quinta-feira, 19 de outubro de 2023

CAMINHOS DO CEARÁ: Dona Sé

Por Izabel Gurgel (*)

Vi primeiro o quarador de carimã. Um apuro a fina flor da mandioca puba tomando banho de sol no terreiro da Dona Sé. Depois vi Dona Sé.

Ela é da Mangabeira. Nasceu lá a 10 de março de 1950. De batismo, Sebastiana, filha de Maria Inácio Rodrigues e Raimundo Lourenço do Nascimento. Os nomes estão corretos, Claudinei?

A Mangabeira fica entre Marinheiros e a Praia da Baleia, digamos assim, perigando não dizer bem. Mas você acha fácil, fácil, perguntando em uma casa e outra, parando alguém no caminho.

A Lagoa da Mangabeira é um dos seres vivos do lugar. Um dos modos da água irrigar os sertões-mar de Itapipoca. Uma escuta mais sensível nos diria das lagoas Grande, do Mato, Humaitá nos caminhos líquidos de tantos nomes e percepções acumuladas em um tempo maior, mais vasto, do que o contável por nós. Tempo, sabemos sentindo, que sempre nos antecede e nos ultrapassa. A gente, você e eu, não mais do que uma dobra feita pelo vento na superfície da água.

Dona Sé mora na Copaba. Dá um google e você vai achar Cooperativa de Pesca Artesanal da Baleia. Virou nome próprio. Batiza uma área às margens do asfalto entre a sede do município e a praia. É sábado. Crianças brincam à frente das casas. Tem um pote de barro, com torneira, aboletado na árvore: "é pra lavar as mãos", diz Dona Sé, bem ao lado da base do churrasco do Junior, um dos sete filhos vivos dos oito do casal Sé e Zé Timbau. Ele levava no nome seu lugar de nascença. Conta o filho Claudinei, professor da escola do campo Nazaré Flor, no quase vizinho assentamento Maceió. Zé veio da praia de Tibau. Tem mais gente nas redondezas que veio das praias do Rio Grande do Norte.

Manhã de sábado é bem bom para passar na casa dela. Dona Sé faz bolo. Anunciação de café com fartura. Pé-de-moleque de carimã, grude transparente feito gelo, bolo de milho. Tudo estampado de côco tirado do pé. Tem mais cheiros: cravo, erva doce. Do terreiro ao quintal, deslocamento bonito de fazer, a gente vai enlaçada na conversa fiada. Bem fiada e tecida. Dona Sé conta e escuta de olho aceso, como o forno a lenha, nos fundos da casa. Tem galinha passeando. De laço de fita vermelha, Branquinho, filhote de carneiro, não sabe se fica com as crianças, brinca de ser cachorro ou segue a conversa.

Dona Sé floresce a cada corte no bolo. Desenha bem o talho do beiju. Faz o que faz como uma ponte entre mundos: "O povo mais novo diz 'vou levar para minha avó'''. A bem dizer, uma oração ao tempo. A carimã recém-nascida tomando sol é tratada com "o maior cuidado para não cair um cisco". Seca, conserva-se melhor na geladeira. "Aqui em casa é o sertão. É praia mas é o sertão", diz Dona Sé, entre uma oferenda e outra. A prosa, a manhã, o fogo e a faca, Dona Sé tudo conduz com maestria. É uma mestra de si.

(*) Jornalista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 17/09/23. Vida & Arte, p.2.

quarta-feira, 18 de outubro de 2023

Saúde mental e trabalho em debate científico e ético construtivo

Por José Jackson Coelho Sampaio (*)

Pesquisadores universitários, profissionais dos serviços de saúde e estudantes de graduação e pós-graduação estarão de 18 a 21 de outubro, no campus Itaperi da Universidade Estadual do Ceará (Uece), nesta cidade de Fortaleza, para avançar no debate científico sobre o trabalho, a organização social do trabalho, a saúde mental e o impacto do trabalho na saúde mental, com as formas que trabalho e saúde mental tomam neste início de século XXI, em decorrência de mudanças tecnológicas, desregulamentações do trabalho e pandemia de Covid-19.

O trabalho tem sido cuidado de forma ambígua no campo da saúde. Observe-se que a anamnese hipocrática foi modificada pela 1ª vez mais de dois milênios depois de concebida e para incluir a pergunta sobre trabalho, o que gerou o desdobramento dos conceitos de "acidente de trabalho" e de "insalubridade ocupacional", embora praticados de modo precário, e que apenas no final do século XX desdobrou "penosidade", que inclui a saúde mental, conceito ainda não operativo, mesmo estando na nossa Carta Magna de 1988.

Saúde mental também é naturalizada. Numa sociedade plenamente monetarizada qualquer trabalho é melhor que o desemprego e há que se ajustar sem protestos. Numa sociedade com abissais desigualdades e muitas fomes, o tema da saúde mental é vivido como um luxo e a doença mental é vivida como fraqueza ou como ruptura de uma norma moral cujo único responsável é o indivíduo.

Trabalho e saúde mental devem ser encarados em toda a complexidade de cada termo e da relação entre eles. O II Congresso Internacional e V Congresso das Américas sobre Fatores Psicossociais, Saúde Mental e Stress no Trabalho enfrentará este debate por meio de seis conferências presenciais e oito remotas, 14 minicursos presenciais e 21 remotos, 16 mesas redondas presenciais e seis remotas, e 286 trabalhos livres (oral e poster) remotos.

Grupos de pesquisa de Brasil, México, Argentina, Guatemala, Espanha e Portugal, membros da Red de Investigadores sobre Factores Psicosociales en el Trabajo (Rifapt) e pertencentes a universidades públicas, estarão representados. Espera-se construir acordos teóricos e práticos, para que o elo estabelecido entre trabalho e saúde mental seja equacionado e melhore a qualidade de vida de todos, os que estão trabalhando, os que se preparam para o trabalho e aqueles que já trabalharam.

Usando a subjetividade para modificar a natureza, o ser humano se descobre como se olhasse para um espelho alterado por processos sociais como os da alienação decorrente de especializações, colapso do valor e abstração dos produtos. Doenças e acidentes, desgastes somatopsíquicos e psicossomáticos, sensação de esgotamento, vazio existencial e sentimento de desumanização são formas de expressão mais profundas, muito além do que evocam as expressões inglesas "stress" e "burnout".

Convidamos a sociedade cearense para prestigiar o debate por meio do acompanhamento do que será produzido e divulgado, além de comparecer ao Cine Teatro São Luiz, às 19h de 18/10/23, na ocasião da abertura e da apresentação da Orquestra Sinfônica e do Coral, da Uece.

(*) Professor titular de Saúde Pública e ex-Reitor da Uece.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 11/10/2023. Opinião. p.21.

A ONCOLOGIA NA SANTA CASA DE FORTALEZA

Por Vladimir Spinelli Chagas (*)

Reconhecido o caráter pioneiro da Santa Casa da Misericórdia de Fortaleza, com inúmeros exemplos em que ela se antecipou na prestação de serviços de várias naturezas e sempre em benefício dos mais carentes, a Oncologia não poderia fugir dessa regra, sendo o mais antigo de Fortaleza, pelos quais passaram renomados nomes e durante muito tempo liderou o número de procedimentos no Ceará.

A equipe, antes dedicada a todos os tipos de procedimentos, evoluiu para a especialização, destacando-se Cabeça e Pescoço, Mastologia, Ginecologia, Abdômen, Proctologia e Oncologia Clínica, conduzidos por profissionais de alta competência e capacidade de trabalho.

Com a implantação de uma Residência Médica em Cirurgia de Cabeça e Pescoço, responsável pela formação de profissionais para o Estado e estados vizinhos, ocorreu outro formidável avanço, sendo atualmente reconhecida como uma das melhores do Ceará, em razão do alto nível de profissionais que por ela passam e passaram.

Para que chegasse a esse nível, o Serviço montou ambulatório próprio, proporcionando atendimentos diários para maior conforto dos pacientes e dentro do padrão de qualidade de que a Santa Casa é referência. Vale ressaltar a criação do Ambulatório da Dor, com uma equipe multiprofissional e interdisciplinar, em apoio aos pacientes com câncer.

Para além dos atendimentos e cirurgias, conta a Santa Casa com serviços de quimioterapia e mantém parcerias, para quando há a necessidade de radioterapia. No entanto, em breve também esse serviço será prestado diretamente, para o que está em fase final de construção o prédio que vai abrigar um acelerador linear, doado pelo governo federal. Neste caso, passará a Santa Casa a contar com o serviço completo na área de Oncologia.

Recentemente, apesar das dificuldades financeiras que sempre atravessaram as filantrópicas, dados os valores praticados pelo SUS, a Santa Casa incluiu em emenda parlamentar a ela destinada, recursos para apoiar ações da Secretaria de Saúde de Fortaleza na redução das filas existentes para tratamentos na especialidade de Oncologia. É a Santa Casa, salvando vidas desde 1861.

(*) Professor aposentado da Uece, membro da Academia Cearense de Administração (Acad) e conselheiro do CRA-CE. Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Fortaleza.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 11/09/23. Opinião, p.22.

terça-feira, 17 de outubro de 2023

Convite: EXPOSIÇÃO “HUMOR EM TEMPOS DE PANDEMIA”


José Luciano Sidney Marques, coronel médico aposentado, ilustre sócio da Sobrames/CE e membro da ACEMES, com apoio da GALERIA BENFICARTE do Shopping Benfica, convida para a abertura da sua Exposição, intitulada Humor em Tempos de Pandemia, evento que reúne quase meia centena de charges e ilustrações bem-humoradas de fatos ocorridos na vigência da Covid-19.

Os trabalhos expostos, engendrados pelo médico escritor, tiveram como ilustrador o artista plástico Benes.

A visitação é gratuita, durante o horário funcionamento do Shopping Benfica, e prosseguirá aberta nos dias seguintes, até 17 de novembro de 2023.

Local: Shopping Benfica / Térreo – Bairro Benfica.

Data: 17 de outubro de 2023 (terça-feira) Horário: 19h.

Traje: Esporte fino.

Marcelo Gurgel Carlos da Silva

Da Sobrames/CE e da ACEMES


NOVOS ARES NA UNIVERSIDADE

Por Sofia Lerche Vieira (*)

Dizia o filósofo Karl Jaspers, um dos ideólogos da universidade alemã, que a universidade é o lugar da "busca da verdade sem constrangimento". Por isso mesmo, a Carta Magna de 1988, também chamada de Constituição Cidadã, define que "as universidades gozam, na forma da lei, de autonomia didático-científica, administrativa e de gestão financeira e patrimonial e obedecerão ao princípio da indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão" (Art. 207).

Com estrutura complexa, em que a tomada de decisão é de caráter coletivo e a maioria das grandes decisões são votadas, a universidade requer lideranças estratégicas que saibam estar em sintonia com demandas incontáveis. De um lado, estão os desafios cotidianos inerentes à administração pública, cuja burocracia é imensa e requer permanente estado de alerta. De outro, é preciso preservar o foco naquilo que constitui a essência da universidade: a formação de recursos humanos, a produção do conhecimento, a devolução de resultados à sociedade, sob a forma de produtos que incluem a disseminação de saberes, serviços prestados à comunidade e outras atividades. Tudo isso requer determinação, paciência, sensibilidade e empatia. Sem esquecer o respeito aos tempos das diferentes atividades exercidas por esta instituição milenar que desde a Idade Média instiga a reflexão.

Custódio Almeida, em clima festivo empossado reitor da UFC, simboliza esse ethos. Graduado em Computação e filósofo, o professor tem larga experiência em gestão. Candidato mais votado em consulta realizada em 2019 e preterido pelo então presidente, soube absorver com elegância o gesto autoritário. Novamente o preferido na última escuta à comunidade universitária volta à cena sob aplausos, assumindo o lugar que lhe é de direito. Além disso, é auxiliado por uma equipe engajada e disposta a colaborar na construção de um projeto institucional de largo alcance. Que seja auspicioso o tempo sob sua liderança. Que a confiança se transforme em energia para bem cultivar este tesouro que é "a busca da verdade sem constrangimento". Que sejam de luz os dias que ora se iniciam!

(*) Professora do Programa de Pós-Graduação em Educação da Uece e consultora da FGV-RJ.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 11/09/23. Opinião, p.22.

segunda-feira, 16 de outubro de 2023

CANCELANDO O MARECHAL

Por Célia Perdigão (*)

Nunca se pensou antes em fazer um memorial que prestasse homenagem aos que batalharam pela abolição no Ceará. Ao que parece há uma imagem no jardim do Dragão do Mar no Centro do mesmo, um pequeno setor sobre escravidão no Museu do Ceará - fechado, um museu dos escravos em Redenção, ainda existente? E uma alegoria sobre o tema em uma pintura na ACL.

Porque não contribuir com algo de grande envergadura, salientando lutas e personagens sobre a temática abolicionista, com recursos atuais que nos transportem aquele mundo traumático e suas conquistas heroicas?

Por que anular ou semi anular a nossa história quando o mais adequado seria extrair do ex-presidente seus erros e possíveis acertos, compondo um espaço de reflexão sobre os acontecimentos que bem ou mal traduzem o que somos e o que não fomos capazes de ser?

Os espaços museológicos hoje são muito dinâmicos e possibilitam visitas mais reflexivas e atraentes.

Aqui no Ceará há uma verdadeira mania de remanejamento dos espaços sem respeitar suas essências. Cito por exemplo os "pier" da Beira Mar. Lugar essencialmente para leves caminhadas e apreciação do mar e imediações vai ser transformado em comércio.

Como é possível que o mar não se imponha como o principal componente do lugar?

Já arrastaram areia a um ponto de quase retirar o mar.

Como é possível uma Beira Mar sem mar? Só aqui pode acontecer isso.

O comércio e as construções são imperativos sobre tudo o mais.

Por que ninguém fala alto? Por que ninguém reclama?

Tenho certeza de que há muitas pessoas sensíveis e incomodadas. Por que não falam? Por que não fazem ver os que não percebem?

Estas pessoas que só pensam em mudanças inadequadas e comércio "partout" não viajam? Não leem? Não assistem programas do século XXl?

Há que acontecer alguma reação. Nesse passo o que restará do que temos de interessante? De memória? De história? De natureza? De belo? De inteligente?

Uma visão lúcida integraria o imóvel - abandonado - onde nasceu o único cearense que ocupou o posto maior da República.

Deixem o memorial do Castelo Branco em paz ou façam algo inteligente e belo na toada original.

(*) Arquiteta.  Especialista em história e conservação de monumentos antigos na França.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 14/09/23. Opinião, p.18.

PT, ideologia mais forte que o interesse da sociedade

Por Luiz Eduardo Girão (*)

O reitor da Universidade Federal do Ceará veio à público declarar que não está tendo condições de pagar os custos e as despesas dessa importantíssima Instituição, incluindo as bolsas dos estudantes, por causa do corte orçamentário de 332 milhões, feito pelo Governo Lula na área de educação. Tudo isso para tentar estancar o rombo nas contas públicas que já chegou a 45 bilhões de reais apenas nesse primeiro semestre, produto de um governo perdulário, que só em viagens internacionais via "Aero Janja" já torrou dos cofres públicos R$ 25 milhões com mega comitivas, diárias em hotéis de luxo etc.

Por ironia do destino, esses cortes atingiram também os municípios, ocasionando uma inédita paralisação dos prefeitos, a maior parte deles que "fizeram o L"….E essa irresponsabilidade começou antes mesmo da posse, ao aumentar o número de ministérios de 23 para 37. Mas não parou por aí; antes do nono mês, o governo Lula já alcançou a marca histórica de 38 ministérios. Uma extravagância sem precedentes.

Só para se ter uma ideia do devaneio, os Estados Unidos mantêm 15 ministérios e a Alemanha, 18, com alta eficácia em políticas públicas. Em sua sanha de cooptação jurássica com o dinheiro do pagador de impostos - o seu $ - o governo Lula toma uma decisão pra lá de contraditória: acabar com o programa das escolas cívico-militares, inspirada no sucesso dos colégios militares, referência nacional em qualidade educacional e principalmente na formação de valores éticos e morais.

Segundo relatório do próprio MEC essas escolas obtiveram uma redução de mais de 80% nos índices de violência e depredação do patrimônio público e alto rendimento de aprendizado. Por essas e outras, a maioria dos estados brasileiros optou por bancar esse modelo educacional com seus próprios recursos, para continuar com o programa, ofertando às famílias a liberdade de escolha sobre o modelo de educação querem para seus filhos.

O Ceará foi um dos poucos estados da Federação a recusar oferecer essa alternativa aos conterrâneos, apesar de seu baixo custo e crescente procura. Felizmente os municípios de Acopiara, Maracanaú e Juazeiro do Norte vão manter o programa, no "peito e na raça".

Fica a pergunta: o que o PT tem contra uma educação pautada pela disciplina, o respeito e a ordem? A incoerência do governo petista é tão gritante que o Ministro da Educação, aquele mesmo que nega o exitoso programa das escolas cívico militares que representam um sonho para milhares de cearenses, anuncia a sede do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) no Ceará. Ora bolas, em que mesmo é baseado esta aprendizagem avançada do ITA? Portanto, entendemos que a educação, sobretudo a baseada em valores humanos, é o único caminho possível para a construção de uma nação verdadeiramente desenvolvida e justa. Mas para isso, a ideologia partidária não pode influenciar em decisões técnicas voltadas para o interesse da população. Paz & bem.

(*) Empresário. Senador pelo Podemos/CE.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 7/09/23. Opinião, p.19.

 

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