidez; não desejar conversar com pessoas adultas; falta à escola; medo; pânico; sudorese; tremores; dificuldade em respirar, e sentir que algo terrível vai acontecer; dor torácica; coração acelerado; tonturas; náuseas; dor abdominal e dores de cabeça; além de outros que, quando não bem equacionados, podem levar a distúrbios de saúde mental em adultos, como depressão e uso de drogas, além de aumento das taxas de suicídios consumados ou tentados.
Muitas crianças têm preocupações e medos que podem ocorrer em determinadas idades ou estágios de desenvolvimento. Isso é normal. Mas, os transtornos de ansiedade são mais graves e persistentes...
Diante desse quadro, principalmente nas crianças e jovens das camadas populacionais mais afluentes, onde a competição é cada vez mais acirrada, acredito que a medicalização desse desconforto existencial não poderá ser aquilatada jamais por condutas psicoterápicas associadas ou não à epidemia de emprego dos antidepressivos, de resultados incertos e inócuos, e sim nosso foco de atenção deveria ser deslocado para os aspectos preventivos psicossociais.
Não sei como as Instituições e a Literatura Médica Oficial não patrocinam melhores estudos para a profilaxia desse considerado mal do século atual. Ou há perguntas que não devem ser feitas? Valho-me do habeas corpus da idade, após mais de cinquenta anos de prática pediátrica. Será que a ditadura do Mercado serviria para controlar essa ansiedade globalizada? Fica o aviso.
(*) Professor Titular da Pediatria da Universidade de Pernambuco. Psicoterapeuta. Membro da Sobrames/PE, da União Brasileira de Escritores (UBE) e da Academia Brasileira de Escritores Médicos (ABRAMES). Consultante Honorário da Universidade de Oxford (Grã-Bretanha).

terça-feira, 28 de agosto de 2018

O OFÍCIO LITERÁRIO VISTO POR UM MÉDICO


Meraldo Zisman (*)
Médico-Psicoterapeuta
O fazer literário tem muito a ver com a capacidade de realizar uma geometria combinatória entre o funcionamento mental de quem está lendo e, o que está escrito. Não é à toa que os clássicos passam pelo tempo e permanecem jovens e atrativos, ou, que um livro, depois de publicado, seja como um filho emancipado, que toma os mais diversos caminhos. A própria História da humanidade está dividida entre a fase escrita e não escrita.
A escrita literária dá forma àquilo que não possui forma, ofertando sentido ao que é incompreensível, pondo ordem cronológica àquilo que ignora o tempo comum, individualizando a causalidade onde existe a casualidade, oferecendo continuidade onde há apenas contiguidade, impondo harmonia ao caos. Dado ao fato de que, o escritor é humano, não poderá se livrar da tentação de impor ao leitor aquilo que sua razão deseja.
Entretanto, até bem pouco tempo, os textos jornalísticos eram considerados literatura de segunda classe, cabendo a originalidade, na literatura, a gêneros como o romance, a novela, o conto e a poesia. Somente considerava-se literatura quando havia a elaboração estética da linguagem. Todavia, atualmente, apesar da ampliação do conceito de literatura sofrida com os movimentos de vanguarda (reação a modelos literários das gerações anteriores), no mundo acadêmico, muitos permanecem fiéis à antiga classificação de literatura. É compreensível tal cautela, considerando a importância da palavra escrita.
Apesar do texto escrito ser uma tentativa de tornar perene o conhecimento, através de um código de sinais e desenhos que deram origem ao alfabeto, a compreensão da leitura é metafísica. Embora seja materialmente menos perecível, a palavra escrita no papel, no papiro ou em argila, apresenta uma conotação diversa de acordo com variáveis temporais, com a personalidade do leitor, a classe social, a religião, a cultura, a instrução, etc. Assim, como é impossível atravessar o mesmo rio duas vezes exatamente da mesma forma, fato idêntico ocorre com a leitura. As interpretações das Escrituras Sagradas, por exemplo, não se prendem a questões burocráticas.
Não deixa de ser estranha a curiosidade depositada sobre um escritor criativo, sua fonte de inspiração, de onde retira seu material e como consegue impressionar ou despertar emoções esquecidas. Quando não podemos explicar os acontecimentos, pomos a responsabilidade nas mãos dos deuses ou das musas.
Permitam-me citar Sigmund Freud, em Escritores Criativos e Devaneios, pois foi o primeiro a tentar uma explicação dessa curiosidade:
"Nós, leigos, sempre sentimos uma intensa curiosidade – como o Cardeal que fez uma idêntica indagação a Ariosto – em saber de que fontes esse estranho ser, o escritor criativo, retira seu material, e como consegue impressionar-nos com o mesmo e despertar-nos emoções das quais talvez nem nos julgássemos capazes. Nosso interesse intensifica-se ainda mais pelo fato de que, ao ser interrogado, o escritor não nos oferece uma explicação, ou pelo menos nenhuma satisfatória; e de forma alguma ele é enfraquecido por sabermos que nem a mais clara compreensão interna (insight) dos determinantes de sua escolha de material e da natureza da arte de criação imaginativa em nada irá contribuir para nos tornar escritores criativos. Se ao menos pudéssemos descobrir em nós mesmos ou em nossos semelhantes uma atividade afim à criação literária! Uma investigação dessa atividade nos daria a esperança de obter as primeiras explicações do trabalho criador do escritor. E, na verdade, essa perspectiva é possível (...). Afinal, os próprios escritores criativos gostam de diminuir a distância entre a sua classe e o homem comum, assegurando-nos com muita frequência de que todos, no íntimo, somos poetas, e de que só com o último homem morrerá o último poeta (...)."
Talvez essa interpretação sirva para dois dos fatos da curiosidade humana, em relação à vida privada dos médicos. Quando adoecemos, passamos a depender mais dos outros, ficamos frágeis, subordinados à figura paterna, por isso, voltam ao nosso aparelho mental fantasias do poder do adulto sobre a criança. E como adulto, não desejamos a volta, a submissão à autoridade paterna, representada agora pela figura do médico e dos fatos não compreendidos que conduzem a fantasias infantis.
Voltando aos escritores... falemos um pouco daqueles não criativos. Os que se valem de temas preexistentes, parecem, realmente, diversos daqueles que criam o seu próprio material. Eles são, sem dúvida, muito mais aplaudidos pelos críticos, e geralmente têm maior êxito social. Esses “escritores descritivos” têm, de certa maneira, certa criatividade pelo modo de contar o seu enredo, escolhem o que contar e comentar. É verdade que muitos dos seus comentários, mostram coisas e fatos não avistados por vários leitores.
Entretanto, de uma maneira geral, a história imaginada possui o herói ou heroína, centro do interesse, para quem o autor procura, de todas as maneiras possíveis, orientar a simpatia do leitor. O sentimento de segurança com que acompanhamos o/a protagonista, através de suas perigosas aventuras, é o mesmo com que o herói ou heroína, na vida real, atira-se à água para salvar um homem que se afoga. Ao astro "Nada pode acontecer", pois a novela não pode acabar. O fato da heroína se apaixonar, invariavelmente, pelo herói, não pode ser encarado como um retrato da realidade, mas será de fácil compreensão, se encararmos como um componente necessário ao devaneio. Os demais personagens da história dividem-se em: bons e maus. Os bons são aliados do personagem que se tornou o herói da história, e os maus são seus inimigos.
Sabemos que muitas obras imaginativas não guardam boa distância do modelo do devaneio ingênuo da criança. Não posso deixar de suspeitar, que acontecimentos mais afastados estejam entrelaçados a fantasias ou mitos do inconsciente. Em muitos romances, é como se o autor se colocasse dentro da persona do mocinho e observasse as outras personagens. Diz Freud, em O Escritor Inventivo, que “o romance dito psicológico, sem dúvida, deve sua singularidade à inclinação do escritor moderno de dividir seu ego, pela auto-observação, em muitos egos parciais, e em consequência personificar as correntes conflitantes de sua própria vida mental por vários heróis”.
Há também o “escritor-relator”, que descreve a vida sem nela penetrar. É apenas um espectador da vida, como muitas pessoas costumam ser. Embora seu material não seja novo, procede do inconsciente popular, disfarçadamente contido nos mitos, lendas e contos de fada. Quando um escritor apresenta sua obra baseada no imaginário ancestral, o leitor sente grande prazer em reviver um passado de glória.
Em suma, na produção literária está mais que evidente a técnica de superar o sentimento de repulsa à barreira do interdito. Faz literatura quem oferece a oportunidade ao leitor de se permitir idealizações sem culpas, quimeras sem autoacusações, e o não rebaixamento de sua condição de adulto.
(*) Professor Titular da Pediatria da Universidade de Pernambuco. Psicoterapeuta. Membro da Sobrames/PE, da União Brasileira de Escritores (UBE) e da Academia Brasileira de Escritores Médicos (ABRAMES). Consultante Honorário da Universidade de Oxford (Grã-Bretanha). Foi um dos primeiros neonatologistas brasileiros.

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

REFORMA EDUCACIONAL (Tem Muito Cacique Para Pouco Índio)


Meraldo Zisman (*)
Médico-Psicoterapeuta
Existe uma piada dizendo que se você quer fazer Deus rir, basta fazer uma previsão. Ou como diz um dito judaico: O homem planeja e o Deus de Israel acha graça.
É importante relembrar o que escreveu o poeta judeu-russo naturalizado americano Joseph Brodsky (nome de batismo Iosif Aleksandrovich Brodsky), nascido em Leningrado, 24 de maio de 1940 e falecido em Nova Iorque em 28 de janeiro de 1996, detentor do prêmio Nobel de Literatura por seu trabalho de grande envergadura, imbuído de clareza de pensamento e intensidade poética.
Em discurso intitulado ELOGIO AO TÉDIO, feito aos formandos do Dartmouth College, instituição fundada em 1769 e uma das universidades mais conceituadas dos Estados Unidos, dois anos após ganhar o Nobel de Literatura de 1987, o poeta previa ou especulava (esclareço: nos séculos XX e XXI não existem mais profetas, quando muito há especuladores, com todo respeito ao bardo naturalizado americano):
“Neurose e depressão vão entrar no vocabulário de vocês; comprimidos passarão a frequentar suas gavetas. Não há nada essencialmente errado em fazer da própria vida uma busca constante por alternativas, nada errado em pular de emprego em emprego, de casamento em casamento, mudar de casa, clima, etc., desde que se possa bancar as pensões e suportar o tumulto das lembranças”.
Como psicoterapeuta de jovens, conheço alguns de meus pacientes desde crianças, a maioria deles vi nascer e acompanhei até à idade adulta. Apesar de meus muitos anos da prática médica, fico assombrado com o sofrimento desses, para mim, sempre, jovens, embora, alguns deles já estejam para lá dos quarenta. Para mim continuam crianças, do ponto de vista afetivo e são, também, agora, mãe e pai. Quando percebem que a vida é uma repetição de fatos, entram em tédio vital.
A vida real não é aquela para a qual foram educados, se formaram, e, muito menos a dantes apalavrada, ou, aquela com a qual sonharam ou lhes foi prometida. Nem eles nem eu, conseguiríamos assegurar, que o Mercado ou alguma das Entidades Transcendentais ou Metafísicas apelidadas de representantes do Poder, têm ocupação para tantos portadores de títulos universitários.
Entretanto, mesmo antes da crise econômica que estamos vivendo, eu já havia registrado tal fenômeno clínico. E, não pretendo discutir aqui a qualidade das universidades: particulares, estaduais, federais, e sim, a condição dos jovens que navegam por tais cursos... de curso tão impreciso. Já que contexto sócio/econômico-financeiro piorou, uma colocação no mercado de trabalho é cada vez menor, enquanto o avanço tecnológico está cada vez mais rápido. Logo, fica evidente, que, cada vez mais raros serão os empregos.
Perguntar não ofende:
“Não seria melhor que o dinheiro empregado para financiar esses jovens desavisados e seus responsáveis, fosse utilizado para melhorar os ensinos primário e médio ou as escolas técnicas? Não seria essa conduta mais urgente do que ficar proclamando estratégias e reformas curriculares?”
Cito, para terminar, um clichê que aprendi na minha infância:
“Tem muito cacique para pouco índio”.
(*) Professor Titular da Pediatria da Universidade de Pernambuco. Psicoterapeuta. Membro da Sobrames/PE, da União Brasileira de Escritores (UBE) e da Academia Brasileira de Escritores Médicos (ABRAMES). Consultante Honorário da Universidade de Oxford (Grã-Bretanha). Foi um dos primeiros neonatologistas brasileiros.
 

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