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sexta-feira, 20 de março de 2026

FOLCLORE POLÍTICO: Porandubas 862

Comecemos com um caso hilário, da verve do mestre Leonardo Mota.

I.N.R.I. - Iesus Nazarenus Rex Iudaeorum

O mestre Henrique era reputado marceneiro nos sertões de Sergipe. Sua especialidade estava nas camas francesas à Luís Quinze. Quando o freguês achava que o leito era baixo, recebia a explicação de que a cama era francesa, mas era à Luís Quatorze; se a queixa era da excessiva altura, ficava sabendo que aquilo era cama francesa à Luís Dezesseis... O mestre Henrique pôs toda a sua ciência no Cruzeiro do patamar da igreja de Aquidabã. No topo do sagrado madeiro, o vigário da freguesia fizera o mestre Henrique colocar uma tabuinha com as letras I.N.R.I., iniciais de Jesus Nazareno Rei dos Judeus, a irônica inscrição latina de que a ruindade de Pilatos se lembrara na ignominiosa sentença de morte do filho de Deus. Decorrido algum tempo, um sertanejo sergipano, intrigado com a significação daquelas quatro letras, perguntou a um seu conhecido:

- Que é que quererá dizer aquele negócio de INRI, que tem escrito em riba do Cruzeiro?

- Você não sabe não? Ali falta é o Q-U-E. Esse QUE não cabeu na tabuinha: aquilo é a assinatura de quem fez, que foi o mestre INRIque...

Fonte: Gaudêncio Torquato (GT Marketing Comunicação).

https://www.migalhas.com.br/coluna/porandubas-politicas/416946/porandubas-n-862

terça-feira, 1 de abril de 2025

BONITO PRA CHOVER

Por Izabel Gurgel (*)

Melhor do que Carnaval é Carnaval com chuva.

Vale, claro, para quem, como eu, gosta das duas coisas.

Escrevo fora de hora e ouvindo trovões.

Chove lá fora e me vem à lembrança um Carnaval que passou, o primeiro trio elétrico da vida passando e parando justo onde estávamos. Salve Salvador. "Chove lá fora..." começou tão santinho, santinho e eu não sabia que era só a largada para o demo solto (e ele é legião). Só eu não sabia.

Não lembro das cordas e dos cordeiros, como se diz dos homens que seguram as cordas, fronteira que separa quem brinca dentro e quem pula fora. Conheci a nomeação 'cordeiros' anos depois e só hoje, trovejando lá fora, percebo que talvez venha da corda o batismo deles e não do bicho associado ao sacrifício e invocado na missa. Aquele que tira o pecado do mundo.

É preciso saber ler os sinais. Estamos pessoas exauridas... As redes que uma querida professora farejou anos atrás como antissociais estão cheias de lições extraviadas de interpretação de texto. Diz-se isso nas redes em várias línguas. Com sotaque dos quatro cantos do mundo, que não são aquela encruza benta por tudo de bom que é brincar. O chamado Quatro Cantos de Olinda, os da canção "Me segura que senão eu caio", de Alceu Valença.

Anoto Olinda outra vez e volto ao título do texto, Bonito pra chover, o lindo trio que Leonardo Mota (1891-1947) anotou pra gente de ouvir dizer em suas andanças pelos sertões do mundo.

Bonito pra chover, que o querido professor Gilmar de Carvalho (1949-2021) tornou título e tutano de livro de ensaios sobre a cultura cearense (o subtítulo). Publicação da Fundação Demócrito Rocha, 2003. Vou citar Leota. O livro é "No tempo de Lampião", primeira edição no começo da década de 1930. Lampião vivinho da silva.

Cito o Leota: "À noitinha, no pátio da fazenda, um silêncio de angústia imobilizava os sertanejos, de ouvidos atentos a algum trovão longínquo. Há três meses, uma preocupação indisfarçável chumbava os espíritos à expectativa do inverno daquele ano. Seria possível que, mais uma vez, o anjo mau do extermínio adejasse sobre a terra mártir? (...) Pleno março e nenhuma esperança de inverno. Pela madrugada, ao filho varão que saíra ao terreiro, a fim de ver se estava relampeando pro lado do Piauí ou se o céu estava promisso de chuvas, o velho sertanejo pergunta, da rede em que está deitado na sala da frente:

- Manoé, meu filho, está bonito pra chover?".

É domingo de Carnaval. Em Fortaleza, vai ter Rei de Paus na Domingos Olímpio. Cada vez que passa o maracatu do seu Geraldo (Barbosa), fica bonito pra chover. Tem mais maracatu na rua. "Me chama" é o título da canção que me fez ir atrás do trio elétrico. Ainda estamos aqui.

(*) Jornalista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 2/03/25. Vida & Arte, p.2.

quarta-feira, 16 de outubro de 2024

CAMINHOS DO CEARÁ: mãos de cura - fazer renda, rezar, tocar

Por Izabel Gurgel (*)

Para sarar do cobreiro, sete dias de reza. Escuto na Rádio Estrada, as conversas viajantes quando estamos na estrada. As peças do colar feito na hora por Teresa Bola já começam a murchar na primeira reza.

Cada uma das sete visitas inclui a feitura de um colar, um cordão de aneizinhos do talo de mamoeiro, que a pessoa em busca de cura recebe desde a primeira e até a última visita. Ao final das sete rezas, Teresa queima os sete colares.

Teresinha Bernardino de Lima, "Bola" por parte de pai, caçador de tatu-bola, nasceu dia 21 de junho de 1945. É filha de rezadeira e foi iniciada na reza pelo sogro, Francisco Flor, de Barbalha. Dança no Côco de Dona Edite, grupo brincante da Batateira. É o bairro do Crato onde moram as mulheres que dançam no Côco criado no final dos anos 1970. Tem mais brincante meizinheira e rezadeira, como a mestra Edite Dias de Oliveira Silva.

Teresa reza com pinhão roxo. Vi, plantadinha no quintal dela, uma espécie de biblioteca com parte do que usa na feitura de garrafadas, para beber, e no preparo de banhos. As mãos, que desenham com bilros desde criança, tiram galhos de pinhão roxo no terreiro de casa, na Barra do Mundaú, território Tremembé em Itapipoca. Rendeira, Maria Pedro dos Santos nasceu dia 14 de outubro de 1942 e reza, "o dote de Deus", desde os 14 anos.

Maria Eunice Almeida Joca reza também à distância, na intenção do nome e em direção ao lugar de moradia da pessoa a ser benzida. Nasceu dia 31 de outubro de 1952 em São Paulo dos Padres, zona rural de Canindé. Em 2022, conversei com ela por telefone, depois do desencontro na cidade. Ela morava, então, na sede do município. Em casa, tem pés de boldo e arruda, "que tira toda malizânia que tiver na pessoa". Começou a rezar por volta dos 16 anos. Aprendeu com a avó. Parte da transmissão à neta, Maria Libânia Almeida fez com a reza dita por escrito.

Na Casa de Mãe Dodô, na ladeira do Horto, a Serra do Catolé vivida como colina sagrada pela Nação Romeira, em Juazeiro do Norte, Maria Helena da Silva reza coletivamente. A benzedeira de 63 anos se desloca a partir do centro do semi-círculo formado pelas pessoas sentadas. A reza se desenha também para cada criatura, uma a uma. Tem maestria quem (se) desdobra (n)o tempo.

Em Madrinha Dodô, vi Pankararus atravessando outras fronteiras, deixando o mundo, a uma só vez, maior e menor para quem estava por perto, ainda que não se acredite em nada além do pulsar das próprias veias - há quem ache isso pouco. O rezo Pankararu é dança, dançado. O que me leva às áreas da estrada velha da Prainha, em Aquiraz.

Só o vi uma vez. Não trocamos palavra. Pedro tocava tambor. Cantou mais de três horas para seres sagrados, que se manifestam dançando no corpo de mulheres e homens. Pedro é rezador, soube dias depois.

Comecei, por zap, uma conversa com ele: "É muito espiritual. Vem de nascença. As pessoas nascem com mão de cura". Francisco Pedro Castro Silva, 54 anos feitos no último dia 9, falou sobre entidades sagradas abrindo a mão de cura. "Meu avô benzia", diz sobre Cosmo de Castro Gomes, que viveu 97 anos. Filho de Raimunda Castro Silva e Francisco de Assis Serra da Silva, Pedro tem mais irmãos. "Lá em casa, só eu tenho esse dom". A depender do caso, reza com agulha e pano. Vai costurando. Como quem escreve.

(*) Jornalista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 15/09/24. Vida & Arte, p.2.

sexta-feira, 12 de julho de 2024

FOLCLORE POLÍTICO CXXXIX: Porandubas 808

Abro com o hilário Zé Abelha.

Eis mais uma historinha do repertório de Zé Abelha, o nosso mineirinho contador de causos. Dr. Luís da Costa Alecrim, juiz de Direito da comarca de Conselheiro Pena, interroga um cidadão acusado de ter esfaqueado uma prostituta, residente na Boate Luar.

- O senhor conhece esta faca?

- Não, doutor, nunca vi essa peixeira.

Dr. Alecrim manda recolher o indiciado.

Mês seguinte, novo interrogatório:

- O senhor conhece esta faca?

- Conheço sim senhor, responde com malícia o indiciado.

- Então o senhor confessa a tentativa de homicídio?

- Não senhor! Eu disse que conhecia a peixeira. Não é aquela que o senhor me mostrou, mês passado?

Fonte: Gaudêncio Torquato (GT Marketing Comunicação).

https://www.migalhas.com.br/coluna/porandubas-politicas/388140/porandubas-n-808


sexta-feira, 28 de junho de 2024

FOLCLORE POLÍTICO CXXXVIII: Porandubas 807

Abro com as deliciosas historinhas de Leonardo Mota, o saudoso folclorista.

Onde mora o dr. Agriço?

Quem entra no "Hotel Roma" de Alagoinhas, na Bahia, vai com os olhos a uma tabuleta agressiva em que peremptoriamente se adverte:

“Pagamento adiantado, hóspedes sem bagagens e conferencistas”

Também, em Pernambuco, o proprietário do hotelzinho de Timbaúba é, com carradas de razão, um espírito prevenido contra conferencistas que correm terras. Notei que se tornou carrancudo comigo quando lhe disseram que eu era conferencista, a pior nação de gente que ele contava em meio à sua freguesia. Supunha o hoteleiro de Timbaúba que eu fosse doutor de doença ou doutor de questão. Por falar em Timbaúba. Há ali um sobrado, em cuja parte térrea funciona uma loja de modas, liricamente denominada "A Noiva". O andar superior foi adaptado para residência de uma família. Eu não sabia de nada disso quando tendo indagado do Major Ulpiano Ventura onde residia o dr. Agrício Silva, juiz de Direito da comarca, recebi esta informação chocante:

- O Doutô Agriço? O Doutô Agriço está morando em riba d' "A Noiva"...

Fonte: Gaudêncio Torquato (GT Marketing Comunicação).

https://www.migalhas.com.br/coluna/porandubas-politicas/387861/porandubas-n-807


sexta-feira, 3 de maio de 2024

FOLCLORE POLÍTICO CXXXIV: Porandubas 802

Ô jardineira...

Numa cidadezinha do norte do Rio de Janeiro, a procissão de Senhor Morto caminhava lenta e piedosa, na sexta-feira da paixão, com o povo cantando, de maneira compungida, os hinos sacros. O velho padre na frente, o sacristão ao lado e os fiéis atrás, cantando as músicas que o vigário puxava. De repente, um pequeno ônibus, antigamente chamado de "jardineira", passou perto e começou a subir a íngreme ladeira da igreja, bem em frente da procissão. No meio da ladeira, a "jardineira" afogou, encrencou, parou, deu aceleradas fortes e inúteis e começou a rodar para trás, de costas. Os fiéis não viram, mas o padre, atento, viu. E ficou apavorado. A "jardineira" já despencava em grande velocidade. O padre gritou:

- Olha a jardineira!

E os fiéis começaram a cantar, em ritmo de samba:

- Ô jardineira, por que estás tão triste? Mas o que foi que te aconteceu? Foi a camélia que caiu do galho, deu dois suspiros e depois morreu.

A "jardineira" descambou ladeira abaixo, até que parou. Não atropelou ninguém. Sob o olhar do Senhor Morto! Mas os fiéis não aguentavam de tanto rir.

Fonte: Gaudêncio Torquato (GT Marketing Comunicação).

https://www.migalhas.com.br/coluna/porandubas-politicas/384304/porandubas-n-802

sexta-feira, 19 de abril de 2024

FOLCLORE POLÍTICO CXXXIII: Porandubas 799

Abro com uma historinha de Pernambuco.

O defeito do cavalo

Em Caruaru/PE, o coronel João Guilherme, senador estadual e chefe político, comprou a um matuto um cavalo de sela. Cavalo bonito, mas com a pálpebra caída. Cego de uma das vistas. Ao descobrir o logro, o coronel ficou indignado. Fez vir à sua presença o espertalhão. Ameaçou-o de cadeia.

- Você teve a coragem de me vender um cavalo cego dum olho! Isso é uma falta de seriedade! Você fez negócio com um homem e não com um tratante da sua laia! Por que você não teve a franqueza de me dizer que o cavalo tinha esse defeito?

- Mas, seu coronéu, vamincê me desculpe, mas vou lhe dizer: o cavalo que eu lhe vendi não tem defeito, não!

- Não tem defeito? Não tem defeito? Então, você acha que um cavalo cego dum olho não tem defeito?

- Seu coronéu, vamincê me desculpe, mas eu acho que não tem não! Ser cego não é defeito: ser cego é uma infelicidade...

(Historinha de Leonardo Mota em Sertão Alegre)

Fonte: Gaudêncio Torquato (GT Marketing Comunicação).

https://www.migalhas.com.br/coluna/porandubas-politicas/383005/porandubas-n-799

sexta-feira, 15 de março de 2024

FOLCLORE POLÍTICO CXXXII: Porandubas 798

Amigos me perguntam: e cadê "seu Lunga"? Pois é, vez ou outra tenho de ressuscitar o nosso "diplomata".

Vamos abrir a coluna com o cearense.

Os chatos

O cearense seu Lunga virou uma metralhadora contra os chatos. Um deles questionou o autor sobre os casos narrados. Uma das passagens fala em sonâmbulo. Argumenta que seu Lunga não usaria tal expressão. Pode ser. Os chatos sempre nivelam por baixo. Se fosse dele, questiona o chato, a palavra seria algo parecido com "sonambo". Pois esse chato chegou na casa do Lunga, em Juazeiro do Norte, e se anunciou:

- Ô de casa, tem gente?

- Não. Só tem percevejo e chato - gritou lá de dentro nosso querido personagem.

O chato não se afobou e, ao ver três imensos potes d'água, continuou:

- Tem água de beber?

- Não, só tem água de comer.

O chato calou-se.

Tomando banho

Seu Lunga estava tomando uma sopa num bar de Juazeiro. Um sujeito entra no estabelecimento e pergunta:

- Tomando sopa, Seu Lunga?

E Seu Lunga:

- Não! Tô tomando banho!

Fonte: Gaudêncio Torquato (GT Marketing Comunicação).

https://www.migalhas.com.br/coluna/porandubas-politicas/382605/porandubas-n-798


sábado, 9 de dezembro de 2023

CHAPEUZINHO VERMELHO E O LOBO

Chapeuzinho Vermelho está andando pela floresta, quando vê uma moita se mexendo. Sem conseguir conter a sua curiosidade, espia atrás da moita e dá de cara com o Lobo Mau.

— Bom dia, senhor Lobo! Nossa que olhos grandes você tem! — observa ela.

— São para melhor te ver, Chapeuzinho! — responde o Lobo, cordial.

E ela continua o seu passeio. Pouco mais adiante, vê outra moita se mexendo. Corre para dar uma espiada e novamente encontra o Lobo Mau.

— Olá, senhor Lobo! Caramba, que nariz grande você tem! — observa.

— São para melhor sentir o seu perfume, Chapeuzinho! — responde ele, secamente.

E ela continua o seu passeio. Alguns minutos depois, vê outra moita se mexendo. Como é muito curiosa, resolve espiar e outra vez dá de cara com o Lobo.

— Uau! Você de novo, senhor Lobo! Mas que orelhas grandes você tem! — observa.

— São para melhor te ouvir, Chapeuzinho! — responde ele, irritado.

E ela continua o seu passeio. Duzentos metros depois, vê outra moita se mexendo. Adivinha quem está lá? O próprio.

— Olá, senhor Lobo! Mas que saco grande você carrega! — observa.

— É para te aturar, Chapeuzinho! Faz meia hora que eu estou querendo fazer xixi e você não deixa! Sua chata!

Fonte: Disponível na home page “Tudoporemail”.

sexta-feira, 17 de novembro de 2023

FOLCLORE POLÍTICO CXV: Porandubas 789

Abro as Porandubas com as hilárias historinhas de "Seu Lunga". Lembram-se do cearense muito educado?

Elevador

Seu Lunga, no elevador (no subsolo-garagem). Alguém pergunta:

- Sobe?

Ele:

- Não, esse elevador anda de lado.

Tá doente?

Seu Lunga vai saindo da farmácia, quando alguém pergunta:

- Tá doente?

- Quer dizer que se eu fosse saindo do cemitério, eu tava morto?

Tá bom, pai

Seu Lunga dava uma tremenda surra no filho e o menino gritava:

- Tá bom, pai! Tá bom, pai! Tá bom, pai!

- Tá bom? Quando tiver ruim, você me avisa, que eu paro.

No Polo Norte

O amigo liga para sua casa e pergunta a seu Lunga:

- Onde você está?

E ele:

- No Polo Norte! Um furacão levou a minha casa pra lá!

Levou os discos?

Na década de 70, seu Lunga chega num bar e fala pro atendente:

- Traz uma cerveja e bota o disco de Luiz Gonzaga pra eu ouvir!

- Desculpe, seu Lunga, não posso botar música hoje...

- Mas por que?

- Meu avô morreu!

- E ele levou os discos, foi?

Fonte: Gaudêncio Torquato (GT Marketing Comunicação).

https://www.migalhas.com.br/coluna/porandubas-politicas/378621/porandubas-n-789

sexta-feira, 20 de outubro de 2023

FOLCLORE POLÍTICO CXIII: Porandubas 787

Abro a coluna com as águas termais do Brejo das Freiras...

Em terras paraibanas...

Brejo das Freiras é uma Estância Termal nos confins da Paraíba, perto de Uiraúna, Souza e até da serra de Luis Gomes/RN, minha querida cidade natal. Trata-se de um lugar para relaxamento e repouso. O Governo da Paraíba tinha (não sei se ainda tem) um hotel, com uma infraestrutura para banhos nas águas quentes. Década de 70. Apolônio, o garçom, velho conhecido dos fregueses da região, recebe, um dia, um hóspede de outras plagas. Pessoa desconhecida. Lá pelas tantas, quase terminando a refeição, o senhor levanta a mão, chama Apolônio e pede:

- Meu caro, quero H2O.

Susto e surpresa. Anos e anos de serviços ali no restaurante e ninguém, até aquele momento, havia pedido aquilo. Que diabo seria H2O? Apolônio, solícito:

- Pois não, um instante!

Aflito, correu na direção da única pessoa que, no hotel, poderia adivinhar o pedido do hóspede. Tratava-se de Luiz Edilson Estrela, apelidado de Boréu (por causa dos olhos grandes de caboré), empedernido boêmio, acostumado aos salamaleques da vida.

- Boréu, tem um senhor ali pedindo H2O. O que é isso?

Desconfiado, pego sem jeito, Boréu coça o queixo, olha pro alto, tenta se lembrar de algo parecido com a fonética e, desanimado, avisa:

- Apolônio, sei não. Consulte o Freitas.

Freitas era o diretor do Grupo Escolar, o intelectual da região. Localizado, o professor tirou a dúvida no ato:

- H2O é água, seus imbecis. Quer dizer água.

Apressado, Apolônio socorreu o freguês, já inquieto com a demora, com uma jarra do líquido. Depois, no corredor, glosando o feito, gritou em direção a Boréu:

- Ah, ah, ah, esse sujeito achava que nós não sabia ingrês. Lascou-se!

Fonte: Gaudêncio Torquato (GT Marketing Comunicação).

https://www.migalhas.com.br/coluna/porandubas-politicas/377798/porandubas-n-787

sexta-feira, 25 de agosto de 2023

FOLCLORE POLÍTICO CIX: Porandubas Políticas 582

Abro a coluna com uma historinha da Paraíba.

Quatro “freis”

Historinha em homenagem ao Frei Damião, sob as bênçãos de quem os nordestinos viveram parte de sua história.

E lá vinha o carro desembestado pelas estradas poeirentas, entre Patos e Cajazeiras, na Paraíba. Dentro, dois frades: Frei Fernando e Frei Damião, cuja expressão religiosa é tão enaltecida quanto a do “padim” Ciço (Padre Cícero Romão Batista). O guarda do posto divisou, de longe, aquele automóvel em louca disparada. E foi logo fechando a cancela do posto. O motorista teve de se conformar com a freada brusca. O guarda foi duro:

– Esse carro disimbestado não tem frei?

Expliquemos que a fonética na região é essa mesmo: disimbestado e frei (em vez de freio). Resposta lacônica na ponta da língua:

– Tem, sim, seu guarda. Tem logo quatro: frei de pé, frei de mão, Frei Fernando e Frei Damião.

Surpreso e curioso, o guarda olhou e viu os “freis”. Pediu a bênção ao Frei Damião, pediu desculpas, liberou o carro e abriu a cancela.

Fonte: Gaudêncio Torquato (GT Marketing Comunicação).

sexta-feira, 11 de agosto de 2023

FOLCLORE POLÍTICO CVIII: Porandubas Políticas 585

Abro a coluna com a Semana Santa no interior da Paraíba.

Fura ele, Jesus

Foi por ocasião da encenação da Semana Santa numa cidadezinha da Paraíba. O dono do circo resolveu encenar a Paixão de Cristo na sexta-feira santa. Elenco escolhido dentre os moradores. No papel de Cristo, o galã da cidade. Ensaios de vento em popa. Às vésperas do evento, o dono do circo soube que ‘Jesus’ estava de caso com sua mulher. Furioso, deu-se conta que não podia fazer escândalo sob pena de perder o investimento. Bolou uma maneira. Comunicou ao elenco que iria participar fazendo o papel do ‘centurião’.

– Como? – reclamaram – Você não ensaiou!

– Não é preciso ensaiar, porque centurião não fala!

O elenco teve de aceitar. Dono é dono. Chegou o grande dia. Cidade em peso compareceu. No momento mais solene, a plateia chorosa e em silêncio. Jesus carregando a cruz. O ‘centurião’ começa a dar-lhe chicotadas.

– Oxente, cabra, tá machucando! Reclamou Jesus, em voz baixa.

– É pra dar mais verdade à cena – respondeu o centurião.

E tome chicotada. Chicote comendo solto no lombo do infeliz. Até que Jesus enfureceu-se, largou a cruz no chão, puxou uma peixeira e partiu pra cima do centurião:

– Vem, desgraçado! Vem cá que eu vou te ensinar a não bater num indefeso!

O centurião corria, Jesus com a peixeira correndo atrás. O povo em delírio gritando:

– É isso aí! Fura ele, Jesus! Fura, aqui é a Paraíba, não é Jerusalém, não!

Fonte: Gaudêncio Torquato (GT Marketing Comunicação).


quinta-feira, 8 de junho de 2023

CAMINHOS DO CEARÁ: rendeiras do labirinto Canoa

Por Izabel Gurgel (*)

Fernanda Maria da Rocha Oliveira faz aniversário quinta, dia 18, dois dias antes do aniversário de Berenice Fernandes Pinto. São rendeiras em Canoa Quebrada. São labirinteiras, como dizemos das mulheres que fazem a renda bordada ou o bordado rendado de nome labirinto. Conheci as duas indo de casa em casa na antiga vila, hoje com cinco mil habitantes. No final de 2017 e comecinho de 2018, andei rua por rua, beco por beco, procurando por elas.

Fernanda, a Fernanda de Tiquim, o marido. Berenice, a irmã da também labirinteira Marlinda. Elas estavam na lista que comecei a fazer ouvindo Dona Valdênia Barqueiro dos Santos desenhar, com palavras, uns e outros mapas que narrativas do lugar fazem surgir em meio à paisagem atual. Estávamos na casa da sogra dela, Dona Aracy, também labirinteira. Dona Valdênia ia contando e juntas víamos fotos reunidas pela filha mais velha, Paula Renata, para uma atividade na escola, quando era aluna. Paula Renata, aprovada em concurso público, é professora na escola pública que tem o nome do poeta Zé Melancia.

Anos depois, recebo de um amigo fotos de Canoa com rendeiras em atividade. Reconheço rostos, e a cena, recorrendo à memória de passagens pelo lugar. Os tempos se sobrepõem, como um caderno de desenho aberto em uma folha branca coberta por múltiplas folhas finas, todas elas, a de papel mais denso e as transparentes, várias vezes percorridas por inscrições, anotações. Tensionam o vazio, o silêncio e o desafio que, repetidas vezes, usamos para nos referir à folha em branco.

Em uma das fotos, reconheço a senhora sentada, de costas, com o tecido branco no bastidor, fazendo labirinto. É Dona Valdênia toda. Mas 30 anos antes. Trata-se da mãe dela, Zélia, cujas habilidades com as mãos materializavam, também, caixões de papel para sepultamento de crianças. É forte, porque comum, ouvir rendeiras contando de si e contando, na mais perversa das matemáticas, mortes sucessivas em casa. "Tive nove.... quatro se criaram".

Outra foto, outro alpendre, e vejo quem não conheci. É Dona Chiquinha de Ana na cadeira de balanço, dobrada sobre a grade apoiada nas suas pernas, com o labirinto em andamento, parece uma das filhas que visitei, três décadas depois daquele dia no qual estavam quase todas à porta de casa, crianças ao redor, fazendo o que a maioria de nós mulheres há anos fazemos, como um trabalho invisível. A sustentação de cotidianos do mundo, o dar arrimo para que a vida da casa, e a 'lá de fora', possam acontecer.

Sabe quem está na foto, menino ainda? O neto de Chiquinha de Ana que, sobre as imagens daquele caderno de desenho ao qual recorri, tatuou outras anotações sobre a pele do lugar. Como Dona Valdênia em 2017 recriando Canoa, Mauro Oceans desenha futuros onde nasceu. São mais de cem grafites a céu aberto, feitos por ele, sozinho ou com mais gente por ele convocada. É uma rota possível. Andar para encontrar, no labirinto Canoa, as rendeiras do lugar. Entre as casas de Fernanda de Tiquim, Berenice, Marlinda, Dona Aracy e Dona Valdênia, uma Canoa Quebrada que amplia nossa experiência de tempo.

(*) Jornalista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 14/05/23. Vida & Arte, p.2.

sexta-feira, 21 de abril de 2023

FOLCLORE POLÍTICO XCX: Porandubas Políticas 594

Abro a coluna com uma historinha que exibe traços de nossa cultura.

Eita, Brasil

Um sujeito comprou uma geladeira nova e para se livrar da velha, colocou-a em frente da casa com o aviso: “De graça. Se quiser, pode levar“.

A geladeira ficou três dias sem receber um olhar dos passantes. Ele chegou à conclusão: ninguém acredita na oferta. Parecia bom demais pra ser verdade.

Mudou o aviso: “geladeira à venda por R$ 50,00“. No dia seguinte, a geladeira foi roubada!

Fonte: Gaudêncio Torquato (GT Marketing Comunicação).

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2023

FOLCLORE POLÍTICO XCVII: Porandubas Políticas 597

Abro a coluna com a sabedoria do padre Elesbão.

No confessionário

Numa cidadezinha de Minas, Padre Elesbão estava esgotado de tanto ouvir pecados, ou, como dizia, besteiras. Decidiu moralizar o confessionário. Afixou um papelão na porta da Igreja, dizendo: O vigário só confessará:

2ª feira – As casadas que namoram.

3ª feira – As viúvas desonestas.

4ª feira – As donzelas levianas.

5ª feira – As adúlteras.

6ª feira – As falsas virgens.

Sábado – As “mulheres da vida”.

Domingo – As velhas mexeriqueiras.

O confessionário ficou vazio. Padre Elesbão só assim pode levar vida folgada. Gabava-se:

– Freguesia boa é a minha… mulher lá só se confessa na hora da morte!

(Leonardo Mota em seu livro Sertão Alegre)

Fonte: Gaudêncio Torquato (GT Marketing Comunicação)

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2023

POR QUE CERTAS PALAVRAS CAEM EM DESUSO?

Atribuído a Mário Alberto P. de Paiva

Aquele abilolado está namorando aquela gasguita que tem os cambitos mais finos que canela de sabiá.

Pela frase acima, quem tem mais de 40 anos já deve ter percebido que muitas palavras e expressões que se usavam até bem pouco tempo, não as usamos mais.

Para adentrarmos ao colégio no início do ano letivo, tínhamos que ir ao serviço de Saúde Pública para fazer uma abreugrafia, cujo aparelho estava no outro lado de um biombo.

As casas, muitas delas bangalôs, eram arrodeadas de alpendres, onde nas salas além do sumier, sempre tínhamos uma cristaleira enfeitada com biscuit, uma eletrola (que é uma vitrola elétrica) para tocar disco. Na copa, a petisqueira guardava doces, sobremesas bolos e o lambedor que era o melhor remédio para gripe, substituía qualquer cachete. No quarto junto ao criado mudo ficava o urinol para mictar durante a noite e em cima a quartinha com água.

Os petizes quando muito danados, eram chamados de azougue, e quase sempre faziam uma arte, se arranhavam, produzindo uma pereba ou tuíta, o pai além de uns croques, cascudos ou = cocorotes ainda os colocava de castigo sem direito a fita da matinal no cinema aos sábados e nem tão pouco o sorvete com carlito.

As meninas que estavam ficando mocinhas, as mães faziam penteados armados com laquê, presos com biliro ou invisível que é a mesma coisa ou um belo diadema, estava chegando a hora das moçoilas usarem corpete, saieta e porta-seios.

O automóvel era dirigido por um chofer particular que usava um casquete na cabeça e tinha toda responsabilidade sobre o veículo, evitar os catabis, atenção ao atravessar uma pinguela, não dar bigu a desconhecido, tinha também obrigação de manter o carro limpo, principalmente a boleia, com o tabelier lustrando. Quando viajava, para economizar combustível a marcha utilizada deveria ser a prise e tomar todo o cuidado quando fosse dar rier para não amassar o pára-choques, a rodagem deveria sempre ser verificada e em caso de problema com um dos pneus usaria o suporte.

Aos recém-nascidos costumavam dar de lembrança um par de chiquitos e os mais abastados presenteavam com trancelim de ouro.

As lojas, armarinhos, as empresas de modo geral, nos finais de ano sempre mandavam confeccionar cromos com calendários para distribuir com seus fregueses.

Os barbeiros, perguntavam ao cliente se a liberdade do cabelo era no meio ou de lado.

Sentir-se mal, era ter um farnesim. Urinar, no mictório. Escrever para alguém, era uma missiva. Se tinha ânsia de vômito, cuidado aonde ia lançar. Se na cozinha a buchada não estava bem lavada subia aquele pituim.

Palavras chulas não se permitiam usar. Vá prá baixa da égua, filho de uma mãe, você parece um três vezes oito, fruviôco e fiofó eram o extremo.

Ah! Na minha casa para se fazer ponche de cajá ou mangaba ainda se usa a urupema.

Fonte: Circulando por i-phones, sem autoria clara, em setembro de 1999.

sexta-feira, 25 de novembro de 2022

FOLCLORE POLÍTICO XCI: Porandubas Políticas 608

Abro a coluna com uma historinha das Alagoas.

Jesus Cristo

Era aniversário de um bravo coronel de polícia de Palmeira dos Índios. Contrataram dois cantores para animar a festa. Os homens chegaram, violas em punho:

- Coronel, vamos cantar a sua vida.

– Nada disso, cantador de verdade não prepara, improvisa. Vou dar um mote, vocês cantam. E nada de minha vida. Quem vai ser cantado, hoje, é Jesus Cristo. E o mote é: – “Jesus Cristo veio ao mundo nos livrar das injustiças”.

Um cantador olhou para o outro, cada qual mais branco. O coronel estava nervoso. O jeito era começar.

Um tirou: - Jesus Cristo veio ao mundo nos livrá das injustiça.

O outro respondeu: - Quando ele tinha 15 anos rezou a primeira missa.

O primeiro engasgou. E foi em frente: - Quando completou 18, sentou praça na poliça.

O coronel não gostou. Meteu os dois no xadrez.

Um vácuo no jornalismo

A morte de Ricardo Boechat abre um imenso vácuo no jornalismo. A frase é mais uma entre as milhares que circulam por ocasião do desaparecimento de celebridades, pessoas famosas. Mas, no caso de Boechat, a verdade do argumento está no fato de que ele era exceção na galeria dos âncoras de TV e comentaristas de rádio. Desenvolveu forte identidade. Inigualável. Discorria sobre temas que dominava de forma exemplar, informava, interpretava, opinava e até fazia humor, exercendo, assim, as quatro funções básicas do jornalismo: informar, interpretar, opinar e divertir.

Fonte: Gaudêncio Torquato (GT Marketing Comunicação).


sexta-feira, 29 de julho de 2022

FOLCLORE POLÍTICO LXXXI: Porandubas Políticas 637

Abro com uma historinha de Jaguaribe, no Ceará.

Quatro chinelas

O médico Francisco Ibiapina, do Jaguaribe/CE, tratava com muito zelo de um cliente recém-casado e acometido de forte gripe. O clínico fazia prescrições sobre o regime alimentar e sugeria cautelas para evitar recaída. A um lado, a jovem esposa presenciava a conversa, silenciosa e atenta aos conselhos do médico. Fixando nela os olhos amorosos e não se conformando com a desarrumação de sua lua de mel, o doente cochichou um pedido com voz rouquenha:

– Seu doutô: fazerá mal quatro chinela debaixo da minha rede?

(Causo contado pelo historiador Leonardo Mota no livro Sertão Alegre)

Fonte: Gaudêncio Torquato (GT Marketing Comunicação).

segunda-feira, 11 de abril de 2022

ZÉ LIMEIRA: História Cearense

Por Luiz Gonzaga Fonseca Mota (*)

Quem tem menos de 60 anos de idade, provavelmente não se lembra do Abrigo Central. Era um “mercado aberto”, ao lado da Praça do Ferreira onde se reuniam políticos, torcedores, desempregados, apontadores de jogo do bicho, boêmios, estudantes, motoristas, empresários, enfim, era o local mais democrático de Fortaleza. Símbolo da liberdade cearense, no velho Abrigo compras eram feitas, papos eram batidos, merendava-se, sapatos eram engraxados, tomava-se cafezinho. Lembro-me de uma cena que jamais esquecerei: tinha 12 para 13 anos de idade, estava com alguns colegas merendando em uma lanchonete do Abrigo quando de repente surge o então governador Raul Barbosa acompanhado de outros políticos, para tomar café junto do povo. A emoção de todos nós foi grande. Quanta simplicidade da autoridade maior do Estado. Assim era o Abrigo Central! Existiam três pessoas famosas no velho Abrigo: “Pedão”, da bananada, torcedor do Ceará, “Zé Limeira”, chefe dos engraxates e da torcida do Ferroviário, e “Bodinho”, da banca de jornal, apaixonado pelo Fortaleza. Assim, desde menino já conhecia o Zé Limeira, pois era, como ainda sou, torcedor do Ferroviário. Nossa aproximação maior aconteceu muito tempo depois, em 1982, já não mais existia o Abrigo, era eu candidato ao Governo do Ceará. Daí para frente, o poeta e amigo Zé Limeira incorporou-se ao meu dia a dia, participando ativamente da minha vida pública. Lamentavelmente, em 7 de abril de 2004, faleceu aos 79 anos o querido Zé, quixadaense de escol. O poeta, como era chamado, fez dois livros contando suas “lambanças”, estórias e lembranças. O mais curioso é que ele não sabia ler nem escrever. Não teve oportunidade de cursar uma escola, todavia era formado pela “Faculdade da Vida”. Seu primeiro livro foi prefaciado pela inesquecível Raquel de Queiroz e tive a honra de redigir o prefácio do segundo. Como já salientei, Zé era um homem de poucas letras, aliás, de nenhuma letra, mas dotado de conhecimentos fundamentais. Devo muito a ele, pelo que por mim fez na política, orientando-me e colaborando para que eu errasse menos e acertasse mais. Sempre dizia que Zé era o meu “assessor para assuntos aleatórios”. Foi o único marqueteiro que tive em minha vida. Homem de bom coração e dotado de um sentimento de amizade fora do comum.

(*) Economista. Professor aposentado da UFC. Ex-governador do Ceará.

Fonte: Diário do Nordeste, 8/03/2022. Ideias.

 

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