terça-feira, 14 de março de 2017

MINHA AMIGA VIROU UM POLEGAR

Márcia Alcântara Holanda (*)
Isto é uma ficção com base num fenômeno real: minha amiga Susana (nome fictício) é uma grande executiva que trabalha dez horas por dia. Produz muito, mas sempre arranja um tempinho para uma prosa que levamos com frequência. De uns tempos para cá, com a revolução causada pelo “WhatsApp” e outros modos eletrônicos de comunicação rápida, simbólicos e fáceis somente digitando sem sair da cadeira ou da cama, Susana disparou a comunicar-se desenfreadamente.
Mandou ver num pacote de “emoticons” - segundo ela, são milhares deles disponíveis -, que servem para substituir toda sorte de ideia, de sentimentos, ações, pensamentos ou o que se imaginar, sem verbalizar nada. Há carinhas redondas para representar tudo isso. Para que escrever se hoje estou triste se existe uma carinha redonda com os cantos da boca para baixo, olhos inclinados na diagonal, também para baixo, sobrancelhas caídas e às vezes uma lágrima caindo do olho? Perguntava ela enquanto eu dizia que essas figuras eram estáticas, padronizadas, impessoais e não expressavam nosso eu real.
Tudo pode se expressar por “emoticons”, afirmava ela. Quase um ano depois dessa “febre da comunicação”, percebi que aquela imagem bonita, de rosto ovalado, expressões faciais puras, dedos finos e que Susana exibia naturalmente havia sumido da minha mente. Em vez daquela autenticidade, o que aparecia para mim era uma mão roliça de polegar boleado, apontando para cima quando ela dizia que estava tudo bem, para baixo se as coisas estivessem dando diferente do desejado e por aí ia. Esse polegar virou a cara dela!
Procurei saber a razão desse fenômeno acachapante e, depois de muito estudar e pesquisar, encontrei que: no nosso cérebro ocorre constantemente um processo de aprendizado e de memorização de fatos e coisas, que também podem mudar continuadamente de acordo com os estímulos ambientais. As conexões dos nossos neurônios podem se fortalecer e se multiplicar para estabelecer novas conexões e até novos neurônios podem surgir: é a neuroplasticidade do cérebro. Isso ocorre conforme tais estímulos. (Tracy J. Shors: Scientific American, 2009; Brain Plasticity: Neuroscience News, 2, 2017.)
Atribuo que a substituição dos textos, das palavras e das imagens reais de Susana pelos “emoticons” possa ter sido influenciado pela neuroplasticidade dos meus neurônios, de tanto ver “emoticons”, em vez de ver Susana...
Ainda bem que tudo pode ser revertido: retornamos à nossa prosa, reduzimos a comunicação por “emoticons” e às imagens. As falas e as escritas sobre Susana voltaram ao normal na minha mente - para alívio nosso.
(*) Médica pneumologista; coordenadora do Pulmocenter; membro da Academia Cearense de Medicina.
Fonte: Publicado In: O Povo, de 8/03/2017. Opinião. p.14.

segunda-feira, 13 de março de 2017

INTELECTUAIS DO PT INFORMAM: O POVO ‘PERDERAM’

Por Augusto Nunes

O manifesto concebido para livrar Lula da cadeia tortura a verdade e trucida a língua portuguesa

“Por que Lula?”, pergunta a primeira linha do manifesto em que 424 autodenominados intelectuais a serviço do PT imploram ao chefe da seita que oficialize a candidatura à eleição de 2018. Até os bebês de colo e os doidos de hospício sabem a resposta: porque a esperteza talvez ajude a fantasiar de “perseguido político” um prontuário ambulante enriquecido por sítios, apartamentos, palestras secretas, jatinhos, negociatas africanas, filhos que multiplicam dinheiro de origem misteriosa e outros espantos. Só finge não saber disso a fila de signatários do documento, puxada pelo inevitável Leonardo Boff e previsivelmente engrossada por Chico Buarque (assinatura n° 9) e João Pedro Stédile (n° 10).
Por que submeter a verdade a tão selvagens sessões de tortura?, perguntam os brasileiros normais ao fim da leitura do manifesto. Não há uma única e escassa menção ao assalto à Petrobras, ao maior esquema corrupto de todos os tempos, a descobertas da Lava Jato, à herança maldita legada por Lula e Dilma, a quadrilheiros engaiolados, à devastação provocada por 13 anos de roubalheira e incompetência. Aos olhos dos fiéis, a alma viva mais pura do mundo não tem nada a ver com isso. Lula tem tudo a ver apenas com a consolidação da democracia, o extermínio da pobreza, o sistema de saúde próximo da perfeição, o sistema educacional de dar inveja a professor finlandês e a transformação do Brasil numa potência petrolífera respeitada no mundo inteiro, fora o resto.
E por que assassinar o pobre português já no primeiro parágrafo?, perguntam os que tratam com mais brandura a língua oficial do Brasil. Em que medida o massacre do idioma ajudaria a livrar da cadeia um ex-presidente que saiu da História para entrar na bandalheira? Teriam os redatores do palavrório resolvido homenagear o Exterminador do Plural? Ou seria uma demonstração de solidariedade aos inventores da linguística lulopetista, para os quais falar errado está certo? Se não tem nada de mais insultar o português pronunciando frases como “Nós pega os peixe”, os discípulos de Lula estão à vontade para redigir o trecho abaixo reproduzido, com observações em negrito do colunista.
“É o compromisso com o Estado Democrático de Direito, com a defesa da soberania brasileira e de todos os direitos já conquistados pelo povo desse (Errado, o certo é ‘deste’) País, que (Alguém infiltrou uma vírgula bêbada entre ‘País’ e ‘que’) nos faz, através desse (É errado o uso de ‘através desse’: o certo é ‘por meio deste’) documento, solicitar ao ex-Presidente Luiz Inácio LULA da Silva que considere a possibilidade de, desde já, lançar a sua candidatura à Presidência da República no próximo ano (A candidatura deve ser lançada desde já ou no próximo ano?), como forma de garantir ao povo brasileiro a dignidade, o orgulho e a autonomia que perderam”.
Como é que é, companheiros inteleques? Quem “perderam”? O povo? Nesse caso, foram simultaneamente trucidados os fatos e a concordância verbal. O povo brasileiro nunca “perderam”; sempre perdeu, no singular. Mas desta vez não perdeu a dignidade, o orgulho e a autonomia, como fantasia o manifesto. O que perdeu foi a montanha de dólares acumulada pelo PT e seus comparsas. Também perdeu o respeito pelos farsantes no poder havia 13 anos, perdeu a paciência com os poderosos patifes e perdeu o medo de ditar os rumos da nação.
Nenhum país tem mais intelectuais por metro quadrado que o Brasil, constatou Nelson Rodrigues. O problema é que a maioria é incapaz de pensar. Enquanto mantêm guardado na cabeça um romance incomparável, escritores escrevem manifestos de envergonhar o mais bisonho reprovado no Enem. Nessa categoria figura o que sonha com a volta de Lula. A coleta de assinaturas recomeçará na segunda-feira, informou o site do PT. Sobra tempo para que os 424 pensadores façam as correções indispensáveis. Se quiserem copiar as feitas acima, estejam à vontade. De nada.
Também clama por um revisor com mais de cinco neurônios o texto que festeja no site do PT a desembestada ofensiva retórica. Confira:
“Numa iniciativa que responde à escolha que milhões de brasileiros manifestam com clareza sempre que lhe perguntam quem deve governar o país, o lançamento da candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência da República começa a tomar forma e conteúdo. A partir de segunda-feira (6/3/17), todo cidadão brasileiro será convidado a colocar seu nome, através de uma plataforma aberta na internet, a um abaixo assinado que solicita a Lula considerar “a possibilidade de, desde já, lançar sua candidatura a Presidência da República como forma de garantir ao povo brasileiro a dignidade, o orgulho e a autonomia que perderam.”
Esse monumento à ignorância vai ficar sem retoques. Primeiro, porque a cena do crime deve permanecer intocada, como alertam as séries policiais da TV americana. Depois, porque o parágrafo acima, da mesma forma que o manifesto, é uma prova contundente de que ─ ele, de novo ─ Nelson Rodrigues tinha razão: os idiotas estão por toda parte. Por que estariam ausentes de reuniões que terminam com o parto de outro manifesto?

Fonte: veja.abril.com.br/blog/augusto-nunes. Postado em: 3/03/2017.

domingo, 12 de março de 2017

A SENHORITA E

Paulo Gurgel Carlos da Silva (*)
Meus amigos poetas escrevem versos apaixonados para suas mulheres e isto tem provocado queixumes em E, minha mulher, a qual espera de mim algo parecido. Entretanto, eu só escrevo humor. Aí, vejo-me numa situação semelhante ao lance por que passou o monge saltimbanco de uma historinha. Ele, por não saber compor música, poema ou iluminura para Nossa Senhora (como os outros da abadia), pôs-se a fazer piruetas em frente ao altar. "Heresia", gritaram todos. Mas Nossa Senhora considerou que o monge saltimbanco, com a sua exibição, simplesmente lhe fizera a melhor das oferendas.
Eis a minha oferenda para E, minha mulher. À consideração de seus olhos compassivos:
Quando conheci a então senhorita E foi como ganhar na loto. Ela fazendo quina e eu, terno (naquele tempo não havia a sena, por isso não lhe outorgo um prêmio maior). E nosso primeiro e inesquecível flerte se deu numa casa noturna que estava em voga. Lá, eu chegara cedo, pegara uma mesa estratégica e me encontrava já de copo à mão. A saborear o rum da imaginação, o gelo da indiferença, a coca-cola da alienação e o limão da realidade: os tais quatro elementos da cuba-libre. E a me entreter, que ninguém é de esponja, com o ato de fazer rolar um punhado de pitangas.
Nesse meu rum(inar), a senhorita E chegou de vestido branco. Toda vaporosa, em sua ânsia de subir aos páramos ela parecia ser contida pelo braço forte do amigo M. E eu, de imediato, achei-a um ser lunar como Diana, a Caçadora, mas não querendo aqui dizer que ela estivesse a fim de qualquer caça. Nisso, o amigo M se viu em dificuldades momentâneas. Como arranjar, naquela casa já lotada, uma mesa para ele e as senhoritas E e F. Então recorreu a mim. Eu tinha uma mesa, três cadeiras ainda vagabundas e a viril condição de empatar aquele jogo.
Mais: eu tinha um punhado de pitangas. O legado de outro amigo, meio sobre o bêbado, que estivera em minha mesa, dissera longas e más, porém que se retirara. Pois bem, foi só M arrastar F para o salão de danças que eu entrei em campo. De sola. Oferecendo pitangas à senhorita E que, açodada, as aceitou. Até então eu nunca havia comido pitangas... nem a senhorita E. De maneira que o flerte aconteceu sob a égide de um novo e diferente sabor. E entabulamos conversa. Na qual ficou provado que o conhecimento profundo é a última coisa necessária para uma conversa animada (obrigado, Beaumarchais). Depois disso, dançamos conforme os tangos e os boleros que a casa oferecia em seu cardápio musical. A ver se possuíamos ferormônios compatíveis.
Sim, OK, positivo, possuíamos. E a noite, negro corcel, com a ajuda do horário de verão, correu aos pinotes. Assim é que amanhecia, quando ela se despediu de mim com um beijo inesquecível, a dez polegadas do meu rosto por escanhoar. Como a senhorita E tinha namorado sob aviso prévio o máximo concessível era aquilo. Mas, ora, feita a primeira concessão todas as demais estavam feitas. Desde que eu controlasse o fauno viciado em mandrágora que me habitava. Enquanto isso, fosse ficando com o número de seu telefone - de fácil memorização. À prova de amnésia alcoólica, portanto.
Passamos a nos encontrar três, duas, uma vez por semana, a atração aumentando... Como se os nossos corpos fossem progressivamente imantados. Um dia, eu lhe falei de amizade colorida, e ela ripostou com casamento em preto e branco. Pedi tempo. Ainda não me sentia bovino bastante para entrar no rol dos homens sérios, se é que isso existe. Numa noite de isolamento, porém, após ouvir Chico Buarque cantar "O Casamento dos Pequenos Burgueses", entrei em parafuso. Tanta coisa tão linda, tão comovente, tão... sobre as vidas dos que tocam a sonata conjugal a quatro mãos!... E liguei para a senhorita E. Fui mais curto que um coice de porco, perguntando-lhe se uma antiga oferta continuava de pé. Continua, quero dizer, continuo - disse-me ela - mas acabo de cair... ao saber que você mudou de idéia. Pelo telefone ouvi o baque.
Em 84 o liberalismo dos costumes já se achava em franco refluxo. A ponto de o historiador A. Toynbee assegurar que o coroamento da revolução sexual seria a volta do ascetismo. Mas, diabos, em 84 o que ainda estavam fazendo aqueles homens, senhores respeitáveis, nas esquinas em que eu procurava praticar a arte da paquera? Seus carros, lembro bem, exibiam nos pára-brisas o indefectível logotipo do Encontro de Casais... Ah, eu enfrentava uma concorrência fortíssima e, mesmo assim, não os entregava às respectivas patroas. Isso e mais a música do Chico foram os empurrões para o meu "enforcamento", acredito.
Entretanto, antes de irmos morar sob o mesmo teto rebaixado de lambris, precisávamos tomar certas providências. O casamento civil. Fui contra que ela mudasse o nome de solteira, mas depois cedi. Porque ela precisava limpar o nome na praça para novos créditos. Pela frente, havia ainda os gastos com o casamento religioso: convites, decoração da igreja, reportagem fotográfica, bufê a quinhentos cruzeiros por pessoa... e o vestido de noiva. Que a senhorita E fez questão de que fosse assinado por um estilista famoso (a pincel atômico, emporcalhando a cauda do vestido).
À hora de jogar a grinalda, amontoaram-se as raparigas casadoiras. A senhorita G, saltando como a Hortência do basquete, foi quem pegou o ambicionado troféu. Mas, que eu saiba, até hoje morre de frio nas noites de julho. Concluída a recepção, era partirmos para a lua-de-mel num carro com latinhas amarradas na traseira (do carro). Aliás, nem seguimos esse super nordestino costume porque o veículo, com o escapamento semi-solto, já fazia barulho suficiente. A senhorita E queria praia e eu, sertão. E passamos a lua-de-mel na serra, com ela de ouvido grudado numa concha, apenas pelo contentamento de ouvir o marulho, registro o fato.
O casamento é uma espécie de terreno instável. Parafraseando Churchill, é a pior forma de relacionamento homem-mulher, salvo as demais que já se praticaram. E não existe uma fórmula exata para que dê certo. Mas se diz que ajuda a mútua renúncia. Por exemplo, nós vamos colocar cortinas novas na sala. Eu renuncio ao vermelho, ela, ao azul; na rodada seguinte, eu repudio o amarelo, ela, o marrom; etc. Até sobrar uma cor única, incontestável, para a euforia do vendedor que já considerava invendável uma cortina daquela cor... E, aos poucos, sem arrufos de parte a parte, alfaia-se a casa.
Hoje, nos une um amor puro, intenso e desinteressado. Mas ainda não recebi o dote.

(*) Médico, especialista em pneumologia. Escritor e um dos fundadores da Sobrames/CE. Administra cinco blogs.

Fonte: preblog-pg.blogspot.com.br. Postado em: 25/01/2008.

BAR CORNO NÃO ENTRA


Fonte: Circulando por e-mail (internet). Foto sem autoria explícita.

Convite Missa de 7º Dia Inusitado


Fonte: Gazeta do Oeste, de Mossoró-RN, 4/4/1997. Circulando por e-mail (internet). Foto de recorte sem autoria explícita.

sábado, 11 de março de 2017

Diálogo entre advogado e cliente corruptos


Chargista: DCunny G?.
Fonte: Circulando por e-mail (internet).

Anúncio contra lixo em local impróprio


Fonte: Circulando por e-mail (internet). Foto sem autoria explícita.
 

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