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terça-feira, 14 de abril de 2026

CÂNCER COLORRETAL NÃO É INEVITÁVEL

Por Alessandrino Terceiro (*)

Todos os anos, no mês de março, a comunidade médica no Brasil se reúne em uma causa que deveria estar no centro das prioridades da saúde pública: a conscientização e a prevenção do câncer colorretal. A campanha Março Azul acontece com a intenção de alertar, sobretudo, que vivemos um problema de saúde coletiva, diretamente ligado a escolhas de estilo de vida, acesso à saúde e a cultura de prevenção.

Sim, o câncer colorretal pode ser evitado e é uma das formas de câncer que estão mais susceptíveis à prevenção e à cura principalmente quando é detectado em fases iniciais. Exames como colonoscopia permitem identificar pólipos e lesões em fases iniciais e que podem ser removidos antes de se transformarem em câncer, elevando as chances de cura para até 90% dos casos.

Infelizmente, muitos casos só são diagnosticados tardiamente por falta de rastreamento adequado ou por medo ou desconhecimento do paciente sobre a importância dos exames de prevenção ou até pela realidade nos serviços de saúde pública. Um estudo baseado no Registro Hospitalar de Câncer aponta que mais de 60% dos casos são identificados em fases avançadas, o que dificulta o tratamento, tornando-o mais complexo, doloroso e com chances de cura reduzidas.

O problema é preocupante principalmente pelas estimativas do Instituto Nacional de Câncer (INCA), que mostra que o câncer colorretal figura entre os três tumores mais incidentes no Brasil, com mais de 45 mil novos casos esperados anualmente e cerca de 20 mil mortes por ano por câncer de cólon, reto e ânus. Essa realidade evidencia não apenas a alta incidência, mas a letalidade desta neoplasia, que permanece muitas vezes silenciosa até estágios avançados.

Nesse contexto, a campanha Março Azul assume o papel de chamar a atenção da sociedade, gestores públicos e profissionais de saúde para que se repense a estratégia de prevenção, invista em rastreamento sistemático e amplie o acesso a exames fundamentais, além de conscientizar sobre fatores de risco modificáveis, como obesidade, sedentarismo, alimentação inadequada, tabagismo e consumo excessivo de álcool. Nunca é demais reverberar que a prevenção salva vidas.

(*) Presidente da Sociedade Brasileira de Endoscopia Digestiva - Ceará (SOBED-CE)

Fonte: Publicado In: O Povo, de 11/03/26. Opinião. p.14.


segunda-feira, 2 de março de 2026

Um alerta aos homens de todas as idades

Por Diego Capibaribe (*)

Quando falamos em câncer masculino, a maioria das pessoas se lembra do câncer de próstata. No entanto, existe outro tumor, menos frequente, mas potencialmente grave, que afeta principalmente homens jovens: o câncer de testículo. Apesar de raro, representa o tumor sólido mais comum em homens de 15 a 35 anos, uma faixa etária que, por se considerar saudável, muitas vezes negligencia a própria saúde.

Um ponto animador é o câncer de testículo ser altamente curável na maioria dos casos, mesmo quando diagnosticado em estágios avançados. Mas, para isso, é preciso que o homem esteja atento aos sinais. O sintoma mais frequente é o aparecimento de um nódulo endurecido ou aumento do volume em um dos testículos, geralmente indolor. Para nós, urologistas, a ausência de dor é traiçoeira, pois leva muitos pacientes a retardarem a procura por atendimento.

Embora não exista uma causa única, sabemos que fatores como o histórico de criptorquidia (testículo que não desceu para a bolsa escrotal na infância), antecedentes familiares e algumas condições genéticas aumentam o risco. Por este motivo, sempre reforço a importância do autoexame testicular mensal (que pode ser feito durante o banho, quando a pele do escroto está mais relaxada), um gesto simples, que leva menos de um minuto e pode salvar vidas.

O tratamento da doença depende do tipo e do estágio do tumor, mas normalmente começa com a remoção cirúrgica do testículo afetado. Em seguida, podem ser indicadas quimioterapia ou radioterapia, com excelentes índices de sucesso. E aqui está a mensagem fundamental aos leitores: perder um testículo não afeta necessariamente a fertilidade nem a produção hormonal de forma significativa, e hoje há próteses testiculares que restauram a estética e a autoestima do homem.

Como médico, penso que precisamos quebrar o tabu em torno da saúde masculina. A vergonha e a desinformação ainda são barreiras perigosas, que podem custar caro. O diagnóstico precoce é nossa arma mais poderosa, e começa com a atenção do próprio homem ao seu corpo. Cuidar de si não é sinal de fragilidade, mas de responsabilidade.

(*) Médico urologista. Especialista em cirurgia robótica.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 25/01/2026. Opinião. p.22.


quarta-feira, 12 de novembro de 2025

JOVENS E CÂNCER DE MAMA: um alerta

Por João Paulo Correia Mendes (*)

No mês da conscientização do Outubro Rosa, é urgente acender o sinal de alerta sobre um dado que vem assustando médicos e pacientes: o aumento crescente de casos de câncer de mama entre mulheres jovens. Estamos vivenciando uma mudança no perfil epidemiológico da doença - e é hora de falar com clareza.

Por décadas, o câncer de mama foi visto como um problema predominantemente feminino em idades mais maduras. Mas os números recentes demonstram que isso já não é mais uma verdade absoluta: temos observado casos diagnosticados em mulheres na casa dos 20, 30 e 40 anos - muitas vezes em estágios mais avançados, por falta de suspeita precoce.

Esse aumento não é coincidência. É reflexo de fatores complexos e interligados: alterações hormonais precoces, exposição prolongada a hormônios sintéticos, estilos de vida modernos - como sedentarismo, dieta rica em ultraprocessados, uso de contraceptivos hormonais sem acompanhamento adequado e obesidade - além da resistência cultural em tratar sintomas iniciais como sinal de alerta.

Os dados atuais impressionam e nos convocam a refletir. Estimativas nacionais mostram que cerca de 40% dos casos de câncer de mama no Brasil ocorrem em mulheres com menos de 50 anos - e, nesses casos, o prognóstico tende a ser mais reservado. Em algumas regiões do país, como Norte e Nordeste, o diagnóstico tardio em jovens está associado a maior mortalidade, por demora em detectar alterações atípicas que são ignoradas como "normal da idade".

Estudos recentes indicam que tumores em mulheres jovens frequentemente apresentam características biológicas mais agressivas – maior incidência de receptores hormonais negativos e proliferatividade celular mais elevada - o que exige vigilância diferenciada.

Quando uma jovem relata dor persistente, secreção, coceira ou alteração na pele da mama, muitos profissionais e pacientes descartam a hipótese de câncer por considerá-la improvável nessa faixa etária. Esse erro de complacência custa caro. O atraso no diagnóstico é um dos fatores que pioram o prognóstico e reduzem as opções terapêuticas.

Além disso, há um "efeito cascata" negativo: quando a detecção é tardia, a necessidade de tratamentos mais agressivos - como cirurgias extensas, quimioterapia e radioterapia - aumenta, com consequências físicas, emocionais e econômicas muito mais severas.

Diante desse cenário, é essencial agir em várias frentes. Precisamos inserir nas campanhas de saúde a mensagem de que o câncer de mama não escolhe idade. Jovens devem ser informadas sobre sinais menos óbvios, como coceira persistente, secreção, retração de mamilo e alterações na pele - não apenas sobre o "nódulo detectável".

Profissionais de saúde, inclusive generalistas, precisam ser capacitados e atualizados para suspeitar e encaminhar adequadamente mesmo pacientes jovens. Em casos de sintomas ou risco elevado, exames de imagem como ultrassonografia ou ressonância devem ser considerados.

Também é necessário fomentar pesquisas específicas sobre câncer de mama precoce, para compreender melhor as particularidades biológicas e sociais que afetam essa população. E, acima de tudo, é urgente fortalecer a cultura do autocuidado e do empoderamento feminino - para que mulheres jovens conheçam seus corpos e não ignorem sinais, mesmo os mais sutis.

Se o câncer de mama está mudando sua face, precisamos mudar nossa forma de combatê-lo. Que o Outubro Rosa deste ano traga não só laços cor-de-rosa, mas conscientização real, vigilância ativa e apoio às jovens que muitas vezes são invisíveis dentro da doença.

O alerta deve reverberar em toda a classe médica, nas políticas públicas e em cada mulher que sonha com uma vida longa e íntegra. Porque, acima de tudo, saúde não tem idade - e ninguém pode ser excluída desse cuidado.

(*) Médico mastologista e cirurgião de mama.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 8/10/2025. Opinião. p.19.

domingo, 31 de agosto de 2025

CÂNCER INTESTINAL MATA EM SILÊNCIO

Por Heitor Férrer (*)

Certa vez, subindo de bicicleta pela avenida Desembargador Moreira, usando o espaço reservado aos ciclistas, fui surpreendido por um carro parado na ciclovia. Já me preparava para advertir o condutor quando ele baixou o vidro e me disse: — Doutor Heitor!

Era um paciente meu. Perguntei por que havia sumido e ele me respondeu: — O senhor me pediu uma colonoscopia. Fiz o exame e deu um câncer de intestino. Fui ao especialista, que me operou. Era um tumor em fase inicial.

Vejam o valor da prevenção. Por isso que solicito a todos os meus pacientes a partir dos 45 anos a colonoscopia. Quando algum deles se recusa a fazer, registro na ficha: “Paciente recusou realizar colonoscopia.” Me resguardo, mas me preocupo.

Há poucos dias, o Brasil se despediu de Preta Gil, vítima de um câncer colorretal. Sua morte se soma à de outros nomes queridos, como Pelé, Roberto Dinamite e Luiz Gustavo.

De acordo com o Instituto Nacional de Câncer – Inca, estima-se que o Brasil tenha registrado 45.630 novos casos de câncer colorretal por ano entre 2023 e 2025. O dado mais alarmante, no entanto, é que mais de 70% desses casos são detectados em estágio avançado, quando o tratamento é mais difícil e a cura, menos provável. Morrem no Brasil 21 mil pessoas em decorrência do câncer de intestino por ano. São 1.750 mortes por mês. Sessenta brasileiros morrem diariamente vítimas dessa doença.

O câncer colorretal é o segundo mais comum entre homens e mulheres no Brasil. Porém, ao contrário de muitos outros, é um dos poucos tipos que permite diagnóstico precoce e tratamento curativo. A colonoscopia, exame que permite visualizar todo o intestino grosso e o reto, é capaz de detectar lesões antes mesmo de se tornarem malignas. Estamos falando de um tipo de câncer que, quando descoberto em fase inicial, tem mais de 90% de chance de cura. A diferença entre viver e morrer pode estar em um exame que dura cerca de 20 minutos, feito com sedação e segurança.

Felizmente, hoje vivemos em um tempo em que falar sobre prevenção já não é tabu. Mulheres se conscientizaram sobre o câncer de mama, fazem mamografia. Homens superam resistências e vão ao urologista para rastrear o câncer de próstata. Precisamos fazer o mesmo com o câncer de intestino.

Como médico e como deputado estadual, defendo campanhas de conscientização. Precisamos levar essa informação aos centros de saúde, escolas, igrejas, redes sociais. A medicina preventiva deve ser política pública.

Preta Gil, com coragem e transparência, falou sobre sua doença. E agora, com sua partida precoce, deixa um alerta: não espere. Aos 45 anos, com ou sem sintomas, procure seu médico e faça a colonoscopia.

Vamos cuidar antes que a vida nos cobre mais do que poderíamos evitar.

(*) Médico e deputado estadual (Solidariedade).

Fonte: Publicado In: O Povo, de 25/07/2025. Opinião. p.17.

segunda-feira, 5 de maio de 2025

Câncer na boca e no dente: prevenção e diagnóstico

Por Davi Cunha (*)

Embora o câncer de dente seja menos comum, é essencial compreender o panorama geral do câncer oral para enfatizar a importância da prevenção, do diagnóstico precoce e do acompanhamento profissional. Em geral, as principais causas estão relacionadas ao tabagismo, ao consumo excessivo de álcool e à exposição ao vírus HPV, além de condições de higiene bucal inadequadas e do uso de próteses dentárias mal ajustadas — fatores que aumentam consideravelmente o risco de lesões malignas na boca e nos dentes.

No Brasil, o câncer de boca já é o oitavo mais frequente, mesmo sendo ainda pouco conhecido pela maior parte da população. Dados do Instituto Nacional de Câncer (Inca) apontam que, até o final de 2025, a previsão é de que mais de 15 mil pacientes sejam diagnosticados com a doença. O índice de óbito também é considerado alto, entre 43% e 45%, e o grande problema desse percentual ainda é o diagnóstico tardio.

A doença, que costuma atingir fumantes crônicos a partir dos 45 anos, com maior prevalência entre os 50 e 60 anos, pode afetar diversas regiões da cavidade oral, como lábios, gengivas, língua, palato e os dentes. Os sintomas são muitas vezes sutis e fáceis de ignorar, o que torna o diagnóstico precoce desafiador. No entanto, alguns sinais, como feridas que não cicatrizam após duas semanas, manchas vermelhas ou brancas na mucosa bucal, dor persistente ao mastigar ou engolir, dificuldades para falar e perda de dentes sem explicação aparente, devem ser observados com atenção.

Os dentistas desempenham um papel vital na identificação de lesões precoces e na orientação sobre medidas preventivas, que são sempre os maiores aliados na luta contra o câncer bucal e dentário. Ao buscar acompanhamento profissional e adotar um estilo de vida saudável, podemos aumentar as possibilidades de prevenção e de recuperação, com grandes chances de cura.

(*) Cirurgião-dentista.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 8/04/2025. Opinião. p.16.

terça-feira, 8 de abril de 2025

Pesquisas genéticas são destaque no tratamento de câncer

Por Gabriele Félix, jornalista de O Povo

Sediado em Fortaleza, o ICC Next Legacy reúne, entre os dias 7 e 9 de abril, pesquisadores para discutir os avanços em tratamento, pesquisa e gestão oncológica

O termo câncer abrange mais de 100 tipos de doenças, que têm em comum o crescimento desordenado de células e a capacidade de invadir tecidos localmente ou migrar para órgãos não adjacentes. Os dados são do Ministério da Saúde.

Conforme o Boletim Epidemiológico da Secretaria de Saúde do Ceará (Sesa), divulgado em 10 de fevereiro de 2025, um levantamento realizado pelo Instituto Nacional do Câncer José de Alencar Gomes da Silva (Inca) mostrou que, para cada ano do triênio 2023 a 2025, foram previstos 704 mil casos novos de câncer no Brasil, sendo 21.020 no Estado.

Uma das iniciativas que procura chamar a atenção para a doença é a campanha Abril Lilás, que marca o mês de conscientização sobre o câncer de testículo, doença que corresponde mundialmente a 1% dos tumores masculinos e 5% das malignidades urológicas.

Apesar de raro, o urologista do Instituto do Câncer do Ceará (ICC), Marconi Tavares, alerta sobre a maior incidência da doença em homens em idade produtiva, entre 20 e 40 anos: “É uma doença de homem jovem, que existe um padrão genético, hereditário. E os fatores de risco que a gente considera para o paciente é que se ele tiver esse histórico, ele tem que ter um cuidado redobrado”.

O autoexame, de acordo com o médico, é essencial para garantir um diagnóstico precoce. “O grande nuance do câncer do câncer de testículo é por uma doença plenamente tratável. Mesmo que você se apresente com câncer de testículo localizado, mas que tem alguma metástase para o próprio pulmão, por exemplo, essa doença ainda é curável, porque é uma doença extremamente quimiossensível, ela tem uma sensibilidade à quimioterapia de forma curativa. Isso nos dá uma segurança enorme de tratar esses pacientes”, alerta.

Entre os principais sintomas da doença, o mais comum é o aparecimento de um nódulo duro, geralmente indolor, aproximadamente do tamanho de uma ervilha. Outras alterações, como aumento ou diminuição no tamanho dos testículos, endurecimentos, dor imprecisa na parte baixa do abdômen e aumento ou sensibilidade dos mamilos também podem ser indicativos do câncer de testículo.

Os dados foram alguns dos abordados durante o primeiro dia do Congresso de Oncologia do Norte e Nordeste, o ICC Next Legacy, que teve início nesta segunda-feira, 7, e prossegue até quarta-feira, dia 9, reunindo centenas de profissionais, nacionais e internacionais, para discutir os principais avanços em tratamento, pesquisa e gestão oncológica do mundo.

O evento, sediado em Fortaleza, debate novas tendências, abordagens e tecnologias no cuidado oncológico, incluindo a oncogenética, além de pesquisa e gestão em saúde.

O mastologista e diretor clínico da Rede ICC, Leandro Lacerda, destacou que o ICC Next Legacy é um congresso que abre um novo conceito em evento nacional e internacional.

A ideia foi trazer para este evento toda a área da saúde envolvida e não focar apenas na linha de tratamento com o médico direto ao paciente. Então, nós iremos abordar todas as áreas da oncologia e suas diversas modalidades e linhas de tratamento, visando sempre aquela linha de cuidado ao paciente”, ressalta.

Sequenciamento genético, cirurgia robótica e vacinas estão entre as novidades apresentadas no congresso

Segundo a coordenadora do ICC Genômica do Instituto do Câncer do Ceará (ICC), Maria Júlia, a detecção de alterações genéticas em pacientes é um grande marco na Medicina a nível mundial e promete aumentar a eficiência dos tratamentos e a sobrevida dos pacientes.

O médico vai saber direcionar melhor o tratamento daquele paciente. Já tem drogas, por exemplo, que são dadas a partir de alvos terapêuticos, então o paciente faz o teste molecular, é detectado a mutação e o médico escolhe uma droga que vai ter menos efeito colateral, o paciente vai ficar menos tempo no hospital. Então, isso dá uma sobrevida maior para o paciente e um sucesso maior para o tratamento”, detalha.

Além do sequenciamento genético preventivo, o oncologista clínico do ICC, Fábio Chaves, destaca que há uma força tarefa mundial focada no desenvolvimento de vacinas para o combate à doença.

A gente tem as vacinas que hoje em dia estão chegando cada vez mais fortes. Identificar subpopulações de indivíduos com alto risco que possam receber aquelas vacinas ou então pacientes que já tenham algum diagnóstico que possam receber aquelas vacinas como tratamento”, conta.

Apesar da expectativa pelo tratamento, ele ressalta que a novidade ainda está em fase de pesquisa. “A gente sabe que o câncer de colo do útero está muito relacionado ao HPV e que, hoje em dia, a gente tem essa vacina para receber. Muito provavelmente nos próximos anos a gente vai ter gerações de meninas que não terão esse tipo de doença, mas outras vacinas nas quais eu me referi agora há pouco, não, pois ainda estão em fase de pesquisa”, explica.

A cirurgia robótica também foi destaque no evento. De acordo com Leandro Lacerda, no Ceará, a Rede ICC Saúde já atua com essa prática, considerada mais rápida, menos dolorida e menos mórbida. “Hoje no grupo da Rede ICC Saúde temos a cirurgia robótica já sendo beneficiada, já atuando desde o ano passado. Então assim, sempre estamos tentando nos atualizar para a gente proporcionar o melhor paciente”, explica.

Genética, cirurgia robótica e vacinas

Segundo a coordenadora do ICC Genômica do Instituto do Câncer do Ceará (ICC), Maria Júlia, a detecção de alterações genéticas em pacientes é um grande marco na Medicina a nível mundial e promete aumentar a eficiência dos tratamentos e a sobrevida dos pacientes: "O médico vai saber direcionar melhor o tratamento daquele paciente. Já tem drogas, por exemplo, que são dadas a partir de alvos terapêuticos, então o paciente faz o teste molecular, é detectado a mutação e o médico escolhe uma droga que vai ter menos efeito colateral, o paciente vai ficar menos tempo no hospital. Então, isso dá uma sobrevida maior para o paciente e sucesso para o tratamento".

Além do sequenciamento genético preventivo, o oncologista clínico do ICC, Fábio Chaves, destaca que há uma força tarefa mundial focada no desenvolvimento de vacinas para o combate à doença: "A gente tem as vacinas que hoje em dia estão chegando cada vez mais fortes. O importante é identificar subpopulações de indivíduos com alto risco ou pacientes que já tenham algum diagnóstico que possam receber vacinas como tratamento".

Apesar da expectativa, ele ressalta que a novidade está em fase de pesquisa: "A gente sabe que o câncer de colo do útero está muito relacionado ao HPV e que, hoje em dia, a gente tem essa vacina para receber. Muito provavelmente nos próximos anos a gente vai ter gerações de meninas que não terão esse tipo de doença".

Fonte: Publicado In: O Povo, de 8/04/2025. Cidades. p.12.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2025

UM TUMOR CEREBRAL E UMA JORNADA

Por Saulo Teixeira (*)

No imaginário coletivo, um tumor na cabeça é um dos diagnósticos mais assustadores da medicina. Mesmo para nós, neurocirurgiões, que lidamos com essa realidade talvez uma ou duas dezenas de vezes por semana, cada exame que revela a presença de uma lesão tumoral vem acompanhado de uma infinidade de sentimentos.

A comunicação desse diagnóstico aos pacientes é uma das tarefas mais delicadas. Enfrentamos o medo de causar sofrimento desnecessário e a dificuldade de equilibrar a transparência sobre prognósticos sombrios com a necessidade de manter alguma esperança. Além disso, temos a responsabilidade de explicar que a cirurgia, apesar de necessária e segura, acarreta riscos significativos.

A habilidade manual, por si só, não basta. A estratégia é fundamental para um bom resultado. Muitas vezes, o tumor se encontra em áreas chamadas "eloquentes", regiões do cérebro responsáveis por funções vitais como fala, compreensão, visão, movimento e comportamento.

As relações pessoais no tratamento também evoluíram. Na minha geração, o neurocirurgião assistente deixou de ser o "tutor" absoluto do paciente. Hoje, as decisões são frequentemente colegiadas, discutidas com médicos parceiros e até mesmo com familiares leigos. Essa abordagem colaborativa frequentemente leva às melhores decisões.

Após a cirurgia, começa uma nova fase repleta de medos e incertezas, onde a reabilitação é crucial. Muitas vezes, é necessário um tratamento complementar, mas a esperança renasce. Nosso oponente, o tumor, terá sido em grande parte removido ou, ao menos, compreendido.

Claro que há algumas perdas pelo caminho. Há solidão, há infecção, há sangramento, há déficit neurológico, há abandono e muito medo. Mas preciso contar uma coisa: essa saga, que começou com a assustadora sentença do primeiro parágrafo, que já testemunhamos tantas vezes em tão pouco tempo, tem muito, muito mais finais felizes do que você, leitor, imagina.

Para mim, só existem duas certezas. A primeira é que o paciente com um tumor cerebral atualmente pode viver mais e melhor do que no passado. A segunda é que só enfrentamos esse desafio se permanecermos juntos!

(*) Médico neurocirurgião. Professor do IDOMED.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 27/12/2024. Opinião. p.16.

segunda-feira, 4 de novembro de 2024

Dr. Marcelo Gurgel lança livro celebrando 50 anos de Oncoepidemiologista

Na última sexta-feira (18/10), o Instituto do Câncer do Ceará (ICC) celebrou o Dia dos Médicos com o lançamento do livro “Memorial de um Oncoepidemiologista”, de autoria do Prof. Dr. Marcelo Gurgel. Com a obra, Dr. Gurgel comemora 50 anos de uma carreira dedicada à saúde pública, à educação e à epidemiologia do câncer, sendo referência nacional e internacional. Sua atuação acadêmica se destaca pela sólida formação: graduado em Medicina pela Universidade Federal do Ceará (UFC), Dr. Gurgel é mestre e doutor em Saúde Pública, com especializações em Economia da Saúde.

Além de professor do Mestrado Acadêmico em do ICC, Dr. Gurgel ocupa posições importantes no cenário científico e cultural. Ele é membro da Academia Cearense de Letras e da Academia Cearense de Medicina, com uma vasta produção literária, que inclui 130 livros. Sua carreira é marcada pela excelência em projetos de saúde pública e epidemiologia, tendo coordenado e desenvolvido diversas iniciativas voltadas ao estudo e controle do câncer no Brasil.

A renda integral da venda do livro será destinada à Casa Vida, braço de responsabilidade social do Grupo ICC, que oferece suporte a pacientes oncológicos e seus familiares durante o tratamento. A obra não apenas representa uma celebração pessoal de cinco décadas de contribuição à medicina, mas também reforça o compromisso de Dr. Gurgel e do ICC com o cuidado humanizado e social.

Fonte: Blog do ICC em 25/10/24.


terça-feira, 20 de agosto de 2024

AGOSTO BRANCO: o mês de prevenção ao câncer de pulmão

Por Marcus Amarante (*)

O Agosto Branco é uma campanha que tem o objetivo de alertar para a primeira causa de mortalidade por câncer no mundo: o câncer de pulmão. Segundo dados do Inca (Instituto Nacional do Câncer), em 2022, em nosso país, foram diagnosticados mais de 35 mil casos novos da doença. No ano anterior, o número de óbitos foi superior a 28 mil casos.

Os números muito próximos de incidência e mortalidade mostram que se trata de uma doença letal o que reforça a importância da prevenção e do diagnóstico precoce. Sabemos que o principal fator de risco associado é o tabagismo, seja ele ativo ou passivo. Cerca de 80 a 90% são provenientes do uso de cigarros. Sendo a interrupção do tabagismo a principal ação profilática para a redução da mortalidade com impactos consideráveis em termos de saúde pública. Fumantes têm risco até dez vezes maior de desenvolver câncer de pulmão que não-fumantes.

Entretanto, o tabagismo não é o único fator de risco. Outras agravantes devem ser levadas em conta e costumam ser negligenciados ou mesmo desconhecidos, são estes: antecedente familiar de câncer de pulmão aumenta o risco, especialmente se parente de primeiro grau; a exposição no ambiente de trabalho a substâncias cancerígenas como o asbesto, que já muito utilizado antigamente para a produção de telhas de amianto; gases como o radônio, um gás radioativo proveniente do urânio presente no solo. Quase um terço dos casos de câncer de pulmão em não-fumantes está relacionado à exposição a este gás.

Há ainda outros fatores como a Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC), exposição à radiação ionizante, infecção pelos vírus HIV e HPV, o consumo excessivo de álcool e a obesidade.

Em termos de rastreamento, recomenda-se a realização de tomografia computadorizada de tórax em pacientes de 50-80 anos com alta carga tabágica e consequente investigação e tratamento precoce das lesões. No entanto, ainda carecemos de métodos mais eficazes. Quando detectado precocemente, o câncer de pulmão tem uma chance muito maior de cura. Infelizmente, a grande maioria dos casos chegam ao consultório em estágio mais avançado.

Agosto Branco é um chamado para toda a sociedade (profissionais de saúde, pacientes, governantes). Estar alerta para todos os fatores que podem contribuir para o desenvolvimento da doença e detectá-la precocemente pode contribuir para a redução da mortalidade por câncer de pulmão.

(*) Médico oncologista clínico e pesquisador do CRIO.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 1/08/2024. Opinião. p.17.

segunda-feira, 19 de agosto de 2024

UM NOVO TEMPO NA LUTA CONTRA O CÂNCER NO BRASIL

Por Thiago Santos Garces (*)

Diante do crescente desafio que o câncer representa para a saúde pública, o Brasil responde com uma medida decisiva: a promulgação da Lei Nº 14.758 pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Esta lei inovadora estabelece a Política Nacional de Prevenção e Controle do Câncer, com o objetivo de reduzir a incidência e mortalidade por esta doença e, simultaneamente, melhorar significativamente a qualidade de vida dos pacientes afetados.

Estatísticas recentes divulgadas pela Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC) projetam que o Brasil poderá enfrentar cerca de 554 mil mortes por câncer em 2050, marcando um aumento alarmante de 98,6% em comparação aos dados de 2022. Essa projeção serve como um chamado à ação, sublinhando a urgência de implementar efetivamente políticas de saúde que possam contrariar essa tendência preocupante.

Central para a estratégia da nova lei é o Programa Nacional de Navegação da Pessoa com Diagnóstico de Câncer, uma iniciativa pioneira destinada a identificar e superar as barreiras que dificultam o acesso ao diagnóstico precoce e ao tratamento eficaz. Por meio de um sistema de monitoramento detalhado, o programa acompanhará cada paciente desde a suspeita inicial de câncer, garantindo que o diagnóstico e o tratamento sejam não apenas tempestivos, mas também adaptados às necessidades individuais.

Esse programa tem o potencial não apenas de acelerar a identificação e tratamento de casos de câncer, mas também de otimizar os recursos do sistema de saúde, promovendo uma abordagem mais eficiente e centrada no paciente. Contudo, para que essa inovação se traduza em resultados tangíveis, enfrentar-se-ão desafios significativos: desde a integração eficaz dos diversos níveis de atenção à saúde até a necessidade de investimentos substanciais em formação profissional e infraestrutura tecnológica.

A implementação bem-sucedida do Programa Nacional de Navegação da Pessoa com Diagnóstico de Câncer, integrado ao Sistema Único de Saúde (SUS), refletirá um compromisso profundo com a evolução da política de saúde pública e saúde coletiva no Brasil. A Lei Nº 14.758 representa, portanto, um marco crucial nesta jornada, evidenciando a determinação do Brasil em fortalecer seu compromisso com a saúde pública e o bem-estar coletivo.

Agora, a eficácia dessa política dependerá da mobilização de todos os setores da sociedade: gestores públicos, profissionais de saúde e a população em geral devem unir esforços para garantir que as promessas da Lei Nº 14.758 se tornem realidade, marcando um avanço significativo na luta contra o câncer no país.

(*) Enfermeiro. Pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva da Uece.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 29/07/2024. Opinião. p.23.

quarta-feira, 31 de julho de 2024

Saúde se amplia com gestão conjunta ICC e São Raimundo

Por Lêda Maria Souto Paulino (*)

O ICC completa este ano 80 anos, e a fusão com o São Raimundo gera uma nova diretoria, unindo filhos e pais

O ICC tem o maior parque de radioterapia do Nordeste, mais equipamentos, tratamentos e metas de mais benefícios para a população. Uma nova conquista repercute: ele assumiu a gestão do Hospital São Raimundo, unidade dotada de condições para cirurgias de grande porte, centro cardiológico e oncológico, mais atendimentos nas diversas especialidades para os pacientes de planos de saúde e também aos particulares, em uma área localizada há muitos anos na Aldeota.

Para aqueles acometidos de câncer, agora é possível diminuir as distâncias. Antes só tinham encaminhamento e assistência na unidade do bairro de Porangabussu. Lá tudo permanece funcionando com todos os serviços necessários ao tratamento desses pacientes, destaca o médico Lúcio Alcântara.

Esta associação, a primeira reunindo somente grupos cearenses, já está em pleno funcionamento. O médico e ex-governador Lúcio Alcântara, há 34 anos administrando com sua irmã Lúcia o ICC, entidade voltada ao tratamento de câncer às pessoas necessitadas, lembra que lá existem mais de 100 leitos, equipes de saúde altamente qualificadas e todos os serviços.

O ICC completa este ano 80 anos, e a fusão com o São Raimundo gera uma nova diretoria, unindo filhos e pais. O CEO é Caio Juaçaba, filho do médico Sérgio Juaçaba, presidente; o vice-presidente é Leonardo Alcântara, filho de Lúcio e que passou a ser presidente emérito.

(*) Jornalista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 29/07/24. Vida & Arte. Coluna da Lêda Maria, p.9.

terça-feira, 30 de julho de 2024

A Importância do Julho Verde na Luta Contra o Câncer de Cabeça e Pescoço

Por Bonfim Júnior (*)

A Campanha do Julho Verde é essencial para conscientizar sobre o câncer de cabeça e pescoço, uma das doenças mais letais e negligenciadas. Até 2025, o Brasil terá quase 120 mil novos casos desse problema, exigindo uma resposta eficaz.

Historicamente, essa doença afetava principalmente homens acima dos 50 anos, devido ao tabagismo e ao consumo excessivo de álcool. Porém, os casos estão aumentando entre jovens de 20 a 40 anos e mulheres, ressaltando a urgência de campanhas de conscientização mais abrangentes.

Os sintomas, como rouquidão persistente, nódulos no pescoço, dificuldades para engolir, aftas e manchas brancas na boca, são frequentemente ignorados, retardando o diagnóstico e complicando o tratamento. A detecção precoce é vital para aumentar as chances de cura, mas a população precisa estar informada sobre esses sinais de alerta.

Embora o diagnóstico seja fácil na maioria dos casos e a cura ocorra em mais de 90% dos diagnósticos realizados no estágio I, mais de 60% dos pacientes chegam ao consultório com a doença já em estágio avançado. Isso destaca a importância do diagnóstico precoce para aumentar as chances de cura e melhorar os resultados do tratamento.

Além dos fatores de risco tradicionais, como tabagismo e etilismo, a infecção pelo HPV também é uma causa significativa, especialmente entre os jovens. Isso reforça a importância de práticas sexuais seguras e da vacinação contra o HPV, que deve ser ampliada para meninos e meninas.

A prevenção é a melhor estratégia contra essa doença devastadora. Medidas simples como não fumar, evitando inclusive cigarros eletrônicos e similares, evitar álcool, manter uma alimentação saudável, cuidar da higiene bucal, usar protetor solar na pele e nos lábios, e evitar exposição prolongada ao sol podem reduzir drasticamente o risco de câncer. A vacinação contra o HPV para adolescentes também é essencial, sendo o único fator que realmente protege contra os cânceres causados pelo HPV.

Julho Verde não é apenas um período de conscientização, mas um chamado à ação para toda a sociedade. Governos, profissionais de saúde, instituições educacionais e a população em geral precisam unir esforços para combater esse tipo de câncer. As campanhas de conscientização devem ser intensificadas, alcançando cada vez mais pessoas e promovendo hábitos de vida saudáveis.

A luta contra o câncer de cabeça e pescoço exige um esforço coletivo. Informar, prevenir e tratar são as chaves para reverter as estatísticas e salvar vidas. Neste Julho Verde, que cada um de nós possamos fazer a nossa parte, adotando práticas preventivas e disseminando informação. Somente com um esforço conjunto poderemos vencer essa batalha e garantir um futuro mais saudável para a sociedade.

(*) Cirurgião de Cabeça e Pescoço. Especialista em Cirurgia Robótica no Ceará.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 11/07/24. Opinião. p.20.

terça-feira, 18 de junho de 2024

RADIOTERAPIA NA SANTA CASA DE FORTALEZA

Por Vladimir Spinelli Chagas (*)

Uma das primeiras instituições a prestar serviços de oncologia no Ceará, iniciados em 1963, a Santa Casa de Fortaleza manteve a primeira posição em números de cirurgias oncológicas de diversas especialidades até o ano de 2019, quando cresceu a oferta de novas instituições especializadas.

Durante esse tempo, manteve-se atuante, com equipes médicas de excelência e o seu reconhecido atendimento humanizado, além da atuação em procedimentos clínicos e cirúrgicos de média complexidade, reconhecidamente deficitários, em razão da defasagem de mais de 20 anos da Tabela SUS.

Em 3 de junho de 2015, a Santa Casa se habilitou em programa do governo federal, sendo uma das instituições beneficiadas com um acelerador linear, equipamento que permite os serviços de radioterapia de alta relevância para um significativo número de cânceres.

A obra, financiada e acompanhada pela União, está em vias de ser definitivamente entregue à Santa Casa, para que esta inicie a sua disponibilização para os seus pacientes e oferte a outras instituições.

O equipamento para exames de radioterapia, em instalação, vai permitir à Santa Casa um primeiro patamar nesses serviços, mas já nos movimentamos para buscar upgrade no software que o acompanha e, logo em seguida, na busca de recursos para a instalação de uma segunda unidade, cujo espaço físico já está definido.

Destaque-se que hoje, no Ceará, os pacientes oncológicos com perfil para radioterapia aguardam, em média, 35 dias para realizar a primeira sessão, o que mostra que a disponibilidade de um novo equipamento irá contribuir grandemente na redução dessa fila, pela possibilidade de atendimento diário entre 30 e 40 pessoas.

É importante ressaltar a permanente dedicação da Santa Casa de Fortaleza à causa da saúde pública, especialmente aos pacientes mais carentes, como forma de manter a característica de Hospital de Caridade, conquistada desde a sua criação, 163 anos atrás.

Este novo passo descortina mais desafios à frente e demonstra, mais uma vez, o compromisso da Santa Casa de Fortaleza com os seus pacientes e o seu lema: salvando vidas, desde 1861.

(*) Professor aposentado da Uece, membro da Academia Cearense de Administração (Acad) e conselheiro do CRA-CE. Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Fortaleza.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 20/05/24. Opinião. p.20.

quinta-feira, 13 de junho de 2024

CIRURGIA ROBÓTICA EM CABEÇA E PESCOÇO: avanço contra o câncer

Por Bonfim Júnior (*)

No cenário médico atual, a tecnologia tem desempenhado um papel cada vez mais importante na busca por tratamentos mais eficazes e menos invasivos. Um dos avanços mais marcantes nesse sentido é a cirurgia robótica, uma técnica que está revolucionando o tratamento do câncer de cabeça e pescoço. Esse impacto é especialmente evidente no Ceará, onde já se opera por este meio.

A cirurgia robótica, originária da Inglaterra em 1980 e introduzida no Brasil em 2008, oferece uma maneira precisa e menos invasiva de remover tumores nessa região delicada do corpo. Por meio de braços robóticos controlados por nós, cirurgiões, por meio de um console computadorizado, procedimentos complexos podem ser realizados com maior precisão e menor trauma para o paciente.

Os benefícios dessa tecnologia são inegáveis. A precisão dos movimentos dos braços robóticos permite procedimentos delicados em áreas complexas, enquanto os sistemas de câmeras proporcionam uma visão detalhada, preservando áreas críticas. Além disso, a capacidade de acessar áreas de difícil alcance e a redução do trauma cirúrgico resultam em uma recuperação mais rápida e menos dolorosa para os pacientes.

É importante ressaltar que a cirurgia robótica é uma técnica complexa que exige habilidades especializadas por parte dos cirurgiões. Aqui no Ceará, já temos profissional habilitado para realizar procedimentos robóticos em cabeça e pescoço, o que destaca a necessidade de investimento em treinamento e capacitação nessa área.

Além da remoção de tumores, a cirurgia robótica pode ser aplicada em uma variedade de procedimentos, incluindo tireoidectomias, cirurgias de glândulas salivares e reconstruções complexas. Isso representa uma esperança significativa para os pacientes, não apenas em termos de resultados médicos, mas também em relação à sua qualidade de vida pós-operatória.

A cirurgia robótica em cabeça e pescoço é um exemplo notável de como a tecnologia pode ser integrada à medicina para oferecer tratamentos mais avançados e menos invasivos. É um testemunho do compromisso contínuo da comunidade médica em melhorar a vida dos pacientes e enfrentar o câncer com inovação e excelência. Com mais investimentos e avanços nessa área, podemos esperar que essa técnica continue a desempenhar um papel crucial na luta contra o câncer.

(*) Cirurgião de Cabeça e Pescoço. Especialista em Cirurgia Robótica no Ceará.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 22/05/24. Opinião. p.21.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2023

O PRIMEIRO DIA NO UROLOGISTA

Por Bruno Ferreira (*)

Um assunto que causa ansiedade e relutância em alguns, mas que precisa ser falado: a primeira consulta com um urologista. Muitas vezes o paciente vem com muita vergonha, medo e preconceito. Isso acontece porque o urologista é o médico que em algumas das situações precisa fazer o exame na região genital e o famigerado, o temido exame do toque.

Antes de falar sobre isso, precisamos voltar a um ponto que talvez os homens não estejam tão habituados: o diálogo. É na conversa que a consulta começa, tentando entender qual é o problema do paciente. O público é diverso: desde a faixa etária mais jovem, crianças, adolescentes, homens jovens, mulheres, homens mais velhos, até idosos.

Na infância, aquela criança que vai para uma consulta com o urologista, está com a mãe preocupada com a fimose, com a glande e precisa que o médico examine, mas a criança não está à vontade, fica envergonhada, com medo. Nos adolescentes e jovens adultos, que iniciaram as relações sexuais, normalmente buscam os médicos em decorrência do aparecimento de lesões genitais, com receio de ser um IST. Então, a conversa se torna mais uma vez a chave para esse momento. Na idade mais avançada, 50 anos, 60 anos, ou até pacientes mais idosos, a rotina de visitas ao urologista faz parte da prevenção ao câncer de próstata, situação do tão temido exame de toque.

É comum ouvir que o paciente gostaria de fazer apenas o PSA, exame de sangue, a partir daí começa um trabalho de convencimento e argumentação a fim de mostrar a relevância do exame até então indispensável. Infelizmente, em alguns casos, o esforço é em vão. É um trabalho diário, estrutural, para conversar e desmistificar isso, fazer com que o paciente fique confortável e tranquilo, trazer luz aos problemas e à resistência.

Recentemente, nós tivemos uma abordagem diferenciada através do livro da psicóloga Jaqueline Mesquita, chamado "Casal e Prostatectomia - Narrativas de Mulheres", em que ela traz a situação do homem que realiza a retirada da próstata e, infelizmente, fica impotente. O material traz a visão da mulher que acompanha o marido e relata como ficou a relação entre depois. Por isso o diálogo é a base das primeiras consultas com o urologista, para desmistificar tantos tabus, medos e preconceitos.

(*) Médico urologista e professor da Faculdade de Medicina da UFC.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 9/11/2023. Opinião. p.18.

terça-feira, 10 de outubro de 2023

ALERTA PARA O CÂNCER DE CABEÇA E PESCOÇO

Por Wellington Alves Filho (*)

O câncer de cabeça e pescoço compreende os tumores malignos que podem acometer diversas regiões, incluindo a pele, boca, faringe, laringe e glândulas salivares. Segundo dados do INCA, trata-se do 7º câncer mais comum no mundo e o 5ª mais comum no Brasil, com aproximadamente 40.000 casos novos diagnosticados somente em 2022. Sua mortalidade pode ser elevada, chegando a aproximadamente 10.000 mortes por ano no nosso país, sobretudo quando o diagnóstico acontece em fases mais tardias da doença, o que ocorre em cerca de 70% dos casos.

O uso do tabaco e do álcool são os fatores de risco mais implicados no desenvolvimento do câncer de cabeça e pescoço. O uso combinado desses fatores pode aumentar o risco de desenvolver a doença em aproximadamente 40 vezes. A infecção pelo vírus HPV também tem um papel importante no desenvolvimento de alguns tumores, mais notadamente no câncer de orofaringe (garganta).

Os sintomas vão depender da sua localização. Aftas na boca, dor ao engolir, rouquidão, surgimento de caroços no pescoço ou ferimentos na pele há mais de três semanas merecem investigação e avaliação de um profissional. O diagnóstico é feito após a rigorosa avaliação médica, sendo muitas vezes necessária a realização de biópsia para confirmar o diagnóstico.

O tratamento do câncer de cabeça e pescoço é essencialmente multimodal e multidisciplinar, envolvendo desde a cirurgia, tratamento não cirúrgico (radioterapia e quimioterapia) ou a abordagem combinada. Idealmente, os pacientes devem ser abordados em centros especializados, em que essa abordagem é garantida. Embora o tratamento possa trazer sequelas importantes nos casos diagnosticados mais tardiamente, a detecção precoce da doença pode trazer índices de cura acima de 80%.

É fundamental o estímulo às práticas e estratégias de prevenção e detecção precoce, como campanhas nacionais de conscientização, como o Julho Verde, mês em que se celebra o combate mundial contra a doença. Além disso, deve ser priorizado o combate ao cigarro e ao consumo excessivo de álcool, juntamente com o estímulo à vacinação contra o HPV.

(*) Cirurgião de Cabeça e Pescoço do Hospital Universitário Walter Cantídio e do CRIO.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 31/08/2023. Opinião. p. 20.


terça-feira, 25 de abril de 2023

CÂNCER DE INTESTINO MATA, ÍDOLOS MORREM

Por Sérgio Pessoa (*)

Estádio Azteca, 1970: O Rei Pelé pula mais alto que o italiano Giacinto Fachetti, para no espaço, de olhos fixos e abertos, desfere uma mortal cabeçada no canto do goleiro Albertosi e sai dando socos no ar comemorando o primeiro gol na lendária final da copa do tri, no México.

Maracanã, 1976: Roberto Dinamite recebe um cruzamento na marca do pênalti, aplica um lençol no zagueiro botafoguense Osmar e fuzila, de voleio, o goleiro Wendell aos 45 minutos do segundo tempo.

Lances imortalizados nas telas da TV, do cinema e agora no YouTube nos dão a impressão de que os dois craques não morrerão jamais. No nosso imaginário, certamente, mas, infelizmente, a realidade mundana é outra. Pelé e Dinamite tiveram sua passagem terrena abreviada pelo câncer de intestino, uma doença comum e absolutamente passível de prevenção e cura, se precocemente diagnosticada.

O câncer colorretal (CCR), popularmente conhecido como câncer de intestino, é o segundo tumor maligno mais frequente entre mulheres e homens no Brasil. É uma lesão que pode ser prevenida e diagnosticada em fases precoces, o que permite altas taxas de cura, se utilizarmos ferramentas como pesquisa de sangue oculto nas fezes e colonoscopias periódicas a partir dos 50 anos.

A Federação Brasileira de Gastroenterologia (FBG) e as Sociedades Brasileiras de Endoscopia Digestiva (SOBED) e de Coloproctologia (SBCP) promovem, em todo o Brasil, a campanha Março Azul. O objetivo é esclarecer a população e cobrar do poder público estratégias que reduzam o risco da doença e permitam o diagnóstico antes da instalação do câncer ou em suas fases iniciais.

A campanha busca popularizar a ideia de que a partir dos 50 anos na população geral, e mais cedo em grupos especiais, como parentes em primeiro grau de portadores de CCR ou indivíduos portadores de doença inflamatória intestinal, a realização de exames laboratoriais e colonoscopias devem fazer parte do cuidado individual de cada um de nós. Lamentavelmente, as doenças de Pelé e de Roberto Dinamite já foram identificadas em fase muito avançada, o que reduziu em muito a chance de cura.

Marque um gol de placa. Lembre-se do Março Azul e previna-se!

(*) Médico gastroenterologista. Presidente da Federação Brasileira de Gastroenterologia.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 1/03/2023. Opinião. p.20.

 

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