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quinta-feira, 8 de agosto de 2024

ECONOMIA, POLÍTICA E FOME

Por José Meneleu Neto (*)

A superação de profundos problemas sociais produzidos pela desigualdade exige coragem de enfrentar e persistência de continuar. A fome em nosso estado tem características endêmicas que exigem políticas de urgência ao lado de políticas estruturantes. O Estado tem feito esforço continuado para a ampliação da segurança alimentar e o programa Ceará Sem Fome é parte central dessa consciência.

Ao analisar a evolução da segurança alimentar no Ceará, nos últimos 20 anos, observamos que em 2004, 44,3% dos domicílios cearenses tinham acesso à alimentação adequada. Em 2023 esse indicador cresceu para 64,9% dos domicílios. Mas esse foi um caminho cheio de percalços. O crescimento virtuoso do período 2004-2013 gerou milhões de empregos associados a políticas sociais que tiraram o Brasil do Mapa da Fome.

Esse contexto fez bem ao Ceará e a segurança alimentar cresceu, abarcando 64,5% dos domicílios cearenses em 2013. Porém, essa tendência foi interrompida pela guinada conservadora que levou à recessão e ao encolhimento das políticas sociais a partir de 2017. O resultado foram vários passos atrás no combate à fome: a segurança alimentar no Ceará em 2018 caiu para 53,1% dos domicílios.

Além disso, a crise sanitária da Covid-19 criou um cenário tenebroso para os mais vulneráveis. Para enfrentar esse cenário, o Ceará ampliou e persistiu com políticas sociais através do Vale-Gás, Auxílio Catador, Mais Nutrição, Cartão Mais Infância e Distribuição de Alimentos.

O contexto pós-pandemia tem sido de recuperação das perdas, mas temos muito mais a recuperar. O combate à fome mostra que a persistência é fundamental. Por isso, o Ceará Sem Fome fornece o cartão de R$ 300 de ajuda financeira para a compra de alimentos a 53 mil famílias. São R$ 185 milhões de recursos públicos anuais que também movimentam a economia local e o pequeno comércio nos 184 municípios do estado. As cozinhas populares atendem 109 mil pessoas/dia e representam R$ 163 milhões apoiando a ação solidária de comunidades espalhadas por todo Ceará. É necessário e urgente agir e persistir por um Ceará Sem Fome.

(*) Economista e professor da UECE, Diretor de Estudos Socias do IPECE.

Fonte: O Povo, de 10/07/24. Opinião. p.16.

quinta-feira, 18 de maio de 2023

INSEGURANÇA ALIMENTAR E GESTAÇÃO

Meraldo Zisman (*)

Médico-Psicoterapeuta

Ponderações:

1 Comparada à média simples de 120 países, no Brasil a insegurança alimentar subiu 4,48 pontos percentuais. Um estudo observou crescente e marcada assimetria de insegurança alimentar entre homens e mulheres no Brasil. De 2019 a 2021, houve queda de 1 ponto percentual para homens (caiu de 27% para 26%) e aumento de 14 pontos percentuais entre as mulheres (subiu de 33% para 47%).

2 Como resultado, a diferença entre os sexos na insegurança alimentar em 2021 é 6 vezes maior no Brasil do que na média global. As mulheres, principalmente aquelas entre 30 e 49 anos, que tendem a estar mais próximas das crianças, acabam repassando a fome aos filhos. A subnutrição infantil deixa marcas permanentes, físicas e mentais, para toda vida.

3 Quando realizo qualquer trabalho ligado à insegurança alimentar, nova designação para a velha fome, e suas consequências sobre a infância das meninas (para não usar o antigo nome de classe social), e desconhecendo melhor critério de avaliação, levo em conta que a fome ancestral tem forte ligação com a profissão do avô materno. Se o avô teve condições de encaminhar o filho a uma situação econômica estável, o pai tem possibilidade de produzir um ambiente acolhedor: alimentação, moradia, saneamento básico, instrução; é isso que vai definir a qualidade da gestação de suas filhas, quando engravidam.

4 O número dos problemas sofridos pelas meninas, suas condições de saúde coletiva é o que irá determinar a higidez da gravidez. O cuidado que as meninas recebem desde criança garante aos seus conceptos uma melhor sobrevida.

5 Os nove meses que o feto passa no útero materno são mais importantes do que as décadas de anos que vivem fora dele.

Assim se perpetuam as doenças da pobreza, criadas basicamente pelas características da Fome Congênita, que se faz presente desde o nascimento, mas não é necessariamente hereditário.

(*) Professor Titular da Pediatria da Universidade de Pernambuco. Psicoterapeuta. Membro da Sobrames/PE, da União Brasileira de Escritores (UBE), da Academia Brasileira de Escritores Médicos (ABRAMES) e da Academia Recifense de Letras. Consultante Honorário da Universidade de Oxford (Grã-Bretanha).

quinta-feira, 11 de agosto de 2022

A FOME ANCESTRAL

Meraldo Zisman (*)

Médico-Psicoterapeuta

Fome (do latim faminem) é o nome que se dá à sensação fisiológica pela qual o corpo percebe que necessita de alimento para manter suas atividades inerentes à vida, enquanto ancestral é um adjetivo relativo aos antepassados ou antecessores. Num círculo vicioso, cada vez mais famílias se aglomeram nas cidades, passando fome por não conseguir meios para suprir sua subsistência, fome que se inicia desde o começo da vida, ainda durante o tempo da gestação em útero. Se a mãe não tem o que comer como vai alimentar o embrião e o feto que está gestando?

As consequências dessas carências nutricionais refletem-se desde a média do tamanho dos recém-nascidos, sobretudo nas camadas menos favorecidas.

Porém, uma coisa não mudou— a fome ancestral— que assola a maior parte do povo brasileiro há alguns séculos. Já era própria dos seus antepassados ou antecessores. Se não, vejamos.

Quando se compara o tamanho dos neonatos de famílias pobres com o da população brasileira de melhor renda, as diferenças antropométricas são gritantes.

O comprimento médio dos nossos recém-nascidos permanece sendo de 47 centímetros.

Desde 1960 venho alertando que o nordestino tem baixa estatura devido a uma precária nutrição materna e quando falo em desnutrição, englobo todas as mazelas da adversidade psico-econômica-social. Nascer pequeno não é uma deficiência apenas física, é também emocional. Diminui a capacidade de aprendizado, aumenta o comportamento antissocial e a violência. Aqueles que nascem com menos de 47 cm são os que têm maior risco, já que um crescimento fetal insatisfatório poderá ter efeitos de longo prazo sobre a química do cérebro. O crescimento insatisfatório do bebê no útero influencia o comprimento do bebê no nascimento e prejudica o desenvolvi mento do cérebro. Além disso, deturpa a produção dos neurotransmissores como a serotonina, também conhecida como a substância “mágica” ligada ao desenvolvimento e ao humor de modo geral, notadamente baixa em pessoas com depressão.

O pouco crescimento no útero poderia ser causado pelo uso abusivo de drogas, inclusive álcool, pela mãe ou por uma dieta ruim, ou mesmo por um ambiente estressógeno e sobretudo da nutrição materna durante a gestação de fragilização ou ainda em situações adversas, como aquelas com problemas sociais, mães adolescentes e as com passado de criminalidade.

Há evidências mostrando que uma intervenção nessas mães pode ter efeito no desenvolvimento da criança, a longo prazo.

Porque não tentar agora, melhorando as cestas básicas das gestantes, com mais proteínas e melhores nutrientes, além de outras coisas mais?

E pensar em um acompanhamento pré-natal que não se resuma ao fornecimento de cestas básicas ou uma orientação médica de última hora. O melhor que se pode fazer, no momento, em prol das futuras gerações brasileiras é alimentar as populações mais carentes e não politizar, paralisar, e acabar com as diferenças e rivalidades polarizadas de direita ou esquerda e lembrar o velho ditado indiano: na casa onde falta o pão todos brigam e ninguém tem razão.

Concluo com a frase do gênio Millôr Fernandes: “Ninguém sabe o que você escuta, lê, se informa, e não importa a sua ideologia, mas todo mundo ouve muito bem o que você fala ou escreve” — principalmente agora, nesta época do império das denominadas mídias sociais pioradas pelos avanços informatizados, as discrepâncias psicossociais tornam-se mais gritantes, sendo a principal delas a fome intergeracional, falta de alimentos ou erros alimentares que acontecem entre duas ou mais gerações. Daí a importância de distinguirmos a diferença entre as gerações das periferias das grandes cidades e aquelas do interior, além das migrações procedentes das nossas zonas rurais, desde que nos tornamos de um país predominante agrícola.

Ou, assim diziam minhas professoras, hoje cognominadas de tias postiças, do meu antigo curso primário de grupo escolar. O que quando criança eu escutava e pensava ser verdade, se verdade fora, agora não é mais.

(*) Professor Titular da Pediatria da Universidade de Pernambuco. Psicoterapeuta. Membro da Sobrames/PE, da União Brasileira de Escritores (UBE), da Academia Brasileira de Escritores Médicos (ABRAMES) e da Academia Recifense de Letras. Consultante Honorário da Universidade de Oxford (Grã-Bretanha).

quinta-feira, 23 de junho de 2022

O AUMENTO DA FOME NO BRASIL

Por Carlos Viana (*)

Tinha por volta de 10 anos de idade quando soube que algumas pessoas não tinham o que comer. Estava no Centro de Fortaleza com minha mãe, quando encontramos uma mulher pedindo dinheiro para comprar comida para seus filhos.

Essa cena voltou à minha cabeça quando li o "2º Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da covid-19 no Brasil, relatório produzido pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional, mostrando que, em um ano, o número de pessoas sem ter o que comer no Brasil saltou de 19 para 33 milhões.

A pesquisa também mostra que 58.7% dos brasileiros convivem com algum tipo de insegurança alimentar. Esses números não eram registrados no Brasil desde o início da década de 1990. Com isso, o Brasil voltou ao Mapa da Fome da ONU, de onde tinha saído em 2014.

Os dados sobre o aumento da fome no Brasil foram divulgados poucos dias após levantamento do portal Uol mostrando que o atual governo praticamente zerou o orçamento do principal programa de aquisição de alimentos da agricultura familiar, o "Alimenta Brasil".

Em 2012, o programa teve orçamento de R$ 586 milhões, caindo para r$ 58.9 milhões em 2021 e para R$ 89 mil até maio deste ano.

O descaso do governo Bolsonaro com os mais pobres é notório. Em 2020, quando teve início a pandemia do covid-19, o ministro da Economia, Paulo Guedes, queria dar um auxílio de apenas R$ 200, divididos em três parcelas. O Congresso aumentou o valor para R$ 500 e, para não ficar por baixo, Bolsonaro colocou mais R$ 100 na conta.

Auxílio Emergencial teve um papel importante para aliviar o sofrimento dos brasileiros mas, com seu fim, a situação voltou a se agravar, ainda de forma mais acentuada, o que é comprovado não só pelos dados do relatório, mas também ao encontrarmos no dia a dia uma quantidade cada vez maior de pessoas pedindo ajuda.

Dizendo-se temente a Deus, Bolsonaro angariou o apoio de vários evangélicos. No entanto, tanto o presidente quanto seus eleitores cristãos parecem não conhecer a Bíblia que tanto afirmam defender.

Em Mateus 14:13-21, Jesus, o verdadeiro Messias, alimenta cinco mil pessoas com cinco pães e dois peixes. Bolsonaro, ao contrário, multiplica o número dos famintos no Brasil. 

(*) Jornalista. Repórter do Núcleo de Opinião do jornal O POVO.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 11/6/22. Opinião, p.16.

quarta-feira, 16 de junho de 2021

A GEOGRAFIA DA FOME, O QUE MUDOU 60 ANOS DEPOIS?

Por Cláudia Leitão (*)

“Os países ricos conhecem a poluição direta, física, material, a do ambiente natural. Os países subdesenvolvidos são presas da fome, da miséria, das doenças de massa, do analfabetismo. O homem do Terceiro Mundo conhece essa forma de poluição chamada 'subdesenvolvimento'".

A reflexão, lamentavelmente tão atual, é de Josué de Castro, um pernambucano cidadão do mundo, indicado três vezes ao Prêmio Nobel, deputado, professor, embaixador e presidente da FAO (Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação).

Castro era um humanista. Sua visão ética e abstrata de justiça não se descolava das suas atitudes. Atravessou a vida enfrentando poderosos para transformar a realidade das populações famintas do planeta.

A publicação, em 1946, do magistral "Geografia da Fome" inaugura uma extensa produção intelectual que denuncia a conspiração silenciosa em torno da insegurança alimentar no Brasil e no mundo, só explicável, segundo ele, por interesses e preconceitos de ordem moral, política e econômica.

Afinal, as tecnologias, presentes desde a primeira metade do século XX, já seriam capazes de produzir alimentos para todo o planeta.

Para Castro, o subdesenvolvimento não passava de uma dimensão do próprio modelo de desenvolvimento capitalista.

Não será por acaso que terá seus direitos políticos caçados pelo golpe militar de 1964 (golpe sim!) e morrerá no exílio, em Paris, sempre afetado pelos problemas sociais brasileiros.

Segundo a Pesquisa de Orçamentos Familiares, 2017-2018, divulgada pelo IBGE, a insegurança alimentar grave esteve presente entre 10,3 milhões de brasileiros, trazendo o Brasil de volta ao mapa mundial da fome. Com o advento da covid-19, em 2021 são mais 116 milhões de pessoas que sofrem algum tipo de privação alimentar.

Se Josué de Castro fosse vivo, continuaria contribuindo sobre a fome, a biodiversidade, a poluição, o desenvolvimento sustentável, a concentração de renda, entre outros temas urgentes sobre os quais o Brasil vem silenciando. Que falta faz Josué de Castro e seu compromisso com a dignidade humana! 

(*) Professora da Uece. Diretora do Observatório de Governança Municipal do Iplanfor.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 19/4/21. Opinião, p.22.

quarta-feira, 2 de setembro de 2020

VITAMINA D

Por Weiber Xavier (*)

Embora chamada de vitamina, na realidade trata-se de um pré-hormônio que juntamente com o paratormônio atuam como reguladores do metabolismo ósseo e do cálcio. A vitamina D pode ser obtida a partir de alimentos como peixes (salmão, cavala), suplementos ou através da pele durante a exposição ao sol (15 a 30 min) que é a principal fonte. A função da vitamina D é, principalmente, ajudar a absorção de cálcio e fósforo no intestino delgado. A vitamina D, juntamente com a ingestão do cálcio, têm importante ação para a prevenção da perda óssea e a formação de esqueletos fortes. A deficiência de vitamina D pode levar ao raquitismo em crianças e fadiga, dor óssea, fraqueza muscular e osteomalácia em adultos.

Não há recomendação da medição da vitamina D para a população em geral, mas em algumas situações clínicas como em portadores de osteoporose, obesos, idosos, história de quedas ou fraturas, cirurgia bariátrica e síndrome de má absorção. Situações de limitação da exposição solar como a que vivenciamos durante o enclausuramento nesta pandemia e fotoproteção podem potencialmente causar deficiência de vitamina D. Não há também evidência de suplementação generalizada de vitamina D para a população e sim naqueles indivíduos com risco para deficiência.

A prática de exercícios ao ar livre e residir em uma cidade litorânea e ensolarada como Fortaleza parecem favorecer níveis elevados de vitamina D, mas é prudente estar atento ao risco de câncer de pele devido à radiação solar. Embora exista grande interesse e pesquisa de efeitos extraesqueléticos da vitamina D como no tratamento do diabetes, câncer, doenças cardiovasculares, função cognitiva e inclusive na Covid não é possível comprovar uma relação causa-efeito.

Alguns estudos sugerem que a vitamina D pode aprimorar a resposta imune, mas não existem evidências robustas que a suplementação de vitamina D ajude a prevenir ou tratar a infeção pela Covid-19. Há uma pandemia não somente de Covid-19, mas de triagem excessiva para deficiência de vitamina D e tratamento desnecessário em indivíduos que estão perfeitamente sadios. 

(*) Médico e professor de Medicina da UniChristus.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 21/7/2020. Opinião. p.14.

quinta-feira, 9 de abril de 2020

TECNOLOGIA FRUGAL CONTRA A POBREZA


Por Pedro Sisnando Leite (*)
A Ciência e a tecnologia foram determinantes historicamente no desenvolvimento econômico mundial. Nos anos recentes, com o surgimento da quarta revolução industrial (4.0) quando as máquinas computadorizadas e robôs estão substituindo o trabalho intelectual e os níveis de desemprego permanecem tão altos, há considerável mal-estar nos meios acadêmicos em como equacionar esse dilema. Isso, naturalmente, com a simultânea superação da pobreza e da desigualdade existente nos países emergentes e mesmo desenvolvidos.
Com base em estudos e experiências práticas ao redor do mundo, inclusive no Ceará, tem crescido a esperança de que se possa atacar a pobreza e o desemprego com a utilização de novas tecnologias mais simplificadas e pouco onerosas a serem adotadas pelas próprias populações pobres. É uma estratégia direcionada para a base da pirâmide, com inovações denominadas de frugal. Este enfoque se caracteriza pela economia de uso de recursos, limitações institucionais, com produtos mais baratos e acessíveis aos mais pobres.
Sobre o assunto, a Academia Brasileira de Ciências realizou uma Conferência Internacional "Como Ciência e Tecnologia podem contribuir para a redução da desigualdade e da pobreza", realizada no Rio de Janeiro em 2018. O propósito desse encontro foi reunir renomados especialistas internacionais para discutirem como a comunidade científica pode se mobilizar em prol da implementação dos objetivos do Desenvolvimento Sustentável 2030 das Nações Unidas contra a pobreza e as desigualdades. Discussões sobre inovação frugal e sua relação com a melhoria das condições de vida da comunidade estão sendo realizadas na Universidade Federal de Santa Catarina, por sinal, o estado com menor índice de pobreza do Brasil.
Nos últimos cinco anos, o Centro de Inovação Frugal na África (CFIA) estabeleceu-se como o principal centro de excelência no tema emergente da inovação frugal em Nairóbi (Quênia). Para o período de 2019 a 2024, a CFIA pretende fortalecer ainda mais sua posição para se tornar o centro global da pesquisa sobre inovação frugal com vistas à criação de emprego e superação da pobreza mundial.
As universidades públicas do Nordeste poderiam dedicar maior atenção as pesquisas acadêmicas no campo das inovações frugais na busca de soluções mais sustentáveis e includentes em saúde, energia, água, agro-alimentos em comunidades de baixa renda. 
(*) Professor titular de economia do Caen/UFC. Sócio do Instituto do Ceará e membro da Academia Cearense de Ciências
Fonte: Publicado In: O Povo, Opinião, de 5/3/20. p.17.

terça-feira, 28 de janeiro de 2020

FINAL DE ANO, FESTAS E SUA SAÚDE


Por Weiber Xavier (*)
Férias chegando e as celebrações de fim de ano podem sobrecarregar as artérias e aumentar a cintura abdominal. São tantas as tentações e guloseimas que podem levar a um aumento no peso difícil de perder ao longo do ano.
A ideia é não se privar e não comer apenas alimentos entediantes, mas algumas dicas para ficar em forma e saudável durante esta temporada: alimentar-se regularmente, frequentemente, de forma consciente e balanceada. Não é prudente ir a uma festa com fome e esperar intervenção divina para ajudar a mantê-lo no controle.
Procure fazer refeições bem equilibradas e um lanche saudável antes de ir a uma festa. Uma refeição saudável e equilibrada deve consistir em uma proteína magra, uma pequena porção de gordura saudável e carboidratos ricos em fibras. Procure receitas que usem menos manteiga, creme, banha de porco, gordura vegetal e outros ingredientes ricos em gorduras saturadas. Peru ou peixe em vez de carne vermelha é uma opção saudável.
Mantenha-se hidratado. Se for ingerir álcool, procure tomar um copo de água entre as bebidas. Evite álcool com o estômago vazio. O álcool aumenta o apetite e diminui a capacidade de controlar o que você come.
Evite comer tarde da noite. Também é importante evitar comer aproximadamente duas horas antes de dormir. O metabolismo diminui quando se está dormindo.
Em um buffet, vistorie a mesa de comida antes de colocar qualquer coisa no seu prato. Após verificar todas as opções, você pode estar menos inclinado a acumular itens um após o outro.
O exercício é energizante, por isso, faz sentido fazê-lo mais cedo do que mais tarde no dia. Começar o exercício cedo é especialmente importante durante as férias, quando festas e atividades dificultam o acesso à academia depois do trabalho.
Não há pílula, nem receita mágica para permanecer no peso certo embora a comida seja parte integrante das férias, é importante prestar atenção ao que realmente importa, aproveitar a família, a alegria e a confraternização com os amigos.
Não há problema em comer ou comer demais de vez em quando, particularmente quando no dia a dia se tem equilíbrio e moderação.
(*) Médico e professor de Medicina da UniChristus.
Fonte: Publicado In: O Povo, de 9/12/2019. Opinião. p.22.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

CIENTISTAS GIGOLÔS E MÃES CANGURUS

Meraldo Zisman (*)
Médico-Psicoterapeuta
Até hoje não sei o porquê de querer comparar as vítimas da fome com animais em vias de extinção. Parece com os dermatologistas que quando encontram alguma doença de péssima aparência costumam batizá-la como framboesa, limão, laranja, frutas saborosas ou belas. Hemorroidas, também quando se exteriorizam, recebem o nome de couve-flor e até os proctologistas entram nessa taxinomia macabra. E assim vai.
Perguntaram certa feita ao escritor Ernest Hemingway sobre a sua perspectiva para o ano seguinte. Ele respondeu: “Como vou saber do que vai acontecer daqui a um ano se não posso dizer o que vai acontecer no próximo segundo?” Não me perguntem a causa dessas comparações dos leigos, cientistas, clérigos e militares. Como Hemingway, direi: Não sei.
Não conformado com os bichos, me volto para os Pigmeus, negrinhos pequenos da África que não crescem por problemas ou caracteres genéticos. Comparei-os ao nordestino que não cresce por falta de comida. Até escrevi um livro, de relativo sucesso editorial. Tive a petulância, ou inocência, de apelidar o livro de “Nordeste Pigmeu”. Soube depois que os Pigmeus já estão se acabando porque não cresceram. Contam-se aos mil, enquanto a raça de nanicos nordestina aumenta cada vez mais.
Depois, veio o homem gabiru. Imaginem comparar um filho de Deus, com alma e tudo, aos nojentos ratões somente por estarem com fome, por não terem o que comer. Agora, surge essa história pré-histórica de mãe canguru. O canguru é um mamífero retrógrado e atrasado na escala zoológica e que aborta os canguruzinhos antes do tempo. Arrependidos, e para compensar a maldade, guardam os filhotes numa enorme bolsa de pele agarrada à própria barriga. Dentro dessa bolsa cheia de mamilos, as mães cangurus guardam os filhotes precocemente expulsos do útero para que não morram de fome e frio.
Mães que assim procedem devem ser castigadas. Acho que Deus já está procurando solucionar o problema com a extinção dessas mães desalmadas, que doutores cientistas que pensam tudo saber chamam de marsupiais. É bom lembrar que os cangurus não passam de ratos gigantes que andam aos pulos. São os gabirus da Austrália.
Vamos a outro fato: o nosso mais antigo jornal em circulação na América Latina noticiou outro dia a realização de um Encontro Nacional de Assistência à Mãe Canguru. O evento pretende analisar o modelo de assistência ao recém-nascido. Fiquei meio confuso ao ler tal anúncio e gostaria de saber se é bebé de gente ou de canguru. Se for de canguru, tudo bem, estarei lá, pois devo, como homem do terceiro milênio, a obrigação de ser um engajado em todos os movimentos de preservação da natureza.
Outra coisa mais insólita são também os programas de aproveitamento de restos alimentícios – casca de fruta, bagaço de cana e outros lixos. Sei que o lixo da Avenida Boa Viagem, dos prédios que dão para Navegantes, é disputadíssimo pelos cata-lixo ou homens e mulheres gabirus. Não quero chamá-los de urubus na carniça. Pra azar meu, isso poderia virar samba e até frevo-canção. Espero que não adotem esse nome, pois tenho uma sorte danada para apelidar essas desgraças. Como se o pobre que passa fome – adultos, velhos e crianças – fossem uns porcos, para comer resto de comida ou mais sutilmente denominado de Lixivia. Ou restos de sobras que não sobram.
Assim já é demais. Espero que não apelidem, estes doutores da fome, de rato branco, pois são, esses médicos que fazem ciência com a fome dos outros que assim deveriam ser denominados por castigo. Acho que estão criando um novo jogo de bicho, mas espero que um dia descubram que não se faz ciência com a miséria alheia. São muito folclóricos esses “brasilianistas brasileiros”.
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Nota 1: Este artigo foi publicado no ano de 1999.
Nota 2: Ao folhearmos jornais antigos já não nos interessamos pelas notícias, pois são velhas e datadas. Já as crônicas da época, sem a contaminação do factual, acabam por se mostrar mais duradouras, e podem ser lidas, com interesse, décadas depois. “É curioso que sendo ‘soft news’ ou ‘no news’, a crônica tenha mais sobrevivência que o ‘hard news’”. (Ruy Castro)
(*) Professor Titular da Pediatria da Universidade de Pernambuco. Psicoterapeuta. Membro da Sobrames/PE, da União Brasileira de Escritores (UBE) e da Academia Brasileira de Escritores Médicos (ABRAMES). Consultante Honorário da Universidade de Oxford (Grã-Bretanha). Foi um dos primeiros neonatologistas brasileiros.

 

segunda-feira, 22 de maio de 2017

O MOLHO DE MAIONESE


Meraldo Zisman (*)
Médico-Psicoterapeuta
O gênero humano jamais poderia imaginar que os e-mails viriam abrandar a solidão dos anciãos. Mas, vamos aos fatos. Dia desses, resolvi abrir todas as mensagens que me enviaram. Ao todo, foram 167! Levei quase um dia completo para abri-las, e, findei, lacrimejando os olhos e com dores nas costas. Fora aqueles, apaguei, também, os e-mails suspeitos de conter vírus.
Dentre os e-mails, havia um, de um conhecido meu, contando como foi inventada a maionese. Vinha em anexo: Uma das primeiras vitórias francesas durante a Guerra dos Sete Anos (1756-1763), contra os ingleses. A mensagem expunha a conquista da ilha de Menorca, nas Baleares, até então dominada pelos britânicos, que, em 1708, a haviam tomado dos espanhóis. No dia 17 de abril de 1756, as sentinelas inglesas de Menorca avistaram, no horizonte, 197 velas. Elas representavam a frota francesa, comandada pelo Almirante La Galissonière, e, em cujo navio (chamado Foudroyant) se encontrava o Duque de Richelieu - Louis François Armand Vignerot du Plessis (1696-1788) – o comandante das forças de desembarque.
Conquistada a ilha, o Duque visitou Puerto Mahón, capital de Menorca. Foi lá onde conheceu um molho feito com azeite de oliva e gema de ovo, que os nativos usavam para temperar peixes. O nobre gostou tanto dele que levou a receita para seu país. Chamou o molho de sauce mahonnaise ou molho de Mahón. Logo, ele ficou conhecido como salsa mayonesa, em países de língua espanhola, e passou, para a língua portuguesa, como “molho de maionese”.
Já uma outra versão ressalta que a maionese foi inventada, em 1756, pelo cozinheiro chefe do Duque de Richelieu. Após derrotar os ingleses em uma batalha, na cidade portuária de Mahon, foi organizado um banquete onde seriam preparadas receitas à base de ovos e leite. Quando o cozinheiro percebeu que não havia mais leite, decidiu substituir o ingrediente por azeite, misturado com ovos, o que resultou em um novo molho. E em homenagem à vitória daquele Duque, o molho foi denominado mahonneise.
Ao acabar de ler o e-mail, respondi ao meu conhecido que ele estava enganado, e que a história da maionese era outra, relacionada à retirada, da Rússia, do exército de Napoleão. O imperador tinha achado estranho um soldado, de sua guarda pessoal, não reclamar da ração diária recebida. Isto porque, de vez em quando, recebia um ovo cru e, ao invés de aborrecido, ficava muito feliz. Intrigado com o soldado, Napoleão procurou saber o motivo daquela alegria. Ao que o soldado respondeu: “Sir, eu bato o ovo cru com azeite e um pouco de farinha de trigo, e fica uma delícia”. Dessa forma foi inventada maionese. Dizem ainda que, chegando a Paris, aquele soldado abriu um bistrô onde a maionese se tornou o carro-chefe. Ele patenteou a descoberta e as fábricas de maioneses, até hoje, pagam royalties aos seus herdeiros.
(*) Professor Titular da Pediatria da Universidade de Pernambuco. Psicoterapeuta. Membro da Sobrames/PE, da União Brasileira de Escritores (UBE) e da Academia Brasileira de Escritores Médicos (ABRAMES). Consultante Honorário da Universidade de Oxford (Grã-Bretanha).

terça-feira, 25 de abril de 2017

SABER COMER


Pedro Henrique Saraiva Leão (*)
Os americanos dizem, e minha mãe repetia: “an apple a day keeps the doctor away”: uma maçã por dia mantém o médico a distância. No artigo anterior, abordamos alguns aspectos da ciência da alimentação, complexo ramo da biomedicina já com foros de cátedra. Impôs-nos, contudo, nosso espaço a restrição de itens relevantes comentados abaixo. Tratados antigos valorizam sobremaneira os “frutos da terra”, entre eles hortaliças e verduras: alface, espinafre, couve, salsa, couve-flor, brócolis, aspargo, palmito, repolho, agrião; item favas, ervilhas, grãos, lentilhas, feijões, arroz. Seu consumo é exaltado por vegetarianos, herbívoros, veganos, ou fitófagos (do grego “phyton” = planta). Cientificamente sobra-lhes razão.
Na Faculdade de Medicina da UFC, nossos alunos estranhavam quando aconselhávamos “comer mato”, i. e., vegetais (25g/dia), pelo seu alto teor em fibras. Estas são imprescindíveis à saúde, segundo constatado por Burkitt, ao estudar africanos primitivos. Aliados a carnes brancas (peixes, aves), constituem a chamada “dieta mediterrânea” (ou “pitagórica”!), há muito praticada. Achados paleontológicos (do homem pré-histórico: do grego “palaiós”= antigo) encontraram restos de 55 tipos de plantas comestíveis, em Israel, 780 mil atrás (“Folha de S. Paulo”, 21/1/2017). A falta delas predispõe ao câncer colo-retal, à diverticulite, ao AVC (fineza ler nosso artigo aqui, de 14/XII/1991).
As vitaminas quedaram ignoradas até 1912, quando o químico polonês Casimir Funk, estudando o farelo do arroz, detectou um nutriente não mineral, ao qual denominou “tiamina”, inaugurando o conceito de “vitaminas”, esta sendo a primeira (B1). Sabe-se serem as mesmas componentes normais dos alimentos, até encontradas ali em quantidades adequadas. Não obstante, em 2002, o respeitável “Journal of the American Medical Association” afirmou que a alimentação apenas não consegue prover a maioria das vitaminas nas concentrações recomendadas. Entre as ditas “essenciais”, situam-se a vitamina C (1932) (2g/dia), os 12 tipos do reconhecido Complexo B, além das referidas como A, D, E. Consumidas – hoje obsessivamente – com determinados minerais rotulados nutritivos (cálcio, magnésio, potássio, Zn, iodo, sódio, ferro, selênio) agem como suplementos dietéticos.
Destarte forneceriam nutrição sem comida e bem-estar sem remédio. Tais produtos, também em tabletes ou barras energéticas, foram batizados em 1989 como “nutricêuticos” pelo dr. Stephen De Felice. Atualmente (dados de 2011) os americanos gastam U$ 28 bilhões/ano em vitaminas, juntamente com ômega-3 (dos peixes), pro-bióticos (bactérias salutares) e antioxidantes, principalmente para glória da indústria farmacêutica. Curiosamente, em 1956, nosso patrício A. da Silva Melo assegurava já estar perto o dia quando o culto exagerado de vitaminas se transformaria na “mais ridícula e grosseira das pantomimas”. Há algum tempo lemos que um certo sr. John Cloud (nos EUA), após exames rotineiros de sangue, submeteu-se a um regime nutricêutico. Por cinco meses, ingeriu 3.000 desses produtos mistos (22 pílulas/dia).
Os resultados registrados foram irrelevantes, tendo ocorrido apenas aumento da vitamina D, e do HDL, o colesterol “bom”. Curiosamente, a profecia do cientista brasileiro acima mencionada ratificaria a conclusão a que chegara, em 1940, o dr. Ernst Boas, famoso cardiologista da Universidade de Columbia: o negócio das vitaminas é “a mais execrável fraude já perpetrada contra o povo” (“The damnedest racket ever perpetrated upon the people”). E agora, José? É óbvio concluir que o mais importante é se alimentar corretamente, sabendo o que comer.
(*) Professor Emérito da UFC. Titular das Academias Cearense de Letras, de Medicina e de Médicos Escritores.
Fonte: O Povo, 22/03/2017. Opinião, p.14.
 

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