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domingo, 12 de julho de 2026

Iprede completa 40 anos transformando a infância no Ceará II

 

Iprede completa 40 anos transformando a infância no Ceará II

Por Ana Rute Ramires, jornalista de O Povo

OP - Desde o início, vocês se preocuparam em cuidar não apenas das crianças, mas o contexto de cuidado de familiar...

Sulivan - Exatamente. Aí quando a gente passou a gerar esse vínculo, a gente viu que do outro lado passamos não é só uma mãe que é cuidadora, mas que essa cuidadora é uma mulher. O Iprede não enxergava a mulher, ele enxergava a mãe. O Iprede tem essa dívida imensa com a mulher. Foi quando nós passamos a criar, além da trajetória da criança, a trajetória feminina.

OP - Vocês mudaram esse olhar, como é hoje?

Sulivan - Esse olhar é fantástico, porque a gente passa a recuperar, não é só o peso da criança, a gente passa a recuperar um ser humano. A gente passa a garantir para aquela criança um futuro de qualidade e a gente passa a olhar para aquela mulher que chega ali, regra geral, a mulher que passa por maior privação de vida, que é não ter escolhas. Ela não tem escolha de absolutamente nada. Essa mulher, geralmente, recebe violência corporal do seu parceiro. Essa mulher não tem uma formação profissionalizada. Essa mulher vive de bico. Essa mulher não recebe elogios. Mas é essa figura mais sofrida da sociedade que supera, que dá volta por cima, que cresce, que sai da miséria, depois de gerar vínculo, levando seus filhos. É fantástico. Ela passa a ser provedora da sua família. Ela passa a dizer não para violência domiciliar e passa a ter uma outra estruturação organizada, saudável, garantindo qualidade de vida futura para os seus filhos.

OP - Quais projetos vocês desenvolvem com esse foco na mulher, na independência?

Sulivan - Apoio da forma mais ampla possível, a começar pela saúde. Nós temos a ginecologia que assiste a mulher em todos os seus sentidos, na prevenção, no tratamento da doença ginecológica, na implantação de DIU, retirada de DIU e biópsia, se for o caso fazer. Nós temos rodas de conversa com psicólogos, profissionais da área de saúde mental que assegura essa mulher uma escuta. E essa escuta direciona pro atendimento das suas necessidades e pro seu crescimento pessoal. Nós temos também para a mulher a formação profissionalizante. Hoje nós temos geralmente no Iprede mais de 30 tipos de curso que vai atender a mulher. Aquela que não pode sair de casa pro trabalho, exerce sua atividade profissional dentro da sua própria casa, seja ela na culinária, no corte de costura, na gastronomia ou na estética.

Além do impacto direto nas famílias assistidas, o centro, que completa quatro décadas no próximo dia 16, consolidou-se como um importante polo de pesquisa e intercâmbio acadêmico internacional. Ao O POVO, o médico pediatra Sulivan Mota, professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará (UFC) e presidente do Iprede, descreve metodologias inovadoras de baixo custo desenvolvidas no instituto, que utilizam a arte, cultura e esporte para promover a inclusão.

Fonte: O Povo, 7/06/26. Aguanambi 282. p.12.


Iprede completa 40 anos transformando a infância no Ceará I

 Iprede completa 40 anos transformando a infância no Ceará I

Por Ana Rute Ramires, jornalista de O Povo

Sulivan Mota, médico pediatra e presidente do Instituto da Primeira Infância (Iprede) em Fortaleza, fala sobre as mudanças nas demandas da entidade

O Instituto da Primeira Infância (Iprede) foi criado 1986 para combater a desnutrição grave. Ao longo de 40 anos, a instituição vem transformando a infância de milhares de crianças e famílias. Atualmente, a organização destaca-se também no suporte a crianças com transtorno do espectro autista (TEA) e no empoderamento de mulheres em situação de vulnerabilidade, oferecendo desde cuidados médicos até formação profissional.

Além do impacto direto nas famílias assistidas, o centro, que completa quatro décadas no próximo dia 16, consolidou-se como um importante polo de pesquisa e intercâmbio acadêmico internacional. Ao O POVO, o médico pediatra Sulivan Mota, professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará (UFC) e presidente do Iprede, descreve metodologias inovadoras de baixo custo desenvolvidas no instituto, que utilizam a arte, cultura e esporte para promover a inclusão.

O POVO - No início, o foco do atendimento era a desnutrição. Após 40 anos, isso mudou. Qual o foco do atendimento hoje em dia?

Sulivan Mota - A grande diferença vem através das demandas. Na época que o Iprede foi fundado, na década de 80 — precisamente em junho de 86 — a demanda era desnutrição. Nós tínhamos que combater a desnutrição. Nós tínhamos um pouquinho mais de um terço de nossa infância toda desnutrida. E não era a desnutrição do primeiro e segundo grau. A grande maioria era do terceiro grau. Era aquela sensação de quando se entrava dentro do Iprede que nós estávamos chegando na África. Porque eram crianças realmente em estágios que nos diziam: "Isso não pode existir". Tinha aquelas crianças que só tinha realmente, como a expressão popular diz, o couro e os ossos, né? Eu me liguei ao Iprede por ser professor de pediatria, por dar aula sobre desnutrição e eu levava os alunos lá. Eu não sou fundador do Iprede. O Iprede foi fundado de uma forma muito mais linda do que fosse por mim. Ele foi fundado por sete mulheres dentro do Hospital Infantil Albert Sabin (HIAS). Essas mulheres todas, algumas Ana, algumas Maria, algumas Ana Maria, realmente chamando a memória da presença da mãe e da avó de Jesus, né, Ana e Maria. E fundada a casa, eu passei a frequentar. Frequentei durante 20 anos como professor, levando aluno, como voluntário depois. E, depois, há 20 anos, nós assumimos a direção. Quando nós assumimos, era aquele conceito dentro do mundo que o ser humano ele se formata nos primeiros seis anos de vida, que é a chamada primeira infância, ou até mesmo dentro da primeira metade, que é a primeiríssima infância, três anos. E o Iprede passou a reconhecer que mesmo a criança que chegava lá em vulnerabilidade social extrema era uma criança até 6 anos, era a primeira infância. Então, não havia mais aquela urgência extrema da desnutrição, mas havia uma urgência de se investir no ser humano em termos de formação, em termos de capital humano. E esse capital humano, ele é formado principalmente através dos afetos. O afeto leva ao brincar, leva ao cuidar e isso estava ausente nessa criança que chegava ao Iprede. Essa criança só tinha algo em comum, que era a falta de vínculo entre ela e sua mãe. E o Iprede então passou a buscar no mundo algum método e encontramos uma metodologia muito rica que é chamada MISC, que trabalha formando e fortalecendo o vínculo mãe e filho. É uma metodologia antiga, mas que tem um resultado maravilhoso. Uma metodologia que foi usada após Segunda Guerra Mundial e nós aplicamos ainda hoje no Iprede entre mãe e filhos que vêm oriundos da miséria. A miséria é uma desorganização social absoluta, desorganização social, profissional, familiar. Você ter uma mãe que não tem vínculo com seu filho, você vê o nível de desorganização. Essa criança que crescer, no sentido de não ter um porto seguro, não ter uma mediação, porque você só é mediado se você tiver alguém que você tem vínculo. Nessa mediação é que se estimula uma criança pelo brincar, pelo afeto, pelo afago, pelo contato que nós temos. A mãe que não tem vínculo com a criança, ela nem sequer toca o olho no olho da criança.

Fonte: O Povo, 7/06/26. Aguanambi 282. p.12.

quinta-feira, 12 de outubro de 2023

NORDESTE PIGMEU – Uma geração ameaçada

Meraldo Zisman (*)

Médico-Psicoterapeuta

Ficha Técnica

Autor: Meraldo Zisman
Gênero: Saúde / Políticas Públicas
Lançamento: agosto 2022
Páginas: 286
ISBN: 978-65-87012-35-3 (e-book) ISBN: 978-65-87012-36-0 (papel)

Resumo:

Nordeste Pigmeu é um marco da literatura científica do Brasil. Publicado originalmente em 1987, o livro de Meraldo Zisman é referência internacional nos estudos relacionados à fome e nutrição. Depois de 35 anos fora de circulação, esta segunda edição (2022) chega ao mercado editorial trazendo todo o conteúdo original digitalizado, incluindo os brilhantes desenhos de William George Thomson-Jack. Além de uma nova diagramação, esta nova edição também está disponível em formato digital (e-book), no acervo da Amazon Brasil, sendo de grande serventia a estudantes, médicos e pesquisadores do mundo inteiro.

A pesquisa de Meraldo Zisman, apresentada em 1985 na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), expõe os efeitos dramáticos provocados pela fome e a subalimentação na Região Nordeste. A partir de um universo de 30 mil crianças, pesquisadas em duas maternidades do Recife, o autor tenta determinar, do ponto de vista científico, até que ponto o peso ao nascimento estaria condicionado ao estado nutricional e à saúde materna. Previstas desde os anos 1960 como ‘possibilidades para o futuro’, a fome e o nanismo nutricional nas grandes cidades ultrapassaram rapidamente os limites da zona rural. Logo se tornaram uma variável constante nos centros urbanos durante as décadas a seguir.

(*) Professor Titular da Pediatria da Universidade de Pernambuco. Psicoterapeuta. Membro da Sobrames/PE, da União Brasileira de Escritores (UBE), da Academia Brasileira de Escritores Médicos (ABRAMES) e da Academia Recifense de Letras. Consultante Honorário da Universidade de Oxford (Grã-Bretanha).

quinta-feira, 18 de maio de 2023

INSEGURANÇA ALIMENTAR E GESTAÇÃO

Meraldo Zisman (*)

Médico-Psicoterapeuta

Ponderações:

1 Comparada à média simples de 120 países, no Brasil a insegurança alimentar subiu 4,48 pontos percentuais. Um estudo observou crescente e marcada assimetria de insegurança alimentar entre homens e mulheres no Brasil. De 2019 a 2021, houve queda de 1 ponto percentual para homens (caiu de 27% para 26%) e aumento de 14 pontos percentuais entre as mulheres (subiu de 33% para 47%).

2 Como resultado, a diferença entre os sexos na insegurança alimentar em 2021 é 6 vezes maior no Brasil do que na média global. As mulheres, principalmente aquelas entre 30 e 49 anos, que tendem a estar mais próximas das crianças, acabam repassando a fome aos filhos. A subnutrição infantil deixa marcas permanentes, físicas e mentais, para toda vida.

3 Quando realizo qualquer trabalho ligado à insegurança alimentar, nova designação para a velha fome, e suas consequências sobre a infância das meninas (para não usar o antigo nome de classe social), e desconhecendo melhor critério de avaliação, levo em conta que a fome ancestral tem forte ligação com a profissão do avô materno. Se o avô teve condições de encaminhar o filho a uma situação econômica estável, o pai tem possibilidade de produzir um ambiente acolhedor: alimentação, moradia, saneamento básico, instrução; é isso que vai definir a qualidade da gestação de suas filhas, quando engravidam.

4 O número dos problemas sofridos pelas meninas, suas condições de saúde coletiva é o que irá determinar a higidez da gravidez. O cuidado que as meninas recebem desde criança garante aos seus conceptos uma melhor sobrevida.

5 Os nove meses que o feto passa no útero materno são mais importantes do que as décadas de anos que vivem fora dele.

Assim se perpetuam as doenças da pobreza, criadas basicamente pelas características da Fome Congênita, que se faz presente desde o nascimento, mas não é necessariamente hereditário.

(*) Professor Titular da Pediatria da Universidade de Pernambuco. Psicoterapeuta. Membro da Sobrames/PE, da União Brasileira de Escritores (UBE), da Academia Brasileira de Escritores Médicos (ABRAMES) e da Academia Recifense de Letras. Consultante Honorário da Universidade de Oxford (Grã-Bretanha).

quinta-feira, 11 de maio de 2023

OBESIDADE, UMA DOENÇA ESTIGMATIZADA

Por Paulo Campelo (*)

Não é fácil conviver com a obesidade. Meu lugar de fala não é de quem tem obesidade, mas de quem trata essa doença crônica, complexa e que já atinge quase 20% da população brasileira e da capital cearense. Se contarmos que temos quase 60% dos brasileiros acima do peso, podemos vislumbrar o grave cenário que se aproxima.

No Brasil, a World Obesity Federation estima que até 2030 serão 29 milhões de mulheres, 21 milhões de homens e 7,7 milhões de crianças com obesidade - 30% da população. É um grave problema de saúde pública e fazemos esse alerta no entorno do Dia Mundial da Obesidade, 4 de março.

No meu consultório recebo pacientes para cirurgia bariátrica com obesidade e doenças associadas, as chamadas comorbidades, já instaladas e descompensadas que lutam não só contra o peso, mas contra a hipertensão, diabetes, gordura no fígado, dores nos joelhos e coluna, refluxo, depressão, ansiedade, limitações físicas, baixa estima.

Isso tudo piora com a estigmatização da "pessoa gorda" que não tem uma cadeira adequada para sentar, que não encontra o que vestir, que perde oportunidades de trabalho, que é ridicularizada na rua pela sua aparência, que é taxada de "fraca" ou "preguiçosa" por não conseguir perder peso. Isso está errado!

Obesidade é uma doença e na sua complexidade e multifatorialidade precisa ser tratada da mesma forma. A pessoa com obesidade deve ser acolhida e, muitas vezes, recebo relatos de discriminação do próprio profissional de saúde. Outro dia uma paciente me relatou que um profissional disse que ela "tinha que nascer de novo". Isso é inadmissível.

De outro lado, temos ainda outro contexto ainda mais preocupante no Brasil, o dos invisíveis, os que dificilmente terão acesso a tratamentos para a obesidade mórbida, como a cirurgia bariátrica. São pessoas que se alimentam do que é possível, comidas de baixo custo, ultraprocessadas, com alto teor de gorduras e carboidratos, bebidas açucaradas, não comem frutas nem verduras e legumes e pouquíssimas carnes. Alguns países já repensaram formas de cuidar da alimentação de sua população na forma na lei. E nós precisamos fazer isso também para barrar a epidemia de obesidade. 

(*) Médico. Cirurgião bariátrico.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 7/04/2023. Opinião. p.18.

quinta-feira, 4 de maio de 2023

FOME E AQUECIMENTO GLOBAL

Meraldo Zisman (*)

Médico-Psicoterapeuta

… Nossa hipótese é que o investimento na educação primária e secundária em todo o mundo é a estratégia mais eficaz para nos prepararmos para enfrentar os perigos ainda incertos, associados ao clima futuro.

Tá difícil. O aquecimento global é outra campanha de terror que não tem fundamentos e que se espraiou de maneira pandêmica. O planeta se aquece e se esfria a seu bel-prazer, com nossa participação ou não. E, apesar das muitas explicações, calmarias não acontecem.  Leia o que dizem determinadas pesquisas na moda, perigosíssimas nesta era cibernética em que, diante da fome crônica que assola o mundo desde que existimos, são usadas certas palavras, designações, acusações não explicadas corretamente e aumentando o medo e a ansiedades de todos.

Existem diferentes categorias de poluição, como a atmosférica, a hídrica, a dos solos, a sonora e a visual. Qualquer delas pode ser bastante nociva para os seres vivos, incluindo o ser humano, que tem potencial para desenvolver problemas de saúde, criados também pelo idiotismo desequilibrado que acusa a mente humana de ser responsável pela destruição da ecologia. Sem dúvida, sob certos aspectos, estamos agravando a poluição causada pelo avanço técnico-cientifico. Juntar o aquecimento global à educação me parece um tanto esdrúxulo.

A variação da temperatura do planeta, que torna o clima imprevisível, trouxe uma infinidade de problemas, desde enchentes e deslizamentos de terra, aumento de precipitações pluviométricas, novas doenças pandêmicas das mais variadas espécimes, como malária e dengue. A recente pandemia da covid-19 piorou as coisas, fechando salas de aula para 1,6 bilhão de crianças em todo o mundo.

Antes da pandemia, 53% das crianças de dez anos em países de baixa e média renda não sabiam ler um texto simples. Esse número pode ter subido para 70%, estima o Banco Mundial. Considerando que as populações das regiões mais carentes tendem a ser conservadoras, muitas vezes elas se apegam obstinadamente aos métodos agrícolas que alimentaram seus antepassados. Tentar algo novo, para eles, pode ser fatal se não houver uma alternativa econômica ou uma rede de segurança.

Um agricultor de subsistência que arrisca uma nova técnica de plantio, e que esta falha, pode morrer de fome, ele e a sua família. A fome afeta as crianças e jovens em seu desenvolvimento, sendo que as variações biotípicas como o nanismo também afetam o cérebro. Essas crianças certamente terão um desempenho pior na escola.

Um estudo de Erich Striessnig, Wolfgang Lutz e Anthony Patt, do Instituto Internacional de Análise de Sistemas Aplicado de Luxemburgo trata da relação entre os efeitos na área educacional e a vulnerabilidade criada pelo risco climático. (Conferir em Ecologia e Sociedade http://dx.doi.org/10.5751/ES-05252-180116). Ali se sugere maneiras pelas quais a educação pode reduzir tais efeitos e garantir a sobrevivência. No contexto de efeitos específicos ainda incertos das mudanças climáticas em alguns locais, esse artigo examina se a educação aumenta significativamente a capacidade de enfrentamento em relação às mudanças climáticas e se melhora a resiliência das pessoas aos riscos climáticos, em geral.

Nossa hipótese é que o investimento na educação primária e secundária em todo o mundo é a estratégia mais eficaz para nos prepararmos para enfrentar os perigos ainda incertos, associados ao clima futuro.

A evidência empírica apresentada por uma série temporal de fatores associados a desastres naturais acontecidos a partir de 1980 em 125 países confirma a importância primordial da instrução na redução dos impactos causados pelas variações climáticas. O estudo apresenta também novas projeções de populações por idade, sexo e nível de escolaridade até 2050. Os pesquisadores descobriram ainda que, se a mãe foi educada, seu filho(a) tem muito menos probabilidade de ser atrofiado. De fato, crianças nascidas em famílias pobres, mas filhos de mães instruídas, enfrentaram aproximadamente o mesmo risco de atraso no crescimento devido a enchentes que as crianças nascidas em famílias ricas, mas filhos de mães sem instrução.

A realização educacional mais básica — a alfabetização — mostrou como ela pode ajudar as pessoas a se adaptarem às mudanças climáticas, criando a base para aprender novas habilidades. A educação, sobretudo, dá às pessoas a confiança para se libertar das tradições, a curiosidade para buscar nova informação e a habilidade cognitiva para processá-la e agir sobre ela.

Existem várias razões prováveis para isso. Mães com mais escolaridade normalmente entendem mais sobre nutrição; são mais escrupulosas em relação à higiene e mais inclinadas a buscar a medicina convencional e a avaliar riscos antes ignorados, respondendo de maneira mais avisada às imprevisíveis mudanças climáticas sem diminuir a importância da educação, que passa de uma geração para outra.

A pior fome é a fome ancestral a qual defino como a que passa de uma geração para as seguintes. Pouco tem a ver com as mudanças climáticas. Devemos ter cuidado e buscar confirmar as bases das notícias falsamente cientificas. O cientismo ainda é uma arma perigosa e assustadora.

(*) Professor Titular da Pediatria da Universidade de Pernambuco. Psicoterapeuta. Membro da Sobrames/PE, da União Brasileira de Escritores (UBE), da Academia Brasileira de Escritores Médicos (ABRAMES) e da Academia Recifense de Letras. Consultante Honorário da Universidade de Oxford (Grã-Bretanha).

domingo, 11 de dezembro de 2022

MISSA DA RESSURREIÇÃO POR SRA. MARIA ZITA DE CASTRO HOPE

A família Holanda de Castro convida demais familiares, colegas e amigos, para a missa de sétimo dia da Sra. MARIA ZITA DE CASTRO HOPE, a ser oficiada em sufrágio de sua alma, na segunda-feira, dia 12/12/2022, às 17h30, na Igreja de São Vicente de Paulo, situada na Av. Des. Moreira, 2.211 – Dionísio Torres, em Fortaleza-CE.

A Sra. ZITA DE CASTRO, falecida subitamente em 7/12/2022, exerceu a chefia do Serviço de Nutrição do Hospital das Clínicas da UFC, por longos anos, nas décadas de sessenta e setenta.

Agradecemos pelo apoio a esse ato de fé e piedade cristãs.

Família Holanda de Castro


quinta-feira, 11 de agosto de 2022

A FOME ANCESTRAL

Meraldo Zisman (*)

Médico-Psicoterapeuta

Fome (do latim faminem) é o nome que se dá à sensação fisiológica pela qual o corpo percebe que necessita de alimento para manter suas atividades inerentes à vida, enquanto ancestral é um adjetivo relativo aos antepassados ou antecessores. Num círculo vicioso, cada vez mais famílias se aglomeram nas cidades, passando fome por não conseguir meios para suprir sua subsistência, fome que se inicia desde o começo da vida, ainda durante o tempo da gestação em útero. Se a mãe não tem o que comer como vai alimentar o embrião e o feto que está gestando?

As consequências dessas carências nutricionais refletem-se desde a média do tamanho dos recém-nascidos, sobretudo nas camadas menos favorecidas.

Porém, uma coisa não mudou— a fome ancestral— que assola a maior parte do povo brasileiro há alguns séculos. Já era própria dos seus antepassados ou antecessores. Se não, vejamos.

Quando se compara o tamanho dos neonatos de famílias pobres com o da população brasileira de melhor renda, as diferenças antropométricas são gritantes.

O comprimento médio dos nossos recém-nascidos permanece sendo de 47 centímetros.

Desde 1960 venho alertando que o nordestino tem baixa estatura devido a uma precária nutrição materna e quando falo em desnutrição, englobo todas as mazelas da adversidade psico-econômica-social. Nascer pequeno não é uma deficiência apenas física, é também emocional. Diminui a capacidade de aprendizado, aumenta o comportamento antissocial e a violência. Aqueles que nascem com menos de 47 cm são os que têm maior risco, já que um crescimento fetal insatisfatório poderá ter efeitos de longo prazo sobre a química do cérebro. O crescimento insatisfatório do bebê no útero influencia o comprimento do bebê no nascimento e prejudica o desenvolvi mento do cérebro. Além disso, deturpa a produção dos neurotransmissores como a serotonina, também conhecida como a substância “mágica” ligada ao desenvolvimento e ao humor de modo geral, notadamente baixa em pessoas com depressão.

O pouco crescimento no útero poderia ser causado pelo uso abusivo de drogas, inclusive álcool, pela mãe ou por uma dieta ruim, ou mesmo por um ambiente estressógeno e sobretudo da nutrição materna durante a gestação de fragilização ou ainda em situações adversas, como aquelas com problemas sociais, mães adolescentes e as com passado de criminalidade.

Há evidências mostrando que uma intervenção nessas mães pode ter efeito no desenvolvimento da criança, a longo prazo.

Porque não tentar agora, melhorando as cestas básicas das gestantes, com mais proteínas e melhores nutrientes, além de outras coisas mais?

E pensar em um acompanhamento pré-natal que não se resuma ao fornecimento de cestas básicas ou uma orientação médica de última hora. O melhor que se pode fazer, no momento, em prol das futuras gerações brasileiras é alimentar as populações mais carentes e não politizar, paralisar, e acabar com as diferenças e rivalidades polarizadas de direita ou esquerda e lembrar o velho ditado indiano: na casa onde falta o pão todos brigam e ninguém tem razão.

Concluo com a frase do gênio Millôr Fernandes: “Ninguém sabe o que você escuta, lê, se informa, e não importa a sua ideologia, mas todo mundo ouve muito bem o que você fala ou escreve” — principalmente agora, nesta época do império das denominadas mídias sociais pioradas pelos avanços informatizados, as discrepâncias psicossociais tornam-se mais gritantes, sendo a principal delas a fome intergeracional, falta de alimentos ou erros alimentares que acontecem entre duas ou mais gerações. Daí a importância de distinguirmos a diferença entre as gerações das periferias das grandes cidades e aquelas do interior, além das migrações procedentes das nossas zonas rurais, desde que nos tornamos de um país predominante agrícola.

Ou, assim diziam minhas professoras, hoje cognominadas de tias postiças, do meu antigo curso primário de grupo escolar. O que quando criança eu escutava e pensava ser verdade, se verdade fora, agora não é mais.

(*) Professor Titular da Pediatria da Universidade de Pernambuco. Psicoterapeuta. Membro da Sobrames/PE, da União Brasileira de Escritores (UBE), da Academia Brasileira de Escritores Médicos (ABRAMES) e da Academia Recifense de Letras. Consultante Honorário da Universidade de Oxford (Grã-Bretanha).

quarta-feira, 2 de setembro de 2020

VITAMINA D

Por Weiber Xavier (*)

Embora chamada de vitamina, na realidade trata-se de um pré-hormônio que juntamente com o paratormônio atuam como reguladores do metabolismo ósseo e do cálcio. A vitamina D pode ser obtida a partir de alimentos como peixes (salmão, cavala), suplementos ou através da pele durante a exposição ao sol (15 a 30 min) que é a principal fonte. A função da vitamina D é, principalmente, ajudar a absorção de cálcio e fósforo no intestino delgado. A vitamina D, juntamente com a ingestão do cálcio, têm importante ação para a prevenção da perda óssea e a formação de esqueletos fortes. A deficiência de vitamina D pode levar ao raquitismo em crianças e fadiga, dor óssea, fraqueza muscular e osteomalácia em adultos.

Não há recomendação da medição da vitamina D para a população em geral, mas em algumas situações clínicas como em portadores de osteoporose, obesos, idosos, história de quedas ou fraturas, cirurgia bariátrica e síndrome de má absorção. Situações de limitação da exposição solar como a que vivenciamos durante o enclausuramento nesta pandemia e fotoproteção podem potencialmente causar deficiência de vitamina D. Não há também evidência de suplementação generalizada de vitamina D para a população e sim naqueles indivíduos com risco para deficiência.

A prática de exercícios ao ar livre e residir em uma cidade litorânea e ensolarada como Fortaleza parecem favorecer níveis elevados de vitamina D, mas é prudente estar atento ao risco de câncer de pele devido à radiação solar. Embora exista grande interesse e pesquisa de efeitos extraesqueléticos da vitamina D como no tratamento do diabetes, câncer, doenças cardiovasculares, função cognitiva e inclusive na Covid não é possível comprovar uma relação causa-efeito.

Alguns estudos sugerem que a vitamina D pode aprimorar a resposta imune, mas não existem evidências robustas que a suplementação de vitamina D ajude a prevenir ou tratar a infeção pela Covid-19. Há uma pandemia não somente de Covid-19, mas de triagem excessiva para deficiência de vitamina D e tratamento desnecessário em indivíduos que estão perfeitamente sadios. 

(*) Médico e professor de Medicina da UniChristus.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 21/7/2020. Opinião. p.14.

terça-feira, 28 de janeiro de 2020

FINAL DE ANO, FESTAS E SUA SAÚDE


Por Weiber Xavier (*)
Férias chegando e as celebrações de fim de ano podem sobrecarregar as artérias e aumentar a cintura abdominal. São tantas as tentações e guloseimas que podem levar a um aumento no peso difícil de perder ao longo do ano.
A ideia é não se privar e não comer apenas alimentos entediantes, mas algumas dicas para ficar em forma e saudável durante esta temporada: alimentar-se regularmente, frequentemente, de forma consciente e balanceada. Não é prudente ir a uma festa com fome e esperar intervenção divina para ajudar a mantê-lo no controle.
Procure fazer refeições bem equilibradas e um lanche saudável antes de ir a uma festa. Uma refeição saudável e equilibrada deve consistir em uma proteína magra, uma pequena porção de gordura saudável e carboidratos ricos em fibras. Procure receitas que usem menos manteiga, creme, banha de porco, gordura vegetal e outros ingredientes ricos em gorduras saturadas. Peru ou peixe em vez de carne vermelha é uma opção saudável.
Mantenha-se hidratado. Se for ingerir álcool, procure tomar um copo de água entre as bebidas. Evite álcool com o estômago vazio. O álcool aumenta o apetite e diminui a capacidade de controlar o que você come.
Evite comer tarde da noite. Também é importante evitar comer aproximadamente duas horas antes de dormir. O metabolismo diminui quando se está dormindo.
Em um buffet, vistorie a mesa de comida antes de colocar qualquer coisa no seu prato. Após verificar todas as opções, você pode estar menos inclinado a acumular itens um após o outro.
O exercício é energizante, por isso, faz sentido fazê-lo mais cedo do que mais tarde no dia. Começar o exercício cedo é especialmente importante durante as férias, quando festas e atividades dificultam o acesso à academia depois do trabalho.
Não há pílula, nem receita mágica para permanecer no peso certo embora a comida seja parte integrante das férias, é importante prestar atenção ao que realmente importa, aproveitar a família, a alegria e a confraternização com os amigos.
Não há problema em comer ou comer demais de vez em quando, particularmente quando no dia a dia se tem equilíbrio e moderação.
(*) Médico e professor de Medicina da UniChristus.
Fonte: Publicado In: O Povo, de 9/12/2019. Opinião. p.22.

quarta-feira, 23 de outubro de 2019

CONVITE: Lançamento de livro Nutrição Humana: autoavaliação e revisão (2ª edição) da Editora Atheneu na UECE



A Universidade Estadual do Ceará (Uece), como parte das atividades da XXIV Semana Universitária da Uece, convida para o lançamento do livro “NUTRIÇÃO HUMANA: autoavaliação e revisão (2ª edição)”, sob o selo editorial da da Editora Atheneu, sediada no Rio de Janeiro.
A obra, organizada pelos docentes Helena Alves de Carvalho Sampaio, da UECE, e Antônio Augusto Ferreira Carioca, da Unifor, conta com um conjunto notável de autores/colaboradores, reunindo nutricionistas de escol, atuantes principalmente no Ceará, que combinam experiência docente com a labuta em serviços, lastreados em subsistente formação técnico-científica, posto que todos eles dispõem de pós-graduação (com a clara dominância do diploma de doutorado) e mantêm vinculação à carreira acadêmica
A apresentação dessa publicação caberá ao Prof. Dr. Marcelo Gurgel Carlos da Silva.
Data: 23 de outubro de 2019 (quarta-feira), às 15h.
Local: Biblioteca Centra da UeceAv. Silas Munguba (Campus do Itaperi).

domingo, 26 de maio de 2019

A MELHOR MANEIRA DE EMAGRECER


Um homem telefona para um daqueles programas de redução de peso que promete fazer as pessoas perderem 2 quilos em menos de 5 dias.
No dia seguinte, sua campainha toca. Ele abre e dá de cara com uma jovem voluptuosa, esbelta e atlética de uns 20 anos, usando apenas tênis de corrida e roupas íntimas. Ela se apresenta como funcionária do programa de emagrecimento, mostrando um cartão que levava pendurado ao pescoço, que dizia: "Se você conseguir me pegar, sou sua."
Sem pensar nem um segundo, o cara começa a correr atrás dela. Alguns quilômetros depois, já quase sem ar, ele se deu por vencido. A moça voltou a aparecer em sua casa pelos 4 dias seguintes, seguindo a mesma rotina. No quinto dia, o homem se surpreendeu ao descobrir que realmente havia perdido 2 quilos, tal como prometia a propaganda.
Ele voltou a solicitar os serviços da empresa, mas, desta vez, para um programa que prometia 5 quilos em menos de 5 dias. No dia seguinte, quando foi abrir a porta, ele se deparou com a mulher mais linda e sedutora que já tinha visto na vida. Assim como a outra moça, estava também com tênis de corrida, roupas íntimas e o cartão pendurado no pescoço, dizendo: "Se você conseguir me pegar, sou sua."
Em poucos segundos, o homem saiu disparado como um míssil atrás da mulher. Devido ao excelente condicionamento físico da moça, ele não conseguiu alcançá-la. Apesar disso, continuaram a mesma rotina pelos 4 dias seguintes. Ele melhorou muito a sua forma, mas não conseguiu alcançar a treinadora. Para sua alegria, no quinto dia, ele descobriu que havia perdido 5 quilos, tal como assegurava o programa.
Foi então que ele decidiu ir além. Entrou em contato com a empresa e solicitou o programa de 10 quilos a menos em apenas 7 dias.
"O senhor tem certeza?", perguntou o representante da companhia no telefone, "lembre-se de que este é o nosso programa mais rigoroso."
"Tenho certeza", respondeu o homem, "há muitos anos não me sentia tão bem..."
No dia seguinte, quando abriu a porta para receber o novo programa, deu de cara com um homem alto, grande, atlético e musculoso, completamente nu, exceto pelos tênis de corrida e um cartão pendurado no pescoço, dizendo: "Se eu te pegar, você é meu."
Fonte: Disponível na home page “Tudoporemail”.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

IPREDE: orgulho do Ceará


Por Antônio Vasques (*)
Impossível não ficar emocionado após visita ao Iprede, instituição dedicada ao atendimento da primeira infância (crianças até 6 anos) e suas famílias. Este depoimento, baseado em textos retirados de sua home-page, relata nosso sentimento de orgulho cearense ao conhecer o trabalho desenvolvido pelo abnegado médico Sulivan Mota e equipe.
Fundado em 1986 como Instituto de Prevenção da Desnutrição e da Excepcionalidade, começou sua trajetória histórica em consonância com a necessidade de prevenir e tratar crianças com desnutrição infantil até a atualidade de investimento na primeira infância, passando a denominar-se Instituto da Primeira Infância.
Na década de 1980 no Estado do Ceará havia uma realidade onde apenas 100 crianças em cada mil nascidas tinham possibilidade de alcançar um ano de idade e onde 30% das crianças desnutridas tinham sequelas de crescimento. Passados os anos a situação mudou bastante, o índice de desnutrição infantil é residual, entre 6% e 7% e taxa de mortalidade abaixo de 20 por cada mil nascidos, provocando que a instituição evoluísse na sua missão.
O Instituto desenvolve programas, projetos e serviços em articulação com os diversos setores da sociedade, com fins públicos, foco na nutrição e desenvolvimento na primeira infância, bem como trabalha na geração e disseminação de conhecimentos técnico-científicos, em parceria com universidades de destaque mundial como Harvard, Quebec e USP.
Funcionando no bairro Cidade dos Funcionários em sede própria com mais de 5.000 m², durante o ano de 2017 foram realizados 19.188 atendimentos a crianças e seus familiares, com média mensal de 1.000 crianças. Os atendimentos estão distribuídos nos programas institucionais: Programa de Acolhimento e Atenção Psicossocial a Família, Programa de Desenvolvimento na Primeira Infância e Programa de Atenção a Mulher.
O Iprede impressiona pelo envolvimento de sua equipe com o objetivo de cuidar de nosso futuro. De nossas crianças. Por isso é motivo de orgulho para os cearenses que, como eu, tiveram a oportunidade de conhecer seu magnífico trabalho.
(*) Professor da Uece. Pós-Doutor em Educação.
Publicado. In: O Povo, Opinião, de 5/2/19. p.16.

quinta-feira, 27 de setembro de 2018

VITAMINAS


Por Weiber Xavier (*)
A indústria de multivitaminas movimenta um mercado em torno de 12 bilhões de dólares por ano. Pelo menos metade da população americana consome um suplemento vitamínico diário. Em um editorial na revista Annals of Internal Medicine, intitulado "Basta, é o suficiente: Pare de desperdiçar dinheiro em suplementos vitamínicos e minerais", os pesquisadores da Johns Hopkins analisaram evidências sobre suplementos, incluindo três estudos recentes:
Uma análise de pesquisa envolvendo mais de 400.000 pessoas, que descobriu que as multivitaminas não reduziram o risco de doenças cardíacas ou câncer.
Um estudo que acompanhou o funcionamento mental e o uso de multivitamínicos em 5.947 homens por 12 anos descobriu que as multivitaminas não reduzem o risco de declínio mental, como perda de memória ou raciocínio lento.
Um estudo de 1.708 sobreviventes de ataques cardíacos que tomaram um multivitamínico de alta dose ou placebo por até 55 meses. As taxas de ataques cardíacos posteriores, cirurgias cardíacas e mortes foram semelhantes nos dois grupos.
Os pesquisadores concluíram que as multivitaminas não reduzem o risco de doenças cardíacas, câncer, declínio cognitivo (como perda de memória e raciocínio lento) ou uma morte prematura. Eles também notaram que, em estudos anteriores, os suplementos de vitamina E e beta-caroteno parecem ser prejudiciais, especialmente em altas doses. Em resumo: "As pílulas não são um atalho para melhorar a saúde e a prevenção de doenças crônicas".
Infelizmente, hoje, vemos pessoas que parecem que vão a uma viagem espacial ou moram na Lua tamanha a quantidade de suplementos, pílulas e cápsulas, esquecendo os próprios alimentos e os benefícios reais de uma dieta adequada.
Maior evidência de recomendação tem-se em manter o peso ideal e reduzir a quantidade de gordura saturada e trans, sal e açúcar em uma dieta saudável, de forma balanceada com frutas, legumes, proteínas entre outros alimentos.
A forma natural de obter as vitaminas e minerais que necessitamos, ou seja, através de alimentos é o que de fato precisamos.
(*) Médico e professor de Medicina da UniChristus.
Fonte: Publicado In: O Povo, de 25/7/2018. Opinião. p.18.

quarta-feira, 14 de março de 2018

JULHO VERMELHO

Pedro Henrique Saraiva Leão (*)
Há 40 anos quase, vimos enfatizando em aulas e publicações a importância do diagnóstico tempestivo (oportuno) do câncer do reto, e dos cólons (intestino grosso): Rev. Fac. Med. Univ. Fed. Ceará, 10(2) 1970; Revista CBC: 18, 1971; Rev. Med., HGF (INPS): 1,1975. Seguiram-se “Câncer nos cólons e no Reto: mesmos e outros aspectos”. Fortaleza, edições UFC, 1984, Coleção Ciência, 2. Colaboração: Lúcia Alcântara Albuquerque; Gothardo Peixoto, Marcelo Gurgel Silva. (Prêmio Estado do Ceará: Estudos Científicos, 1985). “Prevenção do câncer nos cólons” (este In “Ceará Médico”, 6:4,1992). Posteriormente, neste jornal, os artigos “Nem tudo que reluz é ouro” (14/11/1991), “Estigma hereditário” (30/7/2007), “Pelas barbas do Profeta” (04/08/2009, “Será Câncer?” (11/112015), e, novamente “Nem tudo que reluz é ouro” (24/08/2016), 25 anos após aquele homônimo. Em todas essas comunicações sobressaem dois aspectos: a redução do risco de contraí-lo, e sua detecção (diagnóstico) precoce. Tal vigilância sanitária e suas abordagens motivaram a criação da Abrapreci, pela professora Angelita Gama, em São Paulo (05/2004). A dieta é o principal fator predisponente, aconselhando-se a abolição do açúcar refinado, e das gorduras saturadas, como a adoção da dieta mediterrânea, pobre em carne vermelha, e à base de fibras, peixe, e frutas. Ainda visando reduzir sua incidência, importam os exercícios físicos, plus a quimioprevenção. Esta é fornecida pelas vitaminas, pelos sais minerais, e outros nutrientes antioxidantes. Ainda em sentido profilático – e até terapêutico -vacinas vêm surgindo, mirando células que se “escondem” do sistema imunológico. Na descoberta precoce, avulta o toque retal, nos sangramentos intestinais. Este pode constatá-lo em + 80% das lesões até 10cm da margem anal. Impõe-se considerar a hereditariedade (15% - 20%), os pólipos, e as colites crônicas (máxime a Retocolite Ulcerativa, e a Doença de Crohn) com diarreia superior a 15 dias, sobretudo com muco e sangue. Seu diagnóstico implica pesquisar sangue oculto nas fezes, entre os cinquentões, e dos 30-40 anos, por casos semelhantes na família. Seguir-se-á a colonoscopia nos casos positivos, e as eventuais polipectomias (retirada de pólipos) por essa via. Vale interpretar devidamente, e desconfiar da anemia “de causa desconhecida”: pode vir de um câncer intestinal (ceco)! Posteriormente mencionaremos exames de sangue, atuais e testes genômicos (DR-70, GSTM1, e TP 53). No Brasil – talvez mercê da maior longevidade e doutros fatores - o Instituto Nacional do Câncer revelou 34.200 casos novos em 2016, mais entre homens (>50%), após 60 anos de idade. Naqueles dois artigos intitulados “Nem tudo que reluz é ouro” (1991/2016) alertamos para a confusão entre hemorroidas, pois sangrentas, com o câncer do reto, o qual chamativamente sangra também. Aos nossos alunos sempre reiterei “ter câncer de reto quem por aí sangra”, até provado que não. Câncer “camarada”, e de descomplicado diagnóstico, proporciona 50% - 70% de sobrevida de 5 anos após a operação, e até 90% quando operado no seu início. Ocorreu-me há pouco estruturar no Ceará sua prevenção constante, e - a exemplo de eventos análogos - denominá-la, “julho vermelho”, pelas óbvias razões cromáticas. Terá a chancela oficial da Academia Cearense de Medicina, e a participação efetiva da Sociedade Cearense de Colo – Proctologia, notadamente na Faculdade de Medicina da UFC, no HGF, e na Santa Casa da Misericórdia.
(*) Professor Emérito da UFC. Titular das Academias Cearense de Letras, de Medicina e de Médicos Escritores.
Fonte: O Povo, 3/01/2017. Opinião, p.10.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

CIENTISTAS GIGOLÔS E MÃES CANGURUS

Meraldo Zisman (*)
Médico-Psicoterapeuta
Até hoje não sei o porquê de querer comparar as vítimas da fome com animais em vias de extinção. Parece com os dermatologistas que quando encontram alguma doença de péssima aparência costumam batizá-la como framboesa, limão, laranja, frutas saborosas ou belas. Hemorroidas, também quando se exteriorizam, recebem o nome de couve-flor e até os proctologistas entram nessa taxinomia macabra. E assim vai.
Perguntaram certa feita ao escritor Ernest Hemingway sobre a sua perspectiva para o ano seguinte. Ele respondeu: “Como vou saber do que vai acontecer daqui a um ano se não posso dizer o que vai acontecer no próximo segundo?” Não me perguntem a causa dessas comparações dos leigos, cientistas, clérigos e militares. Como Hemingway, direi: Não sei.
Não conformado com os bichos, me volto para os Pigmeus, negrinhos pequenos da África que não crescem por problemas ou caracteres genéticos. Comparei-os ao nordestino que não cresce por falta de comida. Até escrevi um livro, de relativo sucesso editorial. Tive a petulância, ou inocência, de apelidar o livro de “Nordeste Pigmeu”. Soube depois que os Pigmeus já estão se acabando porque não cresceram. Contam-se aos mil, enquanto a raça de nanicos nordestina aumenta cada vez mais.
Depois, veio o homem gabiru. Imaginem comparar um filho de Deus, com alma e tudo, aos nojentos ratões somente por estarem com fome, por não terem o que comer. Agora, surge essa história pré-histórica de mãe canguru. O canguru é um mamífero retrógrado e atrasado na escala zoológica e que aborta os canguruzinhos antes do tempo. Arrependidos, e para compensar a maldade, guardam os filhotes numa enorme bolsa de pele agarrada à própria barriga. Dentro dessa bolsa cheia de mamilos, as mães cangurus guardam os filhotes precocemente expulsos do útero para que não morram de fome e frio.
Mães que assim procedem devem ser castigadas. Acho que Deus já está procurando solucionar o problema com a extinção dessas mães desalmadas, que doutores cientistas que pensam tudo saber chamam de marsupiais. É bom lembrar que os cangurus não passam de ratos gigantes que andam aos pulos. São os gabirus da Austrália.
Vamos a outro fato: o nosso mais antigo jornal em circulação na América Latina noticiou outro dia a realização de um Encontro Nacional de Assistência à Mãe Canguru. O evento pretende analisar o modelo de assistência ao recém-nascido. Fiquei meio confuso ao ler tal anúncio e gostaria de saber se é bebé de gente ou de canguru. Se for de canguru, tudo bem, estarei lá, pois devo, como homem do terceiro milênio, a obrigação de ser um engajado em todos os movimentos de preservação da natureza.
Outra coisa mais insólita são também os programas de aproveitamento de restos alimentícios – casca de fruta, bagaço de cana e outros lixos. Sei que o lixo da Avenida Boa Viagem, dos prédios que dão para Navegantes, é disputadíssimo pelos cata-lixo ou homens e mulheres gabirus. Não quero chamá-los de urubus na carniça. Pra azar meu, isso poderia virar samba e até frevo-canção. Espero que não adotem esse nome, pois tenho uma sorte danada para apelidar essas desgraças. Como se o pobre que passa fome – adultos, velhos e crianças – fossem uns porcos, para comer resto de comida ou mais sutilmente denominado de Lixivia. Ou restos de sobras que não sobram.
Assim já é demais. Espero que não apelidem, estes doutores da fome, de rato branco, pois são, esses médicos que fazem ciência com a fome dos outros que assim deveriam ser denominados por castigo. Acho que estão criando um novo jogo de bicho, mas espero que um dia descubram que não se faz ciência com a miséria alheia. São muito folclóricos esses “brasilianistas brasileiros”.
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Nota 1: Este artigo foi publicado no ano de 1999.
Nota 2: Ao folhearmos jornais antigos já não nos interessamos pelas notícias, pois são velhas e datadas. Já as crônicas da época, sem a contaminação do factual, acabam por se mostrar mais duradouras, e podem ser lidas, com interesse, décadas depois. “É curioso que sendo ‘soft news’ ou ‘no news’, a crônica tenha mais sobrevivência que o ‘hard news’”. (Ruy Castro)
(*) Professor Titular da Pediatria da Universidade de Pernambuco. Psicoterapeuta. Membro da Sobrames/PE, da União Brasileira de Escritores (UBE) e da Academia Brasileira de Escritores Médicos (ABRAMES). Consultante Honorário da Universidade de Oxford (Grã-Bretanha). Foi um dos primeiros neonatologistas brasileiros.

 

terça-feira, 11 de julho de 2017

O TIRO QUE ATINGIU O BEBÊ


Meraldo Zisman (*)

Médico-Psicoterapeuta

Uma gestante mal alimentada, mal cuidada, vivendo em condições ambientais e psicossociais precárias e de sequência intergeracional miserável reverte-se na pior violência contra aqueles que são gestados e continuam brotados e frutos de tais ambientes.
George Orwell, pseudônimo de Eric Blair (1903-1950), diz: “Jornalismo é publicar o que alguém quer que se publique, todo o resto é publicidade”; sua obra é marcada por uma inteligência perspicaz e bem-humorada, uma consciência profunda das injustiças sociais, uma intensa oposição ao totalitarismo e uma paixão pela clareza da escrita.
Para recordá-lo cito uma de suas obras: A Revolução dos Bichos. Orwell é considerado um dos melhores cronistas da cultura inglesa do século passado.
Ninguém de bom senso permanece indiferente à notícia de que uma bala perdida encontrou seu caminho atravessando o ventre de uma gestante, alojando-se no feto, prestes a nascer.
Não existe uma translação adequada para essa ocorrência calamitosa, para não dizer insólita, ao menos para mim. O povo brasileiro elenca nas estatísticas a segurança como sua principal prioridade, à frente da fome, do desemprego e das crises, secundarizando até a saúde. A segurança permanece sendo estatisticamente a principal desgraça, ganhando de longe de todas as outras. Voltando à morte do bebê dentro da mãe escrevo: é compreensivo que seja tal crime noticiado pelas mídias e mais, ser baleado dentro do útero materno não pode deixar de ser manchete.
Indago: será essa violência a única que merece tamanho destaque? Fala-se muito contra a censura e que a imprensa é livre. Não tenho tanta certeza.
Pior que a censura descarada é a tentativa de rivalizar algum acontecimento estocástico para camuflar a reportagem das verdadeiras causas das mazelas.
Tomo como exemplo o apagamento do nome do Josué Apolônio de Castro (1908–1973). Relembro que esse brasileiro foi um influente médico, nutrólogo, professor, geógrafo, cientista social, político, escritor e ativista brasileiro que dedicou sua vida ao combate à fome.
Destacou-se no cenário brasileiro e internacional não só por seus trabalhos sobre o problema da fome no mundo, mas também por sua atuação no plano político, em vários organismos internacionais. O seu livro Geografia da Fome talvez seja um dos mais importantes livros escritos em português, tendo sido traduzido para os mais diferentes idiomas. Seus estudos, conhecidos em todo o mundo, lhe valeram o Prêmio Internacional da Paz e indicações para o Prêmio Nobel da Paz. Cito esse autor apenas para permanecer na minha praia, a da Medicina.
A fome ancestral, para o Josué, é fruto da ação humana, de suas escolhas e da condição econômica do país. “Fome, pobreza, falta de saneamento básico, atraso, etc. são uma mesma coisa”, afirmava ele e concordo, eu. Acredito ainda que certos programas não passam de falsos auxílios: o programa de atenção à gestante teve como consequências o aumento da gravidez entre adolescentes. Não é o único causal, mais que contribui, contribuiu.
Muito se falou sobre a epidemia do Zica e a microcefalia, agora não mais mencionada. Deixou de ser novidade?
Uma gestante mal alimentada, mal-cuidada, vivendo em condições ambientais e psicossociais precárias e de sequência intergeracional miserável reverte-se na pior violência contra aqueles que são gestados e continuam brotados e frutos de tais ambientes.
Tais fatos mereceriam maior destaque midiático ou – pelo menos – serem mais lembrados. Se as consequências dessas distorções não são noticiadas, elas serão esquecidas, encobertas ou – pior – nunca sabidas.
Quer saber de uma coisa? Estou achando que Orwell tinha razão…
O que vale mesmo é propaganda e a opinião dos donos das mídias. E não venham me dizer que as mídias sociais são livres quando mais de 80% do que noticiam carrega consigo as opiniões pessoais dos repórteres que as originam.
(*) Professor Titular da Pediatria da Universidade de Pernambuco. Psicoterapeuta. Membro da Sobrames/PE, da União Brasileira de Escritores (UBE) e da Academia Brasileira de Escritores Médicos (ABRAMES). Consultante Honorário da Universidade de Oxford (Grã-Bretanha).
 

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