sábado, 21 de agosto de 2021

REFLEXÃO EM TEMPOS DE PANDEMIA

Por Pe. Eugênio Pacelli SJ (*)

A vida é uma travessia. Travessia para o novo e desconhecido. Somos peregrinos, num caminho povoado de desafios que pode atrofiar a visão e nos colocar à margem do caminho, sozinhos, desencantados e sem sonhos, ou em um caminho repleto de sinais que nos impulsiona e preenche nosso coração de ousadia.

Esse tempo de pandemia foi precioso! Obrigou-nos a parar e refletir sobre nossa caminhada, serviu para nós como uma reflexão sobre como e de que forma retomaremos o ritmo da marcha.

Precisamos esvaziar as mochilas do supérfluo, reabastecer-nos do essencial, retomar as metas discernidas e assumidas diante de Deus.

Como dizem os mentores e coaches: tempo é questão de prioridade. O que dá sentido ao tempo vivido é a atenção que damos ao nosso mundo interior.

A maior parte das pessoas vive como se a vida interior não tivesse importância, como se não precisasse de tempo e dedicação para crescer espiritualmente, esquecem que a vida de dentro se revela na de fora.

A vida interior precisa de tempo para morar no silêncio. Silêncio é lugar de descobertas, entregas e encontros.

O tempo da pandemia nos convida a cuidar da nossa vida interior, a fazer uma faxina e a nos desfazer de toda bagagem tóxica que consumimos e alimentamos na rotina agitada, corrida e estressante.

Neste tempo deve ter espaço para a oração e meditação, que são ferramentas poderosas para atrair a paz e o autoconhecimento.

A oração é adentrar no mundo interior, porque é lá que se faz ouvir a voz de Deus. Mas, dificilmente podemos entrar no interior se tivermos um coração endurecido, hermético e agitado.

O olhar amoroso e vigilante sobre si mesmo, a tomada de consciência sincera na direção de uma transformação profunda nos leva para mais perto de Deus.

É o Senhor da vida que nos nutre. A ausência de atitudes e comportamentos tóxicos favorece o contato com o Divino.

Diante de uma sociedade que valoriza o ser humano em função do que consome - "consumo, logo existo", a oração nos capacita a compartilhar com os outros a generosidade que Deus desperta.

Quanto mais vivemos em Deus, menos somos nós o centro, menos dependentes das coisas e mais receptivos e entregue aos outros. 

(*) Sacerdote jesuíta e mestre em Teologia. Diretor do Seminário Apostólico de Baturité.

Fonte: O Povo, de 3/7/2021. Opinião. p.20.

O CORAÇÃO TRANSBORDANTE DE JESUS

Por Pe. Reginaldo Manzotti (*)

Vivemos experiências diferentes e inimagináveis nos últimos tempos. E, diante do que temos vivido, para que esse tempo de crise e sofrimento causado pelo coronavírus alcance um sentido, precisamos ter os mesmos sentimentos do Coração de Jesus.

A devoção ao Sagrado Coração de Jesus nos ajuda a experimentar o amor de Deus e depois testemunhá-lo.

O amor leva nosso coração a bater no mesmo ritmo, pulsar na mesma frequência do Sagrado Coração. Não sei se é uma linguagem poética ou se tem algum fundo científico, mas ouvi dizer que quando nos aproximamos de alguém que amamos e esse amor é recíproco, o coração dispara para depois acalmar-se e ambos batem na mesma frequência.

Como disse, não sei se é uma linguagem poética, mas não foi por acaso que quando Maria chegou à casa de Isabel, a criança pulou de alegria no seu ventre (Lc 1,44).

Também quando o discípulo amado reclinou sua cabeça no peito do Mestre, seu coração pulsou na mesma frequência que o Dele (cf. 13,23).

Então, quando chegarmos à presença de Jesus, deixemos nosso coração acelerar de alegria e quando acalmar, pulsar no mesmo ritmo do coração de Jesus.

Esta é a espiritualidade de quem quer viver a jaculatória lindíssima: “Jesus manso e humilde de coração, fazei o nosso coração semelhante ao Vosso”.

Espiritualidade que nos leva a encontrar o verdadeiro sentido de ser, que significa permanecer afastado das perversões e das impurezas.

Para ter o coração como o de Jesus, não podemos permitir que a semente do mal, do joio, cresça e tome conta da nossa vontade.

Temos que erradicar, tirar, cortar o mal pela raiz. Se queremos ter o coração semelhante ao de Jesus, não podemos ter as mãos sujas pelas negociatas, sujas por tocar onde não devia, suja porque fomos coniventes com as injustiças, sujas porque cruzamos os braços quando alguém precisou.

Mãos sujas porque faltamos com o respeito, pelo desacato, pela omissão.

Para termos devoção ao Sagrado Coração de Jesus, precisamos de um coração limpo, purificado, santificado.

Se quisermos que nosso coração pulse no mesmo ritmo que o de Jesus, tenhamos os mesmos sentimentos que Ele e configuremos nosso coração ao Dele.

O conhecimento de Jesus nos levará aos mesmos sentimentos, à mesma atitude, ao mesmo posicionamento Dele.

Olhar, contemplar, aprofundar Jesus é olhar, contemplar e aprofundar o amor de um Deus encarnado, que se tornou visível. Um Deus que na cruz transbordou a Redenção.

Nós temos que conhecê-Lo de tal forma que flua, brote, emane esse conhecimento e nos leve a uma experiência visceral.

Didaticamente, separamos conhecimento e experiência, embora isso não seja bom, pois um puxa o outro. A experiência talvez preceda o conhecimento, porque é ela que move e leva ao conhecimento.

Porém, Santo Agostinho disse que “o conhecimento leva a Deus”. Então, nos cabe uma pergunta: Qual o nível de profundidade de nossa experiência com Deus?

Temos que nos perguntar isso, porque o que nos leva à experiência e ao conhecimento é a Palavra de Deus “mastigada”, “ruminada” e tão internalizada a ponto de não sabermos se é nosso conceito ou conceito de Deus, como viveu São Paulo: “Eu vivo, mas já não sou eu que vivo, pois é Cristo que vive em mim” (Gl 2,20a).

É essa a dinâmica do Coração transbordante de Jesus. “Olharão para aquele que transpassaram”, deixemo-nos atrair por esse Coração que é misericórdia, amor, perdão e doação.

(*) Fundador e presidente da Associação Evangelizar é Preciso e pároco reitor do Santuário Nossa Senhora de Guadalupe, em Curitiba (PR).

Fonte: O Povo, de 19/6/2021. Opinião. p.18.

sexta-feira, 20 de agosto de 2021

Crônica: “Bone Senha” ... e outros causos

Bone Senha

Foi aqui pertinho, na região Metropolitana. Deu-se na derradeira visita de seu Zé Duarte a um compadre que fazia décadas não encontrava. Chegando à casa, já pede um caneco d’água pra combate ao calorão da ora. Quem trouxe logo um litro? O filho mais velho do tal cumpade, de cinquenta e poucos anos, que atendia por estranho nome.

- Obrigado pela água, jovem. Qual seu nome? – perguntou o velho José Duarte, com cara de quem iria cair com uma gorjeta.

- Bone Senha!

- Bone Senha? Eu quero saber seu nome de batismo!

- Neco Bone Senha! Nome do atacante italiano que fez aquele gol no Brasil na final da Copa de 70. E empatou o jogo, que terminou em 4 a 1 pra nós...

- Nós quem, Neco?

Seu Zé, sempre muito curioso, entrão e inconformado com tudo que tá fora da cangalha – e esse nome, a seu ver, estava fora dos cambitos –, não calou:

- Escreva seu isso num papel! Seu nome completo!

Neco Bone Senha escreve: “Manuel Bone Senha de Oliveira Crispim”.

Torcedor do Ferrim até a alma, entendido de futebol cearense desde os tempos do Usina Ceará Atlético Clube, Zé Duarte abre a enciclopédia e explica que aquele que empatou o jogo na Copa do México, pra depois o Brasil virar, golear e arrastar o caneco, fora batizado por Roberto Boninsegna.

- Viu, Bone Senha, o nome é Boninsegna!!!

- Isso, Bone Senha! Papai tava certo!

- E é Roberto, e não Manuel, que deu origem ao seu Neco.

- Isso. Pai errou só no Roberto, botando Manel no meu nome. Roberto é mais bonito...

O roubo da máscara

Dona Terezinha tem jeito não. Estava indo pro mercantil com a secretária Vandinha, a pé, quando peitou um assaltante ainda a dois quarteirões de casa (se o meliante soubesse que iria enfrentar essa invocada criatura, teria seguido outro caminho na vida). Revólver em punho, sem usar máscara anticovid, o ladrão faz a abordagem crente que tava abafando.

- Bora! Passa a grana, vovó!

- Vovó é o miolo do teu sovaco! Tem medo duma mãozada no fucim não?

- Agora pronto, valentona! Avia!

- Ah, é? Cadê a máscara?

- Trabalho com máscara não, titia!

- Titia é tuas venta! Só converso com quem tá de N95!

- Pois me 20 reais pra eu comprar uma ali na farmácia e eu volto já!

- Ah, assim sim! Tome. Vá lá, que eu fico aqui esperando.

Até hoje o larápio não voltou. Mas dona Terezinha tá lá esperando, braba toda.

Quem veio primeiro

De tanto ver essa gente boa fazer lives com as abordagens mais incríveis, abusei. Especialmente após ouvir o singelo vendedor de ovos caipira, numa bicicleta, anunciar seu produto - no portão da casa de mãe – com sabido marketing:

- Ó ovo, ó o ovo, ó o ovo!!! Antes que o pinto cresça, ó o ovo, ó o ovo, ó o ovo!!!

Fonte: O POVO, de 11/6/2021. Coluna “Crônicas”, de Tarcísio Matos. p.2.

quinta-feira, 19 de agosto de 2021

Posse da Dra. Grecianny Carvalho Cordeiro no Instituto do Ceará


 Hoje, dia 19 de agosto de 2021 (quinta-feira), sob a presidência do Gal. Júlio Lima Verde Campos de Oliveira, será realizada a sessão solene de posse no Instituto do Ceará (Histórico, Geográfico e Antropológico) da sua nova associada efetiva, a perlustrada Dra. Grecianny Carvalho Cordeiro, oportunidade em que essa Promotora de Justiça e escritora será saudada pela sócia efetiva Angela Maria Rossas Mota de Gutierrez.

A solenidade ocorrerá de forma remota/virtual, por meio do aplicativo Google Meet.

O evento terá início às 17 horas.

Segue o link do google meet para o acesso a solenidade de posse.

https://meet.google.com/arn-kafk-cjf 

Marcelo Gurgel Carlos da Silva

Sócio efetivo do Instituto do Ceará

A PANDEMIA E O DIREITO FINANCEIRO

Por Edilberto Carlos Lima Pontes (*)

Além dos substanciais impactos na saúde, na economia e nas finanças públicas, a pandemia do coronavírus foi um laboratório de experiências em direito financeiro.

Editaram-se muitas normas para adequar a legislação às exigências do grave momento.

Algumas, com vigência permanente. Mais recentemente, já em 2021, foi aprovada a Emenda à Constituição 109, com repercussões significativas sobre a administração pública, principalmente de Estados e Municípios, independentemente do fim da pandemia.

Destaco a introdução de uma nova regra fiscal, representada pela relação entre a despesa corrente e a receita corrente.

Quando essa relação ultrapassar 95%, uma série de vedações são acionadas para o ente federado, com o intuito de impedir o aumento de despesas: criação de cargo, emprego ou função; concessão, a qualquer título, de vantagem, aumento, reajuste ou adequação de remuneração; alteração de estrutura de carreira; admissão ou contratação de pessoal; realização de concurso público; criação de despesa obrigatória; reajuste de despesa obrigatória acima da inflação; concessão ou ampliação de incentivo ou benefício de natureza tributária.

Emenda abre a possibilidade de algumas exceções, como reposições de cargos de chefia e de cargos efetivos ou vitalícios.

Embora a adoção dessas medidas seja facultativa, o ente que não as seguir fica proibido de receber garantias da União e de tomar operações de crédito, mesmo sob forma de refinanciamento.

A consequência é substancial, porque os Estados e o municípios maiores, principalmente as capitais, recorrem com frequência a garantias da União para realizar financiamentos.

Levantamento da Consultoria de Orçamentos da Câmara dos Deputados aponta que três Estados se enquadrariam nas restrições em 2020, dez, em 2019 e 14 em 2018.

Quanto a municípios, seriam 934 em 2020 se a nova regra estivesse vigente.

No Colóquio Luso-brasileiro de Direito Financeiro, a ser realizado no dia 30 de junho de 2021, pelo Tribunal de Contas do Estado do Ceará, em parceria com a Sociedade Brasileira de Direito Financeiro, vamos aprofundar esses e outros assuntos. Todos convidados. 

(*) Conselheiro do TCE Ceará.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 26/06/21. Opinião, p.18.

quarta-feira, 18 de agosto de 2021

UM ERRO ESTRATÉGICO DO SENADO

Por Rev. Munguba Jr. (*)

Em uma competição de alto nível, os países montam seleções com os melhores atletas em cada modalidade. São pessoas que se esforçam durante anos para chegarem a uma olimpíada no melhor de sua forma e performance.

Não enviamos para as competições as pessoas que não se qualificam. Essas ficam pelo meio do caminho. Até mesmo nas paraolimpíadas fazemos uma seleção criteriosa dos atletas que ganham o privilégio de representar nosso país.

O Senado Federal cometeu um erro estratégico e primário quando foi obrigado pelo Supremo Tribunal Federal a implantar uma CPI para apurar as responsabilidades pela conduta administrativa na pandemia no Brasil - a nível federal, estadual e municipal - e averiguar a aplicação dos recursos enviados a estados e municípios.

Colocaram como presidente da CPI um senador investigado por desvios de recursos da saúde, como relator um senador com inúmeros processos no STF e uma tropa de choque sem qualificação intelectual para ajudar o País.

Na CPI são poucos os selecionados que realmente têm condições de contribuir efetivamente com a nação sem um olhar partidário, mas com a responsabilidade de que estamos em um momento crucial da história humana.

Será que o Senado Federal não poderia ter feito uma seleção de homens e mulheres com o entendimento de que este é um momento de vida ou morte?

Será que não poderíamos ter um nível mais alto?

A coisa está tão caricaturada que não conseguimos nem mesmo assistir mais de cinco minutos sem sentir náuseas. A falta de polidez, a falta de respeito, a falta de argumentos sólidos, a intimidação e a baixaria têm imperado nesse espaço que deveria ser sério.

Penso que o Senado errou em sua seleção para essa CPI. Mas se alguns pensam que está tudo certo, então mandar acusados e investigados para liderar pode demonstrar o nível em que estão nossas casas legislativas.

Nós não estamos falando de pessoas que perderam o emprego ou que tiveram suas empresas prejudicadas ou até mesmo fechadas por determinação de governadores e prefeitos e que, por isso, não conseguem pagar suas contas em dia.

Nós estamos relatando a escolha de profissionais da corrupção e da destruição dos valores da sociedade, da família e dos bons costumes colocados no lugar errado.

(*) Pastor Munguba Jr. Embaixador Cristão da Coreia do Sul Para a Implantação da Oração da Madrugada e Erradicação da Pobreza no Brasil.

Fonte: O Povo, 12/06/2021. Opinião. p.18.

APESAR DE HOJE, COMO DIZ A CANÇÃO POPULAR

Por Sofia Lerche Vieira (*)

Talvez seja impossível identificar exatamente quando extremismos passaram a pautar comportamentos e ações de nossa convivência diária.

Se é verdade que tais ideias costumam estar associadas ao fascismo, hoje possuem características próprias, de algum modo associadas à inserção das redes sociais no cotidiano dos tempos atuais.

Acompanhando a trajetória de grandes plataformas de expressão, como o Facebook e o Instagram, observa-se que representam não apenas estratégias poderosas de comunicação, como mecanismos de acirramento de conflitos.

Na tribuna de uma rede social todos aparentemente têm o mesmo poder de voz, embora os perfis falsos e robôs estejam aí para afirmar o contrário.

Se todos se julgam legítimos detentores da verdade, ainda que esta seja sujeita a controvérsias, a pretensão de impor opiniões é quase irresistível, sobretudo numa sociedade onde a convivência democrática é ainda tão frágil.

Nos pequenos e grandes grupos, pautados por interesses comuns, sejam eles familiares, profissionais, políticos e de outra natureza, uma significativa parcela de participantes se faz porta-voz de pensamentos radicais.

Em tais casos, ou os demais concordam com as opiniões predominantes ou, se veem na contingência de retirar-se ou, pior ainda, serem "cancelados". Certo é que a tolerância vai perdendo espaço e cedendo lugar a uma cultura de ódio.

A cultura do ódio a esse outro que pensa diferente, corrompe relações e põe em xeque elementos preciosos da convivência social. A empatia, qualidade essencial de nossa humanidade, vai se tornando escassa e rarefeita.

Em tempos como os que vivemos, quando o luto pela perda de tantas vidas ceifadas pela Covid-19, deveria inspirar solidariedade e compaixão, ficamos à mercê da intolerância, permitindo que seu império se alastre.

Em meio a esse cenário desalentador, importa não perder a fé de que o melhor antídoto contra o extremismo é exatamente a possibilidade de restabelecimento do diálogo e da capacidade de escuta entre as pessoas.

Afinal, como diz a canção popular: "amanhã, apesar de hoje, será a estrada que surge pra se trilhar". 

(*) Professora do Programa de Pós-Graduação em Educação da Uece e consultora da FGV-RJ.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 21/06/21. Opinião, p.20.

 

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