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sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

“JE SUIS FRANÇAIS”


Por Luiz Gonzaga Fonseca Mota (*)
O mundo está perplexo. Mais uma vez os desajustes individuais, de grupos, de nações estão conduzindo países ricos, emergentes e pobres para uma crise que abrange aspectos éticos, morais, socioeconômicos, políticos, de desesperança, de irresponsabilidade, de injustiça e de violência. Para aonde vamos? O que queremos? No último dia 14, a França comemorava mais um ano da “Queda da Bastilha”, movimento apoiado em três palavras que representam a essência da democracia: liberdade, igualdade e fraternidade. É a maior festa nacional daquele País amigo. De repente, na bela cidade de Nice surge no meio da multidão um caminhão dirigido por um monstro, covarde e criminoso atropelando centenas de pessoas, deixando mais de cem mortos e duzentos feridos. Verdadeira barbárie. Por quê? Qual a razão? Não existe razão para tamanha perversidade e ignorância. Não basta dizer que é um “lobo solitário” ou é a orientação de algum grupo terrorista, mas o apocalipse moral e ético da sociedade mundial. Saliento, todavia, que tal quadro dantesco não é culpa da democracia, como chegam a dizer alguns idiotas, mas a falta de democracia. Nos últimos dois anos, a França foi agredida de forma terrível por três atentados: Charlie Hebdo, Bataclan e agora Nice. Outros países também estão sendo vítimas de ações terroristas, matando inocentes. Falta generosidade e entendimento entre as pessoas. “Quando em desespero, eu me lembro que durante toda a história o caminho da verdade e do amor sempre ganharam” (Mahatma Gandhi). “Nous sommes françaises”.
(*) Economista. Professor aposentado da UFC. Ex-governador do Ceará.
Fonte: Publicado no Diário do Nordeste, Ideias. 7/2016.

sábado, 9 de julho de 2016

Herdeiros do Bolero de Ravel criam imbróglio para tentar evitar obra em domínio público


O compositor e pianista francês Maurice Ravel
Por Michel Guerrin
Maurice Ravel se encontra no centro de uma história maluca. Ou melhor, seu Bolero. Para falar sobre ele, chamamos Laurent Petitgirard, compositor e regente apaixonado por Ravel, que também é presidente da Sociedade dos Autores, Compositores e Editores de Música, a famosa Sacem, órgão encarregado de tributar o uso de músicas e em seguida repassar a arrecadação aos autores ou a seus herdeiros.
"Cuidado", alerta Petitgirard. "O Bolero é um sucesso absoluto, composto por um gênio, e a questão de sua sucessão é rocambolesca. É um caso único."
No dia 1º de maio, o Bolero (1928) entrou em domínio público, o que quer dizer que qualquer um pode usá-lo sem pagar direitos. É algo bastante significativo, pois se trata da música erudita mais tocada, mais adaptada e até mesmo cantarolada. O genial roqueiro Frank Zappa fez um arranjo dela, e Maurice Béjart montou uma coreografia que se tornou cult, vista no filme de Claude Lelouch "Les Uns et les Autres" ("Retratos da Vida", 1981). Enfim, agora poderemos esperar ver o Bolero invadindo os bares, as propagandas, os aeroportos, os comícios políticos etc.
Seu sucesso reside em uma melodia simples, repetitiva e obsessiva, e uma orquestração virtuosa que parte de um ligeiro bater de tambor e culmina em um retumbo orquestral. Ravel, de altura diminuta (menos de 1,55 m) e talento imenso, ficou farto de seu sucesso de 17 minutos, que ele chamava de "vazio musical".
Esse vazio encheu os bolsos de muita gente. Ravel foi o campeão de direitos pagos pela Sacem até 1994, com 10 a 15 milhões de francos por ano. A fortuna sumiu desde que seu Bolero deixou de ser protegido em vários países, mas ele ainda representa centenas de milhares de euros.

Processos entre herdeiros

Esse dinheiro virou a cabeça das pessoas. A história da herança do músico é uma saga tão picante quanto lamentável, contada pela primeira vez por Irène Inchauspé, com o título "Quem lucra com o Bolero de Ravel?", na revista "Le Point" em 2000.
Ravel morreu em 1937, solteiro e sem filhos, e seu irmão Edouard, um industrial, era o único herdeiro. Ele queria ceder 80% dos direitos autorais para a Prefeitura de Paris para criar um prêmio Nobel da música, mas tudo foi por água abaixo em 1954, quando Edouard, debilitado por um acidente de carro, entregou sua herança à sua massagista e seu marido.
Seguiu-se um imbróglio monstruoso com processos entre herdeiros, um ex-executivo da Sacem, que conseguiu uma fatia do bolo, dinheiro que transitou por empresas registradas em Gibraltar, Mônaco, Ilhas Virgens e Vanuatu. Em suma, um fisco espoliado.
E eis que no dia 7 de abril, ou seja, alguns dias antes que o Bolero passasse para domínio público, a Sacem recebeu uma carta registrada pedindo a designação do cenógrafo e pintor Alexandre Benois (1870-1960) como coautor do Bolero. Os herdeiros de Benois assinaram essa carta, e os de Ravel também, que viram ali uma vantagem: uma prorrogação de vinte anos dos direitos autorais.
A ideia, segundo o "Le Figaro" de 3 de maio, era que se tratava de uma obra "colaborativa". Mas que tipo de colaboração seria, uma vez que Alexandre Benois não era músico? Seus descendentes acreditam que ele tenha submetido a Ravel uma história, um "argumento", que inspirou o Bolero. É possível, considerando precedentes como a célebre "Nuages" de Django Reinhardt, conta Petitgirard.
Os herdeiros lembram que na ocasião de sua criação, em 1928, no Opéra Garnier, o Bolero era um balé, com uma cenografia de Benois. Então este teria sido mais do que o cenógrafo, e portanto responsável pela obra? Os herdeiros se baseiam em uma citação de Louis Laloy, secretário-geral da Ópera de Paris, que escreveu no "Le Figaro" de 21 de novembro de 1928 que Alexandre Benois era o "autor" do Bolero.
A Sacem examinou as peças fornecidas pelos herdeiros de Benois, os recebeu, convocou um perito e concluiu, no dia 29 de abril, que o pedido não fazia sentido.
"Não existe nenhuma prova de uma colaboração entre eles", explica Laurent Petitgirard. "Ela não consta na partitura de Ravel, nem no cartaz ou no programa, nem no registro da obra. Não há nenhuma troca de cartas entre eles. Ravel nunca falou sobre isso. Além disso, Ravel era muito honesto. Se ele tivesse se inspirado em um argumento de Benois, ele teria dito."
E conclui: "Esses herdeiros são sinceros, eles querem honrar o nome de seus antepassados, mas estão equivocados". Ademais, o Bolero é uma peça orquestral autônoma e sem narração, "uma obra abstrata" dizia Béjart.
Quanto à possibilidade de os herdeiros da família de Alexandre Benois entrarem na Justiça para obter aquilo que a Sacem lhes nega, "por enquanto a decisão ainda não foi tomada", informou à AFP François Tcherkessoff, bisneto de Alexandre Benois.
Essa história pouco ilustre de herança não combina com o perfil desinteressado de Ravel, e não vai ajudar na causa dos direitos autorais. É verdade que nunca há moral nas questões envolvendo heranças, cuja motivação muitas vezes é mais financeira que estética.
Laurent Petitgirard pondera: "94% dos direitos pagos pela Sacem vão para autores vivos. É preciso relativizar a parte dos herdeiros!", e chega a dizer: "O abuso do direito autoral pode matar o direito autoral".
Para ele, é preciso preservar o espírito que guiou a criação da Sacem, quando o letrista Ernest Bourget ouviu uma de suas canções no café-concerto Les Ambassadeurs, em Paris, em 1847, e se recusou a pagar sua bebida enquanto não lhe pagassem seus direitos.
É um caso bem diferente do de Ravel, pois quem seria seu herdeiro "direto" hoje? Uma mulher que mora na Suíça, segundo o "Le Figaro" de 30 de abril, que é "filha única da segunda mulher do marido da massagista da mulher do irmão de Ravel."
Tradutor: UOL
Fonte: Le Monde/AFP, de 15/05/2016.


segunda-feira, 27 de junho de 2016

Escultura francesa de Hércules ganha pênis removível contra vândalos


 
 
 Reprodução/Soud Ouest.
Prefeitura de Arcachon quer que pênis de escultura fique sempre no devido lugar.
Perante o vandalismo e a sistemática amputação de seu pênis de pedra, a estátua de Hércules do município de Arcachon, no sudoeste da França, estreará um membro desmontável que será inserido na efígie de 3,10 metros de altura a cada cerimônia pública, informou nesta terça-feira o jornal "Soud Ouest".
"Não desejo isso a ninguém, nem sequer a meus piores opositores, o que ocorre com esta estátua. É sistemático", comentou o prefeito de Arcachon, Yves Foulon, em declarações recolhidas pelo citado jornal local.
Uma pessoa próxima ao prefeito afirmou em uma recente reunião que "Hércules tem uma virilidade frágil..." e revelou que a Prefeitura tinha optado "por uma prótese removível que será colocada na estátua a cada cerimônia".
A representação do semideus grego é uma obra criada por Claude Bouscau e inaugurada em 22 de agosto de 1948 como símbolo da Resistência contra os nazistas.
O próprio escultor teve que refazer duas vezes o pênis da escultura porque desde sua inauguração, lembra o jornal, aparecia mutilado.
"É a melhor solução. Se não, seria preciso vigiar muito de perto a anatomia de Hércules", resume Martine Phelippot, que foi encarregada pela Prefeitura ao trabalho de preservar a estátua intacta durante as cerimônias.
Fonte: EFE (França), em 19/04/2016.
 

quinta-feira, 9 de junho de 2016

INVITATION: “L’épidémiologie du ZIKAVIRUS au Brésil”





Chers résidents,
La Fondation Maison du Brésil va recevoir Docteur Marcelo Gurgel, un chercheur brésilien, professeur de l’UECE, qui fera une conférence sur “L’épidémiologie du ZIKAVIRUS au Brésil”.
Nous vous demandons de nous aider à la diffuser le plus largement possible à vos contacts travaillant ou étant intéressés par le sujet.
En vous remerciant par avance, 


Leda GUILLEMETTE
Directrice
Fondation Maison du Brésil
Cité Internationale Universitaire de Paris

quarta-feira, 25 de maio de 2016

Professor da UECE ministra conferência em Paris



O professor Marcelo Gurgel Carlos da Silva, da Universidade Estadual do Ceará (UECE), ministrará no próximo dia 9 de junho, na cidade de Paris, França, conferência sobre o tema "A Epidemiologia do Zikavírus no Brasil". A conferência acontecerá às 20h30, na Fundação Casa Brasil (Maison du Brésil).

O pesquisador cearense atende a convite da direção da Fundação Maison du Brésil. Médico, economista e escritor, Marcelo Gurgel é professor titular da UECE, do Colegiado de Medicina e do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva, e docente da Escola Cearense de Oncologia, do Instituto do Câncer do Ceará (ICC). Também é membro titular da Academia Cearense de Medicina e sócio da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores do Ceará. Marcelo Gurgel já lançou mais de 85 livros.
Fonte: Portal da UECE. Assessoria de Comunicação, Postado em 19/05/2016.

domingo, 30 de agosto de 2015

NAPOLEÃO: curiosidades e lendas sobre essa personalidade histórica II


Créditos de imagem: France Presse- AFP
Em 2014, um chapéu de duas pontas, usadas por Napoleão, foi leiloado por 1,89 milhão de euros – cerca de R$ 6,5 milhões. Dos 120 chapéus que o imperador usou durante seu governo, 19 foram encontrados. Boa parte deles está em coleções de franceses.
 
 5) Solução do enigma dos hieróglifos


Créditos de imagem: Wikimedia Commons
Napoleão teve um papel essencial para decifrar os hieróglifos egípcios, um dos mais antigos sistemas de escrita do mundo. Durante a invasão do Egito, em 1798, Napoleão levou um grupo de estudiosos, que deveria trazer à França todos os patrimônios de interesse cultural ou artístico.
Um dos soldados de Napoleão encontrou uma pedra de granito, que continha inscrições em três tipos de escrita: grego, hieróglifo egípcio e demótico. Mesmo com diferentes caligrafias, o texto inscrito na Pedra de Roseta, como ficou conhecida, continha o mesmo significado. Foi, portanto, essencial para resolver o enigma dos hieróglifos.
 
6) Anticristo?

Créditos de imagem: Wikimedia Commons
A rainha portuguesa Maria 1ª, apelidada de Maria, a Louca, acreditava que Napoleão seria o "anticristo". Portugal era um dos alvos do imperador, pois o país era aliado e tinha fortes laços comerciais com a Inglaterra. Napoleão havia proibido o comércio com os ingleses, no ato que ficou conhecido como Bloqueio Continental  - e por causa dele, a família real portuguesa fugiu para o Brasil em 1808. 
Fonte: UOL Notícias, São Paulo, de 18/6/2015.
 
 
 

 

NAPOLEÃO: curiosidades e lendas sobre essa personalidade histórica I


Há 200 anos, em 18 de junho de 1815, acabava o império de um dos principais estrategistas militares da história, o francês Napoleão Bonaparte (1769-1821). Em seu auge, o império napoleônico ocupou boa parte da Europa, acumulando quase um terço da população do continente.
A queda de Napoleão aconteceu na Bélgica, no episódio conhecido como Batalha de Waterloo. Depois de retomar o poder por mais de três meses, no período chamado de Governo dos Cem Dias,  Waterloo marcou o fim da carreira política de Napoleão. 

O UOL separou seis curiosidades sobre o líder, conhecido por sua personalidade forte:


1) Casar de branco

Créditos de imagem: Arte UOL

Para o evento de sua coroação, em 1804, Napoleão mandou confeccionar trajes brancos seguindo o modelo de sua esposa Josefina. Durante a cerimônia, o papa Pio 6º também oficializou o casamento deles. Antes de Napoleão e Josefina, as pessoas se casavam com trajes de qualquer cor. Depois do casal,  a opção pelo branco começou a se popularizar.

Outra relação entre Napoleão e a moda é a lenda de que os botões presentes nas mangas de paletós e casacos foram ideia dele. O imperador gostava que suas tropas estivessem alinhadas e bem vestidas -- ele não gostava que os soldados limpassem o nariz e a boca nas mangas da farda. Por isso, ordenou que oito botões de metal fossem colocados no local, a fim de evitar tal atitude. Com menos botões, o design dos trajes permanece até hoje. 
 
 2) Arco do Triunfo: monumento às vitórias das tropas napoleônicas
Créditos de imagem: Reuters
O Arco do Triunfo, em Paris, é parada turística obrigatória para quem vai para a França. Mas nem todo mundo sabe que os desenhos do monumento fazem referência a batalhas travadas pelas tropas napoleônicas.
Ele foi construído em 1805, quando o exército francês fazia uma campanha militar para lá de bem sucedida. Naquele ano, o império conseguiu uma de suas principais vitórias na Batalha de Austerlitz,  numa região que corresponde à atual República Tcheca. Nesse confronto, o exército francês venceu as tropas austro-russas, apesar de ter menor número de soldados que o inimigo. Os historiadores consideram a batalha uma obra prima da tática de Napoleão, o que evidenciou a sua genialidade como estrategista militar. 
O monumento contém gravados os nomes de 128 batalhas e 56 generais. Apesar de ter planejado a homenagem, Napoleão nunca chegou a ver o Arco do Triunfo pronto. A obra só ficou pronta em 1836, 15 anos após a morte do imperador e 21 anos após a derrota em Waterloo.

3) O imperador sem pênis

Créditos de imagem: Wikimedia Commons
Napoleão morreu em 1821, na Ilha de Santa Helena. No entanto, o corpo não foi sepultado com todos os órgãos O pênis do imperador teria sido amputado horas depois da sua morte. A principal hipótese para explicar esse fato é que a amputação tenha sido feita durante a autópsia, pelo médico francês Francesco Antommarchi.
A relação de Antommarchi com Napoleão era pouco amistosa. Enviado para cuidar do câncer de estômago do imperador, o anatomista pouco entendia do assunto. O fato irritou Bonaparte, que o recebia com insultos e cusparadas. A amputação teria sido uma vingança do médico.
Mais de um século depois, a relíquia reapareceu nos Estados Unidos, guardada pelo urologista John Lattimer. Segundo a Time, Lattimer permaneceu com o órgão até sua morte em 2007. A filha que herdou a relíquia deseja leiloá-la. O preço inicial é 100 mil dólares (cerca de R$ 310 mil).
Fonte: UOL Notícias, São Paulo, de 18/6/2015.

 

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Paris se prepara para retirar 45 toneladas de “cadeados do amor”


Casal coloca um cadeado na Pont des Arts, em Paris, na França
Por Charly Triballeau/AFP. Em Paris.
Muito romantismo pesa: a Prefeitura de Paris irá retirar na segunda-feira (1º/06/2015) centenas de milhares de "cadeados do amor" presos à famosa Pont des Arts.
A Pont des Arts, que passa sobre o rio Sena e oferece uma das melhores vistas da capital, é conhecida mundialmente por seus "cadeados do amor", que os casais prendem ao longo do parapeito antes de jogar a chave no rio.
Mas, no ano passado, parte do gradeado da ponte desabou, sem causar vítimas, em razão do peso do metal.
Degradação do Patrimônio, risco para a segurança dos visitantes”: a Prefeitura de Paris decidiu remover permanentemente os cadeados da ponte na segunda-feira.
Vamos retirar quase 1 milhão de cadeados, ou 45 toneladas”, explicou Bruno Julliard, vice-prefeito de Paris.
A prefeitura irá inicialmente substituir as grelhas e painéis de madeira por “obras de vários artistas” antes de instalar “painéis de vidro”, no outono, indicou.
É um pouco bobo e uma pena”, lamentou John, de 57 anos, enquanto caminhava de braço dado com Marion, de 42 anos, sua “companheira ilegítima”.
“Há um simbolismo em prender um cadeado para selar o seu amor nesta ponte, aqui em Paris, a cidade do amor", acredita este turista do sul da França.
Fonte: AFP/UOL Notícias, de 29/05/2015.

terça-feira, 21 de abril de 2015

Coco Chanel foi espiã de Hitler, apontam documentos franceses


Documentário confirma o papel de agente da estilista, conhecida como "Westminster", referência ao homem que fora seu amante durante os anos 20
Por Carlos Abascal Peiró, de Paris.
A dama da alta costura, Coco Chanel, foi espiã paga do nazismo em uma cumplicidade que inclusive a levou a Madri para servir ao 3º Reich, segundo documentos desclassificados pelo serviço secreto francês em torno da sinistra memória do colaboracionismo.
Sepultada nos arquivos do Ministério da Defesa francês, uma ficha inédita achada há dois meses e revelada por um documentário da emissora pública "France 3" confirma o papel de agente da estilista, conhecida como "Westminster", referência ao homem que fora seu amante durante os anos 20, o duque de Westminster.
Na manhã do dia 23 de junho de 1940, apenas seis dias depois que Pétain anunciou a capitulação da França e enquanto Hitler atravessava uma Paris deserta junto a seu Estado-Maior, os relógios da capital foram adiantados em uma hora para marcar o fuso-horário de Berlim. Apesar de ser declarada cidade aberta, Paris fugia de Paris.
Só um mês mais tarde e após um breve asilo em Pau, a 50 quilômetros dos Pirineus, Gabrielle Bonheur Chanel recuperou seu quarto exclusivo no Ritz da praça Vendôme, então transformado em quartel-general da Luftwaffe, a força aérea alemã.
Foi ali onde Coco, fruto de um encontro fortuito nos corredores, se apaixonou pelo barão Hans Gunther von Dincklage, dez anos mais jovem que ela, adjunto à embaixada do Führer em Paris e estreitamente vinculado à Gestapo.
Era o começo de uma relação que, segundo aponta o minucioso episódio do programa "L'Ombre d'une doute. Les artistes sous l'Occupation" (A sombra de uma dúvida. Os artistas sob a Ocupação), acabou ultrapassando o âmbito sentimental.
"A produção começou justamente quando estes documentos classificados foram conhecidos; simplesmente fomos os primeiros a mostrá-los publicamente", afirma à Agência Efe o produtor executivo do projeto, Frédéric Lusa, que avisa que "ninguém da equipe se expressará" a respeito a fim de evitar "qualquer tomada de posição".
Mais contundente, o arquivista e responsável pela descoberta, Frédéric Quéguineur, confirmou à Efe que "não há dúvida alguma" em torno da validade de um documento que identifica Coco Chanel como um agente a serviço da Abwehr, a inteligência militar alemã.
"Localizamos isso há dois meses em uma remessa de arquivos que o serviço secreto francês confiscou na Alemanha em 1945", relatou Quéguineur, que iniciou a desclassificação do lote há um ano e meio.
O episódio se encaixa na biografia da modista assinada por Hal Vaughan em 2011, "Sleeping With the Enemy, Coco Chanel Secret War", e segundo a qual a grande dama da moda foi uma "feroz antissemita" cujo entusiasmo, na metade dos anos 30, a levou a louvar Hitler como um "grande europeu".
Não é de se estranhar, portanto, em 1943, quando o conflito começou a oscilar para o lado aliado, Chanel tenha chegado a Madri a fim de negociar a derrota alemã com o então embaixador britânico na Espanha, próximo ao premiê Winston Churchill, que tinha tratado à francesa durante sua relação com o duque de Westminster. A ideia foi um fracasso.
"Demonstrou uma megalomania e uma ingenuidade incrível", assegura no documentário o escritor e biógrafo de Chanel, Henry Gidel, que corrobora o relato mais revelador de um projeto que também repassa os claro-escuros de Edith Piaf, Maurice Chevalier e do cineasta e dramaturgo Sacha Guitry.
Na época a França se dividia em duas à medida do comando alemão, que designou Paris - seus cabarés, teatros e prostíbulos - como um alívio para as tropas, enquanto que deslocava a "zona livre" para a metade sul do país sob a autoridade de Pétain, herói de Verdun e artífice da colaboração.
Deste último também se ocupa o documentário da "France 3", que revela uma minuta do "Estatuto dos Judeus" - em vigor durante a Ocupação - repleto de anotações manuscritas do próprio Pétain, e prova de seu envolvimento nos expurgos de hebreus franceses.
Um giro oportuno à reabilitação do "pétainismo" empreendida pela extrema direita francesa nos últimos meses e que, junto ao compromisso da obra de Patrick Modiano, último Nobel de Literatura, desmonta a enésima tentativa de revisar o trauma da colaboração.
Famosa por libertar o corpo da mulher, Chanel não soube digerir a outra libertação, essa de agosto de 1944 em uma Paris que não demorou a julgar a estilista. Aquele processo, por outro lado, nunca chegou a progredir.
Fonte: EFE/UOL 8/12/2014.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

FRANÇA ACERTA CONTAS COM UM PASSADO INGLÓRIO

Por Maia De La Baume
Uma exposição no Museu dos Arquivos Nacionais é parte de um amplo reconhecimento francês de como o país se comportou na Segunda Guerra Mundial.
O telegrama de 1942 assinado por um dos mais altos funcionários do regime colaboracionista de Vichy determinou que prefeitos de áreas não ocupadas da França supervisionassem “pessoalmente” a transferência de milhares de judeus para campos de deportação. “O chefe de Estado quer que você assuma pessoalmente o controle das medidas tomadas em relação os judeus estrangeiros”, escreveu René Bousquet, o então chefe de polícia de Vichy. “Não hesite em acabar com qualquer resistência popular que encontrar.”
O telegrama era parte do processo contra Bousquet, que foi formalmente acusado em 1989 de crimes contra a humanidade por orquestrar a captura de judeus e ordenar a deportação de crianças. (Ele escapou da punição devido à sua colaboração logo após a guerra, mas foi assassinado em 1993, enquanto as acusações eram investigadas.)
O telegrama datilografado, com o papel amarelado pelo tempo, é um dos 300 documentos, incluindo cartas, fotos, itens pessoais, cartazes, fichas policiais e livros, em exibição na nova exposição do museu dos Arquivos Nacionais. A exposição, chamada “Colaboração 1940-1945”, aberta até o dia 2 de março, é uma das primeiras dedicadas a esse assunto. Faz parte de uma leva de comemorações do 70° aniversário da libertação da França do domínio nazista.
Recentemente, o colaboracionismo tem sido explorado em livros, filmes, documentários e até mesmo séries de televisão, como “Un Village Français”, que começou em 2009. É parte da tentativa de redimir a França de seu passado inglório. A percepção francesa de como o país se comportou durante a ocupação mudou. A França foi inicialmente mostrada como uma nação de resistência, mas na década de 90, o presidente Jacques Chirac citou o “delito coletivo” da nação.
Hoje, os historiadores definem o colaboracionismo francês como uma aliança política, administrativa, econômica, militar, ideológica e cultural com os nazistas. Mas “havia diferença de comportamentos” entre os indivíduos, disse Denis Peschanski, um dos curadores.
Peschanski disse que a exposição faz uma diferenciação entre colaboracionistas e colaboradores — “aqueles que eram inteiramente aliados à ocupação e aqueles que se acomodaram às circunstâncias.” Os colaboracionistas não só ajudaram os alemães ao seguir as ordens de Vichy ou buscar o lucro pessoal, mas tentaram fazer a França ressurgir através do governo nazista, disse ele.
Apesar do tema provocante, a exibição atraiu uma resposta positiva na França.
Incluindo empréstimos de coleções particulares, a exposição traça a cronologia de colaboração, desde o armistício assinado com a Alemanha em 1940 até o julgamento por traição do Marechal Philippe Pétain, chefe do regime de Vichy, em 1945. Ela engloba seis salas, cada uma ilustrando um tema, incluindo ações conjuntas da polícia francesa e alemã. Visitantes andam pelos corredores ao som de músicas do tempo da guerra e discursos de Pétain e Pierre Laval, ministro-chefe do Vichy. “Quero que a Alemanha vença porque, sem ela, o comunismo irá dominar tudo”, disse Laval em um discurso de 1941.
A exposição tem alguns documentos que estão sendo exibidos publicamente pela primeira vez. Entre eles, uma carta do escritor Louis-Ferdinand Céline parabenizando Lucien Rebatet, escritor colaboracionista, por seu panfleto “Les Décombres”, ou “As Ruinas”, que pedia o assassinato de judeus. Há capas de jornais, livros, cartas, cartazes e desenhos denunciando os judeus, comunistas e maçons.
O historiador Tal Bruttmann disse que a exposição mostra a importância da ideologia na colaboração. “Na França, há muito tempo percebemos que a colaboração não era um compromisso ideológico — acreditamos que os colaboradores eram bandidos”, disse Bruttmann. “Mas havia também os nazistas franceses.”
Entre as imagens raras em exposição está uma foto do embaixador de Hitler em Vichy, Otto Abetz, com Pétain e Laval. A foto foi tirada apenas horas antes do momento famoso em que Pétain apertou a mão de Hitler em Montoire, no centro da França. Em outra foto, tirada no dia 3 de julho de 1942, Pétain, Laval e Bousquet, o chefe de polícia, são vistos saindo do conselho ministerial em Paris.
Fonte: The New York Times / O Povo, de 29/12/14. p.6.

quarta-feira, 2 de março de 2011

BRASSAÏ NA UNIFOR


A Universidade de Fortaleza e a Aliança Francesa, com a presença do Ives Lo-Pinto Serra, Cônsul Geral da França, para o Nordeste, e o Sr. Yann Lorvo, Delegado Geral da Aliança Francesa no Brasil, realizaram ontem, terça-feira, 1º de março de 2011, a abertura da exposição "BRASSAÏ: PARIS LA NUIT".
A cuidadosa mostra, pinçada do acervo de Brassaï, húngaro naturalizado francês e um dos mais festejado fotógrafos do século XX, seguirá aberta ao público, no Espaço Cultural da Universidade de Fortaleza da Fundação Edson Queiroz.
Vale a pena conferir essa exposição: não apenas pelos aficcionados da fotografia em preto e branco, mas igualmente por todos admiradores da Cidade-Luz.
Nossos efusivos parabéns à Unifor e à Aliança Francesa.

domingo, 19 de julho de 2009

A RESISTÊNCIA FRANCESA

A rejeição ao invasor foi crescentemente reforçada pela repressão do governo de Vichy; de princípio, ela era mais dura do que a da própria Gestapo. A degradação econômica dominante, assumindo formas substantivas em um país até então sem tradição de guerrilha, foi, pois, determinante para repelir a ocupação. Aos poucos, foram surgindo ações de grupos volantes: distribuição de panfletos às pessoas em geral, colagens de cartazes anti-Pétain em edifícios e logradouros públicos, depredação ou pichação de comunicados nazistas afixados, e ainda pequenos atos de sabotagem.
As “Organisations Spéciales” (OS) foram, em 1941, a primeira tentativa de cobrir tais deficiências; primeiramente, visavam à proteção de lideranças em risco e à autodefesa de pequenas manifestações, além de, vez em quando, a execução de traidores da França.
As grandes organizações de guerrilha urbana francesa foram um produto dessa fase de aprendizagem e da aglutinação das diversas forças políticas oponentes a Vichy e ao invasor alemão. Seu propósito era a constituição de um uma força militar, capaz de fazer frente ao exército ocupante. Eram muitas as dificuldades para alcançar o objetivo, mas a maior delas era como fazer, já que estavam no interior de uma cidadela ocupada pelos inimigos e submetidos pela clandestinidade a limitados efetivos. Teriam de coordenar entre si e contar com os recursos dos meios rurais, até então passivos.
Para superar esse obstáculo, o próprio curso da guerra veio em auxílio da Resistência. Necessitando de combatentes para o “front” do Leste, carecendo de braços para sua indústria bélica, os nazistas apertaram o cerco aos povos ocupados. Os homens entre 18 a 45 anos foram recrutados para trabalhos forçados na Alemanha - tratava-se, no caso, do Serviço de Trabalho Obrigatório. Na França, houve rejeição em massa dos jovens: sendo civis, não aceitavam trabalhar, sob bombardeios e sob os riscos inerentes à perigos de guerra, a favor do inimigo de seu país. Com o apoio das organizações populares e patrióticas, a objeção a tal convocação disseminou-se. Os que podiam, procuravam, por conta própria, proteção no campo, onde ficam acoitados.
Foi com eles que as organizações guerrilheiras criaram unidades militares nos mesmos locais de refúgio, dando início a era dos maquis. Literalmente, Maquis refere-se à vegetação espessa da Córsega. Durante a II Guerra Mundial, foi o termo genérico, usado para o movimento clandestino da resistência francesa e seus combatentes.
Quanto à coordenação das forças guerrilheiras dispersas, posteriormente, a própria evolução na luta no interior da França encarregou-se de mostrar caminhos. A guerrilha passou dos círculos limitados de “esquadras”, grupos de combate e reduzidos destacamentos urbanos para o plano de destacamentos, companhias e mesmo batalhões. Renunciou, pois, a si própria, para dar lugar ao novo exército - as Forças Francesas do Interior (FFI).
A Resistência teve, quase desde o começo, um importante suporte: as emissões radiofônicas do Comité France Libre, transmitidas de Londres por jornalistas e artistas que na capital britânica tinham-se unido em torno do General De Gaulle. Em contraponto ao noticiário da imprensa e da rádio francesas, tendencioso e devotado a exaltar a força e as vitórias alemãs, as emissões diárias oriundas da Inglaterra irrompiam na noite da França ocupada como fachos luminosos que prenunciavam a breve liberação.
Em que pese a repressão e a delação incentivada, às 21h, e desafiando as pesadas cortinas do blecaute obrigatório, os franceses debruçavam-se sobre os aparelhos de rádio e punham-se a ouvir a programação anunciada pelos primeiros acordes da Quinta Sinfonia de Beethoven: “Sol-Sol-Mi bemol. Ici, Londres, Les français parlant a français”. Seguiam-se notícias da guerra e piadas sobre os alemães e seus colaboradores, bem como mensagens incompreensíveis para a maioria dos ouvintes, mas compreendidas pelos destinatários, do tipo: “as andorinhas estão chegando” ou “as batatas estão cozidas”. Para um povo com frio e fome, submetido a longas horas na fila de abastecimento, a emissão de France Libre tornou-se motivo de estímulo e esperança.
Durante todo o dia, as pessoas ficavam com os ouvidos colados ao rádio, conferindo as últimas notícias. Muitas ouviram quando Charles de Gaulle falou para o povo da França: “A suprema batalha começou! Após tantas batalhas, tanta fúria, tanta dor, chegou a hora de confrontação decisiva, por tanto tempo esperada.”
Notadamente ativo e forte, o Front Nacional, de inspiração comunista, abriu-se então aos democratas e patriotas das mais diversas tendências. Teve por braço armado os francos atiradores e guerrilheiros franceses ("Franc-Tireus et Partisans Français"), dotados, por sua vez, de valioso apêndice: os combatentes advindos da imigração, a mão-de-obra imigrada ("Main-d’Oeuvre Immigrée") ou, mais familiarmente, MOI entre os quais figuravam centenas de antigos brigadistas, atuantes na Guerra Civil espanhola.
Como exemplo da participação dos cidadãos, nos primeiros estágios da guerra, muitos vinicultores se opuseram a uma resistência armada que poderia pôr vidas inocentes em perigo. Com o avanço da guerra, contudo, seus sentimentos começaram a mudar e eles acolheram a resistência em centenas de quilômetros de adegas das regiões produtoras de vinhos.
O “Service du Travail Obligatoire” (STO) foi um programa de trabalhos forçados, implantado por Vichy, em 1942, para atender as exigências de mão-de-obra da Alemanha. Fez mais para recrutar membros para a Resistência do que qualquer outra coisa. Os convocados para o STO geralmente preferiam se juntar aos maquis na clandestinidade a trabalhar para o III Reich.
Entrar para a Resistência, em geral, uma atividade de altíssimo risco, podendo os maquisards morrer em ação ou ser aprisionados pelos inimigos, o que, na maior parte das vezes, não faria qualquer diferença no desfecho, pois, como eles não eram militares, ou forças armadas regulares, não possuíam qualquer cobertura da Convenção de Genebra relativa a situações bélicas. O fuzilamento ou outra forma de execução sumária era a medida de praxe em muitos casos, consoante faziam os alemães e seus asseclas colaboracionistas franceses. A tortura, precedendo a aplicação da pena capital, era uma prática comum.
A tortura, antes da aplicação da pena capital, era uma prática comum. Dizia-se: “Nacht und Nebel” ou “noite e neblina” em alemão, mas também o termo que o Terceiro Reich usava para designar prisioneiros que não desejava que sobrevivessem, que se queria eliminar. Eles deveriam desaparecer dentro do sistema, ser enterrados em massa ou em covas não-identificadas, sem nenhuma informação à família. Por outro lado, os franceses apreciavam muito o “Narquer les allemands”, ou seja, debochar ou zombar dos alemães.
MARCELO GURGEL CARLOS DA SILVA é médico e economista; professor titular da UECE e membro da Academia Cearense de Medicina.

* Publicado in: Jornal Diário do Nordeste. Fortaleza, 19 de julho de 2009. Suplemento Cultura. p.1.
 

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