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quinta-feira, 2 de fevereiro de 2023

O MULATO MARRANO(?): Machado de Assis e o judaísmo

Meraldo Zisman (*)

Médico-Psicoterapeuta

José Maria Machado de Assis, ou simplesmente Machado de Assis, foi um dos maiores escritores brasileiros. Poeta, romancista, contista, dedicou-se ainda à crônica e ao Teatro. Nasceu em 1839, filho de uma mulher branca açoriana com um mestiço brasileiro.

Machado se revelou um profundo conhecedor da vida. Foi sempre um preocupado com o destino do homem e com o significado de sua existência. A condição humana e suas vicissitudes brotam de sua pena criadora. É hoje autor discutido, comentado, lido nos meios acadêmicos do Mundo. Certamente, se tivesse escrito em uma língua mais falada, teria sido criatura literária descoberta e consagrada — de há muito.

Quem sabe, talvez tenha sido melhor assim. Quantos leitores alcançaram maior maturidade para entender a obra machadiana? O mote é Literatura, quando tratada por mãos de artista das letras. Temas hebraicos são bastante comuns na obra de Machado de Assis: Esaú e Jacó ou Acadêmicos de Sião, para citar apenas dois exemplos. Impressiona a frequência com que Machado se refere ao deslocado social — pessoa mestiça e perseguida como ele. Por não ter sido aceito na sociedade dos brancos e – ao mesmo tempo – repudiado pelos homens de cor, tem levado certas pessoas a supor que Machado de Assis era de origem judaica.

Talvez seja verdade, pois qual o brasileiro que não tem um ancestral cristão-novo, marrano (porco), como denominam os espanhóis os judeus convertidos? À força ou por convencimento, por bem ou por mal.

O fato é que nenhum escritor brasileiro compreendeu melhor que Machado de Assis a situação do marrano. Em seu poema A Cristã-Nova, prepondera a dor da perda, a carência e a falta de amparo. Desamparo. É a pior de todas as sensações, quedar-se sem esperança. Desesperança, como no povo judeu, entre os mestiços ou os ciganos, cujo fardo é o antagonismo eterno.

Ele, o escritor, revela de um lado, um velho judeu que, olhando a Baía de Guanabara, tem saudades “virtuais” de Jerusalém; e de outro, sua jovem filha, devota do cristianismo e apaixonada por um cristão.

(*) Professor Titular da Pediatria da Universidade de Pernambuco. Psicoterapeuta. Membro da Sobrames/PE, da União Brasileira de Escritores (UBE), da Academia Brasileira de Escritores Médicos (ABRAMES) e da Academia Recifense de Letras. Consultante Honorário da Universidade de Oxford (Grã-Bretanha).Meraldo Zisman (*) 

terça-feira, 23 de agosto de 2022

O GAVIÃO E NÓS BRASILEIROS

Por Pedro Jorge Ramos Vianna (*)

Eu moro na Aldeota, no décimo segundo andar. Já presenciei as visitas inesperadas de morcegos e urubus. Mas, hoje, vou escrever sobre a beleza, a elegância, a coragem. Sobre um Gavião.

Foi uma experiência inédita. Estava na minha varanda, quando passou muito pertinho, voando com a elegância que lhe é peculiar, um gavião. Não consegui descobrir a raça. Seria um caracará, ou um acauã? Passou e foi pousar em uma antena de edifício no outro lado da rua. O porte elegante demonstrava que ali estava um vencedor.

Por que vencedor? Pela simples sobrevivência em ambiente hostil, pela luta diária de continuar vivo, pela luta pela procriação, pela preservação da espécie.

E nós brasileiros, escravos da rotina, da violência, vivendo cada vez mais em ambientes hostis, o que somos? Vencedores? Não, perdedores. Perdedores por não termos coragem de nos insurgir contra este estado de coisas. Perdedores por votarmos em quadrilha no lugar de votarmos em partido. Perdedores por elegermos ladrões, calhordas, salafrários.

Dada esta situação vale transcrever dois poemas: um de Eduardo Alves da Costa (somente um trecho), outro de Bertold Brecht.

O poema de Eduardo A. da Costa se chama "No Caminho com Maiakovski", do qual reproduzo a seguinte parte:

"Tu sabes,

conheces melhor do que eu

a velha história.

Na primeira noite eles se aproximam

e roubam uma flor

do nosso jardim.

E não dizemos nada.

Na segunda noite, já não se escondem:

pisam as flores,

matam nosso cão,

e não dizemos nada.

Até que um dia,

o mais frágil deles

entra sozinho em nossa casa,

rouba-nos a luz, e,

conhecendo nosso medo,

arranca-nos a voz da garganta.

E já não podemos dizer nada."

O segundo, "Primeiro levaram os negros", de Eugen Bertolt Friedrich Brecht, diz:

"Primeiro levaram os negros.

Mas, não me importei com isso.

Eu não sou negro.

Em seguida levaram alguns operários.

Mas, não me importei com isso.

Eu também não sou operário.

Depois prenderam os miseráveis.

Mas, não me importei com isso.

Porque eu não sou miserável.

Depois agarraram uns desempregados.

Mas, como tenho meu emprego

Também não me importei.

Agora estão me levando.

Mas, já é tarde.

Como não me importei com ninguém,

ninguém se importa comigo."

Até quando não diremos nada? Até quando não nos importaremos com ninguém? Até quando vamos deixar que muitos cearenses morram na miséria? Até quando vamos eleger energúmenos para nos governar?

O Gavião é muito mais digno de admiração, que nós brasileiros. 

(*) Economista e professor titular aposentado da UFC

Fonte: O Povo, de 3/7/22. Opinião. p.18.

terça-feira, 28 de setembro de 2021

“A PLENOS PULMÕES”

Por Grecianny Cordeiro, Promotora de Justiça

“A Plenos Pulmões” é a 38ª Antologia da SOBRAMES – Sociedade Brasileira de Médicos Escritores, Regional Ceará, cuja honra a mim foi conferida em prefaciá-la.

O primoroso livro, coordenado pelo dr. Marcelo Gurgel, com a bela capa elaborada pelo dr. Isaac Furtado, é composto de textos escritos por um brilhante rol de colaboradores, a maioria, por Asclepíades que, nos momentos em que estão longe de seus consultórios, distantes dos hospitais, nos trazem com sua literatura alegria para a alma, esperança para o coração, alento para o espírito.

Na mitologia grega, Asclépio era filho de Apolo e de Corônis, esta, fulminada por uma flecha certeira disparada pelo deus, furioso por ter sido rejeitado. Apolo salvaria o filho do ventre da mãe falecida e o entregaria para ser educado pelo centauro Quíron, que lhe ensinou a arte da cura e todos os segredos da medicina.

Assim, Asclépio se tornaria um talentoso e habilidoso mestre em curar doentes.

“Os mitos não morrem, ao contrário, se perpetuam no tempo, notadamente, por meio de suas representações simbólicas. A maior prova disso é que Asclépio, o deus/herói da arte da cura, jamais fora esquecido, e seu bastão com uma serpente enroscada é o símbolo da Medicina.

A medicina, uma das mais belas e imprescindíveis profissões, em especial, nessa época de pandemia gerada pelo Covid 19, tem se mostrado incansável na busca da cura da doença, na compreensão exata do vírus para o desenvolvimento de vacinas eficazes, de modo a permitir que possamos, o quanto antes, voltar à normalidade.

Mas a medicina, por meio de seus profissionais (…) vem contribuindo sobremaneira para a cura das dores da alma, para o enternecimento dos corações através da poesia, para o despertar da sensibilidade através da prosa, para o aprimoramento do intelecto por meio da escrita (…).

Da arte da cura à arte da poesia. De Asclépio a Apolo. Por tais caminhos iluminados passeiam os integrantes da SOBRAMES, Regional Ceará.

“A Plenos Pulmões”, embora não possa ser lida de um fôlego só, dado ao número de páginas, é um livro para ser lido como quem respira, num compasso natural e sincronizado.

Em tempos tão sombrios, em que milhares de vidas foram perdidas para uma pandemia nefasta, “A Plenos Pulmões” surge como um sopro de vida em uma época em que o ar faltou a tanta gente.

Que por meio do presente livro possamos inspirar prosa e poesia para nossas vidas, ao mesmo tempo em que possamos expirar tudo aquilo que nos faz mal.”

*Publicado In: O Estado CE, 27 de setembro 2021, Opinião. 

sexta-feira, 30 de abril de 2021

O ÉPICO NO LÍRICO

Por Luciano Maia (*)

Tem-se que o Épico é narrativo, fantástico, heroico. Ora, tanto ou mais fantástico pode ser o Lírico...

O título destas linhas bem poderia ser “O lírico no épico”. Em viagem através dessa dualidade (apenas aparente), pensei em dois poetas da nossa contemporaneidade: Murilo Mendes (1900-1975) e Gerardo Mello Mourão (1917-2007). É curioso como as sugestões nos chegam. Os poemas de Murilo Mendes, em seus vários livros e, especialmente, em Siciliana, chegam-me agora numa revisitação inesperada. Quando estive na Sicília há dois anos, com aquela arquitetura mais presente na memória mítica do que na aparência que ainda apresenta agora, devo ter-me lembrado do poeta. Mas essa lembrança fugiu. E será porque lá lembrei-me, que lembro agora? Claro, os seus poemas em tributo a uma beleza que nós herdamos da civilização mediterrânea (e atlântica!) vieram-se ao pensamento: Vejam isto: Mudo, entre capitéis e cactos / Subsiste o oráculo. / A manhã doura a pedra e vagos nomes, / Agrigento me contempla, e vou-me. Esta evocação (perdoem-me a ousadia) é tão irmã da minha!

O poeta fica em reverência profunda, enquanto “durar na zona limite da memória” o estado de arrebatamento que o invade diante da contemplação do passado helênico e pagão; as suas invocações (as do lugar), diz Murilo Mendes, o contemplam! Isso é pura épica. É neste instante que se desenrolam na mente do poeta todas as lutas e celebrações, amores e tantas outras mais aventuras, façanhas, conquistas, tudo envolto numa aura épica e lírica, a um só tempo.

Certa vez, disse o poeta romeno Lucian Blaga (1895-1961), ele, essencialmente lírico, que as coisas que se tornam poesia são, quase sempre ou sempre, as coisas findas (Drummond também o disse), aquelas irremediavelmente ultrapassadas, só passíveis de retornar pela vereda do quase inefável, da palavra em poesia. Estas observações não excluem o épico. Porque o épico – isto nos ensina Gerardo Mello Mourão – não se extinguirá, ao contrário do que afirmam os arautos de uma pós-modernidade (pós-modernismo, melhor dito) cega aos embates das civilizações, aquela merecedora de culto e esta, por resistir.

Tanto Murilo Mendes ou outro qualquer poeta lírico, hermético ou transparente (do trobar clus ou trobar leu), quanto um poeta voltado ao épico, pode prestar o seu tributo às coisas findas que retornam pela mágica palavra da poesia. Tem-se que o Épico é narrativo, fantástico, heroico. Ora, tanto ou mais fantástico pode ser o Lírico... Falando de ontem ou do que precisa ser feito para o amanhã.

(*) Membro da Academia Cearense de Letras (ACL).

Fonte: Publicado In: O Povo, de 26/12/2017. Opinião. p.11.

quarta-feira, 25 de novembro de 2020

E VEIO A PANDEMIA: entre erros e acertos

 Por Daniela Nogueira, Ombudsman de O Povo

A cobertura da campanha eleitoral passa a tomar conta mais fortemente dos espaços de jornais, portais e redes sociais dos veículos jornalísticos. Antes dedicado com vigor aos fatos relacionados à Covid-19, o noticiário se volta às eleições. A pandemia não acabou - por mais que muitos de nós tenhamos afrouxado as medidas de prevenção, seja por cansaço, seja por necessidade. Mas, nestes seis meses, há muitas lições e reflexões a serem extraídas no Jornalismo e no relacionamento com o público.

O teletrabalho, o "trabalho remoto", o home office, enfim, talvez esteja sendo a mudança mais desafiadora para os jornalistas. Trabalhar de casa já é uma atividade habitual para muitos - por escolha. Nos últimos seis meses, porém, virou corriqueiro para outros tantos - por imposição. Como sempre digo nas conversas de que participo nestes tempos: ninguém tinha uma Redação montada em casa, com equipamentos à disposição para ficarmos conectados por muitas horas ou um ambiente bacaninha para ser exibido despretensiosamente ao vivo.

Se a atividade jornalística já exige a (quase) instantaneidade das informações, nos tempos de quarentena essa cobrança foi ainda mais forte. E não permaneceu aí. Novos espaços surgiram para tirar dúvidas do público, principalmente pelos canais digitais. Vídeos e podcasts foram uma maneira mais didática e ágil que os veículos perceberam de compartilhar as informações. Em detrimento do crescimento das plataformas digitais, a quantidade de páginas dos jornais impressos diminuiu, seções foram suspensas e anúncios cortados, consequência da crise do impresso que se desenha há algum tempo.

A propósito, segundo pesquisa executada pela Provokers, encomendada pela organização Luminate, 65% dos leitores de veículos digitais no Brasil aumentaram o consumo de notícias. Desses, 83% dizem acessar as notícias uma vez por dia pelo menos.

Histórias

É certo que, ao longo de todo esse tempo, ouvimos muito do excesso de informações a que estávamos expostos. Quem pôde se afastou por um tempo, porque o assunto já tinha um apelo emocional por si. Lidar com a notícia de centenas de mortes por dia e ver as imagens chocantes de abertura de covas e caixões saindo das portas dos hospitais, além da repetição de uma série de cuidados preventivos, não era algo amistoso.

A imprensa esteve, por alguns meses, entre o limiar de fornecer as informações necessárias para o período delicado e ter a sensibilidade de não criar pânico, com alarmismos. Acertamos muitas vezes, erramos em outras tantas.

Acertamos quando divulgamos os números de casos e mortes (impactantes, mas necessários); quando interpretamos os dados divulgados, e não apenas publicamos sem contexto; quando nos preocupamos em focar no Ceará, mas alertar para o resto do País; quando expomos a situação dos hospitais e profissionais da saúde, que precisaram de uma atenção especial; quando contamos as histórias das pessoas. Jornalismo é isto - contar histórias.

Acertamos quando passamos a estudar mais as pesquisas e a interpretá-las, chamando a atenção para o jornalismo científico. A ciência, que tem estado no centro das discussões públicas, necessita do jornalismo para chegar de forma didática ao público. Temos mostrado que/como isso é possível.

O Jornalismo acerta, sobretudo, quando intensifica seu papel de combate à desinformação. A pandemia ratifica que, entre as principais dificuldades para combater as notícias fraudulentas, estão a velocidade com que elas se alastram, a disseminação dessas mentiras nas redes sociais e as formas de controle ainda frágeis. Quando o Jornalismo apura com precisão, checa e mostra o certo, não há como refutar.

Erramos, entretanto, quando demos espaço demais à politização do assunto, em detrimento do cuidado com a saúde pública; quando intensificamos o sensacionalismo desmedido em torno de um assunto já tão apelativo, seja por meio de títulos, seja pela repetição demasiada de fotos violentas; quando demoramos a desmentir os boatos que corriam pelas redes sociais (do chá que cura a Covid ao alho que previne), por exemplo.

O secretário estadual da Saúde, Dr. Cabeto, em entrevista publicada no O POVO (15/9/2020), comentou sobre erros e acertos: “O que poderíamos ter feito melhor? O mundo inteiro tem que reconhecer que desconhecia muita coisa da pandemia. (...) A forma de comunicação inicial. O mundo inteiro pautou uma coisa chamada: "não vá ao hospital, espere ter falta de ar". Acho que o mundo errou".

Lidar com erros e acertos exige de todos nós um esforço bem maior para aprender com todos eles, principalmente quando há vidas envolvidas. Para o Jornalismo, que lida com educação do público, é preciso nunca esquecer a força que tem no combate à desinformação no meio de uma pandemia.

Fonte: Publicado In: O Povo, Ombudsman, de 4/10/20. p.27.

quinta-feira, 9 de julho de 2020

TIBÚRCIO DE FREITAS NUM LIVRO RARO


Por Sânzio de Azevedo (*)

Luís Tibúrcio de Freitas nasceu no Ceará, não se sabe se em Cascavel ou em Baturité, em data ignorada

Tendo visto, no Panorama do Movimento Simbolista Brasileiro (1952), de Andrade Muricy, alusão ao romance Fretana, de Carlos D. Fernandes (1875-1942), poeta e jornalista paraibano que viveu no Rio, e sabendo haver nele dados sobre o Simbolismo, procurei-o pelos sebos da ex-Capital, até encontrá-lo. Publicado em 1936, é curioso observar que esse livro, que fala entre outras coisas da morte de Cruz e Sousa, apresenta o autor-narrador como Frederico Pestana (daí o nome Fretana), mas todos os demais personagens, todos reais, surgem com seus nomes verdadeiros, como Felinto de Almeida, Júlio César da Silva, José do Patrocínio e, naturalmente, Cruz e Sousa e outros.
O narrador é apresentado ao poeta dos Broquéis por um colega dos Correios, Tibúrcio de Freitas. O quarto onde moram três amigos é chamado de “O Antro”, e esses amigos eram o desenhista Maurício Jubim (que ilustrou livros simbolistas), Carlos D. Fernandes e Tibúrcio de Freitas, o cearense que, na Padaria Espiritual, em 1892, tinha o “nome de Guerra” Lúcio Jaguar.
Cruz e Sousa encontra-se com os amigos na rua do Ouvidor, em frente ao Jornal do Comércio, mas sempre vai ao quarto aludido, onde lê seus poemas recentes. Diz o narrador que todos o ouviam silenciosamente, mas acrescenta: “Apenas o Tibúrcio se permitia a liberdade de sugerir substituições no emaranhado daqueles lavores. Tendo em grande conta e maior estima a sutileza crítica do seu confidencial amigo, Cruz aceitava e cumpria os reparos, com a mais agradecida naturalidade.”
É curioso esse depoimento pelo fato de Tibúrcio de Freitas, que não deixou livro e pouco escreveu n’O Pão, órgão da Padaria Espiritual, não ser dos “padeiros” mais destacados.
Luís Tibúrcio de Freitas nasceu no Ceará, não se sabe se em Cascavel ou em Baturité, em data ignorada, e veio a falecer no Rio de Janeiro, no dia 8 de abril de 1918.
Para que fique aqui ao menos um trecho da prosa de Tibúrcio de Freitas, abro o nº 3 d’O Pão, de 30 de outubro de 1892 (numerado como 2), e reproduzo trecho de seu artigo “O Parque da Liberdade”:
A sensação que se tem indo ao Parque não é lá muito aperitiva e refrigerante, não. Seria o mesmo que sentiríamos se atravessássemos um pedaço de floresta devastada por um incêndio. Vivem ali apenas os capins entouceirados, uma ou outra árvore de decoração, as boas noutes solitárias, as parasitas e ervas maninhas de todos os gêneros.
E só...
(*) Doutor em Letras pela UFRJ. Professor aposentado da UFC. Membro da Academia Cearense de Letras (ACL)
Fonte: Publicado In: O Povo, de 26/12/2017. Opinião. p.11.

quarta-feira, 3 de junho de 2020

A BARBÁRIE VERTICAL


Por Luciano Maia (*)

Estes últimos, diga-se, civilizaram-se no contato com os povos europeus por eles dominados

O termo bárbaro, na antiguidade helênica, designava alguém que não falava o grego. Esse conceito migrou para Roma com o seu sentido ampliado: alguém que não falava grego ou latim, uma pessoa que não comungava da herança greco-romana. Depois, a semântica tratou de ampliar mais ainda o seu significado: todo indivíduo pertencente aos povos ditos migratórios (vindos, especialmente, da Europa oriental; godos, eslavos... e da Ásia: hunos, búlgaros...) que participasse das investidas contra o império romano, e depois, em época mais recente, turcos, húngaros e outros, todos, segundo a percepção romana, brutos, sanguinários e estupidamente ignorantes. Estes últimos, diga-se, civilizaram-se no contato com os povos europeus por eles dominados. Essas invasões, ditas bárbaras, deram-se de forma, digamos, horizontal: chegavam os invasores, ocupavam os territórios cobiçados e terminavam por assimilar a cultura ocidental, àquele tempo consubstanciada no legado greco-romano.
Hoje, no Brasil (vale para outros países, evidentemente) assistimos a uma invasão bárbara vertical (expressão tomada a Walther Rathenau (1867-1922), verificada em duas vertentes: no campo afetivo e no campo cultural. Naquele campo, observamos que se supervaloriza a força do corpo em detrimento da mente, do efêmero pelo duradouro, do espetacular pelo verdadeiro, do visual (e virtual) sobre o auditivo, da memória mecânica em detrimento da memória de ideias, da apologia sexual, da disseminação do mau gosto, da valorização do criminoso! No contexto da apreciação das manifestações culturais, dá-se um verdadeiro desprezo pela inteligência, a barbarização da ciência, a omissão sobre quem sabe pensar, um verdadeiro diálogo de surdos! A tendência de vulgarizar o escopo real da obra de arte, inserindo-se, na produção de obras duvidosas, acintes à inteligência, agressividade oca e gratuita...
Este cenário, bem característico dos atuais dias (e anos!...) em nosso país, é nutrido pelos meios de comunicação de massa, dia após dia... A espetacularização do noticiário ainda choca o espectador? Tentativa debalde, pois o que se apresenta aos seus olhos e ouvidos são de uma mediocridade que dói... Apenas realimenta a sua ignorância. Os arautos dessa invasão bárbara vertical não querem se dar conta do incalculável prejuízo causado por esse frenesi, ao fim e ao cabo, sem nenhum sentido, a não ser o da dominação, com a condenação à ignorância compulsória.
(*) Membro da Academia Cearense de Letras (ACL)
Fonte: Publicado In: O Povo, de 12/12/2017. Opinião. p.11.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

CECÍLIA MEIRELES


Por Luiz Gonzaga Fonseca Mota (*)
Após mais de cinco décadas do seu falecimento ainda não surgiu no Brasil uma poeta com sentimentos tão profundos como Cecília Meireles (07/11/1901- 09/11/1964). Carioca, da Tijuca, na juventude estudou história, línguas, filosofia e manifestações orientais, dentre outros ramos do conhecimento. Seu primeiro livro de versos, “Espectros”, foi publicado em 1919, quando ainda contava 18 anos de idade, recebendo muitos elogios por parte da crítica. A partir de então, passou a escrever de forma intensa e ganhou prêmios, condecorações e ficou famosa internacionalmente. Lembramo-nos de Criança meu amor; Poemas dos poemas; Pequeno Oratório de Santa Clara; Romanceiro da Inconfidência e tantas outras obras. A poesia lírica de Cecília é uma das mais perfeitas e bonitas da literatura contemporânea. Traduzida para vários idiomas e musicada por muitos compositores famosos. Em “Romanceiro da Inconfidência”, acreditamos ser sua criação mais bela, vejamos alguns trechos: “Liberdade, essa palavra que o sonho humano alimenta, que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda”. “Tudo me fala e entendo: escuto as rosas e os girassóis desses jardins, que um dia foram terras e areias dolorosas”. Como são lindos os versos de Cecília Meireles! Em seus livros, Cecília sempre revelou sua preocupação com os problemas sociais. Sua poesia é considerada, pelos críticos, intemporal, pois vivendo sob a influência do modernismo mostra aspecto do simbolismo e criações literárias do classicismo, do romantismo, do parnasianismo, do realismo, e também do surrealismo. Não temos palavras para expressar a nossa admiração literária por Cecília No entanto, podemos resumir sua simplicidade e melancolia nesses quatro versos da poesia Atitude: “Minha esperança perdeu seu nome.../ Fechei meu sonho para chamá-la./ A tristeza transfigurou-me/ Como o luar que entra numa sala.
(*) Economista. Professor aposentado da UFC. Ex-governador do Ceará.
Fonte: Diário do Nordeste, Ideias. 14/2/2020.

terça-feira, 7 de janeiro de 2020

POETA OCEÂNICO


Por Luciano Maia (*)

Jorge Tufic é poeta, acima de qualquer outra coisa, ou seja, a sua dedicação à arte de escrever poemas é visceral

A poesia brasileira tem, em seus poetas gênios criadores, quando antenados com a realidade profunda e, mais ainda, com a realidade absconsa (a mais verdadeira) ou pouco visível aos olhos menos experimentados ou menos atentos, que é a dos mitos ancestrais e da força telúrica que esta Terra Brasilis guarda e engendra.
Um desses gênios criadores é Jorge Tufic, cearense nascido no Acre. Curioso: o Acre, para onde acorreram no passado milhares de cearenses, nos presenteou com este poeta, nas “horas vagas, pastor de ovelhas” das altas constelações do céu da Fenícia, libanês e brasileiro vocacionado ao universo das grandes manifestações da alma; Jorge Tufic é poeta, acima de qualquer outra coisa, ou seja, a sua dedicação à arte de escrever poemas é visceral, essencial, ele é um dos que buscam com paixão consciente o caminho que vai dar no encontro com a inefável palavra-luz da verdadeira poesia. É fulcral, sendo ao mesmo tempo algo que se transpira à vista do leitor-criador que tem a felicidade de se encontrar com a sua leitura, usufruindo desse manancial de sugestões de altíssimo teor, mais do que tudo, humano.
Habitantes de outras línguas já tiveram o prazer de ler Jorge Tufic. E agora, numa oportunidade esplêndida, o poeta será publicado no idioma de Baudelaire, mercê do trabalho de um ourives da recriação, quando o assunto é a transposição de poesia para o francês; digo, sem nenhum temor de proferir um descalabro ou uma heresia: Jean-Pierre Rousseau é, definitivamente, o melhor tradutor da poesia brasileira para a sua langue pleine de prestigie. O francês é isto, especialmente no campo da literatura, em face da inigualável produção poética dos séculos XVIII e XIX, por poetas geniais.
A antologia de poemas de Jorge Tufic em tradução de Jean-Pierre Rousseau intitula-se Qu’adviendra-t-il de toi, Amazonie? / Que será de ti, Amazônia?, editada por Paradigme, de Orléans, no primeiro semestre de 2018. Tive a subida honra de ser convidado a escrever o prefácio dessa obra magnífica.
Quem conhece a poesia oceânica de Tufic (há os poetas de cabotagem e os poetas oceânicos) e tiver a curiosidade de lê-la em francês, se encantará com esse encontro que semelha desde sempre marcado, tal é a fidelidade do tradutor com os meandros dos igarapés que Tufic fez afluírem ao grande rio para depois lançá-los aos oceanos de todas as latitudes. Grata fica a poesia com esta celebração.
(*) Membro da Academia Cearense de Letras (ACL)
Fonte: Publicado In: O Povo, de 14/11/2017. Opinião. p.11.

sexta-feira, 22 de novembro de 2019

EU LI TERAPIA


Literapia pretende divulgar os criadores de arte e literatura sem entraves aos autores iniciantes

As revistas literárias têm, no Ceará, uma presença tão marcante quanto efêmera, na imensa maioria delas. Assim tem sido com praticamente todas, nos últimos cinquenta anos. Este, no entanto, não parece ser o caso de Literapia, que tem no médico e poeta Pedro Henrique Saraiva Leão o seu editor. Literapia foi lançada ao público em 1999, portanto há 18 anos; o seu número zero é de junho daquele ano. E em outubro de 2016 alcança o número 23. A sua tiragem se pretende semestral e praticamente tem sido assim, mercê do mecenato de alguns amigos das letras, que viabilizam a sua continuidade, com alentadas tiragens.
Literapia se propõe publicar autores do Ceará, preferencialmente; mas tem contemplado autores de outras paragens, nomeadamente figuras já conhecidas e respeitadas no cenário da criação artística e literária. Tenho a honra de me poder dizer amigo do editor, com quem convivo e reparto bons momentos de conversações em torno do fenômeno da criação. Pedro Henrique é possuidor de uma verve bem-humorada, fazendo lembrar a admirável fleuma britânica. Lembremos a sua estada na Grã-Bretanha nos anos de sua formação profissional, tendo lá sido aceito como médico já de renome, por sua capacidade e proficiência.
Mas quero aqui destacar o poeta, autor de uma vasta obra, em que se mesclam experiências de vanguarda criativa, ao tempo em que o neoconcretismo era praticado no Brasil com mais constância. Ele foi, juntamente com poucos outros, pioneiro dessa corrente no Ceará. A par disso, PHSL é mestre de um lirismo denso, sem ser derramado; sutil, sem ser demasiadamente hermético.
Literapia pretende divulgar os criadores de arte e literatura sem entraves aos autores iniciantes. Mas é um de seus lemas não aceitar colaborações oferecidas: a participação na revista há que ser solicitada.
Literapia tem-se caracterizado por uma qualidade gráfica excelente e uma diagramação idem. Estas condições se devem a Geraldo Jesuíno da Costa, exímio artista plástico e competente diagramador, além de ser ele também refinado autor literário.
O nome da revista é uma feliz invenção de PHSL. Alude à cura pelas letras. E há ainda outras possibilidades de leitura desse neologismo: eu, por exemplo, costumo dizer que já li terapia, como continuo lendo. Também a veneração das letras: litera-pia. O seu propósito e louvável e bem conseguido.
Vida longa à Literapia! Que continuemos a usufruir de suas páginas agradabilíssimas e edificantes!
(*) Membro da Academia Cearense de Letras (ACL)
Fonte: Publicado In: O Povo, de 31/10/2017. Opinião. p.11.

terça-feira, 13 de agosto de 2019

UMA POETISA CEARENSE



Por Sânzio de Azevedo (*)
Desde cedo a poetisa frequentava periódicos como A Quinzena, do Clube Literário
Atualmente nossa terra tem inúmeras poetisas (não uso poeta quando falo de mulheres), mas no século XIX o número era bem menor. Antônio Sales, em texto de 1922, ao tratar de mulheres escritoras, depois de citar F. Clotilde e Emília Freitas, revela: “Logo após surgiu um estro delicado, de um feitio artístico bem acentuado, o de Ana Nogueira, que há longos anos emudeceu, tendo deixado, porém, alguns atestados eloquentes da sua inspiração e do seu bom gosto.”
Ana Nogueira Batista, que assim passou a se assinar quando se casou com o poeta Sabino Batista, um dos fundadores da Padaria Espiritual, nasceu no Icó, em 22 de outubro de 1870, vindo a falecer em Niterói, RJ, aos 96 anos de idade, no dia 22 de maio de 1967, como me informou seu bisneto Luiz Eduardo Nogueira Lerina.
Desde cedo a poetisa frequentava periódicos como A Quinzena, do Clube Literário, ao lado de nomes, alguns consagrados, como Rodolfo Teófilo, Juvenal Galeno, Oliveira Paiva, José Carlos Júnior, Francisca Clotilde e outros. Escreveu em O Pão da citada Padaria Espiritual, e no jornal A República, sendo que neste último conquistou o 1º lugar em um concurso de 1899, com a tradução, do francês, de um soneto de François Coppée.
N’A Quinzena, no número de 28 de março de 1888, assinando-se Ana Nogueira, ela estampou “Teu Olhar”, soneto cujo final diz: “Ao céu azul, sereno e radiante, / Ao claro céu de maio fulgurante, / À branca luz virgínea do luar; // A tudo isto que o universo adora, / As rosas, lírios, aves e aurora, / Prefiro a doce luz do teu olhar.”
Mário Linhares, em sua História Literária do Ceará (1948), transcreve da escritora o soneto “Mater Dolorosa”, de “suave efusão religiosa”, como ele observa: “Vejo-te aqui no transe angustiado / Em que, oh! Santa Mãe, tu mais sofreste. / Que copiosas lágrimas verteste / Sobre este corpo frio, inanimado!... //Bem caro te custou nosso pecado! / Que infinita amargura padeceste / Quando, em teus braços, morto, recebeste/ O teu doce Cordeiro Imaculado! // Mas entretanto, oh! Mater Dolorosa, /A humanidade, sempre criminosa, / Entregue ao vício, entregue à perdição, // - Não te compensa o sacrifício ingente, / Não vê que tu, por nosso amor somente, / Tens sete espadas sobre o coração!”
Ana Nogueira Batista não publicou o livro “Carmes”, anunciado em sua mocidade, mas, aos 94 anos de idade, segundo ainda seu bisneto, aqui referido, seus netos fizeram editar no Rio de Janeiro seu livro Versos em 1964.
(*) Doutor em Letras pela UFRJ; membro da Academia Cearense de Letras (ACL)
Fonte: Publicado In: O Povo, de 26/07/2016. Opinião. p.11.

quarta-feira, 8 de maio de 2019

ESSA TAL DE LÍNGUA PORTUGUESA



Por Eduardo Affonso, arquiteto e escritor mineiro
Volta e meia alguém olha atravessado quando escrevo “leiaute”, “becape” ou “apigreide” – possivelmente uma pessoa que não se avexa de escrever “futebol”, “nocaute” e “sanduíche”.
Deve se achar um craque no idioma, me esnobando sem saber que “craque” se escrevia “crack” no tempo em que “gol” era “goal”, “beque” era “back” e “pênalti” era “penalty”. E possivelmente ignorando que esnobar venha de “snob”.
Quem é contra a invasão das palavras estrangeiras (ou do seu aportuguesamento) parece desconsiderar que todas as línguas do mundo se tocam, como se falar fosse um enorme beijo planetário.
As palavras saltam de uma língua para outra, gotículas de saliva circulando em beijos mais ou menos ardentes, dependendo da afinidade entre os falantes. E o português é uma língua que beija bem.
Quando falamos “azul”, estamos falando árabe. E quando folheamos um almanaque, procuramos um alfaiate, subimos uma alvenaria, colocamos um fio de azeite, espetamos um alfinete na almofada, anotamos um algarismo.
Falamos francês quando vamos ao balé, usamos casaco marrom, fazemos uma maquete com vidro fumê, quando comemos um croquete ou pedimos uma omelete ao garçom; quando acendemos o abajur pra tomar um champanhe reclinados no divã ou quando um sutiã provoca um frisson.
Falamos tupi ao pedir um açaí, um suco de abacaxi ou de pitanga; quando vemos um urubu ou um sabiá, ficamos de tocaia, votamos no Tiririca, botamos o braço na tipoia, armamos um sururu, comemos mandioca (ou aipim), regamos uma samambaia, deixamos a peteca cair. Quando comemos moqueca capixaba, tocamos cuíca, cantamos a Garota de Ipanema.
Dá pra imaginar a Bahia sem a capoeira, o acarajé, o dendê, o vatapá, o axé, o afoxé, os orixás, o agogô, os atabaques, os abadás, os babalorixás, as mandingas, os balangandãs? Tudo isso veio no coração dos infames “navios negreiros”.
As palavras estrangeiras sempre entraram sem pedir licença, feito uma tsunami. E muitas vezes nos pegando de surpresa, como numa blitz.
Posso estar falando grego, e estou mesmo. Sou ateu, apoio a eutanásia, gosto de metáforas, adoro bibliotecas, detesto conversar ao telefone, já passei por várias cirurgias. E não consigo imaginar que palavras usaríamos para a pizza, a lasanha, o risoto, se a máfia da língua italiana não tivesse contrabandeado esse vocabulário junto com a sua culinária.
Há, claro, os exageros. Ninguém precisa de um “delivery” se pode fazer uma “entrega”, ou anunciar uma “sale” se se trata de uma “liquidação”. Pra quê sair pra night de bike, se dava tranquilamente pra sair pra noite de bicicleta?
Mas a língua portuguesa também se insinua dentro das bocas falantes de outros idiomas. Os japoneses chamam capitão de “kapitan”, copo de “koppu”, pão de “pan”, sabão de “shabon”. Tudo culpa nossa. Como o café, que deixou de ser apenas o grão e a bebida, para ser também o lugar onde é bebido. E a banana, tão fácil de pronunciar quanto de descascar, e que por isso foi incorporada tal e qual a um sem-fim de idiomas. E o caju, que virou “cashew” em inglês (eles nunca iam acertar a pronúncia mesmo).
“Fetish” vem do nosso fetiche, e não o contrário. “Mandarim”, seja o idioma, seja o funcionário que manda, vem do portuguesíssimo verbo “mandar”. O americano chama melaço de “molasses”, mosquito de “mosquito” e piranha, de “piranha” – não chega a ser a conquista da América, mas é um começo.
Tudo isso é a propósito do 5 de maio, Dia da Língua Portuguesa, cada vez mais inculta e nem por isso menos bela. Uma língua viva, vibrante, maleável, promíscua – vai de boca em boca, bebendo de todas as fontes, lambendo o que vê pela frente.
Mais de oitocentos anos, e com um tesão de vinte e poucos.
Fonte: Internet (circulando por e-mail e i-phones). Disponível em vários blogs.
Nota do Editor do Blog: Para comemorar o Dia da Língua Portuguesa, acontecido em 5 de maio.
 

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