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sábado, 11 de outubro de 2025

UM LANCHINHO LEVE...

Pierina destampa um pote de metal, tira um imenso polpettone (bolo de carne) e o oferece a Giuseppe.

Mas Giuseppe o dispensa.

Pierina abre um recipiente cheio de cappeletti in brodo (sopa de capeleti) quente e oferece a Giuseppe.

Mas mais uma vez Giuseppe dispensa.

Pierina abre uma grande tigela de plástico cheia de cannolli e orgulhosamente os oferece a Giuseppe, que mais uma vez recusa.

“Ma Beppe, por que você não está comendo? Eu fiz um esforço para fazer isso para você. Você não gosta da minha comida?”

“Pierina mia, eu amo sua comida. Mas as pessoas normais, quando vão ao cinema, comem pipoca.”

Fonte: Disponível na home page “Tudoporemail”.

terça-feira, 6 de maio de 2025

DAI À CIÊNCIA O QUE É DOS CIENTISTAS

Por Tales de Sá Cavalcante (*)

Uma decisão inteligente é conversar com pessoas inteligentes, se possível, à mesa, e as últimas mensagens de Jesus aos apóstolos se deram numa ceia.

Em jantar com o inteligente e notável educador Claudio de Moura Castro, indaguei: "Você é ateu?" A resposta foi: "Nessa questão sou tão preguiçoso que não sei se sou ateu ou agnóstico". Talvez os religiosos, ateus e agnósticos assim sejam por sentir falta do divino.

O filme “Conclave”, com Melhor Roteiro Adaptado e oito indicações ao Oscar de 2025, nos leva ao encontro secreto de cardeais que, por serem humanos, julgam a Igreja santa e pecadora. Num curso em Israel, ouvi: "Deus é espetacular. Nós também o somos. Quem estraga são os intermediários".

No filme, do líder dos cardeais narra ter desistido a renúncia ao decanato ao contar: "O Santo Padre disse que alguns são escolhidos para serem pastores, e outros para administrar fazendas. Pelo visto, sou um administrador".

Um cardeal pergunta ao bélico colega: "[...], o que você sabe sobre guerra? Servi meu Ministério no Congo, em Bagdá e em Cabul. Vi cadáveres e feridos enfileirados no chão, cristãos e muçulmanos. Quando você diz que temos que 'combater', o que acha que estamos combatendo? Acha que são aqueles homens iludidos que cometeram aqueles atos bárbaros hoje? Não, meu irmão. A luta está aqui... aqui. Dentro de cada um de nós. Quando cedemos ao ódio e ao medo, quando falamos de 'lados' em vez de falar por cada homem e cada mulher. Esta é a minha primeira vez entre vocês. E provavelmente será a última. E perdoem-me, mas, nos últimos dias, demonstramos ser um grupo de homens pequenos e mesquinhos, interessados somente em nós mesmos. Em Roma, na eleição e no poder. E essas coisas não são a Igreja. A Igreja não é a tradição. A Igreja não é o passado. A Igreja é o que faremos a partir de agora", concluiu o cardeal.

Questionemo-nos, pois, sobre a seguinte citação talvez atribuída a Napoleão I: "Guerras religiosas são, basicamente, pessoas se matando para decidirem quem tem o melhor amigo imaginário."

Ao final, o filme ensina a alguns homens ditos públicos: dai à ciência o que é dos cientistas.

(*) Reitor do FB UNI e Dir. Superintendente da Org. Educ. Farias Brito. Presidente da Academia Cearense de Letras.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 3/04/25. Opinião, p.16.


quarta-feira, 5 de março de 2025

AINDA ESTAMOS AQUI

Por Tales de Sá Cavalcante (*)

Dizia Genuíno Sales: "Uma coisa é o que eu faço. Outra coisa é o que nós fazemos." Os primeiros humanos viviam sob normas obedecidas por serem naturais. A seguir o provérbio latino "Onde há sociedade, há direito", a Grécia Antiga concluiu que, mesmo com restrições a estrangeiros, mulheres e escravos, a tomada de decisões pela coletividade era melhor do que por uma só pessoa.

Posteriormente, Roma criou um modelo formado por Executivo, Legislativo e Judiciário. Surgia a República tradicional. Porém, ainda hoje temos autocracias e tentativas de autoritarismos. Quer seja de esquerda ou de direita, uma ditadura é como um animal feroz, incontrolável, que, impunemente, pode atacar. Nela, poderosos agem sem limites, e a sociedade perde seus direitos fundamentais.

Um taxista de Brasília me confidenciou: "Em 31 de março de 1964, eu aqui estava com 3 colegas, e um soldado impediu nossa conversa por ser proibida a formação de grupos." Há pouco tempo, ao saber, pela mídia, que um homem, no Rio de Janeiro, foi a óbito por pisar sem querer no pé do assassino, lembrei-me de um meme que surgiu na época do regime militar, portanto presencial. "Em diálogo num ônibus lotado, dois homens estavam juntos e de pé. O primeiro perguntou ao segundo: 'O senhor é militar?' Ele respondeu: 'Não.' 'O senhor tem algum parente militar?' 'Não.' Possui algum amigo militar?' 'Não.' Há algum militar íntimo, seu conhecido?' 'Não.' Então disse o primeiro: 'Nesse caso, o senhor poderia tirar o seu pé de cima do meu?'"

A obra cinematográfica “Ainda Estou Aqui” mostra, com impressionante sutileza e profundidade, num período de arbítrio, o drama de uma família brasileira a enfrentar dores que levaram o ator Selton Mello a dizer: "O filme é o corpo do Rubens, que nunca foi encontrado." Mesmo que não ganhem os prêmios, as 3 indicações ao Oscar já são uma vitória do Brasil, de Fernanda Torres, Walter Salles e seus companheiros de trabalho. No próximo 2 de março, em clima de Copa do Mundo, torçamos e demonstremos que ainda estamos aqui, na esperança de que o planeta reconheça a excelência brasileira também nas artes.

(*) Reitor do FB UNI e Dir. Superintendente da Org. Educ. Farias Brito. Presidente da Academia Cearense de Letras.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 6/02/25. Opinião, p.14.

sábado, 5 de outubro de 2024

UM NOVO ROTEIRO PARA O CINE NAZARÉ: imóvel está à venda, mas ainda não é um Fim!

Por Cláudio Ribeiro (*)

Acervo do último cinema de bairro de Fortaleza é assumido oficialmente pela cultura estadual. Seu Vavá, criador da sala de projeções no Parque Araxá e "fazedor" de outros cinemas em várias cidades, faleceu em 2022. Seu sonho era ainda poder reativar o Cine Nazaré

Imaginar aqui, livremente, o roteiro da despedida, do último cinema de bairro de Fortaleza. O percurso feito por esta coluna aos pequenos recortes da rotina da cidade celebra o último ato, apenas físico, do Cine Nazaré, a sala de exibições de filmes do bairro Parque Araxá. Que existiu por mais de quatro décadas, num sonho corajoso, obstinado, e também poético, construído por seu Vavá (Raimundo Carneiro de Araújo, que faleceu em 2022 aos 91 anos de idade

O imóvel, de 295,68 m², na rua Padre Graça, nº 65, recebeu a placa de venda. Após a morte de seu Vavá, as filhas decidiram oferecer o prédio a quem interessar possa. Fica a menos de meio quarteirão da avenida Bezerra de Menezes. Segundo a corretora, há algumas avarias, que são recuperáveis. Mas o desfecho dessa história também tem um vento de reconhecimento ao que representou o Cine Nazaré. Não será uma cena final. Já há uma sequência garantida desse “filme” em andamento, em outro espaço.

CENA 1

> Som de fundo com uma trilha antiga, ideia de nostalgia. Câmera percorre a fachada lentamente. Mostra a placa da rua Padre Graça, no Parque Araxá. Aplica-se um efeito para caracterizar a cena como envelhecida. Via de pouco movimento, pessoas passando na calçada em frente. Uma mulher usa uma sombrinha para o sol forte, outras duas carregam compras. Um vizinho observa qualquer coisa e espera fofoca. O vira-lata se coça na sombra do poste. Calmaria inabalável.

> Duas palmeiras jovens demarcam a entrada principal do imóvel de número 65, que é o personagem principal. Cine Nazaré. (Em outra época, ali lotava. Três sessões por tarde/noite, gente interessada em assistir a clássicas produções do cinema italiano, francês, brasileiro. Exibições feitas em projetores de 8, 16 ou 35 mm. Era início dos anos 1970. E foi assim por mais de quatro décadas.)

CENA 2

> Cena volta para os dias atuais, sai o efeito de imagem envelhecida. Câmera direciona para uma portinha no lado direito do prédio (simetricamente, havia outra porta do lado esquerdo, foi fechada com tijolos). A placa diz: “Conserta-se calçados. Seu sapato velho ficará novo”. Mostrar seu Bené (Raimundo Benedito Rodrigues), de 91 anos. Ele é o inquilino do ponto desde 2009. Hoje sapateiro para aumentar o ganho do mês, já foi chefe de refrigeração, porteiro e zelador de cinemas tradicionais da cidade, como o São Luiz, Diogo, Fortaleza e Jangada. Trabalhou 29 anos no Grupo Luiz Severiano Ribeiro.

> Câmera mostra Bené encostado de pé em sua porta ou no balcão, à espera de algum cliente. O chapéu lhe esfriando o rosto daquele sol de meio-dia. Ao lado dele, uma máquina grande de fazer pipoca, original de sala de cinema (comprou para revender, pede R$ 600). A câmera parte dele e segue para uma tomada lateral de toda a fachada. Bené sabe que só ficará por ali por mais algum tempo.

CENA 3

> Novo enquadramento, frontal, mais aberto. Mostrar “a cara” do prédio. O branco da fachada está sujo, pedindo repintura. Fecha para mostrar o letreiro desgastado. Tomada fechada no nome do lugar, “Cine Nazaré”. Letras graúdas, a tonalidade quase apagada, precisando ser renovada de cores. Havia uma luminária, foi arrancada. O portão principal de acesso, de chapa de ferro, é um amarelo ouro, está pichado, tem pontos de ferrugem. Mostrar a tranca, um cadeado pequeno, frágil. O interior do prédio está vazio no andar de baixo. (No andar de cima, há quatro quitinetes, ainda ocupadas com moradores. Tanto eles como seu Bené deverão ser despejados, logo surja um novo proprietário).

CENA 4

> A tomada em movimento lento direciona para as duas placas fixadas em dois basculantes no alto da fachada. Nelas, o mesmo número de telefone (98826-6013) e o anúncio a quem interessar possa: “Vendo”. Segue a trilha sonora saudosista. A imagem enquadra o prédio e se distancia lentamente - volta o efeito envelhecido da cena. Destaca o tom de despedida. A tela vai escurecendo e… reabre, numa trilha e imagem mais atual, límpida, mostrando detalhes da nova Sala de Cinema Seu Vavá, num espaço inaugurado em 2024 dentro do Cineteatro São Luiz, no Centro de Fortaleza.

CENA 5 - FINAL

A nova tomada da câmera percorre o ambiente da Sala Seu Vavá. Ideia é mostrar tudo o que já esteve em funcionamento no antigo Cine Nazaré. Cena inicial mostra um projetor de 35 mm antigo, em funcionamento. Num contraluz, o rolo de filme gira exibindo cenas de clássicos italianos, franceses e brasileiros ainda dos anos 40. Também projetores de 8 mm e 16 mm. O público senta em poltronas vermelhas, 45 assentos de estofamento confortável (são originais do primeiro São Luiz, inaugurado em 1958, que haviam sido recuperadas e reaproveitadas por seu Vavá). A sala tem a magia de um passado recente. Ali o Cine Nazaré está reavivado. E a cena continua até aparecer o letreiro clássico surgir diferente: “(Não é um) Fim!”.

***

A aura poética do lugar, e também o mobiliário, o maquinário e outros objetos do acervo de Seu Vavá já estão com a restauração e preservação garantidas, assumidas pelo poder público. Nesta sexta-feira, o Instituto Dragão do Mar (IDM), que atua ligado à Secretaria Estadual da Cultura (Secult), recebeu oficialmente todo o conjunto de equipamentos e filmes e pertences do trabalho de seu Vavá. A organização social gestora dos cines São Luiz e Dragão do Mar já estava de posse do material desde janeiro. Foi assinado um termo de comodato entre a presidente do IDM, Rachel Gadelha, e a filha mais nova de seu Vavá, Iris Machado, representante desse espólio. O contrato é válido por dez anos, renováveis por mais uma década. Sem ônus, com a obrigação dos gestores culturais zelarem os itens. Para exibições e exposições, sem finalidade lucrativa.

Conforme o termo assinado, a lista doada tem os seguintes itens: “um projetor manual de 35 mm; um projetor analógico de 8 mm; um projetor analógico de 16 mm; um projetor analógico de 35 mm; Lentes de Projeção Cinematográfica; 78 letras em acrílico, em tamanho pequeno e médio, para uso em letreiro de cinema; uma cadeira de madeira, remanescente das cadeiras do Cine Nazaré; 45 poltronas de cinema acolchoadas, de madeira envernizada e estofado na cor vermelha; 150 estojos contendo rolos de filmes de 8 mm, 16 mm e 35 mm, cujas condições de uso serão verificadas posteriormente; duas cornetas (alto-falantes); um voltímetro; 15 fitas VHS; oito livros de teor técnico; uma cartela de ingressos de cinema”.

***

Seu Vavá tinha nove para dez anos de idade. Passava ao lado do Cineteatro São José, próximo ao Seminário da Prainha, quando viu, pela fresta da janela uma tela de cinema pela primeira vez. Era um faroeste, as imagens de cavalos atravessando a parede. Foi encantamento à primeira vista. Rapazote, nos seus 16 anos, virou um faz-tudo, de porteiro a gerente, do Cine Familiar, sala mantida pelos padres capuchinhos que funcionou por alguns anos na praça do Otávio Bonfim. Depois de muito trabalhar para outros, e quando os frades precisaram demiti-lo porque o Cine Familiar acabou, recebeu os direitos trabalhistas teve o estalo de abrir seu próprio negócio. Comprou o imóvel e montou o Cine Nazaré, em 1970.

Especializou-se como um autodidata, tinha as técnicas e macetes e virou um “fazedor de cinemas”. Porque era contratado para montar salas de projeções pelos cafundós afora. Percorreu várias cidades do Interior cearense, Nordeste e Norte do País. Chegou a ser chamado até para abrir um cinema no garimpo de Serra Pelada, na década de 1980. Os filmes de lá eram os pornôs e chanchadas - mas isso não era ele que definia. Tantas viagens, vivia longe de casa por isso. Ele fora vários meses ou semanas do ano, e dona Maria, sua mulher, cuidava das três filhas e chegou a administrar borracharia, marmitaria e escola de datilografia. “Minha mãe foi uma heroína”, conta Iris. Ela morreu em março de 2017.

(*) Jornalista de O Povo

Fonte: Publicado In: O Povo, de 5/10/24. Cidades. p.16.


terça-feira, 10 de setembro de 2024

DIVERTIDAMENTE VELHAS

Por Márcia Alcântara Holanda (*)

Recentemente, minha amiga Rita e eu decidimos ver o filme "Inside Out 2" (Divertida Mente 2). No cinema contei que quando falei em casa que íamos assistir, veio uma celeuma: "Vocês vão ver filme de adolescente? Estão regredindo?" Respondi sem titubear: "Sim! Somos velhas, mas ainda temos vida e curiosidade para conhecer quais e como são as emoções dos adolescentes hoje."

Rita perguntou: "Pra quê? Já passou!" Eu disse: "Sim, mas a resenha do filme trata de emoções da adolescente Riley vividamente. Vale a pena conhecer." Ela disse: "Vai nos fazer refletir sobre nossas próprias emoções agora." Concordei.

Foi 1h20min fixada à abordagem inteligente e perspicaz de emoções humanas, retratadas em formato eletrônico que ditavam a mente de Riley. Emoções, representadas de forma personificada como alegria, ansiedade, vergonha, tédio, tristeza, se manifestavam conforme Riley vivia. Mostrando como ela reagia a cada uma, em atitudes e ações.

Esse movimento nos abriu bem os olhos, apurou os ouvidos e gargalhamos das representações ora ingênuas, ora sarcásticas, mas sempre bem decodificadas. Vimos emoções esbarrando, desolando-se, descontrolando-se, crescendo e escondendo-se o quanto podiam. A ansiedade que agitava as cenas não venceu a alegria que driblava a força das crises ansiosas. Cada emoção surgia conforme Riley vivia.

Filme contagiante: Da alegria ao desgosto, uma emoção divertida. Reconhecemos através delas como influenciam nossas vidas, mesmo velhas. Temos momentos simples que trazem alegria, perdas que entristecem, raiva que desonera a mente e nos faz agir, às vezes, com incongruência. As injustiças sociais que tornam os velhos invisíveis desolam, geram tédio e, às vezes, melancolia.

Entusiasmadas com as cenas conectamo-as às nossas vidas. Rita disse: "É bom lembrarmos da célebre afirmação de Sartre em 'A Idade da Razão', de que a velhice é irrealizável porque as limitações corpóreas impostas pela idade podem nos impedir de alcançarmos uma síntese plena de nossa identidade e consciência." Concordei: "Isso mesmo, mas não nos impede de ajustarmos nossas perspectivas viabilizadoras, como e quando quisermos e pudermos. Liberdade para isso, os velhos têm."

Tomamos um café e nos abraçamos, marcando uma apresentação de jazz no CLUBE 5 e nos divertir, velhas assim.

(*) Médica pneumologista; coordenadora do Pulmocenter; membro honorável da Academia Cearense de Medicina.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 14/08/2024. Opinião. p. 19.


sábado, 1 de junho de 2024

Seu Vavá, dono do antigo Cine Nazaré, ganha exposição em SP

Foto de Sergio Poroger

A mostra "Uma Rua Chamada Cinema" tem como foco expor em fotos a importância de trabalhadores e salas de cinema ao redor do mundo e evidenciar seu papel para a cultura

Quando relembramos figuras importantes que contribuíram para a história do cinema cearense, com certeza o nome de Seu Vavá é mencionado. Ele foi operador do antigo Cine Familiar em Fortaleza e depois responsável por cuidar do Cine Nazaré, o último cinema de bairro de Fortaleza. Faleceu e deixou um legado significativo sobre da valorização do cinema de rua e para a cultura.

E agora Seu Vavá ganhou uma homenagem na exposição "Uma Rua Chamada Cinema”, no Museu da Imagem e do Som (MIS) em São Paulo, produzida pelo fotógrafo Sergio Poroger.

A mostra faz parte do projeto “Maio Fotografia” e fica em exibição até o dia 21 de julho. Ela apresenta 36 fotos de trabalhadores e salas de cinema ao redor do mundo, projecionistas, vendedores de pipoca, bilheteiros e trocadores de letreiros. Além de Seu Vavá, também evidencia o Cine Nazaré, com a exibição de documentário realizado pelo O POVO.

Sergio Poroger revela que a exposição é um longo projeto de pesquisa iniciado nos Estados Unidos, em 2017, com a premissa de descobrir quais locais seriam ideais para fotografar a indústria do cinema refletido no dia-a-dia das pessoas. E assim conheceu a história de Seu Vavá, a partir de um artigo publicado pelo O POVO.

“Com ajuda de uma amiga, Julia Ionele, que escreveu um livro sobre o Cine Nazaré, conseguimos agendar um ensaio fotográfico com Seu Vavá em seu cinema. Aprendi com essa história que jamais devemos abrir mão de nossos sonhos”, conta o fotógrafo.

A ideia da exposição é unir fotografia e cinema, inspirado por uma vivência que tinha na infância com seu pai, que o levava para assistir filmes no centro de São Paulo. Em sua jornada profissional passou por Estados Unidos, Holanda, Polônia e Argentina, que o inspiraram a conhecer mais de perto esse universo.

“Senti desejo por uma jornada visual, capturando fotografias de salas de cinema por vários países. Não apenas os espaços físicos, mas também as pessoas que trabalham incansavelmente nos bastidores para que um filme ganhe vida numa sala de cinema, desde os bilheteiros até os projetistas, passando pelos vendedores de pipoca. É, portanto, uma homenagem não apenas à arte do cinema, mas também aos profissionais que tornam possível essa mágica”, expõe Poroger.

Para ele, a maior motivação desse projeto é inserir uma mistura de nostalgia e tentativa de preservação - nem que como registro - de uma experiência artística e urbana que hoje, ao menos no Brasil, está sob ameaça. “Como cinema de rua e a importância de sua preservação é universal, decidi levar essa bandeira para diferentes partes do mundo”. pontua.

E continua revelando que é crucial ficarmos atentos ao papel fundamental dos cinemas de rua na sociedade. Com sua capacidade de ocupar espaços públicos com narrativas diversas, novas linguagens e a consequente troca de conhecimentos e diálogos.

“O senso coletivo que o cinema promove - aquela comunhão dentro da sala - cresce quando inserido no espaço público, fora da clausura dos shoppings. Com a especulação imobiliária e o crescimento da violência urbana, muitos cinemas foram fechados e houve, simultaneamente, um declínio do número de público nas salas dos que restaram”, expressa.

(*) A matéria não está assinada por jornalista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 28/05/24. Vida & Arte, p.3.


domingo, 17 de setembro de 2023

LANTERNINHAS DE CINEMA

Por Paulo Gurgel Carlos da Silva (*)

Assim em Fortaleza, assim no Brasil. 

O lanterninha de cinema era um profissional que, munido de uma lanterna, tinha a função de acompanhar as pessoas que chegavam atrasadas a uma sessão de cinema para lhes mostrar onde havia poltronas vagas.

Como as luzes do interior do cinema já estavam apagadas para a projeção do filme, os lanterninhas utilizavam-se de lanternas. E, devido a esse intermitente apagar e acender de lanternas, eram também chamados de vaga-lumes.

Quando alguém desejava ir ao banheiro também ofereciam ajuda indicando o caminho.

Aos casais mais afoitos, dispostos a incensar o altar de Vênus, usavam o facho para baixar o facho daqueles que ousavam.

Aos palradores exigiam silêncio, ou seriam de imediato postos para fora.

E cumpriam também o trabalho de um "juizado de menores". Com os menores de idade que, tendo ludibriado o porteiro, não podiam na sequência lhes fazer "vista grossa".

Hoje, esses acomodadores de cinemas e teatros foram substituídos pela iluminação nos degraus que levam às poltronas. E a disciplina? Bem, fica por conta da consciência dos espectadores.

Uma exceção: 

No Cine Familiar, da minha adolescência em Otávio Bonfim, não havia lanterninhas. E da moral e dos bons costumes, ora, supervisionava a observância o próprio Frei Teodoro.

(*) Médico pneumologista, escritor e blogueiro.

Postado por Paulo Gurgel no Blog Linha do Tempo em 20/08/2023.

http://gurgel-carlos.blogspot.com/2023/09/lanterninhas-de-cinema.html


sábado, 18 de dezembro de 2021

QUAL É O FILME?

QUAL É O FILME?

Um menino tinha um gatinho chamado Tido, que todas as noites dormiam em um cestinho. Um belo dia, o menino foi procurar o gato e não o encontrou.

Qual o nome do filme?

O Cesto Sem Tido.

Um chiclete conheceu uma chicletinha, se casaram e tiveram vários chicletinhos.

Qual o nome do filme?

A Família Adams.

Um homem aceitou o desafio de tomar 1.000 latinhas de refrigerante de uma só vez. Ele tomou 999 latas e não aguentava mais.

Qual o nome do filme?

Mil São Impossível.

Um homem comeu 1 quilo de cebola e alho e depois escovou os dentes.

Qual o nome do filme?

Mudança de Hálito.

Para poder comprar uma bola, um homem teve que escolher entre a vermelha e a azul. Ele escolheu a vermelha.

Qual o nome do filme?

Largou a Azul.

Um anão tinha o lábio inferior muito grande e, quando ele andava, o lábio balançava de um lado para o outro.

Qual o nome do filme?

Anão Que Balança o Beiço.

Em um lugar onde só existiam pizzas, as de aliche foram expulsas pelas de ervilha.

Qual o nome do filme?

Aliche No País Das Más Ervilhas.

Um casal de piolhos se amava muito e tiveram vários filhinhos.

Qual o nome do filme?

Lêndeas da Paixão.

Uma menina chamada Marina morava em um sítio. Um dia, para sair da rotina, ela pegou seu cavalo e foi passear nos campos. De repente, uma manada de éguas em disparada surgiu sobre ela.

Qual o nome do filme?

Vinte Mil Éguas Sobre Marina.

Fonte: Disponível na home page “Tudoporemail”.

terça-feira, 23 de março de 2021

UMA VACINA E TRÊS FILMES

Por Eduardo Jucá (*)

A autorização dos primeiros lotes de vacinas contra Covid-19 no Brasil gerou uma onda de comemorações talvez incompatível com o tamanho da tragédia. O imunizante é nossa maior esperança e devemos lutar pela disponibilização da maior quantidade possível o quanto antes.

Entretanto, o lento começo expôs o quanto a crise pode ser aumentada. A busca pelas doses em um salve-se quem puder mal disfarçado pode ser bem entendida se compararmos o quadro com três filmes conhecidos.

"O Poço" retrata prisioneiros divididos em andares. A comida vem descendo andar por andar, e as pessoas vão retirando sua parte. Quem está nos andares superiores desperdiça enquanto quem está nos andares inferiores fica com o que sobrar.

Se esta comida fosse a disponibilidade de vacinas no tempo e na quantidade adequados, estaríamos bem abaixo.

Em "Titanic", as vacinas equivalem aos botes salva-vidas e nossa sociedade é um navio que afunda fraturado pelo iceberg da polarização e dos extremismos. Na corrida pela sobrevivência vale tudo, incluindo fraudes e emprego de privilégios.

Por fim, a "Lista de Schindler" descreve como é angustiante tentar entrar no cadastro dos que serão salvos. Com menos doses do que necessário, testemunhamos o esforço de pessoas que frequentam hospitais diariamente no sentido de comprovarem seu direito de acesso ao imunizante.

A escassez torna difícil a identificação das prioridades e o jogo de influências ameaça um sistema que já luta com enormes desafios.

Como afirmou o médico João Gabbardo, sempre na linha de frente do combate à pandemia, "se todos são prioritários, ninguém é prioritário". Ou como diria o profético Orwell, "todos são iguais, mas alguns são mais iguais do que os outros". 

(*) Médico neurocirurgião pediátrico, professor, pesquisador e palestrante.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 14/2/2021. Opinião. p.28.

quarta-feira, 25 de setembro de 2019

PREMONIÇÃO DE NAUFRÁGIO


Meu avô me contou que quando viu o Titanic, avisou todas as pessoas desde o início que o barco afundaria, mas o ignoraram. Ele avisou novamente, que afundaria e muitos morreriam, mandaram ele ficar quieto. Ele avisou novamente em diversas ocasiões, até que o expulsaram do cinema.
Fonte: Internet (circulando por e-mail e i-phones).

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

DRIBLANDO A CENSURA DO FAMILIAR

Cine Familiar. Desenho à bico de pena do artista Tarcísio Garcia.
(Reproduzida do nosso livro "Frei Lauro Schwarte:o apóstolo da juventude do Otávio Bonfim").


Entre 1936 e 1971, o Cine Familiar funcionou, sem interrupção, no Otávio Bonfim, agregado à quadra do Convento de Nossa Senhora das Dores, da Ordem dos Franciscanos Menores, situado em Fortaleza.
Os frades, com o propósito de zelar pela conduta moral de seus fiéis, e também clientes do seu cinema, efetuavam uma triagem dos filmes que poderiam ser ofertados, e, inclusive, dentre os selecionados para projeção, antecipadamente, cuidavam de ver as películas, autorizando cortes de cenas julgadas ofensivas à pudicícia, o que incluía o beijo na boca, até de casais românticos; cenas de sexo, explícitas ou não, sofriam a ação da tesoura, que truncava a sequência, de forma claramente perceptível pela assistência.
Narra-se, até mesmo, um episódio em que um frade, que acompanhava a exibição de um filme, notou que uma cena, cuja sentença capital fora expedida, escapara do corte. Ele, de pronto, sobe à sala de projeção, e interrompe, com a mão, a transmissão do trecho censurado. A atitude dele suprimiu apenas as imagens, enquanto as falas e os sons prosseguiram, o que despertou o protesto da assistência, manifesto em uma estrepitosa vaia.
Uma traquinagem dos pirralhos era bisbilhotar parcela do lixo do convento, pois os frades colocavam-no em um buraco, e ateavam fogo, como forma de destino final das partes censuradas dos filmes. Ao fuçar as cinzas, os aventureiros juvenis encontravam películas queimadas, e, por vezes, captavam pedaços não carbonizados, conformando pequenos troféus, que aguçavam a curiosidade da meninada.
Para os que tinham um pouco mais de recursos, essas preciosidades eram colocadas em uma cartela e apreciadas em um visor de slides; a maioria dos adolescentes, no entanto, considerando que “quem não tem cão, caça como gato”, montava um apetrecho, para visualização dos slides, recorrendo a uma caixa de madeira, em que se introduzia uma lâmpada incandescente, da qual eram removidos o bulbo e os filamentos, cheia de água limpa, deixando-a bem transparente. A caixa funcionava como uma câmara escura, e por meio de um orifício no exterior, à altura da lâmpada, os diapositivos podiam ser vistos ampliados e com maior nitidez.
Essas poucas relíquias, salvas do fogo, como se fossem as sarças ardentes não consumíveis, descritas no Êxodo, eram como a fênix, nascendo das cinzas, para corar as faces de garotos entrados na puberdade, despertando-os para os pecados da carne, e atiçando a vontade de conjugar o verbo conhecer, no sentido bíblico.
Prof. Dr. Marcelo Gurgel Carlos da Silva
Nascido e criado na Paróquia das Dores

* Publicado In: ACADEMIA CEARENSE DE MÉDICOS ESCRITORES. Revista da ACEMES. Fortaleza: ACEMES, 2018. Nº 2. 268p. p.189-90.

quarta-feira, 13 de junho de 2018

O BANHEIRO DO PAPA



Meraldo Zisman (*)
Médico-Psicoterapeuta
O Banheiro do Papa (El Baño del Papa, 2009) foi um filme uruguaio que assisti, alugado de uma locadora. Lançado no Brasil em 2007, produzido pelos estúdios Laroux Cine/Chaya Films, e dirigido por César Charlone e Enrique Fernández, a película se passa no ano 1998, no povoado de Melo, fronteira entre Brasil e Uruguai.
Aquele burgo está agitado, correm os boatos de que, em breve, o Papa fará uma visita ao vilarejo. Neste sentido, espera-se que milhares de pessoas cheguem à cidade, e a população local se anima, percebendo o futuro evento como uma oportunidade para comercializar comidas, bebidas, bandeirinhas de papel, souvenirs, medalhas comemorativas, entre outros produtos. O protagonista Beto (César Trancoso) é um contrabandista que decide construir um sanitário condigno para a visita do Papa, no qual as pessoas poderão usar durante o evento. Para tanto, empenha todas as suas economias, e se endivida na construção de um banheiro mais requintado, contendo porta, bacia sanitária, descarga e um pedaço de papel higiênico para cada futuro usuário. No entanto, chega a noite, o Papa não vem, e o povoado fica ainda mais miserável e sem esperanças.
Lembrei-me desse filme, ao ler as queixas do Senhor Secretário de Turismo, do Rio de Janeiro, Antonio Pedro Figueiredo de Melo. Ele declarou que, até o fim da semana pós-carnavalesca (2009), foram danificados, por gangues de vândalos, 166 banheiros químicos, de um total de 821 instalados pela Prefeitura. Equipamentos sanitários completamente derrubados, arrasados, destruídos, a maioria sem portas. Creio que a edilidade não respeitou o aspecto psicossocial dos foliões. Carnaval é carnaval, é liberação! Afinal, para que servem as portas? Pergunto: e tudo é permitido no carnaval, mormente neste, em princípio do século XXI?
O povo resolveu a questão, como de hábito, em plantas, postes, fachadas, bueiros e outros locais já consagrados. O problema imediato foi resolvido "a céu aberto". Melhor assim: deu transparência ao povaréu, que nada tem a esconder. Qualquer cantinho serviu para aliviar uma pessoa "apertada". Principalmente agora, em tempos de sambas-enredo e nudez escancarada, o que há de tão grave no fato de o cidadão fazer suas necessidades em plena rua? Quem vai ter vergonha de urinar em banheiros sem portas ou de portas abertas? Viva a liberdade!
No tempo em que eu era estudante de Medicina, um estadista norte-americano comentou: "O problema da América do Sul é a falta de latrinas!" Daí por diante, a estudantada passou a denominar o nosso continente de América 'Latrina'.
Na verdade, a grande maioria do povo brasileiro não tem acesso a um banheiro limpo, em decorrência da falta de saneamento básico. Porém, fazer uso de um banheiro limpo é um direito, mais ou menos, universal. O Secretário de Turismo, Figueiredo de Melo, chegou a uma conclusão distinta daquela proferida pela autoridade norte-americana. Ele declarou, em uma revista de circulação nacional: "Não adianta ter banheiro se não houver educação!" E ponto final!
(*) Professor Titular da Pediatria da Universidade de Pernambuco. Psicoterapeuta. Membro da Sobrames/PE, da União Brasileira de Escritores (UBE) e da Academia Brasileira de Escritores Médicos (ABRAMES). Consultante Honorário da Universidade de Oxford (Grã-Bretanha). Foi um dos primeiros neonatologistas brasileiros.

domingo, 8 de abril de 2018

CONVITE: XVI Semeando Cultura da Sobrames-CE


A Diretoria da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores – Regional Ceará (Sobrames-CE) convida para o 16º SEMEANDO CULTURA, evento bimestral promovido pela Sobrames-CE, a realizar-se no dia 9/04/2018, às 19h30, no Espaço Cultural Dra. Nilza dos Reis Saraiva, na Av. Rui Barbosa, n° 1.880, Aldeota (Altos da Clínica São José Moscati).
O palestrante do evento será o advogado e escritor Prof. Régis Frota, que abordará o tema: CINEMA E LITERATURA. O expositor é professor da Faculdade de Direito da UFC, membro da Academia Fortalezense de Letras e atual Presidente da Academia Cearense de Letras.
Contamos com a nobre participação dos colegas, amigos e familiares neste aprazível momento cultural.
Após a palestra acontecerá o evento de Posse da Nova Diretoria da Sobrames-CE (Biênio 2018-2020).
Dr. Marcelo Gurgel Carlos da Silva
Presidente da Sobrames-CE

terça-feira, 27 de março de 2018

MARLEY & EU (Direito a Morrer com Dignidade)

Meraldo Zisman (*)
Médico-Psicoterapeuta
Depois do Natal, fui assistir ao filme "Marley e eu", que tem, no elenco, o ator Owen Wilson, como John Grogan (autor do livro homônimo), e a atriz Jennifer Aniston, como sua esposa Jenny. Líder de arrecadação norte-americana, e produção da 20th Century Fox, ele se tornou o primeiro filme, passado em um feriado de Natal, a alcançar US$ 100 milhões de bilheteria. Seu roteiro gira em torno de um casal de jovens jornalistas que, após perderem o primeiro bebê, decidem criar um cachorro. Eles vão a um canil, compram um filhote da raça labrador retriever, e o batizam com o nome 'Bob Marley', o mesmo do famoso cantor de reggae.
A película evidenciava as incríveis peripécias de Marley: ele quebrava portas, comia roupas, lançava-se sobre os visitantes, roía mobílias, e terminou sendo expulso de uma escola de treinamento de cães. Depois disso, a família decidiu castrá-lo, em uma tentativa (frustrada) de torná-lo mais calmo, e não degenerar a raça.
A despeito de seu mau comportamento, Marley conseguia ser muito amado, tanto pelos Grogans, quanto pelos filhos do casal que foram nascendo. Era realmente encantador observar o carinho de todos por ele, apesar do desespero dos amigos e conhecidos frente às suas peripécias imprevisíveis. O cachorro fazia parte, realmente, da vida do casal, e acompanhava todos os acontecimentos e nuances da biografia da família, sendo muito solidário, com seus donos, na dor e na alegria.
Em muitos momentos, a câmera focalizava os Grogan, do ponto de vista de Marley; outras vezes, focalizava do ponto de vista das pessoas, sem que o espectador pudesse distinguir a visão que prevalecia. Os sentimentos e as reações do cachorro eram bem radicais e opostos. Para ele, era tudo ou nada: ele gostava ou não gostava. Era como dizem por aí: "se você adotar um cão e torná-lo próspero, ele não o morderá". Eis a diferença entre um homem e um cão.
Com o correr do tempo, porém, Marley foi envelhecendo: perdeu as forças, não pode mais correr atrás das crianças, passou a ter doenças e achaques da velhice. A família o amparou e o protegeu, sentindo que ficou idoso. Marley desapareceu algumas vezes, mas os familiares disseram que os cachorros sabem quando sua hora derradeira chega, e preferem ficar sozinhos. No entanto, isso não ocorreu. Marley passou seus últimos momentos com o Grogan pai, em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) veterinária, longe das crianças e do lar. Terminou sendo sacrificado na clínica, e enterrado pela família, com todo o carinho possível, no jardim de sua casa.
Esse é um filme triste e real como a própria vida. Como médico, acredito que Marley, por se tratar de um cão, pôde ser sacrificado humanamente. Embora tenha sido muito piegas, seu enterro foi bonito e todos que o amavam estavam lá. Agora, pergunto: não seria melhor, para Marley, que o sedativo mortal tivesse sido administrado na presença de seus entes queridos, e ele tivesse morrido junto daqueles que o amavam?
Nunca poderemos saber o desejo de Marley porque cães não falam: eles são, tão-somente, monoblocos de emoções, amor e paixão. Infelizmente, o ser humano não goza dos mesmos direitos que os animais, ou seja, não lhe é permitido morrer em casa, ao lado de seus familiares. Em geral, as pessoas morrem rodeadas por profissionais competentes e equipamentos sofisticados. E, no final, os médicos dizem: foi feito tudo!
Entre os meus conhecidos, desconheço quem teve o direito de morrer na própria casa. Eu aconselho: escrevam nos testamentos que lhes permitam morrer em paz, cercados dos entes queridos. Na prática, acho que as famílias deveriam ter um médico de confiança, como antigamente havia o chamado "médico de família".
Que falta faz um médico amigo nessas horas!
Vivemos acorrentados, hoje, a regras desumanas. Há bastante comoção no filme porque, no fundo, todos desejam possuir os mesmos direitos que o cão. Para mim, é essa a mensagem de Marley e Eu: faz-se necessário repensar tanto a trajetória do cachorro, quanto a das pessoas a seu redor.
(*) Professor Titular da Pediatria da Universidade de Pernambuco. Psicoterapeuta. Membro da Sobrames/PE, da União Brasileira de Escritores (UBE) e da Academia Brasileira de Escritores Médicos (ABRAMES). Consultante Honorário da Universidade de Oxford (Grã-Bretanha). Foi um dos primeiros neonatologistas brasileiros.
 

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