Mostrando postagens com marcador Carta. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Carta. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 11 de setembro de 2025

CARTAS DE AMOR

Por Ana Miranda, escritora

Algo que me admirou, quando voltei a morar no Ceará, foi o amor de homens por suas esposas. Notei logo, desde quando assisti a uma festa em que senhores discursavam. Era uma festa de trabalho. Mas cada um deles aproveitou o momento para fazer uma declaração de amor. Verdadeiras cartas de amor ditas em voz alta. Isso pode ter vários significados, mas como meu pai foi a vida toda apaixonado por minha mãe, e assim aprendi a acreditar no amor matrimonial, interpretei como gestos de puro sentimento.

Guardo uma coleção de cartas de amor escritas por meus pais, nos anos 1930, 1940. Estavam noivos e se separaram por um período, quando ela foi estudar na Escola Doméstica de Natal, preparando-se para o casamento; ou, depois de casados, durante alguma viagem de trabalho do “doutor”. As cartas de amor são sempre saudosas, doloridas, porque são escritas quando o ser amado está distante. Tratavam-se por “minha filhinha”, “meu filhinho”, usavam diminutivos carinhosos: “Aceite mil beijos e saudades do maridinho só seu”. E ela, com uma letra harmoniosa e delicada: “Bem, meu futuro maridinho, aceita muitas saudades e beijos da tua noivinha que muito te quer”. Ele estava sempre preocupado com a saúde dela, e ela, com o excesso de trabalho a que ele se dava. Pode-se perceber que ele ainda era senhor de si, quando noivos, mas depois do casamento demonstra o quanto está arrebatado pela paixão. Por essas cartas, redescubro meu pai como um novo homem.

Lembrei-me dessas cartas e da festa noturna de declarações de amor quando estive a folhear um livro com as cartas trocadas, desde 1882, pelo estudante de direito, Clóvis Bevilaqua, com sua “boa e querida” musa, a escritora Amélia de Freitas, após se conhecerem numa praia do Recife – ela quase se afogava e ele a salvou. Ainda uma vez, a emoção destrona a razão, e o rapaz escreve “como quem conversa, sem método, sem concatenação, sem mesmo pensar no que disse nem no que vou dizer”, achando-se um tolo. Nas cartas, um pouco de filosofia, de usos e costumes, de paisagens, sobretudo a história de um eterno amor, que ficou registrado nesta jura: “Juro por quanto há nobre e grande ... que te adoro, que te idolatro, que és o meu mundo e a minha glória, minha ambição e o alvo de meus anelos, juro que jamais se apagará em meu seio este ardor que me é alento e vida...”. Essa jura me faz lembrar as declarações de amor, naquela noite de discursos, assim que cheguei ao Ceará.

Há toda uma literatura de missivas de amor, como as cartas de Graciliano Ramos para a noiva, Heloísa Medeiros. Ela era uma moça de 18 anos, e Graciliano, um viúvo de 35, pai de quatro filhos, empregado na Prefeitura de Palmeira dos Índios. As sete cartas, publicadas em livro, impressionam pelo derramamento de Graciliano; ele, sempre tão contido, reclama da frieza de sua pretendida que lhe mandava cartas de duas linhas; provam que não há matemática na psicologia de um ser apaixonado. “Adeus, minha noivinha amada”. “Adeus, minha santa”. Mas ele continua a ser o homem de poucas palavras, mordaz, negativista: “Eu te procurei porque endoideci por tua causa quando te vi pela primeira vez. É necessário que isto acabe logo. Tenho raiva de ti, meu amor.” Ele diz que não sabe mentir, e “os outros me veem por dentro melhor do que por fora”. Com uma série de confissões amargas, as cartas não esclarecem o “mistério” Graciliano, mas ficamos conhecendo melhor seu temperamento. São conhecidas cartas de amor de Machado de Assis a Carolina, de Dostoievski a Anna Grigoriévna, de Victor Hugo a Juliette Drouet, de Plínio a Calpúrnia; de Mark Twain, de Flaubert, Mozart, Darwin, Beethoven, lord Byron, Robert Browning, a suas amadas, ou de mulheres a seus amados, como Florbela Espanca e Mariana de Alcoforado.

Mas não é preciso ser um escritor para arrancar suspiros do ser amado. A carta de amor pertence a todos os que amam. Ao contrário do que disse Fernando Pessoa, que todas as cartas de amor são ridículas, e se não fossem ridículas não seriam cartas de amor... Ele mesmo escreveu a sua amada Ofélia: “Meu Bebezinho, minha almofadinha cor-de-rosa para pregar beijos (que grande disparate!)” Nenhuma carta de amor provoca riso ou escárnio, a não ser naqueles que têm medo de amar. Portanto, escrevamos cartas de amor, ainda que fiquem guardadas nas gavetas, sem endereço. Escrevamos para a pessoa amada, para nós mesmos. Guardemos nossas cartas de amor em maços perfumados, em caixinhas macias, elas serão a lembrança mais doce de um tempo que nunca passou.

(O livro em questão é De Clóvis para Amélia, org. José Luís Lira, Ed. UVA/ASEL).

Fonte: Ana Miranda 12/07/2015 Vida & Arte p.35

quinta-feira, 17 de novembro de 2022

CARTA DE ABRAHAM LINCOLN PARA O PROFESSOR DE SEU FILHO

"Caro professor, ele terá de aprender que nem todos os homens são justos, nem todos são verdadeiros, mas por favor diga-lhe que, para cada vilão há um herói, para cada egoísta, há um líder dedicado.

Ensine-o, por favor, que para cada inimigo haverá também um amigo, ensine-o que mais vale uma moeda ganha que uma moeda encontrada.

Ensine-o a perder, mas também a saber gozar da vitória, afaste-o da inveja e dê-lhe a conhecer a alegria profunda do sorriso silencioso.

Faça-o maravilhar-se com os livros, mas deixe-o também perder-se com os pássaros no céu, as flores no campo, os montes e os vales.

Nas brincadeiras com os amigos, explique-lhe que a derrota honrosa vale mais que a vitória vergonhosa, ensine-o a acreditar em si, mesmo se sozinho contra todos.

Ensine-o a ser gentil com os gentis e duro com os duros, ensine-o a nunca entrar no comboio simplesmente porque os outros também entraram.

Ensine-o a ouvir todos, mas, na hora da verdade, a decidir sozinho.

Ensine-o a rir quando estiver triste e explique-lhe que por vezes os homens também choram.

Ensine-o a ignorar as multidões que reclamam sangue e a lutar só contra todos, se ele achar que tem razão.

Trate-o bem, mas não o mime, pois só o teste do fogo faz o verdadeiro aço. Deixe-o ter a coragem de ser impaciente e a paciência de ser corajoso.

Transmita-lhe uma fé sublime no Criador e fé também em si, pois só assim poderá ter fé nos homens.

Eu sei que estou a pedir muito, mas veja o que pode fazer, caro professor.“

Fonte: Internet (circulando por e-mail e i-phones).


sexta-feira, 18 de junho de 2021

CARTA-RESENHA DA XIX BIENAL DA ACADEMIA CEARENSE DE MEDICINA

A Covid-19 apresentou-se ao mundo de forma avassaladora, começando em Wuhan, na China, em novembro de 2019, e desde então o número de casos e óbitos vem crescendo exponencialmente, causando grandes impactos principalmente nos setores de saúde e economia de todos os continentes. Atualmente, em meados de maio de 2021, o mundo conta com um total 133.146.550 casos e 2.888.530 óbitos de Covid-19.

A maior e pior epidemia de coronavírus da história humana e a mais mortal dos últimos cem anos, a Covid-19 provoca sintomas respiratórios que vão de leves dificuldades respiratórias a graves, com incapacidade ventilatória pulmonar.

Inicialmente, a doença acometeu a população adulta, a partir de 60 anos e grupos de risco com comorbidades de maneira mais imponente, com o agravante de possuir características específicas de baixa imunogenicidade e produção de anticorpos neutralizantes que, além de propiciar a disseminação da doença também por pacientes assintomáticos, pode acometer as pessoas mais de uma vez e dificultar o processo de elaboração de vacinas.

Desde o seu surgimento, a pandemia devastou a vida de mais de 2 milhões de pessoas em todo o mundo, prioritariamente idosos, tendo infectado pelo menos 132,9 milhões. Contudo, diante de uma segunda onda e o surgimento de novas variantes, o perfil das vítimas vem mudando e o vírus tem se mostrado extremamente potente em pessoas mais jovens, e os óbitos em faixas etárias mais baixas tem crescido em todo o mundo. Dessa forma a OPAS, aponta que o aparecimento de mutações é um evento natural e esperado dentro do processo evolutivo dos vírus.

A grande velocidade de propagação da doença, associada à moderna hipermobilidade, fragilidades nos sistemas econômicos, políticos e de serviços públicos, ocasionaram diversos desencontros quanto às causas e, por conseguinte, de ações divergentes de controle da disseminação da doença, levando a instabilidade emocional e altos índices de morbimortalidade pela doença.

Em vista dessa problemática, a Academia Cearense de Medicina (ACM) realizou em Fortaleza, de 12 a 14 de maio de 2021, a sua XIX Bienal, evento de natureza científica e cultural com notória relevância para a Medicina cearense, cujo programa científico teve a Covid-19 como tema central.

A coordenação do evento esteve ao encargo da Vice-Presidência do sodalício, Acad. Janedson Baima Bezerra e a Comissão Organizadora foi formada pelos doutores Ana Margarida Arruda Rosemberg, Anastácio Queiroz de Sousa, Antônio Carlile Holanda Lavor, Janedson Baima Bezerra, José Eduilton Girão, José Henrique Leal Cardoso, José Iran de Carvalho Rabelo, Marcelo Gurgel Carlos da Silva, Márcia Alcântara Holanda, Oswaldo Augusto Gutiérrez Adrianzen, Pedro Henrique Saraiva Leão Roberto Misici, Sebastião Diógenes Pinheiro, Sara Lúcia Ferreira Cavalcante e Vladimir Távora Fontoura Cruz..

A XIX Bienal contou com conferencistas nacionais, oriundos de outros Estados: Ailton Benedito de Souza (GO), Arnaldo Correia de Medeiros (DF), Eurico de Arruda Neto (SP). Fernando Antônio Brandão Suassuna (RN), Flávio Adsuara Cadeggiani (DF), Hélio Angotti Neto (DF), José Abelardo Garcia de Meneses (BA), Margareth Pretti Dalcolmo (RJ), Nise Hitomi Yamaguchi (SP), Roberta Lacerda Dantas (RN) e Roberto Sebastian Zeballos (SP), além de Felipe Bastos Gurgel Silva (USA), e com conferencistas convidados do Ceará: Antônio Carlile Holanda Lavor, Eveline Santana Girão, Ivo Castelo Branco Coelho, Jeová Keny Baima Colares, Luciana Maria de Barros Carlos , Marcelo Alcântara Holanda, Mônica Cardoso Façanha, Robério Dias Leite e Weiber Silva Xavier. As funções de presidente, moderador e secretário das sessões científicas foram exercidas por membros titulares da ACM.

O programa contemplou duas Conferências Magnas: “Covid-19: Direitos humanos em quarentena?”, na abertura, e “Plataformas vacinais: presente e futuro”, no encerramento; três Conferências: “Covid-19 e as epidemias na história do homem”, “Os paradigmas do conhecimento médico, o tratamento precoce e a vontade de curar” e  Covid-19: aspectos médico-psicossociais”; três Painéis: “Covid-19: a doença”, “Covid-19: o tratamento (o estado da arte)” e “Covid-19: a profilaxia”; e três Simpósios: “Covid-19: apresentações especiais”, “Pós-Covid-19” e Situações paralelas à doença”.

A programação do evento foi desenvolvida em Sala Virtual do aplicativo Zoom, gerenciada pela empresa Pirilampo, com links destinados aos expositores convidados e acadêmicos, sendo também aberto a profissionais e estudantes da área de Saúde e ao público em geral interessado na problemática da presente pandemia, sem necessidade de inscrição prévia, acessível por meio das redes sociais (Facebook e YouTube) vinculadas ao Site da ACM. Toda a programação, pós-evento pode ser acessada, integralmente, no Blog da ACM:

http://academiacearensedemedicina.blogspot.com/2021/05/xix-bienal-da-academia-cearense-de.html?m=0

A XIX Bienal da ACM, no contexto geral de sua programação, objetivou e sugeriu diretrizes na reconstrução de uma nova visão em relação a esta pandemia que atinge a humanidade.

Devem ser encorajados todos os que detêm responsabilidades médicas, políticas e sociais, como tem feito a Academia Cearense de Medicina nas suas intervenções, por meio dos seus acadêmicos, no sentido de se trabalhar ativamente em prol do bem comum, partilhando eticamente os fatos, informações, conhecimentos e recursos.

Deve-se atentar, ainda, com muito esmero e seriedade, aos que normalmente são mantidos em silêncio e invisíveis, os mais pobres, e, assim sendo, ajudando a tomar consciência do que realmente está acontecendo e da verdadeira condição.

É tempo, antes de tudo, de se removerem as desigualdades, sanarem as injustiças, proporcionando a integralidade na saúde da humanidade inteira.

Diante disto, neste momento estão todos envolvidos e implicados por causa de Covid-19 com fenômenos associados de desigualdade e a má gestão, fatores esses que ameaçam a todos os cidadãos.

A Covid-19 permitiu se porem à prova o egoísmo, a indiferença, as divisões interpessoais e o esquecimento, palavras que não são as que se quer ouvir, nesse tempo de pandemia, mas se deseja bani-las definitivamente.

Finalizando, a XIX Bienal da ACM teve um objetivo primordial aproximar cada vez mais esta Academia com as instituições, que a mesma está envolvida com nossa saúde, em termos de colaborar com as autoridades competentes com o escopo final de divulgar e informar eticamente “extramuros”, a educação médica e a promoção da saúde.

Fortaleza, 28 de maio de 2021

Acad. Antônio Carlile Holanda Lavor (coordenador) - Cad. 55

Acad. Ana Margarida Arruda Rosemberg - Cad. 35

Acad. Marcelo Gurgel Carlos da Silva - Cad. 18

Acad. Roberto Misici - Cad. 2


segunda-feira, 1 de junho de 2020

CARTA AO AMIGO JOÃO


Por Luiz Gonzaga Fonseca Mota (*)
Com satisfação volto a escrever-lhe algumas linhas, em 08/05/2020. Continuo muito preocupado com o que vem acontecendo no mundo, particularmente no amado Brasil. Na nossa Pátria, além da cruel epidemia da COVID-19, não há entendimento, sem generalizar, entre integrantes e líderes dos Poderes Constitucionais. Penso, muitas vezes, que eles não são patriotas e colocam o interesse pessoal ou de grupos acima de qualquer coisa. É lamentável João, que futuro nos espera? A situação é mais angustiante quando sabe-se que a maioria da população é carente e muitos homens, mulheres (de meia idade), idosos, jovens e crianças estão abaixo da linha de pobreza. É um País injusto, com desemprego, deficiências nos setores de educação e saúde, péssimas condições de saneamento básico, segurança, etc. Caro amigo João, você conhece a distribuição de renda brasileira, nos aspectos pessoal, regional e setorial. É obscena. O Brasil possui um Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) bastante desfavorável, da ordem de 0,699 estando, segundo a ONU, em 73º lugar no “ranking” mundial. A falta de espírito público, de amor ao próximo e de sabedoria da grande parte da elite do nosso Brasil não permite que alcancemos níveis melhores de vida. Surgem, infelizmente, o tráfico de drogas, assassinatos, prostituição infantil e outras mazelas sociais. São milhares as comunidades espalhadas no território nacional. É um constrangimento, uma ignomínia para nós brasileiros. O que realizar, caro João, para sensibilizar, do ponto de vista republicano e democrático, os poderosos? O novo coronavírus é um aviso. Por sua vez, ao invés de pedirmos a Deus para resolver o problema, em uma situação passiva, peçamos a Ele, com fé, o que devemos fazer. Com certeza seremos atendidos. Seu amor sempre ficará ao lado do bem e não do mal. Acreditemos e sigamos os Seus ensinamentos. Abraço.
(*) Economista. Professor aposentado da UFC. Ex-governador do Ceará.
Fonte: Diário do Nordeste, Ideias. 8/5/2020.

segunda-feira, 25 de maio de 2020

AMIGO JOSÉ


Por Luiz Gonzaga Fonseca Mota (*)
Escrevo-lhe esta resumida carta (01/05/2020) externando a minha angústia e preocupação no tocante à situação do nosso querido e amado Brasil, com uma população próxima de 210 milhões de habitantes. A pandemia provocada pelo covid 19, apesar do significativo esforço realizado por equipes dos Governos, da área de saúde, cientistas e trabalhadores diversos etc., ainda me deixa muito aflito. Não perco, porém, a esperança e acredito que os efeitos maléficos serão contidos. Por sua vez, no início deste ano, os indicadores brasileiros mostravam uma leve melhoria na perspectiva do País. Todavia, a boa expectativa foi eliminada logo no mês de março, principalmente, em face da cruel epidemia. Caro José, além dos problemas conjunturais e estruturais brasileiros (desigualdade de renda, baixos níveis de educação e saúde, segurança, desemprego e outros) surgiram de forma mais acentuada os desequilíbrios inter e intra Poderes Constitucionais. Observo, lamentavelmente, em alguns integrantes, a falta de patriotismo. É fundamental que se elimine os conceitos de direita, centro e esquerda, mediante a valorização da democracia em favor da nação e não de setores gananciosos. A Reforma Política é importante, no entanto os debates e opiniões, inerentes ao processo democrático, caro amigo José, deverão ocorrer visando o bem da população e não objetivando interesses de grupos, nem sempre republicanos. É claro que se deve buscar conquistar, através da vontade popular, o poder político, no entanto dissociado do poder econômico e de influências mesquinhas. José, inspirando-me no poeta Drumond, com outras palavras, é claro, digo: tiremos essas pedras do meio do caminho do Brasil. Peço a Deus para livrar o Brasil das epidemias corporal, ética e moral, proporcionando-lhe uma Democracia plena, uma Justiça imparcial e uma Liberdade solidária e responsável.
(*) Economista. Professor aposentado da UFC. Ex-governador do Ceará.
Fonte: Diário do Nordeste, Ideias. 1/5/2020.

quinta-feira, 7 de maio de 2020

Vacinas e medicamentos contra a Covid-19: garantir o acesso a todos!


A maioria dos países do mundo ainda se esforça para diferir no tempo os casos sintomáticos e graves da Covid-19 mediante as estratégias do isolamento e do lockdown. Ainda não são disponíveis estratégias baseadas em vacinas ou medicamentos. Mas o sucesso no achatamento da curva epidêmica levará o seu enfrentamento para uma outra dimensão. Sistemas de saúde não tão pressionados ou não colapsados deverão continuar a lidar com os casos do que será uma epidemia sazonal ou uma endemia causada pelo SARS-CoV 2. Nessa nova etapa todas as esperanças para prevenir a infecção e tratar pacientes com a doença estarão depositadas na existência de vacinas e medicamentos seguros, eficazes e acessíveis.
Há centenas de pesquisas em muitos países à procura de uma molécula capaz de inativar o vírus, a maioria delas buscando eventual eficácia de moléculas já conhecidas e, em menor número, buscando novas moléculas. Dentre as primeiras destacam-se os estudos já em etapa de testes em seres humanos que envolvem a combinação de antirretrovirais Lopinavir/Ritonavir, o Interferon Beta, um antiviral chamado Remdesivir e as quase já descartadas Cloroquina e Hidroxicloroquina. Destaca-se entre todos eles o projeto “Solidariedade” coordenado pela Organização Mundial de Saúde (OMS), no qual participam 17 instituições brasileiras coordenadas pela Fiocruz. Igualmente, conta-se quase uma centena de candidatas a uma vacina eficaz e segura, tendo uma recente publicação identificado 75 projetos em andamento, a maioria deles ainda na fase de testes em amimais e apenas cinco em fases iniciais de testes em humanos.
É importante reconhecer esse notável esforço global para chegar a medicamentos e vacinas, mas não se pode deixar de lado uma questão quase sempre negligenciada que é a de garantir que esses eventuais novos produtos possam chegar aos que deles necessitarem de modo universal e equânime. Como a grande maioria desses esforços ocorre em grandes empresas biofarmacêuticas globais, nas quais tradicionalmente a rentabilidade destinada a seus acionistas é o critério básico no desenvolvimento e na comercialização de produtos, torna-se obrigatória desde já a luta para que esse critério seja eliminado no âmbito do combate à Covid-19.
No final de abril último, chefes de Estado e líderes globais de saúde, sob a inspiração da OMS, assumiram o compromisso de trabalhar em conjunto para o desenvolvimento e a produção desses produtos. Nas palavras do Diretor-Geral da OMS, Tedros Ghebreyesus, “Nós vamos parar a Covid-19 apenas através da solidariedade …. Países, parceiros em saúde, produtores e o setor privado devem agir conjuntamente e assegurar que os frutos da ciência e da pesquisa possam beneficiar a todos”. Entretanto, a tradição da indústria biofarmacêutica internacional está longe de ser solidária. Para alcançar a orientação da OMS, será necessário que cada país faça um esforço para garantir a acessibilidade de sua população aos novos eventuais produtos.
O centro desse esforço está em aplicar as excepcionalidades para a saúde pública existentes nos acordos TRIPS1 em especial a permissão para decretar o licenciamento compulsório de produtos de saúde em situações de emergência sanitária, como essa que estamos vivendo. Lembramos que a empresa proprietária do medicamento Remdesivir, a norte americana Gilead Sciences, está depositando pedidos de patente em 70 países para impor seus preços e condições caso esse medicamento se comprove seguro e eficaz. Lembramos também que essa foi a empresa proprietária do medicamento Sofosbuvir, contra a Hepatite C, lançado no mercado há alguns anos ao preço de mais de 70 mil dólares por tratamento. Esse fato cresce em importância quando sabemos que o FDA (a Anvisa dos EUA) já autorizou a utilização excepcional do Redemsivir em pacientes graves e hospitalizados.
Mas, talvez seja necessário fazer isso de um modo mais direto, como já estão ocorrendo em outros países como o Equador, o Canadá e o Chile. Nesse sentido, as entidades da Saúde Coletiva e Bioética abaixo assinadas sustentam o seu apoio ao Projeto de Lei 1462-2020, já protocolado na Câmara dos Deputados, que propõe alterar o artigo 71 da lei brasileira de patentes, e apela para que os poderes Legislativo e Executivo atuem no sentido de que o licenciamento compulsório possa ser automaticamente concedido de ofício em situações como a que estamos atravessando, com emergência sanitária nacional e internacional já decretadas, respectivamente pelo governo brasileiro e pela OMS.
Associação Brasileira de Saúde Coletiva – Abrasco
Associação Brasileira de Economia da Saúde – ABrES
Associação Brasileira Rede Unida
Centro Brasileiro de Estudos da Saúde – Cebes
Sociedade Brasileira de Bioética – SBB
Rede Nacional de Médicas e Médicos Populares

domingo, 3 de maio de 2020

Carta aberta aos trabalhadores e trabalhadoras no enfrentamento da Covid-19

Nesse ano de 2020, época em que vivenciamos a tragédia da pandemia pela Covid-19 imbricada a um quadro de profunda precarização das condições de trabalho, de vida, de saúde e bem-estar da classe trabalhadora, queremos relembrar a origem desta data, para que ela nos inspire a continuarmos na luta por um modelo de produção que respeite a vida e a saúde, que garanta trabalho digno para todos e todas e que proteja o ambiente.
Lembremos que a data comemorativa do 1º de maio foi instituída em memória de um grupo de trabalhadores de Chicago (EUA) que em 1886 foi às ruas da cidade para reivindicar melhores condições de trabalho. Naquele momento histórico, um dos principais pontos de reivindicação era a redução da jornada de trabalho de 13 para 8 horas diárias. Houve muita repressão ao movimento, com prisões, agressões físicas e mortes de trabalhadores nos confrontos com a polícia. Lembremo-nos, ainda, que a conquista de direitos sociais só foi possível pelas lutas políticas da classe trabalhadora, num processo permanente de disputa na sociedade, através de seus sindicatos e movimentos sociais ao longo dos tempos, particularmente a partir do século XX.
A chegada da pandemia do coronavírus descortinou a extrema desigualdade social global, muito aprofundada nos últimos anos no Brasil. Podemos dizer que se o vírus tem potencialidade para infectar pessoas de todos os grupos e classes sociais, a experiência do adoecimento pela Covid-19 de forma extremamente desigual e injusta na nossa população, afetando desproporcionalmente os trabalhadores mais pobres, negros em particular.
O mundo já contabiliza mais de 3 milhões de pessoas com a Covid-19 e mais de 200 mil mortes. O Brasil já ocupa o 10º lugar no mundo em número de casos e o número de mortes do país já ultrapassou o da China. No entanto, estudos mostram que estes números no Brasil tendem a ser bem maiores em relação ao que é divulgado oficialmente, dadas a pouca testagem realizada no país e a subnotificação.
Não sabemos, aqui no Brasil, quantos destes adoecimentos e mortes ocorrem em trabalhadores e trabalhadoras. Não sabemos quais são as ocupações mais atingidas. Afirmamos isto, tendo em vista a ausência de informações do Ministério da Saúde, a quem compete à divulgação oficial dos dados relativos à Covid-19 em âmbito nacional. É importante registrar que a ficha de notificação da Covid-19 do Ministério da Saúde especifica apenas as ocupações de trabalhadores da saúde e, mais recentemente, da segurança pública. Ainda assim, o órgão não tem divulgado informações sobre distribuição dos casos e dos óbitos confirmados segundo as ocupações registradas.
Mas sabemos também, através de publicações em diversos jornais impressos e digitais, nas páginas dos conselhos de classe, nas divulgações dos sindicatos e movimentos sociais, que trabalhadores e trabalhadoras de diversas categorias estão adoecendo e morrendo. Casos têm sido publicados referentes a empregadas domésticas, trabalhadores de indústrias, de serviços turísticos, caminhoneiros, sepultadores, motoristas, petroleiros, mineiros, jornalistas, policiais, entre outros, além dos profissionais de saúde.
Os serviços do SUS responsáveis até o momento, por garantir um tratamento sério, competente e humanitário aos usuários do sistema, começam a entrar em colapso, situação que já podemos observar em algumas capitais brasileiras.
Diante deste quadro, o principal mecanismo de prevenção da Covid-19, doença de alta transmissibilidade, grave em 20% dos casos e que demanda leitos hospitalares e de unidades de terapia intensiva, continua sendo o isolamento social, associado a medidas básicas de higiene.
Sabemos que a adesão dos trabalhadores e trabalhadoras ao isolamento social por tempo imprevisível não é fácil: 1) primeiro, porque o Brasil conta com milhões de desempregados, desalentados e trabalhadores/trabalhadoras informais, além dos muitos que, embora mantenham relações formais de emprego, se defrontam com condições cada vez mais precarizadas e sem garantia de renda mínima; 2) segundo, porque nos faltam políticas públicas efetivas que garantam o sustento e a vida dos trabalhadores e de suas famílias com decência e dignidade e, 3) porque a manutenção do isolamento social em si pode trazer problemas de saúde, particularmente, sofrimento mental, necessitando também de políticas públicas e outras iniciativas da sociedade que possam mitigar este quadro de ansiedade, angústia e medo.
Neste cenário, a participação dos trabalhadores e trabalhadoras nas decisões políticas nacionais é fundamental. É preciso que superemos a falsa dicotomia salvar vidas versus salvar a economia, evitando cair na armadilha desta narrativa. É preciso denunciar esta aberração ética e buscar formas de garantir o isolamento social da população, e proteger aqueles envolvidos em atividades realmente essenciais.
À efetiva intervenção do Estado, no âmbito do Sistema Único de Saúde, ampliando tanto a capacidade e a infraestrutura dos serviços de saúde, quanto os investimentos em ciência, tecnologia e na produção de insumos e materiais necessários para salvar vidas, deve se somar a adoção de medidas econômicas concretas de transferência de renda, como a renda básica universal, protegendo os salários e o emprego da população trabalhadora, auxiliando financeiramente as pequenas e médias empresas. Essas medidas irão garantirão o sustento das famílias e das parcelas de trabalhadores em situação de vulnerabilidade, ao mesmo tempo em que permitirão a manutenção do isolamento social pelo tempo necessário.
É possível, e absolutamente necessário, prover maciço investimento público para, ao mesmo tempo, salvar vidas e promover a atividade econômica básica por meio do consumo das famílias; assim, estaremos preparando uma saída mais rápida da crise sanitária e da crise econômica, com proteção da vida e saúde de toda a população.
A Abrasco se junta ao movimento dos trabalhadores e trabalhadoras na luta por melhores condições de vida, trabalho e bem-estar. Vamos juntos na luta por políticas públicas, incluindo a defesa do SUS, que possibilitem aos trabalhadores aderir ao fique em casa e, assim, SALVAR VIDAS!
Rio de janeiro, 1º de maio de 2020.
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE SAÚDE COLETIVA – ABRASCO

segunda-feira, 18 de junho de 2018

CARTA AO LEITOR IV


Por Luiz Gonzaga Fonseca Mota (*)
Amigas e amigos. Existem três eixos fundamentais (político, social e econômico) que servem de apoio ao progresso de um Estado democrático. De nada adianta um País ser forte do ponto de vista econômico e sua população viver em condições precárias e sem liberdade política. Dentro desta linha de raciocínio, seria fundamental alcançar a cooperação entre governo, sociedade e setores empresariais e trabalhistas, para que ocorra um desenvolvimento responsável, integrado e sustentável. Particularmente, no caso brasileiro, é urgente a necessidade de programas e ações estruturantes que promovam e consolidem os direitos e obrigações da população. Por sua vez, sem crescimento econômico, não há de que se falar em geração de renda ou de empregos, e nem de melhorias que repercutam significativamente na vida do cidadão, seja quanto à educação, à saúde ou a quaisquer outros temas que o afeta diretamente. A busca da estabilidade macroeconômica e da eliminação da corrupção são vitais para a retomada do desenvolvimento. Ao Brasil será impossível destacar-se em meio as economias avançadas, se mantidas a miséria e a exclusão social de que somos testemunhas. O desenvolvimento precisa ser integral, abrangendo todas as áreas, ou seja, visando o bem-estar da coletividade e o equilíbrio ambiental. Nada do que foi dito pode ter resultados concretos, sem o envolvimento de toda a sociedade brasileira. Deseja-se que o engajamento se dê de forma crítica e atuante, garantindo a transformação de nossa realidade. Assim, estaremos participando de transformações esperadas, respeitando-se o regime democrático e a liberdade que lhe é intrínseca. Saudações.
(*) Economista. Professor aposentado da UFC. Ex-governador do Ceará.
Fonte: Diário do Nordeste, Ideias. 8/6/2018.

segunda-feira, 4 de junho de 2018

CARTA AO LEITOR II


Por Luiz Gonzaga Fonseca Mota (*)

Amigas e amigos. Gostaria de apresentar-lhes, dentro de uma visão histórica, um resumido perfil do Padre Cicero Romão Batista. Cearense do Cariri, religioso por convicção e sentimento, como também político em razão de fatores circunstanciais, nunca abandonou os princípios básicos da justiça social, da oração e do trabalho, sempre na defesa dos mais humildes. Não há dúvida, “Padim Ciço” tornou-se santo pela vontade popular e foi responsável pela expansão da fé católica não só no Nordeste do Brasil, mas no restante do País e com reflexos em outros. Provavelmente, por sua vida não ter sido analisada, com a merecida ênfase, tomando-se por base aspectos teológicos e filosóficos, fez do ilustre patriarca uma figura polêmica, quando na verdade deveria ser uma unanimidade. Padre Cícero, a rigor, seguiu o pensamento de Santo Tomás de Aquino, tendo por ponto fundamental a doutrina escolástica, buscando a harmonia entre o racionalismo aristotélico e a tradição do cristianismo. Ademais, Padre Cícero também se inspirou na filosofia metafísica cristã de Santo Agostinho. Este tomou por base a doutrina de Platão, caracterizada por ideologias eternas e transcendentes, importantes para a consolidação do comportamento moral e da organização política. Sem dúvida, pode-se dizer que Padre Cícero foi um discípulo de Santo Tomás de Aquino e de Santo Agostinho. Lamentavelmente, muitos não entenderam e não comentaram. Como católico praticante, acredito ser necessária uma análise mais profunda das atitudes e do pensamento de Cícero, à luz das doutrinas básicas da Igreja, envolvendo diretrizes filosóficas e teológicas. Saudações.

(*) Economista. Professor aposentado da UFC. Ex-governador do Ceará.

Fonte: Diário do Nordeste, Ideias. 25/5/2018.

segunda-feira, 21 de maio de 2018

CARTA AO LEITOR(A)

Por Luiz Gonzaga Fonseca Mota (*)
Amigas e amigos. Segundo o professor Albert Fishlow, conhecedor profundo da problemática dos países emergentes, "investir na educação é a forma mais eficiente para se conseguir uma melhor e mais justa distribuição de renda". A pessoa com maior nível de escolaridade tem melhor possibilidade de acesso ao mercado de trabalho em constante evolução, característica desta era da globalização. Concordamos com a ideia de que a educação deve ser proporcionada a todos por constituir um direito e uma condição para o pleno desenvolvimento da pessoa humana. Além de ser um direito, a educação também é um dos principais fatores, senão o mais importante, do desenvolvimento dos países. É fundamental que as nações entendam, que a educação não constitui um gasto, mas um investimento de longo prazo que deve expressar o compromisso de gerações e ser elevado a um projeto do Estado Democrático, para além das divergências partidárias das forças políticas que momentaneamente ocupam os papéis de governo e oposição. Com a expansão de novas tecnologias e métodos produtivos são requeridas novas aptidões. Não basta acompanhar as transformações, há que se ter a capacidade de antecipá-las. Daí a necessidade da educação ao longo de toda a vida. Este é um processo irreversível. Através do caminho da educação, encontramos o verdadeiro desenvolvimento humano abrangendo a solidariedade, a liberdade e a igualdade de oportunidades. Como disse Paulo Freire: “A educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda”. Sds.
(*) Economista. Professor aposentado da UFC. Ex-governador do Ceará.
Fonte: Diário do Nordeste, Ideias. 18/5/2018.

sábado, 9 de abril de 2016

Fosfoetanolamina sintética: veto ao Projeto de Lei 4639/16


Carta Aberta da Abrasco para reivindicar veto ao Projeto de Lei 4639/16

A Associação Brasileira de Saúde Coletiva – Abrasco, dirige-se respeitosamente a Vossa Excelência para reivindicar vosso veto ao Projeto de Lei 4639/16, que autoriza a produção e o uso da fosfoetanolamina sintética como medicamento. O mencionado PL foi aprovado pela Câmara e pelo Senado, nos dias 8 e 23 de março últimos, respectivamente, e aguarda sanção ou veto da Presidência da República.

A autorização de medicamentos não compete ao Poder Legislativo e à Presidência da República. Nas sociedades contemporâneas, esse tipo de decisão compete a órgãos técnicos; no Brasil, é atribuição da Agência Nacional de Vigilância Sanitária - ANVISA, segundo a Lei nº 9.782, de 26/01/1999.

A determinação da segurança e da eficácia de um medicamento depende dos resultados de uma sequência de estudos clínicos cujos métodos e protocolos já se encontram consolidados pela comunidade cientifica. Não se dispõe ainda de resultados desses estudos no caso dafosfoetanolamina sintética.

Em respeito às atribuições legais da ANVISA, e aos melhores interesses de proteção à saúde dos brasileiros, reiteramos a importância do veto presidencial ao PL 4639/16.

Rio de Janeiro, 5 de abril de 2016

Associação Brasileira de Saúde Coletiva

quinta-feira, 7 de abril de 2016

A PROPÓSITO DE FELICIDADE


Por João Soares Neto (*)

 Compreender é complicar. É enriquecer-se profundamente”. Lucien Lebvre (1878 -1956), historiador francês.

Há alguns anos resolvi criar uma biblioteca. Dei a ela o nome de “Espaço da Leitura”. Ela é aberta ao público todos os dias, inclusive aos domingos. Funciona das 10 da manhã às 10 da noite. O espaço é climatizado, há jornais do dia, revistas e livros para todos os gostos. O endereço: Av. Carapinima, 2200, 1º Piso. É só perguntar e chega fácil. Pode levar o seu computador e copiar, se desejar. Mas é preciso fazer isso em silêncio para não atrapalhar os outros usuários.

Visito-a, por vontade e zelo. Foi lá que me deparei com Epicuro, filósofo ateniense, nascido em 341 antes de Cristo, se o calendário não estiver errado. Pois bem, vejo a “Carta sobre a Felicidade”, escrita a Meneceu, um de seus destinatários favoritos, embora tivessem. outros, inclusive Heródoto.

Nessa epístola, que cabe em bolso, da Editora da Universidade Estadual de SP - UNESP, há uma elegia à felicidade. É bom deixar claro que Epicuro, foi expulso de Atenas após a morte de Alexandre Magno. Anos depois, volta para viver em casa com amplo terreno e jardim. Na casa ateniense ficavam os mestres, no “Jardim de Epicuro” abrigavam-se os seus jovens seguidores.

É bom lembrar que a tese de doutorado de Karl Marx versou sobre “A relação entre a filosofia de Epicuro e a de Demócrito”. Nela, Marx, entre outras considerações, tratava da visão de Demócrito sobre causa e efeito e asseverava que ela se aplicava tanto aos homens quanto à natureza. Ao falar de Epicuro, Marx associa-se ao seu pensar, pois, tal como ele, não aceitava o determinismo histórico e a fatalidade.

A carta é uma exortação ao exercício filosófico. Essencial para a obtenção da felicidade, “acreditando nos deuses”. Jesus só nasceria três séculos e meio depois de Epicuro. Logo no princípio, ele afasta o natural temor da morte: “Torna-se absolutamente necessário vencer esse medo da morte; ninguém deve temê-la, uma vez que não há nenhuma vantagem em viver eternamente: o que importa não é a duração, mas a qualidade da vida”.

A tradução da carta é de Álvaro Lorencini, daí a linguagem atualizada. Para Epicuro, sábio seria aquele que nunca acredita no destino e na sorte, mas o que acredita na sua vontade e na sua liberdade. Daí que a repetida frase de Geraldo Vandré: “quem sabe faz a hora, não espera acontecer” não tem nada de novo.

Quem afirma que a hora de dedicar-se à filosofia ainda não chegou, ou que ela já passou, é como se dissesse que ainda não chegou ou que já passou a hora de ser feliz”. É um apelo ao estudo da filosofia e, por meio dela, se chegar à felicidade, pela prudência. Não existiria existência feliz sem cautela, sem encanto e sem justiça. Deve-se viver sem medo da morte. E explana: “A morte, portanto não é nada, nem para os vivos, nem para os mortos, já que para aqueles ela não existe, ao passo que estes não estão mais aqui”.

Arremato e concluo crendo que ele fala dos desejos humanos, os naturais e os necessários, básicos para a felicidade: “o prazer é o início e o fim de uma vida feliz”. Em contraponto, afirma: “Toda dor é um mal, mas nem todas devem ser sempre evitadas. Convém, portanto, avaliar todos os prazeres e sofrimentos de acordo com o critério dos benefícios e dos danos… Tudo que é natural é fácil de conseguir; difícil é tudo o que é inútil”.

 (*) João Soares Neto é escritor e membro da Academia Cearense de Letras.

Fonte: Publicado no jornal O Estado-CE, em 31/01/2016.

Nota: Baseado na “Carta sobre a Felicidade”, de Epicuro, dedicada a Meneceu.
 

Free Blog Counter
Poker Blog