segunda-feira, 17 de março de 2025

A GEOECONOMIA E O BRASIL

Por Alexandre Sobreira Cialdini (*)

A geoeconomia compreende medidas que buscam fortalecer os interesses econômicos de um país enquanto disciplinam seus competidores estratégicos. Isso, necessariamente, afeta as relações entre governos e o setor privado, com o poder público intervindo frequentemente para beneficiar seus produtores. Nesse “capitalismo de Estado”, os governos detêm dois quartos das reservas globais conhecidas de energia, e as empresas estatais respondem por uma parcela expressiva do total investido no planeta, figurando entre as maiores corporações do mundo.

Para Mikael Mattlin, pesquisador do Instituto Finlandês de Economia Internacional, há três tipos de enfoque para essa questão: o primeiro trata a geoeconomia como uma arte de governar; o segundo enfatiza o espaço geográfico; e o terceiro considera sua dimensão social e política.

Em meio a idas e vindas, incluindo a suspensão temporária de taxas, a discussão pouco fundamentada diante de um capitalismo global e contemporâneo - somado à volatilidade das regras econômicas - tem deixado agentes perplexos. Muitos se perguntam quem seriam os beneficiados pela política de Donald Trump, dado que uma nova guerra comercial tem várias dimensões. As tarifas de 25% impostas ao Canadá e ao México exemplificam uma tendência geoeconômica atual: um “neo-mercantilismo” com características fortes de populismo, nacionalismo e protecionismo.

A estratégia busca sinalizar para eleitores de Trump que a aplicação de tarifas e impostos sobre outros países levará ao enriquecimento da população americana. Essa abordagem funcionou nos Estados Unidos do século XIX, mas, nos tempos atuais, o capitalismo exige fluxos intensos e multidimensionais. Uma consequência é certa: elevação dos preços – inflação nos Estados Unidos e impacto inflacionário também nos demais países.

Um dos riscos de exercer poder geoeconômico excessivo é a fragmentação da economia global. Enquanto isso, os Brics – grupo que inclui Brasil, China, Rússia e Índia – seguem em expansão. Mesmo uma alternativa econômica menos robusta poderia enfraquecer os Estados Unidos. O poder geoeconômico se fortalece quando um país controla uma atividade quase inteiramente, deixando os demais sem opções viáveis. Contudo, qualquer alternativa, por menor que seja, já reduz esse domínio.

Uma análise que realizamos a partir do portal UN Comtrade – repositório de estatísticas oficiais de comércio internacional, disponível em:<https://comtradeplus.un.org/> – mostra que o superávit comercial brasileiro está concentrado em três blocos: Estados Unidos, União Europeia e Brics. No entanto, os parceiros tradicionais (Estados Unidos e União Europeia) perderam participação, enquanto os Brics já absorvem 35% das exportações brasileiras, com um crescimento de 10% na venda de bens de produção (insumos para fabricação de novos produtos). Esse movimento indica uma maior inserção do Brasil em novos mercados, o que se torna ainda mais relevante diante das possíveis taxações impostas pelo governo Trump sobre produtos como alumínio e aço.

O Brasil terá um enorme desafio na nova geoeconomia, marcada pelo “neo-mercantilismo trumpiano”. Diante desse cenário, vale lembrar Monteiro Lobato, que, em 1918, escrevia na Revista do Brasil: “O protecionismo é isso: destruição da concorrência, proteção ao incapaz...o protecionismo protege, não o povo, não o país, mas o incapaz”.

(*) Mestre em Economia e doutor em Administração Pública e Secretário de Finanças e Planejamento do Eusébio-Ceará.

Fonte: O Povo, de 6/02/25. Opinião. p.15.

domingo, 16 de março de 2025

SOMOS OBRAS PRIMAS DE DEUS

Por Pe. Eugênio Pacelli SJ (*)

Há dias de tormenta na nossa vida, quando tudo parece desabar. Provavelmente, o que sentimos é fruto do cansaço de antigas lutas contra nós mesmos, contra os outros e até contra Deus. Sempre é mais fácil culpar os outros pelo nosso despreparo e fracasso. As tormentas de fora machucam por dentro. Mágoas, mentiras, egoísmos, insônias, irritação. Precisamos ser curados de toda negatividade e libertados do egoísmo pelo amor misericordioso de Deus.

A experiência do se sentir amado e amar Deus aumenta nossa autoconfiança. O necessário para uma vida bem-sucedida não está fora, mas dentro de nós e se chama autoconfiança. É ela que faz com que possamos decidir que rumo devemos tomar, por isso é tão importante que cuidemos dos pensamentos dentro de nós, eles são determinantes. Somos aquilo que escolhemos nos tornar, portanto começar a acreditar mais em si é a melhor forma de trilhar uma vida saudável.

O que fazer então para fortalecer a autoconfiança? O primeiro passo é pensar positivo. Estudos da neurociência apontam que pensar positivo, além de fazer bem para a mente, ainda afeta o comportamento das pessoas que nos cercam, gerando um ciclo de bem-estar e animosidade à nossa volta. Lembre-se que os pensamentos geram sentimentos e sentimentos geram comportamentos.

O segundo passo é agir espontaneamente. A rotina nos faz perder este lado que é fundamental para a criatividade e até mesmo para a organização dos pensamentos. Você é espontâneo ou se cobra pelo o que os outros pensam? O terceiro passo é sentir-se único, original. Sua voz, suas características físicas, seu conhecimento e suas experiências são individuais e constituem tudo aquilo que faz com que você seja a pessoa que é.

Não se compare. Procure olhar para o que você tem de melhor, não em relação aos outros, mas em relação a si mesmo. Sua singularidade é seu principal diferencial. As pessoas podem tirar o que você tem, porém, o que você é ninguém lhe rouba. O quarto passo é valorizar seus dons. Pessoas autoconfiantes sabem reconhecer e valorizar cada ponto forte. Potencialize o que você tem de melhor, trabalhe a favor de si mesmo.

E por último, acredite em si. Se você não acreditar, as outras pessoas também não acreditarão. Quando não cremos em nosso potencial, fica evidente esta insegurança de maneira inconsciente, fazendo com que outras pessoas também não acreditem em nós. Somos aquilo que acreditamos ser e nos tornamos justamente aquilo que escolhemos nos tornar. Você acredita em vc mesmo?

(*) Sacerdote jesuíta e mestre em Teologia. Escritor. Diretor do Mosteiro dos Jesuítas de Baturité e do Polo Santo Inácio. Fundador do Movimento Amare.

Fonte: O Povo, de 8/02/2025. Opinião. p.18.

DE SAULO A PAULO: a missão transformadora do apóstolo

Por Pe. Reginaldo Manzotti (*)

Estamos iniciando um novo ano, e isso sempre representa uma oportunidade, com a graça de Deus, para transformar a nossa vida. O Apóstolo Paulo é um exemplo de que, quando Cristo nos encontra, nada fica igual, pois Ele nos chama a uma nova vida de fé e missão.

Paulo de Tarso, também conhecido como São Paulo, é uma das figuras mais influentes na história do cristianismo. Sua trajetória, marcada por uma dramática conversão e uma missão incansável de evangelização, teve um impacto profundo no cristianismo, Paulo se estabeleceu como uma das vozes mais poderosas na formação teológica e pastoral da igreja primitiva.

Antes de se tornar um dos maiores defensores de Cristo, Paulo era conhecido como Saulo de Tarso. Nascido em Tarso, uma cidade que fazia parte do Império Romano, ele era judeu de nascimento, com cidadania romana, o que lhe conferia um status especial e uma educação privilegiada.

Saulo era profundamente comprometido com a fé judaica e com as tradições do Sinédrio, o órgão governamental e religioso dos judeus. Ele acreditava que o movimento cristão representava uma ameaça à verdadeira fé judaica e, por isso, se dedicava com fervor à perseguição dos seguidores de Jesus Cristo.

O apóstolo não era apenas um simples perseguidor. Ele desempenhava um papel ativo e de destaque na condenação de cristãos, como ocorreu no martírio de Estêvão, o primeiro diácono da igreja, cujas vestes foram colocadas aos pés de Saulo, simbolizando sua aprovação à execução. Esse zelo pelas tradições judaicas levou-o a viajar para Damasco com o objetivo de prender mais cristãos, mas foi nesse caminho que sua vida tomaria um rumo inesperado.

A Bíblia descreve um evento extraordinário: uma luz cegante o envolveu no caminho, e uma voz lhe perguntou: "Saulo, Saulo, por que me persegues?". Surpreso e confuso, Saulo questionou: "Quem és tu, Senhor?", e a resposta foi clara: "Eu sou Jesus, a quem você persegue" (Atos 9, 4-5). Esse encontro com Jesus, que se revelou de forma direta e sobrenatural, não só derrubou Saulo de seu cavalo, mas também desafiou suas crenças mais profundas.

Embora o texto bíblico não mencione especificamente que Saulo caiu de seu cavalo, a imagem da queda foi frequentemente representada nas artes como um símbolo da humilhação que ele experimentou. Na verdade, ele foi derrubado de sua presunção religiosa, da visão distorcida de Deus e de seus preconceitos contra os cristãos. Esse evento representou uma quebra radical de tudo o que Saulo acreditava e desejava. O homem que antes era temido como um perseguidor agora se encontrava cego e em total dependência de Deus.

A cegueira temporária de Saulo foi um sinal de sua transformação espiritual. Ele ficou cego por três dias, durante os quais refletiu sobre sua vida e seu relacionamento com Deus. Foi então que um discípulo chamado Ananias, obedecendo a um comando divino, foi até Saulo, impôs-lhe as mãos, e sua visão foi restaurada. Ananias o chamou de "irmão", uma palavra que, para Saulo, deve ter sido um grande choque, visto que ele vinha para prender os cristãos, não para se tornar um deles.

Após o batismo, Saulo passou a ser conhecido como Paulo, e se dedicou completamente à pregação do Evangelho, enfrentando perseguições, dificuldades e até privações físicas em suas viagens. Ele viajou por diversas regiões do Império Romano fundando igrejas e ensinando sobre a salvação por meio de Jesus Cristo. Embora fosse judeu, Paulo passou a ser um apóstolo dos gentios, os não-judeus, levando a mensagem cristã a uma população muito mais ampla e diversificada.

Paulo não era um missionário comum. Ele era intenso, apaixonado e incansável em sua missão. Seu compromisso com o cristianismo era total, a ponto de ele declarar em suas cartas que "já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim" (Gl 2,20). Seu trabalho missionário foi marcado por um forte senso de urgência e dedicação, o que o levou a escrever diversas cartas, que se tornaram parte fundamental do Novo Testamento.

Paulo também se destacou por sua coragem diante do sofrimento. Ele enfrentou prisões, açoites, naufrágios e até ameaças de morte (cf. 2 Cor 11,24-25). Esse sofrimento, no entanto, não fez com que ele desistisse de sua missão; pelo contrário, reforçou seu compromisso em anunciar o Evangelho.

A transformação de Saulo para Paulo não foi apenas uma mudança de nome, mas uma mudança radical de identidade. Ele deixou para trás o "homem velho" e abraçou a nova vida em Cristo, com a convicção de que "morrer para o homem velho" e "nascer para o homem novo" era o verdadeiro significado da fé cristã.

O exemplo de Paulo nos desafia a viver com a mesma intensidade e dedicação, a buscar uma conversão contínua e a entender que, como ele mesmo dizia, "o importante é Cristo, o resto é lixo" (Fl 3,8). Em sua vida, Paulo nos mostra que não existe fé verdadeira sem transformação e missão.

(*) Fundador e presidente da Associação Evangelizar é Preciso e pároco reitor do Santuário Nossa Senhora de Guadalupe, em Curitiba (PR).

Fonte: O Povo, de 25/01/2025. Opinião. p.16.


sábado, 15 de março de 2025

Homenagem da Assembleia Legislativa do Ceará ao Dr. João Otávio Lobo e lançamento do livro “Spes a Spe”

Mesa diretora da Sessão Solene da Assembleia Legislativa do Ceará em Homenagem ao Dr. João Otávio Lobo (“in memoriam”). em 14/03/25.

Ontem pela manhã (14/03/25), sob a Presidência do deputado estadual Heitor Ferrer, aconteceu no Plenário 13 de Maio a Sessão Solene da Assembleia Legislativa do Ceará (Alece) em Homenagem ao Dr. João Otávio Lobo (“in memoriam”).

Na ocasião, foram homenageados com certificado de reconhecimento da Alece os médicos: 1. Lineu Ferreira Jucá, 2. Paulo Marcos Lopes, 3. José Glauco Lobo Filho, 4. João Martins de Sousa Torres e 5. José Maria Bonfim de Morais. Coube ao Dr. José Maria Bonfim de Morais, por designação dos homenageados, fazer a fala de agradecimentos à Alece e de expor os elementos principais do seu livro Spes a Spe (de esperança em esperança) – Prof. Dr. João Otávio Lobo (Biografia).

Após as homenagens, a tribuna oficial foi ocupada pelos seguintes oradores: Marcelo Gurgel, discorrendo sobre a vida de João Otávio Lobo, Dr. Lúcio Alcântara, realçando elementos importantes do teor da obra lançada, e Dr. José Glauco Lobo Filho, que fez os agradecimentos em nome da família do Dr. João Otávio Lobo.

Acad. Marcelo Gurgel Carlos da Silva

Membro titular da ACM – Cadeira 18


DEUS É BOM O TEMPO TODO

Por Rev. Munguba Jr. (*)

A Bíblia nos afirma que Deus é bom o tempo todo, mas essa verdade pode ser difícil de aceitar para muitos. Para algumas pessoas, ela parece contraditória diante das dores, sofrimentos e injustiças que vivenciam no dia a dia.

Uma mulher grávida perde o tão esperado filho nos primeiros meses de gestação; um jovem, que entrou na universidade e se tornou a esperança de um futuro melhor para a sua família, tem sua vida interrompida por uma bala perdida, sepultando seus sonhos e projetos; um cônjuge, que se dedicou com afinco ao casamento, é traído e abandonado no meio da jornada; pessoas que, todos os dias, lutam para sobreviver, sem comida e sem perspectivas de um futuro promissor.

Como, então, continuar afirmando que Deus é bom? Talvez essas pessoas tenham razão ao questionar a bondade de Deus. É como se Ele tivesse abandonado o planeta à sua própria sorte.

No entanto, a Escritura Sagrada nos lembra: “Os céus são os céus do Senhor; mas a terra, Ele deu aos filhos dos homens”. Esse texto pode nos ajudar a responder algumas questões. Ora, se nós, como humanos, restringimos as oportunidades de emprego e renda, negamos aos nossos filhos o acesso a uma educação de qualidade, investimos nosso tempo em conteúdos que destroem a família e não cuidamos do planeta, que é a nossa casa, a culpa não é de Deus, mas nossa. Colhemos o que plantamos.

Muitas vezes, enfrentamos dores que não compreendemos no momento, mas que, no futuro, perceberemos que isso faz parte da bondade de Deus. Ele usará nossas vidas para transformar a realidade de outras pessoas que passarão pelo que vivemos e, assim, estaremos preparados para ajudar, contribuir e solucionar.

Deus espera que você e eu nos submetamos à Sua doce vontade, que é “boa, perfeita e agradável” para todos aqueles que se rendem ao Seu grande amor. Aliás, amor é a definição de Deus, misericórdia, a Sua especialidade, fidelidade, Sua maneira de agir, e acolhimento, Sua alegria.

Ele nunca muda e é sempre bom. Deus é bom o tempo todo, e, mesmo que eu ainda discorde dessa afirmação, isso não altera a essência de Deus. Ele foi, é e sempre será bom. Quando conseguirmos sair da nossa dimensão limitada, veremos que Ele é, verdadeiramente, “O Único e Verdadeiro Deus”.

(*) Pastor Munguba Jr. Embaixador Cristão da Oração da Madrugada e Erradicação da Pobreza no Brasil e presidente da Igreja Batista Seven Church.

Fonte: O Povo, 18/01/2025. Opinião. p.20.

PEREGRINOS DA ESPERANÇA - Ano Jubilar 2025

Por Pedro Ferreira de Lima Filho SJ (*)

Iniciado em 24 de dezembro de 2024 pelo Papa Francisco, o Jubileu de 2025 traz como tema “Peregrinos da Esperança”, convidando o mundo a refletir sobre o papel essencial da esperança em tempos de crises climáticas e de guerras sem precedentes. Mais do que um evento litúrgico, essa celebração é um convite à renovação espiritual e à prática de valores universais como justiça social, perdão e fraternidade. Em um cenário global de divisões e incertezas, o jubileu surge como um momento propício para reavaliar nossas escolhas e redescobrir caminhos de reconciliação e solidariedade.

Com raízes na tradição bíblica, o jubileu simboliza perdão e recomeço. Porém, o chamado de 2025 vai além da fé cristã, propondo uma peregrinação interior acessível a todos, independentemente de crença ou religião. A mensagem é clara: combater o individualismo e promover a solidariedade. Virtudes como esperança e misericórdia se tornam pilares para a construção de um futuro mais acolhedor e justo, em que a humanidade se reconecte com o essencial.

Além da reflexão, o jubileu nos desafia a agir. Para os católicos, é um momento de renovação da fé e do compromisso com a Igreja. Porém, sua essência é universal: como podemos transformar nosso entorno? Essa celebração nos provoca a traduzir crenças, ou seja, sejam religiosas ou humanistas em ações concretas que inspirem mudança e esperança.

O Ano Jubilar de 2025 é um convite a superar as divisões e a fortalecer laços de solidariedade. Sob a liderança do Papa Francisco, somos chamados a promover a paz, a justiça social e o cuidado com o meio ambiente, em um compromisso que une pessoas de todas as crenças e culturas.

Mais do que uma celebração religiosa, o jubileu inspira um movimento global de transformação, guiado pela esperança na construção de um mundo mais justo e harmonioso. Que, ao final deste jubileu, em 24 de dezembro de 2025, a humanidade esteja mais unida e confiante em um futuro de maior equilíbrio e cooperação.

(*) Filósofo, pedagogo e teólogo.

Fonte: O Povo, de 14/01/2025. Opinião. p.16.


sexta-feira, 14 de março de 2025

Programa Cientista-Chefe da Cultura e nossa capital

Por David Moreno Montenegro (*)

O Programa Cientista-Chefe da Cultura, iniciativa apoiada pela Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico - Funcap, Secretaria da Cultura do Estado do Ceará - Secult e Universidade Federal do Ceará (UFC), há três anos desenvolve ações e pesquisas na área cultural, promovendo a articulação entre o governo do estado e as instituições de ensino superior do Ceará, com foco na noção de cidadania cultural.

É central no programa um olhar arqueológico e diagnóstico sobre os mecanismos estruturais que, historicamente, produziram corpos dissidentes e territórios excluídos das políticas públicas de cultura em nosso estado. Assim, destacamos contribuições no campo da modernização das políticas públicas de cultura através de inovações que aperfeiçoem essas políticas com inclusão social de indivíduos e coletivos que fazem cultura.

Em Fortaleza, os desafios são imensos. A maior parte de nossa população não tem acesso a bibliotecas, teatros, cinemas, museus, shows musicais, exposições artísticas. Para isso, precisam se deslocar na cidade, vencer barreiras econômicas, sociais e de classe, ir até os "centros culturais".

Nossos artistas e criadores culturais não possuem os incentivos necessários para viver dignamente de sua arte, submetem-se a disputas assimétricas através de editais com recursos escassos que, na maioria das vezes, financiam artistas que já possuem experiência e reconhecimento artístico estabelecido. Muitos não têm a oportunidade de ver refletido em seu público seus rostos, seus corpos, sua cor e seu território.

Nossas pesquisas revelam ser necessário investir no fortalecimento, democratização, reestruturação, simplificação e descentralização das políticas públicas de cultura - considerando a multiplicidade das expressões culturais, dos espaços e equipamentos com diferentes apelos de administração, programação e público, principalmente quando consideramos as periferias de nossa cidade.

Passadas as eleições e diante da evidente necessidade de se repensar a importância do campo cultural e suas políticas em nossa cidade, o Programa Cientista-Chefe da Cultura está à disposição para o diálogo com a nova gestão cultural de nosso município, tornando o campo cultural verdadeira prioridade do poder público em nossa cidade.

(*) Doutor em Sociologia. Professor de Sociologia do IFCE e pesquisador do Programa Cientista-Chefe da Cultura. no Ceará.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 15/02/25. Opinião, p.18.


 

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