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segunda-feira, 29 de setembro de 2025

Gravidez precoce perpetua a pobreza e a falta de prioridade política

Por Sara Oliveira (*)

Em 2023, na sala de espera da Maternidade Escola Assis Chateaubriand (Meac), lembro de entrevistar avó e mãe. A primeira com 47 anos, cinco filhos e dez netos. A segunda com 17 anos, sendo mãe pela primeira vez, depois de cuidar dos três filhos da irmã, de 20 anos. As dificuldades que eu, na época com 40 anos e dois filhos, comecei a narrar sobre a vida materna, se perderam em meio aos relatos daquelas duas mães.

O pai do bebê da adolescente estava preso, ela não havia terminado nem o ensino fundamental e quando perguntei sobre o futuro, a resposta foi "ainda não pensei". A avó, de pronto, reagiu: "Que futuro uma mãe que não trabalha pode dar ao filho? Porque eu trabalho para dar a ela, porque não tem quem dê. O pai foi só pra fazer".

Não se trata de um caso isolado. Uma em cada 23 meninas brasileiras entre 15 e 19 anos já teve um filho. Em mais de 49 mil partos, a mãe tinha entre 10 e 14 anos. Os números, embora já conhecidos, escancaram o resultado da carência de políticas públicas que amenizem as vulnerabilidades às quais meninas são expostas no Brasil.

Dados são de pesquisa da Universidade Federal de Pelotas, de 2020 a 2022, e consideram a taxa de fecundidade em 5,5 mil municípios brasileiros. Estudo exibe um recorte sócio-econômico alarmante: 69% dos municípios apresentaram índices de fecundidade acima do que seria esperado para um país de renda média-alta, que é a classificação econômica oficial do Brasil.

Cenário que destaca as desigualdades regionais e prova a relação direta entre gravidez precoce, pobreza, evasão escolar e falta de acesso a serviços públicos. Na região Norte, o índice de grávidas é de 77,1 nascimentos por mil meninas. No Sul, essa taxa é de 35.

Antes de engravidar, durante a gestação e depois de estar com o filho nos braços, essas jovens convivem com diversos e diferentes riscos sociais. São vítimas de abusos, estupros e violências. E como em todas as estatísticas que envolvem crimes sexuais e de violência contra mulheres, é preciso fazer a ressalva da subnotificação.

Em 2025, até julho, no Ceará, dos 1.019 crimes sexuais registrados pela Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS), 80% tiveram como vítima crianças e adolescentes até 19 anos. Um total de 825 casos, dos quais, 85% foram contra crianças até 14 anos. Meninas que na grande maioria das vezes sofrem sem denunciar, engravidam sem ter direito a abortar e continuam a viver à margem dos direitos que deveriam lhes ser assistidos. Um ciclo geracional, afetado pela falta de assistência e oportunidade.

A gravidez precoce perpetua a pobreza e ratifica a falta de prioridade política. Tem impacto nos principais segmentos da sociedade: Saúde, Educação, Economia. Os números precisam incitar ações para que o futuro de meninas não seja mais violado.

(*) Jornalista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 22/08/2025. Opinião. p.19.

quinta-feira, 13 de outubro de 2022

PANDEMIA E GRAVIDEZ NA ADOLESCÊNCIA

Meraldo Zisman (*)

Médico-Psicoterapeuta

A gravidez na adolescência é um problema de saúde pública comum em todo o mundo. O objetivo deste artigo é estudar a possível associação entre os percentuais de gravidez na adolescência e as características socioeconômicas afetadas pela atual pandemia.

Lembro que o verbete pandemia significa uma epidemia que se espalha geograficamente, saindo do seu lugar de origem e assolando o mundo inteiro.

Nesta pandemia, apesar da grande morbimortalidade (conceito da Medicina que se refere ao índice de pessoas mortas em decorrência de uma doença específica em determinado grupo populacional) e os argumentos polarizados advindos das vacinações contra a Covid-19, acompanhados da exigência do salvo-conduto ou passaporte vacinal, não passam de consequências dos medos atávicos das pessoas e não se trata de ser da esquerda ou da direita.

Advirto, existe um lado construtivo nos fracassos.

Alguns estudos recentes apontam na direção de coisas boas que virão com esse futuro “novo-normal”.

Lembro que o futuro dependerá daquilo que fazemos no presente. Sem dúvida os adolescentes estão agora mais ligados à família e ao lar, contudo apartados de seus amigos e grupos; refiro-me à classe média urbana, pois nas ditas “comunidades”, penso que vão permanecer com as mesmas mazelas. Dito isso, acredito que os jovens estão fazendo menos coisas do que faziam antes da pandemia. Simultaneamente, sentem-se crescidos e prontos para deixar a escola, trabalhar, beber e se drogarem, além de fazer menos sexo.

O nível das relações entre essas meninas e meninos, ainda de menor idade, é muito alto, apesar de alguns trabalhos médicos e estatísticos apontarem para que a incidência das gestações em adolescentes tenha caído exponencialmente nos países ricos e nas camadas mais abastadas dos países em desenvolvimento. Os adolescentes provavelmente estão fazendo menos sexo, não apenas ficando mais esclarecidos no uso de métodos contraceptivos.

Segundo dizem eles, as contaminações das doenças sexualmente transmissíveis estão tombando.

Pode até ser!

Não sei se a quantidade de gestações em adolescentes aumentará ou permanecerá menor durante esta pandemia.

O que ouço dizer é que os jovens pertencentes às classes sociais mais abastadas reclamam muito do isolamento do tal do lockdown, medida fajuta.

Lembro ao leitor de uma reportagem publicada na Folha de São Paulo (5.nov.2019) que mancheteava — Gravidez na Adolescência de Bairro Pobre de S.P. é 53 vezes a de Bairro Rico.

“Vamos ver para crer”; desculpe o clichê caro leitor…

(*) Professor Titular da Pediatria da Universidade de Pernambuco. Psicoterapeuta. Membro da Sobrames/PE, da União Brasileira de Escritores (UBE), da Academia Brasileira de Escritores Médicos (ABRAMES) e da Academia Recifense de Letras. Consultante Honorário da Universidade de Oxford (Grã-Bretanha).

sábado, 1 de maio de 2021

COMO ESCOLHER UMA PROFISSÃO

Um senhor muito religioso que vivia no interior tinha um filho que estava chegando no momento de decidir que profissão seguir. Como tantos jovens, o rapaz não sabia ainda o que queria fazer da sua vida, mas não parecia muito preocupado com o assunto.

Certo dia, quando o garoto estava na escola, o homem resolveu fazer uma experiência. Foi até o quarto do jovem e pôs sobre a escrivaninha dele quatro objetos: uma Bíblia, 10 dólares, uma garrafa de Jack Daniel's e uma revista Playboy.

O homem planejava esconder-se atrás da porta para ver qual objeto que seu filho escolheria ao chegar.

"Se ele escolher a Bíblia, será um pastor... Que alegria para mim! Se escolher os dólares, será um homem de negócios, o que também é bom. Mas se ele escolher a garrafa será um bêbado, que vergonha me daria! Pior ainda se escolher a revista, pois será um mulherengo sem cura", pensava o pai enquanto esperava o retorno do filho.

Finalmente, o ansioso pai ouviu os passos do jovem subindo as escadas e assobiando.

Ao entrar no quarto, o rapaz atirou sua mochila na cama e, ao virar-se, viu os quatro objetos na escrivaninha. Curioso, aproximou-se deles para ver melhor.

Finalmente, o garoto pega a Bíblia e enfia debaixo do braço. Em seguida, pega os dólares e o põe no bolso e, por último, abre a garrafa de Jack Daniel's e bebe vários goles enquanto admira a Playboy.

"Valha-me Deus!", pensou o senhor, indignado, "meu filho vai ser político!"

Fonte: Disponível na home page “Tudoporemail”.


quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

Mensagem para uma adolescente fã da garota chorosa da TV


"Depois que nossa filha de quinze anos foi às lágrimas pelo discurso de Greta Thunberg na ONU outro dia, ela ficou zangada com a nossa geração "que não fazia nada há trinta anos".
Então, decidimos ajudá-la a impedir o que a garota na TV anunciava de "erradicação maciça e desaparecimento de ecossistemas inteiros".
Agora estamos comprometidos em dar um futuro à nossa filha novamente, fazendo nossa parte para ajudar a esfriar o planeta em quatro graus.
A partir de agora, ela irá para a escola de bicicleta, porque levá-la de carro custa combustível, e o combustível gera emissões para a atmosfera. Claro que será inverno em breve e ela desejará ir de ônibus, mas apenas enquanto for um ônibus a diesel.
De alguma forma, isso não parece ser propício para "ajudar o clima".
Obviamente, ela agora está pedindo uma bicicleta elétrica, mas mostramos a ela a devastação causada nas áreas do planeta como resultado da mineração para a extração de lítio e outros minerais usados na fabricação de baterias de bicicletas elétricas, então ela estar pedalando ou andando. O que não a prejudicará, nem ao planeta. Nós costumávamos andar de bicicleta e caminhar até a escola também.
Como a garota na TV exigiu "precisamos nos livrar de nossa dependência de combustíveis fósseis" e nossa filha concordou com ela, desconectamos a ventilação do quarto. A temperatura está caindo para doze graus à noite e cairá abaixo de zero no inverno. Prometemos comprar um suéter extra, chapéu, calças justas, luvas e um cobertor.
Pela mesma razão, decidimos que a partir de agora ela só toma um banho frio. Ela lavará suas roupas à mão, com uma tábua de madeira, porque a máquina de lavar é simplesmente uma consumidora de energia e, como o secador usa gás natural, ela pendura suas roupas no varal para secar.
Por falar em roupas, as que ela usa atualmente são todas sintéticas, então são feitas de petróleo. Portanto, na segunda-feira, levaremos todas as suas roupas de grife para a loja de segunda mão.
Encontramos uma loja ecológica em que as únicas roupas que vendem são de linho, lã e juta não tingidas e não branqueadas.
Não importa que lhe pareça bom ou que ela vá rir, vestindo roupas leves e sem cor e sem sutiã sem fio, mas esse é o preço que ela paga pelo benefício do Clima.
O algodão está fora de questão, uma vez que vem de terras distantes e são usados pesticidas. Muito ruim para o meio ambiente.
Acabamos de ver no Instagram dela que ela está muito brava conosco. Esta não era a nossa intenção.
A partir de agora, às 19h desligaremos o Wi-Fi e o ligaremos novamente no dia seguinte após o jantar por duas horas. Dessa forma, economizaremos eletricidade, para que ela não seja incomodada pelo estresse eletromagnético e fique totalmente isolada do mundo exterior. Dessa forma, ela pode se concentrar apenas em sua lição de casa. Às onze horas da noite, puxaremos o disjuntor para desligar a energia do quarto dela, para que ela saiba que o escuro está realmente escuro. Isso economizará muito CO2.
Ela não participará mais dos esportes de inverno em pousadas e resorts de esqui, nem fará mais férias conosco, porque nossos destinos de férias são praticamente inacessíveis de bicicleta.
Como nossa filha concorda plenamente com a garota na TV que as emissões de CO2 e as pegadas de seus bisavós são responsáveis por 'matar nosso planeta', o que tudo isso simplesmente significa é que ela também tem que viver como seus bisavós e eles nunca tiveram férias, carro ou bicicleta.
Ainda não falamos sobre a pegada de carbono dos alimentos.
A pegada zero de CO2 significa que não há carne, peixe e aves, mas também não há substitutos de carne à base de soja (afinal, que cresce nos campos dos agricultores, que usam máquinas para colher os feijões, caminhões para transportar para as plantas de processamento, onde mais energia é usada, depois transportada para as fábricas de embalagens / conservas e transportada novamente para as lojas) e também nenhum alimento importado, porque isso tem um efeito ecológico negativo. E absolutamente nenhum chocolate da África, nenhum café da América do Sul e nenhum chá da Ásia.
Apenas batatas caseiras, legumes e frutas cultivadas em solo frio local, porque as estufas funcionam com caldeiras, canalizadas em CO2 e luz artificial. Aparentemente, essas coisas também são ruins para o clima. Vamos ensiná-la a cultivar sua própria comida.
O pão ainda é possível, mas a manteiga, o leite, o queijo e o iogurte, o queijo cottage e o creme são provenientes de vacas e emitem CO2. Não será mais usada margarina nem óleo na frigideira, porque essa gordura é o óleo de palma das plantações de Bornéu, onde as florestas tropicais cresceram primeiro.
Sem sorvete no verão. Sem refrigerantes e sem energia, pois as bolhas são CO2. Ela queria perder alguns quilos, bem, isso também a ajudará a alcançar esse objetivo.
Também proibiremos todo plástico, porque é proveniente de fábricas de produtos químicos. Tudo o que é feito de aço e alumínio também deve ser removido. Você já viu a quantidade de energia que um alto-forno consome ou uma fundição de alumínio? Uber ruim para o clima!
Substituiremos sua bobina 9600, colchão de espuma com memória, com um saco de juta cheio de palha, com um travesseiro de pêlo de cavalo.
E, finalmente, ela não estará mais usando maquiagem, sabonete, xampu, creme, loção, condicionador, pasta de dente e medicamentos. Seus absorventes serão substituídos por absorventes feitos de linho, que ela pode lavar à mão, com sua tábua de madeira, assim como suas ancestrais antes que as mudanças climáticas a deixassem com raiva de nós por destruir seu futuro.
Dessa forma, ajudá-la-emos a fazer sua parte para evitar a extinção em massa, o aumento do nível da água e o desaparecimento de ecossistemas inteiros.
Se ela realmente acredita que quer acompanhar a conversa da garota na TV, aceitará com prazer e abraçará com alegria seu novo modo de vida ".
Fonte: Internet (circulando por e-mail e i-phones). Sem autoria e título explícitos.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

ANSIEDADE


Meraldo Zisman (*)
Médico-Psicoterapeuta
Perguntas que Não Devem/Podem Ser Feitas
Eficácia e Segurança dos Antidepressivos e Psicoterapia para Crianças e Adolescentes
O transtorno de ansiedade infantil é um dos diagnósticos de desordem mental mais frequentes, com uma taxa de prevalência de 15% a 20% e está associado a comprometimento significativo na criança e no adolescente.
Existem várias opções de tratamento para transtornos de ansiedade infantil, incluindo psicoterapia, farmacoterapia e abordagens de tratamento combinado, porém nenhum deles tem se mostrado de eficácia, comprovada.
Diante desse quadro onde as estatísticas apontam que cerca de um em cada quatro americanos terá um transtorno de ansiedade em algum momento de sua vida, seria bom começarmos a pensar na frequência de tal nosologia.
Esses presságios são tão graves quanto as demais inseguranças aportadas com o progresso científico e tecnológico desta contemporaneidade.
Sublinho. Os transtornos de ansiedade são problemas de saúde mental frequentemente vistos em crianças e adolescentes, e não sabemos o que dizer de sua importância/repercussão na vida adulta. A idade média em que os sintomas de ansiedade começam é a de 11 anos. Aproximadamente 5% a 13% das crianças menores de 18 anos apresentam transtorno de ansiedade.
Conferir em: (Arch Pediatr. Adolesc. Med. 2010; 164 (10): 984. doi: 10.1001 / archpediatrics.2010.179). (JAMA Pediatr. Published online August 31, 2017 doi:10.1001/jamapediatrics.2017.3036).
*******
Existem vários tipos de transtornos de ansiedade. Os sintomas nas crianças incluem preocupação grave e incontrolável com vários aspectos de sua vida. Essas manifestações podem incluir timidez; não desejar conversar com pessoas adultas; falta à escola; medo; pânico; sudorese; tremores; dificuldade em respirar, e sentir que algo terrível vai acontecer; dor torácica; coração acelerado; tonturas; náuseas; dor abdominal e dores de cabeça; além de outros que, quando não bem equacionados, podem levar a distúrbios de saúde mental em adultos, como depressão e uso de drogas, além de aumento das taxas de suicídios consumados ou tentados.
Muitas crianças têm preocupações e medos que podem ocorrer em determinadas idades ou estágios de desenvolvimento. Isso é normal. Mas, os transtornos de ansiedade são mais graves e persistentes...
Diante desse quadro, principalmente nas crianças e jovens das camadas populacionais mais afluentes, onde a competição é cada vez mais acirrada, acredito que a medicalização desse desconforto existencial não poderá ser aquilatada jamais por condutas psicoterápicas associadas ou não à epidemia de emprego dos antidepressivos, de resultados incertos e inócuos, e sim nosso foco de atenção deveria ser deslocado para os aspectos preventivos psicossociais.
Não sei como as Instituições e a Literatura Médica Oficial não patrocinam melhores estudos para a profilaxia desse considerado mal do século atual. Ou há perguntas que não devem ser feitas? Valho-me do habeas corpus da idade, após mais de cinquenta anos de prática pediátrica. Será que a ditadura do Mercado serviria para controlar essa ansiedade globalizada? Fica o aviso.
(*) Professor Titular da Pediatria da Universidade de Pernambuco. Psicoterapeuta. Membro da Sobrames/PE, da União Brasileira de Escritores (UBE) e da Academia Brasileira de Escritores Médicos (ABRAMES). Consultante Honorário da Universidade de Oxford (Grã-Bretanha).

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

DRIBLANDO A CENSURA DO FAMILIAR

Cine Familiar. Desenho à bico de pena do artista Tarcísio Garcia.
(Reproduzida do nosso livro "Frei Lauro Schwarte:o apóstolo da juventude do Otávio Bonfim").


Entre 1936 e 1971, o Cine Familiar funcionou, sem interrupção, no Otávio Bonfim, agregado à quadra do Convento de Nossa Senhora das Dores, da Ordem dos Franciscanos Menores, situado em Fortaleza.
Os frades, com o propósito de zelar pela conduta moral de seus fiéis, e também clientes do seu cinema, efetuavam uma triagem dos filmes que poderiam ser ofertados, e, inclusive, dentre os selecionados para projeção, antecipadamente, cuidavam de ver as películas, autorizando cortes de cenas julgadas ofensivas à pudicícia, o que incluía o beijo na boca, até de casais românticos; cenas de sexo, explícitas ou não, sofriam a ação da tesoura, que truncava a sequência, de forma claramente perceptível pela assistência.
Narra-se, até mesmo, um episódio em que um frade, que acompanhava a exibição de um filme, notou que uma cena, cuja sentença capital fora expedida, escapara do corte. Ele, de pronto, sobe à sala de projeção, e interrompe, com a mão, a transmissão do trecho censurado. A atitude dele suprimiu apenas as imagens, enquanto as falas e os sons prosseguiram, o que despertou o protesto da assistência, manifesto em uma estrepitosa vaia.
Uma traquinagem dos pirralhos era bisbilhotar parcela do lixo do convento, pois os frades colocavam-no em um buraco, e ateavam fogo, como forma de destino final das partes censuradas dos filmes. Ao fuçar as cinzas, os aventureiros juvenis encontravam películas queimadas, e, por vezes, captavam pedaços não carbonizados, conformando pequenos troféus, que aguçavam a curiosidade da meninada.
Para os que tinham um pouco mais de recursos, essas preciosidades eram colocadas em uma cartela e apreciadas em um visor de slides; a maioria dos adolescentes, no entanto, considerando que “quem não tem cão, caça como gato”, montava um apetrecho, para visualização dos slides, recorrendo a uma caixa de madeira, em que se introduzia uma lâmpada incandescente, da qual eram removidos o bulbo e os filamentos, cheia de água limpa, deixando-a bem transparente. A caixa funcionava como uma câmara escura, e por meio de um orifício no exterior, à altura da lâmpada, os diapositivos podiam ser vistos ampliados e com maior nitidez.
Essas poucas relíquias, salvas do fogo, como se fossem as sarças ardentes não consumíveis, descritas no Êxodo, eram como a fênix, nascendo das cinzas, para corar as faces de garotos entrados na puberdade, despertando-os para os pecados da carne, e atiçando a vontade de conjugar o verbo conhecer, no sentido bíblico.
Prof. Dr. Marcelo Gurgel Carlos da Silva
Nascido e criado na Paróquia das Dores

* Publicado In: ACADEMIA CEARENSE DE MÉDICOS ESCRITORES. Revista da ACEMES. Fortaleza: ACEMES, 2018. Nº 2. 268p. p.189-90.

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

CRESCIMENTO DAS GESTAÇÕES PUERIS



Meraldo Zisman (*)
Médico-Psicoterapeuta
Dos comentários recebidos sobre o meu último artigo, que comentou o aumento de número de gestações em adolescentes, destaco um que me advertiu que eu deveria ter explicado melhor a relação entre o Abono Barriga e o maior número de gestações pueris, ao invés de misturar com reformas da previdência, trabalhista e outras quimeras enganativas...
O que temo ao abordar tais assuntos é envolver a Ciência da Estatística, deficiente e eivada de erros de coleta, criando mais um diagnóstico de situação apenas numérico, que serve exclusivamente como alavanca ao empoderamento político-ideológico, seguido de belos discursos, retóricos e infinitos.  Os números, nunca esquecer, prestam-se à interpretação que convém ao poder.  Deixando de lado os percentuais estatísticos e partindo para números absolutos, o IBGE informa que, de 1980 a 2000, aumentou em 15% o índice de gravidez na adolescência, na faixa de 15 a 19 anos. Essa é a única faixa etária que vem apresentando aumento de fecundidade no País. Isso é mais evidente nas camadas mais pobres da população. Cerca de 700 mil mulheres de 10 a 19 anos tornam-se mães a cada ano, sendo que 26% do total de partos são feito em mulheres dessa faixa etária. Por outro lado, são internadas por dia quase 150 adolescentes entre 10 e 19 anos, em virtude de abortos provocados. Essa é a quinta maior causa de internação de jovens em unidades do Sistema Único de Saúde. Dois fatos preocupantes são: a tendência de fazer abortos em estado adiantado de gravidez, quando os riscos são muito maiores, e a grande tendência de engravidar novamente.
Para piorar, temos 1,3 milhão de analfabetos, 17,5 milhões não frequentam a escola e 5,3 milhões concluíram apenas o ensino médio; 24 milhões não têm escolarização adequada e 6,6 milhões a têm defasada, com distorção de idade/série. Conferir em: http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/prop_mostrarintegra?codteor=253927.
O termo gestação pueril não existe na prática, pois criança que faz outra criança não é mais criança. É bom lembrar que o termo adolescência foi criado em pleno século XX, em contraponto ao que ocorria durante a revolução industrial, quando se passava diretamente de criança para a idade adulta.
Planos e projetos não possuem o dom de se sobrepor à realidade. O título desta resposta/comentário investe contra o papel da grande mídia brasileira na manipulação dos fatos apresentados à opinião pública. O fato de quem vive de bolsa família ter direito a um conversor grátis que transforma sua televisão de analógica em digital não é fruto do acaso. E ninguém comenta que o Abono Barriga é um incentivo direto à gravidez na adolescência e indireto ao crescimento populacional da ‘classe menos favorecida’, o que beira o crime.
O que se publica por ai é que tudo é uma questão de crise econômica. Mas não existem respostas simples para questões complexas.   
(*) Professor Titular da Pediatria da Universidade de Pernambuco. Psicoterapeuta. Membro da Sobrames/PE, da União Brasileira de Escritores (UBE) e da Academia Brasileira de Escritores Médicos (ABRAMES). Consultante Honorário da Universidade de Oxford (Grã-Bretanha).

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

SUICÍDIO NA ADOLESCÊNCIA DE JOVENS LGBT - Postura Psicossomática

Meraldo Zisman (*)
Médico-Psicoterapeuta
As pesquisas modernas sobre o desenvolvimento sexual demonstram ser a sexualidade humana uma construção dinâmica que deve ser entendida como uma combinação de atração sexual e identidade-gênero.
Os adolescentes gays, lésbicas, ou bissexuais estão propensos a maiores riscos, em comparação com os heterossexuais: abuso de drogas, depressão, suicídio, doenças sexualmente transmissíveis (DST).
A maioria dos estudos indica a prevalência da homossexualidade entre indivíduos adultos (5% a 10%). Estes números também parecem ser consistentes com os dados disponíveis sobre os jovens. Apesar de todos os avanços sócio jurídicos, ser LGBT (lésbica, gay, bissexual ou transexual), na fase de transição da infância para a idade adulta parece ser extremamente estressante, em especial se comparada ao estresse sofrido pelos heterossexuais do mesmo grupo etário.
Apesar disso, existem poucos estudos longitudinais nessa população, sobretudo sobre a questão do suicídio. Não possuímos estudos comparativos quanto ao aumento ou a diminuição do comportamento autocídio, na contemporaneidade. Os adolescentes que experimentam atração pelo mesmo sexo continuam a se rotular como heterossexuais.
O profissional de saúde que pergunte ao adolescente sobre a sua atração ou preferências sexuais não terá respostas sinceras. Perguntar ao adolescente sobre sua atividade sexual e as atrações que sofre, ao invés de perguntar se eles se rotulam como gays, é muito complicado e a maioria negará sua orientação sexual, que é algo que deve ser formulado na anamnese. Feita esta introdução, afirmo ser o suicídio a terceira principal causa de morte entre os adolescentes.
Jovens LGBT são duas vezes mais propensos a tentar o suicídio que seus homólogos heterossexuais. Estar ciente do risco de suicídio em pessoas com distúrbios de gênero é mandatório na política de prevenção. Compreender os fatores de risco e a ideação suicida é crucial para melhorar a prevenção e formular estratégias de conduta do profissional de saúde.
Em paralelo, um forte apoio social pode ajudar a proteger gays, lésbicas, bissexuais e transgenéricos contra os pensamentos suicidas, automutiladores ou de risco. O apoio dos familiares, do ambiente escolar, de programas para reduzir o bullying tem se mostrado alentadores. Atitudes sócio educacionais isentas de preconceito tem se mostrado de valia em algumas ocasiões, porém desconheço estudo sobre esse aspecto.
Para o adolescente, o primeiro contato com um profissional da área médica é com o pediatra, médico de família, ou internista. Se esses profissionais estiverem orientados, perceberão o perigo a que essa população enfrenta. Conhecimento do profissional e sensibilidade em relação às questões da sexualidade influenciam fortemente o nível de conforto do paciente na busca de cuidados de saúde, em futuro que se avizinha.
Eu creio que realmente temos de nos informar a respeito de quê caminhos podemos tomar para ajudar a reduzir o suicídio na juventude gay. Seria uma nova maneira de tratar o problema, para a qual a Psicossomática estaria apta a atuar nas diversas especialidades médicas.
Para maiores esclarecimentos consultar: 'Am J Prev Med. 2012; 42:221-228'. A outra mensagem para os profissionais de saúde é não fazer julgamentos e usar linguagem neutra e sem preconceito ao lidar com jovens LGBT. Preconceito é sentimento maléfico, mesmo quando positivo.
(*) Professor Titular da Pediatria da Universidade de Pernambuco. Psicoterapeuta. Membro da Sobrames/PE, da União Brasileira de Escritores (UBE) e da Academia Brasileira de Escritores Médicos (ABRAMES). Consultante Honorário da Universidade de Oxford (Grã-Bretanha). Foi um dos primeiros neonatologistas brasileiros.

sexta-feira, 28 de julho de 2017

RESPONSABILIDADE DA GERAÇÃO PASSADA


Meraldo Zisman (*)
Médico-Psicoterapeuta
Texto de um Facebook(*)
“Essa semana uma amiga passou mal, foi levada a emergência e enquanto tava sendo medicada não parava de pensar nos textos que precisava ler e no quanto não podia adoecer simplesmente pq precisava se esgotar entre mestrado, graduação e estágio. Tem uns dois semestres que eu venho inventando força do além pra não surtar, não enlouquecer enquanto luto contra a depressão trabalhando dez horas por dia, fazendo graduação e me preparando pra uma pós. Todo semestre alunos trancam cursos pq ou priorizam sua saúde mental e abandonam o curso ou se matam. Todo fim de semestre estudantes universitários movimentam o mercado de remédios controlados pra ficarem acesos pras provas. Todos fins de semestres alunos têm crises e mais crises de ansiedade, depressão e pânico por precisar da conta de uma rotina enlouquecedora de provas e afins. Mais da metade dos meus amigos da faculdade desenvolveram algum transtorno psíquico durante o curso. O TCC e o exame da ordem adoecem e enlouquece mais da metade dos alunos de direito.
Hoje, um rapaz no meio de ataque psíquico ameaçou explodir com bombas (que depois foi comprovado que não era nada mais que balas de gengibre) o local onde iria ser realizada a prova da OAB. Hoje algumas centenas de pessoas passaram pelo pior dia das suas vidas, acharam que morreriam, tiveram crise de pânico e desespero.
Hoje quem surtou foi o tal “homem bomba”. Mas, hoje poderia ser qualquer um estudante universitário que se vê sobrecarregado com dinâmicas e pressões mil sobre o presente e sobre a necessidade de ter respostas e soluções mágicas do futuro. Más, amanhã quando a poeira baixar o sistema de educação universitária vai continuar surtando e adoecendo tantos alunos. Já passou da hora de reavaliar os métodos educacionais atuais".
(*) Post editado por faltar certeza sobre as causas do suicídio do colega e enviado por um pai de uma jovem.
*****
Não estou aqui desejando fazer autobiografia sobre a minha experiência pretérita de Pediatra ou Psicoterapeuta de Jovem, porém acredito ser pertinente este artigo que acabei de escrever.
Qual a responsabilidade das pessoas de gerações anteriores, ainda vivas?
A pergunta refere-se ao encargo que cada um tem com relação ao mundo que deixa para a posteridade. Ou se continuaremos, depois de partir, a influenciar as pessoas pelas quais fomos responsáveis.
O conhecimento que passamos aos que ficam, a impressão do formato das ideias que transmitimos, na intenção de fazer com que os fulanos permaneçam comprometidos são a nossa responsabilidade para com um mundo pelo qual não somos mais responsáveis. Independentemente de crermos ou não na vida após a morte.
A geração atual passou pela infância, adolescência e entrou na idade adulta habitando um planeta digital e nós, que desconhecíamos esse planeta, não tínhamos nada para comparar seus méritos ou vícios com os avanços tecnológicos.
O meu GPS não estava pronto e aprendi a viver com ele. Como a linguagem da informática não foi minha língua materna, falo com sotaque, mas me comunico. Se os jovens não forem alertados a tempo, a quantidade absurda de informação poderá tornar-se muito perigosa para a soberania pública. É bom lembrar que temos ainda a esperança de que, em certo momento, uma probabilidade fundamentada na facilidade digital nos permita alcançar algo que possa pôr fim às excentricidades e futilidade deste contemporâneo cibernético…
O mundo só pode andar pra frente. Não valeria a pena chegar aos setenta, agora aos mais de oitenta anos, se toda a sabedoria do mundo fosse tolice acumulada. Aprendi como médico psicoterapeuta não negar a ninguém a religião, se nada melhor existe para pôr no seu lugar. De qualquer maneira, nós somos o que fazemos. O que não se faz não existe. Portanto, só existimos quando fazemos. Nos dias que não fazemos, apenas duramos e então, perdemos a razão de viver.
A responsabilidade do idoso (não confundir com velho) é, enquanto possível, tentar instruir, educar, exemplificar, a partir de nossa vivência, os que irão prosseguir na jornada e nunca ‘dizer no meu tempo’, pois o tempo é o mesmo enquanto vivo formos velhos, moços ou crianças. Enquanto vivos, temos essa obrigação. No entanto, existem três tipos de pessoas cuja vida não merece este nome: as de coração mole, as de coração duro e as de coração pesado.
Concluo dizendo que cada geração trabalha pelos seus cômodos e felicidades e desconhece que na verdade vive para as gerações seguintes. A vida responsável não termina quando se morre. Lembro uma coisa: o tempo da vida é o tempo da memória. E tem mais, às pessoas respeitam quem se respeita a si mesmo. Jamais devemos perder a capacidade de nos indignar.
(*) Professor Titular da Pediatria da Universidade de Pernambuco. Psicoterapeuta. Membro da Sobrames/PE, da União Brasileira de Escritores (UBE) e da Academia Brasileira de Escritores Médicos (ABRAMES). Consultante Honorário da Universidade de Oxford (Grã-Bretanha).

segunda-feira, 17 de julho de 2017

ABUSO DE MEDICAÇÃO


Meraldo Zisman (*)
Médico-Psicoterapeuta
É inegável que a geração de crianças nascidas nesta era, a da tecnologia, é diferente das anteriores, e as escolas precisam se adequar ao novo perfil do alunato. Pais, mestres e/ou responsáveis necessitam repensar como devemos olhar as crianças e os adolescentes, na contemporaneidade. Adianto que sou do tempo em que se respeitavam os jovens como pessoas e, não os deixavam ao léu, largados, sem lhes impor limites e/ou regras. Por outro lado, as expectativas em relação às crianças e aos adolescentes aumentaram, sobremaneira, na tradicional classe média urbana brasileira. O que está ocorrendo é uma inversão de atributos. Todos se consideram capazes de educar, mas, na verdade, quando todos acreditam que educam ou ensinam, ninguém educa ou ensina.
Por motivos diversos, os pais e/ou responsáveis exigem, dos educandários, o que não conseguem realizar no interior dos lares. Acredito que, na maior parte das vezes, a capacidade de vencer na vida, é um desígnio dos pais, dentro dos lares. Atribuir essa tarefa aos professores representa uma fonte de insegurança. Os professores não estão capacitados, tampouco foram preparados, para desempenhar tal papel. Pais ausentes, que não podem dar a devida atenção aos seus filhos, procuram viabilizar, através de sua descendência, aquilo que desejavam ter alcançado.
Sendo assim, terceirizam seus planos e sonhos para as escolas. Sob pressão constante, as escolas e os profissionais das áreas psicológica, psiquiátrica e/ou psicopedagógica, passam a atribuir aos alunos, não poucas vezes, o diagnóstico de portadores de TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade ou DDA/TDA - Distúrbio/Transtorno de Déficit de Atenção com ou sem hiperatividade (salvo as exceções de praxe). Sendo assim, os jovens são medicados, desnecessariamente.
Uma matéria recente, publicada no jornal New York Times (dezembro de 2011), ressalta a escassez de medicamentos psicoativos. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS, 1981) cabe relembrar: os medicamentos psicoativos "são aqueles que alteram o comportamento, o humor e a cognição". Isto significa, portanto, que tais drogas agem, preferencialmente, nos neurônios, afetando o sistema nervoso central, ou seja, a mente humana.
O tratamento para o TDAH ou DDA/TDA leva, muitas vezes, à depressão, ao pânico, à ansiedade, aos distúrbios de linguagem, e outros mal-estares psiquiátricos. Os fabricantes das drogas Ritalina® e Concerta® (medicamentos que possuem o mesmo nome, no Brasil), reclamam da falta de previsão, por parte da Food and Drug Administration (FDA), a Agência controladora da produção e distribuição dos medicamentos, nos Estados Unidos. Neste sentido, a produção de drogas similares e genéricas, naquele país, como entre nós, apresenta-se bem menos dispendiosa, porém, não tem sido capaz de suprir a demanda do mercado norte americano.
Não compete a mim, como médico ou professor titular aposentado de Pediatria, discutir o poder da indústria farmacêutica, ou os abusos de diagnósticos. No entanto, confesso que me causou espanto, o fato de a medicação ter passado a ser receitada para melhorar o desempenho escolar de jovens que, em verdade, são completamente normais. Isto é um fato gravíssimo! Essas medicações estimulantes são, no presente, as drogas psiquiátricas mais receitadas para crianças e adolescentes. Daí, para o abuso de outras medicações assemelhadas, basta um pequeno passo.
(*) Professor Titular da Pediatria da Universidade de Pernambuco. Psicoterapeuta. Membro da Sobrames/PE, da União Brasileira de Escritores (UBE) e da Academia Brasileira de Escritores Médicos (ABRAMES). Consultante Honorário da Universidade de Oxford (Grã-Bretanha).

sexta-feira, 16 de junho de 2017

BULLYNG - Violência Escolar

Meraldo Zisman (*)
Médico-Psicoterapeuta
Bullying é um termo inglês empregado para descrever atos de violência física ou psicológica, intencionais e repetidos, que são praticados seja por uma pessoa, ou seja por um grupo de "valentões", com o objetivo de intimidar e/ou agredir uma ou várias pessoas incapaz (es) de se defender.
Por não existir uma palavra equivalente na língua portuguesa, capaz de expressar todas as situações possíveis de bullying, registro, a seguir, algumas ações que estão relacionadas a esse tipo de violência: colocação de apelidos, humilhações, ofensas, discriminações, assédios, gestos violentos, agressões, empurrões, chutes, tapas, ferimentos, destruição de pertences, intimidações, entre outros.
Uma pesquisa realizada pelo Institute Warwick Medical School, da University of Warwick, Coventry, na Inglaterra, e que foi publicada no Arch. Gen. Psychiatry, em 2009, concluiu que as vítimas das agressões acima citadas se tornavam mais susceptíveis de apresentar sintomas psicóticos, no início da adolescência. Neste sentido, das 6.437 crianças estudadas desde o nascimento, e submetidas anualmente a avaliações física e psicológica, aquelas que haviam sofrido agressões, por parte dos colegas, apresentaram uma propensão, quatro vezes maior, de desenvolver sintomas psicóticos - alucinações, delírios e distúrbios de pensamentos - na pré-adolescência, quando comparadas com as crianças que não sofreram violências (o grupo de controle).
Mesmo aquelas que não foram vitimizadas, e, apenas, presenciaram as cenas de vandalismo em relação aos colega(s), temendo vir a se tornar a próxima vítima, estavam mais propensas a ser pessoas desajeitadas, do ponto de vista social, e mais susceptíveis de ser alvo de chacotas, quando adultos, principalmente em âmbito profissional. O mesmo resultado foi encontrado em uma pesquisa realizada com gêmeos monozigóticos, que frequentaram educandários distintos: aquele que sofreu agressões de seus pares apresentou dificuldades sociais, ao passo que seu irmão (ou irmã), que não vivenciou tal situação, não apresentou qualquer dificuldade social.
De forma geral, então, a violência escolar deveria ser um alvo de maior interesse, em se tratando da prevenção e intervenção precoce à saúde mental e à profilaxia das psicoses. E, se 10% das crianças inglesas sofreram ou virão a sofrer algum tipo de agressão, por parte dos seus colegas, imaginem os(as) leitores(as), em nosso país, o percentual de casos que existe entre as crianças das populações marginalizadas.
Arrematando: o bullying aumenta, sobremaneira, a probabilidade de as crianças desenvolverem transtornos psiquiátricos, a exemplo da esquizofrenia e da depressão na adolescência, estendendo-se isso à vida adulta. Por sua vez, as crianças e adolescentes que são abusadoras(es), no presente, também estão propensos a desenvolver comportamentos antissociais no futuro. Portanto, qualquer tipo de violência na idade escolar, deve ser encarado como um sério problema, agora e sempre.
(*) Professor Titular da Pediatria da Universidade de Pernambuco. Psicoterapeuta. Membro da Sobrames/PE, da União Brasileira de Escritores (UBE) e da Academia Brasileira de Escritores Médicos (ABRAMES). Consultante Honorário da Universidade de Oxford (Grã-Bretanha).
 

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