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quarta-feira, 26 de fevereiro de 2025

CONVIVENDO COM DIFERENÇAS

Por Vladimir Spinelli Chagas (*)

Em alguns momentos, neste espaço, falamos sobre questões como tolerância, qualidade que vimos negligenciando há muito tempo, parecendo agravar-se constantemente.

Digo isso com tristeza, pois vejo um mundo que parece se tornar menos humano a cada dia, aumentando a insensibilidade e a dependência de bens não essenciais e de comportamentos que não condizem com os ensinamentos que recebemos das religiões: os do amor ao próximo.

É fato que também proliferam, com menos barulho, ações de abnegados que buscam aliviar o sofrimento de tantos que não têm o suficiente em alimentos, saúde, segurança e moradia, o mínimo que uma criatura humana merece ter.

O que mais deveria chocar a cada um de nós é que as riquezas materiais estão crescendo em uma espiral perversa e sendo acumuladas por um número sempre menor de pessoas que desfrutam dos mesmos direitos, mas podem pagar por eles.

Segundo estudo do Comitê de Oxford para Alívio da Fome (Oxfam), a fortuna dos cinco homens mais ricos do mundo passou de 405 bilhões de dólares, em 2020, para 869 bilhões de dólares, em 2023.

São fortunas crescentes, mas estáticas, isto é, não circulam em benefício de todos. E os bilionários controlam cada vez mais empresas, pressionam os governos para redução de impostos e os empregados para maiores esforços, e emitem tanta poluição de carbono quanto os dois terços mais pobres.

O que fazer? Da parte dos mais pobres, altivez na defesa dos seus direitos, mesmo enfrentando situações desiguais. Nós, de um patamar um pouco acima, a consciência dessas diferenças e a busca de a elas fazermos frente.

Já os afortunados poderiam dispor de uma pequena parcela de suas fortunas em apoios a projetos sociais, o não lhes faria qualquer diferença. Afinal, ainda conforme a Oxfam, se cada um dos cinco homens mais ricos do mundo gastasse um milhão de dólares por dia, seriam 476 anos para esgotar suas fortunas, enquanto, no ritmo atual, levaríamos 230 anos para erradicar a pobreza.

Pensar apenas, não resolve. Mas agir como aquele pequeno pássaro que atacava um incêndio com as gotas de água que podia levar no bico, ajuda, sim.

(*) Professor aposentado da Uece, membro da Academia Cearense de Administração (Acad) e conselheiro do CRA-CE. Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Fortaleza.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 27/01/25. Opinião. p.20.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2024

MÉDICOS SEM FRONTEIRAS

Por Ana Miranda (*)

Vejo sempre, na feira aqui em frente, a Noordmarkt, um pequeno coral entoando músicas tradicionais, gracioso e afinado. No chão, um chapéu onde os ouvintes depositam moedas ou notas, e um cartaz: cantam para ajudar os Médicos Sem Fronteiras.

Esses médicos são maravilhosos. Quando o perigo chega ao limite, quando uma epidemia vem dizimando, uma guerra se torna mais cruel, um inferno de sofrimento se instala... quando não há mais anestesia, remédios, ambulâncias, povos sucumbem a bombardeios e as pessoas não têm tem mais água, alimento ou abrigo, quando há terremotos, inundações, chacinas, massacres, genocídios, quando a morte é maior que a vida e todos partem por não haver mais esperança, os Médicos Sem Fronteiras estão lá.

Aparecem nos jornais imagens da violência, sofremos de longe, mas eles estão ali de corpo e alma. Apoiaram cambojanos que fugiam do Khmer Vermelho, vítimas da guerra no Afeganistão, da grande fome na Etiópia, da guerra no Sri Lanka, do terremoto na Armênia; atenderam a vítimas do massacre dos bósnios, do genocídio em Ruanda, dos conflitos na Libéria, do terremoto que devastou o Haiti, a refugiados no Congo; resgataram sobreviventes no Mediterrâneo, ajudaram vítimas do tufão nas Filipinas, da epidemia de Ebola em seis países africanos, da guerra e do surto de cólera no Iêmen, do terremoto no Nepal; deram apoio a refugiados em Bangladesh, a vítimas do ciclone e inundações em Moçambique, da Covid em mais de setenta países, do ataque contra a maternidade em Cabul, entre outras desgraças. Os que puderam, partiram, mas eles estão lá, em Gaza, mesmo depois de morrerem três de seus médicos no bombardeio ao hospital Al Awda.

Atuaram no Brasil contra a epidemia de cólera na Amazônia, dando apoio a crianças de rua no Rio, a vítimas do massacre em Vigário Geral; trabalharam na prevenção de Aids no Rio, nas enchentes em Pernambuco e Alagoas; ajudaram imigrantes haitianos, vítimas do incêndio na boate Kiss, da enchente do rio Madeira; socorreram os Yanomami, os ribeirinhos e quilombolas em Marajó...

Essa organização surgiu na França em 1971, criada por médicos e jornalistas que viveram a guerra civil em Biafra. Em meio a um mundo de crueldade absoluta e dor, seres que eram só ossos e pele, eles perceberam a premência da ajuda humanitária no planeta. Trabalham também a alertar o mundo sobre esses flagelos. São independentes, vivem de doações - uma das organizações que mais me dão alegria ao doar. Não discriminam raça, gênero, religião, nacionalidade ou convicção política. São corajosos, idealistas, que recebem salários muito abaixo da média de médicos; poderiam escolher atividades confortáveis, mas estão nos cantos do planeta onde as pessoas sofrem mais e mais precisam de ajuda. Têm seis milhões de doadores no mundo. É seguro, todos podem e devem doar.

"Eu vi o que há de pior na humanidade", diz o médico Andrei Melo no seu Diário, quando atendia vítimas da guerra em Mossul, Iraque; "mas eu vi também o que há de melhor: a esperança, a resiliência e o amor ao próximo que não desaparecem em meio ao caos, pelo contrário..."

(*) Escritora. Colunista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 13/01/24. Vida & Arte, p.2.

Postado no Blog do Marcelo Gurgel em 1/4/2023.

terça-feira, 22 de agosto de 2023

Grupo Cristão Mãos de Luz — Um exemplo de solidariedade

Por Vladimir Spinelli Chagas (*)

Em 2016, um pequeno grupo resolveu instituir uma organização sem fins lucrativos, sem bandeira religiosa e sem ideologia política, reunindo cristãos de quaisquer correntes para promover a aplicação da ética da caridade, através de projetos sociais voltados para amplas necessidades dos irmãos carentes.

Esses projetos foram formatados nas Caravanas do Evangelho, com visitas semanais domiciliares a idosos com dificuldades de locomoção; no Projeto Dignidade, que realiza pequenas benfeitorias em residências, creches, escolas e outras instituições de apoio; no projeto Ensinando a Pescar, treinamentos de curta duração, para indivíduos carentes física ou mentalmente de trabalhar; e no Projeto Vivência Cristã, que realiza seis caravanas anuais para auxiliar, material e espiritualmente, diferentes grupos de vulneráveis.

Em termos de vulnerabilidade, as caravanas se distribuem no apoio às crianças (Criança Feliz), aos idosos carentes (Idade Luz), aos pacientes psiquiátricos, (Mente Luz), aos detentos em fase de ressocialização e adictos (Educação e Harmonia Social), ao povo sertanejo (Solidária dos Sertões), e aos carentes portadores de câncer, DSTs e os hansenianos (Saúde e Esperança).

O Grupo Cristão Mãos de Luz (GCML) age também como uma ponte entre voluntários e as instituições públicas ou privadas, com as pessoas e as entidades beneficentes ou prisionais, com o intuito de ampliar sua ação em ressignificar a vida, tanto dos que praticam a caridade como daqueles que são alvo dessa prática cristã.

Desde sua instalação o GCML já proporcionou, nas suas diversas formas, atendimento a mais de 80 mil pessoas, em Fortaleza e cidades do interior, conseguindo, assim, levar a tantos irmãos um pouco de carinho, conforto material e espiritual e, especialmente, palavras de fé e esperança para suas vidas.

O GCML está presente nas diversas redes sociais para facilitar suas ações de caridade, permitindo, dessa forma, que novos voluntários conheçam os trabalhos realizados e, sentindo-se motivados, venham a usufruir da oportunidade de levar auxílio a quem dele tanto necessita.

(*) Professor aposentado da Uece, membro da Academia Cearense de Administração (Acad) e conselheiro do CRA-CE.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 17/07/23. Opinião, p.20.

sábado, 1 de abril de 2023

CURSO DE MEDICINA DA UECE COMPLETA 20 ANOS COM MUITO A CELEBRAR

 


Por Uece. Assessoria de Comunicação.

Noite de festa! O curso de graduação em Medicina da Universidade Estadual do Ceará (MedUece) completou 20 anos de criação e, para celebrar, foi realizada cerimônia nesta quinta-feira (31/3/23), no auditório Paulo Petrola, campus Itaperi.

Foi um momento festivo, com homenagens, histórias, recordações e arte, que reuniu administração superior, professores, servidores técnico-administrativos, colaboradores, estudantes, egressos e convidados de instituições como UFC e Unifor.

O evento teve início com a exibição de vídeo com depoimentos e registros de docentes e discentes que fizeram parte dessa história, como os professores Helder Gurgel e Krishnamurti de Morais.

A mesa solene foi composta pelo reitor da Uece, Hidelbrando Soares; o ex-reitor da Uece e um dos responsáveis pela implantação do curso de Medicina da Uece, Manassés Claudino Fonteles; a diretora do Centro de Ciências da Saúde (CCS), Samya Coutinho; a coordenadora do MedUece, Jocélia Bringel; a diretora do Hospital Geral de Fortaleza (HGF) e representante dos campos de prática médica, Ivelise Brasil; o representante docente do curso, Marcelo Gurgel; e o representante discente, Vytor Lavor.

A história da MedUece foi contada, com ricos detalhes, pelo professor Marcelo Gurgel, um dos fundadores do curso na Uece. Foi em 1996, em oficinas de planejamento, que surgiu a discussão sobre a criação do curso. Segundo o docente, já em 1997 foi dado o aval inicial do governo estadual. Muita dedicação e esforços foram necessários para dar início ao curso. Da mesma forma que também foi necessário para o MedUece chegar aonde já chegou, 20 anos depois.

Sobre essa história de sucesso, o ex-reitor da Uece, Manassés Claudino Fonteles, se orgulha. “Realizarmos sonhos é uma tarefa hercúlea para quem vive no Ceará. Criar o curso de Medicina da Uece foi uma realização desse nível, por conta das pedras, às vezes intransponíveis, que atravessam nosso caminho, contudo, nos favoreceram, dando-nos subsídio para atingirmos nosso ideal. Hoje podemos nos orgulhar de termos criado esse curso que nos aponta grandes vitórias, pelas conquistas do nível de seus estudantes. Com certeza, farão a diferença pelo denodo e amor ao sacerdócio da Medicina, e trarão grande avanço para a saúde combaleiante de nossos dias. E dele, contamos com bons pesquisadores que levem adiante nosso desiderato”.

O ex-reitor Jackson Sampaio, que também faz parte da história da MedUece, não pôde comparecer ao evento, mas enviou sua mensagem. “A Uece precisava ter um curso de Medicina; tinha um mestrado em Saúde Pública, um Mestrado em Ciências Fisiológicas, um Instituto Superior em Ciências Biomédicas e 37 professores efetivos que eram médicos. O Ceará tinha apenas o tradicional curso de Medicina da UFC e um recém-criado curso privado de Medicina, no Cariri. Para atender à demanda de médicos, o Ceará, no ritmo disponível, levaria 10 anos para suprir e novas demandas estariam se acumulando. Deste diagnóstico nasceu o nosso MedUece, que celebra 20 anos agora. Tive a honra de estar presente no momento e, antes, de ter composto a comissão de elaboração de um projeto de sucesso, que produz médicos qualificados que o nosso SUS tanto precisa… O sucesso dos nossos egressos é o nosso sucesso, nestes 20 anos de trabalho vigoroso”.

A coordenadora do curso, professora Jocélia Bringel, fez diversos agradecimentos, especialmente, àqueles que, com muita resiliência, deram os primeiros passos e abriram as portas do curso na Uece. Para ela, há muito o que comemorar e também muito ainda a desbravar:

Crescemos com tudo isso… Quero enfatizar o papel fundamental da nossa universidade no desempenho na formação de médicos e na promoção da saúde em nosso país. Nossa universidade é um exemplo de comprometimento com a educação e com a saúde da população. Estamos honrados por fazer parte dessa história. Agora encerra-se um ciclo de 20 anos da MedUece e inicia-se outro com perspectivas positivas… É fato que conquistamos muito, mas temos ainda muitos caminhos a desbravar, dificuldades a vencer e sonhos a realizar. E se depender da garra de nossos gestores, seremos maiores e melhores! Sigamos, MedUece! A estrada agora se alarga, o percurso se alinha, um futuro brilhante nos espera”.

A diretora do HGF, professora Ivelise Brasil, destacou um importante instrumento para o curso de Medicina, o hospital como campo de prática médica, ressaltando o grande hospital que está sendo construído no campus Itaperi: “Quando a gente sai, podemos ver um gigante iluminado que conta com mais de mil pessoas trabalhando há pouco mais de dois anos, e que já está com 95% das suas obras concluídas… Nosso hospital será fantástico, ele é fantástico, e é o maior hospital do estado do Ceará. É um hospital que já nasce com DNA para ter um grande sucesso… um hospital para servir a quem precisa”. A docente falou, ainda, sobre a missão do médico dentro desse novo equipamento. “Que nós sejamos promotores do bem, que nós possamos fazer desse hospital um hospital diferente, um hospital onde vamos primar pelo bom atendimento, pelo respeito, pelo amor, pela qualidade. Que sejamos incansáveis para nunca desistirmos de ninguém”.

No mesmo sentido, emocionada, a diretora do CCS, professora Samya Coutinho, falou à plateia sobre a importância dos profissionais da saúde serem “seres cada vez melhores”, destacando a solidariedade na profissão. “A solidariedade, para nós profissionais da área da saúde, é sentir a dor do outro doendo em mim… Então, esse é o caminho para se tornar realmente um profissional, sintonizado com o contexto social, com essa dor do povo que nos envolve, que está no nosso entorno. E é com esse povo, com essa população, que nós temos uma dívida de gratidão, um compromisso de servir, de ajudar de alguma maneira”.

Para fechar o primeiro momento do evento, o reitor Hidelbrando Soares discursou sobre as diversas conquistas alcançadas pelo MedUece e pela Uece e destacou o momento especial hoje vivido. “Estamos vivendo um momento novo, em que há um maior alinhamento, uma aproximação, uma cooperação do governo com a universidade, na sua política de expansão e interiorização. E dentro dessa política, garantimos a criação de dois novos cursos de Medicina, que nada mais é do que a interiorização do MedUece. É este momento especial que estamos vivendo agora, pois no dia 7 de agosto de 2023, construiremos mais um momento histórico, dando início ao curso nos municípios de Quixeramobim e de Crateús”.

Sobre essa grande conquista, o reitor ressaltou sua importância. “Expansão e interiorização, na minha avaliação, é uma grande conquista da sociedade cearense, da mesma forma que foi uma grande conquista dessa sociedade a criação de um curso de Medicina nesta universidade. Neste momento, dos 20 anos do MedUece, estamos ampliando, democratizando, interiorizando uma experiência exitosa da nossa universidade”.

Hidelbrando Soares finalizou agradecendo aos que, anos atrás, tiveram a ousadia de dar o primeiro passo. “Me dirijo a vocês com gratidão, pois só tem sido possível pensar, desenhar e fazer isso porque lá atrás um conjunto de professores e professoras muito corajosos tomaram a decisão de que, mesmo diante dos muros que se ergueram, conseguiram constituir um dos melhores cursos de Medicina desse Brasil”.

Neste momento, o evento foi abrilhantado pela apresentação musical do estudante Miguel Almeida, que presenteou o público com seu talento no piano, cantando e tocando, inicialmente, a música Another Year. Como disse Miguel, “ela fala das coisas que você quer manter de um ano para os próximos, então, este momento de comemoração dos 20 anos de MedUece é algo que queremos comemorar em muitos outros anos”.

Na ocasião, dois livros especiais, de autoria do MedUece, foram apresentados: Ramalhetes Médicos, do professor Marcelo Gurgel; e Medicina Uece – 20 anos – marcos históricos, organizado pelas professoras Irismar de Almeida e Paula Franssinetti.

O evento foi também momento de homenagear aqueles que muito contribuíram e contribuem com essa história. Foram homenageados os ex-reitores Manassés Fonteles e Jackson Sampaio, os professores Marcelo Gurgel e Krishnamurti de Morais; os coordenadores de eixos integradores, professores Maria das Graças Barboba, Eddie Willian Santana, Cristina Dallago, Gislei Aragão, Ivelise Brasil; e os considerados amigos do MedUece, professora Maria do Socorro de Sousa, Antonio Eduardo de Assis e Afonso Ricardo Cavalcante.

Houve, ainda, homenagem organizada pelos estudantes, por meio do Centro Acadêmico Joaquim Eduardo de Alencar (CAJEA), em que o reitor Hidelbrando Soares, a diretora do CCS Sâmya Coutinho e a colaboradora Wiviane de Sousa receberam a medalha Joaquim Eduardo de Alencar. Receberam também a honraria, 20 professores que, ao serem chamados ao palco, tiveram suas qualidades e sua importância como docentes destacada pelos alunos. Foi lindo!

Fonte: Uece.br/Notícias/ASCOM. In: Home page 31/03/2023.


terça-feira, 12 de outubro de 2021

LIÇÕES QUE A PANDEMIA ESTÁ DEIXANDO

Por Pe. Eugênio Pacelli SJ (*)

A pandemia provocada pela Covid-19 colocou uma lente de aumento nas mazelas mais profundas da nossa sociedade, que já apresentava sinais de adoecimento.

Os grandes problemas do mundo já estavam aí bem antes da pandemia, embora agora sejam vistos de forma mais evidente. De modo especial na educação e na saúde, onde se especula os maiores prejuízos.

Em um primeiro momento, a pandemia revelou muito nitidamente nossas luzes e sombras, reforçando assim, a importância do autoconhecimento.

Estamos em um momento único e histórico capaz de mobilizar sociedade, empresas e governos em prol de um propósito comum.

E pela primeira vez, estamos vendo, em proporções globais, que nossos comportamentos individuais, por mais simples que sejam, podem transformar o sistema no qual vivemos, nos fazendo crer em uma mudança concreta.

O combate ao vírus deixou claro que cada gesto individual tem um impacto enorme no bem-estar coletivo. Por isso, cuidar de si, também é cuidar do outro. Atitudes simples como lavar bem as mãos, usar máscaras, tomar a vacina podem salvar vidas!

A pandemia nos ensina uma lição valiosa sobre empatia e ser empático é criar laços, laços de ternura consigo, com os outros e com a casa comum.

Ao criar laços temos a oportunidade de expandir as nossas fronteiras de cuidado para além de familiares e amigos. A solidariedade se tornou uma das principais armas contra a pandemia.

A Trindade, essência de Deus, também constitui laços de amor. Sob essa perspectiva, a experiência de Deus não reduz, mas, amplia o olhar sobre si mesmo, sobre a humanidade e a história. As religiões só serão fiéis a si mesmas se promoverem laços de paz e reconciliação.

A pandemia já nos ensinou lições valiosas sobre como o planeta clama por atitudes práticas, colaborativas, inteligentes e em sinergia com o meio ambiente.

Aprendendo com nossos erros, um novo mundo é possível, sim. Mas para que isso aconteça, precisamos estar juntos na mesma sintonia por ele. O momento é esse!

Deixo uma reflexão para vocês: Como você gostaria que fosse o novo normal? Quais outras lições você já aprendeu com tudo isso? 

(*) Sacerdote jesuíta e mestre em Teologia. Diretor do Seminário Apostólico de Baturité.

Fonte: O Povo, de 28/8/2021. Opinião. p.18.

segunda-feira, 10 de maio de 2021

O CORDEIRO E O LOBO

Por Luiz Gonzaga Fonseca Mota (*)

O rebanho de cordeiros era formado por animais pacíficos e diariamente todos eles pastavam num campo fértil onde não faltava alimentação e água pura. Um pouco distante, havia uma floresta muito bonita, com uma fauna diversificada e com muitas feras bravas e indóceis. Geralmente, quando os cordeiros estavam pastando, a alcateia - muitos lobos - ficava observando e esperando o momento certo para atacar e fazer algumas presas. Era difícil acontecer, pois existiam pastores armados e muitos cães ferozes a eles pertencentes. Como sempre, havia um cordeiro que na hora do sol quente, quando os demais iam repousar, ele ficava sob uma árvore lendo textos variados: romances, poesias, contos etc. Era um ovino extremamente inteligente e se dedicava, nos momentos possíveis, à leitura. Tinha certeza que mediante a leitura, poderia conseguir condições melhores de vida. Certo dia, não percebeu que o rebanho se afastou, de vez que estava concentrado nos livros, e então resolveu sem orientação dos pastores caminhar pelo pasto em busca de sua morada. Preocupado, mas com coragem, pois acabara de ler o poema “Navegar é Preciso” de Fernando Pessoa e lembrou-se, também do mesmo autor, da frase “Tudo vale a pena quando a alma não é pequena”. Com esse estímulo o cordeiro continuou sua caminhada. Ao passar por um rio de águas transparentes, mas revolto, observou no meio da correnteza um lobo se afogando e pedindo socorro. Implorava para que o ovino, chamando-o de amigo, o salvasse daquela cruel situação. O pacífico e inofensivo cordeiro pensou: vou salvá-lo no entanto colocarei minha vida em perigo. Ele vai me devorar. Todavia, a alma do cordeiro era grande, mesmo correndo sério risco. Concluída com muita dificuldade a operação de salvamento, o lobo olhou para o corajoso cordeiro e num gesto inesperado perguntou: que queres que eu faça por você? Não persiga nunca mais os meus irmãos cordeiros. Certo, disse o lobo. Agora lhe pedirei um outro favor: ensina-me a ler, uma vez que sua generosidade decorreu de suas leituras. Gostaria de ser correto e ter bom caráter como você. Moral da história: até os desalmados podem ter momentos de lucidez.

(*) Economista. Professor aposentado da UFC. Ex-governador do Ceará.

Fonte: Diário do Nordeste, Ideias. 23/4/2021.


sábado, 1 de maio de 2021

SOLIDARIEDADE SILENCIOSA

Por Antonio Jorge Pereira Jr. (*)

Amanhã é festa de São José, em ano dedicado a ele, segundo dispôs o papa Francisco na carta Patris Corde, Coração de Pai. O padroeiro do Ceará é fiel intercessor para a chuva e para outras necessidades. É prestativo e discreto.

A lembrança serve para evocar a solidariedade de tantos que se doam ao próximo sem que o beneficiário sequer saiba sua identidade.

Nesses tempos duros há muita solidariedade oculta. Sou testemunha privilegiada disso. Três vezes com a Covid recebi plasma convalescente, material sanguíneo de pessoas curadas que produziram anticorpos contra a doença.

Sofro inibição na produção de anticorpos por tratamento recente para linfoma. Sem o plasma não sou curado. Ainda é provável que necessite de outras aplicações, em razão da fragilidade imunológica.

Toda a situação me permitiu tomar contato com a generosidade de milhares de pessoas. Penso agora especialmente no plasma que recebi: não sei e não saberei de quem era. Onde estarão? Um dia, no além, quem sabe possa abraçá-los e lhes agradecer.

Antes, fui submetido a outro tratamento, denominado imunoglobolina. Deram-me um coquetel de anticorpos na veia, em sessões de 5 horas, por 5 dias seguidos. O medicamento é produto de incontáveis doadores: novamente, materializa a solidariedade oculta.

Em um período de 8 meses, entre idas e vindas, estive 60 dias hospitalizado no Monte Klínikum. Ali se notava uma solidariedade discreta, para além do dever de ofício.

Por trás das máscaras se divisava sorriso sincero de médicos, enfermeiras e técnicos, fisioterapeutas, maqueiros, equipe administrativa, pessoal da limpeza e nutrição. Pouco antes do diagnóstico da segunda Covid, passei ali a noite de Natal.

Situação atípica, mas comum a tantos. Notava-se o carinho nos detalhes do jantar especial. No dia 25 levaram um artista ao quarto para tocar uma canção natalina. A longa convivência facilitou que eu fosse chamado pelo nome sempre que voltei ao hospital para nova internação.

Infelizmente não consegui reter o nome de todos - a Covid afeta algo da memória. Mas sempre os guardarei no coração.

Que São José, Mestre do serviço silencioso, abençoe a todos neste dia.

(*) Mestre e doutor em Direito. Professor da Pós-Graduação em Direito da Unifor.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 18/3/2021. Opinião. p.28.

quinta-feira, 30 de julho de 2020

LIÇÕES DA QUARENTENA


Por Tales de Sá Cavalcante (*)
Em plena quarentena, observei, diante de minha casa, sete homens flanando, como diziam os escritores na Paris da Belle Époque. E lhes perguntei: "Vocês assim, sem máscaras, passeando livremente em meio ao isolamento social não têm medo do coronavírus?". Um deles, talvez o líder do grupo, respondeu: "Essa doença eu não pego, porque tenho fé em Deus".
O fato me fez lembrar o mestre de obras João Severo, encarregado-mor das construções do Farias Brito de antigamente. Indaguei-lhe: "As aulas do Colégio serão reiniciadas na próxima segunda. Em que dia será o fim da reforma?". Ele, na simplicidade do seu linguajar, me disse: "Se Deus quisé, no sabo, nós termina". Então, fiz a provocação: "E se Deus não quiser?". O mestre virou filósofo: "Aí né bom nós questioná não".
Depois desses dois episódios e de outros casos, preocupa-me o enfrentamento da pandemia, principalmente o ataque do vírus àqueles que se dizem, às vezes, pobres, infelizes ou, ainda, excluídos porque "Deus quis". Na realidade, mais correta é a fala do professor Luís Carlos Landim ao dizer: "Os planos de Deus se realizam quando você os torna seus".
Bill Gates, financiador de potenciais vacinas contra a Covid-19, impressionou-se ao saber que em muitos países algumas crianças têm como causa mortis a diarreia. Ao ler sobre o assunto em um artigo, sua mulher, Melinda Gates, afirmou: "Isso é inacreditável. Se meus filhos têm esse sintoma, eu vou à farmácia ou os levo ao médico, e a situação fica resolvida". O casal dedicou-se à resolução do problema e salvou muitas vidas.
Afinal, de quem é a culpa de tantas mortes injustas? É do Ser Supremo? É do presidente, do governador, do prefeito? Não. É de toda a sociedade, onde também estamos inseridos.
Aproveitemos, pois, este período de pandemia, com o aumento do índice de solidariedade mundial, para que as atitudes entre seres humanos sejam cada vez mais fraternas. Não precisa ser tão rico, quanto Bill Gates, ou diligente, como João Severo, para ser capaz de um gesto de doação. Até um abraço amigo, nos dias em que pudermos, é de grande valor, irrefutável lição da quarentena. 
(*) Reitor do FB UNI e Dir. Superintendente da Org. Educ. Farias Brito. Membro da Academia Cearense de Letras.
Fonte: Publicado In: O Povo, Opinião, de 4/06/20. p.16.

segunda-feira, 15 de junho de 2020

POLÍTICA E DINHEIRO


Por Luiz Gonzaga Fonseca Mota (*)
Início esse pequeno texto ressaltando que as ideias e os conceitos emitidos não dizem respeito a todas as pessoas e instituições participantes ou envolvidas com a pandemia Covid-19. Aliás, a maioria é bem-intencionada e se dedica com solidariedade, amor e cientificamente ao combate do cruel novo coronavírus. Existem pessoas e instituições que trabalham obstinadamente e defendem suas teses com convicção e seriedade, porém, ainda não se encontrou, no mundo, uma diretriz consensual sobre o desafiador problema. De um modo geral, tem-se uma expectativa preocupante, em todos os países, no tocante aos aspectos sociais, econômicos e políticos, gerando crises emocionais e de desesperança. Todavia, uma minoria, de pessoas e de instituições gananciosas e inescrupulosas, está mais obcecada com os seus interesses políticos e com o dinheiro do que com as dificuldades inerentes ao povo (saúde e emprego, por exemplo). A má política, do ponto de vista pessoal ou de grupos, e a ambição de se conseguir mais dinheiro constituem os pilares básicos, no momento, dessa angustiante situação porque passa o mundo. Precisa-se ter consciência crítica de ser a vida humana superior às disputas políticas e eleitorais, como também aos lucros exagerados de algumas empresas e laboratórios. A atual crise mundial (Covid-19) não pode ser atropelada por outros objetivos. O debate, realizado de forma séria, diretamente ou através da mídia, visando à união de esforços, é uma coisa saudável; no entanto, a busca odiosa e deplorável do poder político ou monetário é uma atitude irresponsável e mesquinha. Ademais, é bom interpretar o livro do Eclesiastes (capítulo 3, versículo 1): “Tudo neste mundo tem o seu tempo; cada coisa tem a sua ocasião”. Deus, pedimos-Lhe, a união e a sinceridade de todos, para que consigamos a saúde no corpo e na alma.
(*) Economista. Professor aposentado da UFC. Ex-governador do Ceará.
Fonte: Diário do Nordeste, Ideias. 24/5/2020.

segunda-feira, 5 de março de 2018

EVOLUÇÃO

Por Luiz Gonzaga Fonseca Mota (*)
Um dos temas mais debatidos e objeto de reflexão, ao longo do tempo, diz respeito à “evolução espiritual”. Envolve, é claro, conceitos inerentes à fé e à razão. Estudiosos (filósofos, teólogos, cientistas, etc.) analisam o comportamento das pessoas à luz do “crer ou não crer” em uma proposta. Um desafio significativo para todos nós é o de conceber valores sem destruir os outros. A polarização vem aumentando com o passar do tempo. São Bento, por exemplo, foi um grande pensador e um homem alheio a qualquer forma negativa de polêmica, preocupando-se muito com o ser humano. Atualmente, em razão do progresso tecnológico e também do processo de globalização, as pessoas reagem mais aos objetivos diferentes dos seus. Nesta linha de raciocínio, as manifestações ecumênicas, respeitando-se a liberdade de pensamento, são fundamentais para se conseguir um mundo melhor. Particularmente, sou católico praticante, creio na palavra de Deus, externando o amor a Ele e ao próximo. Todavia, acredito que todos de bom senso e de boa vontade, quer sejam crentes, agnósticos ou ateus devem buscar a solidariedade, ou seja, o amor ao próximo. Ademais, para Cristo é preferível um ateu justo e sincero do que um falso cristão. A paz exterior, decorre da paz interior, isto é, da “evolução espiritual”. As virtudes teologais (fé, esperança e caridade), assim como as virtudes cardeais ou centrais (prudência, temperança, fortaleza e justiça) podem ser comuns a todos, independentemente, do posicionamento religioso, pois são concedidas pela bondade de Deus. “Tudo neste mundo tem o seu tempo; cada coisa tem a sua ocasião” (Ec 3,1).
(*) Economista. Professor aposentado da UFC. Ex-governador do Ceará.
Fonte: Diário do Nordeste, Ideias. 2/3/2018.

domingo, 28 de janeiro de 2018

ATITUDE É TUDO! II


Cada uma das pessoas com quem você convive está passando por algum tipo de batalha.
Viva com simplicidade.
Ame generosamente.
Cuide-se intensamente.
E, principalmente, *não reclame!!!*
Se preocupe em agradecer pelo que você é, e por tudo o que tem!      
O filho que muitas vezes não limpa o quarto e fica vendo televisão, significa que...
*está em casa!*
A desordem que tenho que limpar ou arrumar depois de uma festa ou confraternização, significa que...
*estivemos rodeados de familiares e/ou amigos!*
As roupas que estão apertadas, significa que...
tenho mais do que o *suficiente para comer!*
O trabalho que tenho em limpar a casa, significa que...
*tenho uma casa!*
Não encontro estacionamento, significa que...
*tenho carro!* 
Os gritos das crianças, significa que....
*posso ouvir!*
O cansaço no final do dia, significa que...
*tenho saúde e posso trabalhar!*
O despertador que me acorda todas as manhãs, significa que...
*estou vivo!*
Finalmente pela quantidade de mensagens que recebe, significa que...
*tem amigos pensando em você!*
Vamos mudar o nosso jeito de ver as coisas e ser mais Felizes !!!
Vamos sempre agradecer a Deus  pelo que temos.
Fonte: Internet (circulando por e-mails e i-phones sem autoria definida).

 

segunda-feira, 12 de junho de 2017

DIÁSPORA DE IDEIAS

Por Luiz Gonzaga Fonseca Mota (*)
A palavra diáspora, no sentido tradicional, significa fuga ou dispersão coletiva de povos pelo mundo, muitas vezes sem rumo, por questões políticas, étnicas ou religiosas. São sempre mencionadas, dentre outras, as diásporas judaica, africana, armênia e chinesa. Verdadeiras migrações humanas, ao longo do tempo, causando níveis elevados de sofrimento por falta de compreensão. Hoje, além da persistência de algumas diásporas (fugas) humanas, existem aquelas relacionadas com ideias. A ideia que estamos nos referindo diz respeito à intencionalidade e não ao simples sinônimo de conceito. Vários filósofos estudaram e outros continuam analisando o termo ideia, no sentido lato. Segundo o filósofo inglês liberal John Locke (1632-1704), “É mediante as ideias que o ser humano exprime o pensamento objetivo”. A rigor, em razão da ganância, da intolerância e da tendência isolacionista, poderão surgir entre as nações dificuldades que impeçam ideias pacifistas, éticas, de liberdade e democráticas, complicando o pensamento político. Ou seja, quanto mais conflitantes sejam as ideias, aumenta o risco de não se conseguir harmonia entre política, paz e justiça. Ademais, atividades radicais e preconceituosas influenciam de forma negativa as perspectivas de comportamento e de organização social. A coerência programática baseada em princípios do ecumenismo secular poderá permitir a reconciliação e a libertação, evitando tanto a dispersão humana como a fuga de boas ideias. Recentemente, com sabedoria, o Papa Francisco ressaltou que “precisamos construir pontes e não muros” visando o sentimento da solidariedade.
(*) Economista. Professor aposentado da UFC. Ex-governador do Ceará.
Fonte: Diário do Nordeste, Ideias. 3/2/2017.

terça-feira, 21 de março de 2017

VERDADES ESSENCIAIS


Por Luiz Gonzaga Fonseca Mota (*)
A humanidade vive, no momento, uma época de incerteza caracterizada pela falta de solidariedade, por um lado, e pelo excesso de radicalismo e fundamentalismo, por outro. Estes comportamentos levam a crises de violência em todos os seus aspectos: guerra, fome, desemprego, dificuldades sociais, desagregação familiar, falta de perspectiva, etc. A ganância de determinados países motiva uma desconfiança que prejudica o entendimento e gera desigualdades e desequilíbrios políticos, econômicos, sociais e culturais. Nessa linha de raciocínio, surgem a exploração desordenada dos recursos naturais não renováveis, a miséria crescente de milhões de pessoas, a corrida armamentista, a ausência de uma paz estável, o terrorismo, dentre outros problemas. O radicalismo tem influenciado de forma negativa as alterações de comportamento e de organização social, nos países socialistas e capitalistas. Crises, desemprego, miséria, endividamento e violência decorrem de movimentos radicais que não buscam soluções, mas modelos errôneos do ponto de vista socioeconômico e político. Todavia, é extremamente difícil encontrar um modelo sociológico, filosófico e ideológico, capaz de gerar um clima de harmonia e generosidade. É urgente a necessidade de ações e programas que, voltados, principalmente, para a área social, promovam e consolidem oportunidades ao povo. O Estado existe não para ser opressor, mas para assegurar os princípios básicos da democracia. Precisamos nos voltar para o conhecimento das verdades essenciais, objetivando alcançar os valores éticos indicadores de um mundo baseado nos conceitos de justiça e de igualdade de oportunidades.
(*) Economista. Professor aposentado da UFC. Ex-governador do Ceará.
Fonte: Diário do Nordeste, Ideias. 4/11/2016.

sexta-feira, 13 de março de 2015

UMA LEMBRANÇA DA INFÂNCIA - Pão com Molho



Meraldo Zisman (*)
Médico-Psicoterapeuta
Andava eu pelos meus oito anos de idade, éramos pobres e morávamos em uma modesta rua sem pavimentação, ironicamente denominada Rua da Alegria, no bairro da Boa Vista (Recife).
Quando eu chegava da escola um pouco mais cedo do que de costume, sentia o cheiro de carne guisada sendo preparada para o almoço. Mãezinha abria, então, um pão francês dormido, cortava-o ao meio, no comprimento, passava cada uma das partes naquele molho fervente e me dava para comer, pedindo que eu esperasse a hora da refeição. Esse molho possuía um gosto especial que somente o paladar de uma criança é capaz de sentir. Delícia!
A comida em minha casa (de porta e janela) não era muita. Vim aprender mais tarde, lendo os livros de Josué de Castro, que a fome de cada um é egoísta e pouco se importa com fomes dos demais. E que menino pobre tem falta de apetite somente quando não há comida em casa.
Certa manhã, ao voltar da escola, eu vi, sentada na calçada de minha casa, uma senhora e um menino maltrapilhos, bem magros, com a pele cor de ocre, típica dos pobres do Nordeste. Não saberia dizer se eles eram morenos desbotados ou brancos encardidos. Em suma, ambos tinham a idade e a cor da necessidade. O menino podia ter, no máximo, a minha idade; mas, a mãe era tão velha quanto à fome...
Naqueles tempos, pobre era realmente pobre e a fome não era falsificada. Ademais, não se alugava crianças para enganar a caridade pública. Cola de sapateiro servia, apenas, para se colar as solas dos sapatos, pois só nas festas de Natal é que se tinha direito a um par de “pisante” novo.
Nos dias de quinta-feira, lá em casa, comia-se carne assada. Quando cheguei da escola naquele dia, fui logo gritando: Mãe, cheguei! Cadê meu pão com molho? E ela respondeu: -'Já vai, meu filho, deixa de pressa! Primeiro, vá lavar as mãos e vem me dar um beijo!'
Obedeci às ordens e agarrei o pão, com o molho a escorrer. Mas, quando ia dar a primeira dentada, lembrei-me do menino da calçada. Abri a porta da frente e estendi-lhe a comida. O menino pulou de alegria, com os olhos repletos de fome.
Entrei em casa e fui chorar no quarto. Desconfiada, minha mãe me perguntou: -‘Filhinho, o que foi que aconteceu?’ Eu respondi: -‘Nada mãe, me deu vontade de chorar e pronto’. Ouvi quando ela falou bem baixinho: -‘Esse menino é muito sensível, ainda vai sofrer muito na vida!’
(*) Professor Titular da Pediatria da Universidade de Pernambuco. Psicoterapeuta. Membro da Sobrames/PE, da União Brasileira de Escritores (UBE) e da Academia Brasileira de Escritores Médicos (ABRAMES).

sexta-feira, 30 de maio de 2014

HISTÓRIAS ENTRELAÇADAS


Todos nós sabemos que Al Capone somente foi preso por haver omitido rendimentos ao fisco americano.
Mas toda história tem detalhes e desdobramentos curiosos que às vezes desconhecemos.
As duas relatadas a seguir mostram que o exemplo, é mesmo, um grande legado.

HISTÓRIA NÚMERO UM
Há muitos anos, Al Capone controlava inteiramente  a cidade de Chicago. Não ficou famoso por nenhum ato heroico.

Era notório, sim, por encher a cidade com tudo relativo a contrabando, bebidas, prostituição e assassinatos.
Capone tinha um advogado apelidado 'Easy Eddie', um excelente profissional!

Sua habilidade, manobrando no cipoal de leis, manteve Al Capone fora da cadeia por muito tempo.
Para mostrar seu apreço, Capone lhe pagava muito bem.

Não só o dinheiro era grande, como Eddie também tinha vantagens especiais. Por exemplo, ele e a família moravam em uma mansão protegida, com todas as conveniências possíveis.
A propriedade era tão grande que ocupava um quarteirão inteiro em Chicago. Eddie vivia a vida da alta roda da cidade, mostrando pouca preocupação com as atrocidades que ocorriam à sua volta.

No entanto, Easy Eddie tinha um ponto fraco.
Tinha um filho que amava acima de tudo. Eddie cuidava para que seu filho tivesse sempre do melhor: roupas, carros e uma excelente educação. Nada era poupado. Preço não era problema. E, apesar do seu envolvimento com o crime organizado, Eddie tentou lhe mostrar sempre o que era certo e o que era errado. Eddie queria que seu filho se tornasse um homem melhor que ele.

Mesmo assim, com toda a sua riqueza e influência, havia duas coisas que ele não podia dar ao filho: não podia transmitir-lhe um nome bom e um bom exemplo.
Um dia, Easy Eddie tomou uma decisão difícil no sentido de corrigir as injustiças de que havia participado na sua carreira como advogado.

Decidiu que iria às autoridades e contaria a verdade sobre Al 'Scarface' Capone, limpando o seu nome sujo e oferecendo ao filho alguma coisa como integridade moral recuperada.
Para tanto, teria de testemunhar contra a quadrilha de Capone, e sabia que o preço a pagar seria muito alto. Ainda assim, ele testemunhou.

Um ano depois, Easy Eddie foi assassinado a tiros numa rua de Chicago.
Deu ao filho o maior presente que poderia oferecer, ao maior custo que poderia pagar.

A polícia recolheu em seus bolsos um rosário, um crucifixo, uma medalha religiosa e um poema, recortado de uma revista.
O poema: 'O relógio da vida recebe corda apenas uma vez e nenhum homem tem o poder de decidir quando os ponteiros irão parar, se mais cedo ou mais tarde. Agora é o único tempo que você possui. Viva, ame e trabalhe com vontade. Não ponha nenhuma esperança no tempo, pois o relógio pode parar a qualquer momento.'

HISTÓRIA NÚMERO DOIS
A Segunda Guerra Mundial produziu muitos heróis.
Um deles foi o Comandante Butch O'Hare, um piloto de caça, operando no porta-aviões Lexington, no Pacífico Sul.

Um dia, o seu esquadrão foi enviado a uma missão. Quando já estavam voando, ele notou pelo medidor de combustível que haviam esquecido de encher os tanques do seu avião. Ele não teria combustível suficiente para completar a missão e retornar ao navio. O líder do vôo o instruiu a voltar ao porta-aviões. Relutantemente, ele saiu da formação e iniciou a volta à frota.
Quando estava voltando ao navio-mãe viu algo que fez seu sangue gelar: um esquadrão de aviões japoneses voava na direção da frota americana. Com os caças afastados da frota, ela estaria indefesa ao ataque iminente. Ele não  podia alcançar seu esquadrão nem avisar à frota da aproximação do perigo.

Havia apenas uma coisa a fazer. Teria que desviá-los da frota de alguma maneira...
Afastando todos os pensamentos sobre a sua segurança pessoal, ele mergulhou sobre a formação de aviões japoneses.

Suas metralhadoras calibre 50, montadas nas asas, disparavam enquanto ele atacava um surpreso avião inimigo e em seguida outro. Butch costurou dentro e fora da formação, agora rompida e incendiou tantos aviões quanto possível, até que sua munição finalmente acabou. Ainda assim, ele continuou a agressão.
Mergulhava na direção dos aviões, tentando destruir e danificar tantos aviões inimigos quanto possível. Finalmente, o exasperado esquadrão japonês partiu em outra direção.

Profundamente aliviado, Butch O'Hare e o seu avião danificado se dirigiram ao porta-aviões. Logo à sua chegada informou a seus superiores sobre o acontecido. O filme da máquina fotográfica montada no avião contou a história com detalhes. Mostrou a extensão da ousadia de Butch em atacar o esquadrão japonês para proteger a frota. Na realidade, ele tinha destruído cinco aeronaves inimigas.
Isto ocorreu no dia 20 de fevereiro de 1942, e por aquela ação Butch se tornou o primeiro Ás da Marinha na 2ªGuerra Mundial, e o primeiro Aviador Naval a receber a Medalha Congressional de Honra.

No ano seguinte Butch morreu em combate aéreo com 29 anos de idade. Sua cidade natal não permitiria que a memória deste herói da 2ª Guerra desaparecesse, e hoje, o Aeroporto O'Hare, o principal de Chicago, tem esse nome em tributo à coragem deste grande homem.
Assim, se algum dia você passar no O'Hare International, lembre-se dele e vá ao Museu comemorativo sobre Butch, visitando sua estátua e conhecendo suas condecorações. Fica situado entre os Terminais 1 e 2.

O que têm estas duas histórias de comum entre elas? Porque ambos eram de Chicago? Não!
Butch O'Hare era o filho de Easy Eddie.

Fonte: Circulando por e-mail (internet).

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Um gesto de solidariedade magnífico


Foto de Jennifer Foster


A Prepotência te faz forte por um dia; a Humildade, para sempre!
O que era para ser unicamente uma atitude pessoal ganhou o mundo!
O que era para ser unicamente uma atitude pessoal ganhou o mundo graças a uma turista do Arizona que registrou com a câmera de seu celular e postou no Facebook a imagem de um ser humano agindo com humanidade.
Estranho mundo esse nosso!
O que deveria ser corriqueiro causou espanto e admiração.
Foram mais de 400.000 compartilhamentos.
Tudo começou quando Larry DePrimo, um policial de Nova York de 25 anos, fazia sua ronda normal pela 7º Avenida na altura da Rua 44.
DePrimo, observou sentado numa calçada um morador de rua que tremia de frio.
Sem ter com que se cobrir e descalço o homem tentava se aquecer mantendo-se encolhido e silencioso.
Diante da cena, o jovem policial se aproximou olhou, deu meia volta, entrou numa loja e com o dinheiro que carregava em seu bolso, comprou um par de meias térmicas e uma bota de inverno – gastou 75 dólares.
De volta à presença do morador de rua, DePrimo, lhe entregou as meias e as botas. O homem, segundo DePrimo, deu um sorriso de orelha a orelha e lhe disse: “Eu nunca tive um par de sapatos em toda a minha vida”. No entanto, o gesto não se concluiu na entrega do presente.
Percebendo que o morador de rua tinha dificuldade em se mover, o policial se agachou, colocou as meias, as botas, amarrou os cadarços e perguntou: ficou bom? A resposta foram dois olhos felizes, lagrimejados e um novo sorriso. Ao se despedir, DePrimo perguntou se o homem queria um copo de café e algo para comer.
“Ele me olhou e cortesmente declinou a oferta. Disse que eu já havia feito muito por ele”. Aqui deveria ser o fim da cena. O pano cairia e todos iriam para casa.
Mas não foi.
Jennifer Foster, autora da foto, foi para casa abriu seu computador e postou em sua página a foto e escreveu o seguinte texto, dirigido ao Departamento de Polícia de Nova York.
“Hoje, me deparei com a seguinte situação. Caminhava pela cidade e vi um homem sentado na rua com frio, sem cobertor e descalço. Aproximei-me e justamente quando ia falar com ele, surgiu por trás de mim um policial de seu departamento. O policial disse: ‘tenho umas botas tamanho 12 para você e umas meias. As botas servem para todo tipo de clima. Vamos colocar’?” “Afastei-me e fiquei observando. O policial se abaixou, calçou as meias no homem, as botas e amarrou seus cadarços. Falou alguma coisa a mais que não entendi, levantou e falou, cuide-se”. “Ele foi discreto, não fez aquilo para chamar a atenção, não esperou reconhecimento, apenas fez”.
“Foi-se sem perceber que eu o olhava e que havia fotografado a cena. Pena que me faltou coragem para me aproximar, lhe estender a mão e dizer obrigado por me fazer crer que a polícia que sonho é possível”.
“Bem, digam isso a ele, por mim”.
Jennifer Foster.
Em poucas horas, o texto e a foto de Jennifer pipocaram por todo o território americano e boa parte do mundo.
Larry DePrimo, soube por um colega que lhe telefonou para contar.
Quando voltou ao trabalho e se preparava para sair às ruas foi chamado por seus superiores, ouviu um elogio, recebeu abraços de seus companheiros e quando seu chefe lhe disse que o departamento iria lhe ressarcir o dinheiro gasto de seu próprio bolso, Larry recusou e disse:
“Não senhor, obrigado. Com meu dinheiro, faço coisas nas quais acredito”.
Fonte: Internet (circulando por e-mail).
 

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