sábado, 14 de outubro de 2017

PROVÉRBIOS ALEMÃES QUE ILUSTRAM A VIDA

9 essenciais provérbios alemães que ilustram a vida com salsichas, cervejas e pôneis

Estes provérbios sobre começos, fins, salsichas e pôneis ajudam a entender o modo de pensar dos alemães.

Escrito por Gabriel Mestieri
Aprender um idioma é uma das melhores maneiras de entender outra cultura. Às vezes, você tem que se colocar, de verdade, no lugar dos falantes nativos: pensar como eles pensam, tentar ver o mundo sob o ponto de vista deles. Esse processo pode ser muito bem complementado com alguns provérbios, já que eles ilustram a maneira de pensar de um povo.
Os ditos populares também desconstroem alguns mitos sobre a língua alemã, como o de que que ela é dura, direta demais, sem humor, poesia ou outros respiros: estas expressões são cheias de imagens e ironia.
E se as cervejas, as salsichas, os pôneis e os peixes fedidos destas expressões não forem suficientes para você se divertir com o idioma alemão, eu também divido o modo como interpreto e vivo essas máximas, já que elas têm bastante a ver com a minha mudança para Berlim. Vamos começar pelo início…

1 "Aller Anfang ist schwer." (Todo começo é difícil)

Então, finalmente decidi me mudar para Berlim. Deixei meu emprego em São Paulo, comprei uma passagem só de ida e reservei um hostel por duas semanas. Falando assim parece fácil, mas certamente não foi. As duas semanas no hostel se aproximavam do fim e eu começava a perceber, da maneira mais difícil possível, que a procura de um lugar para morar em Berlim pode se estender por meses. Encontrar um emprego também não foi fácil: sim, Berlim oferece várias vagas, mas encontrar uma que se encaixe às suas necessidades e expectativas é outra história. Hoje, dois anos depois, eu acho que posso dizer aos recém-chegados: "mantenha a calma e não desista de procurar um canto para chamar de seu. Aller Anfang ist schwer, mas você encontrará em algum momento aquele apartamento dos sonhos em Kreuzkölln.

2 "Kein Bier vor vier." (Nada de cerveja antes das 4)

Composto por apenas 4 palavras, esse provérbio impressiona pela simplicidade e por ser um exemplo de que, às vezes, é possível dizer bastante em alemão utilizando poucos caracteres. Eu frequentava as aulas de alemão pela manhã e, sem ter nada para fazer o resto do dia, é claro que aprendi essa regra bebendo muitas cervejas vor vier. A primeira vez que ouvi essa expressão foi quando um colega espanhol se recusou a tomar uma cerveja comigo na hora do almoço. Eu fui assim mesmo e desde então essa expressão é uma das minhas favoritas, ainda que eu a desrespeite constantemente.

3 "Alles hat ein Ende, nur die Wurst hat zwei." (Tudo tem um fim, só a salsicha tem dois)

Assim como as cervejas, as salsichas são quase que imediatamente associadas à Alemanha e aos alemães. E, é claro, que elas também estão presentes nos ditados populares do idioma, neste caso, para explicar que tudo na vida passa. Portanto, não se preocupe tanto. Nem se apegue muito a nada, afinal… Mas o que faz essa expressão especial é que o seu começo faz você esperar algo bastante profundo e filosófico: “Alles hat ein Ende, [insira uma grande sabedoria aqui]". Mas, para a nossa sorte, a segunda parte quebra completamente essa expectativa ao contar algo óbvio envolvendo salsichas. Quem disse que os alemães não têm senso de humor? (Se você quiser saber mais expressões sobre salsichas, esse é apenas um de muitos exemplos. Não deixe de ler outras formas de se expressar no idioma alemão com salsichas neste artigo em inglês).

4 "Der Fisch stinkt vom Kopf her." (O peixe começa a feder pela cabeça)

Ainda na categoria dos comes e bebes, este provérbio coloca o olfato na lista de sentidos explorados pela sabedoria popular. Ao dizer que o peixe começa a feder pela cabeça – como confirma o químico Hartmut Rehbein neste texto em alemão –, o provérbio insinua que as pessoas no comando são as responsáveis quando algo dá errado. Para mim, essa expressão também pode ser interpretada no âmbito pessoal: muitos dos seus problemas começam e existem apenas na sua cabeça.

5 "Nicht jede Kuh lässt sich melken." (Nem toda vaca se deixa ordenhar.)

Esse provérbio, ao meu ver, ilustra a importância da resistência, da manutenção da dignidade e do estabelecimento de limites. Às vezes, na vida, somos obrigados a fazer coisas de que não gostamos, e isso pode ser especialmente doloroso quando figuras de autoridade estão envolvidas. Seja um parceiro ou familiar abusivo, um agente arbitrário do Estado, um chefe intransigente ou um extremista religioso, é possível que em algum momento da sua vida você se depare com pessoas que acreditam poder dizer o que você deve fazer. Nesses casos, lembre-se sempre: Nicht jede Kuh lässt sich melken.

6 "Erst kommt das Fressen, dann die Moral." (Primeiro vem a comida, depois a moral.)

Essa não é exatamente uma expressão popular, mas uma citação famosa de A Ópera dos Três Vinténs, do dramaturgo alemão Bertolt Brecht. Para mim, ela exemplifica perfeitamente como as aflições mais urgentes da vida, às vezes, nos impedem de filosofar sobre questões mais existenciais (e importantes), além de servirem como uma espécie de pretexto para flexibilizarmos muitas de nossas ideias acerca do certo e errado . Essa expressão também dialoga com o meu início de vida em Berlim: ao chegar, tendo de encontrar um emprego e um lugar para morar, eu não tinha tempo de pensar nos mistérios da existência e do universo. Agora que essa fase inicial passou, eu finalmente tenho tempo para me perguntar: "Quem sou eu?" "O que estou fazendo nesse planeta?"

7 "Ein gutes Gewissen ist ein sanftes Ruhekissen" (Uma consciência limpa é o travesseiro mais macio que existe.)

Eu gosto de pensar que minha consciência sempre esteve (mais ou menos) limpa, mas ainda assim eu tive problemas para dormir durante toda a vida. Além disso, nunca ouvi falar que psicopatas sofram mais com insônia que o resto da população. Então, apesar de essa expressão soar bem, com sua rima e metáfora descolada, eu tenho que dizer que discordo completamente.

8 “Knapp daneben ist auch vorbei." (Quase ganhar também é perder.)

Esse ditado pode ser um pouco cruel para aqueles que deram seu melhor e chegaram em segundo lugar – afinal de contas, o importante é competir, certo? Errado, pelo menos de acordo com esse provérbio alemão. Mas não vamos levar tudo tão a sério: essa é uma ótima frase para provocar seu amigo alemão após vencer em qualquer esporte, competição, jogo de cartas ou videogame (e oportunidades não vão faltar, pois os alemães são loucos por jogos).

9 "Das Leben ist kein Ponyhof." (A vida não é uma fazenda de pôneis.)

Para fechar a lista, uma máxima que pode ser vista como um jeito bastante sarcástico de enxergar a vida: Das Leben ist kein Ponyhof. Portanto, espere muitos imprevistos, mudanças inesperadas, problemas, e assim por diante. Mas é claro que tudo depende da forma como você interpreta isso. Para mim, uma fazenda de pôneis (ou uma vida em que tudo acontece conforme o planejado) soa como algo extremamente entediante. Que bom que a realidade não é assim!
Fonte: pt.babbel.com

“Doutor Livingstone, eu presumo?”: a maior aventura africana faz 145 anos


Por André Barcinski
O calendário de Henry Morton Stanley apontava o dia 10 de novembro de 1871. Naquela manhã, Stanley e sua expedição, carregando uma bandeira norte-americana, chegaram a Ujiji, uma vila com cerca de mil habitantes no leste da África, hoje território da Tanzânia.
Além do próprio Stanley, só havia um homem branco em Ujiji. Ele tinha 58 anos, mas aparentava 80. Era magérrimo, desdentado, com longos cabelos brancos e roupas quase em farrapos. Stanley se aproximou, estendendo a mão…
– Doutor Livingstone, eu presumo?
Sim – respondeu Livingstone.
– Eu agradeço a Deus, doutor, o fato de ter tido permissão para vê-lo.
– Eu me sinto grato por estar aqui para recebê-lo.
Assim acabava a maior aventura africana. Durante 236 dias, Stanley havia percorrido 1560 quilômetros a pé pelas florestas da África, enfrentando leões, cobras, canibais e doenças. Tudo para achar David Livingstone, o grande explorador escocês, desaparecido do Ocidente há quase seis anos e que muitos davam por morto.
O encontro de Livingstone e Stanley está completando 145 anos. Ou melhor, já completou: estudos indicaram que a data exata do encontro foi 27 de outubro de 1871. A confusão aconteceu porque Stanley passou vários dias desacordado devido às várias doenças que contraiu na expedição, como disenteria, malária e até a quase sempre fatal doença do sono, e isso acabou por confundir seu calendário.
Um dos melhores relatos sobre a expedição de Stanley em busca de Livingstone é o livro “No Coração da África”, de Martin Dugard. Para quem gosta de histórias de aventuras e exploração, é difícil achar um livro mais empolgante.
Para começar, os dois personagens principais são fora de série: David Livingstone (1813-1873) era considerado o maior explorador da África e um grande herói britânico. Foi um missionário humanista que lutou contra o tráfico de escravos e sumiu de circulação em janeiro de 1866, quando se embrenhou em regiões inexploradas da África para tentar solucionar um mistério que causava polêmica entre geógrafos e exploradores: onde ficava a nascente do rio Nilo?
Já Henry Morton Stanley (1841-1904) teve uma vida triste e dramática: filho de uma prostituta, nasceu no País de Gales – seu nome verdadeiro era John Rowlands – e aos cinco anos foi mandado para um desses orfanatos saídos diretamente de um livro de Charles Dickens, onde foi castigado e abusado sexualmente por mais de uma década. Aos 15, saiu do orfanato, perambulou pela Inglaterra, embarcou num navio e, dois anos depois, acabou nos Estados Unidos, onde lutou na Guerra de Secessão – primeiro pelos Confederados e, depois de passar um tempo na cadeia, pela União – virou repórter, foi preso por dois anos numa masmorra na Turquia e acabou trabalhando como correspondente internacional do jornal “The New York Herald”, cobrindo conflitos na Etiópia, Espanha e China.
Mas o grande furo de reportagem da carreira de Stanley foi mesmo a descoberta de Livingstone. Embora houvesse relatos sobre um homem branco que comandava uma pequena expedição no coração da África, muitos acreditavam que Livingstone estivesse morto. Stanley achava que não, e convenceu o “The New York Herald” a bancar uma expedição para encontrá-lo.
O livro de Martin Dugard conta, em paralelo, as duas expedições – a de Livingstone em busca da nascente do Nilo, e a de Stanley em busca de Livingstone. As histórias envolvem ataques de canibais, leões famintos, aranhas venenosas e guerras entre tribos africanas.
Numa das passagens mais impressionantes, a expedição de Stanley explora uma região alagada pelas chuvas. Os homens caminham por dezenas de quilômetros com água na altura do peito, sendo atacados por cobras e sanguessugas, e alguns se afogam ao cair em pegadas de elefantes.
A notícia da descoberta de Livingstone correu o mundo e causou revolta na Inglaterra, onde muitos não aceitaram a humilhação de ter um de seus filhos mais ilustres resgatado pelo repórter de um jornal norte-americano. Para tristeza ainda maior dos ingleses, Livingstone nunca retornou à Grã-Bretanha: morreu em 1873, de disenteria e malária, numa região que hoje pertence à Zâmbia. Seu coração foi retirado pelos fiéis assistentes, Susi e Chuma, e enterrado aos pés de um imenso baobá.
Fonte: UOL, Blog do Barcinski, em 4/11/2016.

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

RADICALISMO


Por Luiz Gonzaga Fonseca Mota (*)
O radicalismo tem influenciado de forma negativa as alterações de comportamento e de organização social, nos países socialistas e capitalistas. Crises, desemprego, miséria, endividamento e violência decorrem de movimentos radicais que não buscam soluções, mas modelos errôneos do ponto de vista socioeconômico e político. Todavia, é ex­tremamente difícil e controvertido encontrar um modelo sociológico, filosófico e ideológico, capaz de gerar uma unanimidade. É urgente a necessidade de ações e programas que, voltados, principalmente, para a área social, promovam e consolidem oportunidades ao povo. Lamentavelmente, nos dias atuais, a exacerbação do pragmatismo está ocupando espaço das opções ideológicas e institucionais. Acreditamos serem as manifestações pragmáticas influenciadas pelo maniqueísmo da direita cartorial e da esquerda corporativa, pela ânsia de poder, pelo individualismo e pela ausência de sentimentos espirituais. O Estado existe não para ser opressor, mas para assegurar os princípios básicos da democracia. Precisamos nos voltar para o conhecimento das verdades essenciais, objetivando alcançar os valores éticos indicadores de um mundo social baseado nos conceitos de justiça e de igualdade de oportunidades. Uma ideia se destaca hoje nas discussões e debates realizados no mundo: globalização. É importante que ela surja como uma forma de promoção social universal, mediante manifestações não apenas econômicas, mas principalmente de ordem política e cultural, respeitando-se os direitos humanos e a coexistência pacífica. A globalização não pode e não deve ser um instrumento para ampliar o fosso existente entre nações ricas e pobres.
(*) Economista. Professor aposentado da UFC. Ex-governador do Ceará.
Fonte: Diário do Nordeste, Ideias. 4/8/2017.

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

VOLTA DO X CONGRESSO BRASILEIRO DE EPIDEMIOLOGIA


Retornei à Fortaleza na madrugada de hoje, 12/10/2010, após participar do IX Congresso Brasileiro de Epidemiologia”, realizado em Florianópolis-SC, no qual apresentamos oito trabalhos, frutos da produção conjunta com meus orientados de graduação e de pós-graduação.
Durante o congresso, foi lançada a oitava edição do livro “Rouquayrol - EPIDEMIOLOGIA & SAÚDE”, sob a nossa organização, contendo mais de oitenta autores, publicado no Rio de Janeiro, pela Editora MedBook, que figurou entre os mais vendidos da Abrasco Livros. Representei a Profa. Zélia Rouquayrol no lançamento da obra e na homenagem a ela prestada pelo congresso.
Nota: Com esse lançamento alcançamos a marca de 92 (noventa e dois) livros publicados.
Dr. Marcelo Gurgel Carlos da Silva
Professor titular de Saúde Pública - UECE

SOU UM MILAGRE DE NOSSA SENHORA APARECIDA

Por Pe. Reginaldo Manzotti (*)
O Brasil está em festa com a celebração dos 300 anos da aparição da imagem de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do País. Estamos vivendo o Ano Mariano, mas desde 2014 muitas dioceses e paróquias se preparam para o grande Jubileu. A imagem peregrina da Senhora Aparecida percorre o nosso imenso solo brasileiro, levando a todos o amor e a misericórdia de Deus.
Sou fruto e testemunha viva do poder intercessor de Nossa Senhora Aparecida. Sou o milagre vivo de uma oração de minha mãe, que, ao me ver nascer sufocado pelo cordão umbilical, após ter sido batizado às pressas, fui consagrado à Nossa Senhora Aparecida. Em minha alma, trago eterna gratidão: nos lábios, os louvores; e no meu segundo nome, a marca daquela que intercedeu a Jesus e salvou minha vida: meu nome de batismo é Reginaldo Aparecido Manzotti.
Todos os anos, cerca de 12 milhões de romeiros visitam Aparecida (SP). Todos peregrinam por 100, 200, 300 quilômetros para agradecer por uma graça alcançada, para rezar e debruçar-se sob Maria. Em 2015, tive a oportunidade de acompanhar de perto essa fervorosa devoção. Vi de perto histórias de superação de grupos que, reunidos, encontram forças para caminhar na Via Dutra, cortando o Vale do Paraíba, até vislumbrarem a Basílica. Todos têm uma motivação própria para suportar o clima, o cansaço, os perigos (sim, existem muitos assaltos na rodovia!), mas o objetivo de agradecer a Nossa Senhora é muito maior.
Toninho, líder do grupo de romeiros “Família Caminhada”, me contou que o grupo tem mais de 100 integrantes e saem todos os anos da Zona Leste de São Paulo e demoram até cinco dias para chegarem a Aparecida. Esse é só um exemplo dentre os milhões de romeiros que caminham até a cidade. Normalmente os grupos se reúnem entre 6h e 6h30min da manhã para uma oração e depois vão para a estrada.
Poucos sabem, mas todos os anos visito o Santuário Nacional para agradecer à Nossa Senhora. Agradeço pela minha vida, pela minha família, pelo meu sacerdócio, mas principalmente por todos os testemunhos que recebo diariamente de curas, de gestações, de entendimentos, de discernimentos, por fim, pelas graças de Nossa Senhora na vida de todos.
Diante da minha gratidão e devoção por Nossa Senhora e com tantos testemunhos de fé, em 2013, Deus me deu a graça de homenagear nossa Mãe com uma composição. A música “Proteja-me, oh! Mãe” é uma oração em forma de música, para que todos possam clamar por Nossa Senhora e, ao mesmo tempo, agradecer a sua proteção.
(*) Fundador e presidente da Associação Evangelizar é Preciso e pároco reitor do Santuário Nossa Senhora de Guadalupe, em Curitiba (PR).
Fonte: O Povo, de 2/10/2017. Opinião. p.11.

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

SANTO AGOSTINHO TINHA RAZÃO?

Por João Bosco Nogueira (*)
Santo Agostinho (354-430 d.C.), conhecido como Agostinho de Hipona, antiga cidade do Norte da África foi, e para muitos ainda é, um dos mais influentes teólogos e filósofos do cristianismo (professor e doutor da Igreja), responsável pela introdução do cristianismo na filosofia de Platão, o mesmo que Santo Tomás de Aquino fez mais tarde, em relação a Aristóteles.
Foi, portanto, um “cristianizador ou evangelizador” da filosofia de Platão. Imitando inicialmente seu pai, um pagão de vida devassa, foi também um homem de vida desregrada, convertendo-se depois ao cristianismo, graças às orações de sua mãe, posteriormente canonizada pela Igreja Católica como Santa Mônica. Dentre seus aforismos, destaca-se este: “O dinheiro é o esterco do diabo”, frase repetida pelo papa Francisco, dirigindo-se a empresários católicos. O Bispo de Hipona tinha experiência no assunto, acumulada durante a fase de sua vida amoral, ou imoral, para ser mais fiel à sua moral cristã.
Dizia ele que o dinheiro é o esterco do diabo, quando deixa de ser meio para servir e se transforma na finalidade do serviço ou, parafraseando Viktor Frankl, filósofo e cientista austríaco (1905-1997), criador da Logoterapia, quando seu possuidor passa a ser por ele possuído (Vontade de Sentido, p.122). Noutras palavras: quando se passa a ser dele escravo.
Santo Agostinho tinha razão? Parece que sim, pelo menos quando é obtido de forma criminosa, situação em que suja e escraviza seu possuidor, como parece ser o caso dos envolvidos na Lava Jato.
(*) Professor da Universidade Estadual do Ceará (Uece).
Publicado. In: O Povo, Opinião, de 3/10/17. p.10.

terça-feira, 10 de outubro de 2017

QUATROCENTOS ANOS DO CARISMA VICENTINO

Por Vasco Arruda (*)
Numa preleção de São Vicente de Paulo às Filhas da Caridade, após relatar a conversão de um camponês ocorrida depois de ouvir uma pregação sua, diz ele: “Isso aconteceu no dia 25 de janeiro de 1617, dia da conversão de São Paulo. Essa senhora me pediu que fizesse uma pregação na igreja de Follevile, para exortar os habitantes a uma confissão geral; eu o fiz. Mostrei-lhes a importância e a utilidade dela. Ensinei-lhes depois o modo de bem fazê-la. E Deus levou tanto em conta a confiança e a boa fé dessa senhora (pois o grande número e a enormidade de meus pecados teriam impedido o fruto dessa ação!) que abençoou a minha pregação. Todo aquele bom povo ficou de tal modo tocado por Deus, que vinham todos fazer a sua confissão geral” (Obras Completas São Vicente de Paulo: correspondência, colóquios, documentos, tomo XI. – Belo Horizonte: O Lutador, p. 4).
Esse episódio, que se tornaria conhecido como a conversão do camponês de Gannes, assinala o momento fundador de uma obra iniciada há exatamente quatro séculos, cujas ramificações estão hoje presentes em quase 150 países. Nascido em Pouy, na França, em 24 de abril de 1581, Vicente de Paulo foi um homem extraordinário que, no dizer de uma de suas biógrafas, Marie-Joëlle Guillaume, “viria a mudar a prática da caridade” (São Vicente de Paulo: Uma biografia. – Rio de Janeiro: Record, 2017, p. 478.). Em 1925 fundou a Congregação dos Sacerdotes da Missão, também conhecida como padres lazaristas. Instituiu, ainda, a Congregação das Filhas da Caridade, tendo contado para a realização desse intento com a inestimável colaboração de Santa Luísa de Marillac, e as Damas da Caridade, essa última constituída por mulheres leigas, a maioria oriunda das classes nobres francesas.
Desde 2014 vêm sendo publicadas no Brasil as Obras Completas de São Vicente de Paulo, num total de 14 volumes. A edição original francesa soma 8.000 páginas. Calculam seus biógrafos que, somente cartas, ele tenha escrito em torno de 30.000, das quais apenas 3.000 foram preservadas. Também chegaram até nós muitos dos colóquios que ele fazia tanto às Filhas da Caridade quanto aos padres da congregação por ele fundada. Nos últimos meses tenho me dedicado à leitura de ambos, cartas e colóquios. Desses escritos emerge a figura de um homem apaixonante, profundamente sensível ao sofrimento humano, especialmente os pobres, aos quais dedicou toda sua vida, o que levou o papa Leão XIII a proclamá-lo “patrono universal de todas as instituições católicas de caridade que nele têm sua origem”.
O sustentáculo maior de seu incansável trabalho em prol da pobreza ia ele buscar na oração, da qual jamais abria mão. A propósito, decidi conhecer em profundidade sua vida e obra no dia em que li pela primeira vez uma frase tirada de um de seus colóquios: “Dai-me um homem de oração e ele será apto para tudo”.
(*) Psicólogo.
Fonte: O Povo, de 1/10/2017. Opinião. p.13.
 

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