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terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Morre o médico cearense Antero Coelho Neto


O gerontólogo cearense era articulista do O POVO
O médico cearense, professor universitário, articulista do O POVO e escritor Antero Coelho Neto morreu, aos 84 anos, na madrugada de ontem, em Fortaleza. O gerontólogo estava internado por causa de uma fratura no colo do fêmur, mas teve uma infecção generalizada, agravada após Acidente Vascular Cerebral (AVC).
Antero Coelho tinha formação na área de transplante renal e foi um dos pioneiros na pesquisa nesta área na UFC, onde era professor aposentado do Departamento de Cirurgia da Faculdade de Medicina.
 “Era uma pessoa de ótima convivência e um excelente colaborador da Rádio Universitária. Ele fez um trabalho muito importante na dimensão educativa do rádio”, comentou o diretor da Universitária FM, Nonato Lima.
Segundo o médico sanitarista e amigo de Antero, Marcelo Gurgel, ele deixa um legado intelectual, científico e educacional para a Medicina cearense. “Era um exemplo para o Brasil”.
Antero Coelho Neto nasceu em 11 de junho de 1931, era formado em Medicina pela UFC na turma de 1957 e tinha especialização em cirurgia geral, com pós-doutorado na Universidade de Harvard. Foi representante da Organização Pan-Americana da Saúde na Colômbia e Venezuela, reitor da Unifor e vice-diretor da Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade de Brasília.
Fonte: O Povo, de 19/01/16. Cotidiano. p.4.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

RUAS DE FORTALEZA: revirando o passado

Pelo noticiário da mídia local, a principal ocupação dos nossos edis é a concessão de medalhas e títulos de cidadania de Fortaleza. Por certo que o segundo passatempo da Câmara Municipal de Fortaleza deve ser o de apresentar projeto de lei denominando ruas e logradouros da capital, com nomes de pessoas falecidas, já que, para a tristeza dos nossos vereadores, a lei proíbe dar o nome de quem está vivo a equipamentos públicos.
Desse modo, para consolo dos proponentes, resta a opção de render homenagem a um seu parente ou de fazer média com um potencial eleitorado, composto por familiares de um cidadão fenecido há pouco tempo. Para isso, não importa o quanto o extinto foi bom para a nossa gente; vale mais ganhar as simpatias dos parentes do novel laureado.
Vultos de nossa história, se esquecidos, permanecerão nessa condição, porque não contam com descendentes que os tornem lembrados e visíveis aos olhos daqueles que têm o poder de propor a perpetuação dos seus nomes nas placas indicativas dos lugares.
Mesmo sendo um mau uso do tempo de nossas lideranças municipais, elas ainda cometem desatinos, como o de subtrair um trecho de uma artéria, com nome consagrado, para homenagear outrem, caso da Av. José Jatahy, oriunda do sequestro de parte da Av. José Bastos, ou de alterar o nome de uma rua, permutando o personagem nela dignificado, e isso ao arrepio da vontade dos residentes na área.
O Povo, de 3/6/12, trouxe à cena a indignação das pessoas, ante a substituição das placas que identificavam uma rua do bairro de Fátima. Como quem descobre um santo para cobrir outro, a Câmara Municipal de Fortaleza, em observância ao Projeto de Decreto Legislativo 87/09, trocou o nome da Rua Martinho Rodrigues por Rua Maestro Mozart Brandão, sem consulta aos moradores do logradouro, e em franco de respeito à memória do homenageado anterior.
Verbetado entre as figuras mais ilustres da história do Ceará, Martinho Rodrigues de Souza foi advogado, jornalista e político de oposição, tendo sido deputado federal, com importante participação na Constituição de 1891; homem honesto, trabalhador e abolicionista dos mais atuantes no Ceará.
O nome do maestro Mozart Brandão, com lastro nos seus reconhecidos valores, como arranjador, compositor e pianista, pode ser aplicado em outra rua, sem usurpar a reverência a terceiros, e jamais sem desmerecer um dos mais importantes personagens da nossa história.
Marcelo Gurgel Carlos da Silva
Médico e economista
* Publicado In: O Povo. Fortaleza, 22 de junho de 2012. Caderno A (Opinião). p.7.

quinta-feira, 10 de março de 2011

ÓTIMO EXEMPLO PARA OS POLÍTICOS BRASILEIROS

O DEPUTADO federal José Antônio Reguffe , do PDT de Brasília, que foi proporcionalmente o mais bem votado do país com 266.465 votos, com 18,95% dos votos válidos do Distrito Federal, estreou na Câmara dos Deputados fazendo barulho. De uma tacada só, protocolou vários ofícios na Diretoria-Geral da Casa.
ABRIU MÃO dos salários extras que os parlamentares possuem – eles recebem 14° e 15° salários e muita gente nem sabe - , reduziu sua verba de gabinete e o número de assessores a que teria direito, de 25 para apenas 9. E tudo em caráter irrevogável: nem se ele quiser poderá voltar atrás. Além disso, reduziu em mais de 80% a cota interna do gabinete, o chamado “cotão”. Dos R$ 23.030 a que teria direito por mês, reduziu para apenas R$ 4.600.
SEGUNDO os ofícios abriu mão, também, de toda verba indenizatória, de toda cota de passagens aéreas e do auxílio-moradia, tudo também em caráter irrevogável. Sozinho, vai economizar aos cofres públicos mais de R$ 2,3 milhões nos quatro anos de mandato. Se os outros 512 deputados seguissem o seu exemplo, a economia aos cofres públicos seria superior a R$ 1,2 bilhão.
“A TESE que defendo e que pratico é a de que um mandato parlamentar pode ser de qualidade custando bem menos para o contribuinte do que custa hoje. Esses gastos excessivos são um desrespeito ao contribuinte. Estou fazendo a minha parte e honrando o compromisso que assumi com meus eleitores”, afirmou Reguffe em discurso no plenário.
É O CASO de se cantarolar aquela antiga e bonita canção, “Se todos fossem iguais a você...”

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

LEI INEBRIANTE

Fala-se que quando a Medicina erra, mata-se no varejo; porém, quando erra a Economia, liquida-se no atacado. A segunda assertiva vem bem a propósito do projeto de lei, ora em tramitação na Assembléia Legislativa do Ceará, que estipula uma drástica redução do ICMS incidente sobre bebidas alcoólicas, ditas “quentes”, de origem importada.
O governo estadual apregoa um pequeno rol de vantagens, como a criação de um pólo de distribuição de bebidas na região Nordeste, servindo isso para se contrapor ao oligopólio distribuidor de uns poucos estados do Sul e do Sudeste, e até conjectura cifras, dos milhões que o estado vai arrecadar em tributos, atraindo distribuidores, e da geração de parcos 1.200 postos de trabalho.
O controvertido projeto suscitou uma série de protestos de entidades médicas e de profissionais da área da saúde e encontrou forte resistência de deputados médicos e, inusitadamente, cindiu a sólida base de apoio ao governo, negando-se, simplesmente, a homologar a vontade emanada do poder executivo estadual.
A polêmica lei está na contramão da tendência mundial de sobretaxar produtos nocivos à saúde humana, como cigarros e bebidas alcoólicas, para inibir o consumo, diante dos malefícios que trazem aos usuários, e à sociedade, em função da forte externalidade negativa associada ao uso desses produtos.
A questão não é apenas de trazer à baila os sabidos e graves efeitos do consumo do álcool, mas mesmo no plano econômico-financeiro, tão caro aos brios dos gestores, uma apurada análise de custo-benefício demonstraria uma conta desfavorável ao erário, dissipando-se os eventuais ganhos arrecadatórios iniciais em sobejos gastos, a médio e longo prazo, em outros setores.
É um acinte à inteligência dos cearenses crer que as bebidas importadas não serão consumidas aqui e uma desconsideração aos brasileiros de outros estados a Terra da Luz tornar-se um indutor de alcoolismo.
Marcelo Gurgel Carlos da Silva
Médico e economista

* Publicado In: Jornal O Povo. Fortaleza, 2 de dezembro de 2010. Caderno A (Opinião). p.6.

sábado, 27 de novembro de 2010

POR UMA CULTURA DE PAZ

José Maria Pontes
Presidente do Sindicato dos Médicos do Estado do Ceará

O governo estadual enviou uma mensagem para a Assembleia Legislativa reduzindo para 12% a alíquota do ICMS para as bebidas importadas como: whisky, vodka, gim e outras. Segundo o deputado Mauro Filho, o Estado do Ceará para competir com Santa Catarina e São Paulo, que têm respectivamente alíquotas de 3% e 7%, também tem que baixar para mais arrecadar. Respeito muito o deputado como economista, porém ele tem uma visão técnica do problema, onde o que interessa são os números.
Eu, como médico, tenho uma visão mais humanística dos problemas e de suas soluções. Esta competição de quem tem um imposto mais baixo para mais arrecadar não me interessa. Segundo Mauro Filho, essas bebidas serão destinadas às outras unidades da Federação e não vão baixar o preço no nosso mercado, não aumentando assim os danos causados pelo álcool no nosso Estado. Pergunto: onde essa bebida for consumida, Maranhão, Piauí, Bahia ou qualquer outro estado, não estará o álcool elevando os danos para as áreas de segurança pública, de saúde e social?
Os danos do álcool são muitos, todos já estudados e passam pelo aumento da violência urbana, nas estradas e doméstica; pelo aumento do número de afogamento, suicídio, separação entre casais, quedas e outros tipos de violências. O alcoolismo como doença tem desfeito muitas famílias e vem aumentando em muito a procura aos nossos hospitais psiquiátrico e de trauma. Hoje, o álcool é o maior problema de saúde pública em nosso País e é também a porta de entrada para as outras drogas.
A literatura nacional e mesmo mundial prega como a melhor estratégia para reduzir os danos causados pelo álcool o aumento da sua taxação. Os médicos e os profissionais que trabalham a problemática do álcool têm repudiado esta mensagem que reduz imposto das bebidas importadas, pois a vida não tem preço.
Uma cultura de paz é o que desejamos para o nosso País.
* Publicado, em O Povo, no Caderno Opinião, do dia 26/11/10.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

ESCRAVIDÃO DE BEBIDAS

Regina Stella Elias
Psicóloga e mestre em Saúde Pública pela Uece
Há uma ameaça grave entre nós. Setores que lucram com as bebidas alcoólicas estão querendo usar os portos e a localização estratégica do Ceará para fazer entrar no território brasileiro uísques e outras bebidas importadas a custo mínimo.
O Governo do Ceará sinaliza a intenção de facilitar essa invasão alcoólica com a redução do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS). O projeto tramita na Assembleia Legislativa. A ilusão dos defensores dessa proposta é que a chegada de bebidas em grande volume traria um aumento da arrecadação do Estado.
Muita gente encara o consumo de bebidas alcoólicas com tanta naturalidade que nem se dá conta dos perigos e danos que ela acarreta. Só percebe o lado bom e lucrativo da questão.
Há mais de 100 anos, a escravidão dos negros também era encarada com naturalidade. Fazia parte da cultura e do cotidiano. Pessoas tidas como inteligentes lucravam com a servidão, sem se preocupar com o sofrimento decorrente.
Partiu do Ceará a histórica iniciativa de romper com o pacto da escravidão. Um corajoso cearense, “Chico da Matilde”, líder dos jangadeiros na época, decidiu que, pelos portos cearenses, não mais seriam transportados escravos, por mais dinheiro que isso representasse. Pelo seu ato de bravura ficou conhecido como “Dragão do Mar” e o Ceará, um dos primeiros Estados a abolir a escravidão, passou a ser considerado “Terra da Luz”.
O desafio de hoje é muito parecido. Querem usar nossos portos para fazer adentrar, em imenso volume, bebidas que escravizam muita gente; trazem doenças, violência, sofrimento e morte. Embora o álcool gere lucro para alguns, nada justifica que nossos governantes se omitam diante das desgraças que seu abuso acarreta.
Pedimos ao nosso governador e aos nossos deputados que se inspirem na coragem de Dragão do Mar para romper com esta outra forma de escravidão que tenta também fazer uso de nossos portos. Cancelem, revoguem, repudiem a indecente proposta de reduzir os impostos das bebidas alcoólicas quentes importadas. Optem pela saúde , pela Vida, pela Luz.
* Publicado no caderno Opinião, do Jornal O Povo, dia 25/11/2010.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

MENOS IMPOSTOS, MAIS SANGUE

Osmar Diógenes Parente
Psicólogo e especialista em Dependência Química

Tenho certeza, caro governador, da sua competência e criatividade. Reflita um pouquinho mais a respeito de sua “brilhante ideia” de diminuir de 33% para 7% a alíquota de imposto de bebidas quentes. Ao retirar essa proposta da Assembleia Legislativa, vossa excelência poupa nossos deputados de serem cúmplices de tamanha violência às nossas famílias.
O Ceará é o lugar onde mais se faz uso de álcool no Brasil. Adolescentes já iniciam o hábito de beber antes dos 14/15 anos.
Governador, é triste conviver com o sofrimento de pais e familiares de alcoolistas. A bebida, por ser a “porta de entrada” para as drogas ilícitas, é a droga mais perversa que existe. Destrói os vínculos familiares, tira a paz e a alegria de muitas vidas.
Pesquisas comprovam que 75% dos leitos hospitalares públicos são ocupados, nos finais de semana, por conta do uso abusivo de álcool e outras drogas. Vale a pena diminuir esse imposto de 33% para 7%? Será que os custos governamentais com saúde não serão maiores do que se estima arrecadar com esse projeto?
Acredito que podemos fazer mais e mais por nossa juventude, por nossos filhos, netos e amigos. Não podemos concordar com essa medida de diminuição de impostos para as bebidas alcoólicas. Isso poderá se tornar um grande estímulo ao consumo abusivo do álcool.
O correto seria dificultar o acesso ao álcool por nossos jovens, fiscalizar os supermercados e as lojas de conveniência dos postos de gasolina da cidade que continuam vendendo bebidas alcoólicas nas noites e madrugadas.
Sei senhor governador que estou representando, pelo menos, 15% da sociedade que padece, desamparada, com o gravíssimo problema do alcoolismo e da dependência química de drogas ilícitas. Fica, portanto, meu apelo, a minha sugestão e a minha indignação.
* Publicado, em O Povo, no Caderno Opinião, do dia 23/10/10.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

OS RISCOS DO ENEM

O Jornal O Povo publicou, em 1º/07/10, um artigo de opinião, pondo em xeque a adesão de universidades públicas sediadas no Ceará ao ENEM. Naquele momento, UFC e da UVA, entregaram-se, bovinamente, aos caprichos do MEC, cancelando os seus vestibulares, e cedendo todas as suas vagas para ingressos de novos alunos ao SiSU. Posteriormente, a UVA reavaliou a sua posição, retirando o seu apoio.
A UECE e a URCA resistiram, soberanamente, ao assédio federal, assegurando a manutenção de seus vestibulares. Ambas instituições atuaram com serenidade, rejeitando a pronta adoção de uma empreitada de alto risco, detentora de complicada logística, com evidentes pontos frágeis capazes de suscitar sérios problemas operacionais e jurídicos.
As provas do ENEM, conduzidas pelo INEP, foram aplicadas nos dias 6 e 7/11/10, para mais de quatro milhões de candidatos em todo o País, dos quais 208 mil no Ceará, um contingente localmente explicado pela sujeição integral da UFC ao certame.
Infelizmente, esse exame que, no ano passado, foi abortado, antes de sua aplicação, por conta do vazamento de questões, revelou agora, só tardiamente, a sua vulnerabilidade, desta feita no decorrer da aplicação, embora fossem falhas relativas à montagem e à impressão das provas.
Com efeito, dos quatro cadernos de resposta, uma parcela das provas do caderno amarelo exibia aberrações, a exemplo de: as questões 21 e 23 eram iguais; não havia as questões 30 e 31; e dupla numeração da 34 e da 35. Essas falhas, somadas ao erro na identificação do teor no gabarito, podem ter induzido distorção no preenchimento das respostas em inúmeros concorrentes. A gravidade é majorada porque os transtornos não foram comuns a todos cadernos de provas, sendo verificado apenas em uma fração de um deles, o que torna inviável efetuar compensação quando da correção dos gabaritos.
Anular as provas do sábado é uma medida dolorosa; mas, corretiva.
Marcelo Gurgel Carlos da Silva
Professor titular da UECE

* Publicado In: Jornal O Povo. Fortaleza, 9 de novembro de 2010. Caderno A (Opinião). p.6.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

ICMS E ALCOOLISMO

Regina Elias
Psicóloga e Mestre em Saúde Pública

O Secretário da Fazenda anunciou na imprensa a intenção de baixar a alíquota do ICMS de vários produtos, entre eles as bebidas quentes importadas. Isso implicaria tornar mais barato o uísque, a vodca, alguns vinhos, etc.
Baratear um produto representa incentivar o seu consumo, ampliar o lucro dos setores correspondentes e fortalecer a cadeia comercial a ele relacionada.
Para o desenvolvimento do Estado é fundamental que diversos setores sejam alavancados, que vários produtos tenham isenção ou redução de impostos. Setores alimentícios, educacionais, tecnológicos, artigos esportivos, de cozinha, de móveis, de construção, entre outros, merecem este incentivo.
Mas nem todo produto deve ter seu consumo facilitado pelo governo. As bebidas alcoólicas, embora gerem lucro para alguns, proporcionam doenças graves, desencadeiam inúmeros acidentes e agressões, desestruturam inúmeras famílias, prejudicam o desempenho profissional, escolar e social de centenas de pessoas, aniquilam a dignidade de milhares de usuários.
O álcool não é um produto qualquer. É uma droga, um produto tóxico, que produz dependência química e pode matar a curto, médio e longo prazo. Não convém ter seu consumo favorecido pelo poder público. Pelo contrário. Em função do rastro de desgraça que o alcoolismo produz, o governo deve assumir políticas claras para restringir o seu consumo, dificultar o acesso dos adolescentes; esclarecer a população sobre os inúmeros danos que ele provoca. Deve proibir a propaganda ou qualquer forma de incentivo; fiscalizar e monitorar sua venda para que seja feita com critérios rigorosos de responsabilidade.
Cabe ao governo proporcionar ao povo a oportunidade de viver longe das drogas promovendo o esporte, a arte, a educação e a cultura. Cabe ao poder público mostrar que é possível se divertir e ser feliz sem bebidas alcoólicas. Fazer florescer a vida saudável. Multiplicar os festivais de arte, de dança, as olimpíadas, os campeonatos. Incrementar a vida social baseada em pilares de saudáveis.
A redução do ICMS deve vir para produtos que promovam saúde, educação, esporte... Nunca se poderá admiti-la para qualquer produto nocivo e causador de mortes.
Publicado In: Jornal O Povo dia 19/10/2010. Caderno Opinião.

terça-feira, 8 de junho de 2010

FREI HUMBERTO WALLSCHLAG: um evangelizador social


Hubert Engelbert Wallschlag nasceu em Struecklingen, Diocese de Muenster, na Alemanha, no seio de uma família profundamente católica, em 24/10/1944, à época em que o seu país experimentava as agruras do final da II Guerra Mundial, tendo feito ali, muito cedo, sua opção religiosa aos 21 anos de idade. Frei Humberto entrou na Ordem dos Frades Menores no dia 9 de maio de 1965, fez a Profissão Solene, em Salvador, no dia 2 de fevereiro de 1972 e na data de 1º de maio de 1973, foi ordenado sacerdote na Igreja Conventual de São Francisco na dita cidade.
Seus estudos maiores ocorreram aqui no Brasil, tendo sido concluídos em Salvador, onde recebeu as ordens do diaconato e do presbiterato. Após essas credenciais, lançou-se, com afinco e desprendimento, nos trabalhos da vinha do Mestre Salvador. Como padre, trabalhou no Brasil (Ipojuca, Canindé e Fortaleza) e na Alemanha, por curto período.
Recém-admitido na ordem religiosa franciscana, Frei Humberto, ofm, quis trabalhar no Brasil, enfrentando dificuldade inicial para realizar esse intento, isso porque seus superiores da ordem franciscana tinham ciência da sua saúde fragilizada por um comprometimento renal, e temiam pelo agravamento de sua doença. Não obstante, aqui chegou ele, em 1966, vivendo em terras brasileiras durante 38 anos, a maior parte deles no Ceará, onde exerceu, por mais de onze anos, a função de pároco da igreja do Otávio Bonfim.
A saúde combalida, apesar do seu avantajado porte físico, levou-o a submeter-se a dois transplantes de rim, o que não o deixou subjugado, porquanto movido pela ânsia de sempre servir ao próximo, detendo um forte apego à vida, como se deduz da sua costumeira iniciativa, ao incitar os fiéis com os dizeres: Viva a Vida!
Alinhou-se Frei Humberto aos defensores da Teologia da Libertação, fazendo da opção preferencial pelos pobres o foco central de sua atuação pastoral, condição essa demonstrada pelo empenho em lidar com as pessoas mais desvalidas e os grupos de excluídos da sociedade. Homem e cidadão de arraigada concepção ideológica, em favor dos marginalizados sociais, devotava especial atenção aos camponeses, especialmente àqueles despojados de terra, engajando-se entre os mais ardorosos apologistas do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), cujo símbolo gostava de ostentar sobre a cabeça, combinando as dimensões política e religiosa de sua ação pastoral.
Foi com enorme pesar que as comunidades paroquianas da Igreja Nossa Senhora das Dores, em Fortaleza, e da Igreja de S. Francisco de Canindé, da qual também foi pároco, por largos anos, no Ceará, tomaram conhecimento da morte de Hubert Engelbert Wallschlag (Frei Humberto, ofm).
Ao ensejo da sua morte, ocorrida em Fortaleza, em 05.06.2005, dia dedicado a S. Bonifácio, viram-se na orfandade as diversas pastorais por ele fomentadas, além das dezenas de crianças carentes da Creche Nossa Senhora Medianeira, por ele muito amadas e pelas quais tanto lutou.
Calara-se, enfim, uma voz, tantas vezes levantada em defesa dos oprimidos, das crianças mirradas que perambulavam pela Rua Larga e que eram acolhidas, com amor e carinho, na creche mantida pela paróquia, no Bairro do Otávio Bonfim.
Não quis a Medicina que o Frei Humberto sobrevivesse a um câncer de pele agressivo, que se disseminou, e foi responsável pela poda de sua vida, quando ainda era muito grande a messe a ceifar. Vale ressaltar que no enfrentamento das dificuldades, causadas por sua doença, Frei Humberto revelou um estoicismo próprio dos mártires, aceitando o sofrimento, sem contestação, como quem sabe estar cumprindo um desígnio do mesmo Deus que o mandara levar Sua palavra às ruas, às travessas e aos becos tortuosos do Morro do Ouro e adjacências, onde era comum encontrar alguém disposto a ouvi-lo e a cantar, com ele, hinos de louvor à Maria e ao seu filho bem-amado.
Com o seu passamento, Frei Humberto virou uma saudade, ao mesmo tempo em que o seu espírito de luz prosseguiu brilhando no bairro, na cidade, e em todas as vielas por onde ele andou, e deixou as pegadas do seu fazer, profundamente cristão.
Significativas honrarias foram rendidas, por ocasião das missas de corpo presente e de sétimo dia, celebradas em Fortaleza e em Canindé, na intenção do eterno repouso da sua boníssima alma, sendo de se ressaltar a grandiosidade do cortejo que o acompanhou à última morada, em Canindé. O convento de Nossa Senhora das Dores também criou um nicho, nos moldes de um memorial, para preservar alguns dos seus apetrechos, usados no intenso trabalho pastoral, reveladores de sua consciência cristã e cidadã.
Em homenagem póstuma prestada a Frei Humberto, a Prefeitura de Fortaleza reconheceu os méritos de sua ação, em prol dos desvalidos sociais, dando seu nome a uma Unidade de Saúde localizada em área central vizinha ao Bairro do Otávio Bonfim.
Prof. Marcelo Gurgel Carlos da Silva
* Publicado In: Força viva, 15 (156): 6, 2010. (Informativo da Paróquia Nossa Senhora das Dores, em Fortaleza-Ceará).

quinta-feira, 1 de abril de 2010

BRASIL, O FILHO DO LULA

A pungente história de um nordestino que, tangido pelas adversidades, migra, com sua família, para São Paulo, em busca de melhores condições de vida e de um trabalho digno para poder sobreviver, não parece mais comover as pessoas, mesmo que o personagem tenha alcançado os píncaros da glória.
A despeito do drama repetitivo virar um lugar comum, com uma trajetória de sucesso, igual a de tantos outros, indivíduos que gravitam na órbita governamental prospectaram a realização de uma película, beirando ao épico, narrando a sofrida odisséia de um líder sindical, com intenções que vão desde arrecadar dinheiro para aliviar a contabilidade negativa da produtora cinematográfica até o uso eleitoreiro do filme, de certa forma disfarçado, para, subliminarmente, ganhar eleitores, na corrida presidencial que se avizinha, “colando” à imagem do herói e salvífico presidente, a da sua pretensa sucessora que, obviamente, não foi contaminada por seu carisma pessoal.
Com um orçamento monumental, de fazer inveja a um Cecil B. de Mille, dos velhos tempos, advindo, em grande parte, de dotações repassadas por estatais e por grandes empresas e construtoras que prestam serviços ao governo, cuja generosidade não é muito digna de confiança, a fita não tem lá muito valor cultural, capaz de merecer os incentivos fiscais da Cultura, salvo pela razão de realçar o culto à personalidade do “imortal, grandioso e puro” filho de D. Lindu.
Em que pese o elenco contar com a participação de consagrados astros e estrelas globais, que serviriam de atrativo ao público, além da vasta publicidade em torno do filme, incluindo os noticiários televisivos e o uso em massa de outros veículos da mídia, a delirante previsão de doze milhões de espectadores, para as primeiras semanas de exibição, cogitada antes do lançamento, revelou-se um retumbante vexame de bilheteria, quando atingiu menos de 600.000 pessoas, isto é, inferior a 5% do estimado, parte disso resultante dos descontos nos bilhetes propiciados pelos sindicatos e pela militância partidária.
Uma das leituras feitas para explicar esse fiasco, segundo a Revista Época, de 25/01/10 (p.48-9), deve-se ao fato não só de o filme ser fraco, na opinião quase unânime da crítica, mas em virtude de a polêmica política ter afastado o público-alvo, comprometendo a lógica do mercado cinematográfico. De fato, o cidadão comum não está acostumado a pagar para assistir à propaganda eleitoral gratuita, muito menos se precisar sair de casa para tanto.
Como há muito dinheiro investido em um empreendimento desse tipo, deve ser efetuado um esforço descomunal para capturar a audiência, a exemplo de substituir o vale-cultura por ingresso específico desse filme, ou de oferecer uma lata de leite em pó a quem entrar no cinema, e, talvez, uma cesta básica, à saída, para os que aguentarem o melodramático épico brasileiro.
Convém fazer um reparo no título, alterando de “Lula, o filho do Brasil” para “Brasil, o filho do Lula”, já que este país, e tudo de bom que nele existe, começou em 2003; antes disso, era a nossa pré-história, que se distingue em duas eras: a pré-cabralina e a pré-inaciana.
Marcelo Gurgel Carlos da Silva
Médico e economista
* Publicado, com redução, In: Jornal O Povo. Fortaleza, 01de março de 2010. Caderno A (Opinião). p.6.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

PRAÇA ROGÉRIO FRÓES: do abandono à recuperação

Para muitos, é gratificante morar nas vizinhanças de uma praça, um recinto público, aberto, arejado e acessível a qualquer cidadão. Na nossa situação particular, essa alegria era posta de lado, até pouco tempo, devido ao abandono em que se via mergulhada a Praça Rogério Fróes, vítima do desleixo do poder público municipal, sem nada fazer para reparar os danos provocados pela ação do tempo e também praticados pelo vandalismo humano.
A praça de que se fala foi concluída há cerca de dez anos, na gestão do Prefeito Juraci Magalhães, seguindo um cuidadoso projeto urbanístico, com o natural esmero de manter as frondosas árvores nela fincadas, muitas das quais frutíferas. O logradouro foi “contemplado” com passeios pavimentados em pedras portuguesas, uma polêmica marca de piso da administração anterior, sendo ainda provido de quadra de esportes e parque infantil, além de vários bancos de madeira, de diferentes tamanhos, com suporte em ferro forjado, distribuídos em pontos mais sombreados.
A degradação praticada pela mão humana, na Praça Rogério Fróes, nunca foi causada pelos residentes em suas imediações, mas por pessoas procedentes de outras zonas de Fortaleza, que não satisfeitas em pegar do chão os pomos maduros, ofertados pela mãe natureza, ficavam a sacar as pedras portuguesas, para arremessá-las nas copas das árvores, com o objetivo de derrubar os frutos ainda imaturos; e note-se que até traves e cercas de arame da quadra esportiva haviam sido surrupiados por larápios da pior espécie, deixando os furos imensos nos enferrujados alambrados. À luz do dia, “amigos do alheio” conseguiram carregar, para local ignorado, a maior parte dos bancos originais; os brinquedos do parque infantil, tão festejados pela meninada, foram também alcançados por esse espírito destruidor, deles sobrando apenas, boas lembranças.
A atuação do poder público, nesse espaço aberto aos munícipes, restringia-se a uma eventual e esporádica capinação, com efeitos dissipados ao curso de uma semana, tempo suficiente para que o mato e outras ervas daninhas voltassem a crescer, reassumindo os seus domínios, como que a demarcar a predominância dessa vegetação. As grandes árvores não recebiam o menor cuidado, exceto pela intervenção, de quando em vez, da Coelce, cujos agentes podavam os galhos pendidos na fiação elétrica. Aliás, foi por conta mesmo da ação do tempo, associada com a omissão pública, que algumas das maiores árvores tombaram, tendo a PMF, após notificação, comparecido ao local para completar o processo de derrubada de mangueiras, cajueiros e coqueiros, sem repor, posteriormente, o que fora perdido.
Para não dizer que o caos era definitivo, apenas subsistia, na parte central da praça, um Oratório da Mãe Rainha, erguido, há mais ou menos seis anos, pelos católicos do Setor V, da Paróquia de São Vicente de Paulo, destinado à feitura de orações comunitárias, dando a impressão de que ainda havia ali uma réstia de esperança, capaz de inibir assaltos e a tomada de posse do logradouro por marginais, já que o policiamento na área, de responsabilidade estadual, era inexistente, o mesmo acontecendo com a vigilância patrimonial, tutelada pelo município.
Com relação aos agravos a esse espaço tão bucólico, privilegiado pela própria natureza, com o milagre da vida vegetal, várias foram as tentativas dos moradores de suas cercanias, no intuito de sensibilizar as autoridades municipais, para os problemas que vinham se acumulando e que na verdade, dependiam só de uma decisão política para serem sanados.
As palavras não foram lançadas ao vento. As queixas foram escutadas, e o gestor Rogério Pinheiro, atento aos clamores dos suplicantes, envidou todos os esforços para garantir, mais do que uma mera recuperação, uma verdadeira reforma da praça, o que foi concretizada no correr de 2008, tornando-se ele o grande artífice da tão almejada obra. Já na fase de conclusão, os moradores se articularam em seguidas reuniões, culminando esse monumental trabalho de mobilização, na fundação da Associação dos Amigos e Moradores da Praça Rogério Fróes – a “Amoramigos” – cuja primeira diretoria foi empossada, após escrutínio, em dezembro de 2008. Esteio desde a primeira hora, o Dr. Monteiro, sócio-diretor do Hospital São Carlos, desdobrou-se em ofertar condições de infraestrutura para o funcionamento da dita associação. Dezenas de moradores, individualmente, concordaram em pagar taxas para manutenção da praça e os condomínios residenciais das proximidades, oficializaram uma taxa coletiva em suas despesas mensais, o que prova que os demandantes levam o mérito de não só terem exposto a ferida, mas de agirem no sentido de curá-la.
A praça, não é nenhuma novidade, é um bem público, disponível a qualquer cidadão, pouco importando se ele resida ou não nas suas vizinhanças; tanto é assim que ganhou notoriedade nos versos do poeta baiano Antônio de Castro Alves: “a praça é de todos, como o céu é do condor”. Hoje em dia, já não se fala desse modo, posto que o espaço azul perdeu o domínio para os aviões, grandes e pequenos.
É sempre bom rememorar, Senhora Prefeita, que a área verde, da cobertura vegetal da praça, encravada no bairro Dionísio Torres, gera externalidades positivas, como contenção de águas pluviais, diminuição da temperatura ambiente, emissão de ar mais respirável, responsáveis pelo ingresso de benefícios, em um alargado raio de ação, a todos os indivíduos que transitam pelos quatros grandes corredores de atividade econômica, expressos nas avenidas Pontes Vieira, Antônio Sales, Desembargador Moreira e Virgílio Távora, independentemente da procedência ou da residência das pessoas.
Nesses tempos de agora, quando tanto se fala de meio-ambiente, quando se discute em Copenhague os efeitos das mudanças no clima, em parte atreladas ao efeito estufa, só merece louvor o empenho de quantos se bateram e se batem pela preservação dos ambientes públicos, a exemplo da Praça Rogério Fróes, que ora está sendo cuidada pelos que se usufruem do vento que lá circula, livremente, do som melodioso dos pássaros que lá fazem morada, dos frutos que caem das árvores, com a maior naturalidade, do passeio sobre pedras portuguesas, todo recuperado, a permitir boas caminhadas, artérias oxigenadas e menores problemas para o coração.
Marcelo Gurgel Carlos da Silva
Médico e economista em Fortaleza

* Publicado In: Jornal O Povo. Fortaleza, 13 de fevereiro de 2010. Jornal do Leitor. p.3.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

LAVANDERIA NA VARANDA

Tenho sido favorável às decisões do Governo do Ceará. O Centro de Convenções me sugere um excelente investimento para a cidade, além de estar bem localizado, e de ser um projeto de arquitetura e paisagismo belíssimo. Até mesmo o polemizado aquário na Praia de Iracema, onde nasci, conta com a minha simpatia. Como nosso maior urbanista, Lucio Costa, compreendo o ponto de vista dos que entendem que a cidade prescinde de símbolos, e seja despojada de qualquer vislumbre de grandeza, em favor de uma plenitude administrativa. Mas, como ele, acredito que, "imanente ou transcendente, há uma intrínseca grandeza no homem e na sua obra, ainda quando aparente a sua negação". A ideia do aquário é perfeita para uma cidade como Fortaleza, que tem no mar uma de suas marcas mais fortes e bonitas. O mar é o monumento nato de Fortaleza. A orla é a maior riqueza do Ceará, pertence ao seu povo, e deve ser cuidada com minúcia e rigor, dentro de concepções inovadoras, ecológicas e sustentáveis.
Claro, os governos precisam cumprir as metas sociais e cuidar de Fortaleza, tanto com a presença universal da administração, como em campanhas educativas para se criar espírito público e desvelo pela cidade, por parte de seus moradores. Mas é correto não esquecer a valorização de Fortaleza frente aos seus habitantes e a sua situação no mapa urbano mundial. O desafio da transformação tem preço, ela é arriscada, precisa ser feita com a maior sensibilidade, mas a sua alternativa é a desesperança, o isolamento e a estagnação. Vemos a experiência de Bilbao, pequena cidade espanhola que tomou expressão internacional a partir da construção de um museu em arquitetura ousada. Vemos o caso de Niterói, com a edificação de um pequenino museu sobre pedra, na orla, de extraordinária presença na cidade, que se tornou mais atraente e valiosa. E, bem pertinho, vemos a proposta amena e benéfica do Parque do Cocó. É até mesmo uma questão de autoestima, tema dos mais candentes por aqui.
Também concordo com a criação de um estaleiro, fonte de riquezas, de trabalho, e outros bens econômicos. Mas a localização do estaleiro em plena orla urbana, num dos pontos mais belos, é incompreensível. Parece-me a mesma atitude de alguém que possui um fabuloso apartamento, com vista para o mar, e resolve instalar a área de serviços na varanda. Basta um passeio pela orla de Santos, ou de Vitória, para constatarmos a destruição de uma possibilidade racional, humana, o desprezo pelo que vale e significa a paisagem na alma de uma cidade. Não apenas a paisagem, mas o preço da degradação urbana que se forma em torno dessas indústrias. Coisas do passado. Nenhuma administração pode se permitir mais esses equívocos. Basta passear pela orla do Rio, pela Barra, pela Lagoa, para ver o oposto, calçadas, jardins, playgrounds, bosques, quiosques, ciclovias... Barcelona, Londres, Paris, Sidney, Manaus, Belém, Boa Vista...
O estaleiro na orla urbana renega o próprio aquário construído para a ocupação de área nobre, em favor da cidade e da população, do mesmo modo como foi feito o belíssimo Dragão do Mar, que, sozinho, numa ilha entre abandonos, perde sua simbologia e força. O grande símbolo dessa ocupação das áreas nobres pelo interesse elevado, pela população, é uma guinada contra a utilização desses espaços como zona de deleite subalterno ou de violência consentida. A cidade, como diz Lucio Costa, é um ato deliberado de posse, de um gesto desbravador. O que se poderia esperar era o contrário, a retirada do porto de Mucuripe para local mais adequado, com todos os seus guindastes, contêineres, caminhões, óleo e fumaça, e que a orla prosseguisse em sua função.
Ali a aptidão é, juntamente com o Titanzinho, ser uma área de beleza e valores naturais, como é o aterro do Flamengo no Rio, artisticamente arborizada, com quadras para atividades esportivas, de brincadeiras infantis, celeiro de tartarugas e golfinhos, praia para pescaria e surfe, calçadas para passeios, lazer e reconforto para os moradores de Serviluz, escolas esportivas, o que está ditado pela sua ocupação espontânea.
Todo esse esforço, pago pela população e empreendido pelo poder público, deve tornar Fortaleza uma cidade moderna e corajosa, não mais uma capital de província, nem uma serva do interesse econômico, mas a tradução da ideia de prestígio e dignidade, associada à noção de coisa pública, acompanhando as preocupações do nosso tempo e as necessidades e sonhos de nosso povo.
Ana Miranda

* Crônica publicada In: O Povo, de 05/02/10. Caderno Vida & Arte. p.6.

Nota do Blog: Texto lúcido, construído com sensibilidade e racionalidade, e digno de ser reproduzido em outros meios de divulgação. A comparação ectópica, usada por Ana Miranda, que fundamenta o título da crônica-protesto, foi divinal.

sábado, 23 de janeiro de 2010

SEU COSTA: pedra angular de um jornal

José Raimundo de Albuquerque Costa, o Seu Costa, era acreano, nascido em Cruzeiro do Sul, em 20/01/1920, mas cearense de coração, pela família que constituiu e pelo trabalhado produtivo aqui desenvolvido durante mais de seis décadas, quando foi, inopinadamente, colhido pela morte em 02/04/2004.
Ele foi admitido em O Povo ainda menino, quando mal terminara a primeira década da sua existência, formando-se na escola do trabalho, tendo convivido, por longos anos, com os fundadores Demócrito Rocha e Paulo Sarazate. O Povo foi seu único emprego na vida, exercido em tempo integral e dedicação exclusiva, tendo, em certa fase da vida, morado em casa contígua ao prédio do então vespertino.
Na maturidade, com o certificado do 2º grau, via exames supletivos, inscreveu-se no vestibular para o Curso de Comunicação Social da UFC, obtendo facilmente a cobiçada aprovação. Foi aluno exemplar, por sua assiduidade, responsabilidade e rendimento acadêmico, atestado por suas altas notas.
Já diplomado e possuidor de larga experiência, tentou ingressar no corpo docente da UFC, prestando concurso para o Departamento de Comunicação Social, conquistando o primeiro lugar no certame, mas foi impedida a sua nomeação porque sua idade era superior ao limite etário para admissão no serviço público, o que foi uma irreparável perda para a universidade que deixou de contar com a valiosa experiência profissional do Seu Costa.
O seu fazer profissional pode ser aquilatado nas belas palavras do Pe. Antônio Vieira: “Costa construiu o seu espaço, à sua imagem e semelhança. Foi importante não pela pelas funções exercidas ou tarefas que executou, mas ele é que as enobreceu e valorizou pelo toque de sua genialidade criativa e das suas peculiaridades pessoais” e ratificado por. J.C. de Alencar Araripe, que assim pontuou: “Costa não tivera estudos especializados. Fora um autodidata. E, como tal, de contínuo ascendeu aos postos de comando. Não se limitava ao estrito cumprimento das suas obrigações rotineiras. Zeloso e criativo, adotava iniciativas arrojadas para a época.”.
Também do escritor e político Pe. Antônio Vieira, pode-se compreender a grandeza humana desse jornalista, que, se vivo fosse, estaria comemorando nesta semana os seus noventa anos: “Costa soube enriquecer-se humanamente, enriquecendo o jornal e os seus leitores. A vida para ele não foi só planejamento. Foi sempre uma execução. Sempre uma procura. Uma conquista. Um ultrapassar a si mesmo. Um perene desafio”.
Marcelo Gurgel Carlos da Silva
Da Academia Cearense de Medicina

* Publicado in: Jornal O Povo. Fortaleza, 23 de janeiro de 2010. Jornal do Leitor. p.3.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

PAVANA OU REQUIEM?

A brilhante jornalista Adísia Sá, em sua crônica de O Povo, de 12/01/10, intitulada “Pavana por uma cidade esquecida”, com poucas palavras, sumarizou bem o estado crônico de abandono a que se vê relegada a capital dos cearenses.
O descalabro da administração municipal se faz presente por sua absoluta ausência, quer pela inação, por suas raras iniciativas, quer por sua negligência, ao deixar campear abusos de toda ordem, independentemente de classes sociais ou bairros, que afrontam o Código de Obras e Posturas e a Lei Orgânica do Município de Fortaleza.
A bem da verdade, as intervenções públicas, além de serem em pequena monta, são descoordenadas, pontuais, e focadas na mídia, a exemplo do Réveillon, ou equivocadas, como é o caso do Hospital da Mulher, descabida prioridade que custará muitos milhões de reais ao combalido erário; o viés ideológico, por vezes, permeia ações demagógicas, como a homenagem rendida a Che no CUCA da Barra do Ceará, muito embora tenha virado ídolo da juventude rebelde, em uma determinada época, e, em outra, sido celebrizado no cinema.
A ombudsman emérita de O Povo cometeu apenas um deslize musical, ao usar o termo pavana, um tipo de música instrumental, oriunda de uma antiga e tradicional dança espanhola, nobre e lenta, de ritmo binário e quaternário, que gozou de grande popularidade entre os séculos XVI e XVII. A falha, compreensiva para quem não é musicólogo, pode ser naturalmente explicada pela peça Pavane pour une Infante Défunte (Pavana para uma Princesa Morta), obra do compositor francês Ravel, executada “ad nausea” no Brasil, ao ensejo do funeral de Tancredo Neves, em 1984, quando ganhou a conotação fúnebre.
Sinceramente, nossa cidade, pelo andar da carruagem, logo mais merecerá um “Requiem por uma cidade morta”.
Marcelo Gurgel Carlos da Silva
Médico e economista

* Publicado, com ajustes, in: Jornal O Povo, Fala Cidadão, de 13 de janeiro de 2010. p.7.

domingo, 10 de janeiro de 2010

82 ANOS DE O POVO

Neste janeiro de 2010, o Jornal O POVO, cria de Demócrito Rocha e que teve João Dummar por timoneiro, está chegando aos 82 anos de existência, um marco alentado e sem similar na mídia impressa do Ceará.
O POVO, nessas oito décadas, e sem solução de continuidade, tem-se conservado a serviço da informação, pautado na coerência, passando ao largo dos casuísmos, e sem incursionar na trilha da imprensa marrom, desnudada de valores éticos e morais, que tanto compromete o bom exercício do jornalismo profissional.
O POVO é palpitante na sua vertente editorial; agradável, na sua diagramação; verdadeiro, quando se enfileira na defesa dos seus mais caros postulados. É um veículo de comunicação que se mostra, integralmente, como uma grande crônica do cotidiano, trazendo à baila fatos que viram notícias e que chegam ao leitor, respaldadas na sua vasta credibilidade, como um dos melhores formadores de opinião no Nordeste.
Ademais, o fulgor dos jornalistas que redigem os seus vários cadernos concede um ar de maturidade e modernidade a esse instrumento de comunicação, cativando um amplo e fiel público, por sucessivas gerações.
O Jornal das Multidões é prova incontestável de que se pode fazer notícia com os seguintes atributos: isenção, decência, imparcialidade, inteligência, e criatividade. Para isso, basta seguir os passos legados por Demócrito, Dummar e Seu Costa, ícones do jornalismo cearense, os quais, ao lado de tantos colegas, conseguiram imprimir suas marcas no fabuloso universo da informação.
Que esses 82 anos sejam a continuidade de uma trajetória duradoura, escrita por pessoas inteligentes e imparciais. Vida longa ao jornal O POVO e congratulações aos que concorrem para sua eterna prosperidade.
Marcelo Gurgel Carlos da Silva
Da Academia Cearense de Medicina

* Publicado, com redução, sob o título O Jornal das Multidões, in: Jornal O Povo, Fala Cidadão, de 08 de janeiro de 2010. p.6.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

PAPA PIO XII E A ODONTOLOGIA

O jornal O Povo, de 25/10/09, na Seção Fala Cidadão, cedeu espaço para publicação do artigo “O Valor da Odontologia”, de autoria do cirurgião-dentista Raimundo Leopoldo Vitorino de Menezes, nosso contemporâneo dos bancos universitários e companheiro nas lides acadêmicas, como Representante Estudantil, na órbita do Centro de Ciências da Saúde, nos anos setenta.
A abertura do seu texto recorreu a uma citação que nos trouxe à mente as lembranças de adolescente, nos idos da década de sessenta, enfrentando a cadeira do competente e hábil Dr. Antônio das Chagas Bonfim, em seu consultório situado à Avenida João Pessoa, nas imediações do Colégio Juvenal de Carvalho.
Os dizeres em questão “Odontologia é uma profissão que requer daqueles que a exercem o senso estético de um artista, a destreza de um cirurgião, os conhecimentos científicos de um médico e a paciência de um monge” emolduravam um quadro, ostentado na parede, com orgulho profissional, e afixado em uma posição que se tornava uma leitura compulsória de todos os clientes do conhecido dentista de bairro, cuja memória deve ser reverenciada, mercê da sua dedicada atuação profissional.
O odontólogo Leopoldo Menezes, que tem se destacado como liderança incontestável da sua briosa classe, cometeu, no entanto, em seu escrito, apenas um equívoco, ao atribuir a autoria desses pensamentos ao professor Mário Chaves, um notável sanitarista brasileiro, quando, na verdade, os créditos autorais devem ser dirigidos à S.S., o papa Pio XII (1876-1958), que assim expressou o seu reconhecimento aos profissionais da Odontologia.
Marcelo Gurgel Carlos da Silva

* Publicado in: Jornal O Povo. Fortaleza, 28 de outubro de 2009. Caderno A (Opinião/ Fala Cidadão). p.7.

terça-feira, 7 de julho de 2009

MUSEÓLOGOS PARA O CEARÁ

Em 29/06/2009, em matéria veiculada no Caderno de Política, de O Povo, a senhora prefeita de Fortaleza anunciou a sua intenção de desapropriar o Marina Park Hotel, posicionado nas imediações da Santa Casa de Misericórdia, a fim de dotar nossa capital de uma área destinada ao Centro de Eventos da Capital. No conjunto de intenções está incluída também a negociação com o governo estadual de outras empreitadas, de sorte a compor um complexo cultural no centro, favorecendo a integração entre os lados leste e oeste da cidade.
O pacote de obras atrelado aos setores da Cultura e do Turismo, para Fortaleza, traz como principal iniciativa a construção do Museu Municipal de Fortaleza, no espaço ocupado pela Estação Ferroviária João Felipe, que serviria para a recuperação do nosso Centro Histórico.
A medida, não resta dúvida, é salutar, dada a pouca infra-estrutura de museus, no Ceará, caracterizada pelo modesto número e pela baixa concentração desses equipamentos culturais na capital. A ideia, no entanto, esbarra na extrema carência de pessoal qualificado para planejar, administrar e operar museus. Com efeito, são pouquíssimos os museólogos entre nós, mesmo porque também são raras as instituições formadoras, no país, que, por sua vez, não conseguem suprir o mercado, com uma quantidade de graduados capaz de atender à demanda potencial existente.
O Instituto Dragão do Mar de Arte e Cultura (IDMAC) bem que poderia exercer o papel catalisador, recorrendo a convênios ou outros instrumentos contratuais, para cooptar recursos humanos e materiais, ora alocados em várias entidades aqui sediadas, além de liderar a captação monetária no Ministério da Cultura, no intuito de privilegiar o Ceará com um curso de Museologia.
Uma proposta mais ousada é a de credenciar o IDMAC, perante o Conselho Estadual de Educação do Ceará, seguindo os moldes da Escola de Magistratura do Ceará, como centro de formação de promotores da cultura, tornando esse instituto um pólo irradiador da manifestação da cultura nordestina.
A construção anunciada pela Prefeita Luizianne somente terá sentido se for acompanhada dos mecanismos necessários ao provimento dos recursos humanos capacitados para a operação do prometido museu.
Prof. Dr. Marcelo Gurgel Carlos da Silva

* Publicado in: O Povo. Fortaleza, 6 de julho de 2009. Opinião. p.6.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

A RESIDÊNCIA MÉDICA E O “DOCTOR-BOOM” CEARENSES

O número de vagas nos vestibulares para os cursos de Medicina, sediados no Ceará, passou de 150, em 2000, para 370, ao cabo de três anos, com a chegada da Faculdade de Medicina de Juazeiro, das extensões da UFC em Barbalha e em Sobral, e do curso de Medicina da UECE.
Em 2006, sob o beneplácito do Ministério da Educação, foram autorizados os cursos médicos da Faculdade Christus, com 112 vagas, e da UNIFOR, com 120 vagas, de sorte que, a partir de 2012, sairão cerca de 600 médicos recém-graduados, retratando mais do que o quádruplo da média histórica de formados, anualmente, no Ceará.
Independente da entrada de novas escolas médicas no solo cearense, ora em fase de gestação, as cifras acima serão engrossadas com o aporte de mais 90 vagas, no âmbito da UFC, como decorrência do REUNI, via duplicação da oferta interiorana e implemento de dez vagas na capital, resultando em mais de setecentas vagas anuais nas escolas médicas.
Na virada do milênio, antes desse “doctor-boom”, a oferta da Residência Médica (RM), no Ceará, em programas autorizados pela Comissão Nacional de Residência Médica, era bastante para atender à demanda expressa na quantidade de concludentes da UFC, tomando por parâmetro a cobertura de 70% de graduados que desejavam RM, no País.
Ao longo desta década, esforços institucionais foram conduzidos no sentido de expandir e de diversificar a disponibilidade de vagas de RM, a exemplo do Hospital do Câncer / Instituto do Câncer do Ceará, que se tornou o terceiro maior pólo formador de oncologistas do Brasil; da Secretaria da Saúde do Estado do Ceará, com a adição de vagas aos programas existentes e a criação de novos programas, incluindo os do Hospital Waldemar Alcântara; da Secretaria da Saúde de Fortaleza, que pôs em marcha um ousado programa de RM em Medicina da Família e da Comunidade; e do empenho da FMJ e da UFC, em prol da interiorização da RM.
Essas iniciativas, se bem que importantes, foram eclipsadas, todavia, pelo vertiginoso incremento do total de médicos egressos no Ceará, e pela persistência de algumas distorções, qualitativas e quantitativas, configuradas na ausência ou na insuficiência de vagas em certos programas, e no excedente de vagas em programas especializados (especialidades clínicas e cirúrgicas), frente à limitada oferta nos programas que compõem seus respectivos pré-requisitos (Clínica Médica e Cirurgia Geral).
As instituições formadoras de médicos, no Ceará, notadamente as mais novas, surgidas recentemente, necessitam, igualmente, assumir o ônus de contribuir para a educação médica continuada dos seus egressos, como um imperativo da sua responsabilidade social, avalizando e qualificando as entidades hospitalares que lhes servem de apoio, ao ensino de graduação, a fim de que essas venham a se inserir como centros formadores de médicos residentes.
Marcelo Gurgel Carlos da Silva
Professor titular de Saúde Pública da UECE
* publicado in: Jornal O Povo, 25/01/09 Fato Médico, p.8.
 

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