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quinta-feira, 9 de julho de 2026

A ECONOMIA CHINESA É RESILIENTE MESMO COM CRISES GEOPOLÍTICAS

 Por José Nelson Bessa Maia (*)

O mundo passa por turbulência e incertezas devido a tensões geopolíticas levadas ao extremo pela agressão dos EUA e Israel ao Irã. Como consequência essa guerra levou a novo choque de energia, com forte elevação nos preços do petróleo e interrupções nos suprimentos. Os mercados financeiros oscilam devido a volatilidades nos preços dos ativos. Nesse contexto poucos países mantêm o crescimento e conseguem amortecer os choques externos.

A China tem sido capaz de preservar o crescimento a julgar pelos dados oficiais. O PIB da China cresceu 1,3% no 1º trimestre de 2026 ou 5% ano a ano, 0,5 ponto percentual mais rápido que o do quarto trimestre de 2025. A produção cresceu e a oferta acelerou-se, com a demanda em recuperação, o emprego se mantendo estável, com aumentos moderados nos preços e avanços nos segmentos da nova economia.

De fato, o produto industrial chinês cresceu 6,1% em base anual no 1º trimestre de 2026. Ritmo mais rápido do que no 4º trimestre de 2025. Em termos mensais, o produto industrial aumentou 0,28% em março. O produto da mineração subiu 6% em termos anuais entre janeiro e março, enquanto o da indústria de transformação cresceu 6,4%. O produto dos serviços de utilidade pública aumentou 4,3%. O produto da manufatura de alta tecnologia teve aumento de 12,5% no 1º trimestre, com participação no produto industrial atingindo 16,9%, e impulsionando o crescimento geral em dois pontos percentuais.

O investimento cresceu 1,7% no primeiro trimestre, revertendo queda de 3,8% em 2025, turbinado pelos gastos com infraestruturas e aceleração dos investimentos industriais, compensando a queda nos investimentos do setor imobiliário. No total, o consumo e o investimento responderam por 84,7% do crescimento do PIB no 1º trimestre, um aumento de quase 30 pontos em relação ao ano anterior, indicando mudança gradual, mas contínua no modelo de crescimento mais baseado no mercado interno e menos dependente do setor externo.

O desemprego urbano ficou em 5,3% no 1º trimestre de 2026, mantendo-se no nível do mesmo período do ano passado. Somente em março, o desemprego urbano ficou em 5,4%, 0,1 ponto percentual acima do mês anterior. A meta estabelecida para o desemprego urbano é de 5,5% em 2026 e projeta-se criar mais de 12 milhões de novos empregos urbanos em 2026.

Por fim, a China gera estabilidade num ambiente global de incerteza, apoiada em seu sistema estatal de planejamento central e a eficácia de suas políticas de longo prazo, sempre atentas às turbulências externas e à necessidade de ajustes a fatores adversos. A melhoria da confiança na China reflete-se nos fluxos de entrada de investimento direto estrangeiro, atraído pelo vigor de seu setor de Inteligência Artificial (IA) e o vasto e denso mercado interno como grandes atrativos. 

(*) Ex-secretário de Assuntos Internacionais do Governo do Ceará, mestre em Economia e doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (UnB) e, atualmente, consultor internacional.

Fonte: O Povo, de 8/06/26. Opinião. p.19.

quarta-feira, 10 de junho de 2026

A economia chinesa é resiliente mesmo com crises geopolíticas

Por José Nelson Bessa Maia (*)

O mundo passa por turbulência e incertezas devido a tensões geopolíticas levadas ao extremo pela agressão dos EUA e Israel ao Irã. Como consequência, essa guerra levou a novo choque de energia, com forte elevação nos preços do petróleo e interrupções nos suprimentos. Os mercados financeiros oscilam devido a volatilidades nos preços dos ativos. Nesse contexto poucos países mantêm o crescimento e conseguem amortecer os choques externos.

A China tem sido capaz de preservar o crescimento a julgar pelos dados oficiais. O PIB da China cresceu 1,3% no 1º trimestre de 2026 ou 5% ano a ano, 0,5 ponto percentual mais rápido que o do quarto trimestre de 2025. A produção cresceu e a oferta acelerou-se, com a demanda em recuperação, o emprego se mantendo estável, com aumentos moderados nos preços e avanços nos segmentos da nova economia.

De fato, o produto industrial chinês cresceu 6,1% em base anual no 1º trimestre de 2026. Ritmo mais rápido do que no 4º trimestre de 2025. Em termos mensais, o produto industrial aumentou 0,28% em março. O produto da mineração subiu 6% em termos anuais entre janeiro e março, enquanto o da indústria de transformação cresceu 6,4%. O produto dos serviços de utilidade pública aumentou 4,3%. O produto da manufatura de alta tecnologia teve aumento de 12,5% no 1º trimestre, com participação no produto industrial atingindo 16,9%, e impulsionando o crescimento geral em dois pontos percentuais.

O investimento cresceu 1,7% no primeiro trimestre, revertendo queda de 3,8% em 2025, turbinado pelos gastos com infraestruturas e aceleração dos investimentos industriais, compensando a queda nos investimentos do setor imobiliário. No total, o consumo e o investimento responderam por 84,7% do crescimento do PIB no 1º trimestre, um aumento de quase 30 pontos em relação ao ano anterior, indicando mudança gradual, mas contínua no modelo de crescimento mais baseado no mercado interno e menos dependente do setor externo.

O desemprego urbano ficou em 5,3% no 1º trimestre de 2026, mantendo-se no nível do mesmo período do ano passado. Somente em março, o desemprego urbano ficou em 5,4%, 0,1 ponto percentual acima do mês anterior. A meta estabelecida para o desemprego urbano é de 5,5% em 2026 e projeta-se criar mais de 12 milhões de novos empregos urbanos em 2026.

Por fim, a China gera estabilidade num ambiente global de incerteza, apoiada em seu sistema estatal de planejamento central e a eficácia de suas políticas de longo prazo, sempre atentas às turbulências externas e à necessidade de ajustes a fatores adversos. A melhoria da confiança na China reflete-se nos fluxos de entrada de investimento direto estrangeiro, atraído pelo vigor de seu setor de Inteligência Artificial (IA) e o vasto e denso mercado interno como grandes atrativos.

(*) Ex-secretário de Assuntos Internacionais do Governo do Ceará, mestre em Economia e doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (UnB) e, atualmente, consultor internacional.

Fonte: O Povo, de 10/05/26. Opinião. p.23.

segunda-feira, 23 de março de 2026

As relações do Ceará com a China dão uma virada

Por José Nelson Bessa Maia (*)

Já há tempos que alertávamos sobre falhas na inserção internacional do Ceará. Falhas essas não devidamente tratadas nos esforços de planejamento do estado e da iniciativa privada. Com isso o Ceará perdeu oportunidades para alavancar o crescimento, reduzir a pobreza e acelerar o bem-estar de sua gente.

No entanto, nos últimos 30 anos, muito se avançou na infraestrutura, na qualidade da educação e na disseminação de qualificações pelo interior, com a melhoria na escola pública e a descentralização do ensino superior, reduzindo, assim, a histórica macrocefalia de Fortaleza em termos de PIB e criando polos de dinamismo em diversas regiões do Estado. As bases para o desenvolvimento estão, pois, firmemente assentadas.

Afortunadamente, o Ceará está agora dando mais passos na diversificação de parcerias, reduzindo sua tradicional dependência aos EUA como mercado de destino de exportações (ainda quase 50% da pauta) e à Europa como fonte de investimentos. As relações do Ceará com a China, promovidas pela paradiplomacia do atual Governo do Estado, finalmente deslancham e têm tudo para trazer benefícios e oportunidades para o Ceará.

Segundo o Ipece, em 2025, nossas exportações para a China foram de US$ 86,4 milhões (aumento de 50,4%), o que coloca a China como o quinto maior mercado de destino, com 3,79% do total. No lado das importações, em que a China já é o maior fornecedor do Ceará, houve retração, registrando valor de US$ 880,2 milhões, mas mesmo assim perfazendo 32,2% do total importado. Com isso, nossa corrente de comércio com a China se encontra ao redor de US$ 1 bilhão, cifra razoável, mais ainda bem aquém do potencial.

No investimento, a presença chinesa já é expressiva. Nos últimos 60 anos, 400 empresas de capital chinês se instalaram no Ceará, a maioria desde 2010, com capital social de R$ 116,4 milhões e concentrada em pequenos negócios e 300 deles localizados em Fortaleza. No entanto, o quadro muda. O investimento chinês no Ceará está sendo ampliado com a implantação do Data Center da empresa ByteDance, controladora do TikTok, no Complexo do Pecém, em parceria com a Omnia e a Casa dos Ventos, cujo megainvestimento atingirá US$ 37 bilhões em 20 anos, 54% dos quais internalizados até 2035.

O investimento chinês será o maior da nossa história econômica, superando em 6,8 vezes o valor da Companhia Siderúrgica do Pecém (CSP). Como comparação, o PIB do Ceará foi de US$ 45,5 bilhões em 2024. Assistimos, pois, a uma virada. Parabéns ao governo estadual e às entidades empresariais (FIEC, FAEC) e agentes de fomento (Sebrae-CE, Universidades e outros) pela preparação do Ceará para receber investimentos globais em setores da Nova Economia e assim superar as limitações estruturais para expandir a formação bruta de capital fixo. Para frente, Ceará!

(*) Ex-secretário de Assuntos Internacionais do Governo do Ceará, mestre em Economia e doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (UnB) e, atualmente, consultor internacional.

Fonte: O Povo, de 15/02/26. Opinião. p.20.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Acordo Mercosul-União Europeia: um anteparo ao protecionismo americano e à concorrência chinesa

Por José Nelson Bessa Maia (*)

Após 26 anos de negociações, o Conselho da União Europeia finalmente aprovou há pouco o Acordo de Parceria Mercosul-União Europeia cuja assinatura ocorrerá em breve. Após aprovação parlamentar pelos membros da Comunidade Europeia e do Mercosul, o Acordo integrará dois dos maiores blocos econômicos do mundo, reunindo cerca de 720 milhões de habitantes, um território de 16,8 milhões de km2 e um PIB conjunto superior a US$ 22 trilhões, sendo 13,4% do total referentes ao Mercosul. Trata-se do maior acordo de livre comércio do mundo, partindo de um intercâmbio bilateral de US$ 130 bilhões em 2024.

Embora celebrado por governos, o acordo ainda enfrenta reações de agricultores europeus e ecologistas, que criticam possíveis repercussões sobre o clima e a suposta concorrência desleal em produtos agrícolas. A implantação de seus dispositivos será gradual e os efeitos práticos só serão sentidos nos próximos anos. Mesmo assim, em um ambiente internacional assolado pelo protecionismo americano e sua truculência diplomática, esse Acordo indica que o multilateralismo ainda não acabou e que os países e blocos de nações podem negociar de forma civilizada seus interesses na busca de remover entraves ao comércio internacional e facilitar transações econômicas entre países.

O recém-anunciado acordo tem imperfeições e deixa de contemplar adequadamente as vantagens comparativas e competitivas associadas aos recursos naturais da região sul-americana. Mesmo assim, é o acordo possível nas circunstâncias que se impuseram ao longo de um quarto de século de negociação. Sua eventual aprovação final pelos parlamentos será uma vitória estratégica para ambas os lados. Os principais ganhos, contudo, não residem apenas nos dispositivos comerciais do acordo, mas especialmente em seus impactos positivos esperados sobre o ambiente econômico, os fluxos interblocos de investimento estrangeiro e o estreitamento das relações produtivas entre Mercosul e União Europeia.

Acuada pela suposta e temida ameaça da Rússia na frente oriental, a agressiva política comercial dos EUA e pela forte concorrência dos produtos chineses em seus mercados, as lideranças da União Europeia não tiveram senão a opção de buscar agilizar os trâmites para a aprovação do acordo e mostrar aos seus dois grandes concorrentes que a União Europeia tem condições de ganhar novos mercados na América do Sul e reduzir sua crônica dependência dos parceiros americanos e chineses. Uma forma de atestar sua capacidade competitiva e a relevância e atratividade de suas economias em um mundo imerso na desordem e crescentemente fragmentado, mas ainda assim marcado por cadeias globais de valor integradas e sujeito a intensas transformações tecnológicas e geopolíticas.

(*) Ex-secretário de Assuntos Internacionais do Governo do Ceará, mestre em Economia e doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (UnB) e, atualmente, consultor internacional.

Fonte: O Povo, de 18/01/26. Opinião. p.22.


quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Breakneck e as lições para o Brasil

Por Lauro Chaves Neto (*)

"Breakneck: China's Quest to Engineer the Future", de Dan Wang, da Universidade de Stanford, na Califórnia, publicado em 2025, e considerado por parte da mídia mundial o livro do ano, apresenta a ideia central de que "os EUA são governados por advogados, enquanto a China é governada por engenheiros", enquanto os americanos priorizam o jurídico e o regulatório, os chineses colocam a engenharia e a execução prática no centro de sua estratégia nacional.

O livro destaca que a estratégia chinesa envolve uma visão articulada de futuro, na qual infraestrutura é sinônimo de influência geopolítica, segurança nacional e projeção global, combinando planejamento estatal, inovação tecnológica e diplomacia econômica, sem esquecer os lados negativos da engenharia social, incluindo a vigilância de minorias étnicas, a repressão política e os traumas da política do filho único e da Covid zero.

Em contraste, os EUA são governados por advogados que são realmente eficientes em bloquear as coisas, o que pode ser ruim e bom. Podem barrar ideias sem sentido, assim como reduzir a velocidade e aumentar o custo da economia.

O livro oferece lições relevantes para o Brasil ao mostrar como a China articula planejamento de longo prazo, coordenação institucional e investimentos estratégicos em infraestrutura. A principal lição é a importância de definir projetos estruturantes que sejam sustentados por políticas de Estado, não apenas de governo.

A experiência chinesa também revela o valor de integrar infraestrutura física, digital e energética, ampliando competitividade e conectividade regional, além de estimular inovação tecnológica com foco em produtividade.

O livro também alerta que infraestrutura só gera prosperidade quando integrada a políticas industriais, inovação e logística sustentável - caso contrário, transforma-se em ativo caro e subutilizado.

Por fim, ressalta que velocidade não substitui participação social, nem os princípios democráticos, isso significa a necessidade de ampliar diálogo com comunidades, setor produtivo e academia, garantindo que o desenvolvimento seja inclusivo e estratégico.

(*) Consultor, professor doutor da Uece e conselheiro do Conselho Federal de Economia.

Fonte: O Povo, de 5/01/26. Opinião. p.22.

segunda-feira, 18 de agosto de 2025

Choque do Tarifaço de Trump sobre o Ceará

Por José Nelson Bessa Maia (*)

O recente anúncio pelo presidente americano Donald Trump de taxação de 50% sobre as exportações brasileiras para os EUA por razões não econômicas, mas sim geopolíticas (BRICS) e de interferência em assuntos internos do Brasil gerou indignação e repúdio por parte dos diversos segmentos da opinião pública. Afinal, o Brasil é um país cronicamente deficitário em suas transações de comércio com os EUA e não se encaixaria no argumento comumente usado pela Administração americana para taxar com altas tarifas seus parceiros comerciais.

Em caso dos EUA não aceitarem rever a medida e o Brasil retaliar mesmo que de forma seletiva isso criará, além de perda de receita e empregos no setor exportador, uma pressão de custos sobre o agronegócio brasileiro que importa máquinas, equipamentos e óleo diesel dos EUA, gerando uma inflação adicional e uma perda de atividade no setor com efeitos em cadeia.

Trata-se, portanto, de um grave contencioso e que exigirá do Brasil muita habilidade negocial, jogo de cintura e, ao mesmo tempo, capacidade para abrir espaço em novos mercados de destino para os segmentos econômicos mais afetados pelo tarifaço.

No caso do Ceará, que depende mais do que o Brasil do mercado americano para suas exportações, os impactos serão relativamente mais fortes do que para o país como um todo. Os EUA são o principal mercado para nossas exportações, cerca de US$ 658,9 milhões em 2024 (44,8% naquele ano e 52,2% no primeiro semestre de 2025), mas tinham sofrido forte queda (-31,4%) em relação ao ano anterior. Assim, mesmo sem o aumento de tarifas, as vendas de produtos cearenses aos EUA já vinham em forte declínio, não compensado pelo aumento que se verificou nos seis primeiros meses deste ano.

Com a eventual imposição de 50% de tarifas, as receitas de exportação para o mercado americano terão uma queda ainda mais acentuada. Dado o peso dos produtos siderúrgicos (ferro fundido, ferro e aço) na pauta exportadora e a importância dos EUA (cerca de 80% das vendas externas desses produtos) como destino, o impacto sobre as receitas da Companhia Siderúrgica do Pecém (CSP) serão consideráveis.

Em face dos riscos que essa situação impõe para a economia cearense, cabe aos responsáveis locais pelas decisões, tanto no setor público quanto privado, articular com o Governo Federal uma estratégia de negociação com o Governo dos EUA que reveja o tarifaço ou minimize seus efeitos e, simultaneamente, procurar promover, via suporte da APEX-BRASIL, exportações em terceiros mercados, de modo a reduzir a dependência crônica em relação aos EUA.

Urge, portanto, uma ação rápida e pragmática para resguardar o nível de atividade e emprego no Complexo do Pecém e superar esse enorme choque externo contra a dinâmica de crescimento do Ceará.

(*) Mestre em Economia e doutor em Relações Internacionais pela UnB e ex-secretário de Assuntos Internacionais do governo do Ceará. Pesquisador independente das relações China-Brasil, China-Países Lusófonos e China-América Latina.

Fonte: O Povo, de 17/07/25. Opinião. p.21.

segunda-feira, 11 de agosto de 2025

As reformas financeiras chinesas e seu impacto global

Por José Nelson Bessa Maia (*)

A economia global encontra-se em meio a tensões protecionistas, conflitos geopolíticos no Oriente Médio e instabilidade financeira geradas pela nova gestão do presidente dos EUA, Donald Trump. Os riscos de colapso no comércio e no crescimento econômico exigem ações anticíclicas, de modo a impedir o caos e superar as turbulências. Nesse contexto desafiador é que a China adotou medidas financeiras para preservar o seu crescimento. As novas medidas constituem um esforço para estabilizar a conjuntura, oferecendo apoio aos setores mais vulneráveis e ajudando o país a enfrentar a persistente incerteza global.

Como tudo na China as medidas adotadas seguem um planejamento estatal abrangente e focado em resultados. As medidas financeiras em execução para estimular o crescimento refletem as diretrizes adotadas na sexta Conferência de Trabalho Financeira realizada ainda em outubro de 2023. A Conferência é uma reunião de mais alto nível do setor financeiro da China, e suas políticas na área de regulamentação têm enorme impacto sobre o desenvolvimento de longo prazo das finanças chinesas.

Na citada Conferência, o presidente chinês Xi Jinping expôs o seu pensamento sobre as reformas financeiras, introduzindo uma inovação na Economia Política Marxista em relação às questões financeiras e fornecendo diretrizes para promover o desenvolvimento do setor financeiro na nova conjuntura de desenvolvimento da China, orientando os órgãos governamentais a otimizar os serviços financeiros, promover a abertura financeira de alto padrão e impulsionar o processo de internacionalização da moeda chinesa.

A Conferência delineou oito propostas para o setor financeiro da China, dentre as quais: i) acelerar a modernização institucional do setor; ii) fornecer serviços de alta qualidade para o desenvolvimento; iii) promover a abertura financeira; iv) fortalecer a regulamentação financeira; v) prevenir e resolver riscos financeiros, e vi): aprimorar a gestão macroprudencial do financiamento imobiliário. Tais pontos visam a abrir o sistema financeiro do país, tornando-o mais eficiente, estável e vinculado ao mercado global.

Em suma, as reformas ajudam a integrar mais a China na economia mundial, facilitando o comércio e o investimento. Com a abertura de segmentos financeiros a investidores e a modernização do sistema, o país se torna um ator ainda mais confiável. Além disso, a internacionalização do yuan chinês oferecerá alternativa às moedas tradicionais nas operações comerciais e financeiras entre fronteiras, o que influenciará as dinâmicas econômicas. Tais mudanças também incentivam outros países do Sul Global a adotarem reformas similares, em especial no BRICS, reforçando, assim, a estabilidade e a integração no sistema financeiro global.

(*) Mestre em Economia e doutor em Relações Internacionais pela UnB e ex-secretário de Assuntos Internacionais do governo do Ceará. Pesquisador independente das relações China-Brasil, China-Países Lusófonos e China-América Latina.

Fonte: O Povo, de 6/07/25. Opinião. p.19.

terça-feira, 5 de agosto de 2025

As reformas financeiras chinesas e seu impacto global

Por José Nelson Bessa Maia (*)

A economia global encontra-se em meio a tensões protecionistas, conflitos geopolíticos no Oriente Médio e instabilidade financeira geradas pela nova gestão do presidente dos EUA, Donald Trump. Os riscos de colapso no comércio e no crescimento econômico exigem ações anticíclicas, de modo a impedir o caos e superar as turbulências. Nesse contexto desafiador é que a China adotou medidas financeiras para preservar o seu crescimento. As novas medidas constituem um esforço para estabilizar a conjuntura, oferecendo apoio aos setores mais vulneráveis e ajudando o país a enfrentar a persistente incerteza global.

Como tudo na China as medidas adotadas seguem um planejamento estatal abrangente e focado em resultados. As medidas financeiras em execução para estimular o crescimento refletem as diretrizes adotadas na sexta Conferência de Trabalho Financeira realizada ainda em outubro de 2023. A Conferência é uma reunião de mais alto nível do setor financeiro da China, e suas políticas na área de regulamentação têm enorme impacto sobre o desenvolvimento de longo prazo das finanças chinesas.

Na citada Conferência, o presidente chinês Xi Jinping expôs o seu pensamento sobre as reformas financeiras, introduzindo uma inovação na Economia Política Marxista em relação às questões financeiras e fornecendo diretrizes para promover o desenvolvimento do setor financeiro na nova conjuntura de desenvolvimento da China, orientando os órgãos governamentais a otimizar os serviços financeiros, promover a abertura financeira de alto padrão e impulsionar o processo de internacionalização da moeda chinesa.

A Conferência delineou oito propostas para o setor financeiro da China, dentre as quais: i) acelerar a modernização institucional do setor; ii) fornecer serviços de alta qualidade para o desenvolvimento; iii) promover a abertura financeira; iv) fortalecer a regulamentação financeira; v) prevenir e resolver riscos financeiros, e vi): aprimorar a gestão macroprudencial do financiamento imobiliário. Tais pontos visam a abrir o sistema financeiro do país, tornando-o mais eficiente, estável e vinculado ao mercado global.

Em suma, as reformas ajudam a integrar mais a China na economia mundial, facilitando o comércio e o investimento. Com a abertura de segmentos financeiros a investidores e a modernização do sistema, o país se torna um ator ainda mais confiável. Além disso, a internacionalização do yuan chinês oferecerá alternativa às moedas tradicionais nas operações comerciais e financeiras entre fronteiras, o que influenciará as dinâmicas econômicas. Tais mudanças também incentivam outros países do Sul Global a adotarem reformas similares, em especial no BRICS, reforçando, assim, a estabilidade e a integração no sistema financeiro global.

(*) Mestre em Economia e doutor em Relações Internacionais pela UnB e ex-secretário de Assuntos Internacionais do governo do Ceará. Pesquisador independente das relações China-Brasil, China-Países Lusófonos e China-América Latina.

Fonte: O Povo, de 6/07/25. Opinião. p.19.

segunda-feira, 14 de julho de 2025

A CHINA É FATOR DE ESTABILIDADE GLOBAL

Por José Nelson Bessa Maia (*)

No sistema internacional, o hegemon é um Estado que exerce liderança ou predominância sobre os demais, seja por meios militares, econômicos, políticos ou culturais. Suas responsabilidades principais envolvem tanto a manutenção dos bens públicos da ordem internacional quanto a promoção de regras e instituições que garantam estabilidade e previsibilidade.

No atual contexto de declínio do Império americano, os EUA no Governo Donald Trump perdem a sua posição de hegemon ao deixar de manter a ordem internacional e atuar para gerar instabilidade e incerteza na economia mundial. Ao contrário disso, a China exerce um papel cada vez mais significativo na preservação da estabilidade global. Contribui para o crescimento, ancora as cadeias de suprimentos globais e promove o desenvolvimento e a cooperação econômica em regiões menos desenvolvidas.

O forte foco da China na demanda interna a torna menos vulnerável a choques externos e mais confiável nas previsões econômicas globais. Um elemento fundamental dessa contribuição chinesa tem sido o seu sistema de planejamento estatal cujos planos quinquenais constituem um instrumento eficaz para o progresso econômico e social da China a médio e longo prazo. Traça seus objetivos gerais, as principais tarefas e a orientação de políticas do país em diferentes setores ao longo de períodos de cinco anos.

O sistema de planos quinquenais da China é um dos poucos grandes sistemas de planejamento no mundo mantido e executado com sucesso nos últimos 70 anos, demonstrando as vantagens únicas de seu sistema político. Desde o Primeiro Plano Quinquenal (1953-1957), estes planos não só orientaram o desenvolvimento transformador da China, como também evoluíram para ir ao encontro das condições e dos desafios de cada época. Os planos quinquenais refletem a visão chinesa de busca de harmonia e à sua ideia de pensar o longo prazo.

A formulação de um plano quinquenal combina a liderança do Comité Central do Partido Comunista da China (PCC) com uma ampla participação de base popular. Uma sessão plenária do Comité Central do PCC apresenta então suas propostas para o plano nacional. O Conselho de Estado, o órgão administrativo máximo do Estado chinês, elabora então um esboço do plano, que é então revisto e aprovado pelo órgão legislativo nacional da China, antes de ser oficialmente lançado e depois implementado.

O 14º Plano Quinquenal iniciado após a China ter atingido o objetivo de construir uma sociedade moderadamente próspera, centrou-se no desenvolvimento de alta qualidade. Não fixou uma meta explícita de crescimento do PIB, mas priorizou a transição verde, a autossuficiência tecnológica, a prosperidade comum, o desenvolvimento regional equilibrado, bem como a reformas mais profundas e a uma abertura econômica de alto padrão.

(*) Mestre em Economia e doutor em Relações Internacionais pela UnB e ex-secretário de Assuntos Internacionais do governo do Ceará. Pesquisador independente das relações China-Brasil, China-Países Lusófonos e China-América Latina.

Fonte: O Povo, de 8/06/25. Opinião. p.20.

quarta-feira, 2 de abril de 2025

TECNOFEUDALISMO

Por Tales de Sá Cavalcante (*)

No livro "Sobre a China", Henry Kissinger elogia Mao Tsé-Tung por ter ordenado seu exército a se manter "comedido e probo" em antiga guerra da China contra a Índia. A vitória sobre posições indianas gerou nova fronteira. Mao determinou a volta ao limite anterior e a devolução dos armamentos pesados retidos.

A China usou a força não para conquistar territórios, senão "para obrigar a Índia a voltar à mesa de negociações". A China de hoje faria o mesmo? E Putin? E Trump? A mídia nos diz que este deseja tomar a Groenlândia, o Canadá e capturar Gaza. E, sem garantir a proteção aos ataques russos, exigiu da Ucrânia US$ 500 bilhões em terras com minerais raros e 50% da renda gerada pela exploração desses recursos.

Em 2001, o consultor internacional Kenichi Ohmae lançou o livro "O Continente Invisível". Nele destacou a descoberta e a colonização dos continentes e o advento da internet, "o continente invisível", que, em seu dizer, seria colonizado, porém, com futuro imprevisível. Após 24 anos, Bolívar Torres, no "O Globo", comenta o compêndio "Tecnofeudalismo", de Yanis Varoufakis, ex-ministro das Finanças da Grécia, a ser lançado no Brasil em abril, em que o autor compara as big techs a senhores feudais e defende que o capitalismo morreu e foi substituído por algo pior.

Varoufakis afirma que os mercados teriam sido trocados "por plataformas de comércio digital que, na prática, operam como os antigos feudos. Os usuários digitais se tornariam 'servos', enquanto os detentores do capital tradicional [...] se limitariam ao papel de 'vassalos'. E o lucro, motor do capitalismo, teria sido substituído por seu antecessor feudal: a renda. [...] Os usuários não são clientes no sentido clássico, mas servos que geram dados e precisam dessas plataformas para acessar informações, trabalho e serviços essenciais".

Para Arthur Bezerra, também citado por Torres, a influência das big techs sobre Trump leva muitos a achar que Elon Musk é o "verdadeiro" chefe de Estado dos EUA. Será o tecnofeudalismo uma das respostas às indagações de Kenichi Ohmae sobre o continente invisível? O futuro dirá.

(*) Reitor do FB UNI e Dir. Superintendente da Org. Educ. Farias Brito. Presidente da Academia Cearense de Letras.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 6/03/25. Opinião, p.18.

quinta-feira, 20 de março de 2025

Aumento de Tarifas dos EUA contra a China Prejudica o Mundo

Por José Nelson Bessa Maia (*)

As relações entre a China e os EUA remontam a 1844, quando ambos firmaram o Tratado de Wanghia. Nos 180 anos seguintes, seu relacionamento oscilou entre fases de aproximação e afastamento.

Com a ascensão pacífica da China a partir de 1978 e seu rápido desenvolvimento os meios dirigentes dos EUA sentem-se incomodados com o risco de perda de sua hegemonia. Os Estados Unidos como a China se vêm então envolvidos numa competição que abrange os campos econômico, tecnológico e geopolítico, com impactos sobre a governança global.

Atualmente, China e EUA, apesar de sua interdependência produtiva e de serem as maiores economias e exportadores mundiais, não contribuem igualmente para a estabilidade e o dinamismo econômico do Planeta. Enquanto a China atua positivamente, os EUA se tornam cada vez mais protecionistas e menos cooperativos, afetando adversamente a economia internacional.

De fato, o novo governo dos EUA aplicou tarifa adicional de 10% sobre bens importados da China, sem uma razão plausível. Trata-se de imposição unilateral de tarifas que viola as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC). Uma medida que barra a tão necessária cooperação econômica entre a China e os EUA e ameaça as cadeias globais de suprimentos, com impactos adversos sobre a produção industrial e o comércio internacional.

A China reagiu com tarifa extra de 15% sobre carvão e GNL dos EUA e de 10% para petróleo bruto, equipamentos agrícolas e certos tipos de automóveis. Ademais, apresentou contestação na OMC pelas tarifas discriminatórias impostas pelos Estados Unidos sobre seus produtos e impôs controles de exportação a minérios estratégicos. No entanto, apesar da retaliação defensiva, a China mantém-se aberta ao diálogo para resolver esse impasse e normalizar suas relações comerciais com os EUA.8

A nova onda protecionista dos EUA não influenciará negativamente apenas o fluxo comercial e o crescimento das economias. Sua visão "neomercantilista" e abordagem truculenta afetará também os alinhamentos geopolíticos atuais. Mesmo países aliados perderão a confiança nos Estados Unidos como parceiro comercial. Isso poderá levar a uma reconfiguração de laços entre a Europa e a Ásia. As tarifas mais altas aumentarão a distância geopolítica no mapa do comércio global, ampliando o fosso diplomático entre os Estados Unidos e outros países.

(*) Mestre em Economia e doutor em Relações Internacionais pela UnB e ex-secretário de Assuntos Internacionais do governo do Ceará. Pesquisador independente das relações China-Brasil, China-Países Lusófonos e China-América Latina.

Fonte: O Povo, de 19/02/25. Opinião. p.19.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2024

A necessidade de Fortaleza reforçar suas relações internacionais

Por José Nelson Bessa Maia (*)

A capital cearense ocupa a quarta posição no ranking nacional em população, com 2,6 milhões de habitantes, atrás apenas de São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília, e a maior cidade do Nordeste, superando por pouco Salvador, capital da Bahia. No tocante à economia, o município de Fortaleza figurou em 2021 em 1º lugar em termos de PIB municipal na região Nordeste e em 11º lugar no País, quando registrou um PIB de R$ 73,4 bilhões. Uma cidade de tal porte e com a localização privilegiada em relação aos grandes mercados mundiais (E UA e Europa) e a polos emergentes como a África precisa reforçar urgentemente sua capacidade de se relacionar com potenciais parceiros públicos e privados no exterior.

Essa nova área internacional a ser criada em Fortaleza, ao invés de ser reativa, deveria desenvolver ao máximo o potencial paradiplomático do município. A propósito, entende-se por paradiplomacia uma ferramenta que permite que governos subnacionais – municípios e estados – envolvam-se em relações internacionais para defender seus interesses, sem violar a soberania do Estado-Nação.

Isso mesmo. A paradiplomacia é diferente da diplomacia, que se ocupa de temas de alta política, como a segurança nacional, a defesa e os tratados de livre comércio etc. A paradiplomacia é uma extensão da política local, e se ocupa de temas pragmáticos como a captação de recursos e eventos, promoção do turismo, intercâmbio cultural e cooperação técnica em áreas como mobilidade urbana, educação, saúde, saneamento e proteção ao meio ambiente.

A paradiplomacia pode ser exercida na prática por meio de acordos de cidades-irmãs, participação em eventos promocionais, protocolos de cooperação técnica e engajamento em projetos de redes de cidades globais.

No momento em que uma nova administração se prepara para assumir a gestão municipal é bastante oportuno o tema da recriação de um órgão especializado voltado para as relações internacionais. Não se trata de criar mais uma estrutura burocrática na Prefeitura de Fortaleza, mas sim uma secretaria ágil e enxuta e ligada ao Gabinete do Prefeito, com pessoal capacitado e experiente para gerir as relações do município com entidades estrangeiras e internacionais e exercitar a captação de recursos e parcerias externas, tomando iniciativas para aproveitar do enorme potencial que existe na interação com organismos internacionais e na cooperação internacional inter-cidades, de modo a atrair investimentos privados e colaboração técnica para projetos de interesse do desenvolvimento da cidade e de seus munícipes.

Urge, portanto, por parte da nova administração municipal de Fortaleza que assumirá na virada do ano uma firme tomada de posição em prol da inserção internacional ativa da capital cearense, rompendo o marasmo dos últimos anos e buscando ocupar um espaço de destaque na paradiplomacia brasileira, um espaço que faça jus a sua posição dentre as mais importantes cidades do País e que contribua de forma relevante e positiva para a resolução de seus problemas inerentes a uma grande metrópole e o reforço de suas políticas públicas.

(*) Mestre em Economia e doutor em Relações Internacionais pela UnB e ex-secretário de Assuntos Internacionais do governo do Ceará. Pesquisador independente das relações China-Brasil, China-Países Lusófonos e China-América Latina.

Fonte: O Povo, de 4/12/24. Opinião. p.19.

terça-feira, 3 de setembro de 2024

OS 50 ANOS DAS RELAÇÕES BRASIL-CHINA

Por José Nelson Bessa Maia (*)

No dia 15 de agosto de 1974 em Brasília, o então chanceler do Governo Militar, Azeredo da Silveira, e o vice-ministro do Comércio chinês, Chen Chien, formalizaram o restabelecimento das relações bilaterais, suspensas em 1949. Os dois governos concordaram em entabular relações amistosas com base nos princípios de respeito recíproco à soberania e à integridade territorial, não-agressão, não-intervenção nos assuntos internos de um dos países por parte do outro, além de vantagens mútuas e coexistência pacífica. No entanto, as relações só vieram a adensar-se a partir do início do século XXI quando a China se tornou membro da Organização Mundial de Comércio (OMC) em 2001.

Nesses 50 anos houve um aumento formidável no comércio sino-brasileiro, tendo a China se tornado em 2009 o maior parceiro comercial do país. Naquele ano, a corrente de comércio bilateral somou US$ 36,1 bilhões. O Intercâmbio cresceu a cada ano, tendo chegado em 2023 a US$ 105,7 bilhões, um terço de todo o comércio exterior do Brasil. As relações se ampliaram em áreas como ciência e tecnologia, investimentos e cooperação técnica e cultural, além da concertação geopolítica e na governança global. Tanto que, em 2006, Brasil e China se aliaram na formação do BRICS, ao lado de Rússia, Índia e depois a África do Sul, um bloco que trata de cooperação, crescimento econômico e desenvolvimento.

Apesar dos logros obtidos nessas cinco décadas, Brasil e China precisam aprofundar e qualificar suas trocas mútuas. As relações bilaterais devem atingir novos patamares e a cooperação envolver uma parceria estratégica em ciência, tecnologia limpa e inovação. O Brasil precisa melhorar a composição de valor agregado de suas exportações para a China e ampliar o acesso a avanços chineses em campos como infraestrutura, mobilidade urbana, economia digital, audiovisual e fármacos.

Espera-se que a vinda do presidente chinês Xi Jinping ao Brasil em novembro próximo para a reunião de Cúpula do G-20 e visita de Estado possa finalmente deslanchar essa nova etapa nas relações bilaterais, inclusive com a adesão bem negociada do Brasil à Iniciativa Cinturão e Rota (BRI) e o maior acesso ao gigantesco mercado chinês para seus produtos e serviços.

(*) Mestre em Economia e doutor em Relações Internacionais pela UnB e ex-secretário de Assuntos Internacionais do governo do Ceará. Pesquisador independente das relações China-Brasil, China-Países Lusófonos e China-América Latina.

Fonte: O Povo, de 16/08/24. Opinião. p.21.

segunda-feira, 15 de julho de 2024

Resultados da Cosban para o adensamento da relação Brasil-China

Por José Nelson Bessa Maia (*)

No próximo dia 15 de agosto comemoram-se os 50 anos de estabelecimento das relações diplomáticas entre o Brasil e a República Popular da China. A China é o principal parceiro comercial brasileiro há 15 anos, tendo o comércio bilateral alcançado a marca de US$ 157 bilhões em 2024, um recorde histórico. O Brasil é o país que recebe mais investimentos chineses na América Latina, com 48% do total na região e um estoque acumulado de US$ 71,6 bilhões entre 2007 e 2022.

Neste ano também se celebram os 20 anos de criação da Comissão Sino-Brasileira de Alto Nível de Concertação e Cooperação (a Cosban), o principal mecanismo de colaboração bilateral para consolidar a parceria estratégica entre ambos os países. O objetivo da Cosban é incentivar o relacionamento, permitindo o diálogo franco e aberto em temas de interesse mútuo. A Cosban realiza reuniões plenárias a cada dois anos co-presididas pelos respectivos vice-presidentes da República. Para dinamizar seu funcionamento existem 11 subcomissões com as atribuições de promover e agilizar os acordos estabelecidos entre Brasil e China e de identificar possíveis novos campos e modalidades de cooperação.

A VII Reunião da Cosban realizou-se em Beijing de 5-6 de junho deste ano, tendo do lado brasileiro a liderança do vice-presidente Geraldo Alckmin, com a presença de seis ministros de Estado e outras autoridades federais. Na ocasião, foram firmados oito acordos, além de 11 atos do setor privado em áreas como agricultura, finanças, meio ambiente e mudança do clima, saúde, educação, cultura, espaço exterior, energia, micro e pequenas empresas, desenvolvimento social e rural e ciência, tecnologia e inovação.

Em termos práticos, o Governo brasileiro obteve R$ 24,6 bilhões em financiamentos para projetos diversos, entre os quais o memorando de entendimento (MoU) firmado entre o Ministério da Fazenda e o Banco Asiático de Investimentos e Infraestrutura (AIIB) que garante até R$ 5 bilhões para apoio emergencial ao Rio Grande do Sul. Outros R$ 4 bilhões em crédito serão concedidos ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). No todo, tais recursos deverão apoiar obras de infraestrutura no Brasil, incluindo projetos relacionados à mudança climática e à economia verde.

(*) Mestre em Economia e doutor em Relações Internacionais pela UnB e rx-secretário de Assuntos Internacionais do governo do Ceará. Pesquisador independente das relações China-Brasil, China-Países Lusófonos e China-América Latina.

Fonte: O Povo, de 17/06/24. Opinião. p.21.

domingo, 7 de abril de 2024

TORTURA CHINESA

Um homem estava fazendo uma grande viagem pela China. Um dia, ao se aventurar pelos campos, ele acabou se perdendo. Passou três meses no meio da floresta, dormindo em cavernas, passando frio e fome, e comendo algumas plantas que achava pelo caminho.

Um dia, depois de muito andar, ele avistou no alto de um monte uma enorme casa chinesa. Correu em sua direção e bateu na porta. Um senhor chinês, de longas barbas brancas, perguntou ao rapaz o que ele fazia ali, naquela região, pois poucos costumavam chegar ali, ainda mais andando.

O homem respondeu:

— Estou há mais de três meses perdido pelos campos, dormindo em cavernas frias e comendo plantas. Por favor, eu gostaria de uma cama limpa, um lugar para tomar banho e um prato de comida. Estou muito cansado e faminto.

O velho chinês pensou um pouco e respondeu:

— Eu lhe ofereço um quarto limpo, um banheiro, roupas limpas e uma nobre refeição. A única condição e que o senhor não faça nada à minha neta.

— Claro, senhor. Sou um homem respeitador.

— Se acontecer alguma coisa à minha neta ou se aproximar dela, o senhor sofrerá as três piores torturas chinesas.

— O senhor pode ficar tranquilo, não farei nada à ela.

Então o rapaz tomou seu banho, vestiu suas novas roupas e desceu para jantar. Ao sentar à mesa, viu a linda jovem chinesa e se apaixonou imediatamente. Além de linda e perfeita, ela também demonstrou interesse nele. Foi paixão à primeira vista. Durante a refeição, ele pensou:

"Poxa, há três meses eu não vejo uma mulher, e com certeza essa noite valerá qualquer sacrifício, mesmo essas três piores torturas chinesas!"

De madrugada, ele foi ao quarto da jovem e teve a noite de amor mais incrível de sua vida. Ao acordar, sentiu um grande peso sobre ele. Abriu os olhos e viu uma enorme pedra sobre seu peito. Nela estava escrito: "Primeira grande tortura chinesa: grande pedra sobre peito."

"Bom, se for assim, tudo bem", pensou. Ergueu a pedra e conseguiu lançá-la pela janela próxima à cama. Foi quando ele viu uma linha amarrada à pedra. Do outro lado da pedra estava escrito: "Segunda grande tortura chinesa: pedra amarrada ao testículo esquerdo".

Desesperado com a situação, o rapaz se atirou pela janela atrás da pedra. Foi quando pode ver escrito nela: "Terceira grande tortura chinesa: testículo direito amarrado ao pé da cama!"

Fonte: Disponível na home page “Tudoporemail”.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2023

A abertura comercial chinesa continua a contribuir para o crescimento mundial

Por José Nelson Bessa Maia (*)

A recente desaceleração econômica na China, fruto da reorientação de seu modelo de crescimento para o mercado interno, do protecionismo de outros grandes países e de fatores geopolíticos devia ser vista como um processo temporário e reversível no médio prazo. No entanto, analistas de bancos e da grande mídia financeira internacional aproveitam, com base na análise superficial do sobe e desce de indicadores conjunturais, para prognosticar uma tendência duradoura de estagnação do país asiático e de suposta futura crise econômica e política.

Nesse contexto e diante do clamor de antiglobalização e regionalização das cadeias globais de valor, a China, ao contrário do que é apregoado, persiste na sua estratégia de promoção da abertura ao exterior por meio de uma série de ações concretas, como a melhoria no clima de negócios, a realização de diversas feiras e exposições comerciais internacionais, a implementação de acordos de parceria econômica e liberalização do comércio com diversos países e regiões e facilitação de investimentos. Tudo isso contribuindo para reforçar suas relações econômicas externas e mitigar as tendências de enfraquecimento do livre comércio e do movimento global de capitais.

Com efeito, a grande maioria das empresas de capital estrangeiro que operam na China se diz satisfeita com o ambiente de negócios favorável do país e confiante no mercado chinês, de acordo com uma pesquisa divulgada pelo Conselho Chinês para a Promoção do Comércio Internacional (CCPIT, em inglês) durante o segundo trimestre de 2023. A pesquisa sobre ambiente de negócios no país considerou itens como acesso ao mercado, pagamento de impostos, solução de controvérsias e a situação de concorrência de mercado na China.

Assim, quase 90% das empresas financiadas por estrangeiros que foram pesquisadas se declaram satisfeitas com o ambiente de negócios chinês. As empresas estrangeiras também parecem otimistas sobre sua atuação na China, com mais de 80% dos entrevistados com expectativa positiva de que o retorno de seus investimentos permaneça estável ou aumente em 2023.

No tocante a feiras e exposições comerciais, a China realiza de 23-27 de outubro de 2023 a segunda fase da Feira de Importação e Exportação da China, realizada em Guangzhou (Cantão), considerada a maior feira comercial de exposições do planeta. Trata-se de um evento de comércio exterior abrangente, com o maior número de potenciais compradores, a mais completa variedade de produtos, serviços e tecnologias e o maior volume de negócios do mundo.

Isso sem falar em uma série de outras feiras setoriais já realizadas ao longo e até o fim do ano. Embora a feira venha sendo realizado desde 1957, ela enfrentou desafios e conseguiu superar todos eles, inclusive a pandemia de Covid-19. É um evento que promove a conexão comercial entre o mundo e a China, e que, por sua vez, evidencia as conquistas e os avanços que o país alcançou ao longo de várias décadas.

No campo das negociações comerciais a China envida esforços para colocar em operação a Perceria Econômica Abrangente Regional (RCEP, na sigla em inglês), continua a impulsionar a adesão ao Acordo Abrangente e Progressivo para a Parceria Transpacífica (CPTPP) e ao Acordo de Parceria da Economia Digital (DEPA). Tudo isso além de criar 21 Zonas de Livre Comércio Piloto, estabelecer o Porto de Livre Comércio de Hainan e reduzir a lista negativa para investimento estrangeiro direto (IED), com a ampliação da abertura ao capital externo de setores de serviços como telecomunicações e saúde. Para completar esse esforço de abertura econômica ao exterior, a China adota nova Lei de Investimento Estrangeiro e um regulamento para otimizar o ambiente de negócios.

Desde 2013, a China é o maior importador do mundo, com importações totalizando a marca de US$ 3,45 trilhões em 2022, o que correspondeu a 13,8% das importações mundiais, contra 8,35% para os EUA e 3,22% para o Japão. Somente o bloco da União Europeia, com 27 países, é que supera a China como maior importador mundial, com 22,93% do total.

No corrente ano, segundo dados da OCDE, o valor das importações chinesas estaria se reduzindo em relação aos trimestres anteriores, cerca de -0,7% no primeiro trimestre e -2,5% no segundo. No entanto, essa tendência conjuntural é de ordem mais geral, uma vez que muitos outros países que fazem parte do G20, como Alemanha, EUA e Índia, apresentam também recuos nos últimos trimestres no valor de suas importações por conta do cenário global de desaceleração econômica.

O fato que merece destaque é que, sendo o maior importador mundial há 10 anos, a China tem contribuído fortemente para o crescimento de seus parceiros comerciais pela via da demanda chinesa por bens e matérias-primas junto aos demais países com quem mantém relações de comércio. Na verdade, o ritmo das importações chinesas funciona como um termômetro para os preços nos mercados de commodities e um elemento de sustentação da renda e emprego nos setores exportadores de inúmeros países, sejam aqueles avançados, emergentes ou em desenvolvimento, que comercializam seus produtos com a China. Tudo isso sem mencionar a sinalização que as compras chinesas no exterior dão para investidores nos mercados de ativos pelo mundo afora.

Há, por fim, razões para crer que a continuidade do processo de abertura da China para o exterior, mesmo em um contexto mundial desafiador, atuará como uma alavanca importante para enfrentar movimentos contrários à globalização e para a manutenção das cadeias globais de valor e dos fluxos atuais de comércio internacional, mitigando impactos adversos de medidas protecionistas tomadas por outros países e evitando o isolacionismo econômico e o fechamento de mercados. Essa postura chinesa é uma salutar aposta no futuro compartilhado do mundo e uma contribuição responsável para o bem-estar geral e a paz mundial.

(*) Mestre em Economia e doutor em Relações Internacionais pela UnB e rx-secretário de Assuntos Internacionais do governo do Ceará. Pesquisador independente das relações China-Brasil, China-Países Lusófonos e China-América Latina.

Fonte: O Povo, de 4/11/23. Opinião..

quarta-feira, 1 de novembro de 2023

A Resiliência da Economia Chinesa e o Dinamismo do Setor de Serviços em 2023

Por José Nelson Bessa Maia (*)

Os indicadores econômicos da China mais recentes apontam persistentes desafios no processo de recuperação pós-pandemia de Covid-19, uma vez que os dados de comércio exterior e de formação bruta de capital fixo indicam tendência conjuntural declinante. Alguns analistas mais apressados arriscam-se a afirmar que a economia chinesa estaria ingressando numa fase de estagnação. No entanto, sabe-se que as autoridades chinesas estão sempre atentas aos movimentos nos mercados e na economia global e propensas a adotar medidas necessárias que corrijam rumos e alterem a situação por meio de ajustes no arsenal da política econômica e da melhoria no clima geral de negócios.

Com efeito, o conjunto de indicadores de julho de 2023 sugere que a recuperação econômica continua a avançar no sentido desejável de um padrão de alta qualidade, mesmo em face das dificuldades derivadas do demorado ajuste no setor imobiliário chinês, fatores geopolíticos adversos, protecionismo comercial, insuficiência na demanda interna e a necessidade de reforçar os pilares em transição para a retomada do crescimento sustentado.

Muitos comentaristas de bancos de investimento deixam-se levar por uma onda de pessimismo tocada pela leitura equivocada e parcial de alguns poucos indicadores de conjuntura que oscilam para cima e para baixo. Esquecem-se de que a China tem um modelo de economia mais resiliente do que outras nações e que seus gestores de política dispõem de meios fiscais, monetários e regulatórios para reverter movimentos que noutros contextos poderiam abalar a estrutura econômica.

Com efeito, uma série de medidas foi tomada para reativar a economia chinesa. Um plano de 31 pontos foi anunciado pelo governo para remover barreiras à entrada e fortalecer os direitos de propriedade intelectual. Outro plano de 20 providências voltadas para expansão do consumo foi posto em prática para incentivar as atividades de lazer e o turismo, assim como 26 outras medidas foram adotadas para dar mais mobilidade ao fluxo de mão de obra rural para as cidades.

Ações também foram tomadas para facilitar a entrada de capital estrangeiro (o “Invest in China 2023”). Além disso, o banco central do país (PBOC) baixou a taxa básica de juros – uma medida concebida para ajudar a revigorar a atividade econômica. Esse conjunto de ações e outras que vierem a ser tomadas atuam no sentido de reforçar a demanda e o consumo das famílias e reanimar a confiança do setor privado chinês.

Apesar dos fatores adversos acima citados, a China ainda registou um crescimento razoável em todos os setores em julho de 2023, mas também foi observada uma desaceleração no crescimento em outros principais indicadores econômicos. Embora os serviços e o consumo tenham continuado a registrar um crescimento considerável, a expansão da produção industrial abrandou ligeiramente a partir de junho e as exportações e os fluxos de investimento direto estrangeiro (IDE) também se reduziram. Entretanto, o investimento em ativos fixos foi direcionado para setores como aqueles de pesquisa & desenvolvimento (P&D) e de alta tecnologia, cujos impactos positivos não tardarão a serem sentidos.

As empresas chinesas de serviços tiveram um forte desempenho no terceiro trimestre deste ano, de acordo com os dados da pesquisa Índice de gerentes de compras (PMI). O índice de serviços da China voltou a subir em julho de 2023, para 54,1, após ter mostrado queda em junho (53,9), segundo pesquisa da S&P Global com o Caixin Insight Group. A leitura final veio acima das previsões. As leituras acima do nível de 50 indicam que a atividade econômica da China está em território de expansão. A atividade empresarial em todo o setor cresceu fortemente e a recuperação foi apoiada por um aumento acentuado em novos negócios, o que encorajou as empresas a expandir sua folha de pagamento pelo sexto mês consecutivo.

O desempenho do setor de serviços (terciário) é crucial para a economia e o emprego na China. É responsável por 55% do PIB e 48% do emprego. Ele inclui vários segmentos de prestação de serviços como o transporte de pessoas e cargas, telecomunicações, serviços financeiros, cuidados de saúde, comércio, bem como entretenimento e recreação. O setor foi duramente afetado pelas medidas da política de Covid Zero do país em 2022, especialmente em segmentos como o turismo, restaurantes e o varejo. No entanto, os resultados de PMI oficiais sugerem que a recuperação a partir da reabertura econômica na China retomou o fôlego em julho após dois meses de retração.

O fraco cenário global pesou sobre a indústria manufatureira devido à queda nas exportações, mas os serviços continuaram a se beneficiar da retomada dos gastos dos consumidores. No entanto, mesmo com os bons resultados de julho, as empresas de serviços demonstraram menos otimismo ao avaliar as perspectivas de 12 meses para a atividade comercial, com o nível de confiança geral recuando para níveis de 2022. Com relação aos preços, as empresas sinalizaram aumentos mais suaves na evolução de custo dos insumos.

É nesse contexto de retomada do dinamismo no setor de serviços que a China vai realizar em Beijing, de 2 a 6 de setembro de 2023, mais uma edição da Feira Internacional de Serviços Comerciais da China (CIFTIS), a maior exposição em termos do comércio global de serviços e a exposição líder na área do comércio de serviços na China. Com o tema "a abertura traz o desenvolvimento, a cooperação cria um futuro ganha-ganha", prevê-se que a CIFTIS 2023 contará com 202 eventos variados, incluindo fóruns, negociações e cúpulas. Ao todo, 51 países e 24 organizações internacionais já confirmaram participação. A feira abrangerá uma ampla gama de tópicos, como telecomunicações, serviços de informação, serviços financeiros, serviços de saúde e saneamento e serviços ambientais.

Mais de 70 companhias e instituições reconhecidas mostrarão suas realizações e mais de 2.200 empresas participarão de suas exposições, entre as quais empresas globais da Revista Fortune 500 e empresas líderes do setor. Os expositores exibirão os mais recentes avanços em economia digital, serviços culturais, serviços de turismo, serviços educacionais e serviços médicos, entre outras áreas de serviços. Os participantes terão a oportunidade de explorar possibilidades de cooperação empresarial e manter-se atualizados sobre os últimos progressos no comércio de serviços.

Em suma, apesar de um ambiente econômico interno e externo complexo, o comércio de serviços da China tem mantido o crescimento. Os dados disponíveis mostram que o valor total do comércio de serviços chinês aumentou 12,9% em termos anuais, para quase seis trilhões de yuans (US$ 828 bilhões) em 2022, mantendo o segundo lugar a nível mundial durante nove anos consecutivos. No primeiro semestre deste ano, o setor continuou a crescer até atingir um valor total de 3,1 trilhões de yuans, marcando um aumento anual de 8,5%.

À medida que a China aprofunda a abertura do seu setor de serviços, projeta-se que a escala do comércio de serviços mantenha o crescimento ao longo do ano e que a sua estrutura comercial continue a aprimorar-se. O fato é que o comércio de serviços da China tem registrado uma melhoria na qualidade e na competitividade, com os serviços intensivos em conhecimento tendo representado 43,5% do comércio total de serviços no primeiro semestre de 2023. A realização da CIFTIS 2023 contribuirá para injetar um impulso adicional na economia global.

 (*) Mestre em Economia e doutor em Relações Internacionais pela UnB e rx-secretário de Assuntos Internacionais do governo do Ceará. Pesquisador independente das relações China-Brasil, China-Países Lusófonos e China-América Latina.

Fonte: O Povo, de 10/9/23. Opinião. p.29.

segunda-feira, 1 de maio de 2023

Dinâmica das relações econômicas sino-brasileiras deve ser mais ambiciosa

Por José Nelson Bessa Maia (*)

O Governo Lula prepara uma visita oficial a Beijing para 27-31 de março do corrente ano, em cuja comitiva estará o governador do Ceará Elmano de Freitas. Apesar de desafios como a crise energética, a guerra na Ucrânia e pressões inflacionárias no mundo, há razões para crer que Brasil e China estejam prontos para levar a relação a um novo patamar. Ademais, as mudanças em curso nas políticas externas, nos dois países, apontam para possibilidades de expandir as agendas econômica e política.

Nos últimos 20 anos, a expansão das relações econômicas sino-brasileiras foi de fato formidável, tornando a China o principal parceiro comercial do Brasil desde 2009. No ano passado, as exportações para a China representaram 27,2% do total exportado, ao passo que as importações brasileiras da China responderam por 22,6% do total importado. O superávit comercial do Brasil com a China (US$ 29,6 bilhões) respondeu em 2022 por 47,2% de todo o superávit comercial do Brasil com o mundo. Em matéria de investimento estrangeiro direto, a China tem sido um grande investidor, o que levou ao acúmulo do fluxo do investimento chinês no Brasil a superar a marca dos US$ 70 bilhões em apenas 12 anos.

Além de buscar diversificar a pauta de comércio com a China, o Brasil precisa introduzir novos temas como energias renováveis, a transferência de tecnologias digitais, o investimento em infraestrutura e o financiamento para conter mudanças climáticas e preservar a Amazônia. É preciso, contudo, que essas questões sejam tratadas de forma objetiva. Os mecanismos diplomáticos existentes precisam ser mais ágeis para remover obstáculos, facilitar negócios e reforçar a cooperação.

Em suma, a dinâmica das relações entre a China e o Brasil deve ser mais ambiciosa do que tem sido até agora. Há um potencial muito mais amplo de oportunidades de cooperação do que o explorado até o momento. Isso implica a necessidade de avançar além da mudança na pauta atual de comércio bilateral e buscar abrir novas frentes de negócios na direção de segmentos capazes de contribuir para a retomada do crescimento e a redução da pobreza e promover a reindustrialização da economia brasileira.

(*) Mestre em Economia e doutor em Relações Internacionais pela UnB e rx-secretário de Assuntos Internacionais do governo do Ceará.

Fonte: O Povo, de 24/3/23. Opinião. p.29.

terça-feira, 4 de abril de 2023

UM PROBLEMA POPULACIONAL

Por Pedro Jorge Ramos Vianna (*)

Li recentemente um artigo do Dr. Wang Feng, sociólogo e especialista em demografia chinesa, publicado no Jornal New York Times, em 30 de janeiro deste ano. O artigo do Dr. Feng se reporta à informação de que a taxa de natalidade, na China, em 2022 caiu de 7,52 em 2021, para 6,77. Estes são dados publicados pelo Escritório Nacional de Estatísticas da China.

Isto significa que a população da China caiu pela primeira vez em 60 anos, com a taxa de natalidade nacional atingindo recorde de queda — 6,77 nascimentos por mil pessoas. Ou seja, a população do país em 2022, mesmo atingindo 1,4118 bilhão, caiu 850 mil habitantes em relação a 2021.

Em verdade, a taxa de natalidade vem caindo há anos e, ao que tudo indica, a China entrou em uma "era de crescimento negativo da população".

De acordo com as projeções da ONU, é que no fim deste século, a população daquele País esteja em torno de 700 milhões de habitantes, contra os 1,4 bilhão atual.

Mas, de acordo com o Dr. Feng, outros países estão passando por esta mesma problemática, como seria o caso do Japão, Coréia do Sul, Rússia, Itália e Alemanha.

É interessante observar que a queda na taxa de natalidade do ser humano se deve, no dizer do Dr. Feng, ao maior empoderamento da mulher.

Esta situação é boa ou é ruim para o nosso planeta? No que diz respeito à capacidade da terra em sustentar sua população, há o parâmetro chamado "biocapacidade".

biocapacidade avalia o montante de terra e água, biologicamente produtivo, para prover bens e serviços do ecossistema à demanda humana, sendo equivalente à capacidade regenerativa da natureza.

Mas, para medir a relação entre o consumo, exploração e utilização dos recursos naturais e a capacidade do planeta em repor tais elementos naturalmente, os estudiosos da área criaram outro conceito: A "pegada ecológica".

Os cálculos realizados apontam que a "pegada ecológica" do planeta estava em torno de 2,77 (dados de 2017), enquanto sua biocapacidade era de 1,60. Isto significava que precisaríamos de um planeta maior que a terra em 73% Dados do "2021 Edition National Footprint and Biocapacity Accounts".

Desta forma, o decrescimento da taxa de natalidade da humanidade é uma notícia alvissareira.

Mas, em economia, sempre há a contrapartida.

Diminuir esta sobretaxa tem implicações sobre o emprego e a capacidade de produção da humanidade.

Quanto ao emprego, o uso de tecnologias mais avançadas permitirá que menos pessoas sejam precisas para realizar tarefas intensivas de mão de obra.

Por outro lado, com menos gente para consumir, a produção não necessitará aumentar, principalmente de produtos agropecuários. E a tecnologia também muito contribuirá para diminuir a pressão neste campo.

Assim, há uma luz no fim do túnel!

(*) Economista e professor titular aposentado da UFC,

Fonte: O Povo, de 12/02/23. Opinião. p.18.


 

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