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domingo, 30 de agosto de 2026

Encontrar Deus nas pequenas coisas: o legado de Santo Inácio

Por Pe. Eugênio Pacelli SJ (*)

No dia 31 de julho, a Igreja celebra Santo Inácio de Loyola, fundador da Companhia de Jesus e um dos maiores mestres da espiritualidade cristã. Diferentemente do que fazemos ao comemorar aniversários, a liturgia recorda o dia de sua páscoa definitiva, sua entrada na vida eterna. Mais do que recordar uma data, celebramos o testemunho de uma vida que continua iluminando pessoas em busca de sentido.

Vivemos um tempo marcado pela velocidade, pela hiperconectividade e pela dificuldade de permanecer em silêncio. Somos constantemente estimulados a produzir, responder e consumir, mas pouco ensinados a contemplar. É justamente nesse cenário que a espiritualidade inaciana revela toda a sua atualidade. Santo Inácio nos convida a desacelerar, a discernir e a reconhecer que Deus continua presente na simplicidade da vida.

Seu ensinamento mais conhecido, "encontrar Deus em todas as coisas", é um verdadeiro caminho de transformação. Deus não se manifesta apenas em acontecimentos extraordinários ou em momentos de intensa emoção religiosa. Ele também está na mesa compartilhada em família, no trabalho realizado com honestidade, no gesto de perdão, na escuta atenta, na contemplação da natureza e no cuidado com o outro.

Essa espiritualidade torna-se necessária dentro das famílias. Em meio às telas, às agendas cheias e à convivência cada vez mais apressada, corremos o risco de estarmos fisicamente próximos, mas emocionalmente distantes. Santo Inácio nos recorda que a presença é uma forma de amor e que Deus costuma falar nos espaços onde existe atenção, escuta e disponibilidade interior.

Pausa não representa perda de tempo, mas exercício de sabedoria. Quando silenciamos o coração, reorganizamos os afetos e recuperamos a capacidade de perceber a presença amorosa de Deus no cotidiano. Essa também é a inspiração de Tempo de Pausa e Calma: recordar que a serenidade nasce da confiança em Deus e da disposição de viver cada instante com profundidade.

Celebrar Santo Inácio é renovar esse convite. Em um mundo fascinado pelo extraordinário, talvez a maior revolução espiritual seja aprender a reconhecer Deus nas pequenas coisas.

(*) Sacerdote jesuíta e mestre em Teologia. Escritor. Diretor do Mosteiro dos Jesuítas de Baturité e do Polo Santo Inácio. Fundador do Movimento Amare.

Fonte: O Povo, de 25/07/2026. Opinião. p.22.


sábado, 29 de agosto de 2026

Sob o manto da mãe do Carmelo

Por Pe. Reginaldo Manzotti (*)

Há amores que o tempo não apaga. Há experiências de Deus que marcam a alma para sempre. E há devoções que se tornam morada permanente dentro do coração sacerdotal. Assim é minha relação com Nossa Senhora do Carmo.

Sou padre, filho do Carmelo por vocação e amor, hoje diocesano pois a Providência me conduziu pelos caminhos da Igreja e me confiou uma missão diferente daquela que um dia imaginei viver. Contudo, existe algo que nunca deixei para trás: meu amor profundo pela Mãe do Carmelo. Ainda carrego no peito o santo escapulário, ainda me emociono ao ouvir os antigos cantos carmelitas, ainda sinto o perfume espiritual do Carmelo cada vez que pronuncio o nome daquela que sempre considerei minha Mãe, minha Rainha e minha Protetora.

Meu sacerdócio foi consagrado a ela, a Obra Evangelizar é Preciso a tem como Madrinha. E, enquanto eu tiver voz, falarei da beleza da força do escapulário e da ternura da Virgem Santíssima.

Foi Ela quem me tomou pela mão nos dias de prova e quem me conduziu à fonte da compaixão sacerdotal. Ao celebrarmos sua festa, quero partilhar um pouco desse afeto e da graça que recebi, para que outros também encontrem refúgio no manto da Mãe do Carmelo.

Quantas vezes, nos momentos difíceis do meu ministério, segurei o escapulário e rezei em silêncio! Quantas vezes senti que a Virgem do Carmo me sustentava quando minhas forças humanas já não bastavam!

E posso testemunhar: Maria jamais abandona os filhos que a ela se consagram.

Existe uma razão ainda mais profunda pela qual prometi anunciar a Mãe do Carmelo por onde eu passar.

Num tempo de angústia, minha família passou por uma provação, com um diagnóstico de câncer. Foi então que recorri à Mãe do Carmelo e pedi pela minha irmã. Não como padre. Não como alguém forte. Mas como um filho necessitado do colo da mãe. Em oração, clamei à Mãe do Carmo com a simplicidade de quem confia tudo à Sua Mãe. Foi nessa confiança que vi brotar a graça da cura. Não nego a ação dos tratamentos; porém, para nós, aquele restabelecimento teve o caráter de um milagre, uma luz que revelou a presença materna de Maria em meio à nossa dor.

Diante dessa graça intensifiquei minha promessa: por onde eu for, proclamarei o amor de Nossa Senhora do Carmo e recomendarei o escapulário como sinal de consagração e proteção.

Muitas vezes, vejo pessoas usando o Escapulário do Carmo como se fosse um "patuá", ou um simples ornamento. Meus filhos e filhas, o Catecismo da Igreja Católica nos ensina no parágrafo que a religiosidade popular, como o uso de sacramentais, deve ser uma extensão da vida litúrgica da Igreja (cf. CIC 1674).

O Escapulário é um Sacramental. Diz o Catecismo: "Os sacramentais não conferem a graça do Espírito Santo à maneira dos sacramentos; mas, pela oração da Igreja, preparam para receber a graça e dispõem para cooperar com ela." CIC (1670).

Quando você coloca o Escapulário, você está dizendo: "Maria, eu sou Teu". É como se você estivesse vestindo a "farda" da Rainha. E uma Rainha nunca deixa um soldado Seu desamparado no meio da batalha.

Por isso, reforço: o escapulário do Carmelo não é um amuleto, mas um sacramental que nos recorda nossa pertença a Cristo por Maria; é chamado à conversão diária, à oração e à perseverança. Vestir-se do escapulário é vestir-se da confiança filial que nos impele a viver segundo o Evangelho.

Nossa Senhora do Carmo nos ensina a contemplação ativa: juntar a oração ao serviço, o recolhimento à caridade, o silêncio à palavra que consola. Ela não é um fim em si mesma, mas a estrada segura que nos leva ao Filho. No Carmelo aprendi que todo gesto mariano deve desembocar no mistério pascal de Cristo - e foi essa verdade que quis levar comigo ao me tornar padre diocesano.

Convido vocês a entregar a vida a Maria: confiar-lhe as angústias, entregar aos cuidados da Mãe, sua casa. Colocar no peito o escapulário como lembrete de uma filial pertença. Quem se entrega verdadeiramente a Maria jamais caminha sozinho.

Que a Mãe do Carmelo, a Virgem que acompanha os passos dos seus filhos, interceda por nós e nos conduza sempre mais perto do seu Filho Jesus.

(*) Fundador e presidente da Associação Evangelizar é Preciso e pároco reitor do Santuário Nossa Senhora de Guadalupe, em Curitiba (PR).

Fonte: O Povo, de 11/07/2026. Opinião. p.22.


sexta-feira, 20 de março de 2026

São José, paladino de nossa salvação

Por Pedro Bezerra de Araújo – Pierre Nadie

José, filho de Jacó, descendente de Davi, nascido em Belém, teve uma boa formação, no seio de sua família. Radicado em Nazaré, conhecia de perto a família de Maria e admirava a firmeza de educação que Joaquim e Ana ministravam a Maria, sua futura esposa.

Isso posto, algumas considerações:

A história ignota de José pulsa, visível e vibrante, em suas atitudes como homem, esposo e pai adotivo, sediada no caráter, na lealdade, na humildade e na fé.

Embora não se saiba, em que idade, mudou-se para Nazaré, José conhecera a família de Maria, talvez, no seu mister de fabro e dedicava-lhe profunda admiração.

O silêncio, que perpassa toda a sua história, desenhou a grandeza de seus feitos, que os fatos revelam. E, diante de fatos, ideias, opiniões e tudo se calam, porque a luz, que brilha, clareia e atrai.

Imaginar um homem, cheio de amor por uma mulher, em véspera de casamento, deparar-se com uma súbita e inexplicável gravidez, é não ceder à fragilidade natural, é não se dar a um juízo apriorístico, é ser mais forte que os sentimentos e pensamentos que pretendem vaguear pelos meandros da mente.

José sentiu esse espinho, mas pensou na rosa, cujo perfume fez-se mais possante que o incômodo do espinho.

Sentindo-se impotente de compreender o que lhe parecia incompreensível, sua mente inquieta e atormentada, adormece-lhe o corpo cansado e, naquele sono irrequieto, uma visão o acalma e ratifica o parecer, que sua alma sempre lhe dizia de sua noiva.

Uma visão onírica e não uma aparição foi suficiente para a humildade da fé de José.

Ora, acreditar em visões não é tão fácil, pelas diversas circunstâncias e situações em que ocorrem, quanto mais dar crédito a sonhos.

E José acreditou, pois, no fundo de sua alma, essa fé já havia criado raízes e o amor da mulher amada falava-lhe de afeto, carinho e pureza virginal.

Eles provêm de insensibilidade invisível, que ultrapassa o além do visível, podem ser sintomas, premonições ou avisos e, muitas vezes, padecem de frustrações, sentimentos calcados e refugados. Sonhos levam a uma dimensão, onde a liberdade de devaneios, de imaginação não se prende a limites, onde a liberdade espraia-se além das fronteiras contingentes.

Sonhos são sonhos e podem não ser nada mais.

Para José, assim como para outros personagens bíblicos, em outros tempos e situações, sonhos foram linguagem de Deus e a esta linguagem sua fé curvou-se, incontinenti. No silêncio de sua alma, José escutou, nada perguntou, nem questionou, apenas obedeceu.

O mistério do DNA de Deus guardou-o consigo, tomou Maria como esposa e assumiu-se paladino do Salvador, até seus últimos dias, quando adormeceu, acolitado por ambos.

Seu silêncio ficou silenciado no seio da Igreja, por séculos, até que sua grandeza brilhou, intensamente, quando, em 8 de dezembro de 1870, a Sagrada Congregação dos Ritos promulgou o decreto QUEM AD MODUM DEUS (Da mesma maneira que Deus), que comunicou a decisão do Papa Pio IX de declarar São José como Patrono da Igreja Universal.

A inexcedível e extraordinária grandeza de São José põe-no acima de todos os santos, somente abaixo de Maria Santíssima.

São José, rogai por nós, pela Igreja, pelos sacerdotes e religiosos, por todos os cristãos, pelo mundo e pela Pátria Brasileira.

Tenhamos uma boa sexta-feira, com as bênçãos de Deus!!!

(*) Pediatra e professor da Uece aposentado. Enviado por WhatsApp em 20/03/26.


domingo, 15 de fevereiro de 2026

Um preito à Nossa Senhora, mãe de Jesus

Por Pedro Jorge Ramos Vianna (*)

Li no Jornal O POVO de 07 deste mês, um trabalho acerca da posição do Papa Leão XIV sobre a não aceitação da condição de Nossa Senhora como "correndentora" pelas outras igrejas cristãs, não-católicas.

O trabalho deixa a mensagem que essa é uma atitude do Papa em direção a um maior entendimento com as outras igrejas ditas "cristãs".

È claro que não se pode comparar Maria com Jesus Cristo. Este é Deus, Maria é humana.

Entretanto o poder que DEUS lhe deu a qualifica para ser, pelo menos, a condutora dessa humanidade desvairada, que tanto precisa de suas graças.

Há de se considerar a imensa coragem dela em aceitar o "encargo" de ser mãe solteira. Se São José não a aceitasse ela seria morta por apedrejamento.

Por outro lado, nas suas aparições Ela já deu provas de seu poder. Aqui vou lembrar alguns fatos.

NOSSA SENHORA DE FÁTIMA

Em 13 de outubro de 1917, 70 mil pessoas, incluindo jornalistas, testemunharam o milagre que tinha sido anunciado pelas três crianças portuguesas. Ao meio-dia, depois de uma forte chuva que parou de repente, as nuvens se abriram diante dos olhos de todos e o sol surgiu no céu como um disco luminoso opaco, que girava em espiral e emitia luzes coloridas

NOSSA SENHORA DE GUADALUPE

A imagem de Nossa Senhora de Guadalupe surgiu em 1531, quando a Virgem Maria apareceu perto da Cidade do México. Como prova, o índio Juan apresentou seu manto, um tecido feito de fibra de cacto e de qualidade bem pobre, no qual a imagem de Maria foi "impressa" depois da aparição. O material foi analisado em diversas ocasiões por cientistas, que nunca conseguiram determinar como a imagem surgiu sobre o tecido. Mais impressionante ainda: não é uma imagem pintada ou estampada no tecido: ela flutua ligeiramente acima do tecido! Ainda hoje o manto está intacto.

NOSSA SENHORA DO BOM CONSELHO

Na Capela de Escodra (Albânia), tinha um ícone de Nossa Senhora, conhecida como Nossa Senhora de Escodra.

Durante um cerco à cidade, dois albaneses devotos se postaram ao pé da imagem e rezaram para que pudessem escapar com segurança. Então a imagem se desprendeu do altar e flutuou no ar, saindo da Capela. Os dois homens, Gjorgji e De Sclavis, seguiram a pintura, até a Itália.

Na cidade Genazzano (Itália),na festa de São Marcos, em 25 de abril daquele ano (1467), a população se reuniu para festejar. Por volta das 16h o povo ouviu uma bela música, e procurou de onde vinha.

Então viram uma nuvem, em meio ao céu claro, descer do céu e cobrir uma das paredes da igreja, lá permanecendo por algum tempo. Quando a nuvem se dissipou, a população viu sobre a parede uma pintura da Virgem com o Menino onde nada existia antes.

Foram milagres vistos por milhares de pessoas!

Por que não ser devoto Dela?

(*) Economista. Professor titular aposentado da UFC.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 11/01/26. Opinião. p.20.


quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

UMA SUMÁRIA REFLEXÃO

Por Pedro Bezerra de Araújo – Pierre Nadie (*)

Conta-se que, certa vez, numa instituição, havia uma diretora muito sagaz. Era assaz comunicativa e seu sorriso constante cativava os seus funcionários. Costumava apaziguar os ânimos, quando os espíritos se inflamavam.

Havia, no entanto, algo de estranho, na sua postura, que intrigava. Isto chamou a atenção e um seu assessor percebeu que, no surgimento de qualquer diatribe, seu sorriso não era franco, senão matreiro, perdia aquela beleza que cativava as pessoas.

Como nada se mantém escondido por todo tempo, a verdade surgiu. Percebeu-se que ela provocava os mal-estares e as confusões, para, em seguida, aparecer como uma pessoa pacificadora, amante da paz e da harmonia. E, como tal, receber os apupos e os aplausos, navegando na crista da onda.

Essa história, história com h, inspira algumas reflexões no mundo polímata de opiniões e ideias, desde as mais simples até as mais estapafúrdias, passando pelas sábias e prudentes.

Refiro-me ao Sistema Perverso, que a criatura humana tem inventado e alimenta, na mediocridade de seu livre arbítrio.

(*) Pediatra e professor da Uece aposentado. Enviado por WhatsApp em 22/01/26.

quinta-feira, 30 de outubro de 2025

Papa João Paulo II e Santo Padre Pio de Pietrelcina, o encontro em vida, de dois santos da Igreja Católica

Por Pe. Reginaldo Manzotti (*)

Dia 22 de outubro, a Igreja recordou o início do pontificado de João Paulo II (1978). Karol Wojtyla (seu nome de batismo) foi polonês, nasceu na cidade de Wadowice no de ano de 1920. Foi eleito a Papa com 58 anos de idade e marcou gerações com sua vida de santidade.

O momento do encontro entre João Paulo II e São Pio de Pietrelcina, ocorreu em uma visita de Karol Wojtyla a paróquia que São Pio residia em São Giovanni Rotondo, Itália. O cenário daquela época era pós-guerra.

O mundo acabava de viver um período de tensão e conflito com a Primeira e Segunda Guerra Mundial. Muitos fiéis se deslocavam quilômetros de distância para se confessar com São Padre Pio, pois até então, já estava bastante conhecido entre as regiões e cidades vizinhas, pelos fatos milagrosos ocorridos pela intercessão de São Pio.

Em uma dessas visitas, Padre Pio recebe o jovem seminarista, Karol Wojtyla. Alguns dizem, que naquela ocasião, Padre Pio profetizou que ele seria o futuro Papa da Igreja Católica, mas haveria sangue e violência. De fato, isso aconteceu. Karol Wojtyla torna-se Papa e mais tarde, no ano de 1981, se dá o atentado de assassinato contra Wojtyla, um crime que comoveu a todos.

Outro fato interessante sobre estes dois grandes santos, agora comprovado por cartas e outros documentos, foi a intercessão de São Pio. Era o ano de 1962 e Wojtyla era o bispo auxiliar de Cracóvia. Wojtyla escreve a São Pio, lhe pedindo orações para a cura de um câncer de sua amiga. Logo em seguida, lhe escreve novamente, agradecendo a intercessão pela graça recebida.

O pontificado de São João Paulo II foi marcado pelo seu amor ao Santíssimo Sacramento, a devoção à Virgem Maria, o amor humano, à Santa Cruz e aos jovens. Em um de seus pronunciamentos na Assembleia do Celam, em Puerto Príncipe, no Haiti, em 1983, Papa João Paulo II pede pelo ardor e devoção na Evangelização em seus métodos e em sua expressão. Inspirado nesta mensagem e outros momentos catequéticos do Papa João Paulo II, nasce a Obra Evangelizar É Preciso que leva São Padre Pio como intercessor.

O que podemos aprender com estes dois grandes santos? A perseverança e confiança. Eles passaram por tempos muito difíceis, guerra e sofrimento. Deus estava presente, assim como está conosco atualmente. Por isso, não esmorecemos na Fé. Lutaremos com as armas de Deus: Oração, confissão e jejum.

Que estes dois grandes santos, São Padre Pio e João Paulo II, intercedam pela paz no mundo.

(*) Fundador e presidente da Associação Evangelizar é Preciso e pároco reitor do Santuário Nossa Senhora de Guadalupe, em Curitiba (PR).

Fonte: O Povo, de 4/10/2025. Opinião. p.18.

domingo, 19 de outubro de 2025

Por que um santo de calça jeans incomoda tanto?

Por Denilson Rodrigues de Sousa (*)

O mundo acompanhou no domingo, 7, a canonização de Carlo Acutis, o primeiro da geração millennial, composta por pessoas que nasceram entre o início dos anos 1980 e meados dos anos 1990. Em vida, o jovem italiano ficou conhecido por seus gestos de caridade e por navegar por um universo bem familiar a muitos de nós e que, à época, ainda estava em seu nascimento: a internet.

Junto às publicações sobre o "padroeiro da internet", também surgiram, em menor escala, comentários repletos de deboche: "Mah rapá, santo da internet é muita onda pra pouco mar", "Amava a internet e videogame, bem crente ele". Mais do que divergências religiosas, o que se viu foi a atualização de velhas práticas: intolerâncias, preconceitos, etarismos etc.

É curioso notar como, historicamente, toda geração jovem enfrentou resistência ao propor novos modos de expressar suas afinidades. "Todos nascemos originais, mas muitos morrem como fotocópias", afirmava Carlo. Embora o millennial canonizado esteja longe de ser um hipster, o incômodo persiste. Talvez porque ele não corresponda ao estereótipo que se deseja impor aos jovens: alienados, imaturos, presos a telas, sem responsabilidade.

O Papa Francisco afirmou que a lógica digital favorece "o encontro entre pessoas com as mesmas ideias, dificultando o confronto entre as diferenças" e, assim, fomenta preconceitos, ódio e desinformação. Essa intolerância na internet revela algo maior: o esvaziamento da nossa sociedade civil, como analisa Muniz Sodré. Na guerra das redes, quem forma os jovens? Enquanto o desprezo às juventudes perdurar, a artilharia do ódio sempre terá munição.

Por outro lado, em uma era em que qualquer um pode influenciar o outro, visando o lucro, um jovem que soube usar as redes para o bem e que, embora rico, optou por não ser dominado pelo consumismo, parece ser uma ótima alternativa. Nesse ponto, sua imagem é revolucionária, porque nada contra a corrente de uma cultura que se acostumou a ver a internet como campo de batalha.

A canonização de Carlo está além de um ato religioso: é um lembrete de que a juventude não é apenas uma fase de transição, mas um lugar de construção de valores e de futuro. Se um santo de calça jeans incomoda, é porque expõe o quanto ainda temos dificuldade em aceitar que os jovens possam ser, ao mesmo tempo, filhos do seu tempo e sinais de algo maior.

No fim, talvez o que mais provoque não seja o título de "santo da internet", mas a possibilidade de que, mesmo em meio a um ambiente inflamado por ódio e desinformação, um jovem tenha escolhido outro caminho - e que este caminho seja agora reconhecido como digno de ser seguido.

(*) Radialista de Rádio O Povo CBN Cariri.

Fonte: O Povo, de 20/09/2025. Opinião. p.19.


segunda-feira, 9 de junho de 2025

MARIA: o coração materno do mês de maio

Por Pe. Eugênio Pacelli SJ (*)

Maio, sob o olhar da espiritualidade inaciana, é mais que uma sucessão de dias floridos: é um tempo fecundo em que o coração se inclina àquela que soube guardar e meditar todas as coisas em silêncio no seu coração. Os jesuítas, herdeiros do discernimento de Santo Inácio de Loyola, sempre cultivaram uma profunda devoção à Nossa Senhora, não como fim, mas como o caminho seguro e afetuoso que nos conduz a Cristo. Celebrar o Mês Mariano é deixar-se conduzir pela Mãe até o Filho, tal como nas Bodas de Caná: Fazei tudo o que Ele vos disser (Jo 2,5).

A Mariologia inaciana não se perde em sentimentalismos. Vê Maria como mulher forte, contemplativa em ação, modelo de escuta e obediência à vontade Dele. Ela não retém para si a glória, mas a oferece inteira ao Senhor. Por isso, invocamos como medianeira de todas as graças, não por presunção, mas por reconhecer que, sendo ela cheia de graça (Lc 1,28), nenhum pedido nosso lhe é indiferente pois tudo ela leva a Ele com mãos de mãe.

Celebrar Maria é permitir que sua presença nos eduque interiormente. Dela aprendemos a humildade que não exige respostas imediatas, a fé que não se desespera na dor, o amor que não impõe condições. Quem contempla Maria encontra uma escola viva de humanidade redimida, uma ponte entre as fragilidades humanas e o coração de Deus. Ela é a pedagoga da alma orante, que nos ensina a encontrar Jesus no cotidiano, nas alegrias e cruzes do mundo.

Santo Inácio, com a simplicidade dos que muito amam, dizia: rogar à Bem-aventurada Virgem Maria, para que me alcance de seu Filho e Senhor a graça. É este o movimento do coração inaciano: confiar à Mãe a súplica, e esperar dEla o gesto que nos aproxima da Vontade do Pai.

Neste mês de maio, a espiritualidade mariana nos convida a depositar nas mãos da Mãe nossas angústias, dúvidas e desejos mais íntimos. Ela, que permaneceu de pé junto à cruz (Jo 19,25), conhece a linguagem da dor e da esperança. Maria não nos afasta de Cristo pelo contrário, nos lança em Seus braços. Celebrá-la é, portanto, aproximar-se mais profundamente do Mistério da Redenção, com a ternura de quem reconhece que, por Maria, chegamos com mais confiança ao Coração do Filho.

(*) Sacerdote jesuíta e mestre em Teologia. Escritor. Diretor do Mosteiro dos Jesuítas de Baturité e do Polo Santo Inácio. Fundador do Movimento Amare.

Fonte: O Povo, de 31/05/2025. Opinião. p.16.

domingo, 13 de outubro de 2024

SÃO PIO DE PIETRELCINA: O Santo dos Milagres e da Confissão

Por Pe. Reginaldo Manzotti (*)

São Pio de Pietrelcina, popularmente conhecido como Padre Pio, é um dos santos mais venerados da Igreja Católica. Sua vida foi marcada por dons místicos, milagres e um profundo compromisso com a fé e o serviço pastoral, além de ter deixado um legado indelével na Igreja Católica.

Vida e Missão

Francesco Forgione, nome de batismo de São Padre Pio, ingressou na Ordem dos Frades Menores Capuchinhos aos quinze anos, adotando o nome de Frei Pio. Sua ordenação sacerdotal ocorreu em 1910, e logo após, começou a manifestar os estigmas de Cristo, feridas semelhantes às sofridas por Jesus na crucificação. Esses estigmas, que perduraram por cinquenta anos, foram um dos sinais mais visíveis de sua santidade.

Padre Pio dedicou-se incansavelmente ao sacramento da confissão, onde passava longas horas atendendo aos penitentes. Seu carisma e dons espirituais atraíam multidões, que vinham de todas as partes do mundo para buscar aconselhamento espiritual e cura. Ele possuía dons extraordinários, como a bilocação, leitura das almas e a capacidade de realizar curas milagrosas.

Milagres e Dons Espirituais

Numerosos relatos de milagres são atribuídos a Padre Pio. Entre os mais conhecidos estão as curas de doenças terminais e o dom da bilocação, onde foi visto em dois lugares ao mesmo tempo. Sua fama como confessor se espalhou rapidamente, com pessoas aguardando dias para se confessarem com ele. A profundidade de sua espiritualidade e a capacidade de ler as almas dos penitentes reforçavam a crença em sua santidade.

Padre Pio também foi um grande devoto da Virgem Maria e da Eucaristia, frequentemente mencionando que "o Rosário é a arma" contra o mal. Suas missas eram longas e carregadas de piedade, refletindo sua intensa união com o sofrimento de Cristo.

Legado e Canonização

Após sua morte em 23 de setembro de 1968, a devoção a Padre Pio continuou a crescer. Milhares de pessoas testemunharam milagres e graças atribuídas à sua intercessão. Em 1999, ele foi beatificado pelo Papa João Paulo II, e em 2002, foi canonizado, recebendo o título de São Pio de Pietrelcina.

Seu legado perdura em várias formas, incluindo a Casa Alívio do Sofrimento, um hospital fundado por ele em 1956, que continua a ser um importante centro de atendimento médico e espiritual. Suas mensagens de fé, amor e serviço ao próximo continuam a inspirar milhões de fiéis ao redor do mundo. Sua vida dedicada à oração, confissão e serviço aos doentes e necessitados deixa um exemplo poderoso de santidade e compromisso com Deus. Seu legado permanece vivo, incentivando os fiéis a buscar uma vida de maior devoção e amor ao próximo. A história de São Pio é um testemunho do poder transformador da fé e da Graça Divina.

A Obra Evangelizar É Preciso o tem como grande intercessor, protetor e exemplo de santidade.

"São Pio de Pietrelcina, depositamos em ti nossa confiança, buscando forças para enfrentar todos os desafios, adversidades e provações. A ti, entregamos nossa súplica de intercessão. São Pio, rogai por nós."

(*) Fundador e presidente da Associação Evangelizar é Preciso e pároco reitor do Santuário Nossa Senhora de Guadalupe, em Curitiba (PR).

Fonte: O Povo, de 7/09/2024. Opinião. p.18.

quinta-feira, 15 de agosto de 2024

Maria está morta ou não? Vamos esclarecer.

Foto: Pintura de Caravaggio – Morte da Virgem

Por Alberto Maggi (*)

O que aconteceu com Maria? A última notícia certa é que ela fez parte da comunidade originária dos crentes de Jerusalém, então nada mais se sabe sobre ela, a sua vida e sobretudo o seu fim.

Na Igreja sempre houve uma reticência tão embaraçosa quanto ao seu fim, ninguém jamais se atreveu a falar aberta e claramente sobre a sua morte, e mesmo nos documentos do Concílio Vaticano II, foram realizadas acrobacias literárias para não afirmar claramente que Maria está morta e usou a fórmula “o curso de sua vida terrena terminou” (LG 59). A relutância em falar da morte de Maria deve-se à evidente contradição do seu fim com a doutrina do pecado original, pecado do qual Nossa Senhora foi preservada. Se a morte entrou no mundo por causa do pecado original, a Imaculada Conceição foi isenta dela e por isso não pode morrer, mesmo que não esteja claro então por que Jesus, Filho de Deus, sem pecado, morreu então.

A Igreja preferiu celebrar o fim de Maria com a festa da Dormição, nome que a partir do século VII, a mando do Papa Sérgio I, mudou no Ocidente para Assunção. Ambas as definições pretendiam afirmar a mesma verdade: a morte não interrompeu o curso da existência de Maria que continua a viver na plenitude da dimensão divina. Tanto uma como a outra imagem não descrevem uma conclusão extraordinária da vida de Nossa Senhora, mas a conclusão normal de uma vida extraordinária, não um privilégio, mas uma possibilidade para todos os crentes.

Mas nem no Oriente nem no Ocidente se reconheceu abertamente que Maria estava morta.

Foi preciso João Paulo II que, na audiência de 25 de junho de 1997, dissesse claramente, e foi a primeira vez na Igreja, que Nossa Senhora estava morta: “É possível que Maria de Nazaré tenha vivido o drama da morte na sua carne? Refletindo sobre o destino de Maria e a sua relação com o Filho divino, parece legítimo responder afirmativamente: uma vez que Cristo morreu, seria difícil manter o contrário para a Mãe».

Na Igreja Oriental floresceram cerca de vinte histórias populares sobre o fim de Nossa Senhora, conhecidas como "Transitus Mariae", em todas elas o fato comum é que Maria morreu de morte natural e foi sepultada e seu túmulo desde o século II foi venerado como um santuário.

João Paulo II conclui o seu discurso afirmando que “a experiência da morte enriqueceu a pessoa da Virgem”, confirmando que morrer não é uma perda, mas um ganho.

Segundo alguns Padres da Igreja, o próprio Jesus foi acolher a sua mãe no momento da morte, como Deus fez com Moisés, transformando o acontecimento doloroso num evento glorioso, e Maria morreu "com o rosto sorridente voltado para o Senhor", e "O Senhor, ele a abraçou, ele levou sua alma santa." (de A ÚLTIMA BEATITUDE, Garzanti)

(*) Teólogo italiano.

Fonte: Grupo de WhatsApp da SMSL de 15/08/2024.


domingo, 19 de março de 2023

SÃO JOSÉ, NOSSO PAI E SENHOR!

Por Pe. Raphael Silva Maciel (*)

São José, nosso pai e senhor! Alguém pode se perguntar o porquê do título: S. José, nosso "pai e senhor", uma vez que Jesus disse para não chamar a ninguém como pai sobre a terra (cf. Mt 23,9). Jesus falava diretamente para os sábios que se faziam chamar pai e mestre, buscando louros para si. No caso de S. José não é assim, ele sabia que não era o pai natural de Jesus, e que o Menino era Filho de Deus (Mt 1,18-25).

O próprio Senhor deu o mérito a José, noivo de Maria, de que seu Filho Unigênito o chamasse de pai sobre a terra. Na oração do Beato Bartolo Longo a S. José, lemos: "Aquele que criou todos os corações dos homens, colocou em vós [S. José] um coração de pai e deu ao mesmo tempo a Jesus um coração de filho para convosco".

Assim Papa Francisco iniciava sua Carta Patris corde: "Com coração de pai: assim José amou a Jesus". Assim como chamamos a Nossa Senhora de Mãe, porque Jesus assim o fez, podemos também chamar S. José de pai. Não tenhamos medo de tomar S. José por nosso pai, como na oração de Bartolo Longo: "Ó beatíssimo São José, sede um pai também para mim; tende entranhas de Pai para com todos aqueles que Jesus amou até Se tornar Seu irmão".

Santos como Teresa de Jesus, José Maria Escrivá, Padre Pio, entre outros santos não se cansaram de recorrer a S. José como pai e senhor, como guarda e provedor das necessidades materiais ou espirituais mais urgentes. Na festa de S. José, lembramos de que estamos confiados, como Igreja Católica e pessoalmente, aos cuidados do pai de Jesus na terra. S. José nos guarda!

Na Solenidade de S. José os católicos realizam iniciativas especiais como novenas, a consagração pessoal a S. José, Missas, procissões.... Ainda mais especial será celebrar S. José, quando o reconhecemos e proclamamos pai e senhor nosso, colocando-nos em ação, no silêncio josefino, cuidando dos outros, pois "com a sua vida, [ele] parece querer dizer-nos que somos sempre chamados a sentirmo-nos guardas dos nossos irmãos, guardas dos que nos são próximos, daqueles que o Senhor nos confia através das muitas circunstâncias da vida" (Francisco, Audiência, 24/11/2021) 

(*) Sacerdote diocesano de Fortaleza. Missionário da Miericórdia.

Fonte: O Povo, de 19/03/2023. Opinião. p.18.

terça-feira, 18 de outubro de 2022

SÃO LUCAS EM POUCAS PALAVRAS

 Lucas era grego nascido na Antioquia, atual Síria, e foi contemporâneo de Jesus Cristo, mas não o conheceu pessoalmente.

Lucas foi o único dos apóstolos da Igreja primitiva que não era judeu. Foi ele o autor do terceiro Evangelho, considerado o de redação mais apurada, o que condiz com a sua formação de médico, avalizada por sua elevada erudição.

A esse evangelista também é atribuída a feitura da maior parte dos Atos dos Apóstolos, igualmente redigido com fundamento em depoimentos de terceiros, porquanto não fora testemunha ocular dos feitos de Cristo, em Sua passagem terrena.

Segundo uma tradição da Igreja cristã primitiva, depois da morte de São Paulo, Lucas partiu como missionário a pregar o Evangelho no sul da Europa, nas regiões da Gália, Itália, Macedônia e Dalmácia, criando comunidades e formando discípulos.

Um antigo documento, traduzido por São Jerônimo, narra que São Lucas foi martirizado em Patras, na Grécia, por causa de sua pregação do Evangelho.

O evangelista e médico São Lucas é também reconhecido como: primeiro historiador eclesiástico, primeiro hinologista cristão, primeiro pintor cristão, patrono dos pintores e patrono dos médicos.

Marcelo Gurgel Carlos da Silva

Da Sociedade Médica São Lucas (SMSL)

* Publicado na Plaqueta comemorativa dos 80 anos de fundação da SMSL. p.31.

terça-feira, 4 de outubro de 2022

CHAGAS DE AMOR

Por Pe. Reginaldo Manzotti (*)

A Devoção das Santas Chagas é muito antiga e tradicional na Igreja Católica. Essa devoção nasceu na Santa Cruz, no grande ato de amor, quando Jesus se entregou e levou nossos pecados sobre o madeiro.

É uma devoção cristocêntrica, quer dizer que o Senhor é o centro, e abrange o que é fundamental e o Apóstolo Paulo pregou com tanta veemência, a Paixão Morte e Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo, chegando a dizer: se Cristo não tivesse ressuscitado vã seria nossa fé (1Cor 15, 14).

É por essa fé que todas às vezes que contemplamos as Santas Chagas de Jesus, nos deparamos com o grande mistério de Sua Paixão, Morte e Ressurreição, tudo o que Ele sofreu por amor. Então, essa devoção nos leva a centralidade da nossa fé.

É o que o Senhor desejou, pois tendo ressuscitado quis trazer no Seu corpo glorioso a marca das Cinco Chagas, como disse Santo Agostinho: "Cristo transpassado por nós e pregado com os cravos sobre a cruz, descido da cruz e sepultado, é a nossa salvação. Ele ressuscitou do sepulcro, curado dos ferimentos e mantendo as cicatrizes".

Se assim o quis é para que fosse eternamente lembrado no seu ato de amor, por isso Chagas de amor.

Após Ressuscitado, Jesus convidou os apóstolos a tocarem Suas Chagas para confirmar a Ressurreição. Confirmar na fé, particularmente a Tomé, mas também a todos nós. Na tradição da Igreja, o convite feito por Jesus foi entendido como extensivo aos fiéis de todos os tempos, não apenas para confirmar a fé na Ressurreição, como também para fixar mais intensamente o compromisso cristão e aperfeiçoar a gratidão pelo ato redentor do Senhor. Por meio da contemplação e da veneração das marcas amorosas de Seu martírio e, posteriormente, de Sua glorificação, nós retribuímos Seu gesto de amor com amor por Deus, por Ele e pelos irmãos. Assim surgiu essa devoção de grande relevância na vida cristã e na história da Igreja.

Nós não podemos ser uma geração do desespero, de pessoas frívolas, cristãos amedrontados, o que é pior, aquilo que São Pio dizia, pessoas impenitentes, isto é que não quer mudar, que não quer conversão. Confiemos no Senhor, reanimemos nossa fé.

Esta é também uma das devoções prediletas do Papa Francisco, que assim recomendou: "Há esta bela devoção de recitar um Pai-Nosso por cada uma das cinco chagas: quando rezamos aquele Pai-Nosso, tentemos entrar através das chagas de Jesus dentro, dentro, precisamente do seu coração. E ali aprendemos a grande sabedoria do mistério de Cristo, a grande sabedoria da cruz". E, ainda: "Não se esqueçam disto: olhem para o crucifixo, mas para dentro dele. Existe a linda devoção de rezar um pai-nosso para cada uma das cinco chagas: enquanto rezamos esse pai-nosso, procuramos ir entrando pelas feridas de Jesus até bem profundamente no Seu coração. E lá conheceremos a grande sabedoria do mistério de Cristo, a grande sabedoria da cruz" (Ângelus, de 18 de março/2018).

As Chagas do Senhor se abrem não mais como feridas a sangrar, feridas do seu martírio, mas como chagas a abençoar, feridas gloriosas da sua ressurreição.

(*) Fundador e presidente da Associação Evangelizar é Preciso e pároco reitor do Santuário Nossa Senhora de Guadalupe, em Curitiba (PR).

Fonte: O Povo, de 10/09/2022. Opinião. p.18.

sábado, 1 de outubro de 2022

FESTA DE SÃO FRANCISCO DE CANINDÉ PRESENCIAL

Frei Gilmar Nascimento (*)

Não se sabe ao certo a data da primeira festa dedicada a São Francisco de Canindé. Temos conhecimento de que a devoção ao santo seráfico começou a se espalhar pelo sertão de Canindé a partir de 1758. Em 1759, Frei Manuel de Santa Maria e São Paulo celebrou a Missa e batizou em Campos na casa da Fazenda de Antônio dos Santos, em Renguengue.

Caso consideremos que a festa teve início com a construção da Igreja, somos levados ao ano de 1796. Em todos os cenários, a Festa ao padroeiro da cidade de Canindé acontece há mais de 200 anos, uma preciosidade na dimensão da transmissão da fé e um patrimônio na perspectiva cultural.

No fio da história, os anos de 2020 e 2021 entram como os únicos que, nestes dois séculos, não tiveram a festa presencial de São Francisco das Chagas de Canindé, devido à pandemia do novo coronavírus. Graças à tecnologia, uma programação especial foi oferecida aos romeiros pela TV São Francisco das Chagas fornecendo aos devotos a possibilidade de honrar seu santo padroeiro a distância.

A boa notícia é que depois deste período de estiagem espiritual a nossa festa volta a ser presencial. Estamos com grande expectativa para contemplar nossos romeiros chegando de todos os cantos do Nordeste e do país tomando as ruas de Canindé, pagando suas promessas, visitando nosso Santuário e participando de nosso novenário e celebrações.

Estamos nos preparando para receber cada devoto com um sorriso nos lábios e braços abertos. Contamos com os canindeenses, também, no caloroso acolhimento ao romeiro que vem embelezar nossa cidade de 6 a 16 de outubro.

Observamos com grande entusiasmo que tem crescido, a cada ano, o número de romeiros que têm vindo a pé para celebrar São Francisco. Grupos inteiros que passam de 3 a 5 dias na estrada caminhando, cantando, refletindo e celebrando.

Certamente, a Festa de São Francisco das Chagas 2022 será um divisor de águas na vida de todos os participantes. Por isso, venha com muita fé e com o coração aberto para receber todas as graças de Deus.

Paz e bem!

(*) Frade franciscano menor. Reitor do Santuário de São Francisco de Canindé.

Fonte: O Povo, 4/09/2022. Opinião. p.20.

domingo, 4 de setembro de 2022

O SERVO DE DEUS PADRE CÍCERO ROMÃO BATISTA

Por Armando Lopes Rafael (*)

O anúncio foi feito pelo Bispo de Crato, Dom Magnus Henrique Lopes. E foi recebido pelos fiéis, presentes à missa campal, em memória do Padre Cícero - em Juazeiro do Norte, no último dia 20 de agosto de 2022 - em meio às palmas, espocar de fogos, toque de sinos nos campanários e lágrimas, muitas lágrimas de alegria, por parte da multidão. Transformava-se em realidade um sonho guardado no recôndito dos corações dos devotos residentes na Nação Romeira, vasto território que se espalha pelo Nordeste brasileiro. Afinal, a Santa Sé - com a aprovação do Papa Francisco - autorizava o início Processo de Beatificação do Padre Cícero Romão Batista.

Este sacerdote católico foi em vida - e continua sendo depois da sua morte, há quase noventa anos -, a personalidade mais venerada pelas populações do Nordeste brasileiro. Dentre as personalidades nascidas no Cariri, Padre Cícero tornou-se a mais conhecida em todo o Brasil. Para os seus afilhados humildes e pobres, espalhados pelos territórios da zona da mata, agreste e sertão e, em menor escala, noutras regiões do Brasil, ele é o "Meu Padim Ciço". Aquele a quem os fiéis católicos podem recorrer nos momentos de sofrimentos e dificuldades. Para esta porção do Povo de Deus, Padre Cícero é o "Santo dos Pobres", o "referencial" presente da Boa Nova que Jesus Cristo anunciou à humanidade, nos anos que esteve encarnado aqui na Terra, através dos seus ensinamentos, atos e parábolas.

O Papa Francisco não apenas veio ao encontro de um anseio de muitas gerações de nordestinos. Fez mais. Oficializou, num gesto concreto, o reconhecimento da santidade de Padre Cícero. Ratificou uma carta, enviada à Diocese de Crato em 2015, assinada pelo Cardeal Pietro Parolin, Secretário de Estado do Vaticano, onde consta o parágrafo abaixo:

"É inegável que o Padre Cícero Romão Batista, no arco de sua existência, viveu uma fé simples, em sintonia com o seu povo e, por isso mesmo, desde o início, foi compreendido e amado por este mesmo povo. A sua visão perspicaz, ao valorizar a piedade popular da época, deu origem ao fenômeno das peregrinações, que se prolonga até hoje, sem diminuição tanto no número como no entusiasmo das multidões que acorrem, anualmente, a Juazeiro. Essa amada Diocese tem procurado incorporar este movimento popular com um grande esforço de evangelização, orientando-o para o Cristo redentor do ser humano. Integrando seu aspecto popular e devocional em uma catequese renovada, fortalece e anima o romeiro em sua vida cotidiana, tornando-o sempre mais consciente do seu batismo e ajudando-o a viver sua vocação específica de cristão no mundo".

E, a partir de agora, o Padre Cícero Romão Batista passará a ser chamado de "Servo de Deus", título que a Igreja Católica dá a uma pessoa cujo processo de canonização foi oficialmente aberto.

(*) Professor aposentado da Uece.

Fonte: O Povo, de 27/08/2022. Opinião. p.21.

segunda-feira, 22 de agosto de 2022

A CANONIZAÇÃO DO PADRE CÍCERO PELA IGREJA BRASILEIRA

Por Francisco Artur Pinheiro Alves (*)

Em 1973, o Concílio Nacional da Igreja Católica Apostólica Brasileira - ICAB, oficializou a canonização do Padre Cícero Romão Batista, como santo, com o título de São Cícero de Juazeiro.

Este ato teve ampla repercussão na imprensa e particularmente na Igreja Católica Apostólica Romana – ICAR. Segundo o pesquisador Wagner Lopes Sanchez, do Centro de Estudos da História da Religião na América Latina, várias foram as manifestações de protesto da CNBB e de bispos Católicos, como o Bispo de São Paulo, à época, Dom Paulo Evaristo Arns. Isso mostra a amplitude do caráter polêmico em torno da figura do Pe. Cícero, em vida e depois da morte.

Dezenas de anos depois, com a chegada de Dom Fernando Panico à diocese do Crato, um processo de canonização do padre foi levado a efeito por ele, junto ao Vaticano e há uma esperança que o mesmo avance e chegue ao seu desiderato. Um passo importante neste sentido, foi a reabilitação do Pe. Cícero, por parte do Vaticano, com a anulação, da suspensão de ordem imposta ao padre, logo após o chamado fenômeno da hóstia ensanguentada, quando a Beata Maria do Araújo recebia a santa comunhão, das mãos do Pe. Cícero (1889). Sem essa reabilitação, não seria possível o processo caminhar.

O que se pode destacar disso tudo, é o fato da ICAB, ter protagonizado avanços que na época foram criticados pela ICAR, mas que depois foram adotados por ela, de forma oficial. O exemplo mais evidente disso foi a missa em língua vernácula, adotada pioneiramente pela ICAB em 1945, que recebeu severas críticas da ICAR, mas logo depois ela mesma viria a adotar. Foi o que ocorreu por ocasião do Concílio Ecumênico Vaticano Segundo, no início da década de 1960, no qual a missa em língua vernácula foi oficializada.

Assim como foi o caso da missa em português, quem sabe se a ICAR mais uma vez, seguindo o exemplo da ICAB, canonizará o Padre Cícero nos próximos anos? Vamos aguardar.

Seja como for, o certo é que, os admiradores, devotos, seguidores e pesquisadores de Padre Cícero, cada um, segundo seu interesse, tem um grande motivo para comemorar, estudar e até se aprofundar, com a canonização de São Cícero de Juazeiro, como primeiro santo do Ceará e um dos primeiros do Brasil.

Viva São Cícero de Juazeiro! Viva o Padre Cícero, o cearense do Século.

(*) Professor aposentado da Uece.

Fonte: O Povo, de 17/07/2022. Opinião. p.19.

 

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