sábado, 22 de novembro de 2025

UM CONVIDADO INUSITADO PARA O JANTAR

Um homem estava andando pela rua e sentou em um banco da praça para descansar um pouco. Nisso, surge um homem um tanto quanto sujo com roupas rasgadas, pedindo um pouco de dinheiro para jantar.

Ele pegou a carteira e estava prestes a ajudar o homem e pegou 10 reais, mas, antes de entregar a ele, perguntou:

"Se eu te der esse dinheiro, você vai usar para comprar cachaça?"

"Não, não, eu parei de beber há muitos anos", disse o homem.

"Você vai usar para jogar pôquer, baralho, sinuca, essas coisas?"

"Não! Eu não jogo nada, senhor."

"Já sei: vai usar o dinheiro para jogar futebol."

"O senhor está louco?!", disse o homem maltrapilho.

"Eu nem mais o que é isso!"

Então o homem disse: "Bom, então tive uma ideia melhor. Ao invés de te dar os 10 reais, eu vou te convidar para jantar na minha casa. Você vai provar a comida incrível preparada pela minha esposa".

O mendigo ficou feliz com o convite, mas perguntou: "Mas a sua mulher não vai ficar brava se o senhor me levar lá? Eu estou sujo, mal vestido e cheirando mal".

E o homem responde: "Tudo bem. Eu só quero que ela veja como fica um homem sem beber, jogar sinuca e jogar bola".

Fonte: Disponível na home page “Tudoporemail”.


sexta-feira, 21 de novembro de 2025

Crônica: “Sauvignon Blanc com sabores frutados... Aí dêntu!!!” ... e outro causo

Sauvignon Blanc com sabores frutados... Aí dêntu!!!

Dr. Tomaz resolveu fazer um "sábado sabático" na casa do capataz e compadre Capote. Cedo do dia, funcionário já à espera do patrão com um celular da cachaça no colo. Capote sabia que a execução da proposta seria caminho difícil, por isso o preparo. Como não é assim que se esfola um bode, o doutor, ao ver Capote agarrado com a cana, pediu rebolasse a pôde no mato, argumentando que trouxera uma garrafa de Vinho Branco Verde Aveleda Casal Garcia, ali, só ouvindo a conversa. Chiqueza total.

Com o chefe, também, os apetrechos necessários a uma degustação sabatinal de gabarito, como manda o figurino de uma verdadeira "pausa prolongada - mas temporária - da rotina profissional". Em tempo: a mulher do doutor, que o deixara na porta de Capote, levou a comadre para voltar somente no domingo. Enfim, um sábado de Tomaz e Capote.

Com pouco, o rebuliço: doutor notou que trouxera somente o vinho, esquecera os acessórios tiragostativos. E pediu taças, havendo em casa apenas dois copos de geleia, quengados - o maior era refúgio da dentadura da comadre, carecia de "ariar" o recipiente, e assim foi feito. Tomaz perguntou por saca-rolha; Capote falou que não tinha, mas, uma vez, abriu uma garrafa daquele modelo batendo o fundo num pano contra a parede, "até a rolha sacar fora"; Doutor preferiu empurrar a rolha garrafa adentro.

Quando o capataz já ia botando a prima dose, o patrão dá um pulo, considerando, professoral, que vinho bom carece de "respirar" - Capote, este sim, sentia falta de ar àquele instante, asilado por um gole, tremendo e lamentando haver descartado sua meiota. Minutos mais tarde, as doses são colocadas nas "taças". Ia já pegar a dele quando foi obstado pelo doutor, que observa:

- Meu querido, é preciso agitar um pouco e perceber as "lágrimas" na taça para comprovar a qualidade do vinho!

Outra vez, Capote lacrimeja; àquela altura, tinha já tomado todas e mais umas 15. "Assim não tem caneco que aguente, dotozim!" Meio dia e meia e finalmente os compadres puderam tomar suas goladas. Tremendo mais que Toyota Bandeirante no ponto morto, o capaz propõe, pelo amor de Deus:

- Da próxima, bora botar esse sábado sabático prum Dia de Finados, caindo numa segunda-feira de madrugada! E que, de preferência, seja na bodega do Moreira!!!

O lado de cá do amor!

Claudinha, que de futebol nada entendia até conhecer o futuro marido Potengi (primo daquele goleiro que encheu o caneco de "calmociteno" e dormiu no gol), foi por ele convidada a assistir a uma peleja do Quixadá contra um time grande de Fortaleza, tem já alguns anos. Disse ele, carinhoso:

- Amor, fique aqui na lateral do campo, onde eu sou escalado pra jogar, defendendo meu time dos ataques do ponta adversário! Saia daí não! E diga como em me fui na refrega!

Terminado o primeiro tempo, times mudam de lado. Potengi, na banda de lá do campo, procura por Claudinha onde a deixara 45 minutos atrás. Nada de divisar a amada. Apito final e o atleta vai pra casa. Quer saber do súbito sumiço dela. Preocupado...

- Amor! Onde tu tava que te procurei e num te vi mais no segundo tempo?

- Em casa! O povo de camisa azul, verde e amarelo que tava ali contigo sumiu! Pensei que tu tivesse ido embora também, me deixando lá sozinha. Onde tu ter meteu, homem?

- Tava no gramado, amor! Findo o primeiro tempo, os times mudam de lado.

- Pois da próxima vez, mude não! Se for pra desaparecer da minha vista, mande aquele seu primo goleiro - do 9x1 - ir pro outro lado do gramado, no seu lugar!

- Ok! Pois ao menos me diga como eu me saí na partida, no primeiro tempo?

- Gostei daquele calçãozinho curto que tu tava vestido! Tava mêi coisado, viu?!? Viu?!?

Fonte: O POVO, de 24/10/2025. Coluna “Crônicas”, de Tarcísio Matos. p.2.

quinta-feira, 20 de novembro de 2025

LUIZ CARLOS DA SILVA: 25 anos de saudades

 

Em 20/11/2000, o advogado, professor e contador Luiz Carlos da Silva, aos 82 anos de idade, deixou esse mundo menor e voltou à Casa do Pai.

Agora se completam 25 anos da sua partida e, por todo esse período, seus filhos e netos depositaram suas lembranças, de forma concreta, em dois livros em sua homenagem: um, para marcar os 90 anos, se vivo fosse; e outro, para celebrar o seu centenário de nascimento.

A sua consorte Elda Gurgel e Silva, da duradoura união de mais de 53 anos, apenas desfeita por seu falecimento, após 21 anos de viuvez, partiu em 9/04/2022 para reencontrá-lo, espiritualmente, nos páramos celestiais. Enquanto viúva, ela foi muito amada e vivenciou a condição de matriarca pela prole numerosa, que gravitava em seu entorno, e postumamente a reverenciou em um livro.

Nossos genitores não constituíram um patrimônio familiar, disposto em bens físicos ou materiais, que amiúde aportam escaramuças entre herdeiros; contudo, nos legaram, como herança maior, algo imaterial, e. quiçá, intangível: a educação de seus filhos, que vem se transmitindo aos descendentes, na sequência de gerações, atingindo seus netos e bisnetos.

Nosso pai, como educador, se jubilava com a graduação, ano a ano, de todos os seus filhos, em instituições públicas, que, em seguida, cursaram pós-graduação e se engajaram no magistério superior, e ainda pode acompanhar a chegada dos primeiros netos ao ensino superior.

Ele, como advogado, estaria radiante de orgulho, se conosco estivesse, em saber que todos os seus netos estão hoje formados e atuantes em diversas ocupações, com destaque para os sete deles operadores do Direito.

Como beletrista e cultor da última flor do Lácio, atributos adquiridos ao tempo aluno marista, nosso genitor estaria fartamente realizado por ver tantos filhos, e até alguns netos, com pendores literários, manejando a pena com arte e primor.

Dono de preciosa oratória e provido de conhecimentos enciclopédicos, ele ainda não mereceu homenagens em logradouros públicos que lhe são devidas; no entanto, são bem poucos os cidadãos cearenses que, a exemplo dele, possuem suas histórias de vida narradas em livros ou artigos, fato que concorre para reavivar nossas recordações nos 25 anos de saudades incontidas, desde quando foi acolhido nos braços do Pai Eterno.

Marcelo Gurgel Carlos da Silva

Filho de Luiz Carlos da Silva

* Publicado In: O Povo, de 20/11/2025. Opinião, p.18.


quarta-feira, 19 de novembro de 2025

SEBO DO GERALDO

Por Pedro Salgueiro (*)

A frase marcante da autobiografia "De amor e trevas", do israelense Amós Oz, me remete sempre aos "sebos" de velhos livros: "Quando eu era pequeno, queria ser um livro quando crescesse. Não escritor de livros, livro mesmo. Gente se pode matar como formigas. Escritores também não são tão difíceis de matar.

Mas livros, mesmo se os destruirmos metodicamente, sempre há chance de sobrar algum, nem que seja apenas um exemplar, a continuar sua vida de prateleira, eterna, discreta e silenciosa em uma estante esquecida de alguma biblioteca remota". Sebos que frequentei pela vida inteira; pois os sebos, a despeito de parecerem "cemitérios de livros", ou "museus de livros", são na verdade "maternidade de livros", pois se não nascem nesses ambientes geralmente caóticos, renascem, voltam para a vida.

Já vi amigo escritor dar chilique por ter encontrado livro seu, devidamente autografado, na prateleira de um sebo, o que nunca entendi, porque fico numa felicidade sincera, pois sei que ali ele começará vida nova, eterna feito Sísifo, nesse vai-e-volta contínuo que as obras fazem entre as ditas livrarias e os sebos.

Para fortalecer meu argumento ao vaidoso amigo escrevinhador, sustento que finalmente o livro dele se tornou um "clássico", e que meu próximo lançamento se dará diretamente numa dessas "maternidades de livros", para encurtar o caminho que ele naturalmente fará.

Um desses templos sagrados dedicados aos livros, que frequento há mais de duas décadas, funciona numa casa verde forte na rua 24 de Maio, em pleno Centro de Fortaleza, numa área aparentemente inóspita às "coisas da cultura", de comércios variados, desde bares e restaurantes frequentados por trabalhadores da região a lojas de ventiladores, paradas de ônibus e consertos vários.

Quem entrava na porta larga era recebido pelo sorriso cativante do senhor Geraldo, que acompanhado pela sua fiel escudeira, a cunhada e funcionária Estela, deixava o freguês à vontade para se perder nos muitos corredores entulhados de livros, numa aparente desorganização que assusta; digo aparente porque quem ia (vai) conhecendo descobre que existe uma ótima organização no meio do caos: cada assunto na sua vereda, cada livro na sua estrada, nesse imenso sertão de livros.

Apesar da amizade longa com o proprietário, de já o considerar um amigo próximo, nunca troquei uma palavra sobre livros com ele, que seu Geraldo era de outra natureza, dos homens da vida e que adorava falar sobre a vida; queria vê-lo feliz perguntasse sobre como ele começou essa longa aventura com os livros, ele marejava os olhos contando que "comecei mesmo foi na pedra, os livros poucos e espalhados na calçada, era ali perto dos correios, depois da Praça do Ferreira", daí invariavelmente descambava a falar das coisas que passava na época, onde guardava os parcos exemplares, até conseguir comprar uma banca de revista, onde passou a funcionar.

Nesse tempo todo de rápidas e entrecortadas conversas atrapalhada por fregueses, fiquei sabendo não só dos livros e sua vigem longa da "pedra" até aquela loja grande abarrotada de revistas, discos e principalmente de livros, mas de detalhes de suas sofrida mas gostosa vida de negociante de papel.

Precisaria não de uma crônica, porém de um livro inteiro para falar dessa aventura quixotesca do seu Geraldo, vida simples apesar do êxito (sempre foi o mais lembrado para reportagens e entrevistas sobre o assunto dos jornais e TVs, vez em quando estudantes iam lá para ouvi-lo), tão simples que um dia como hoje, sexta-feira, ele estaria sentado em seu velho birô com uma gaveta cheia de moedas, distribuindo-as para uma fila de velhinhos que desde cedo rondavam sua calçada.

Quando eu chegava, nessa ocasião das sextas, invariavelmente perguntava: "Geraldo, tá bom de aumentar essa cota para 5 reais!", no que ele abria um sorriso largo e respondia: "Tá querendo me quebrar!?", e desatava a contar quando fez essa promessa das moedinhas da sexta-feira.

Não tive coragem de ir ao seu velório e enterro, nem de voltar ao velho sebo da 24 de Maio, mesmo sabendo que só tenho boas lembranças de lá, mesmo sabendo que sua viúva Albaniza, seu filho Janderson e sua cunhada Estela levarão adiante essa aventura sem fim de vender sonhos.

(*) Cronista e articulista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 17/10/25. Vida & Arte, p.2.

terça-feira, 18 de novembro de 2025

PAZ

Por Tales de Sá Cavalcante (*)

Muitas pessoas conseguem, em vida, prover benefícios a outrem. Raras são as que o fazem após a partida. Alfred Nobel está entre estas. Como industrial e inventor sueco, enriqueceu por meio da produção de armamentos e explosivos, inclusive a dinamite. Suas invenções causaram muitas mortes e, talvez por remorso, deixou, para a criação do Prêmio Nobel, quase toda sua fortuna de 31 milhões de coroas suecas - 94% de seu patrimônio.

São 5 prêmios anuais concedidos ao maior benfeitor da humanidade em Física, Química, Fisiologia ou Medicina, Literatura e Paz. Por sua atuação em prol da democracia na Venezuela, a líder da oposição à ditadura de Nicolás Maduro, María Corina Machado, venceu o Nobel da Paz de 2025. Como vive escondida, não sabemos se irá à entrega do prêmio - uma medalha de ouro, um diploma e cerca de R$ 6,6 milhões.

Não há conflito entre a sua luta ser pela democracia e o Nobel ser o da paz. Jørgen Frydnes, presidente do Comitê do Nobel da Paz, afirmou: "O prêmio é uma forma de jogar luz sobre o avanço do autoritarismo (...) nos últimos anos. Viver em um mundo em que há menos democracia e mais regimes autoritários significa que o mundo também está ficando menos seguro. Nós acreditamos que a democracia é uma precondição para a paz. Nossa decisão é baseada apenas no trabalho e no desejo de Alfred Nobel".

A laureada afirmou receber o prêmio em nome do seu povo, "que lutou por sua liberdade com admirável coragem, dignidade, inteligência e amor em 26 anos de violência e humilhação", e dedicou o prêmio aos compatriotas, que muito merecem, e também a Trump, talvez pelo seu estilo ameaçador, útil à queda de Maduro. Ressalte-se, no entanto, que o líder dos EUA está longe de merecer o Nobel da Paz, um prêmio que deve ser dado à índole e não ao interesse.

A ação de muitos diante do poder e da política levou o genial Millôr Fernandesa criar a citação que se segue: "Democracia é quando eu mando em você, ditadura é quando você manda em mim". María Corina Machado sabe a real diferença entre os dois regimes. Por isso, hoje, o Nobel lhe veio, e talvez, no futuro, nos venha a paz.

(*) Reitor do FB UNI e Dir. Superintendente da Org. Educ. Farias Brito. Presidente da Academia Cearense de Letras.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 16/10/25. Opinião, p.14.

OS MÉDICOS MERECEM RESPEITO

Por Heitor Férrer (*)

Quando uma categoria conquista, após anos de luta sindical, a implantação de um Plano de Cargos, Carreiras e Salários (PCCS), o que se consagra não é um privilégio, mas o reconhecimento do Estado pelos serviços prestados por esses servidores. O PCCS é uma forma de valorização profissional, um instrumento de justiça que garante progressão e dignidade na função.

Assim, ocorreu em 2008, quando o Sindicato dos Médicos do Estado do Ceará travou uma batalha histórica e obteve, no governo Cid Gomes, um novo plano de cargos e carreiras, aprovado pela Assembleia Legislativa em novembro daquele ano. A lei, claríssima. Estabelece os critérios de ascensão profissional e prevê sua vigência imediata a partir da publicação.

Logo após a sua aprovação, o governador Cid cumpriu parcialmente o que determinava a lei, e deu os avanços apenas em 2009, 2010 e 2011. A partir daí, simplesmente o governador suspendeu os avanços nos anos seguintes. Jogou a lei no lixo! Ao deixar o cargo, os médicos já acumulavam prejuízos irreparáveis.

Com a chegada do governador Camilo Santana, esperava-se a correção dessa injustiça, mas, para frustração dos médicos, persistiu o descumprimento da lei durante todo o seu governo. Somente no segundo mandato, num esforço hercúleo do então secretário da Saúde, Dr. Cabeto, foi encaminhado à Assembleia projeto para descomprimir o plano de cargos de 2011 a 2019, quase 10 anos de atraso, sem o Estado pagar nada do retroativo da lei ignorada, permanecendo a dívida até hoje.

Em 2023, com a chegada do governador Elmano de Freitas, os médicos já tinham os seus avanços atrasados de 2019 a 2022. Mais quatro anos de prejuízo. Já com quase três anos de governo Elmano, permanecem o descaso, o desrespeito à lei, o deboche. Nenhum avanço foi concedido. Seis anos de perdas.

Essa postura configura não apenas um desrespeito com os servidores médicos, mas também uma afronta à Assembleia Legislativa, que aprovou o plano de cargos em reconhecimento, valorização e respeito a esses profissionais. Como aceitar que uma lei aprovada, publicada e vigente continue sendo descaradamente ignorada pelo governador?

Desde o início do atual governo, o Sindicato dos Médicos tenta negociar uma solução, mas tem sido a inércia e a má vontade a resposta do governo em cumprir o que é obrigação legal.

A lei existe para ser cumprida e o Estado tem o dever de dar o bom exemplo. Ignorá-la é ferir o princípio da legalidade e trair a confiança de quem dedica toda a sua vida a cuidar da saúde dos cearenses.

O governador não pode continuar sendo um "fora da lei", descumprindo legislação aprovada para fazer justiça e reconhecer o valor desses abnegados servidores. Os médicos merecem respeito...

(*) Médico e deputado estadual (Solidariedade).

Fonte: Publicado In: O Povo, de 17/10/2025. Opinião. p.19.

segunda-feira, 17 de novembro de 2025

Vida e morte engarrafada

Por Romeu Duarte Junior (*)

Está aberta a temporada de extermínio dos papudinhos e dos biriteiros. O papagaio de pirata imaginário que vive aboletado no meu ombro esquerdo, curioso que só, me pergunta qual a diferença entre os dois tipos de pinguços. Respondo-lhe que o papudinho é aquele que vive para beber enquanto o biriteiro bebe para viver por ter uma relação hedonista com a vida. Insistente, o bicho me pergunta a qual categoria pertenço. Mando-o caçar o que fazer. Trato o assunto na base do aniquilamento dos bebedores pelo fato de sempre ter havido bebida falsificada à farta, porém nunca ao ponto de levar a óbito aqueles chegados aos destilados. Algo assim deve ser considerado homicídio doloso, cometido por quem tem a intenção de matar. Seria raiva de quem molha o bico?

O clima anda meio complicado no ecossistema (argh!) dos bares fortalezenses. Dia desses, um vereador com um nome esquisito (e que não se perca por este) e daquele tipo que ninguém sabe como chegou à Câmara, resolveu anunciar a morte do Seu Raimundo do Queijo. Comoção geral na cidade. Meu celular quase pegou fogo de tanta chamada que recebeu. Equívoco desfeito, baixou o espírito galhofeiro do Bode Ioiô propondo a festa da ressurreição daquele que nunca morreu, agora monumento vivo. Pense num regabofe, uma real manifestação de carinho e apreço do povo de Fort City pelo nosso querido taberneiro. Uma penca de políticos esteve presente aproveitando o ensejo para tirar foto com o dono do pedaço, entre eles o tal edil, que, além de um duro carão, levou uma bela vaia...

Todavia, nem tudo por aqui é metanol misturado à água que passarinho não bebe. Há alguns dias, o Paraíba, proprietário do bar homônimo, inteirou cem janeiros com uma grande comemoração. Aquele que talvez seja o botequim-raiz mais antigo ainda em operação em Fortaleza (em disputa renhida com o Bar Vitória, no Centro) acha-se à Rua Dom Jerônimo, 256, no Benfica, artéria esta em cuja extremidade sul encontra-se o vetusto Solar dos Monte, lar do escritor e amigo Aírton Monte, o eterno ocupante deste espaço de crônica. Mas, voltando ao Paraíba, o cabra é invocado, faz o que quer e bem entende. A cachaça vem acompanhada de uma cumbuca com um supimpa feijão gordo. O cliente elogia a iguaria e pede mais. Não há força divina que faça o bodegueiro trazer o pedido.

Como já começa a nevar, as renas voam pelos ares e as crianças fazem bonecos de neve nas calçadas, é hora de nos prepararmos para as festividades de fim de ano. O Bar do Seu Nonato, na heráldica Gentilândia, completará 65 primaveras de contínua existência e resistência etílica neste dezembro. O estabelecimento é daqueles dotados de balcão feito para criar calo nos resilientes cotovelos dos frequentadores. A cultura lá é a da arenga mútua entre a turma do funil e o gentil (às vezes, nem tanto) gerente da taberna, com chistes impagáveis, tiradas espirituosas e piadas grossas, tudo o que caracteriza uma baiuca de escol. Por falar nisso, escrevendo no sábado, já me organizo para pousar no Bar do Vicente e na Embaixada. Sem essa de wine-bars, gastrobars e rooftops, caros meirelers.

(*) Arquiteto e professor da UFC. Sócio do Instituto do Ceará. Colunista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 13/10/25. Vida & Arte. p.2.

 

Free Blog Counter
Poker Blog