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segunda-feira, 14 de setembro de 2026

ITA Ceará tem primeira fase concluída e licitação da terceira marcada para 19 de outubro

Por Adriano Queiroz, jornalista de O Povo

Fases seguintes incluem reforma da Base Aérea de Fortaleza e construção de mais um bloco de alojamentos de alunos

RESUMO: A primeira fase da construção do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) Ceará está 100% concluída. A informação foi dada pela presidente do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), Fernanda Pacobahyba.

A primeira fase das obras, que contempla o prédio das engenharias, está concluída, explica a gestora, embora ainda não tenha sido inaugurado devido ao período de defeso eleitoral. Já o primeiro bloco de alojamento dos alunos foi inaugurado em 1º de abril.

A licitação para a terceira fase do projeto está prevista para 19 de outubro. “Na segunda fase está em reforma toda a Base Aérea de Fortaleza, lembrando que é uma base que estava praticamente desativada. As instalações bem degradadas estão sendo 100% reformadas”, explicou.

“E aí nós temos equipamentos, mobiliários, toda a parte de laboratório sendo adquirida também. O ITA Ceará já conta com professores, com técnicos administrativos, todo o corpo funcional já está aqui nas dependências esperando os nossos alunos que devem chegar no início de 2027. O ITA Ceará já é uma realidade e é uma grande vitória do nosso povo cearense e do governo do Brasil”, exaltou.

Além das explicações da presidente do FNDE, o Fundo trouxe outros detalhes em comunicado enviado com exclusividade ao O POVO. A primeira fase das obras, por exemplo, envolveu investimentos de pouco mais de R$ 75,8 milhões para a construção do prédio das engenharias e do primeiro bloco de alojamentos.

A segunda fase prevê investimentos de R$ 91,2 milhões, estando com 75,05% de obras executadas para a reforma da estrutura existente da Base Aérea de Fortaleza e implantação de infraestrutura viária, elétrica e hidrossanitária.

A terceira fase inclui a consolidação e expansão do campus, com a construção de um segundo alojamento, de um prédio administrativo, de um complexo esportivo, além de obras de urbanização, acessibilidade e drenagem. O valor previsto atualmente é de R$ 186,9 milhões.

Além das obras, o MEC disse estar investindo na estruturação física e operacional do novo campus do ITA em Fortaleza, por meio da aquisição de bens e de contratação de serviços, voltados à implantação de ambientes acadêmicos e laboratoriais.

Como exemplo, está previsto o investimento em equipamentos de laboratórios o montante de R$ 64,2 milhões. Já para mobiliário e estrutura física está previsto o montante de R$ 27,2 milhões. O total em investimentos operacionais chega a R$ 94,4 milhões.

O comunicado também lembrou que o primeiro processo seletivo específico para o ITA Ceará ocorreu em 2024, tendo a primeira turma começado o Curso Fundamental em 2025 e 2026, ainda no campus de São José dos Campos (SP). O Ciclo Profissional será em Fortaleza para quem optar pelos cursos de Engenharia de Sistemas ou Engenharia de Energia e terá duração de três anos, com aulas previstas para começar em março de 2027.

O informe também destacou o concurso público realizado pelo ITA que selecionou 110 profissionais de níveis técnico e superior. “Os novos servidores tomaram posse e estão exercendo suas atividades no novo campus em Fortaleza, em atividades de planejamento de aulas, pesquisa e desenvolvimento dos laboratórios, além de interação com a comunidade local”, afirma a nota.

Por fim, foi assinado um Termo de Execução Descentralizada (TED) entre FNDE, ITA e a Universidade Federal do Ceará (UFC) para a concepção de uma sala imersiva que vai contar a história do ITA e da implantação do novo campus no Ceará.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 11/08/26. Economia. p.12.

sábado, 12 de setembro de 2026

Medicina: 9 entidades defendem o Enamed. CFM discorda III

Por Gabriele Félix, jornalista de O Povo.

Leia a nota do Conselho Federal de Medicina na íntegra:

O Conselho Federal de Medicina (CFM) reafirma a necessidade de mecanismos que assegurem a qualidade da formação médica no Brasil, mas alerta que a Medida Provisória (MP) nº 1.370/2026, que estabelece a aprovação no Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) como pré-requisito para o registro profissional do médico nos Conselhos Regionais de Medicina (CRMs), não responde à principal pergunta de interesse da sociedade: quem garante que uma prova com 100 questões de múltipla escolha, como prevê a MP, vai avaliar se um médico está efetivamente preparado para atender pacientes?

Avaliar escolas médicas é importante e necessário. No entanto, avaliar se um médico está apto para exercer a profissão exige muito mais do que uma prova voltada à aferição da qualidade dos cursos de graduação. O Enamed foi concebido como instrumento de avaliação educacional, destinado a medir o desempenho dos cursos de medicina e subsidiar políticas de supervisão e regulação do ensino superior. Trata-se de uma finalidade distinta daquela necessária para certificar a capacidade profissional de um futuro médico.

Aspectos fundamentais para a prática médica não são adequadamente avaliados pelo modelo proposto na MP nº 1.370/2026, entre eles habilidades clínicas, comunicação com pacientes, realização de procedimentos médicos, competências éticas e avaliação prática. São justamente esses elementos que fazem diferença no atendimento real e impactam diretamente a segurança dos pacientes.

Outro ponto de preocupação é a concentração de atribuições no mesmo sistema estatal responsável por autorizar, reconhecer, supervisionar e fiscalizar escolas médicas, que agora também vai aplicar o exame utilizado para avaliar os resultados desse próprio modelo. Essa sobreposição compromete a independência necessária aos processos de aferição da qualidade da formação médica.

As nove entidades que integram o movimento são: Associação Brasileira de Educação Médica (Abem), Associação Nacional das Universidades Particulares (Anup),  Associação Brasileira das Mantenedoras de Ensino Superior (Abmes), Associação Brasileira das Faculdades (Abrafi),  Associação Nacional dos Centros Universitários (Anaceu), Associação Nacional de Educação Católica do Brasil (Anec), Confederação Nacional dos Estabelecimentos de Ensino (Confenen), Sindicato das Entidades Mantenedoras de Ensino Superior de São Paulo (Semesp) e Sindicato das Entidades Mantenedoras de Ensino Superior do Rio de Janeiro (Semerj).

Conceito

O Enamed é uma prova aplicada a estudantes de medicina, nos últimos períodos do curso, para medir conhecimentos e competências desenvolvidos ao longo da graduação

Fonte: Publicado In: O Povo, de 3/08/2026. Cidades. p.15.

Medicina: 9 entidades defendem o Enamed. CFM discorda II

Por Gabriele Félix, jornalista de O Povo.

Medida Provisória propõe ampliação do Enamed; conselhos e entidades são contra

A Medida Provisória (MP) nº 1.370, de 19 de junho de 2026, também em tramitação, prevê a aplicação do Enamed em duas etapas da graduação e a aferição da proficiência médica. O Movimento "Uma Só Régua" destaca que a iniciativa aproxima-se da segunda etapa do exame da fase teórica do Revalida.

Com isso, permite o uso da nota no acesso direto a programas de Residência Médica e cria o Sistema Nacional de Avaliação da Residência Médica, passando a integrar, em uma mesma referência nacional, a graduação, a proficiência, a residência e a validação de diplomas.

Procurado pelo O POVO, o Conselho Federal de Medicina (CFM) reafirmou, em nota, que a necessidade de mecanismos que assegurem a qualidade da formação médica no Brasil.

Segundo o órgão, a medida provisória “não responde à principal pergunta de interesse da sociedade: quem garante que uma prova com 100 questões de múltipla escolha, como prevê a MP, vai avaliar se um médico está efetivamente preparado para atender pacientes?”.

O conselho destacou ainda que o Enamed foi concebido como instrumento de avaliação educacional, destinado a medir o desempenho dos cursos de medicina e subsidiar políticas de supervisão e regulação do ensino superior. Trata-se de uma finalidade distinta daquela necessária para certificar a capacidade profissional de um futuro médico.

“(...) avaliar se um médico está apto para exercer a profissão exige muito mais do que uma prova voltada à aferição da qualidade dos cursos de graduação”, diz o texto.

A entidade afirma ainda que “aspectos fundamentais para a prática médica não são adequadamente avaliados pelo modelo proposto na MP nº 1.370/2026, entre eles habilidades clínicas, comunicação com pacientes, realização de procedimentos médicos, competências éticas e avaliação prática”.

O CFM também destaca preocupação com o que chamou de “concentração de atribuições no mesmo sistema estatal responsável por autorizar, reconhecer, supervisionar e fiscalizar escolas médicas, que agora também vai aplicar o exame utilizado para avaliar os resultados desse próprio modelo”.

Por fim, o Conselho Federal defende o modelo previsto no Projeto de Lei nº 2.294/2024, que contempla o Exame Nacional de Proficiência em Medicina.

Presidente do Conselho Regional de Medicina do Estado do Ceará (Cremec), a conselheira Inês Tavares Vale e Melo reforçou o posicionamento da entidade nacional. “A nossa posição está alinhada com a do CFM. A segurança dos pacientes é uma prioridade para o Conselho Federal de Medicina e todos os Regionais. Por isso, o CFM e o Cremec apoiam a aprovação do Projeto de Lei nº 2.294/2024”, afirmou.

De acordo com o conselho regional, “toda a população ganha com o ProfiMed, que é mais uma medida para fortalecer a segurança da assistência médica. Entendemos que quem fiscaliza o exercício da Medicina deve coordenar o ProfiMed. O Conselho Federal de Medicina é a autarquia responsável por fiscalizar e disciplinar o exercício profissional da Medicina no Brasil”.

O Cremec defende que o ProfiMed busca verificar a proficiência dos médicos recém-formados, “contribuindo para um exercício profissional cada vez mais seguro e responsável”.

Sobre o assunto, o presidente da Sociedade Brasileira de Direito Médico e Bioética (Anadem), Raul Canal, argumenta que a medida tende a gerar efeitos positivos para todo o sistema de saúde.

A criação do Profimed representa um avanço relevante para a qualificação da prática médica. Um exame de proficiência amplia a segurança da população e também protege o profissional ao estimular padrões técnicos mais elevados. Com médicos mais preparados, a tendência é reduzir a judicialização relacionada a falhas assistenciais”, pontuou.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 3/08/2026. Cidades. p.15.


Medicina: 9 entidades defendem o Enamed. CFM discorda I

Por Gabriele Félix, jornalista de O Povo.

RESUMO: Em tramitação no Congresso Nacional, o Projeto de Lei n° 2294, de 2024, propõe instituir o Exame Nacional de Proficiência em Medicina. A iniciativa motivou a criação, em julho passado, do Movimento "Uma Só Régua", que reúne nove entidades representativas do ensino superior particular e da educação médica no Brasil e defende a existência de uma avaliação unificada.

Para os representantes do “Uma Só Régua”, a institucionalização do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) é a solução ideal para assegurar a avaliação dos cursos de medicina como uma política de estado.

As nove entidades que integram o movimento são: Associação Brasileira de Educação Médica (Abem), Associação Nacional das Universidades Particulares (Anup), Associação Brasileira das Mantenedoras de Ensino Superior (Abmes), Associação Brasileira das Faculdades (Abrafi), Associação Nacional dos Centros Universitários (Anaceu), Associação Nacional de Educação Católica do Brasil (Anec), Confederação Nacional dos Estabelecimentos de Ensino (Confenen), Sindicato das Entidades Mantenedoras de Ensino Superior de Sao Paulo (Semesp) e Sindicato das Entidades Mantenedoras de Ensino Superior do Rio de Janeiro (Semerj).

O projeto, de autoria do senador Astronauta Marcos Pontes (PL-SP), condiciona a inscrição no Conselho Regional de Medicina à aprovação do Exame Nacional de Proficiência em Medicina (Profimed).

De acordo com o documento inicial, a prova seria oferecida pelo menos duas vezes ao ano em todos os Estados e no Distrito Federal, cabendo ao Conselho Federal de Medicina (CFM) a regulamentação e a coordenação nacional do exame, e aos Conselhos Regionais de Medicina a aplicação da avaliação.

A justificativa para a criação do PL destaca os “maus resultados na prova do Conselho Regional de Medicina de São Paulo (Cremesp)”. “Os resultados da prova, aplicada no Estado mais rico da Federação, evidenciaram um cenário temerário no que tange à qualidade dos recém-graduados em Medicina”, afirma o texto.

E acrescenta: “Temos hoje no País um quadro de proliferação indiscriminada de cursos de Medicina, realidade que aponta para o provável agravamento das deficiências verificadas no ensino médico”.

Em 2025, os resultados do Enamed preocuparam ministérios e entidades. Cerca de 30% das 351 instituições que participaram do exame obtiveram conceitos 1 e 2, considerado insatisfatório. No Ceará, três cursos de Medicina obtiveram nota máxima e um foi punido por nota baixa.

Em entrevista ao O POVO, o presidente da Associação Nacional das Universidades Particulares (Anup) e representante do “Uma Só Régua”, Juliano Griebeler, argumenta que não faz sentido a existência de duas provas distintas, o Enamed e o Profimed, com objetivos semelhantes, o que geraria redundância, custos extras para o aluno e perda de sinergia no processo avaliativo.

Quando você coloca os dois dentro da mesma prova, o Enamed tem um peso grande para a instituição, mas é importante para o aluno também, você acaba tendo uma sinergia maior”, explica.

Juliano Griebeler destaca ainda a importância do exame ser aplicado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), justificando que o órgão possui estrutura e experiência em avaliações nacionais.

Porque fazer uma outra prova que um outro ente teria que se dispor a fazer organização e todo esse processo? Então vai muito nesse sentido. O Conselho Federal de Medicina é um conselho importante que tem a sua atuação, mas a gente entende que a principal atuação dele é muito no exercício da profissão em si”, detalha.

Ao O POVO, o Ministério da Educação (MEC), afirmou que o exame busca garantir parâmetros para a formação médica objetivando assegurar que a população seja atendida por profissionais qualificados, formados em cursos devidamente avaliados pelo órgão.

"A Medida Provisória nº 1.370/2026 ampliou o papel do exame, que passa agora a funcionar também como certificação de proficiência para o exercício legal da profissão, para os médicos que ingressam nas instituições de ensino após a publicação da MP. O normativo também permite subsidiar a criação de um sistema nacional de avaliação da residência médica e reforçar as contrapartidas dos cursos de Medicina junto à rede pública de saúde", complementa a nota do MEC.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 3/08/2026. Cidades. p.15.

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

VIOLÊNCIA NA ESCOLA: quando o alvo são os professores

Por Sofia Lerche Vieira (*)

Recente editorial de jornal de circulação nacional (Folha de São Paulo, 28 jul. 2026) trata de uma face pouco discutida da violência no interior da escola - a agressão física, verbal e psicológica a professores. Mais do que um problema isolado, reflete um cenário mais amplo de intolerância, conflitos e fragilidade nas relações sociais. O ambiente do qual se espera desenvolvimento humano e aprendizagem tornou-se, para muitos, um espaço de insegurança.

A esse respeito, o Brasil é destaque negativo no cenário internacional. Pesquisa da OCDE (2024), mostra que 47% dos professores do país consideram intimidações e abusos verbais praticados por alunos uma importante fonte de estresse, percentual superior à média de 18% registrada entre cerca de 50 países. O Brasil ainda lidera o tempo perdido com interrupções e indisciplina, comprometendo a qualidade do ensino.

Outro dado impactante refere-se a estudo do Centro do Professorado Paulista -CPP (2025), onde há registro de que 65% dos docentes já sofreram algum tipo de agressão no ambiente escolar. A violência verbal lidera as ocorrências, atingindo 71% dos casos, seguida pela psicológica e moral (58%), institucional (27%) e física (19%). Além disso, 74% dos professores afirmam não se sentir seguros em sala de aula.

Se casos de maior gravidade devem ser investigados pelas autoridades competentes, situações de tal natureza demandam, sobretudo, prevenção. O Unicef, por exemplo, recomenda a criação de protocolos específicos para lidar com agressões, sistemas acessíveis de denúncia e monitoramento, além de programas voltados à mediação de conflitos, cooperação, autocuidado e educação emocional.

Especialistas defendem ainda maior integração entre escola, família e comunidade, sem esquecer ação efetiva do Estado no combate a toda sorte de crimes de ódio. Tão importante quanto valorizar os professores, melhorar suas condições salariais e trabalhistas é assegurar sua integridade física e psicológica. Há algo de assustador em uma sociedade que aceita com naturalidade que seus professores se tornem alvo de violência.

(*) Professora do Programa de Pós-Graduação em Educação da Uece e consultora da FGV-RJ.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 10/08/26. Opinião. p.18.


quinta-feira, 3 de setembro de 2026

MEU COLÉGIO INESQUECÍVEL

Por Romeu Duarte Junior (*)

Aos meus amigos do Colégio Cearense

O ano de 2026 é, para mim, motivo de dupla comemoração. Em 1966, há 60 anos, fui matriculado com muita dificuldade por meus pais no Colégio Cearense Sagrado Coração. O empecilho não era porque eu fosse um péssimo aluno, mal educado, traquinas e respondão e sim porque, como era à época a melhor instituição de ensino pública e privada do Ceará, cobrava caro de quem queria lá estudar e meus pais eram de classe média rasteira. Ao contrário: vinha de um começo de primário muito bem feito no Grupo Escolar Visconde do Rio Branco onde fiz o jardim de infância, a alfabetização (foi a minha mãe que lá ensinava que me alfabetizou, um charme, não?) e o primeiro ano primário. Agora iria enfrentar o segundo ano, de farda azul e branco, todo orgulhoso de mim mesmo.

Quase todo dia, logo cedo de manhã e antes do início das aulas, cantávamos os hinos do Brasil e do colégio. Até hoje ressoa em meus ouvidos aquela saudosa canção, cuja letra sei de cor: "Mocidade do Colégio Marista, à sombra do estandarte de Maria...". A educação era de alta qualidade e o sistema disciplinar rigoroso, às vezes injusto. Nossas mestras eram carinhosas e colaborativas, mas sabiam torcer o pepino na hora certa. O tempo do latim e da palmatória já havia passado, mas a pesada carga horária de estudo, a árdua cobrança e as provas difíceis não eram brinquedo. O primário passou bem rápido, momento em que fiz amizades para toda uma vida. O ginásio nos aguardava, com mais desafios. Não temíamos o que viria, pois nosso lema, como no hino, era, "lutar e vencer".

Em 1973, na 4ª série ginasial, o colégio, que só tinha alunos, passou a operar em regime misto, razão da nossa súbita felicidade. As meninas passavam rindo e isso nos enchia de alegria. Foi quando conheci aquele que seria o professor que mais me marcou naquele tempo: Onélio Porto. Além de ensinar diversas disciplinas, era o mentor do Combinado nas Olimpíadas Champagnat e ainda tinha agenda para sair no Maracatu Ás de Ouro no Carnaval e cuidar do zoológico que existia na Cidade das Crianças. Nossos interesses, assim como as espinhas nas nossas caras, aumentaram: futebol, rock'n'roll e as meninas, entre outros. Tal como o primário, o ginásio voou. Agora a tarefa seria encarar o científico e se preparar para o vestibular. Queria ser engenheiro, o que acabei não sendo...

Biologia, Física, Matemática, Português, Química. Naquela época não havia prova de redação; todavia, se houvesse, não haveria problema. No 3º ano, o cursinho, tal como era chamado, entraram vários alunos do Colégio Militar. Em 1976, portanto há 50 anos, terminamos nossa passagem no colégio, sabidos e aplicados, porém ingênuos. Fiz o exame para ser aceito na Universidade Federal do Ceará (UFC). Fui aprovado para engenharia entre os primeiros. Depois prestei vestibular mais duas vezes e entrei na arquitetura, onde me achei. O resto é história. Minhas lembranças do colégio são doces e amargas, aquelas em muito maior número que estas. Ficam as marcas de uma formação bastante qualificada, e que até hoje me serve, e a da severa disciplina. Moldou-me tal como sou, por Deus, pela pátria e por Maria...

(*) Arquiteto e professor da UFC. Sócio do Instituto do Ceará. Colunista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 3/08/26. Vida & Arte. p.2.


quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Quem ganhou a copa? Espanha ou Japão?

Por Tales de Sá Cavalcante (*)

Nas corridas de cavalos na Inglaterra, quando havia apenas um competidor apto a disputar a prova, bastava caminhar (to walk) até o ponto de chegada para ser considerado vencedor, sem precisar competir de fato.

Neste caso, para indicar uma vitória por ausência do adversário, ou sem competição, passou-se a usar a expressão inglesa "Walkover" - depois abreviada para W.O., a designar vencedor sem contenda.

A Espanha ganhou, com disputa, a tradicional Copa, mas, se tivéssemos criado a Copa do Meio Ambiente, o Japão teria ganho todos os jogos por W.O., porque sua torcida deu exemplo ao recolher, sempre, o lixo nas arquibancadas, após os jogos nipônicos.

Como um dos coordenadores do Programa de Escolas Associadas à Unesco, fui um dos visitantes a colégios japoneses quando, entre outras atividades, assistimos a aulas juntamente com as crianças. No final da manhã, os estudantes formam várias equipes. Uma delas transforma as carteiras escolares em mesas para o almoço, que se dá na própria sala de aula. Alguns vão à cozinha e trazem os alimentos. Um grupo deles serve-os. Outros recolhem a louça e as sobras. Após a refeição, uns limpam a sala e removem as cestas de lixo.

O que os japoneses fizeram na Copa do Mundo não foi sacrifício algum. Faz parte de sua cultura. Para quem viu tudo isso, não foi surpresa observar que, no metrô, em atenção aos vizinhos, as pessoas não usam o telemóvel por voz e se comunicam apenas com mensagens, para evitar o incômodo a terceiros. No aeroporto, há cabines telefônicas sem telefone exclusivamente para o uso de celulares.

O garçom não aceita gorjeta e se ofende se você deseja concedê-la. Para eles, o bom serviço independe de gratificação. Objetos e dinheiro são recebidos com as duas mãos. Cumprimentos não são feitos com mãos a trocar bactérias senão por mesuras; e, quanto maior o respeito, maior a curvatura do corpo.

Valorizam os mais velhos, as hierarquias, as autoridades, o próximo, a disciplina, os valores coletivos, o bem comum, a harmonia entre tradição e modernidade, a educação e a priorização do social sobre o individual. Chegaremos lá? 

(*) Reitor do FB UNI e Dir. Superintendente da Org. Educ. Farias Brito. Presidente da Academia Cearense de Letras.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 23/07/26. Opinião, p.18.


segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Desenvolvimento integral da educação superior

Por Cândido B.C. Neto (*)

A pactuação feita pelos entes federados há mais de dez anos, com ampla participação das comunidades educacionais do País, foi responsável pela elaboração e implementação das estratégias dos planos decenais da educação, a partir do nosso Plano Nacional de Educação- PNE, Lei Nª 13.005 (2015-2025). O documento teve o regime de colaboração e a participação social.

A centralidade do direito à educação, da qualidade, da equidade, da inclusão e da aprendizagem serviram para a implementação das políticas públicas da Educação. A consideração de múltiplas fontes de dados oficiais, incluindo informações demográficas, sociais, econômicas e territoriais, subsidiaram o Programa de Desenvolvimento Integral da Educação Superior do Ceará (MAPP 241).

A especificidade exige a constante busca do equilíbrio entre o desenvolvimento dos saberes e inovações produzidas pelas Instituições de Educação Superior e o compromisso social do atendimento às demandas históricas e ascensão social do cidadão.

Por isso, estão entre os nossos objetivos garantir a elevação nas matrículas, além da permanência e da conclusão dos cursos, que resultarão no desenvolvimento local e na redução das desigualdades sociais e regionais, visando alcançarmos o pleno funcionamento do Sistema Estadual de Educação (SEE).

Foi destacada a necessidade de ampliação da infraestrutura e da acessibilidade, diante da democratização do ingresso, tendo como cenário os avanços da educação a distância, o Governo do Estado dispõe sobre a implantação da Universidade Aberta do Brasil, no âmbito do Ceará (Lei Nº 16.316 - 14/08/2017), mediante a criação de polos de apoio presencial.

Destacamos, nesse momento de universalização da educação superior do Ceará, que o principal objetivo dessa Lei é oferecer cursos superiores para capacitação dos nossos dirigentes, gestores e trabalhadores da educação, setor produtivo e população em geral, à luz dos direitos constitucionais e humanos. Faz parte da nossa missão, a defesa da educação humanista e a promoção de uma cultura de paz.

(*) Professor da Uece e coordenador da Educação Superior da Secitece.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 14/07/26. Opinião. p.18.


quinta-feira, 13 de agosto de 2026

QUANDO O GLOBAL ENCONTRA O LOCAL

Por Sofia Lerche Vieira (*)

Para além dos territórios nacionais, as políticas educacionais contemporâneas circulam globalmente. Neste cenário orientações de organismos internacionais com foco em direitos, inclusão, equidade e sustentabilidade convivem com políticas de avaliação externa e controle de resultados, fenômeno que alguns estudiosos têm denominado de "datificação". Essas ideias, nem sempre convergentes, atravessam fronteiras e chegam às mais diferentes realidades, incluindo as escolas.

Ao aportar no Brasil, tais iniciativas ganham relevo. O país, entretanto, nunca foi um terreno de simples reprodução de políticas. Nosso sistema federativo constitui uma realidade complexa onde União, Estados e Municípios compartilham responsabilidades e preservam margens de autonomia.

Assim, no âmbito local, as políticas globais são apropriadas, negociadas e recriadas. A homogeneidade de formulações globais perde terreno para a heterogeneidade de políticas locais em ambientes marcados por tensões e contradições.

Seus avanços educacionais resultam de políticas locais consistentes de cooperação, avaliação e fortalecimento das redes municipais. As iniciativas, contudo, não chegam a todos os municípios da mesma forma. Embora compartilhem diretrizes comuns, estes constroem caminhos próprios, definem prioridades distintas e inventam diferentes formas de governar a educação.

Em alguns casos, traços do velho clientelismo persistem e imprimem marcas a políticas supostamente novas. Pesquisa recente sobre o tema, cujos resultados estão reunidos no livro "Desafios da Educação na Região Metropolitana de Fortaleza", permitiu perceber que não existe uma única experiência metropolitana, mas múltiplas formas de traduzir orientações comuns em políticas concretas.

A heterogeneidade é, pois, incorporando sentidos tanto das políticas globais quanto da singularidade de suas invenções. A experiência do Programa Alfabetização na Idade Certa (Paic), que o Ceará vem exportando para o mundo, é uma evidência virtuosa do encontro entre o global e o local

(*) Professora do Programa de Pós-Graduação em Educação da Uece e consultora da FGV-RJ.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 13/07/26. Opinião. p.18.


sábado, 25 de julho de 2026

ENGANANDO O PROFESSORdo Núcleo do Obeso

Na véspera de uma prova importante que seria aplicada em uma segunda-feira, quatro alunos resolveram viajar ao litoral para curtir uma festa na praia no fim de semana, mas a festa estava tão boa que não conseguiram chegar a tempo. Faltaram à prova e então resolveram dar um "jeitinho". Voltaram à universidade na terça e então dirigiram-se ao professor:

— Professor, fomos viajar, o pneu furou, não conseguimos consertá-lo, tivemos mil problemas para conseguir ajuda no meio da estrada, sem sinal de celular, e por conta disso tudo nós nos atrasamos, mas gostaríamos de fazer a prova.

O professor, sempre compreensivo:

— Claro, vocês podem fazer a prova hoje à tarde, após o almoço.

E assim foi feito. Os rapazes correram para casa e se racharam de tanto estudar, na medida do possível. Na hora da prova, o professor colocou cada aluno em uma sala diferente e entregou a prova para cada um. A primeira pergunta era:

"Valendo 1 ponto: Descreva a Lei de Ohm."

Os quatro ficaram contentes pois havia estudado sobre o assunto. Pensaram que a prova seria muito fácil e que tinham conseguido se "dar bem". Mas aí veio a segunda pergunta:

"Valendo 9 pontos: Qual dos quatro pneus furou?"

Fonte: Disponível na home page “Tudoporemail”.


quinta-feira, 16 de julho de 2026

PROFESSORES SÃO IMPORTANTES

Por Sofia Lerche Vieira (*)

Professores são importantes. Quanto a isso, não há discordância. No entanto, não é de conhecimento geral que eles representam "o recurso mais significativo das escolas" e são "fundamentais para os esforços de aprimoramento dessas instituições", como destaca relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) elaborado há duas décadas (2006, p. 7).

Na sociedade do conhecimento, o domínio de habilidades humanas e técnicas constitui o principal ativo de um país, como demonstram experiências de nações asiáticas, que reverteram sua história por meio da educação.

O Brasil parece caminhar na contramão das evidências sobre valorização docente. Segundo o Relatório Global Teacher Status Index (GTSI, 2018), ocupamos a última posição (35º lugar) no que diz respeito ao status social dos professores.

Embora tenha sido aprovada uma lei de piso salarial nacional dos professores da educação básica (Lei n° 11.738, de 16 de julho de 2008), o número de docentes concursados vem cedendo espaço a professores temporários.

Artigo recente sobre indicadores docentes nos 19 municípios da Região Metropolitana de Fortaleza (RMF) confirma essa tendência. Na última década, o quantitativo de professores com vínculo permanente (concursados) diminuiu em relação àqueles com vínculo provisório (temporários).

Considerando o conjunto dos municípios analisados, os temporários representavam 29% da força de trabalho docente em 2014 e passaram a corresponder a 44% em 2024, sinalizando um processo de precarização da profissão.

É verdade que a formação docente na região, medida pelo indicador Adequação da Formação Docente (AFD), apresentou melhora significativa. Ainda assim, a maioria dos municípios enfrenta desafios para assegurar formação adequada a seus professores, sobretudo nos anos finais do ensino fundamental.

Essas e outras evidências revelam que avançar na reflexão sobre os complexos problemas da docência requer uma compreensão cuidadosa do que mostram os números. (Observação: O artigo é de Eloísa Maia Vidal, em coautoria com Sofia Lerche Vieira e Rafael Rabelo Cavalcanti). (2.097 caracteres com espaço)

(*) Professora do Programa de Pós-Graduação em Educação da Uece e consultora da FGV-RJ.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 15/06/26. Opinião. p.18.

quinta-feira, 2 de julho de 2026

GAIOLA OU ASA

Por Tales de Sá Cavalcante (*)

Em 1997, o Clube do Líbano de Fortaleza resolveu vender sua sede. Em data e horário divulgados, os envelopes foram entregues fechados e, na presença de todos, foram abertos. Seria vencedor quem, além de superar o mínimo prefixado, tivesse o maior preço. Uma empresa possuía vários envelopes para escolher o adequado ao conjunto de competidores que se fizessem presentes.

Ao se ver só, sem concorrentes, entregou o envelope com o menor valor. Ao levar várias propostas, a empresa revelou criatividade e brasilidade. Em 2015, num concurso, em Fortaleza, para escolher a melhor criação de uma startup, alunos de uma entidade pública usaram um computador que não era dos melhores, nem dos mais novos e travou na hora "H". O líder juntou fios daqui, fios dali, peças daqui, peças dali. Aquela "coisa" "ressuscitou" e ganhou o prêmio.

Em reunião no Conselho de Responsabilidade Social da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo relatei o feito. O colega conselheiro e apresentador de TV Marcelo Tas comentou ter ouvido de um grande publicitário americano que "o brasileiro é mais criativo por fazer gambiarras".

Sim, com boas condições, executa perfeições, o que não faz o conterrâneo do yankee, Mr. Trump, que, mesmo com muitos recursos, decide por gambiarras oriundas de sua mente ou de assessoria deficiente.

O saudoso Washington Olivetto dizia: "A ideia é o que faz a diferença". E Rubem Alves afirmou: "Há escolas que são gaiolas e há escolas que são asas. Escolas que são gaiolas existem para que os pássaros desaprendam a arte do voo. Pássaros engaiolados são pássaros sob controle. Engaiolados, o seu dono pode levá-los para onde quiser. Pássaros engaiolados sempre têm um dono. Deixaram de ser pássaros. Porque a essência dos pássaros é o voo. Escolas que são asas não amam pássaros engaiolados. O que elas amam são pássaros em voo. Existem para dar aos pássaros coragem para voar. Ensinar o voo, isso elas não podem fazer, porque o voo já nasce dentro dos pássaros. O voo não pode ser ensinado. Só pode ser encorajado".

Por fim, este articulista indaga: e você? Prefere uma escola que seja gaiola ou asa?

(*) Reitor do FB UNI e Dir. Superintendente da Org. Educ. Farias Brito. Presidente da Academia Cearense de Letras.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 28/05/26. Opinião, p.16.


quinta-feira, 18 de junho de 2026

UM OBSERVATÓRIO DA EDUCAÇÃO

Por Sofia Lerche Vieira (*)

O processo de urbanização brasileira se intensificou na segunda metade do século XX, em decorrência da formação de grandes aglomerações urbanas e da necessidade de novas formas de planejamento territorial. Nesse contexto surgiram as chamadas regiões metropolitanas, agregando municípios em torno de metrópoles, perspectiva que dá origem à Região Metropolitana de Fortaleza (RMF). Criada em 1973, hoje, agrega 19 municípios: Aquiraz, Cascavel, Caucaia, Chorozinho, Eusébio, Fortaleza, Guaiuba, Horizonte, Itaitinga, Maracanaú, Maranguape, Pacajus, Pacatuba, Paracuru, Paraipaba, Pindoretama, São Gonçalo do Amarante, São Luís do Curu e Trairi.

A ideia subjacente à criação da RMF foi promover maior integração administrativa e coordenação de políticas públicas em áreas urbanas que ultrapassavam os limites municipais. A solução de tais problemas, contudo, não ocorreu como previsto: os problemas urbanos se agravaram, desigualdades entre os municípios se fizeram presentes em várias dimensões da gestão pública e muitos desafios surgiram.

Embora a RMF agregue 63,6% do PIB do estado, a distribuição desigual da riqueza eleva as disparidades entre municípios. Enquanto uns concentram atividades de maior retorno econômico, a exemplo de São Gonçalo do Amarante que abriga o Complexo Industrial e Portuário do Pecém (CIPP); outros, dependem fortemente de recursos da União e do Estado, incluindo programas de transferência direta de renda como o Programa Bolsa Família (PBF), do qual entre 42% e 58% da população são beneficiários.

A análise de indicadores econômicos e educacionais mostra não haver correspondência entre uns e outros. Ou seja, não necessariamente municípios com alto PIB têm equivalente desempenho educacional e vice-versa. Essas e outras questões são objeto de nossos estudos recentes que apontam para desafios a serem enfrentados, sendo a criação de um Observatório da Educação da RMF (@observa.remefor) uma iniciativa necessária e já em andamento. A Universidade é um fórum propício a este diálogo para o qual convidamos governo, sociedade civil e municípios da região.

(*) Professora do Programa de Pós-Graduação em Educação da Uece e consultora da FGV-RJ.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 18/05/26. Opinião. p.18.


segunda-feira, 1 de junho de 2026

NOVO PNE — a renovação do esperançar

Por Cândido B.C. Neto (*)

Durante solenidade no Palácio do Planalto, neste dia 14 de abril, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou o novo Plano Nacional da Educação (PNE), Lei N° 15.388, com a presença de inúmeras autoridades políticas e educacionais do país. Essa política pública visa dar continuidade ao planejamento e estratégias para a educação brasileira nos próximos dez anos, 2026-2036, com base constitucional.

O novo PNE traz muitas evoluções a começar pelos seus 19 objetivos, 73 metas e 372 estratégias, com diretrizes claras e compromisso político com a aprendizagem, a inclusão e a equidade. Passa pela educação superior, direta ou indiretamente, diversos objetivos/metas e estratégias do PNE. O Ceará, conforme determina o cronograma, instituiu a Comissão Estadual para elaboração do seu Plano Estadual de Educação - PEE, de acordo com a política educacional estabelecida na Constituição Federal, Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional - LDB, contemplando, desta também uma articulação direta com o Sistema Nacional de Educação (SNE).

As Instituições de Educação Superior (IES) com os gestores educacionais deste país assumem a responsabilidades pelos 0bjetivos 14 - Acesso, Permanência e Conclusão na Graduação com 4 (quatro) Metas e 18 Estratégias, o 15 - Qualidade da Graduação com 4 (quatro) Metas e 16 Estratégias e o 16 - Pós-graduação Stricto Sensu com 1 Meta e 14 Estratégias. Entre as propostas, as ações visam ampliar o investimento público em educação. Vale ressaltar que o PEE está sendo elaborado em consonância com o PNE, levando em conta as características específicas dos objetivos, metas e preservando as estratégias e demandas estaduais que deverão ser cumpridas no prazo definido.

O novo modelo combina metas ambiciosas com instrumentos concretos e complementares e necessários para a educação brasileira no novo PNE 2026-2036. Neste cenário, o humanismo, em seu sentido amplo, deverá estar presente em todos os objetivos, metas e estratégias como pauta permanente grandes debates educacionais.

(*) Professor da Uece e coordenador da Educação Superior da Secitece.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 24/04/26. Opinião. p.16.


segunda-feira, 25 de maio de 2026

A EDUCAÇÃO SEM ESCOLA POLÍTICA

Por Raimundo Padilha (*)

No ensino superior quando foi quebrado o sistema seriado, substituído pela oferta por disciplina, se deu uma ruptura na educação política. No sistema seriado as turmas fechadas com seus 40 ou 50 alunos, facilmente eram identificados os seus líderes e com eles formados os seus Centros Acadêmicos, uma excelente escola de formação política. As suas lideranças se revelavam e eram facilmente identificadas.

Desta estrutura foram forjados líderes, que posteriormente foram atraídos para a militância político partidária levando valores que passaram a ocupar os parlamentos municipais, estaduais e federais. O nível médio dos parlamentares era bem mais elevado do que os atuais, tendo como consequência um debate de conteúdo e um maior e melhor nível de projetos.

O pensamento deles era voltado para a sociedade, ao contrário do que predomina hoje, que são voltados para os interesses pessoais dos próprios políticos, tendo como exemplo o absurdo de emendas parlamentares. A maioria dos eleitores não sabe em quem votou e a comunicação dos parlamentares com o eleitorado se dá predominantemente no período eleitoral à caça de votos para suas eleições e/ou reeleições. As casas legislativas não são avaliadas pelos seus eleitores, tendo como consequência mandatos sucessivos, quase que se transformando num emprego vitalício. E ainda há, o chamado "baixo clero", que vegeta e dorme em todo o seu mandato. É muito triste e pobre, o nosso parlamento, respeitadas as raríssimas exceções. Precisamos de muitas reformas e quem tem coragem de propor, se a nossa política é da conveniência pessoal? Está cômodo para eles e o povão que se lasque.

Foi apagado o processo de formação de líderes e ninguém contesta o fechamento da antiga escola política, nem alunos, nem professores. É como se estivéssemos no estado da arte, embora, com um parlamento fraco e sem visão de futuro. E onde está o MEC, que não enxerga o mal causado pelo período militar e que ainda persiste? Por conveniência, miopia ou frouxidão, nesta área, nada ou quase nada se faz no nosso país, a superficialidade é o que predomina.

Quando estudante do curso ginasial, hoje ensino fundamental participei ativamente dos Grêmios Literários. Eram verdadeiras escolas de formação política, havendo inclusive eleições bastante disputadas. Nos grêmios se praticava o exercício da oratória, de artes cênicas, dentre outras manifestações culturais. Isto era a base da formação de um caldo de cultura que tinha prosseguimento no período universitário, para aqueles vocacionados, sendo um caminho aberto para as atividades político partidárias. Daí o contraste entre os políticos de ontem e de hoje.

(*) Economista, professor aposentado da UFC e membro da Academia Cearense de Economia.

Fonte: O Povo, de 15/04/26. Opinião. p.21.


sábado, 16 de maio de 2026

II Encontro Científico da Academia Cearense de Medicina

Em 13 de maio de 2026, no Auditório Central da Universidade Christus (Unichristus), aconteceu o II Encontro Científico da Academia Cearense de Medicina (ACM).

Após a composição da mesa de abertura dos trabalhos, que contou com a representação de importantes entidades médicas e de ensino, a programação foi iniciada com o discurso de saudação proferido pelo presidente da ACM José Henrique Leal Cardoso.

Em seguida, o Acad. Anastácio de Queiroz Sousa discursou em homenagem ao Presidente de Honra do evento, o Acad. Emérito Dr. Elias Giovane Boutala Salomão traçando esmiuçada e alentada biografia do homenageado. O Dr. Elias Boutala, bastante sensibilizado com a honraria concedida pela ACM, agradeceu com palavras tocantes, gerando emoção entre os presentes e produzindo calorosos aplausos de reconhecimento da audiência.

Desfeita a mesa de abertura, o programa científico começou com um ciclo de conferências, intitulado “Panorama Nacional e Estadual das Escolas Médicas”, sob a coordenação da Dra. Inês Tavares Melo, atual presidente do CREMEC, que teve como conferencista os Drs. Margareth Dalcolmo (Academia Nacional de Medicina), Estevam Rivello (Conselho Federal de Medicina), Marcelo Gurgel Carlos da Silva (Academia Cearense de Medicina) e Edmar Fernandes (Sindicato dos Médicos do Ceará).

Após o intervalo, completando a programação da manhã, teve um ciclo de conferências, denominado “Experiência das Escolas com Nota Cinco no Enamed”, com a coordenação do Dr. Ivan de Araújo Moura Fé, atual vice-presidente da ACM, do qual participaram como expositores José Lima Rocha (Unichristus), João Macedo Coelho Filho (Universidade Federal do Ceará) e Sheila Maria Fontenele (Universidade Estadual do Ceará).

O turno da tarde constou, inicialmente, do ciclo de conferências “Novas Estratégias Metodologias de Ensino e Aprendizagem”, coordenado pela Acada. Sara Lúcia Ferreira Cavalcante, tendo por conferencistas os médicos e professores José Batista (Universidade Federal do Ceará), Luiz Gonzaga de Moura Jr. (Unichristus) e Verônica Freitas (Universidade de Fortaleza).

O II Encontro Científico da ACM foi encerrado com o “Simpósio Entre as Escolas Médicas do Ceará”, coordenado pelo Acad. Arruda Bastos, tendo por debatedores Marcelo Gurgel Carlos da Silva (Universidade Estadual do Ceará) e Edmar Fernandes (Sindicato dos Médicos do Ceará).

Acad. Marcelo Gurgel Carlos da Silva

Membro titular da ACM – Cadeira 18


quinta-feira, 23 de abril de 2026

ESCOLAS: espaços de proteção e aprendizagem

Por Sofia Lerche Vieira (*)

Pesquisa recente financiada pela Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Funcap), sob nossa coordenação, focalizou desafios da política educacional na Região Metropolitana de Fortaleza (RMF). O estudo detectou que a presença de facções criminosas em diversos municípios impacta escolas, famílias e comunidades, gerando medo e até suspensão de aulas.

O poder público tem buscado respostas para enfrentar tal situação, mediante ações de órgãos de Educação, Segurança Pública, Assistência Social e do Justiça, buscando também coordenar esforços intersetoriais.

As secretarias de Educação têm adotado medidas como reforço da vigilância em imediações de escolas, reorganização de horários e rotas de transporte seguro para estudantes, e ações pedagógicas e socioemocionais visando aumentar a resiliência dos alunos.

Iniciativas voltadas para a segurança escolar existem tanto no âmbito estadual quanto municipal. Em Fortaleza, por exemplo, a Guarda Comunitária Escolar (GCE) realiza patrulhamento preventivo e contínuo em mais de 650 escolas, CEIs e creches, acompanhando alunos e professores na entrada e saída das escolas.

Apesar dos esforços, desafios persistem. Políticas setoriais esbarram em limitações de recursos, dificuldades de articulação interinstitucional e na própria desigualdade territorial na região, repercutindo sobre o acesso das comunidades a programas de prevenção e apoio. A rotatividade de profissionais, a escassez de infraestrutura adequada e a incapacidade de implementação uniforme de programas educativos agravam essas dificuldades.

Para familiares e educadores, a sensação de insegurança continua sendo um obstáculo cotidiano, e as respostas encontradas têm sido insuficientes para confrontar problemas complexos que atravessam a vida escolar e social dos jovens. É urgente e necessário fortalecer a presença do Estado nas comunidades, mediante esforços institucionais coordenados. Ações dessa natureza reduzem riscos imediatos, reafirmando a escola e o território como espaços de proteção, aprendizagem e futuro, e não de medo e abandono.

(*) Professora do Programa de Pós-Graduação em Educação da Uece e consultora da FGV-RJ.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 23/03/26. Opinião. p.20.

quarta-feira, 25 de março de 2026

Desafios da educação na Região Metropolitana de Fortaleza 2

Por Sofia Lerche Vieira (*)

A Região Metropolitana de Fortaleza (RMF), instituída em 1973, agrega um conjunto de 19 municípios (Aquiraz, Cascavel, Caucaia, Chorozinho, Eusébio, Fortaleza, Guaiúba, Horizonte, Itaitinga, Maracanaú, Maranguape, Pacajus, Pacatuba, Paracuru, Paraipaba, Pindoretama, São Gonçalo do Amarante, São Luís do Curu e Trairi). Sua criação coincidiu com iniciativas semelhantes voltadas à integração do planejamento e da organização de municípios espacialmente próximos das capitais. Um dos objetivos era mitigar o crescimento desordenado resultante de fatores diversos, dentre eles o êxodo rural e a industrialização.

Passados mais de 50 anos de seu surgimento, imensos desafios persistem na região, a maioria dos quais associados às desigualdades de infraestrutura e desenvolvimento entre a capital e os municípios adjacentes. Dentre esses cabe assinalar a segurança pública, a mobilidade e o transporte urbano, o saneamento básico, habitação e educação. Aprofundemos este último aspecto.

Em termos de matrículas na educação básica, a RMF responde por 42% da oferta total do Estado, com 913.559 alunos em 2024 (INEP, 2024). Das matrículas públicas, 51% situam-se nas redes municipais e 19% na rede estadual.

No que se refere ao número de estabelecimentos de ensino, a RMF possui 2.466 escolas, sendo 1.132 (46%) municipais e 284 (12%) estaduais. O quadro docente é composto de 28.781 professores, sendo 21.054 pertencentes às redes municipais e 8.067 docentes da rede estadual. Quanto ao vínculo de trabalho, 56% dos professores das redes municipais e 48% da rede estadual são concursados.

Os dados apresentados mostram a complexidade do recorte territorial, seja em termos de quantidade de municípios com contextos socioeconômicos, territoriais e educacionais diversos, como no que diz respeito as capacidades estatais para implementação de políticas educacionais.

Estudos sobre aspectos relacionados aos indicadores educacionais mais relevantes como taxas de rendimento, distorção idade-ano, organização da oferta por rede, permitirão melhor compreender os desafios educacionais dessa complexa região.

(*) Professora do Programa de Pós-Graduação em Educação da Uece e consultora da FGV-RJ.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 23/02/26. Opinião. p.18.

domingo, 1 de março de 2026

Mais vagas, menos estrutura: o risco da proliferação de cursos de Medicina

Por Daniel Pinheiro (*)

Os resultados mais recentes do Enade, divulgados pelo Ministério da Educação, trouxeram um dado que não pode ser ignorado: um número expressivo de cursos de Medicina (32%) obteve desempenho insatisfatório, levando o próprio governo federal a anunciar medidas de supervisão, redução de vagas e suspensão de novos ingressos.

Mais do que um ranking acadêmico, o Enade funciona como um termômetro da qualidade da formação médica no país - e o diagnóstico é preocupante. Ele expõe, de forma objetiva, os efeitos de uma expansão acelerada e pouco criteriosa das escolas médicas no Brasil.

Apresentada como solução para a escassez e a má distribuição de médicos, a abertura indiscriminada de cursos tem sido conduzida, em muitos casos, sem o planejamento necessário para garantir formação adequada. A Medicina é uma profissão de alta complexidade, cuja aprendizagem depende menos da sala de aula e mais do contato supervisionado com pacientes reais.

Hospitais, unidades básicas, emergências e equipes de preceptores experientes são o verdadeiro núcleo da formação médica. Esses cenários, contudo, não se multiplicam no mesmo ritmo das autorizações de novos cursos.

Criam-se faculdades, mas não se criam hospitais-escola, leitos, centros cirúrgicos, UTIs e preceptores qualificados em quantidade suficiente. Quando o campo de prática é insuficiente, o estudante torna-se observador passivo ou executa atividades sem a supervisão adequada. Isso compromete a formação e coloca o paciente em situação de risco. O problema deixa de ser apenas educacional e passa a ser um problema concreto de segurança do paciente, com potencial aumento de erros, retrabalho, judicialização e custos para o sistema de saúde.

Há ainda um equívoco estrutural que o próprio Enade ajuda a revelar: formar mais médicos não significa, automaticamente, garantir médicos onde a população precisa. A experiência brasileira demonstra que a simples ampliação do número de diplomas não corrige a concentração de profissionais nos grandes centros.

Fixação depende de carreira, remuneração, infraestrutura, suporte diagnóstico e condições de trabalho - fatores que não se resolvem simplesmente com a abertura de faculdades. Países com bons indicadores de saúde não alcançaram esse patamar multiplicando escolas sem critério, mas investindo em planejamento, avaliação rigorosa e forte integração entre ensino e sistema assistencial.

Persistir na expansão descontrolada da formação médica é assumir um risco coletivo. Em Medicina, os custos do improviso não são abstratos nem estatísticos: recaem diretamente sobre vidas humanas. E esse é um preço alto demais para qualquer sociedade responsável.

(*) Médico otorrinolaringologista.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 19/02/2026. Opinião. p.11.


 

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