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quarta-feira, 27 de abril de 2022

CONVITE: Lançamento de “VOX CLAMANTIS IN DESERTO”

 


A Faculdade Rodolfo Teófilo (FRT) do Instituto do Câncer do Ceará (ICC) convida para o lançamento deVox Clamantis In Deserto”, livro, contendo crônicas e ensaios, do advogado e professor André Bastos Gurgel, integrante do corpo docente da FRT.

A obra, prefaciada pelo etimólogo e frade franciscano Frei Hermínio de Oliveira, e o autor serão apresentados pelo Prof. Dr. Marcelo Gurgel Carlos da Silva, médico do ICC e docente da FRT.

Local: Auditório da FRT, na Av. do Imperador, n° 1.360 – Farias Brito.

Data: 28 de abril de 2022 (quinta-feira) Horário: 11h.

Traje: Esporte Fino.

Prof. Dr. Manfredo Luís Lins e Silva

Diretor Geral da FRT

Nota: Uso obrigatório de máscara.


domingo, 26 de julho de 2020

Publicação de “POLICROMIAS – Volume 11”



Ao contrário dos anos anteriores, e em virtude da pandemia por Covid-19, a Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil, Coordenadoria do Ceará (AJEB-CE), não fará o lançamento de Policromias – Volume 11, livro que contém a colaboração de dezenas de autores, tendo por temática principal o perfil de grandes escritores, nacionais e estrangeiros, dentre os selecionados pela AJEB-CE.
A obra, publicada pela RDS Editora, foi oorganizada pelas professoras e escritoras Giselda Medeiros e Ana Paula de Medeiros Ribeiro. Cotas dos exemplares estão sendo distribuídos agora entre entre os participantes da presente antologia.
Compareço na coletânea em apreço com o ensaio “Franz Kafka: uma síntese de suas vida e obra”, disposto nas páginas 134 a 146.
Marcelo Gurgel Carlos da Silva
Da Sobrames/CE, ACEMES e ABRAMES

sexta-feira, 8 de junho de 2018

DESCONVERSA CIENTÍFICA


Por Olavo de Carvalho
No meio científico americano, e excluídas as opiniões dos apologistas professos desta ou daquela religião, o debate sobre a questão religiosa divide-se, grosso modo, entre os que juram, como Daniel Dennet e Sam Harris, ser a religião uma etapa superada na evolução biológica da espécie humana e os que afirmam que a crença religiosa, ou ao menos uma vaga aspiração metafísica, é uma necessidade permanente, imutável e indestrutível dos seres humanos. Estes últimos chegam a acreditar que não existem ateus de verdade, que o ateísmo é só da boca para fora (http://www.science20.com/writer_on_the_edge/blog/scientists_discover_that_atheists_might_not_exist_and_thats_not_a_joke-139982).
Os argumentos a favor de cada uma dessas correntes são eruditíssimos e ambas fazem questão de apoiar-se nas mais atualizadas pesquisas científicas. É uma pena que tanto esforço intelectual se desperdice numa discussão que parece ser calculada para não levar a parte alguma.
Desde logo, os dois lados dão por pressuposto que a religião nasce de uma “necessidade de crer”, esquecendo que a “fé” (mesmo aceitando-se a premissa falsa de que ele que se reduza à mera crença) é um elemento distintivo e típico do cristianismo, ausente ou rarefeito em quase todas as demais religiões mundiais e numa infinidade de tradições religiosas menores.
Para um chinês do século V a.C. ou para os índios tupinambás do tempo de Pedro Álvares Cabral, a religião oficial era a própria ordem social e até a ordem do universo material. Como tal, não constituía matéria de crença, mas de obediência, rotina e senso prático. Perguntar se acreditavam nela seria como perguntar se acreditavam na existência de chuva. A opção de crer ou não crer só aparece em fases muito mais diferenciadas da evolução cultural (como por exemplo na Atenas de Sócrates), quando as instituições políticas se destacam progressivamente das religiosas e abrem espaço para julgá-las e ser julgadas por elas. Esse momento coincide, segundo o clássico de Bruno Snell (The Discovery of the Mind, reed. Dover, 2011), com a descoberta do eu consciente.
Em segundo lugar, é impossível julgar uma necessidade psíquica sem ter decidido antes se o objeto dela existe ou não. Se existe um Deus, a necessidade de conhecê-Lo e de caminhar em direção a Ele é uma coisa; outra totalmente diversa é o impulso de inventá-Lo caso ele não exista. Transferir, portanto, o debate desde o problema da existência de Deus para o da necessidade de crer n’Ele pode parecer um modo inteligente de esquivar-se de controvérsias teológicas, reduzindo a questão às dimensões do que pode ser abordado com os recursos da ciência atual, mas é óbvio que toda discussão na qual o método determine kantianamente o objeto em vez de amoldar-se a ele não pode levar jamais a nenhuma conclusão válida sobre o objeto enquanto tal.
Em terceiro, o mais mínimo estudo das religiões comparadas mostra que elas são incomparáveis, que simplesmente elas não são espécies do mesmo gênero. Que pode haver de comum entre uma religião que promete integrar o homem no mundo físico e dar-lhe o domínio das forças naturais e outra que lhe pede que dê as costas a este universo, que aceite mesmo a miséria, a derrota e o fracasso nesta existência para obter a vida eterna num outro mundo totalmente inimaginável? Se você lê o Corão, vê que ali está um código civil inteiro, regulando todas as relações sociais, a propriedade, o comércio, o direito de família etc. Qualquer código diferente é um crime e deve ser abolido à força, por ordem de Deus. Ao cristão, ao contrário, o Evangelho recomenda que obedeça a qualquer código vigente, com total indiferença. Como supor que remédios tão heterogêneos atendam a uma mesma “necessidade”?
Em suma, o debate inteiro parte da premissa de que todas as religiões são “sistemas de crenças”, entendendo crença no sentido kantiano daquilo que se pode pensar, mas não saber. O conteúdo das crenças sendo portanto indiscutível cientificamente, só resta estudá-las em si mesmas, fazendo abstração do seu objeto e dando por pressuposto que as religiões são fenômenos do imaginário coletivo, alheios à esfera da “veracidade”, que é própria da ciência. Acontece que, dentre as religiões, pelo menos uma, o cristianismo, não proclama a crença em ideais etéreos e incognoscíveis, mas em determinados fatos da ordem histórica e natural, perfeitamente acessíveis ao estudo científico. O historiador pode averiguar se as profecias de Fátima se cumpriram ou não no prazo indicado e o médico pode atestar se as curas miraculosas efetuadas por meio do Padre Pio se realizaram ou não. Ambos podem examinar pessoalmente as centenas de corpos intactos de santos católicos mortos há cinco ou dez séculos e investigar se fenômenos similares se observam ou não (a resposta é “não”) em outras religiões. O cristianismo é por excelência a religião do milagre, e um milagre que não se realize no domínio dos fatos, neste mundo visível, não é milagre de maneira alguma.
Reduzir todas as religiões a sistemas de crenças sobre o incognoscível é fazer abstração da diferença essencial entre o cristianismo e as demais religiões, ou seja: mutilar gravemente o objeto de estudo para encaixá-lo numa definição preconcebida. O debate inteiro, portanto, na mesma medida em que se pavoneia de científico, falha a uma das condições mais elementares do método científico e deve ser considerado uma gigantesca desconversa.
Publicado no Diário do Comércio, 1º de outubro de 2016.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

MEDICINA E LITERATURA

Meraldo Zisman (*)
Médico-Psicoterapeuta

A gente pensa uma coisa, acaba escrevendo outra e o leitor entende uma terceira coisa... e, enquanto se passa tudo isso, a  coisa propriamente dita começa a desconfiar que não foi propriamente dita.
(Mário Quintana (1906-1994)/[Caderno H])
Definições:
Literatura - é a arte de compor ou escrever textos atraentes.
Medicina - é a “ciência-arte” de tratar ou curar as doenças.
A Medicina é uma ciência porque se baseia em conhecimento adquirido por meio de acurado estudo e experimentação. É Arte porque depende da perícia com que os médicos e outros profissionais ligados à medicina aplicam seu conhecimento ao lidar com os pacientes.
Constantin Brancusi (1876-1957), um dos escultores mais importantes da primeira metade do século XX, era um romeno radicado em Paris. Começou trabalhando com a madeira, buscando o segredo da matéria. Simplificou incessantemente, repisando em sua obra uma série limitada de temas, ‘Mademoiselle Pogany, Peixe e Pássaro no Espaço’ são duas de suas obras da maturidade que parecem abranger a essência da velocidade e a sensação de liberdade humana. Costumava ele dizer aos seus discípulos: “No momento em que o artista deixa de ser criança, morre”. Verdade! É brincando que se constrói o mundo. Crianças e artistas inventam o instante da criação.
Mesmo quem não se julga artista e, entrado em anos, consiga compreender o seu Eu infantil, o que é uma abonação da criatividade, atesta com isso uma grande sensibilidade. Mas voltemos à literatura e deixemos de devaneios.
Escrever é uma profissão muito infantil. Mas, às vezes, como as brincadeiras das crianças, pode se transformar em algo muito sério. Excessivamente circunspecto é o escritor, como, geralmente, são as crianças quando estão brincando ou procurando um substituto para o seu palco de atuação social, através da escolha de seus jogos. Vários médicos que tentaram a literatura sentiram, mesmo antes de serem médicos, que lhes sobressai uma forma diferente de ser. Mas não é agora que desejo debater este tema, embora possa vir a debater a procura das personagens que habitam o nosso Eu.
Somos mais complexos do que as personagens criadas pelo teatrólogo Luigi Pirandello (1867-1936), famoso por suas peças de teatro de caráter filosófico. A maior parte dos trabalhos de Pirandello reflete uma visão pessimista da vida, porque mostra a dificuldade em se conhecer a verdade acerca dos seres humanos. Pirandello recebeu o Prêmio Nobel de Literatura, de 1934. Os médicos literatos principiantes são como os “Seis Personagens à Procura de um Autor” (1921) de Pirandello, uma fantasia sobre seis pessoas que pedem para serem personagens de uma peça, mas que não têm nenhum autor para lhes orientar os passos.
Não saberia explicar quanto ou quando a magia da literatura começa a tomar corpo dentro das pessoas, principalmente quando já escolhemos uma roupagem para melhor nos representar no cenário social – a do médico.
Porém, mesmo com todos os êxitos profissionais, a contaminação de ler e escrever não nos permite abandonar a literatura ao longo da vida. Ela vai se agravando como um vírus de ação lenta: os mais infectados percebem que, não podendo dela se livrar, se deixam por ela ser levados, o mais cedo possível, quando se deparam com as mais tênues oportunidades. Os menos imaginosos devem aguardar, pois, no dizer de muitos estudiosos da alma humana: “O grande dilema humano não é a sexualidade - como desejava Sigmund Freud - e sim a sobrevivência da prole”.
Assim, ficam à espera de um maior equilíbrio para que, à musa literária possa o seu corpo ser oferecido – após garantir o sustento da sua família.
Não importa quando e como a ficção-real da literatura contamine: ela não tem cura. A doença e a terapia se confundem dentro da ânsia por ler e escrever. Buscar algo mais do que a trivialidade da sucessão dos dias nos hospitais, nos ambulatórios, nos consultórios e em tantos outros locais em que a mais social das ciências está sendo praticada ajuda, porém não cura.
Na maioria das vezes, ler e escrever são um lenitivo e um aperfeiçoamento na prática da profissão médica. Doença salvadora, durante os anos cinzentos em que a literatura e as leituras técnicas travam as batalhas.
A família e a pátria do escritor são a língua. Thomas Mann dizia ser a linguagem a placenta do literato. A linguagem é, mais do que um lar, o útero onde ele pode encontrar seus irmãos de gemiparidade. É seu refúgio infantil, sua casa e seu revestimento à sobrevivência.
Dostoievski afirmava que o mundo será salvo pela beleza. Não tenho tanta certeza.
É impossível prever qual o futuro da literatura, se algum futuro um dia tiver. Mas ouso esperar que ela consiga revelar, diante de suas incessantes indagações – sobre amor, morte, violências, guerras, covardia e inconformismo, engajamento ou falta de engajamento social, solidariedade, egoísmo, etc. – a beleza estética, ou não, de um texto bem ou mal escrito, uma promessa de bondade. Difícil de ser abandonada, mesmo em momentos de incerteza e ameaça à vida. Por mais ingênuo que isso possa parecer no mundo atual, o escritor solitário não passa de um operário do amor.
É bom rememorar que a arte literária não se prende à conjuntura que abrange a mídia e os inventos modernos, e que, do outro lado, a medicina, se não estiver em consonância com o humanismo, não passa de tecnologia. As inseguranças, de um modo geral, provêm de uma ênfase acentuada na ciência e em seus procedimentos, uma vez que as conquistas científicas aumentaram muito o conhecimento e o poder do homem. Mas as pessoas devem aprender a utilizar esse “poder” de maneira sensível e moral [palavras são palavras].
Não são poucos os profissionais de saúde que sentem o chamamento às artes, mas têm de aguardar o momento propício para atender a esse apelo. Passam a desempenhar papel diverso na vida social, porém, na primeira oportunidade, rendem-se às musas.  Os que escolhem a medicina sabem ser ela a mais social das ciências. Médicos escritores são em geral grandes leitores, apreciadores das artes, cientes de que se conhecessem apenas a medicina nem de medicina saberiam.
Não importa o êxito profissional. O médico escritor, apesar da cobrança de exclusividade da profissão abraçada, sempre encontra espaço para as coisas da arte. Assim, ao buscar o alívio do sofrimento humano, encontra o belo e, diante do belo, torna-se mais humano.
Acredito serem parceiras, a Medicina e a Literatura, nas artes e nas ciências. São ambas antropocêntricas. A Medicina possui a incumbência de aliviar a dor e a Literatura o dever de contar a vida. E para melhor fazer-me entender, tomo a passagem da carta dirigida a Marcos por seu pai, o Imperador Adriano, imaginada pela escritora Margaret Yoursenay, em Memórias de Adriano: 

'Caro Marcos,
Por indicação de meu médico, Hermógenes, despi-me. A túnica e minhas vestimentas caíram ao chão. Recostei-me para ser examinado, a hidropisia seguia a sua marcha bem com a verdade inexorável dos sessenta anos vividos. Gostava de meu médico. Hermógenes era um probo, posto que ninguém pratica a arte da Medicina por mais de 40 anos impunemente. Difícil é ser imperador diante de seu médico, e muito mais difícil permanecer homem'.
É isso tudo o que desejo dizer nesta altura de minha vida.
(*) Professor Titular da Pediatria da Universidade de Pernambuco. Psicoterapeuta. Membro da Sobrames/PE, da União Brasileira de Escritores (UBE) e da Academia Brasileira de Escritores Médicos (ABRAMES).

terça-feira, 1 de abril de 2014

A ARTE DE CONTAR MENTIRAS



Por Por Sheila Lobato

Uma pesquisa feita na Itália mostrou quem a opinião pública pensa que são os maiores mentirosos. Em primeiro lugar, os políticos, com 72% dos votos. Depois, pela ordem, vieram os jornalistas, os comerciantes e os publicitários. No Brasil, uma pesquisa dessas mudaria.


Você sabia que passamos a metade da nossa existência mentindo? E que, com muita frequência, a mentira é necessária?
Tão antiga quanto a humanidade, ela faz parte da nossa vida. Está presente nos jornais, nos livros da melhor literatura, em documentos de governo, nos discursos de políticos e até na Bíblia.
Na maioria das vezes, a mentira não passa de uma bobagem. Mesmo assim, o maior teólogo da Igreja Católica, São Tomás de Aquino, deu-se ao trabalho de classificar a mentira em três espécies ou graus: a divertida, a utilitária e a daninha, capaz de causar graves prejuízos. A última é que é importante: ardilosa e sutil, pretende mudar os fatos.



O esforço físico e mental de mentir ganhou representação visual no nariz comprido como o de Pinóquio.


Em qualquer caso, a mentira tem de ser bem contada. Pesquisadores da Temple University, na Filadélfia (EUA), descobriram que contar mentira dá trabalho. Numa experiência, feita com ressonância magnética funcional por imagem, constataram que o cérebro faz um esforço maior que o normal para contar uma mentira. E se é contada a uma pessoa muito próxima, o esforço é dobrado e pode ser perigoso. Quanto maior a intimidade, maior a necessidade de reforçar a mentira contando outras mentiras, para “defender” a primeira. O resultado é um estresse que acaba em somatizações como dores musculares, tiques nervosos e males mais graves.
Mentirosos desse grau podem desenvolver múltiplas personalidades. Uma para cada situação que criaram. E administrar isso transforma a vida num inferno em que o mentiroso vai vivendo até... se queimar. Nesse ponto, a conseqüência mais séria é, além das somatizações, a perda do afeto dos outros. O destino final do mentiroso é o isolamento social.
São Tomás de Aquino diria que é um inferno mais que adequado. Pois o que o mentiroso mais quer é o relacionamento, o convívio com os outros. O mentiroso pensa que, para se relacionar com o mundo, precisa mentir. Não está totalmente errado, mas mentir o tempo todo é uma doença. Ou porque ele se considera tão imperfeito que precisa da mentira como um escudo, ou porque se julga tão superior que a mentira é um disfarce para iludir o outro sobre sua genialidade e afagar o próprio ego.



Pescadores, com suas histórias mirabolantes, também são associados a esse comportamento.


Mas, dos 8 aos 80, o mentiroso é um sujeito inteligente. Um estudo dos doutores Paul Ekman e Maureen O'Sullivan, da Universidade da Califórnia (EUA), mostrou que os mentirosos patológicos têm 26% mais de “massa branca” na região associada à mentira no córtex cerebral. A “massa branca” são as duplas de neurônios com que o cérebro é capaz de criar - portanto, nossa matéria pensante.
Há mentiras que ficam para sempre. Para convencer as pessoas de sua época que o orgulho, a presunção e a falsidade são os piores pecados, o autor bíblico criou o mito do Paraíso e nele fez a serpente contar mentiras à mulher de Adão. Seduzida pelos argumentos, Eva acredita que ela e Adão não morrerão, mas serão como os deuses se comerem da árvore proibida, plantada por Javé no centro do jardim. A árvore da imortalidade estava reservada somente aos que soubessem discernir entre o bem e o mal. Adão e Eva morreriam se comessem seus frutos, pois não estavam preparados. Mas a astúcia da mentirosa cobra faz Eva comer o fruto que não pode e ainda oferecê-lo ao inocente e parvo Adão, que está bem ao seu lado, mas totalmente alheio à conversa da cobra com a mulher.
 Haveria outra forma de contar o mistério da criação humana, senão pela mentira de uma cobra? Certamente, mas não se pode garantir que teria o mesmo sucesso. É, de longe, a mentira mais bem-contada da história. E há mais de uma razão para estar na Bíblia. Na teologia cristã, a mentira é o Mal, a própria essência do pecado original. As filosofias orientais não deixam por menos: o próprio mundo é uma mentira, pois não passa de ilusão. Nem nossa mente se salva, pois também ela é uma ilusão. A verdade, só podemos vê-la com os olhos do espírito, através da meditação.

Outra mentira célebre é o “presente” dos gregos aos troianos, que valeu a vitória daqueles na guerra de Tróia. Em sua fábula, Homero faz do cavalo uma alegoria para dizer que mesmo a força precisa da mentira para as grandes conquistas. Platão, um dos maiores filósofos gregos, ensinava que os governantes deviam mentir para o bem do povo. Maquiavel escreveu que o príncipe devia ser “um grande simulador e dissimulador”.
Nos tempos modernos, o ex-secretário de Estado norte-americano Henry Kissinger sustentava que o Estado e, portanto, o estadista têm uma moral diferente da moral do cidadão. Para defender sua teoria, citava Richelieu, Bismarck e Roosevelt. E não é preciso ir tão longe: no Brasil, um ministro da Fazenda, Rubens Ricúpero, perdeu o posto por dizer, antes de uma entrevista à televisão, mas sem saber que já estava no ar, que “no governo a gente dá os números bons e esconde os maus”. O platônico Ricúpero não teria renunciado se sua frase tivesse ficado entre ele e o repórter, como pensava.
Mas há verdades que só dão resultado se passarem por mentira. Sabe-se, por exemplo, que o serviço de inteligência inglês mandou informações precisas para os alemães sobre a hora e o local do desembarque na Normandia, na Segunda Guerra Mundial. Não era mentira, mas os alemães pensaram que era e foram vigiar lugares mais ao norte, onde tinham a certeza de que seria feito o desembarque. Ninguém poderia ser louco o bastante, pensavam eles, de desembarcar num lugar como a Normandia.
Uma pesquisa feita na Itália com 1.200 pessoas de ambos os sexos, dos 14 aos 79 anos de idade, mostrou quem a opinião pública pensa que são os maiores mentirosos. Em primeiro lugar vieram os políticos, com 72% dos votos. Depois, pela ordem, os jornalistas, os comerciantes e os publicitários. No Brasil, uma pesquisa dessas mudaria algumas colocações, mas, com certeza, a primeira seria a mesma.
Desmascarar uma mentira não é difícil. O olho atento de uma mulher - os homens são fracos nisso - pode detectar facilmente se uma pessoa está mentindo ou não. Começa pelos olhos, que tremem e piscam mais que o normal. Não fitam o outro diretamente, a pupila se dilata, a voz fica mais fina e a fala se torna hesitante, perdendo a fluidez. O mentiroso faz mais afirmações negativas que o habitual, gesticula muito e toca várias vezes o queixo e o nariz. Ao sorrir, os lábios não se abrem espontaneamente, mas parecem forçados e podem até tremer.
Nem todos esses sinais aparecem juntos. Depende do grau da mentira. No caso dos políticos, quanto mais estridente estiver a voz, mais mentiras estarão contando. E se estiverem abusando das negações ou das afirmações, é porque estão pensando, ou vão fazer, o contrário do que estão dizendo. O invejoso mostrará um olhar vazio quando cumprimentar o colega pela promoção. Seu abraço não tocará a barriga do outro. A amiga que elogia a elegância da outra, mas desvia o olhar dos olhos dela, está dissimulando sua verdadeira opinião.
Os espiões sabem que a melhor forma de esconder a verdade é contar a verdade. É mais ou menos isso o que faz o marido infiel ao dizer em casa, tarde da noite, que saiu com mulheres, respondendo à pergunta aflita de sua mulher: “Onde você estava, meu bem?”
E quando as mulheres, afinal, começam a desconfiar da fidelidade de seus maridos, não é raro que pensem justamente o contrário, achando que eles ainda não chegaram porque, como alegam, estão tendo muito trabalho no escritório. O ser humano tende a aceitar tudo o que confirme sua crença, mesmo quando estapafúrdio.
De acordo com os psicólogos, nossa mente tem uma zona de sombra que é incapaz de olhar de frente a realidade. É nela que nascem as nossas mentiras e onde também se dá a aceitação da mentira dos outros. Mas junto a esse centro há outro maior, que usa recursos do vizinho. É o centro da imaginação. Dele surgem tanto o escândalo como a comédia, o mágico e o estelionatário, o inventor e o grande ator, o cientista e o poeta. Alguma forma de mentira está na base de qualquer arte, como um direito de todos à diversão e ao encantamento. E isso é, de fato, a mais pura verdade.
Fonte: Revista Época, edição 435, dez/2008.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Resumos de “Viúvas Biblioclastas”

Costuma-se arrolar as viúvas entre os biblioclastas, maldosamente acusadas de se livrarem dos livros legados por seus falecidos maridos. Elas, amiúde, sequer esperam a Missa da Ressurreição do pranteado esposo, para se desfazerem da sua biblioteca, pouco importando o valor estimativo ou a raridade dos livros em acervo. Razões para esse comportamento bibliocida delas, são apresentadas e discutidas.

Widows are often listed as biblioclasts, maliciously accused of getting rid of the books left by their deceased husbands. Often, they do not even wait for the Mass of the Resurrection of their mourned husband to dispose of their library, regardless of the estimated value or rarity of the books in the collection. Reasons for this book-destroying behavior are presented and discussed.
Marcelo Gurgel Carlos da Silva
Da Academia Cearense de Medicina
* Publicado In: Scriptorium, 3: 35-8, 2012. (Revista da Associação Brasileira de Bibliófilos).

segunda-feira, 2 de abril de 2012

VÁRIOS EM UM

Por Raquel Melo Lima Suppi (*)
Se você busca leitura diversificada, com temas riquíssimos e autores renomados, um dos livros mais indicados e apropriados é o “Tempos de Guerra e de Paz – Ensaios da Vida”.
Publicado em 2010, pela Editora da UECE – Universidade Estadual do Ceará –, o livro é a coletânea de excelentes artigos e ensaios de diversos autores e temas. O responsável pela organização, Marcelo Gurgel Carlos da Silva, escreveu 14 dos 35 títulos presentes na Publicação. Também, contou com 11 colaboradores convidados.
A Obra reúne histórias verídicas emocionantes, contadas de maneira muito particular, de acordo com cada escritor e ilustradas com fotos. Além da variedade de temas, o conteúdo do livro faz jus ao seu título, pois o leitor constata momentos de desgraça, das guerras e, também, belas e curiosas situações, isso tudo, viajando através das páginas, a visitar lugares e épocas diferentes.
A coletânea é dividida em sete partes temáticas que contêm, pelo menos, quatro artigos, cada uma.
A primeira parte, “Museus e Museólogos: ensaios sobre a formação” tem a participação, como colaboradores, de: Marcelo Gurgel Carlos da Silva, com o escrito “Formando Museólogos no Ceará”; Romeu Duarte Junior, com “Museu, Cidade e Arquiteta”; Francisco Régis Lopes Ramos, com “O Museu Histórico na Terceira Margem” e Ana Margarida Furtado Arruda Rosemberg, com “Políticas Museológicas da França”. Como escreveu Carlos Augusto Viana, no Prefácio, essa parte fala de “um levantamento de questões a despertar o interesse de leigos, a partir de detalhes configuradores desse campo de saber: as relações entre os museus e a coletividade, os museus e a transmissão do conhecimento, as políticas culturais.”
A segunda, “Resistência nas Termópilas: é melhor, lutaremos na sombra”, reúne os textos de: Ana Margarida Furtado Arruda Rosemberg (“As Guerras Médicas”), Marcelo Gurgel Carlos da Silva (“Os 300 de Esparta: dois filmes, dois momentos” e “Os 300 de Esparta Versus300” sem Esparta”), Carlos Roger Sales da Ponte (“Os Fortes e o Poder”). E proporciona leque de informações “curiosas e enriquecedoras” – tomando emprestadas as palavras de Carlos Augusto Viana – que vão muito além dos filmes bélicos de Hollywood.
A terceira parte, “Bombardeio de Guernica: ensaio para uma grande guerra”, conta com os seguintes artigos: “O Bombardeio de Guernica”, de Marcelo Gurgel Carlos da Silva; “Guernica: Ícones e Relíquias”, de Dalgimar Beserra de Menezes; “Árvore de Gernika: ensaio sobre a guerra moderna”, de Zacharias Bezerra de Oliveira e “A Vitória de Guernica”, de Paul Éluard (traduzido por Dalgimar Beserra de Menezes). É a parte que reproduz a Guerra Civil Espanhola, mais especificamente, o ataque da cidade camponesa chamada Guernica, localizada no País Vasco, ao norte da Espanha.
A fase quatro, “Otávio Bonfim: o bairro das Dores e dos Amores”, inclui quatro textos de Marcelo Gurgel Carlos da Silva (“Otávio Bonfim: bairro das Dores e dos Amores”, “Frades Alemães no Otávio Bonfim”, “Otávio Bonfim: sob o olhar de uma família” e “Leia Mais sobre Otávio Bonfim”), um de Elsie Studart Gurgel de Oliveira (“Otávio Bonfim, dos Velhos Tempos”) e um de Francisco Josênio Camelo Parente (“O Otávio Bonfim no Tempo do Frei Lauro”). Conta, em formato de crônica, a história do bairro Otávio Bonfim, que ganhou o nome da Estação Ferroviária. Também, o cotidiano de quem passava por lá, fazendo uma ponte entre passado e presente.
A quinta parte, “A Resistência Francesa: sob a cruz de Lorena”, tem a colaboração de: Marcelo Gurgel Carlos da Silva, com “A Resistência Francesa”; Fernando Queiroz Monte, com “A Guerra Mundial que a Sra. Némirovsky Observou”; Dalgimar Beserra de Menezes com “Resistência: mirar diacrônico, em particular com respeito ao elemento feminino” e Ana Margarida Furtado Arruda Rosemberg, com “Maquis: Redenção na França ocupada”. Fala de fatos e olhares históricos que voltam a aparecer, desta vez, focando a Segunda Guerra Mundial, mais particularmente, a resistência da França em relação à ocupação dos alemães.
A sexta fase, “A França Ocupada: ensaios na clandestinidade”, é enriquecida com três artigos de Marcelo Gurgel Carlos da Silva, tais como: ”O Regime de Vichy”, “Apolônio de Carvalho: um maquisard brasileiro” e “Leia Mais sobre a II Guerra Mundial”. Também, conta com os textos: “Resenha do livro ‘Vinho e Guerra’”, de Fábio Perdigão Vasconcelos; “O Diário de Hélène Berr”, de Ana Margarida Furtado Arruda Rosemberg e “Maquis: de olho na obra, de Elsie Studart Gurgel de Oliveira. Esta parte continua, de certa forma, o tema da anterior; entretanto, foca mais a vida das pessoas, seus pesadelos, e marcas da II Guerra.
A sétima e última parte, “Maurice Druon: o senhor da França”, engloba os textos de: Marcelo Gurgel Carlos da Silva (“Maurice Druon: de partisan a escritor”); Ana Margarida Furtado Arruda Rosemberg (“Paris se Despede de Druon em Grande Estilo”); Fernando Queiroz Monte (“Um Retrato sem Retoques de Maurice Druon”); Dalgimar Beserra de Menezes (“Linhas Tangenciais a Maurice Druon”) e Maurice Druon, Joseph Kessel & Anna Marly (“A Canção dos Partisans”). Encerrando o livro com a biografia e obras do escritor francês Maurice Druon, autor de “O Menino do Dedo Verde”.
(*) Acadêmica de jornalismo, blogueira e missionária do Shalom
Fonte: Postado em 31/05/2011. In: http://raquelsuppi.blogspot.com

sábado, 4 de junho de 2011

UMA GERAÇÃO DE PREDADORES

Matança, dívidas, emburrecimento geral, debacle do ensino, é tudo mérito de um reduzido grupo de cérebros de péssima qualidade intoxicados de ideias bestas e vaidade infernal.
Desde que me distanciei do Brasil, tenho visto a inteligência dos meus compatriotas cair para níveis que às vezes ameaçam raiar o sub-humano. Não posso medi-la pela produção literária, que veio rareando até tornar-se praticamente inexistente num país que já teve alguns dos melhores escritores do mundo.
Meço-a pelas teses universitárias que me chegam, cada vez mais repletas de solecismos e contrassensos grotescos, pelos comentários de jornal, pelos pronunciamentos das chamadas "autoridades" e, de modo geral, pelas discussões públicas. Em todo esse material, o que mais salta aos olhos não é o vazio de ideias, não é a estupidez dos raciocínios, não é nem mesmo a miséria da linguagem: é a incapacidade geral de distinguir entre o essencial e o acessório, o decisivo e o irrelevante.
Não há problema, não há tema, não há assunto que, uma vez trazido ao palco - ou picadeiro -, não seja infindavelmente roído pelas beiradas, como se não tivesse um centro, um significado, um sentido em torno do qual articular uma discussão coerente. Cada um que abre a boca quer externar apenas algum sentimento subjetivo deslocado e extemporâneo, exibir bom-mocismo, angariar simpatias ou votos, como se se tratasse de uma rodada de apresentações pessoais num grupo de psicoterapia e não de uma conversa sensata sobre - digamos - alguma coisa.
A coisa, o objeto, o fato, o tema, este, coitado, fica esquecido num canto, como se não existisse, e depois de algum tempo cessa mesmo de existir. A impressão que me sobra é a de que toda a população legente e escrevente está sofrendo de síndrome de déficit de atenção. Ninguém consegue fixar um objeto na mente por dez segundos, a imaginação sai logo voando para os lados e tecendo, embevecida, um rendilhado de frivolidades em torno do nada.
Se me perguntarem quais são os problemas essenciais do Brasil, responderei sem a menor dificuldade:
1) A matança de brasileiros, entre quarenta e cinquenta mil por ano;
2) O consumo de drogas, que aumenta mais do que em qualquer país vizinho, e que alguns celerados pretendem aumentar ainda mais mediante a liberação do narcotráfico - o maior prêmio que as Farc poderiam receber por décadas de morticínio.
3) A absoluta ausência de educação num país cujos estudantes tiram sempre os últimos lugares nos testes internacionais, concorrendo com crianças de nações bem mais pobres; num país, mais ainda, onde se aceita como ministro da Educação um sujeito que não aprendeu a soletrar a palavra "cabeçalho" porque jamais teve cabeça, e onde se entende que a maior urgência do sistema escolar é ensinar às crianças as delícias da sodomia - sem dúvida uma solução prática para estudantes e professores, já que o exercício dessa atividade não requer conhecimentos de português, de matemática ou de coisa nenhuma exceto a localização aproximada partes anatômicas envolvidas.
4) A falta cada vez maior de mão de obra qualificada de nível superior, que tem de ser trazida de fora porque das universidades não vem ninguém alfabetizado.
5) A dívida monstruosa acumulada por um governo criminoso que não se vexa de estrangular as gerações vindouras para conquistar os votos da presente, e que ainda é festejado, por isso, como o salvador da economia nacional.
6) A completa impossibilidade da concorrência democrática num quadro onde governo e oposição se aliaram, com o auxílio da grande mídia e a omissão cúmplice da classe rica, para censurar e proibir qualquer discurso político que defenda os ideais e valores majoritários da população, abomináveis ao paladar da elite.
7) A debilitação alarmante da soberania nacional, já condenada à morte pela burocracia internacional em ascensão e pelo cerco continental do Foro de São Paulo (aquela entidade que até ontem nem mesmo existia, não é?).
8) A destruição completa da alta cultura, num estado catastrófico de favelização intelectual onde a função de respiradouro para a grande circulação de ideias no mundo, que caberia à classe acadêmica como um todo, é exercida praticamente por um único indivíduo, um último sobrevivente, que em retribuição leva pedradas e cuspidas por todo lado, especialmente dos plagiários e usurpadores que vivem de parasitar o seu trabalho.
Se me perguntam a causa desses oito vexames colossais, digo que é a coisa mais óbvia do mundo: quarenta anos atrás, as instituições que se gabam de ser as maiores universidades brasileiras lançaram na praça uma geração de pseudo-intelectuais morbidamente presunçosos, que na juventude já se pavoneavam de ser "a parcela mais esclarecida da população".
Hoje essas mentes iluminadas dominam tudo - sistema educacional, partidos políticos, burocracia estatal, o diabo -, moldando o País à sua imagem e semelhança. Matança, dívidas, emburrecimento geral, debacle do ensino, é tudo mérito de um reduzido grupo de cérebros de péssima qualidade intoxicados de ideias bestas e vaidade infernal. Dentre todas as gerações de intelectuais brasileiros, a pior, a mais predatória, a mais destrutiva.
Se querem saber agora por que os temas fundamentais não podem ser enxergados e discutidos na sua essência, por que as atenções são sempre desviadas para detalhes laterais e por que, em suma, nenhum problema neste país tem solução, a resposta também não é difícil: quem molda os debates públicos, por definição, é a elite dominante, e esta não permite que nada seja discutido exceto nos moldes do seu vocabulário, dos seus interesses, da sua agenda, da sua irresponsabilidade psicótica, da sua ambição megalômana, da sua autoadoração abjeta.
Enquanto vocês não perderem o respeito por essa gente, nada de sério se poderá discutir no Brasil.
http://www.midiasemmascara.org/artigos/movimento-revolucionario/12133-uma-geracao-de-predadores.html

segunda-feira, 21 de março de 2011

TEMPOS DE GUERRA E PAZ


Marcelo Gurgel é que nem uma coruja: não dorme à noite e ainda fica a filosofar. No silêncio da madrugada, o único sinal de vida acordada que vem do seu apartamento, é uma luzinha fraca que permanece acesa, sem alterar muito a conta da Coelce, no final do mês. É que o médico Marcelo, além de economista, é econômico, cultivando sempre o velho ditado “quem paga, apaga”.
Mas nada disso vem ao caso porque o que se quer mesmo é falar da última produção literária do Marcelo Gurgel Carlos da Silva. Esse é o seu 57° livro, e do jeito que vai, com a idade que ele tem, lançando uma média de quatro obras por ano, quando chegar aos 80, será figura carimbada no Guiness local.
O mais importante, nessa corrida desenfreada do Professor Marcelo para publicar títulos e mais títulos, é que ele, além de se promover, promove também um bocado de gente, pessoas, aliás, que não teriam condições de ver seus trabalhos jogados no mercado da fama, se não fosse o olho clínico dele para escolher o que é bom e o que não é. Com outros, no entanto, acontece diferente: ele faz um trabalho de compilação - seleciona autores, identifica peças dignas de serem publicadas, reúne-as em capítulos, observando os temas tratados, no que, por sinal, ele é um verdadeiro “expert”, e, logo, logo, chega a hora de dizer: Pronto! Mais um!
Pode até parecer estranho, mas diante dessa avalanche literária, em termos de produção de obras, bem que o Marcelo Gurgel poderia se dar ao luxo de representar a esfinge, e dizer para o grande público: “Decifra-me”. Devorar, não cairia bem, dado seu espírito de paz, mas até que seria bom alguém conseguir explicar o comportamento dos seus neurônios, numa atividade (cerebral/intelectual) fora dos padrões da normalidade.
Esse último livro do Marcelo Gurgel “Tempos de Guerra e de Paz” só faz enriquecer a sua biografia e a própria literatura cearense, tão prolífera, mas sempre tão engenhosa, o que abre espaço para que, aqueles que são realmente bons, venham a se perpetuar.
A Academia Cearense de Letras, quando assim julgar oportuno, poderá acolhê-lo, entre os seus imortais, dispondo ao Marcelo uma cadeira, a fim de nela ele tome assento, por méritos próprios, honrando uma Casa que já abrigou, e ainda abriga, as mais lúcidas inteligências do Ceará.
Em que pese o título da obra que ora está sendo lançada na XV Semana Universitária da Uece, vive-se, hoje, mais tempo de paz, que de guerra. Se essa existe, é para que a justiça seja feita.
Elsie Studart G. de Oliveira
* Publicado In: Jornal o Povo, 19/03/11. Jornal do Leitor, p.2.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

NATAL DA ACADEMIA CEARENSE DE MEDICINA

A Academia Cearense de Medicina, como faz anualmente, realizou a sua confraternização natalina. O evento aconteceu na noite de hoje (14/12/10), no Salão Meireles, do Ideal Clube e contou com a participação de expressivo número de acadêmicos titulares, a maioria deles fez-se acompanhar de seus diletos cônjuges.
A destacar na celebração, a belíssima saudação natalina, proferida pelo acadêmico Sérgio Gomes de Matos, sob a forma de um ensaio, pleno de erudição e digno de ser publicado, por seu apuro e sua riqueza histórica e literária.

domingo, 5 de dezembro de 2010

AS FORÇAS QUE REGEM A VIDA E A MORTE


Detalhe da capa de "Tempos de Guerra e de Paz", de Marcelo Gurgel (Org.), num processo de montagem

ENSAIO
Por Carlos Augusto Viana

A reunião de artigos e de ensaios, de diferentes naturezas e de diversos autores, visando à composição de um livro, é sempre um desafio. A começar pela busca de certa unidade, isto é, uma acomodação de textos que, de certa forma, estabeleçam entre si vasos comunicantes. Marcelo Gurgel, ao organizar esse volume, obteve pleno êxito nessa difícil empreitada.

A princípio, dividiu a obra em sete partes, consoante o material de interesse. Em "Museus e museólogos: ensaios sobre a formação", a especificidade da temática ultrapassa as fronteiras de um conhecimento restrito, constituindo um levantamento de questões a despertar o interesse de leigos, a partir de detalhes configuradores desse campo de saber: as relações entre os museus e a coletividade, os museus e a transmissão do conhecimento, as políticas culturais.
"Resistência nas Termópilas: é melhor, lutaremos na sombra" agrega artigos e ensaios que se concentram nas relações de poder, ora num histórico das guerras do Mundo Antigo, ora a análise de como o cinema aborda o espírito bélico, tendo como fulcro o filme "Os 300 de Esparta". O leitor terá acesso a informações curiosas e, evidentemente, enriquecedoras.
A terceira parte "Bombardeio de Guernica: ensaio para uma grande guerra" reconstrói a Guerra Civil Espanhola", e o bombardeio sobre a cidade - uma das mais antigas do povo basco - é descrito com uma riqueza de detalhes impressionante, bem como merece realce a leitura de diversas composições pictóricas que dizem respeito à crueldade humana.
"Otávio Bonfim : o bairro das dores e dos amores", a quarta parte do livro, compreende textos que se enquadram no gênero crônica, uma vez que o olho sobre a cena cotidiana colhe usos e costumes e estabelece uma ponte entre o passado e o presente; os flagrantes do dia-a-dia, a cor local, coisas e seres, tudo conduz o leitor a reflexões acerca da passagem do tempo, da precariedade do homem e de sua hora.
A tonalidade histórica volta a aparecer no livro, em seu quinto momento, sob o título "A Resistência Francesa: sob a cruz de Lorena". Os autores partem de um ponto particular com o intento de que o geral seja atingido; isto é, a resistência dos franceses à ocupação alemã, quando da Segunda Guerra, funciona como metonímia da própria resistência dos povos à ocupação de seu território por invasores, tanto que os autores percorrem também vários momentos da História da humanidade em que tal ocorreu deveras.
Em "A França Ocupada: ensaios na clandestinidade", há um desdobramento do grupo anterior, recaindo o discurso sobre pessoas que, com suas marcas, vivenciaram atos de resistência ou, por outro lado, sofreram os horrores da guerra.
O livro se fecha com artigos e ensaios sobre o escritor Maurice Druon, autor de "O Menino do Dedo Verde"; nesse sentido, além de aspectos biográficos e bibliográficos, o leitor poderá também penetrar na ficção desse escritor Francês, pois vários tópicos de sua criação literária são analisados pelos autores.
A leitura de "Tempos de Guerra e de Paz", obra sob a organização de Marcelo Gurgel, é um caminho aberto a várias possibilidades: se, de um lado, o leitor colhe informações preciosas sobre aspectos da História humana; por outro, é conduzido ao passado, implicando, também, uma forma de conhecimento do presente. Trata-se de um livro que tanto nos conduz à reflexão quanto nos diverte com colheitas singelas de cenas cotidianas.
Em meio à diversidade de pontos de vista, de gêneros e mesmo das temáticas abordadas por cada um dos autores, há uma confluência que reside no tratamento da linguagem. Pouco importa a complexidade do texto, a escritura apresenta-se sempre simples, objetiva, desembocado numa leitura fácil, ainda que aos cuidados de reflexões agudas e pertinentes.


Tempos de Guerra e de Paz: Ensaios da Vida
Marcelo Gurgel Carlos da Silva (Org.)
UECE 2010 160 Páginas R$ 25,00
Ensaios de diversos autores: museus, literatura e guerras
CARLOS AUGUSTO VIANA
EDITOR
http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=896913

* Publicado no Suplemento Cultura do Diário do Nordeste, de 05/12/2010.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

SOBRE “TEMPOS DE GUERRA E DE PAZ: ensaios da vida”


Foram reunidos, neste livro, trinta e quatro ensaios, que estão distribuídos em sete capítulos, cinco deles oriundos de matérias publicadas no jornal Diário do Nordeste (DN), especificamente no Suplemento Cultural, editado pelo notável poeta e escritor Carlos Augusto Pereira Vianna, ilustre membro da Academia Cearense de Letras.
Os cinco capítulos, tornados públicos no jornal DN, foram os seguintes: Museus e Museólogos: ensaios sobre a formação; Resistência nas Termópilas: é melhor, lutaremos na sombra!; Bombardeio de Guernica: ensaio para uma grande guerra; Otávio Bonfim: o bairro das Dores e dos Amores; e A Resistência Francesa: sob a cruz de Lorena. A eles se juntaram dois cadernos, que, sobretudo, por motivo de agenda, permaneceram inéditos, no caso, a saber: A França Ocupada: ensaios na clandestinidade e Maurice Druon: o senhor França.
Os colaboradores convidados destacam-se como profissionais de inegáveis pendores literários e detentores de uma formação educacional formidável, que os distinguem no meio cultural cearense. Seus nomes são: Ana Margarida Furtado Arruda Rosemberg, Carlos Roger Sales da Ponte, Dalgimar Beserra de Menezes, Elsie Studart Gurgel de Oliveira, Fábio Perdigão Vasconcelos, Fernando Queiroz Monte, Francisco Josênio Camelo Parente, Francisco Régis Lopes Ramos, Marcelo Gurgel Carlos da Silva (organizador), Mauro de Assis Paula, Romeu Duarte Junior e Zacharias Bezerra de Oliveira. O organizador da presente coletânea comparece com catorze dos títulos dispostos nessa publicação.
A escolha do título do livro “Tempos de guerra e de paz: ensaios da vida” espelhou-se na dualidade da vida: há tempos de guerra e há tempos de paz, significando as próprias alternâncias do viver, transmutadas em ensaios, para apreciação do ledor.
Marcelo Gurgel Carlos da Silva
Prof. Titular da UECE

Nota: A obra integra o III Lançamento Coletivo da Editora da UECE, a ocorrer no Auditório Paulo Petrola, da Reitoria da UECE, no dia 25/11/10, às 17 horas, durante a XV Semana Universitária.

domingo, 2 de maio de 2010

UM MINISTRO EXTEMPORÂNEO

O Ministro da Saúde, José Gomes Temporão, tem demonstrado, desde o início de sua gestão, um enorme apego midiático ao se meter em searas polêmicas que trazem os holofotes para a sua imagem, ao ponto de ser cogitado, ainda em 2007, como um possível candidato à sucessão presidencial de 2010.
Tal intenção foi logo dissipada pela imprensa, quando se descobriu a origem lusitana do ministro, nascido nos arrebaldes lisboetas, em franca dissonância com uma cláusula pétrea constitucional que reserva o cargo máximo de comando do País aos brasileiros natos.
É bem verdade que se o senhor Lula o quisesse sucessor, com sua crescente veia autoritária, para impor o que bem quer ao seu partido e ao povo brasileiro, como fez ao lançar a candidatura presidencial da Sra. Dilma Roussef, seria capaz de pulverizar o mármore mais nobre, nem que fosse com dinamite, para prevalecer a sua vontade, ou recorrer a uma estratégia subliminar, aos poucos, escoimado no jargão da “água mole em pedra dura...”.
Um dos primeiros embates que o Sr. Temporão se envolveu foi o da legalização do aborto, uma questão assaz complexa e reduzida por ele apenas à faceta médica, sendo obrigado a recuar quando algumas igrejas cristãs protestaram e sua ideia não teve guarida na ótica do governante-mor do Brasil.
Em junho de 2008, com o estardalhaço de praxe, e como se fora uma prioridade nacional, anunciou a assinatura de portaria autorizando o Sistema Único de Saúde a pagar pela cirurgia de mudança de sexo, um procedimento de alta complexidade e elevado custo, e problema mais afeito à questão de opção pessoal, das escolhas afetivas de cada indivíduo, olvidando as grandes mazelas sanitárias, endêmicas ou epidêmicas, que acometem milhões de brasileiros.
Agora, em abril de 2010, para gáudio de tantos, posto ser o último ano da sua gestão, o Prof. Dr. Temporão, ao divulgar os resultados de recente levantamento da hipertensão arterial no Brasil, apontando um aumento da prevalência dessa enfermidade entre adultos, e, principalmente, no segmento dos idosos, recomendou, entre outras medidas já consagradas de combate à doença hipertensiva, que as pessoas fizessem sexo cinco vezes por semana, ou até cinco vezes ao dia, freqüência que talvez somente seja alcançada por profissionais do sexo.
A prática de sexo, mormente com amor e com a pessoa amada, sem dúvida é importante para uma vida saudável, inserindo-se plenamente no contexto da desejada qualidade de vida de cada cidadão. Contudo, fazer sexo, como tratamento da hipertensão, além da banalização de atos concernentes à intimidade das pessoas, é uma medida descabida, que pode causar sérios transtornos físicos em indivíduos cuja saúde esteja comprometida por doenças ou pelo natural processo de envelhecimento, e aportar conflitos psíquicos aos que, por motivos de ordem religiosa, precisam preservar a castidade.
Por outro lado, se a evidência científica respaldar a “sexoterapia” anti-hipertensiva como conduta eficaz, e o Ministério da Saúde acolher tal modalidade de tratamento, como dá a entender o senhor ministro, o poder público, lastreado no princípio que rege o SUS, da “Saúde como direito de todos e dever do Estado”, deverá dispor desse serviço em suas unidades, para atender inclusive aqueles, carentes e solitários, que não têm o aconchego conjugal, nem que, para isso, necessite contratar, algo que pode ser terceirizado, ou nomear, mediante concurso, profissionais do sexo, criando assim, quem sabe, mais uma carreira de Estado, a ser exercida em prostíbulos oficiais ou em lupanares considerados centros de referência.
Para assegurar a manutenção, a contento, de um programa de controle da hipertensão arterial, a “sexoterapia” proposta, além dos encargos financeiros em recursos humanos, trará gastos adicionais com preservativos, para impedir a maior propagação da AIDS, e com caros medicamentos para disfunção erétil, afinal querer não é poder; bem a propósito, por sinal, o medicamento pioneiro e sucesso comercial na terapia do citado distúrbio terá sua patente expirada nos próximos dias, o que ensejará o aparecimento de genéricos, com preços mais convidativos, passíveis de configurar um fator positivo ao programa de controle em alusão.
Há de se prever também dotação com vistas à indenização pública a familiares de algum idoso ou portador de debilidade física que venha a sucumbir em decorrência do hercúleo esforço de cumprir a recomendação ministerial, na freqüência de cinco vezes ou na posologia indicada, semanal ou diária, proeza digna de um Casanova, de uma Messalina ou das grandes cortesãs, calejadas que foram na arte da fornicação.
Da aurora ao ocaso da sua gestão à frente da pasta da saúde, o ministro Temporão, foi, mais uma vez, extemporâneo na contemporaneidade de suas ações; mas, por certo, ganhará, no futuro, um lugar especial, acoitado entre os administradores folclóricos do Brasil, o que muito entristecerá os patrícios portugueses, porquanto a proposição em tela já está sendo alvo da chacota na imprensa europeia, preocupada com a necessidade de se conceder licença a muitos trabalhadores hipertensos ou de risco para doença hipertensiva.

Prof. Dr. Marcelo Gurgel Carlos da Silva
Médico Sanitarista e Economista da Saúde

quinta-feira, 4 de março de 2010

EXPERIÊNCIA SOCIALISTA ...

Um professor de economia na universidade Texas Tech disse que ele nunca reprovou um só aluno antes, mas tinha, uma vez, reprovado uma classe inteira. Esta classe em particular tinha insistido que o socialismo realmente funcionava: ninguém seria pobre e ninguém seria rico, tudo seria igualitário e 'justo.'
O professor então disse, "Ok, vamos fazer um experimento socialista nesta classe. Ao invés de dinheiro, usaremos suas notas em testes." Todas as notas seriam concedidas com base na média da classe, e, portanto, seriam 'justas.' Isso quis dizer que todos receberiam as mesmas notas, o que significou que ninguém repetiria. Isso também quis dizer, claro, que ninguém receberia um "A" ...
Depois que a média das primeiras provas foram tiradas, todos receberam “B”. Quem estudou com dedicação ficou indignado, mas os alunos que não se esforçaram ficaram muito felizes com o resultado.
Quando o segundo teste foi aplicado, os preguiçosos estudaram ainda menos - eles esperavam tirar notas boas de qualquer forma.
Aqueles que tinham estudado bastante no início resolveram que eles também se aproveitariam do "trem da alegria" das notas. Portanto, agindo contra suas tendências, eles copiaram os hábitos dos preguiçosos. Como resultado, a segunda média dos testes foi “D”. Ninguém gostou. Depois do terceiro teste, a média geral foi um "F".
As notas não voltaram a patamares mais altos, mas as desavenças entre os alunos, buscas por culpados e palavrões passaram a fazer parte da atmosfera das aulas daquela classe.
A busca por 'justiça' dos alunos tinha sido a principal causa das reclamações, inimizades e senso de injustiça que passaram a fazer parte daquela turma.
No final das contas, ninguém queria mais estudar para beneficiar o resto da sala. Portanto, todos os alunos repetiram... Para sua total surpresa.
O professor explicou que o experimento socialista tinha falhado porque ele foi baseado no menor esforço possível da parte de seus participantes. Preguiça e mágoas foram seu resultado. Sempre haveria fracasso na situação a partir da qual o experimento tinha começado. "Quando a recompensa é grande", ele disse, "o esforço pelo sucesso é grande, pelo menos para alguns de nós".
"Mas quando o governo elimina todas as recompensas ao tirar coisas dos outros, sem seu consentimento, para dar a outros que não batalharam por elas, então o fracasso é inevitável."

Fonte: Internet (circulando por e-mail)

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

A ORGANIZAÇÃO DA SELEÇÃO DA RESIDÊNCIA MÉDICA DO SUS NO CEARÁ

A Escola de Saúde Pública do Ceará (ESP-CE), desde a sua criação, em 1993, tem assumido a coordenação do Processo Seletivo da Residência Médica (RM) para os hospitais estaduais de referência do Sistema Único de Saúde do Ceará, englobando os pertencentes à extinta Fundação de Saúde do Estado do Ceará (FUSEC), representados pelos Hospital Geral César Cals, Hospital São José e Hospital de Saúde Mental de Messejana, além daqueles integrantes do antigo INAMPS, que foram estadualizados, no caso o Hospital Geral de Fortaleza e o Hospital de Messejana.
Ao acolher esse encargo, a seleção já estava unificada, sob a égide da Secretaria de Saúde do Estado do Ceará (SESA), que o realizava por meio do trabalho voluntário e dedicado de alguns coordenadores e preceptores de variados programas, cabendo à ESP-CE introduzir mudanças graduais, sobretudo operacionais, para tornar os procedimentos mais profissionais e regulamentados.
Um ponto de partida foi o reconhecimento da necessidade de expandir a concorrência, para atrair também melhores candidatos, e, também, gerar maiores receitas, com o fito de remunerar as tarefas realizadas, minimizando a colaboração gratuita, ao tempo que se buscava obter o aprimoramento qualitativo dos instrumentos de avaliação dos postulantes.
A aplicação das provas escritas e de títulos ocorria em duas fases, distanciadas em quase duas semanas, o que levava à liberação dos resultados finais ao cabo de quase um mês, gerando fortes e demoradas expectativas entre os inscritos. A correção manual dos gabaritos foi substituída pela leitura ótica dos mesmos, evitando as naturais falhas e imperfeições humanas do procedimento artesanal, e conferindo grande agilidade na correção e no fechamento dos resultados.
As duas fases foram reunidas em um único fim-de-semana, permitindo-se participar da segunda fase, independente do resultado da prova escrita, com as provas de múltipla escolha aplicadas na manhã do sábado e as entrevistas com análise curricular, iniciadas na parte da tarde e se prolongando em todo o domingo; nos últimos anos, com a inclusão de mais examinadores, devidamente treinados, que passaram a contar com pessoal de apoio, e a definição de aprazamento dos horários das análises, foi possível restringir a feitura do certame em apenas um dia.
Os pontos de corte para a aprovação da primeira fase, anteriormente fixados na média menos um desvio padrão de cada programa, geravam sérias distorções por suas brutais diferenças entre os programas, de modo que, às vezes, um candidato eliminado de um programa de alta competição tinha rendimento que o alçava entre os primeiros de programas menos qualificados em competição, e ainda por razões estatísticas da variabilidade produzida em pequenos números, no caso de poucos candidatos em certos programas. Para corrigir tal dissonância, o diapasão adotado foi estabelecer um único “cutoff” para os candidatos dos programas de acesso direto, definido na média menos um desvio padrão dos resultados da prova básica, comum a todos os concorrentes, e, linearmente, considerar o perfil de 50% de acertos das questões válidas como ponto de corte aos candidatos inscritos nas áreas especializadas.
Para aprimorar a qualidade das provas escritas, foram ministrados dois cursos teóricos e práticos sobre a formulação de questões de múltipla escolha aos preceptores encarregados dessa funções, os quais, anualmente, quando convidados a integrar às bancas de provas, recebem um pacote contendo instruções sobre a técnica de elaboração de quesitos, a digitação e formatação e modelos de questões, com referências bibliográficas. A quantidade de questões solicitadas aos formuladores passou a ser quase o dobro do necessário às provas, cabendo a seleção das questões e a montagem de cada prova ao trabalho coletivo, envolvendo elaboradores e coordenação do certame, sob o estreito acompanhamento de técnico experimentado em avaliação educacional, atentando-se para aspectos relativos a conteúdo, consistência, grau de dificuldade, poder discriminatório etc. A montagem final das provas, após a reavaliação técnica, passou a ser submetida à cuidadosa revisão ortográfica.
Os procedimentos comuns de análise curricular aplicados a todos os candidatos foram revistos e desmembrados em dois modelos de Curriculum Vitae (CV) padronizado: o A, que deve ser preenchido pelos candidatos às áreas básicas e especialidades de acesso direto (que não exigem pré-requisito) e o B, ajustado aos candidatos às especialidades que exigem pré-requisito; preservou-se, outrossim, a prática de somente revelar os comprovantes dos títulos por ocasião da análise curricular, evitando-se o acúmulo de análise de documentos na ESP-CE. Esses modelos substituíram os apresentados em diferentes formatos, de modo espontâneo e livre, pelos postulantes, cujo manuseio tomava muito tempo do examinador.
A nota atribuída ao histórico escolar da graduação, como parte da prova de títulos, e que considerava todas as notas e/ou conceitos das disciplinas, demandando a, aproximadamente, meia hora de cada avaliador, foi inicialmente restrita à aferição do desempenho de dez matérias e, posteriormente, a apenas cinco disciplinas: Patologia, Clínica Médica, Clínica Cirúrgica, Pediatria e Gineco-Obstetrícia. Por três anos, a Coordenação da seleção introduziu, em caráter opcional, o direito do candidato de pleitear essa avaliação baseada no resultado individual do Exame Nacional de Cursos (o Provão do MEC); essa exitosa medida, que tinha a vantagem de harmonizar, em um só instrumento, a dificuldade de lidar com grades curriculares extremamente díspares e conferia uma economia de tempo de análise, foi abortada pela intempestiva decisão do governo federal de extinguir o Provão, equivocadamente substituído pelo ENADE, cujas periodicidade e não individualização de resultados tolheram a continuidade do aproveitamento na pontuação curricular.

Marcelo Gurgel Carlos da Silva
Ex-Coordenador da Seleção da RM do SUS-CE

* Publicado in: Jornal do médico, 5(29): 6, 2009. (Informativo Independente do Ceará).

terça-feira, 25 de agosto de 2009

RAÍZES DO INTERNATO DE PEDIATRIA NO HIAS

Nos anos setenta, o Internato em Medicina na UFC durava doze meses ininterruptos, sem intervalos ou férias, distribuídos em cinco áreas: Clínica Médica, Cirurgia Geral, Pediatria, Toco-Ginecologia e Estágio Rural (CRUTAC), o último com duração de um mês. O interno podia escolher uma das áreas para realizar o treinamento durante cinco meses, cabendo dois meses a cada uma das demais áreas.
Grande parte do alunado optava pela Clínica Médica, como campo de estágio dominante, porque a maioria desejava, antes de mais nada, exercer a clínica geral; aqueles que desejavam ser cirurgiões, pediatras, obstetras, em menor número, compatibilizam suas preferências curriculares com as aspirações profissionais e normalmente buscavam assumir o período mais longo no seu próprio setor de interesse.
O complexo hospitalar da universidade, formado pelo Hospital Universitário Walter Cantídio (HUWC) e pela Maternidade Escola Assis Chateaubriand (MEAC), gozava da preferência dos internos, mas os que pretendiam trabalhar no interior possuíam uma velada inclinação a fazer o Internato no Hospital Geral Dr. César Cals (HGCC) enquanto o Hospital Geral de Fortaleza (HGF) despertava a atenção pela multiplicidade de especialidades e por sua localização geográfica, compondo uma demanda bem típica.
Os poucos leitos pediátricos do HUWC, confirmando o desprestígio que outros serviços médicos impingiam à Pediatria, não animavam os futuros pediatras e muito menos a tantos quantos estavam decididos ao exercício de outras especialidades, que tocavam esse estágio apenas, como se diz no jargão esportivo, para cumprir tabela. Apesar da boa vontade e da dedicação dos professores de Pediatria, a limitação dos recursos e a pequena variabilidade na oferta de serviços pediátricos, dentro de um hospital geral que privilegiava o atendimento a adultos, resultava, naturalmente, em pouca atividade para tantos internos, gerando um certo grau de ociosidade do alunado e menores oportunidades de aprendizado e de treinamento.
Tratava-se, na verdade, de um problema crônico exacerbado na segunda metade da década de setenta, com a chegada de muitos alunos transferidos, e de difícil solução endógena, a curto ou médio prazos, o que assegurava a manutenção de um círculo vicioso, envolvendo carência de recursos e deficiência de aprendizado.
No final de 1978, ciente da persistência do transtorno, e mesmo sendo ex-aluno da UFC, pois fora diplomado em dezembro de 1977, conversei com o Prof. Haroldo Juaçaba, então coordenador do Internato em Medicina, no sentido de buscar uma alternativa externa para resolver o impasse, que causava enorme dissabor aos internos, contribuindo para minar a credibilidade do ensino médico da UFC. A medida não era inusitada porque os internos do HGF e da HGCC faziam a Pediatria nesses próprios hospitais, e ainda traria benefícios aos internos que permanecessem no Serviço de Pediatria do HUWC, porquanto ter-se-ia, com tal enxugamento da quantidade de alunos, uma certa adequação à sua capacidade instalada.
Como fora eu admitido para o quadro de sanitaristas concursados da Secretaria da Saúde do Estado do Ceará, o estágio institucional a que fora submetido, para ingresso nessa carreira, permitira-me conhecer o funcionamento das unidades de saúde estaduais, o que incluía os hospitais da Fundação de Saúde do Estado do Ceará (FUSEC), dentre os quais constava o Hospital Infantil Albert Sabin.
O HIAS fora “inaugurado” em 1975, como Hospital Infantil de Fortaleza, em final de gestão governamental, com funcionamento parcial, e reinaugurado em 1977, com a presença do quase prêmio Nobel Dr. Albert Sabin, ocasião em que foi dado o seu nome ao hospital, a título de honraria, fazendo jus ao grande benfeitor da humanidade. A partir daí, a instituição passou a operar em plena capacidade, dispondo de centenas de leitos, distribuídos nas várias especialidades, e contando com ambulatórios especializados.
Em pouco tempo, o HIAS consolidou-se como o mais abrangente e o mais bem equipado hospital pediátrico do Ceará, credenciando-se à sua transformação, como centro de formação de pediatras e de irradiação do conhecimento em Pediatria, qualidades que subsistem até os dias atuais.
A sensibilidade do Prof. Haroldo Juaçaba, frente à sugestão, revelou-se na forma como agiu, com determinação, culminando no envio dos primeiros internos da UFC para o HIAS, dando início, assim, uma tradição de acolhimento de estagiários de diferentes escolas médicas, do Ceará e de outros estados, dentre os quais figuram os internos do Curso de Medicina da Universidade Estadual do Ceará-UECE.
Marcelo Gurgel Carlos da Silva
Da Academia Cearense de Medicina

* Publicado in: Rev. de Saúde da Criança e do Adolescente, 1 (1): 70-2, 2009.
 

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