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terça-feira, 9 de junho de 2026

Polo de Saúde impulsiona o hub logístico juazeirense

Por Rita Fabiana Arrais (*)

A consolidação da economia caririense como um dos principais eixos de crescimento econômico do interior do Nordeste, apoia-se estrategicamente na eficiência do polo de saúde - Hospital Regional do Cariri, Hospital São Vicente, Hospital do Coração e Hospital Santo Antônio - que concentra uma gama de especialidades médicas, bem como ofertas de serviços capazes de suprirem os atendimentos da Região Metropolitana do Cariri (RMC) pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e pelo setor privado.

O dinamismo do setor de saúde é um atrativo para o aumento dos investimentos privados, pois há segurança de retorno do capital mediante a demanda crescente e consistente do mercado, e o aumento das Parcerias Público - Privadas (PPPs) em que o setor público investe na aquisição de serviços do setor privado para preencher a oferta insuficiente da rede pública.

É importante pontuar os impactos socioeconômicos para a RMC, tais como: geração de emprego, inovação tecnológica, aumento da oferta de serviços em saúde, melhorias na infraestrutura das cidades, construção de hospitais públicos e privados, e a elevação na exigência de qualificação profissional, que vieram por meio de volumosos investimentos tanto públicos, quanto privados.

Economicamente, esses pontos descritos juntam-se a outros setores (indústria, serviços, educação) permitindo a diversificação do mercado, ao mesmo tempo que impulsiona o crescimento e o desenvolvimento da região com a abertura de novos empreendimentos visando suprir a cadeia produtiva regional. É cabível de registro que a região faz fronteira com os estados do Pernambuco, Paraíba e Piauí, favorecendo a integração dos mercados e o aumento da demanda por bens e serviços.

Neste cenário, um conjunto de fatores infraestruturais faz da cidade de Juazeiro do Norte um hub logístico estratégico, que funciona otimizando o custo de distribuição de mercadorias, proporcionando eficiência nos prazos de entregas, principalmente aqueles relacionados ao mercado de suprimentos hospitalares, medicações e insumos de alta sensibilidade.

Para a Secretaria de Desenvolvimento Econômico do município, a existência de uma malha rodoviária eficiente e o transporte aéreo garantem uma conectividade regional, em que na prática significa vincular fornecedores, transportadores e consumidores.

A necessidade de promover saúde para 1,5 milhão de pessoas em 45 municípios trouxe mudanças significativas na infraestrutura das cidades polo através da mobilidade urbana, e também na captação de novas empresas para atuar no ramo de operador logístico especializado no mercado de saúde e hospitalar.

(*) Economista.

Fonte: O Povo, de 8/05/26. Opinião. p.21.

quarta-feira, 6 de agosto de 2025

Os desafios da liderança feminina na saúde pública

Por Rochelle Souza (*)

Gerir administrativamente dois hospitais universitários federais de alta complexidade, como o Hospital Universitário Walter Cantídio e a Maternidade Escola Assis Chateaubriand, do Complexo Hospitalar da UFC/Ebserh, é um grande desafio. Quando essa liderança é exercida por uma mulher, os desafios se multiplicam ainda mais. São mais de 4.600 colaboradores, milhões em recursos gerenciados, estruturas operando 24 horas por dia nos sete dias da semana e cobrança constante por resultados cada vez melhores em assistência, ensino e pesquisa em saúde.

Além da vida profissional, sou mãe do Theo, de 8 anos; do Caramelo, um gatinho de 4 anos; e esposa do Thiago Braga. Como muitas mulheres, vivo a tripla jornada: trabalho, cuidado com a casa e educação do meu filho. Não há pausa ao chegar em casa há lancheiras para preparar, lições para revisar, escuta qualificada e afeto para oferecer.

Conciliar essas esferas é muito difícil e exaustivo. A gestão pública exige de nós uma atualização constante. As leis mudam, os sistemas se transformam, as exigências aumentam. Precisamos estudar continuamente e provar competência diariamente, em cada reunião de trabalho de equipe, audiência com autoridades, evento público etc.

O desafio de liderar com empatia, firmeza e visão estratégica está posto. Entendo que, além de processos, cuido de pessoas. Ao ocupar espaços de liderança, também abro caminhos para outras mulheres.

Meu propósito, meu ikigai, sempre esteve ligado ao serviço público. É na dedicação diária à população que depende do Sistema Único de Saúde (SUS) que encontro motivação para seguir todo novo dia. Mesmo atuando na gerência administrativa de um complexo hospitalar, minhas decisões impactam diretamente a qualidade de vida das pessoas.

Busco fortalecer o SUS com ideias inovadoras e propositivas. Contagio minha equipe com esse compromisso com a coisa pública, buscando deixar um legado positivo para as próximas gerações.

Liderar no Complexo Hospitalar da UFC/Ebserh é um orgulho e um ato diário de resistência e dedicação ao serviço público.

Gerente administrativa do Complexo Hospitalar da UFC/Ebserh

(*) Gerente administrativa do Complexo Hospitalar da UFC/Ebserh.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 6/07/2025. Opinião. p.18

sexta-feira, 18 de julho de 2025

UMA SANTA CASA SEMPRE ATUANTE

Por Vladimir Spinelli Chagas (*)

Os que fazem a Santa Casa assumem uma missão de vida: a de se dedicar, com afinco, independentemente de dificuldades, a atender da melhor maneira possível àqueles que ali buscam mitigar suas dores.

São vários os exemplos que repercutem no meio da Medicina, como o destaque no Bundle de Controle de Infecção do Trato Gênito-urinário, pela sua equipe técnica do Projeto Saúde em Nossas Mãos, em parceria com o Hospital da Beneficência Portuguesa.

Com preocupação também com meio ambiente, a Santa Casa de Fortaleza recebeu certificação da redução da emissão de gases de efeito estufa (GEE), concedido pela Comerc Energia e Sinerconsult.

A atenção superior que é dada a cada paciente, por parte de todo o seu corpo de servidores, rendeu-lhe a Certificação pela Avaliação Nacional das Práticas de Segurança do Paciente, concedido pela Anvisa e Núcleo de Segurança Sanitária,

A demonstração do seu compromisso com a implementação de ações e estratégias para a promoção da segurança e a transfusão segura no Estado do Ceará, foi reconhecida quando da participação no Patient Blood Management (PMB), promovido pelo Hemoce.

Ainda mais, foi oficialmente credenciada no programa Capacita Brasil/C-Jovem, que selecionou 350 empresas em todo o país para receber 1.100 jovens talentos da área de tecnologia. A participação se dá em dois projetos inovadores, voltados para a captação de recursos e melhorias de processos, sempre com foco no cuidado à população.

Para isto, a Santa Casa de Fortaleza zela por continuar sendo uma instituição que se moderniza e se preocupa com a qualificação dos seus profissionais de saúde. Exemplo recente foi a inauguração do Laboratório de Habilidades Clínicas e Cirúrgicas, voltado para aprimorar a formação prática de acadêmicos de medicina, estagiários e residentes médicos, além de seus próprios profissionais, mais uma vez visando a segurança e a qualidade no atendimento aos pacientes.

Assim, ano após ano desses seus 164 anos de existência, a Santa Casa de Fortaleza nunca deixou de inovar e ousar, com pioneirismo, enriquecer a Medicina cearense, da qual é o berço.

(*) Professor aposentado da Uece, membro da Academia Cearense de Administração (Acad) e conselheiro do CRA-CE. Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Fortaleza.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 16/06/25. Opinião. p.20.


terça-feira, 24 de junho de 2025

FAÇA UMA DECLARAÇÃO COM AMOR

Por Vladimir Spinelli Chagas (*)

Até o dia 30 de maio, milhões de brasileiros temos um compromisso com o chamado Leão da Receita Federal. Para muitos, um verdadeiro martírio. Para outros, mais uma chateação e trabalho. Para todos, uma nova maneira de praticar caridade.

A parcela da população que ainda não entregou sua declaração deste ano, continua tendo a chance de canalizar parte do imposto devido para ajudar a quem atende as pessoas idosas.

As instituições filantrópicas que trabalham com esse público, como a Santa Casa de Fortaleza, são sempre carentes de recursos de toda ordem, e aqui surge mais uma oportunidade para que as ajudemos, desta feita sem precisar disponibilizar novos recursos, mas utilizando parte dos valores que deveríamos recolher ao Leão.

Em linhas gerais, na declaração de ajuste, cada cidadão ou cidadã tem o direito de destinar até 3% do imposto devido, para o fundo de apoio aos idosos, o que pode ser feito de uma forma muito simples.

Preenchida a declaração, basta utilizar a aba Doações Diretamente na Declaração para destinar até aquele limite para o Fundo da Pessoa Idosa. Esse valor já aparece no próprio formulário. Agora indique o Estado, o Município e o valor até o limite indicado.

Encaminhada a declaração, deve-se emitir os respectivos DARFs para pagamento até o dia 30.5.25, valendo lembrar que, havendo imposto a pagar, esse valor será deduzido da parcela ou das parcelas seguintes. No caso de imposto a restituir, o valor será acrescido ao valor da restituição, ficando assim caracterizado que não há, de fato, desembolso adicional

Junto ao comprovante do pagamento, basta encaminhar à instituição uma Carta de Destinação, que pode ser facilmente encontrada no site da Santa Casa de Fortaleza (santacasace.org.br/imposto-de-renda/).

Esses recursos serão utilizados para manter em funcionamento serviços tão importantes para essa etapa específica da vida humana e que requerem esforços cada vez maiores por parte das instituições que a elas se dedicam diuturnamente.

Pronto. Você fez sua declaração com amor e ajudou muita gente. No caso da Santa Casa, a continuar salvando vidas, como o faz há 164 anos.

(*) Professor aposentado da Uece, membro da Academia Cearense de Administração (Acad) e conselheiro do CRA-CE. Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Fortaleza.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 24/05/25. Opinião. p.20.


segunda-feira, 16 de junho de 2025

A LUTA PELA TRANSFORMAÇÃO DA SAÚDE

Por Álvaro Madeira Neto (*)

Por muitos anos, a saúde pública no Brasil e no mundo tem oscilado entre dois polos: a aceitação passiva das desigualdades que permeiam os sistemas de saúde ou a intervenção ativa em busca de transformação. Ao refletir sobre o legado de um grande pensador não consigo deixar de traçar um paralelo entre a sua visão de educação e os desafios que enfrentamos na gestão em saúde.

Paulo Freire falava que há uma diferença essencial entre adaptação ao mundo e inserção no mundo. A primeira nos conforma a aceitar as realidades tal como são. A segunda exige de nós uma consciência crítica, que se recusa a aceitar passivamente as condições existentes e nos impele à ação transformadora. No Brasil, o conceito de inserção crítica no mundo ganha ainda mais força quando pensamos no SUS.

Criado com o objetivo de universalizar o acesso à saúde, o SUS é uma expressão concreta da luta por equidade. Representa a inserção ativa na realidade social, o reconhecimento de que a saúde não pode ser um privilégio de poucos. Ainda assim, enfrenta ameaças constantes, seja pela mercantilização da saúde, que tenta transformar serviços públicos em fontes de lucro privado, seja pelo desfinanciamento e pelo sucateamento estrutural.

Aceitar as ameaças de braços cruzados seria concordar com a perpetuação da desigualdade. A inserção crítica implica não só em defender o SUS, mas em lutar por sua melhoria contínua. A gestão em saúde não pode ser neutra. E, nesse contexto, os gestores de saúde têm um papel central. Não podemos aceitar que a saúde seja tratada como uma mercadoria. Na minha trajetória como médico sanitarista e gestor, aprendi que sistemas de saúde não se transformam sozinhos. Eles são moldados pelas decisões que tomamos ou deixamos de tomar.

Aqui se faz o paralelo mais forte com a visão freireana: não podemos aceitar a realidade como ela é, sem perceber que cada ação nossa, cada decisão é uma oportunidade de intervenção. A gestão em saúde deve ser um ato de resistência e transformação, uma luta constante para garantir que o direito à saúde seja um direito de todos. Esse é o legado que escolho honrar.

(*) Médico sanitarista e gestor em saúde. Sócio da Sobrames/CE

Fonte: Publicado In: O Povo, de 16/05/2025. Opinião. p.16.



quarta-feira, 21 de maio de 2025

VAMOS PRECISAR DESENHAR?

Por Vladimir Spinelli Chagas (*)

Insistimos, há mais de dois anos, numa solução para os déficits mensais que sofrem as instituições filantrópicas na área da saúde, por causa da claríssima defasagem da Tabela SUS, reconhecida por todos.

Parece que laboramos em terreno árido, pois nada é realmente feito em direção àquela que será a solução do problema, que é a complementação da Tabela, a exemplo do que fez o Estado de São Paulo, com amplo êxito.

Desenhando: a Santa Casa de Fortaleza, por exemplo, é 95% SUS, em respeito à sua condição de hospital de caridade. Desses, mais de 70% são para procedimentos de média complexidade, cuja defasagem é superior a 200%, entre valores pagos e custos incorridos.

Como exemplo, uma histerectomia, que é tabelada em R$ 1.103,64, tem custo médio de R$ 2.500, cujo desembolso é imediato e o recebimento do valor da tabela ocorrerá mais de 60 dias depois.

Como o SUS é constitucionalmente tripartite, os Estados e Municípios, ao atender em seus hospitais, cobrem as diferenças, aportando recursos orçamentários. Por que não dar tratamento semelhante à rede complementar? Por que exigir dessas que busquem recursos em outras fontes para continuar prestando esses serviços?

Em audiência de setembro de 2024, o Ministério assumiu compromisso de aporte adicional de recursos imediatos e o atendimento de pleito da Prefeitura, através da CIB 349/2024, que destina R$ 38.400.000,00/ano de acréscimo aos valores contratualizados. Em fevereiro, no entanto, o processo voltou à estaca zero, sem justificativa ou prévio aviso.

Estamos discutindo novo Plano de Negócios e parcerias para a Santa Casa, enquanto continuamos a reforçar, junto à sociedade, o espírito de colaboração, por meio das mais diversas formas de doação.

Mas isso não vai ocorrer no médio prazo, pois é um caminho complexo e não cogitamos em desfavorecer exatamente o nosso público-alvo, para o qual fomos criados: os mais carentes.

Assim, como Estado e Município complementam os seus custos e o Município é responsável pela regulação de pacientes, nunca vamos deixar de insistir em apresentar-lhes essa conta, que não é das filantrópicas.

Está bem desenhado?

(*) Professor aposentado da Uece, membro da Academia Cearense de Administração (Acad) e conselheiro do CRA-CE. Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Fortaleza.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 21/04/25. Opinião. p.16.

segunda-feira, 31 de março de 2025

A SANTA CASA E A SAÚDE PÚBLICA

Por Vladimir Spinelli Chagas (*)

Em diversos momentos, neste espaço e em outras oportunidades, vimos falando sobre a questão crucial de termos novamente a Santa Casa em pleno funcionamento, por tudo aquilo que ela representa para a sociedade cearense, desde o longínquo 1854, quando foram iniciadas as tratativas para a sua criação, concretizada em 14.03.1861, com sua instalação.

Durante esses anos, a Santa Casa funcionou como Maternidade, administrou uma Funerária e continua contando com o Hospital da Santa Casa, o Hospital Psiquiátrico São Vicente de Paulo, a gestão do Cemitério São João Batista e a Clínica Eduardo Salgado.

A crise atual, agravada durante a pandemia, é mais uma das muitas que as filantrópicas, via de regra, padecem por conta do subfinanciamento das atividades clínicas e cirúrgicas sob a Tabela SUS, com mais de 20 anos de defasagem.

As formas de solucionar o problema já foram também continuadamente expostas e resultaram em reunião no Ministério da Saúde, em setembro de 2024, de onde se saiu com o compromisso de ações, como o aporte emergencial de recursos e a cobertura do déficit mensal hoje existente.

Lamentavelmente, em início de fevereiro, voltou-se à estaca zero, alegando-se que as medidas haviam sido em caráter ad referendum, carecendo, portanto, de serem reiniciadas, causando tristeza e mal-estar entre todos os que acompanham a situação e se esforçam por solucioná-la.

Lembramos que, em 01.10.1895, pela Lei no. 278, o governo estadual autorizou o elevado aporte de 37.000$000 (em réis da época) para o resgate da dívida da Santa Casa. Em outros momentos, novos aportes foram feitos, porquanto os serviços são sempre remunerados abaixo dos reais valores.

Continuamos com a força e a resiliência em mantê-la aberta, em prol da população mais carente, mas reivindicamos a complementação dos valores da Tabela SUS e outras formas de transferência de recursos. Nos últimos anos, a Santa Casa vinha realizando em média 50 cirurgias por dia, podendo, com extensão de turnos, duplicar esse número, ajudando a reduzir as trágicas filas de hoje no Ceará.

Vamos continuar salvando vidas? A Santa Casa sabe como. 

(*) Professor aposentado da Uece, membro da Academia Cearense de Administração (Acad) e conselheiro do CRA-CE. Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Fortaleza.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 24/02/25. Opinião. p.20.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2025

JUDICIALIZAÇÃO NA SAÚDE — Como seguir adiante?

Por Fernando Barroso (*)

Li com profunda preocupação a notícia das novas regras para judicialização de medicamentos. A evolução da ciência na área do câncer, especialmente com as novas terapias, que permitem cura de linfomas e alguns tumores sólidos, as terapias gênicas e a terapia celular, que tem o CAR T cell como a principal revolução na medicina, verifica-se a possibilidade de resgatar pacientes que tinham a morte como uma certeza.

Como médico onco-hematologista, transplantador de medula óssea, exercendo essa função no serviço público e privado nos últimos 30 anos, diariamente em contato com este paradoxo da evolução da ciência, a doença neoplásica explodindo e o binômio câncer e pobreza, permeando nossas decisões. Um aspecto relevante é a sustentabilidade do sistema público e o equilíbrio fiscal das entidades federativas e do Estado. Não é fácil a incorporação dessas novas tecnologias na velocidade que precisaríamos.

A decisão do Supremo Tribunal Federal, que visa ordenar o mecanismo de judicialização, e reforço que não estou aqui a defender esta prática, muito pelo contrário, mas precisamos, realmente, tratá-la como exceção. Porém, para que isso aconteça de forma justa e consequente, teremos que ter um período de transição. Do contrário, as inúmeras pessoas com as doenças raras, os cânceres e as outras doenças menos frequentes, terão um hiato inevitável no acesso a seus tratamentos, e muitas vidas serão ceifadas silenciosamente, de forma dolorosa.

A decisão de condicionar estas autorizações ao parecer da Conitec é uma boa estratégia. Porém, antes de imputar essa responsabilidade seria necessário dar mais condições a este importante equipamento do governo Federal, permitindo uma maior agilidade nas análises e incorporação de novas terapêuticas.

Faço um apelo para que as autoridades revejam o tempo da incorporação dessa nova lei. Essa atitude seria uma demonstração de responsabilidade com o indivíduo. Que o Estado brasileiro tenha empatia para acolher todos os brasileiros que necessitam de um tratamento, independente de sua condição social ou qualquer fator discriminatório. Afinal somos ou não todos iguais, perante as leis do nosso país?

(*) Professor da UFC e chefe da Hematologia e Transplante de Medula Óssea do Hospital Universitário Walter Cantídio.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 4/1/2025. Opinião. p.18.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2024

DESAFIOS NA GESTÃO EM SAÚDE

Por Izabela Parente (*)

Pela própria definição, saúde é um completo bem-estar físico, mental e social e não apenas a ausência de doença. Por isso, gestores em saúde precisam estar atentos a alguns pilares essenciais, pois o cenário atual nos apresenta desafios gigantescos e, também oportunidades.

O avanço alcançado pela Medicina nas últimas décadas tem proporcionado o aumento da expectativa de vida das pessoas. Embora sejamos desafiados com o surgimento de algumas doenças. Hoje temos acesso a tecnologia para tratar enfermidades, mas um dos pilares primordiais da gestão em saúde é o investimento na promoção da saúde.

Na minha jornada profissional, tive a oportunidade de participar da gestão de duas das maiores operadoras de saúde suplementar do estado. Acompanhei projetos que causaram impacto profundo na promoção da saúde.

Um deles foi o Parto Adequado implementado pela Agência Nacional de Saúde Suplementar, a ANS, com o Institute for Healthcare Improvement (IHI) e o Hospital Israelita Albert Einstein. O desafio era aumentarmos o percentual de partos normais. Conseguimos com várias estratégias, incluindo a mudança na cultura dos profissionais envolvidos no processo.

Outro aspecto fundamental para o gestor é a busca pelo equilíbrio financeiro para evitar desperdícios de recursos. O gestor tem que carregar isso no seu DNA. No MBA que realizei no Brasil e outro na Espanha, tive a oportunidade de conhecer projetos exitosos que buscam este equilíbrio e, que poderiam ser facilmente aplicados aqui em Fortaleza.

Compreendi que o cerne da promoção em saúde continua sendo o cuidado no paciente. Quem procura um serviço de saúde está fragilizado, seja ele físico, emocional ou mental. Por essa razão, os profissionais de saúde precisam ter um olhar diferenciado, que enxergue não só o paciente, mas toda a familiar.

A qualificação, o treinamento, a capacitação exaustiva de nossos recursos humanos são essenciais para desenvolver esse olhar humanizado. E, felizmente, esses treinamentos não precisam de investimentos financeiros altos... Precisam, sim, de foco.

Neste momento tenho o privilégio de atuar na gestão pública, na Diretoria de Atenção à Saúde da Fundação de Apoio à Gestão Integrada em Saúde de Fortaleza, Fagifor. Ao aceitar o convite foi por acreditar que todo o conhecimento que adquiri ao longo desses mais de trinta anos na saúde suplementar são perfeitamente aplicáveis no serviço público.

Por mais desafios que, como este, que façam o meu olho brilhar.

(*) Médica. Diretora de Atenção à Saúde Fagifor (Fundação de Apoio à Gestão Integrada em Saúde de Fortaleza).

Fonte: Publicado In: O Povo, de 15/11/2024. Opinião. p.19.

quarta-feira, 21 de agosto de 2024

SUPERFICIALIDADE DA INFORMAÇÃO NA SAÚDE

Por Álvaro Madeira Neto (*)

Vivemos em uma era de paradoxos. Por um lado, temos o mundo ao alcance dos dedos, com mais informações do que jamais poderíamos consumir. Por outro, apesar dessa abundância, a profundidade do nosso entendimento parece cada vez mais rasa. A superficialidade da informação se tornou uma preocupação crescente, especialmente por seu impacto na saúde mental e no bem-estar da sociedade.

Estamos navegando em um oceano de dados, onde distinguir o essencial do supérfluo é uma tarefa árdua. Essa sobrecarga informativa nos empurra para um processamento superficial, onde a quantidade de conteúdo que passa pelos nossos olhos supera, e muito, o que realmente compreendemos e absorvemos.

Em um cenário onde as redes sociais competem pelo nosso tempo de atenção com conteúdos rápidos e estimulantes, acabamos sacrificando a reflexão e análise mais profundas.

Esse não é apenas um desafio para nossa gestão de tempo ou eficiência cognitiva; trata-se de uma questão de saúde pública. Os efeitos dessa sobrecarga são palpáveis: ansiedade, dificuldade de concentração e uma menor capacidade de pensar de forma crítica e profunda. Este estado de constante bombardeio informativo nos leva ao paradoxo da escolha, onde, apesar de termos acesso a tantas informações, nos sentimos paralisados e incapazes de tomar decisões claras e fundamentadas.

Mais alarmante ainda é como esse ambiente afeta o discurso público, especialmente em um ano de eleições municipais. A manutenção e o aprofundamento dos valores democráticos e inclusivos do nosso Sistema Único de Saúde dependem de debates ricos e fundamentados. A superficialidade não tem lugar quando o que está em jogo é o futuro da saúde coletiva e da democracia.

Portanto, a necessidade de ultrapassar a superficialidade informativa é ainda mais premente. A qualidade do debate público, a saúde da democracia e o futuro do SUS dependem de um engajamento informado, crítico e profundo por parte de todos. Através de um esforço coletivo, podemos mitigar os efeitos adversos desse fenômeno e construir uma sociedade mais informada, inclusiva saudável e democrática.

(*) Médico e gestor em saúde. Sócio da Sobrames/CE

Fonte: Publicado In: O Povo, de 2/08/2024. Opinião. p.18.

terça-feira, 20 de agosto de 2024

EDUCAÇÃO PERMANENTE EM SAÚDE: instrumento de aperfeiçoamento e eficiência organizacional

Por Virgínia Fonseca (*)

A definição de Educação Permanente em Saúde (EPS), adotada pelo Ministério da Saúde, consiste na aprendizagem no trabalho, em que aprender e ensinar se incorporam ao cotidiano das organizações.

A EPS vem se desenhando como uma estratégia essencial para a promoção de um cuidado seguro, com ações constantes de formação profissional, fazendo do cotidiano dos profissionais um local de aprendizagem, inovação e troca criativa de modelos por práticas cooperativas, capazes de acolher a diversidade e a pluralidade dos conhecimentos.

Em 2004 foi instituída a Política Nacional de Educação Permanente em Saúde (PNEPS), estratégia do SUS fruto de uma luta que contribui para a organização dos serviços de saúde por meio da qualificação e a transformação das práticas.

A educação continuada se caracteriza por atividades com período definido e parte do desejo do profissional em ampliar seus conhecimentos, já a EPS é uma estratégia político-pedagógica que foca nos problemas e necessidades do processo de trabalho, incorporando ensino, atenção à saúde, gestão do sistema e controle social.

Os gestores de educação permanente precisam ser criativos para planejarem propostas de treinamentos, levando em consideração objetivos de aprendizagem claros, perfil do facilitador e metodologias adequadas, a fim de gerar motivação de seus liderados em participar e que levem a experiências impactantes no cuidado prestado aos pacientes, garantindo qualidade e segurança aos mesmos.

No Instituto de Saúde e Gestão Hospitalar (ISGH), de 2022 até o final de 2023, a área realizou mais de 4.600 ações de treinamentos, nas quatro macrorregiões do Ceará. Os treinamentos também estão disponíveis de forma on-line, facilitando o acesso dos colaboradores.

Ao fornecer treinamentos específicos relacionados às responsabilidades do cargo do colaborador, oportuniza-se adquirir competências essenciais, além de estar sempre atualizado sobre as melhores práticas e procedimentos operacionais relevantes. Isso não apenas eleva o desempenho individual, mas também contribui para a eficiência geral da equipe e da organização.

(*) Médica e diretora-presidente do Instituto de Saúde e Gestão Hospitalar.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 31/07/2024. Opinião. p.20.


segunda-feira, 19 de agosto de 2024

UM NOVO TEMPO NA LUTA CONTRA O CÂNCER NO BRASIL

Por Thiago Santos Garces (*)

Diante do crescente desafio que o câncer representa para a saúde pública, o Brasil responde com uma medida decisiva: a promulgação da Lei Nº 14.758 pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Esta lei inovadora estabelece a Política Nacional de Prevenção e Controle do Câncer, com o objetivo de reduzir a incidência e mortalidade por esta doença e, simultaneamente, melhorar significativamente a qualidade de vida dos pacientes afetados.

Estatísticas recentes divulgadas pela Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC) projetam que o Brasil poderá enfrentar cerca de 554 mil mortes por câncer em 2050, marcando um aumento alarmante de 98,6% em comparação aos dados de 2022. Essa projeção serve como um chamado à ação, sublinhando a urgência de implementar efetivamente políticas de saúde que possam contrariar essa tendência preocupante.

Central para a estratégia da nova lei é o Programa Nacional de Navegação da Pessoa com Diagnóstico de Câncer, uma iniciativa pioneira destinada a identificar e superar as barreiras que dificultam o acesso ao diagnóstico precoce e ao tratamento eficaz. Por meio de um sistema de monitoramento detalhado, o programa acompanhará cada paciente desde a suspeita inicial de câncer, garantindo que o diagnóstico e o tratamento sejam não apenas tempestivos, mas também adaptados às necessidades individuais.

Esse programa tem o potencial não apenas de acelerar a identificação e tratamento de casos de câncer, mas também de otimizar os recursos do sistema de saúde, promovendo uma abordagem mais eficiente e centrada no paciente. Contudo, para que essa inovação se traduza em resultados tangíveis, enfrentar-se-ão desafios significativos: desde a integração eficaz dos diversos níveis de atenção à saúde até a necessidade de investimentos substanciais em formação profissional e infraestrutura tecnológica.

A implementação bem-sucedida do Programa Nacional de Navegação da Pessoa com Diagnóstico de Câncer, integrado ao Sistema Único de Saúde (SUS), refletirá um compromisso profundo com a evolução da política de saúde pública e saúde coletiva no Brasil. A Lei Nº 14.758 representa, portanto, um marco crucial nesta jornada, evidenciando a determinação do Brasil em fortalecer seu compromisso com a saúde pública e o bem-estar coletivo.

Agora, a eficácia dessa política dependerá da mobilização de todos os setores da sociedade: gestores públicos, profissionais de saúde e a população em geral devem unir esforços para garantir que as promessas da Lei Nº 14.758 se tornem realidade, marcando um avanço significativo na luta contra o câncer no país.

(*) Enfermeiro. Pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva da Uece.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 29/07/2024. Opinião. p.23.

terça-feira, 13 de agosto de 2024

RENOVAÇÃO DA SANTA CASA

Por Vladimir Spinelli Chagas (*)

No final de 2022, começamos as conversas em torno das mudanças que a situação da Saúde, em termos nacionais, vem exigindo de todas as instituições, sejam públicas, privadas ou filantrópicas.

Destas últimas, já destacamos as características peculiares que ampliam os desafios de um setor que vê crescerem as necessidades da população, neste caso, os mais desassistidos.

Agora, enfatizamos os projetos que se iniciaram com o viés da Inovação, permitindo um olhar mais abrangente para as soluções exigidas e atraindo um número significativo de parceiros que atuam com tecnologia, inovação, sustentabilidade, governança, etc.

O Plano Econômico é um exemplo dessas pascerias e nele fica patente a potencialidade que tem a Santa Casa de, não apenas retomar o seu espaço, mas ampliar sobremaneira a oferta de serviços, aliviando as grandes filas que se mostram nos diversos equipamentos.

Os avanços não foram maiores pelo acúmulo de dificuldades financeiras enfrentadas, dado o seu perfil de atender 95% de pacientes SUS e ser a única instituição, fora da rede pública, a ofertar procedimentos de média complexidade, razão preponderante dos déficits enfrentados.

Atraímos personalidades políticas para as discussões, obtendo sucesso no caso dos deputados estaduais, mas precisamos de mais do que isso. Precisamos que os três níveis de governo reconheçam os déficits provocados pela Tabela SUS e promovam ações de compensação, que serão absorvidas nos respectivos orçamentos, sem maiores percalços.

Vamos continuar esse discurso monocórdio, sempre com a confiança de que ele será absorvido em tempo de evitar maiores prejuízos para o foco de nossa atenção - o paciente desassistido -, que hoje está órfão, como se pode deduzir das filas que se avolumam em todos os equipamentos.

A Santa Casa, repetiremos à exaustão, não pede para si e nem algo fora da capacidade orçamentária dos governos. Salvando vidas desde 1861, queremos continuar cada vez mais essa meritória missão, da qual não arredamos pé. Projetos e força de vontade não faltam à equipe da Santa Casa, que permanece trabalhando com afinco nessa renovação.

(*) Professor aposentado da Uece, membro da Academia Cearense de Administração (Acad) e conselheiro do CRA-CE. Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Fortaleza.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 15/07/24. Opinião. p.20.


domingo, 11 de agosto de 2024

Reforma tributária e o futuro do cooperativismo em risco

Por Eduardo Vidal Pinto Jr. (*)

A conclusão das atividades dos grupos de trabalho (GTs) sobre a regulamentação da Emenda Constitucional da Reforma Tributária, na Câmara dos Deputados, marca um momento decisivo para o cooperativismo, que enfrenta um debate crucial sobre seu modelo de tributação.

Nós, cooperativistas do Ceará, temos participado ativamente desse debate, unindo forças para garantir que as particularidades do nosso modelo de negócios sejam preservadas. Fizemos diversos pedidos de revisão na proposta do PLP 68/2024 com expectativas de que os deputados atendessem essas demandas e fomos muito bem recebidos na mesa de diálogo e em audiência pública pelos deputados federais Luiz Gastão (PSD) e Moses Rodrigues (União Brasil).

Uma das principais questões levantadas é a não incidência de tributos sobre o ato cooperativo. A Constituição garante que esse modelo de relação não deve tributado. Porém, a proposta original do PLP 68/2024 desconsidera essa previsão e passa a cobrar os novos tributos das cooperativas. Os impactos dessa mudança afetarão diretamente mais de 20 milhões de cooperados, comprometendo a sustentabilidade do cooperativismo.

No modelo atual, a tributação é feita nos cooperados, como pessoas físicas, a exemplo de IRPF, ISS, 20% sobre teto do INSS etc. Nas cooperativas, são cobrados tributos também (PIS/COFINS, IRPJ etc.), mas apenas nos atos não cooperativos, igual a uma empresa normal. A proposta governamental, contudo, quer cobrar tanto do cooperado como da cooperativa, com o IBS e CBS sendo tributado sobre os atos cooperativos e os atos não cooperativos.

Cabe à classe política brasileira decidir se o cooperativismo, que gera riqueza onde está instalado - elevando o PIB per capita dos municípios em cerca de R$ 5,1 mil em média e melhorando seu IDH, além de distribuir melhor a renda local - continuará existindo.

Não podemos permitir esse excesso de tributação sobre o modelo de negócio que mais gera oportunidades no Brasil neste momento. Caso contrário, a competitividade do nosso modelo será seriamente prejudicada. Deputados federais do Ceará, contamos com vocês nesta missão crucial!

(*) Médico anestesiologista. Presidente da Federação das Cooperativas de Especialidades Médicas do Ceará e diretor do Sistema OCB/CE.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 16/07/2024. Opinião. p.18.

quarta-feira, 17 de julho de 2024

SAÚDE E DESENVOLVIMENTO

Por Vladimir Spinelli Chagas (*)

Vimos, incansavelmente, trazendo à baila o tema da Santa Casa de Fortaleza, buscando não apenas reforçar o papel relevante que ela presta aos cearenses, salvando vidas desde 1861, mas as dificuldades que ciclicamente enfrentam as instituições filantrópicas, que representam cerca de 25% dos hospitais do Brasil e atendem a mais de 50% da demanda SUS, cuja tabela está defasada há mais de 20 anos.

A Santa Casa de Fortaleza vem em busca de soluções, também internamente, como mostram as atividades que desenvolve no sentido de aumentar a captação de recursos, ampliar as parcerias e implementar ações inovadoras. Mas esse esforço será inócuo se o poder público, nos três níveis, não participar diretamente das ações, para pelo menos atenuar as dificuldades provocadas pela reconhecida defasagem.

Em audiência recente com o Senhor Prefeito, levamos o quadro da situação e propostas para seu equacionamento, através da complementação dos valores defasados, da atualização dos atuais incentivos por produção e de uma rediscussão do sistema de regulação de pacientes, dentre outras.

Em termos de valores defasados, a média complexidade SUS representa o maior volume de atuação da Santa Casa, único hospital fora da rede pública com esse atendimento. Assim, mudanças na regulação reduziriam o desequilíbrio entre média e alta complexidade, enquanto a compensação dos valores, com mais de 220% de defasagem, reduziria o déficit mensal incorrido na prestação desse serviço ao público.

Este primeiro passo evitará a angústia mensal dos nossos pacientes com paralisações de serviços ou redução de oferta, pela impossibilidade de a Santa Casa arcar com as despesas para continuar atendendo, com o mesmo padrão de alta qualidade.

A saúde, um dos pilares fundamentais do desenvolvimento, proporciona um ciclo virtuoso para o progresso econômico da população como um todo, com maior produtividade, menor absenteísmo e redução dos gastos governamentais, além de melhorar a qualidade de vida dos cidadãos.

Assim, a Santa Casa não pede para si, mas para continuar contribuindo fortemente com a saúde pública, da qual foi berço no Ceará.

(*) Professor aposentado da Uece, membro da Academia Cearense de Administração (Acad) e conselheiro do CRA-CE. Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Fortaleza.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 17/06/24. Opinião. p.20.

terça-feira, 18 de junho de 2024

RADIOTERAPIA NA SANTA CASA DE FORTALEZA

Por Vladimir Spinelli Chagas (*)

Uma das primeiras instituições a prestar serviços de oncologia no Ceará, iniciados em 1963, a Santa Casa de Fortaleza manteve a primeira posição em números de cirurgias oncológicas de diversas especialidades até o ano de 2019, quando cresceu a oferta de novas instituições especializadas.

Durante esse tempo, manteve-se atuante, com equipes médicas de excelência e o seu reconhecido atendimento humanizado, além da atuação em procedimentos clínicos e cirúrgicos de média complexidade, reconhecidamente deficitários, em razão da defasagem de mais de 20 anos da Tabela SUS.

Em 3 de junho de 2015, a Santa Casa se habilitou em programa do governo federal, sendo uma das instituições beneficiadas com um acelerador linear, equipamento que permite os serviços de radioterapia de alta relevância para um significativo número de cânceres.

A obra, financiada e acompanhada pela União, está em vias de ser definitivamente entregue à Santa Casa, para que esta inicie a sua disponibilização para os seus pacientes e oferte a outras instituições.

O equipamento para exames de radioterapia, em instalação, vai permitir à Santa Casa um primeiro patamar nesses serviços, mas já nos movimentamos para buscar upgrade no software que o acompanha e, logo em seguida, na busca de recursos para a instalação de uma segunda unidade, cujo espaço físico já está definido.

Destaque-se que hoje, no Ceará, os pacientes oncológicos com perfil para radioterapia aguardam, em média, 35 dias para realizar a primeira sessão, o que mostra que a disponibilidade de um novo equipamento irá contribuir grandemente na redução dessa fila, pela possibilidade de atendimento diário entre 30 e 40 pessoas.

É importante ressaltar a permanente dedicação da Santa Casa de Fortaleza à causa da saúde pública, especialmente aos pacientes mais carentes, como forma de manter a característica de Hospital de Caridade, conquistada desde a sua criação, 163 anos atrás.

Este novo passo descortina mais desafios à frente e demonstra, mais uma vez, o compromisso da Santa Casa de Fortaleza com os seus pacientes e o seu lema: salvando vidas, desde 1861.

(*) Professor aposentado da Uece, membro da Academia Cearense de Administração (Acad) e conselheiro do CRA-CE. Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Fortaleza.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 20/05/24. Opinião. p.20.

quarta-feira, 22 de maio de 2024

A RENOVAÇÃO DA SANTA CASA DE FORTALEZA II

Por Vladimir Spinelli Chagas (*)

Olhando para o futuro, a Santa Casa de Fortaleza, dentre outros esforços, realizou um levantamento rigoroso de toda a sua situação econômico-financeira, com o apoio da Federação das Indústrias do Ceará (Fiec), construindo um plano econômico que pode demonstrar os espaços para a otimização de suas receitas e despesas.

As parcerias firmadas com várias instituições são um ponto positivo para que as ações sejam facilitadas, pois exigem muitas energias em um tempo exíguo, mas também representam um desafio que impele ainda mais todos os que acreditam e trabalham pela Santa Casa.

A par disto, e ainda com apoio da Fiec, a Santa Casa desenvolve os primeiros passos para o protocolo ESG, caminho natural, por ser uma instituição eminentemente social, preocupada com o ambiente, e vir aprimorando os fatores de governança, inclusive para a captação de recursos.

A partir de avaliações internas, outra iniciativa está em andamento, na forma de oficinas de trabalho, tendo como fase inicial o desafio da busca pela sustentabilidade no curto prazo, a fim de permitir, nas etapas seguintes, a adoção de ações de médio e longo prazos que reforcem essa sustentabilidade.

Essas oficinas já apontaram caminhos, cuja viabilidade se mostra mais factível. Um deles trata da revisão de todo o modelo de negócios e de marketing institucional, como forma de apoiar as ações em favor do incremento das doações, um dos esteios na captação de recursos.

Considerando o foco especial nos nossos pacientes e a margem que existe para ampliar os atendimentos, um segundo ponto se refere exatamente à melhoria na sua abordagem, resultando em melhorar o acesso, com a eficiência e a qualidade dos serviços oferecidos pela Santa Casa.

Não menos importante será o fortalecimento de um ambiente de confiança e colaboração entre a instituição e os médicos que aqui prestam serviços, visando melhorar a transparência nas operações e aumentar ainda mais o comprometimento desses profissionais com a instituição.

Salvando vidas desde 1861 e convivendo com as dificuldades das filantrópicas, a Santa Casa não esmorece no seu trabalho em prol da saúde daqueles que mais precisam de apoio.

(*) Professor aposentado da Uece, membro da Academia Cearense de Administração (Acad) e conselheiro do CRA-CE. Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Fortaleza.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 22/04/24. Opinião. p.16.

quinta-feira, 25 de abril de 2024

A RENOVAÇÃO DA SANTA CASA DE FORTALEZA

Por Vladimir Spinelli Chagas (*)

A partir do final de 2022, já na esteira da alteração da sua gestão, a Santa Casa de Fortaleza iniciou um período de renovação em todos os aspectos, alguns já tratados neste espaço, como a criação da Diretoria de Inovação, base para uma nova Santa Casa.

Desde 1861 atuando em benefício das camadas mais carentes da população cearense, a Santa Casa tem um histórico de acolhimento e de serviços assistenciais de elevada relevância para esses pacientes e para o sistema de saúde do Ceará.

Convivendo com as dificuldades inerentes às filantrópicas, dada a defasagem da tabela SUS, que têm impacto ainda mais intenso em um portfólio como o da Santa Casa - 95% de pacientes SUS e 70% de cirurgias e atendimentos clínicos de média complexidade, que geram altos déficits por procedimento -, a ideia foi iniciar imediatamente processo de modernização, com apoio em ideias e processos inovadores.

Essa modernização vem sendo facilitada pelo leque de parcerias já firmadas, cabendo agora ampliar a discussão com todos esses entes (universidades, centros universitários e outras instituições de ciência e tecnologia), como oportunidade de alinhar esforços em benefício do público-alvo da Santa Casa.

Prioritariamente, por óbvio, está o ingresso dos recursos indispensáveis ao retorno das atividades plenas, a partir da redução do volume de dívidas acumuladas nesses anos de grandes dificuldades, e que foi agravado durante a pandemia. Parte desses recursos já está destinada ou comprometida por parlamentares nos três níveis.

A ampliação do diálogo com os gestores do setor de saúde, em nível estadual e municipal, é também foco das atenções, buscando reforçar parcerias que beneficiam o setor público, tendo em vista as características da Santa Casa, uma instituição filantrópica humanizada e de excelência, com custos mais adequados.

Com essas ações, a Santa Casa, como sempre agiu, ajudará o sistema de saúde a enfrentar com mais eficiência e eficácia o grave problema que hoje são as grandes filas por consultas e cirurgias, e a lotação das UPAs e hospitais da rede assistencial.

(*) Professor aposentado da Uece, membro da Academia Cearense de Administração (Acad) e conselheiro do CRA-CE. Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Fortaleza.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 25/03/24. Opinião. p.22.

quarta-feira, 3 de abril de 2024

A NATUREZA DA SANTA CASA DE FORTALEZA

Por Vladimir Spinelli Chagas (*)

Nossos últimos artigos, nesses quatro anos de participação no O POVO, têm destacado algum aspecto relativo à Santa Casa de Fortaleza, como a defasagem da Tabela SUS, agravado por mantermos os propósitos dos nossos criadores que, em 1845, idealizaram um Hospital de Caridade, com recursos de doações, efetivado em 1861.

Mantendo-se como hospital voltado aos mais carentes, sendo 95% dos assistidos via SUS, a Santa Casa nunca reduziu sequer as cirurgias de média complexidade — hoje mais de 70% dos procedimentos cirúrgicos realizados —, malgrado as diferenças entre o valor da Tabela SUS e os custos reais, que superam os 200%.

Essa abnegação se deve em muito a ter sempre contado com grandes nomes da medicina cearense e destaque em várias especialidades, além de ter sido, durante anos, a referência em oncologia, mesmo após o surgimento dos primeiros hospitais especializados. Ainda agora estamos em vias de inaugurar um moderno equipamento para a realização de radioterapia, alcançando assim, um elevado nível nesses procedimentos oncológicos.

No entanto, o percentual de 95% de pacientes SUS e a manutenção dos procedimentos de média complexidade em índices superiores a 70%, em comparação com a alta complexidade, provocam déficits mensais cada vez maiores, dificultando a sua cobertura com recursos captados nas tradicionais campanhas de doação.

Internamente, iniciamos um projeto de desenvolvimento de processos, produtos e serviços inovadores e estamos concluindo nosso Plano Econômico para então nos debruçarmos melhor sobre outras ações, como o Protocolo ASG, que nos proporcionará melhores condições de concorrer a recursos nacionais e internacionais de instituições preocupadas de fato com o ambiental e o social e da prática de boa Governança.

O caminho iniciado em março de 2023 já aponta para bons resultados, mas antes precisamos do olhar e do apoio dos entes públicos e privados, além da sociedade, para que a Santinha, como é carinhosamente chamada, rapidamente retome todo o seu papel de um hospital de acolhimento à parcela mais vulnerável da população.

(*) Professor aposentado da Uece, membro da Academia Cearense de Administração (Acad) e conselheiro do CRA-CE. Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Fortaleza.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 26/02/24. Opinião. p.16.

terça-feira, 5 de março de 2024

A DÍVIDA DA SANTA CASA DE FORTALEZA

Por Vladimir Spinelli Chagas (*)

Antes de assumirmos, em 19 de março de 2023, o cargo de Provedor da Santa Casa de Fortaleza, já ensaiávamos alguns artigos neste importante espaço do O POVO, divulgando e disseminando informações dessa instituição, para maior conhecimento público sobre o seu significado.

Um dos pontos de maior importância, porque se relaciona diretamente com o seu presente e o seu futuro, refere-se, obviamente, à sua atual situação financeira, considerada preocupante já a partir da pandemia, com acúmulo de dívidas pelo desequilíbrio entre receitas e despesas, provocado por vários fatores, inclusive os aumentos nos insumos.

No entanto, é preciso que essa situação seja esclarecida, na forma transparente como sempre deve ser, pois, conhecendo suas nuanças, poderemos todos nos engajar na solução, que se mostra mais simples do que possa parecer à primeira vista.

Convém citar que, à exceção de procedimentos de alta complexidade, com revisões pontuais, os procedimentos clínicos e cirúrgicos de média complexidade não são atualizados na Tabela SUS há cerca de 20 anos, gerando uma gritante defasagem.

Como a Santa Casa de Fortaleza é um dos hospitais com maior atuação na média complexidade, e atende quase exclusivamente pacientes SUS, incorre em custos maiores do que a remuneração a receber, com diferenças que superam os 200%. A quem cabe pagar essa diferença? Não bastam doações e outras formas de arrecadação, pois essa distância tende sempre a aumentar.

Esta é a principal causa. Partindo dela, consideramos que Estado e Município devem participar conjuntamente de uma solução que tem alto impacto para os assistidos, sem representar sangrias orçamentárias, que é a de compensar a defasagem com um aporte proporcional que permita o equilíbrio da Santa Casa de Fortaleza de ora em diante.

Estamos abertos ao diálogo para demonstrar, com dados como os dos principais procedimentos de média complexidade, que uma pequena injeção de recursos significará melhoria na área da Saúde, reduzirá filas, otimizará custos e permitirá que a Santa Casa de Fortaleza, criada como Hospital de Caridade, mantenha sua marca: salvando vidas desde 1861.

(*) Professor aposentado da Uece, membro da Academia Cearense de Administração (Acad) e conselheiro do CRA-CE. Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Fortaleza.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 29/01/24. Opinião. p.16.


 

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