sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Se o estado brasileiro fosse uma família, tinha quebrado e estaria na mão de um agiota


Uma “gestora eficiente”…
Por Rodrigo Constantino
“Os governos nunca quebram. Por causa disso, eles quebram as nações.” (Kennet Arrow)
Qualquer administrador das finanças do lar compreende que não é possível gastar mais do que ganha indefinidamente. O “superávit primário” nada mais é do que poupar uma parte das receitas para ter condições de pagar o custo da dívida acumulada nos anos anteriores.
O mínimo que se espera de um governo responsável é um saldo positivo primário, pois o certo mesmo seria um saldo final positivo, o que significaria que o governo consegue pagar todas as suas despesas, incluindo a de juros, e ainda amortizar um pouco do estoque de dívida.
No Brasil, curiosamente, nossas esquerdas rejeitam até mesmo a necessidade de um superávit primário. Ou seja, é como se acreditassem que o governo é muito diferente de uma família, e que pode simplesmente gastar mais do que arrecada como se não houvesse amanhã.
Em um aspecto ao menos o governo é diferente de uma família, ainda que seja apenas o administrador dos recursos públicos em nome de todas as famílias brasileiras: ele tem o poder de arrecadar impostos e de emitir dinheiro (um imposto disfarçado).
Quando uma família perdulária gasta sistematicamente mais do que ganha, mergulha no vermelho de forma perigosa, adere ao cheque especial e eventualmente cai na mão de um agiota. Paga juros altíssimos e corre o risco de ter que declarar falência e perder todos os seus bens remanescentes.
Mas quando o governo gasta cada vez mais, sem a contrapartida na receita, ele pode sempre emitir mais moeda e gerar inflação (como fez o governo Dilma), ou decretar aumento de impostos (como fez o governo Dilma). Ele não quebra como uma família; mas ele acaba quebrando a nação!
Digo tudo isso, claro, para chegar ao lamentável fato ocorrido em 2014, divulgado agora: tivemos o primeiro déficit fiscal primário desde 1997! As “pedaladas” do governo Dilma foram criando uma bola de neve que, ao ser parcialmente reconhecida no final de 2014, levou a esse rombo superior a R$ 30 bilhões no consolidado.
Só para refrescar a memória do leitor, o governo falava em superávit primário de R$ 100 bilhões no começo do ano, depois revisto para R$ 80 bilhões. Entregou um déficit de R$ 32 bilhões. Primário, ou seja, sem levar em conta o serviço da dívida que, como qualquer indivíduo bem sabe, também é despesa.
Em outras palavras, Dilma rasgou a Lei de Responsabilidade Fiscal, jogou no lixo o legado mais importante da era FHC. E para não ser punida legalmente pelo crime de responsabilidade, ainda mandou ao Congresso uma alteração na Lei das Diretrizes Orçamentárias no apagar das luzes do ano passado, para se livrar das consequências de seus atos irresponsáveis. Quem paga por seus erros somos nós, trabalhadores, consumidores e pagadores de impostos.
Agora o governo Dilma fala em um superávit de 1,2% do PIB para 2015. E quem acredita? Não basta colocar ministro novo com fama de “fiscalista” ortodoxo. O esforço fiscal necessário para essa reviravolta seria homérico, especialmente em uma economia em crise, sem crescimento. Dilma vai mesmo entregar o que promete agora? Como?
O certo seria cortar na carne, bilhões e bilhões de despesas inúteis do governo, que aumentaram exponencialmente nos últimos anos, sem contrapartida alguma na melhoria dos serviços públicos. Quando analisamos que a receita do governo subiu de R$ 991,1 bilhões em 2013 para R$ 1,01 trilhão em 2014, fica claro que o problema não é falta de receita.
O problema é excesso de gasto. As despesas saíram de R$ 914,1 bilhões em 2013 para R$ 1,03 trilhão em 2014. Estamos diante de um governo gastador, perdulário, irresponsável e incompetente (já que nada disso significou melhoria nos serviços públicos).
Mas sabemos que Joaquim Levy e a presidente Dilma desejam ir pelo caminho mais fácil e proteger todos aqueles pendurados em tetas estatais, jogando o fardo uma vez mais nas costas dos pagadores de impostos. O caminho escolhido será o aumento de impostos, prerrogativa que só os governos têm, não as famílias.
Outra medida que as famílias endividadas podem tomar quando as contas apertam é a venda de ativos. Aquele carro extra, talvez um relógio ou uma joia, quem sabe as ações que guardavam para o filho? O estado tem ativos também. Muitos, no caso brasileiro, pois a União é dona de centenas de empresas.
Logo, a privatização seria outra alternativa para reduzir o rombo fiscal e abater endividamento, que subiu bastante e ultrapassou 62% do PIB. Mas aqui o governo Dilma também fez grandes lambanças (e onde não fez?). A Petrobras, sem dúvida o principal ativo, foi destruída pela incompetência e roubalheira. O valor de suas ações despencou. A empresa perdeu mais de R$ 20 bilhões de valor de mercado em apenas 3 dias!
Somando tudo, eis o que temos: o governo Dilma rasgou a Lei de Responsabilidade Fiscal e entregou o primeiro déficit primário desde 1997, fez isso aumentando arrecadação, mas aumentando ainda mais despesas, produziu uma inflação elevada e crescente para financiar sua irresponsabilidade, expandiu a dívida do governo, e destruiu o valor dos ativos do estado. E é nela que alguns depositam a esperança de consertar essa trapalhada toda?
Fonte: Revista Veja; Blog Rodrigo-Constantino, de 31/01/2015.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Desaparecimento do 'Schindler sueco' ainda é um mistério 70 anos depois

Djursholm, Suède, 27 Jan 2015 (AFP) - Parentes de Raoul Wallenberg, o salvador de milhares de judeus húngaros que misteriosamente desapareceu nas mãos dos soviéticos depois da guerra, lembram, neste sábado, os 70 anos de sua morte, que ainda esperam esclarecer.
Cerca de 200 pessoas se reuniram para prestar homenagem a ele e a "todos aqueles que fizeram a diferença", declarou o presidente da Academia Raoul Wallenberg, Michael Wernstedt em um breve discurso.
"Nas últimas semanas, os eventos nos mostraram que é importante defender a democracia", acrescentou, convidando os participantes a acender uma vela "para todos aqueles que espalham a luz".
Raoul Wallenberg foi um desses Justos que trabalharam para salvar judeus do Holocausto. Em 1944, em Budapeste, ele distribuiu passaportes de proteção que identificava seus portadores como cidadãos suecos que aguardavam repatriamento.
Em 17 de janeiro de 1945, ele foi convocado ao quartel-general do Exército Vermelho e desapareceu em condições obscuras. Ele morreu oficialmente em uma prisão de Moscou durante o verão de 1947, aos 35 anos de idade, mas sua família e pesquisadores duvidam desta versão.
"Em 1957, as autoridades soviéticas asseguravam ter um único documento sobre Wallenberg, seu suposto atestado de óbito manuscrito. Após a queda da União Soviética, os russos apresentaram numerosos documentos relativos aos suecos, e hoje não há dúvida que nem todos foram produzidos", explica à AFP Ingrid Carlberg, que escreveu uma biografia exaustiva sobre Raoul.
"É possível descobrir a verdade", insiste Nina Lagergren, meia-irmã de Raoul Wallenberg.
Aos 93 anos, ela deseja saber a verdade. Em julho, ela participou em Washington de uma homenagem ao herói, tornado cidadão de honra americano em 1981.
"É necessário que a Rússia abra seus arquivos. Já se passaram 70 anos desde que desapareceu, sua irmã ainda está viva e à espera de uma resposta. É uma pena que a Rússia ainda esteja brincando de gato e rato", insiste Carlberg.
Um grupo de pesquisadores apresentou recentemente pistas inéditas, prova de que nem tudo foi dito.
Não se sabe as razões para a sua detenção e prisão, talvez por espionagem, e certeza sobre o momento de sua morte nunca foi estabelecida.
Para o governo sueco, o caso continua "completamente aberto". "Não esclarecemos tudo. Quando aparece um elemento interessante novo, nós o apresentamos aos russos", diz Hans Olsson, encarregado do assunto no ministério das Relações Exteriores.
Salvador de 100.000 pessoas A Suécia nunca esteve tão envolvida no caso. Por muito tempo, "o comportamento no ministério das Relações Exteriores e a falta de interesse eram realmente estranhas", afirma Lagergren.
Viva e elegante, ela cultiva uma memória muito lúcida de seu irmão, quase uma década mais velho.
"Nós (o seu irmão Guy von Dardel, falecido em 2009, e ela mesma) sempre o admiramos. Ele era extremamente divertido e amoroso."
Em seu charmoso apartamento no subúrbio de Estocolmo, Nina Lagergren dedicou uma sala inteira a "Raoul", onde reúne seus arquivos, muitos quadros e obras de arte.
Vivendo em Berlim no início do verão de 1944, ela foi a última pessoa da família a vê-lo vivo.
"Ele estava com pressa (de ir a Budapeste). Ele compreendia a gravidade de sua missão", lembra com carinho.
Enviado a Budapeste pela Comissão de Refugiados de Guerra, uma agência americana criada para salvar as vítimas civis dos nazistas, fornecendo documentos de identidade de países neutros, como a Suécia, ele colocou toda a sua energia e imaginação à serviço do resgate dos judeus de Budapeste.
De acordo com algumas estimativas, teria salvado até 100.000 pessoas.
"Em seus telegramas de poucas linhas, conseguíamos compreender a situação", sugere Lagergren.
Em 2001, ela participou da criação da Academia Raoul Wallenberg, que visa incentivar os jovens a "agir em favor da igualdade".
O compromisso do sueco fez "dele um símbolo de coragem cívica", analisa o porta-voz Johan Perwe, porta-voz do Fórum para a História Viva, uma agência que trabalha sobre o assunto, especialmente entre os jovens.
"Ao contrário da geração de nossos avós, e, provavelmente, uma depois dessa, que viveu com a falta, a minha geração pode usar Raoul como algo positivo, um exemplo e uma inspiração", resumiu a neta de Lagergren, Cecilia Ahlberg, muito ativa na Academia Raoul Wallenberg e que também deseja saber a verdade.
Fonte: AFP/ Notícias UOL, de 27/01/2015.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

CIRO, POR QUE TE CALAS?

Por Ricardo Alcântara (*)
Certas atitudes devem ser tomadas, mesmo quando é sabido seu efeito modesto. Do episódio recente – cancelamento da instalação de uma refinaria no Ceará – nada mais eloquente do que o silencio de alguns personagens. Ciro Gomes é um deles.
Ciro é, dos políticos cearenses, o de maior projeção. Lidera o grupo político de maior expressão no Ceará de hoje. Fizeram eleitos por ele e seus aliados o governador do estado e o prefeito da capital. No Ceará de hoje, se elege para o que bem quiser.
Sua força não decorre apenas do que mantém preso a seus cordões, mas também da boa expectativa que a população tem sobre ele. Uma liderança que resulta mais de seu esforço individual e de um senso de oportunidade que desconhece limites.
Poder. Ele é bom nisso. No Ceará, sua família entrou para o clube em meados da década de 70 e nunca mais se afastou: são 40 anos à sombra frondosa. No plano nacional, correu riscos calculados e deles sempre resultou acumulação de força.
Ciro sempre esteve comprometido com a causa da refinaria que, em plena atividade de sua cadeia produtiva, faria crescer em mais de 30% o PIB cearense. Cancelada a obra, cala-se a liderança estadual de maior peso e popularidade. Por que?
É sabido: um dos gargalos de produtividade da Petrobras está no número insuficiente de refinarias. E, ainda: a descentralização das unidades de refino ampliaria em muito a contribuição da empresa, estatal, ao desenvolvimento equilibrado do país.
Pois Ciro, que nunca economizou gramática para defender o que lhe convém, não fez, até este momento, nenhuma menção ao episódio. Se concorda, ou pelo menos compreende, as razões do governo federal, tenha a coragem de nos pedir paciência.
Mas não. Age como se a coisa não fosse com ele. Mas é: foi para eleger os seus (e os dela) que a presidente Dilma assegurou a obra em palanque, reiterando Lula. E os investimentos feitos pelo estado antes e durante o governo de seu irmão? Nada.
Que se dê, de barato, a omissão de seu irmão: Cid Gomes é ministro da Educação. Suas responsabilidades institucionais tornariam onerosa a confissão de seu desagrado. Discordo, por desproporção, do argumento, mas é real sua dificuldade.
Mas, e o Ciro? Seus desafetos aproveitam a injustificável omissão para acusá-lo de pagar com silêncio pelos proventos polpudos de seu novo emprego na CSN. Teriam colocado em sua boca (dizem) as coisas que tornam dóceis os críticos mais ferozes.
O fato é que desde 1982, quando pela primeira vez elegemos um governador pelo voto direto, nunca houvera tamanha demonstração de subalternidade das forças políticas estaduais às imposições discriminatórias dos que operam em Brasília.
Conclusão: se o Ceará não tem prestígio, seus caciques passam bem, obrigado!
(*) Jornalista e escritor. Publicado In: Pauta Livre.
Pauta Livre é cão sem dono. Se gostou, passe adiante.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

ELEIÇÃO ACADÊMICA, AS CRÍTICAS E O PRESENTE

Por João Soares Neto
No próximo dia 10 deste fevereiro, a Academia Cearense de Letras, a mais antiga das academias brasileiras, realizará sessão eleitoral para preencher a vaga aberta com a perda do grande poeta, ensaísta, professor e cidadão Artur Eduardo Benevides. São quatro os candidatos.
Esta introdução serve apenas para analisar artigo de Mário Sérgio Conti, jornalista e escritor, sob o título “Conformismo e coonestação”, publicado em 28 de novembro de 2014, em que critica a Academia Brasileira de Letras, a maior e a mais bem aquinhoada em nomes e prendas.
Ele começa dizendo: “A desimportância da Academia Brasileira de Letras emudeceria até Lobão (refere-se ao cantor, grifo meu). Ninguém liga para ela, exceto os 40 autoproclamados imortais. Que eles desfrutem em sossego do privilégio de se fantasiarem de fardão pela eternidade afora”.
Uma primeira observação: por que Mário Sergio Conti não emudeceu. Se ninguém liga para ela, qual o sentido e a razão de seu artigo tão candente?
Ele argui, em seguida: “A Academia é um clube cujos sócios, em graus variados de senectude, se reúnem para tomar chá e trocar dois dedos de prosa acerca de seus sublimes antecessores”. Não precisa ter lido Freud, Jung ou Melanie Klein, para ver réstias de ressentimento explícito em cada frase do articulista.
Ele continua: “É perda de tempo criticar a Academia. Não importa que ela sobreviva à sombra do Estado. Que jamais tenha emitido um sussurro contra a censura e os outros paus-de-arara na vida cultural”. E aduz: Que cultive a mediocridade literária (Nélida Pinõn, Murilo Melo Filho etc.) e a bajulação de poderosos (Fernando Henrique Cardoso, Marco Maciel etc.). Ninguém liga”.
Claro que alguém liga. Ele próprio, Conti, está ligando e dando cavaco. Qual a razão desse seu artigo grave?
Mais lá na frente, passo para evitar detalhes menores, ele se contradiz, ao afirmar: “A Academia só deixa de ser inócua quando nela entra um poeta de verdade. Isso é chato porque as más companhias têm influência e a instituição os diminui individualmente: todos os ratos são pardos no Petit Trianon” (nome da sede da ABL).
Ele está falando do poeta Ferreira Gullar e acrescenta texto do próprio vate maranhense: “A Academia já fez tudo para eu entrar lá, e eu digo: não. Jamais entrarei para a Academia... Como eu não tenho cabeça acadêmica, como não é a minha, não vou entrar lá”.
Parêntesis meu: Ferreira Gullar entrou na ABL em dezembro do ano passado.
Sem esquecer que havia elogiado Gullar (poeta de verdade, ele disse), mais a frente, muda de ideia e o ataca: “Nem sempre conseguiu o que buscava. Seus poemas são às vezes discursivos ou demagógicos; o credo stalinista o fez tropeçar; seus versos perderam voltagem com a passagem do tempo”. Em seguida, elogia: “O resultado final, porém, é largamente positivo. Pelo que sua poesia tem de inventividade formal e insubmissão”.
Como se vê, há um “morde e assopra” no escrito de Mário Sérgio Conti sobre a entrada na ABL de Ferreira Gullar, o autor, entre outros, do “Poema Sujo”.
Como afirmou Tchekhov, escritor russo: “De inveja fica-se estrábico”. Por outro lado, está claro que as academias brasileiras, sejam de letras, ciências e artes, precisam repensar seus desígnios. Mudar e evoluir, ter a coragem de ajustar-se ao tempo em que vivem, às mudanças definitivas dos processos anacrônicos de escolhas de novos candidatos (por que não um debate entre os candidatos? por que não uma prova de conteúdo?), dos seus modelos de gestão em que só o presidente faz tudo. Isto não é desrespeitar a tradição, mas ter coerência com o tempo em que se vive.
Sem menosprezar a tradição e os costumes, incorporar o que há de saudável e lógico nestes tempos em que antigo passa a ser tudo aquilo substituído pela voragem da inovação. A senectude, a que se refere Conti, não é a idade dos componentes, mas a permanência de métodos e ações que já não mais fazem sentido e pouco produzem resultados efetivos.
João Soares Neto é escritor e membro da Academia Cearense de Letras.
Sexta-feira, 06 de fevereiro de 2015 

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

COMISSÃO NACIONAL DA FARSA

Por Reinaldo Azevedo
A revisão da Lei da Anistia é uma aberração jurídica. Uma comissão oficial da verdade é, por definição, uma comissão da mentira oficial. Serve a causas políticas, a grupos ideológicos de pressão e à consolidação de mistificações convenientes. Só não serve aos fatos.
Ainda que a Lei 6.683, a da Anistia, fosse "autoanistia", seu fundamento foi incorporado pela Emenda Constitucional nº 26, que convocou a Constituinte. Está lá, com todas as letras, no parágrafo 1º do artigo 4º: "É concedida, igualmente, anistia aos autores de crimes políticos ou conexos (...)". Na proposta original, a anistia excluía os crimes de sangue. Foram as esquerdas que cobraram que ela fosse "ampla, geral e irrestrita". Sei porque eu fazia parte dos grupos de pressão.
Há mais. A Comissão Nacional da Verdade foi instituída por uma lei, igualmente aprovada pelo Congresso, a 12.528. Lê-se no artigo 6º: "Observadas as disposições da Lei nº 6.683, de 28 de agosto de 1979, a Comissão Nacional da Verdade poderá atuar (...)". Qualquer que fosse o trabalho da comissão, o pressuposto era a anistia.
Mais um pouco. O artigo 1º dessa lei estabelece que a comissão deve "examinar e esclarecer as graves violações de direitos humanos" praticadas de "18 de setembro de 1946 até a data da promulgação" da Constituição. Mas a turma se dedicou apenas aos crimes havidos a partir de 1964. A todos os crimes?
Não! Os humanistas decidiram que alguns cadáveres não merecem nem sepultura histórica. Os assassinatos cometidos por terroristas não ocuparam o tempo dos donos da verdade. Segundo eles, são 434 os mortos e desaparecidos. As 120 pessoas eliminadas pelo terrorismo viraram esqueletos descarnados também de memória. Como? Não são 120? Isso é papo de milico? Por que os valentes da comissão não investigaram?
Pais de família inocentes sumiram do mapa dos fatos. Contumazes assassinos, como Marighella e Lamarca, ocupam o panteão dos heróis. Esse relatório é um lixo moral. Mais uma vez, a turma mandou a lei à breca: o inciso 3º do artigo 3º determina que a comissão se ocupe de crimes cometidos também "na sociedade", não só nos aparelhos de Estado.
Como levar a sério uma "Comissão da Verdade" que não respeita nem o texto legal que a criou e que ignora que a Lei da Anistia, como condição da Constituinte, foi referendada por um Congresso eleito livremente? Como levar a sério uma "Comissão da Verdade" que elimina da história a verdade dos cadáveres que não interessam à causa?
De resto, há a decisão já tomada pelo Supremo, assegurando a higidez da Lei da Anistia. Segundo o ministro Luís Roberto Barroso, dado a alegorias de mão em matéria de constitucionalismo, o tribunal deve se debruçar de novo sobre a questão, depois que a Corte Interamericana de Direitos Humanos – certamente ignorando a aprovação da Emenda 26– censurou a Lei 6.683 porque seria "autoanistia". Eu não sabia que a Corte Interamericana é tribunal revisor do STF. Que besteira!
"Anistia" tem a mesma raiz de "amnésia". É, para fins políticos e penais, "esquecimento", o que não é sinônimo de "perdão", "absolvição" ou apagamento da memória narrativa. Para tanto, é preciso ter honestidade intelectual para contar a história dos mortos de modo a não servir aos interesses de vivaldinos. 
Reinaldo Azevedo, jornalista, é colunista da Folha e autor de um blog na revista 'Veja'. Escreveu, entre outros livros, 'Contra o Consenso' (ed. Barracuda), 'O País dos Petralhas' (ed. Record) e 'Máximas de um País Mínimo' (ed. Record). Escreve às sextas-feiras.

Fonte: Blog do autor e com reprodução em outros blogs.

domingo, 8 de fevereiro de 2015

Feijoada da Paróquia de N. Sra. dos Navegantes - 2015

A Paróquia de N. Sra. dos Navegantes realizou nas dependências do salão paroquial, hoje, dia 8/02/15,uma feijoada, com vistas à arrecadação de numerários para a construção da Igreja de São Francisco de Assis, no bairro Jacarecanga, em Fortaleza.
À convite do pároco Pe. Francisco Bezerra do Carmo, compareci a esse evento, oportunidade em que falei sobre a necessidade de mobilização das pessoas e de entes sociais, com o fito de angariar recursos para conclusão dos trabalhos, cuja cobertura desse templo está prestes a se iniciar católico, tão logo se complete o soerguimento de suas colunas de sustentação.
No momento, fiz a entrega do cheque correspondente à quarta coluna - a de São Filipe, que foi assumida por meus familiares. Outras três colunas foram bancadas por três colegas médicos da Turma José Carlos Ribeiro, formada pela UFC em 1977, cujos cheques foram por mim repassados, anteriormente, à paróquia.
Lá se encontravam centenas de paroquianos em clima festivo e de congraçamento.
Por uma feliz coincidência, o jornal O Povo, de hoje, deu à estampa o  nosso artigo sobre o sacro desafio à nossa Fortitudine, de conclamar aos munícipes que tomem parte no esforço de terminar essa obra religiosa.
Marcelo Gurgel Carlos da Silva
Médico integrante da SMSL

UM DESAFIO SACRO PARA FORTITUDINE

No final dos anos cinquenta do século passado, residentes do Jacarecanga e seus bairros adjacentes, em Fortaleza, estavam fortemente motivados para erguer um templo católico que pudesse substituir a Igreja de Nossa Senhora dos Navegantes, cujas pequenas dimensões impediam o acolhimento de tantos fiéis que a procuravam para o cumprimento de seus preceitos religiosos.

Sob o comando do então pároco, o Pe. Hélio Campos, com ampla arregimentação comunitária, em que se destacavam figuras de proa da sociedade local, como o empresário Francisco Filomeno Gomes e o político Gen. Cordeiro Neto, e de paroquianos engajados, a exemplo das catequistas da família Carlos da Silva (as irmãs Fransquinha, Eugênia, Maria e Rita), havia um esforço coletivo, mesclando campanhas para arrecadação de doações e outras promoções, do tipo quermesses, leilões e vendas de brindes variados, no afã de erigir essa nova igreja.
No limiar da década de 1960, como decorrência de uma combinação de razões, a obra, lamentavelmente, foi paralisada, frustrando o sonho de tantos devotos do “Poverello d’Assisi”, e dos muitos coestaduanos que portam o prenome Francisco.
Em novembro de 2005, e, portanto, passados quase dez anos, este articulista (M.G.C.S.) publicou um primeiro artigo tratando dessa questão, dando início a uma série de textos veiculados na mídia local e publicações pessoais, tendo por mote a imperativa determinação de se retomar a construção e levar a cabo a sua conclusão.
A chegada do jovem e entusiasta Pe. Francisco Bezerra do Carmo, em 2010, como administrador paroquial da Paróquia de São Francisco de Assis, trouxe um alento aos paroquianos, pois, por seu obstinado espírito empreendedor, assumiu o árduo e difícil encargo de concluir a sacrossanta edificação.
Para tanto, o Pe. Bezerra começou o seu trabalho com a desocupação do prédio, que abrigava moradores sem teto, conseguindo moradias decentes para as seis famílias que, indevidamente, nele se instalaram, dividindo a sacristia, uma área já coberta a longo tempo. Em seguida, tratou de resgatar as antigas plantas arquitetônicas, refazendo-as e incorporando os novos projetos, em consonância com a legislação municipal vigente.
Depois da fase de projetos, fez-se a avaliação da estrutura edificada, para identificar as partes comprometidas por ação das intempéries, ao largo de cinco décadas de franca exposição a agentes físicos e mecânicos, que mereceriam ser demolidas ou passíveis de recuperação. Finda essa avaliação, pôs-se, não apenas literalmente, a mão na massa que ora se encerra com a conclusão da estrutura, deixando-a pronta para receber a coberta da nave principal da igreja.
O material necessário para essa cobertura já foi adquirido, mas há uma premente carência de recursos financeiros para custear a mão de obra, cujos valores são particularmente altos em função dos crescentes custos da construção civil no Brasil.
Com o templo coberto, aumentam as possibilidades de realização dos ofícios litúrgicos, o que pode redundar em efeito-demonstração, fazendo com que mais fiéis acreditem na consecução dos trabalhos, e passem a contribuir de modo mais efetivo com numerários para cobrir as despesas da fase de acabamento.
Até então, expressiva parcela dos recursos aplicados foi fruto de doações particulares de pessoas amigas e de receita pública auferida da oferta de notas fiscais dos paroquianos e de devotos franciscanos de outras paróquias, cuja capilaridade bem reforça o compromisso social e religioso do povo fortalezense.
Esse gotejamento de recursos amealhados, ainda que continuado, arrastará a construção por demasiado tempo, o que não é nada interessante face à inflação dos custos da construção no Ceará, tal como sucede no restante do País, podendo redundar no encarecimento final da obra.
Para se contrapor a esses ditames de mercado, lança-se aqui o exequível desafio de buscar o apoio de entidades sediadas em nossa Fortitudine, que durante cerca de cinquenta anos conviveu com uma obra inacabada, espelhando a falsa sensação de descaso e lassidão da gente que habita a tão decantada loura desposada do Sol.
Entidades sociais, exemplificadas por associações empresariais ou de classes (Fecomércio, CIC, FIEC etc.), clubes de serviços (Lions, Rotary), fundações de direito privado (Fundação Beto Studart, Fundação Dias Macedo e outras) e agrupamentos religiosos (e.g. Sociedade Médica São Lucas e Encontro de Casais com Cristo) devem ser conclamadas a tomar parte nessa empreitada que poderá dotar a Fortaleza de um novo símbolo, representado pela pujante construção sacra, tendo a frente uma colossal estátua do santo protetor da Ecologia, com seus braços abertos a acolher os que transitam na avenida Leste-Oeste.
Marcelo Gurgel Carlos da Silva
Membro da Sociedade Médica São Lucas

 * Publicado, sob o título “Um desafio Fortitudine”, In: O Povo. Fortaleza, 8 de fevereiro de 2015. Espiritualidade. p.16.
 

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