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segunda-feira, 25 de agosto de 2025

Cid Saboia de Carvalho, doa a quem doer!

Por José Luís Lira (*)

Cid Carvalho, símbolo de honradez e dignidade, criou o bordão “doa a quem doer”, expressão que traduz sua independência e personalidade. Advogado (OAB/CE 1.516), professor, jornalista, radialista e político, foi um dos mais ilustres representantes do Ceará no Senado Federal, entre 1986 e 1994; senador constituinte e relator do projeto da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Brasileira. Intelectual de destaque, possui vasta cultura nas mais variadas áreas do saber.

No dia 25 de agosto, há 90 anos, nasceu Cid, filho de dona Margarida Saboia e do Dr. Jáder de Carvalho, nesta capital cearense.

Formado em Direito pela Universidade Federal do Ceará, em 1967, exerceu o magistério com brilhantismo não apenas na Faculdade de Direito, mas também nas Faculdades de Ciências Sociais, Economia e Jornalismo. O jornalismo fazia parte de sua vida desde a infância, inspirado pelo exemplo do pai, também advogado e jornalista. Aos 12 anos, iniciou-se no rádio como comentarista político e esportivo, atuando nas rádios Uirapuru e Assunção.

Casado com dona Luce Fontenele de Carvalho, é pai de três filhos: Cid Saboia de Carvalho Filho, Robério Fontenele de Carvalho e Antonino Fontenele de Carvalho, todos advogados. Antonino, além da advocacia, seguiu os passos do avô e do pai no radialismo, auxiliando-o e, por vezes, conduzindo seu programa de rádio. Um democrata na acepção plena da palavra e na prática da vida. Sua atuação no Senado Federal confirma esse legado: sempre em defesa dos interesses da sociedade, teve papel decisivo na redação do artigo 5º da Constituição de 1988, um dos trechos mais significativos da Carta Magna.

Escritor desde a década de 1950, era natural que compusesse a Academia Cearense de Letras, a Academia Cearense de Retórica, a Academia Cearense da Língua Portuguesa, a Associação Brasileira de Bibliófilos e o Instituto do Ceará. Quando Matusahila Santiago e eu fundamos a Academia Fortalezense de Letras, em 2002, não houve dúvida, o indicamos e Cid Carvalho foi aclamado o primeiro presidente da primeira academia de letras do milênio no Ceará.

Para defini-lo, tomo emprestadas palavras de seu pai, Jáder de Carvalho: “eu sou o índice do meu povo:/ se o homem é bom — eu o respeito./ Se gosta de mim — morro por ele./ Se, porque é forte, entender de humilhar-me,/ — ai, sertão!/ Eu viveria o teu drama selvagem,/ eu te acordaria ao tropel do meu cavalo errante,/ como antes te acordava ao choro da viola...”

Concluo, emocionado, lembrando de homenagem a Clóvis Beviláqua, quando Dr. Cid disse que pronunciava o nome de Clóvis como quem rezava. Hoje, repito com devoção – Cid Saboia de Carvalho – como quem eleva uma oração de louvor e gratidão por sua existência!

(*) Advogado e professor universitário.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 25/08/25. Opinião, p.19.

sábado, 13 de julho de 2024

J. B. SERRA E GURGEL: um jornalista dedicado ao Ceará

Foi com tristeza que recebi por WhatsApp, em 2/07/24, o anúncio do desaparecimento terreno do jornalista cearense João Bosco Serra e Gurgel, filho de Acopiara, um dos maiores redutos da família Gurgel no território alencarino.

J. B. Serra e Gurgel, ex-aluno do Liceu do Ceará, se iniciou no jornalismo no Ceará, mas cedo migrou para o Rio de Janeiro, onde trabalhou em veículo importante da imprensa carioca, e daí partiu para a capital federal, local em que concentrou a sua atividade laboral de jornalista, como assessor de comunicação de órgãos públicos federais, e de escritor fecundo, com vários livros publicados, comportando destacar o intitulado "Dicionário de Gíria", alvo de sucessivas edições e contendo milhares de verbetes.

Inegavelmente, o seu empenho, por longos anos, como editor do CEARÁ EM BRASÍLIA, informativo oficial da Casa do Ceará em Brasília, bem registra que ele nunca esquecera das suas origens cearenses e dele se pode dizer que: Serra e Gurgel saiu do Ceará, mas o Ceará nunca saiu dele.

Uma prova inconteste desse apreço reside no desejo final do próprio jornalista: ele foi velado em Juazeiro do Norte e teve o corpo sepultado em Acopiara-CE, sua terra natal.

Em atendimento a convite desse perlustrado conterrâneo, entre 2012 e 2016, fui um ativo colaborador do Jornal da Casa do Ceará em Brasília, que pode ser corroborado por 19 (dezenove) artigos publicados, dentre os itens constantes no Capítulo 8 do meu curriculum vitae, aqui identificados e enumerados pelos respectivos Docs. Foram eles:

CEARÁ EM BRASÍLIA (CEBSB)

1. “Mulheres na vida de Jesus”, de Lúcia Arruda. CEBSB, 23 (244): 8, set. 2012. (Doc. Nº 8.2.343).

2. Casimiro Montenegro Filho: o marechal visionário. CEBSB, 23 (244): 6, out. 2012. (Doc. Nº 8.2.346).

3. Joaquim Eduardo de Alencar: o sanitarista de primeira grandeza do Ceará. CEBSB, 23 (246): 6, dez. 2012. (Doc. Nº 8.2.352).

4. Haroldo Juaçaba: um homem da cultura regional e universal. CEBSB, 23 (237): 15, mar. 2012. (Doc. Nº 8.2.323).

5. Grasiela Teixeira Barroso: ícone da enfermagem no Ceará. CEBSB, 23 (239): 14, mai. 2012. (Doc. Nº 8.2.329).

6. O Zé Pinto da sucata. CEBSB, 24 (247): 6, jan. 2013. (Doc. Nº 8.2.357).

7. Parsifal Barroso: político e pensador. CEBSB, 24 (248): 6, fev. 2013. (Doc. Nº 8.2.364).

8. Primórdios do Serviço Social em Fortaleza. CEBSB, 24 (249): 11, mar. 2013. (Doc. Nº 8.2.367).

9. Lembranças do Cine Familiar em Otávio Bonfim. CEBSB, 24 (251): 8, mai. 2013. (Doc. Nº 8.2.373).

10. Manuel Antônio Andrade Furtado. CEBSB, 24 (252): 8, jun. 2013. (Doc. Nº 8.2.377).

11. Oswaldo Riedel: uma vida a serviço da ciência e da cultura cearenses. CEBSB, 24 (253): 14, jul. 2013. (Doc. Nº 8.2.382).

12. Diplomas médicos: seis ou oito anos. CEBSB, 24 (254): 14, set. 2013. (Doc. Nº 8.2.389).

13. José Valdivino de Carvalho: um educador cristão e social. CEBSB, 24 (255): 22, set. 2013. (Doc. Nº 8.2.399).

14. A Fortaleza encantada: da bela e da fera. CEBSB, 24 (257): 8, nov. 2013. (Doc. Nº 8.2.402).

15. Médicos contam causos da caserna. CEBSB, 25 (259): 8, jan. 2014. (Doc. Nº 8.2.411).

16. Um contabilista exemplar do Ceará. CEBSB, 25 (263): 8, mai. 2014. (Doc. Nº 8.2.426).

17. Platicéfalos no vestibular do ITA de 2015. CEBSB, 26 (272): 12, fev. 2015. (Reproduzido a pedido). (Doc. Nº 8.2.461).

18. José Fernandes: um médico cultor do vernáculo. CEBSB, 26 (277): 8, jul. 2015. (Doc. Nº 8.2.475).

19. Carlos Ribeiro: sacerdote da medicina. CEBSB, 27 (283): 6, jan. 2016. (Doc. Nº 8.2.494).

Prof. Marcelo Gurgel Carlos da Silva

Médico e economista em Fortaleza


quinta-feira, 4 de abril de 2024

INOVAÇÃO E CREDIBILIDADE NO COLUNISMO ESPORTIVO

Por Fernando Adeodato Junior (*)

Foi com muita consternação que recebi a infausta notícia da passagem do amigo e ex-companheiro de longa data do O POVO, Alan Neto, para o Reino Celestial. Convivi com o “Trem Bala” desde 1965, quando ingressamos no Jornal praticamente juntos, na antiga sede da rua Senador Pompeu. Alan introduziu um novo modelo de colunismo esportivo, “caçando” a notícia onde ela estivesse e criando bordões que se sustentaram ao longo de quase seis décadas, como “rigorosamente verdadeiro”, “passem adiante”, “há algo no ar além dos aviões” e “quem me disse não mente”.

A morte de Alan deixa uma lacuna impreenchível neste segmento do jornalismo. Também enveredou na área política e sua coluna, aos domingos, era uma das mais lidas do O POVO. Criou um estilo próprio de escrever sobre esportes, mantendo uma identificação com o torcedor ao falar a sua linguagem, de forma simples e direta, seja no jornal, no rádio ou na televisão.

Alan era um jornalista multifacetado, versátil e que sabia exatamente onde “as andorinhas dormiam”. No início da carreira, fazia questão de marcar presença “em cima do lance”, como, por exemplo, ao comparecer ao escritório de José Elias Bachá, presidente do Ceará na época, para ver o ídolo Gildo renovando contrato, ou ao de Otoni Diniz, do Fortaleza, para testemunhar o não menos famoso Mozart prorrogando seu vínculo com o Leão.

A lembrança que guardarei do Alan é de uma pessoa cordial, de fino trato, “amigo de fé e camarada” de muitas jornadas. Na Redação do O POVO, no final da noite, me perguntava: “Junior (assim ele me chamava) pode me dar uma carona hoje?” E eu o levava no meu carro, geralmente falando de assuntos diversos, extra futebol. Sempre de regime, passava horas a fio na Redação sem nada comer. Mas não perdia a chance de “filar” uma bolachinha do meu pacote para enganar a fome.

Querido amigo, que Deus o tenha e conforte os corações de Ivanilde (esposa), Alana (filha), Júlia “Xerim” (neta) e demais familiares. Adeus!

(*) Adeodato Junior é jornalista e foi companheiro de redação de Alan Neto no O POVO 

Fonte: Publicado In: O Povo, de 4/04/24. Edição online.

domingo, 17 de dezembro de 2023

A JORNADA DE ACEITAÇÃO

Gabriel Damasceno, jornalista de O Povo

Positivo.

"Pra mim foi um baque", lembra Cleide Carvalho (nome fictício), 49, sobre o diagnóstico de HIV. "Foi muito sofrido e doloroso". Ela descobriu o vírus aos 19 anos, na década de 1990. Ela vivia com um homem, com quem tinha um filho. "A gente brigou, não lembro mais a razão, mas decidi dar um castigo nele. Deixei ele com a criança e me mandei (para uma festa)".

"Eu era muito nova, muito inexperiente das coisas".

Ela foi para um show na Praça José de Alencar, no Centro de Fortaleza, onde conheceu um outro rapaz. Os dois passaram a noite juntos. "Quando foi de manhã ele falou: 'tenho uma coisa pra te dizer'. Eu disse: 'pois fale, não tem problema não'. Ele, (então), disse assim: 'e se eu te disser que eu tô com aids?'. Aí o negócio desmoronou pro meu lado".

O rapaz percebeu que Cleide ficou abalada e desconversou a história. Disse que tudo não passava de uma brincadeira. Ela, que não conhecia muito sobre o vírus, acreditou e se acalmou. Vale ressaltar que ela foi vítima de um crime. O que o homem fez pode, em tese, se enquadrar como perigo de contágio de moléstia grave — com pena de 1 a 4 anos e multa — ou como lesão corporal gravíssima — com pena de 2 a 8 anos. "Pela aparência dele, eu jamais acharia que ele tivesse (o HIV). Ele se apresentava muito bem".

Depois da situação, ela começou a apresentar alguns sinais, mas não achava que pudesse ser o vírus. Tinha acreditado na palavra do homem. "Comecei a fazer exame em cima de exame. O médico suspeitava que eu tava com tuberculose".

Ela fez o teste para a doença, mas deu negativo.

"Voltei para (o hospital) de novo e o médico disse: 'Só tem um jeito: vou pedir o teste do HIV'. Aquilo pra mim foi um baque, mas eu acreditava que não tinha (nada). Não queria nem fazer (o teste)".

Ela fez e, dessa vez, deu positivo.

A reação foi de negação. Mesmo com o resultado em mãos, ela decidiu não iniciar o tratamento. "Eu pensava assim: 'Não vou me tratar, porque não estou com isso não'. Tu acha uma coisa dessa. Como que a pessoa tem um exame na mão e tá se negando desse jeito? Eu não aceitava de jeito nenhum".

Depois do diagnóstico, ela chegou a ir atrás da família, mas foi desprezada. O preconceito nos anos 90 era menor que na década de 80, mas ainda era grande, comparado com hoje. "Me isolaram e eu percebi que essa rejeição tava me fazendo mal. Então, eu decidi que não iria mais procurar por eles. Iria morar só".

Em casa — e sem começar o tratamento — os sintomas foram se agravando. "Quando vi que o negócio tava piorando mesmo, eu tomei a decisão de me tratar. Eu pensei assim: 'vou me tratar porque senão vou morrer. E morrer rápido'. Aí eu comecei a levar a sério".

Cleide e Concebida são retratos de uma outra época. De quando a aids representava uma condenação. Hoje as coisas são diferentes. É possível viver como qualquer outra pessoa, desde que siga o tratamento da forma adequada. Militantes, inclusive, pedem para que pessoas com aids não sejam chamadas de "doentes" ou de "soropositivos", mas como "pessoas que convivem com HIV".

No fim, Concebida estava certa: "A aids não é um bicho de sete cabeças".

Publicada em O Povo, de 1/12/23. Cidades. p.6-7.

A CHEGADA DO HIV CONFORME A IMPRENSA

Gabriel Damasceno, jornalista de O Povo

O POVO remonta os primeiros casos noticiados e a cobertura da imprensa cearense sobre a epidemia

Em 1984, Tadeu Sobreira trabalhava no departamento de patologia da Faculdade Medicina da UFC, localizado ao lado do Hospital das Clínicas (HC). A equipe do hospital recebeu um paciente e suspeitavam que ele pudesse ter o vírus. Então, convidaram o médico para fazer uma análise imunológica.

"Ele virou como se fosse uma curiosidade para muita gente", lembra o imunologista. "A sensação que eu tive, na época, é que ele ficou extremamente incomodado de ser aquela figura, digamos assim, exótica. Que todo mundo queria conhecer. Deve ter sido muito traumático para ele, na minha visão".

O paciente passou um tempo no hospital, mas preferiu voltar para o local onde vivia. "A imagem que ficou para mim é que ele preferiu morrer em casa — porque sabia que iria morrer — do que ficar em um hospital [sendo] motivo de curiosidade".

Na época, Márcia Gurgel, a jornalista aposentada, foi até a casa dele, no Conjunto Ceará, para que pudessem conversar. Ela foi a primeira repórter do Ceará a entrevistar uma pessoa com HIV. "Ele falou da vida dele, que tinha viajado para São Paulo, onde teve muitos companheiros", recorda. "Pouco tempo depois que eu o entrevistei, ele morreu".

Nos jornais cearenses, a história começou a rodar antes mesmo de o HIV chegar ao Brasil. Márcia ficou sabendo do vírus por meio do irmão, que é pneumologista e especialista em doenças infectocontagiosas. "Ele se interessava muito por esse tipo de coisa. Chegou para mim: 'Marcia, tá sabendo que tá surgindo uma doença nova nos Estados Unidos?".

Ele fez uma pesquisa bibliográfica e, com base nisso, Márcia escreveu a primeira matéria sobre o HIV publicada pelo O POVO, no dia 12 de dezembro de 1982. O texto, intitulado "Americanos descobrem nova doença que ataca crianças", abordava um vírus misterioso que teria causado a morte de 300 pessoas homossexuais em Atlanta, nos Estados Unidos.

A aids chegou a ser chamada — pela mídia e profissionais da saúde — de Deficiência Imunológica Relacionada a Gays (GRID). O vírus costumava ser associado pela imprensa, nacional e internacional, ao público LGBTQIA. No Brasil, chegou a ser chamada de "Peste Gay", por alguns periódicos.

Érica Cavalcante é historiadora e autora do livro A aids vira notícia: os discursos sobre a 'doença nova' nos periódicos cearenses da década de 1980. Ela analisou 20 matérias do O POVO e do Diário do Nordeste relacionadas à epidemia. "Ao menos no que concerne à análise das notícias as quais tive acesso para a elaboração do trabalho, os periódicos cearenses não contribuíram para a difusão dessa concepção errônea, preconceituosa e moralizante em torno da Aids", diz a pesquisadora.

"Pelo contrário, mesmo quando parte dos elementos evidenciados nas notícias referiam-se aos homossexuais, a abordagem utilizada primava pela abertura de espaço para que ativistas e demais representantes da comunidade LGBTQIA (que na época não contava com essa designação) [contestassem] nomenclaturas pejorativas como 'Peste Gay', 'Câncer Gay' e 'Praga Gay'", continua.

Por mais que o estigma não estivesse tão evidente nas páginas do jornal, a situação era diferente no entrelinhas. "Teve um lance muito interessante", lembra Márcia. "Um rapaz chegou no jornal e eu já (o conhecia). Tinha lido uma entrevista com ele na Revista Veja: era funcionário de uma empresa de aviação, que tinha sido diagnosticado com aids e foi demitido. Ele entrou na Justiça e foi readmitido".

Depois da situação, o homem começou a viajar por todo o País para falar sobre a discriminação contra pessoas com HIV. Uma das paradas foi a av. Aguanambi 282 (sede do O POVO). Márcia o recebeu e, para o entrevistar, deixou que ele se sentasse na cadeira de um colega, de um editor.

"Quando o colega dono da cadeira chegou… ele enlouqueceu". "Jogou a cadeira longe. Disse que nunca mais sentava ali, porque eu tinha deixado um 'aidético' sentar na cadeira. (Em resposta) eu disse: 'eu quero (a cadeira)' e acho que fiquei com a cadeira até eu sair do jornal".

Apesar da situação, Márcia acredita que o preconceito era mais uma coisa pontual. À época, ninguém sabia muito sobre a doença. Todos tinham medo. "Depois, colegas nossos morreram de aids. No O POVO, no Diário do Nordeste. O vírus foi chegando a todas as profissões e chegou na imprensa. Então, o preconceito foi diminuindo. A gente trabalhava ao lado de colegas que, de repente, estavam com aids".

Publicada em O Povo, de 1/12/23. Cidades. p.6-7.


sábado, 16 de dezembro de 2023

DIA DE COMBATE À AIDS: quando o HIV chegou ao Ceará


Márcia Gurgel, jornalista aposentada. (Fotografia de Mauri Melo).

Gabriel Damasceno, jornalista de O Povo

Há cerca de 40 anos, a síndrome da imunodeficiência adquirida (aids) tinha os primeiros registros no Ceará. O POVO relembra diagnósticos iniciais no Estado e trajetória recheada de estigmas

"Eu vou à luta. Se não der, não deu, todos morremos". A declaração é de Maria Concebida de Oliveira, de então 25 anos, pouco tempo após o diagnóstico de HIV positivo, em 1987, ao O POVO. Uma época em que, diferente de hoje, o vírus era visto como uma sentença de morte. Concebida não pensava dessa forma. Era otimista: "A aids não é um bicho de sete cabeças, a gente não morre do dia para a noite".

Ela foi a primeira mulher cearense diagnosticada com aids no Ceará. "O grande sonho dela era tomar uma medicação que havia sido lançada no mundo, o AZT, mas ainda não tínhamos", lembra Anastácio Queiroz, professor de medicina da Universidade Federal do Ceará (UFC) e ex-diretor do Hospital São José (HSJ).

O HIV chegou ao Ceará há cerca de 40 anos atrás. As datas são confusas: de acordo com a Secretaria da Saúde do Estado do Ceará (Sesa), a primeira notificação de HIV aconteceu em 1983. Foi um homem que teria sido atendido no HSJ. As primeiras notícias de casos suspeitos, no entanto, só datam de 1984.

Concebida nasceu em Milagres, a 482,5 km de Fortaleza, e se mudou para São Paulo aos 19 anos. Ela queria uma vida melhor. Estava em busca de trabalho. Mas, na capital paulista, contraiu o vírus.

Os primeiros sintomas apareceram ainda em 1986, enquanto visitava a família, em Milagres. À época, ela chegou a procurar um médico, que apenas lhe receitou um remédio para diarreia. Os sintomas persistiram e, assim que voltou para São Paulo, procurou o Hospital Emílio Ribas. Fez alguns exames e o médico deu o diagnóstico: suspeita de aids.

Em São Paulo, ela começou o tratamento. Ficou internada por mais de um mês, até que um médico recomendou que voltasse para o Ceará. Foi o que fez. "A gente acompanhou a chegada dela na rodoviária. Ela foi para a casa da família e, depois, foi para o Interior", recorda a jornalista aposentada Márcia Gurgel. "A gente acompanhou todo o quadro dela". "Ela melhorou, ela piorou, ela morreu".

Nas décadas de 1960 e 1970, o Ceará, o Brasil e o Mundo viviam um período de liberação sexual. Até que o HIV apareceu. "Obviamente tiveram os radicais dizendo que era um castigo de Deus. Tinha de tudo", lembra Tadeu Sobreira, médico imunologista e professor aposentado da UFC.

"Aos poucos foram se colocando os pingos nos Is: não era um castigo divino". "Era uma exposição, por falta de conhecimento, a um agente viral", sentencia.

No começo, a síndrome ficou conhecida como 'a doença dos 4Hs': viciados em heroína, haitianos, homossexuais e hemofílicos. Tirando o último H, todos faziam parte de grupos até então marginalizados. A sigla "Aids" foi usada pela primeira vez em junho de 1982. Significa Síndrome da Imunodeficiência Adquirida — ou Acquired Immunodeficiency Syndrome, no original. Já o termo HIV — Vírus da Imunodeficiência Humana — só veio a existir em 1986.

"Até então, era uma doença nova, ninguém sabia do que se tratava", destaca Anastácio Queiroz. "A primeira coisa que chamava atenção era o medo de todos. Um preconceito absolutamente incalculável. Todos temiam, apesar de a aids ser uma doença que se transmitia pela intimidade".

Quando os primeiros casos apareceram, muitos hospitais não queriam tratar os pacientes. "Criava-se um pânico muito grande no hospital. Os outros doentes faziam pressão para que o paciente fosse transferido. Ninguém queria ficar em um ambiente com uma pessoa com aids". "Isso era bem claro", lembra Anastácio.

"Eles eram rejeitados por todos, inclusive por membros da família", continua. "A doença carregava muito medo consigo. Então, era muito triste. Lembro de dois pacientes que nunca aceitaram o diagnóstico e evoluíram de maneira muito negativa, porque nunca quiseram fazer o tratamento".

Série

Este é o primeiro de três episódios sobre o HIV/aids no Ceará. O material será publicado com antecedência para assinantes OP. Na próxima semana, o tema será a mudança de perfil de pessoas soropositivas durante as últimas décadas

Publicada em O Povo, de 1/12/23. Cidades. p.6-7.

segunda-feira, 21 de agosto de 2023

ESCRITOS EM JORNAL

Por Sofia Lerche Vieira (*)

Atribui-se a Carlos Drummond de Andrade a frase de que "escrever é cortar palavras". Não foram poucas as referências ao laborioso processo da escrita em seus versos, como em "O lutador", onde afirma: "Lutar com palavras é a luta mais vã. Entanto lutamos mal rompe a manhã. São muitas, eu pouco".

Se esta é uma verdade para poetas, também o é para professores, pesquisadores, jornalistas, locutores e tantos outros que têm o ofício da palavra por profissão. Transitar entre diferentes modalidades de escrita é empreendimento que, não raro, apresenta dificuldades.

Essa tarefa se faz particularmente desafiadora quanto se trata de traduzir conteúdos complexos em uma linguagem simples e em um espaço limitado. É o caso dos artigos de 2.000 a 2.400 caracteres, conforme o lugar do texto na diagramação do jornal. Tais processos implicam em aprendizagens contínuas que não se se circunscrevem à produção de escritos em jornal.

Ao receber do O POVO o convite para uma colaboração mensal em sua página de Opinião não antevia que tal desafio teria longa duração no tempo. E lá se vão alguns anos. Minha primeira contribuição como articulista permanente ocorreu em início de 2016, quando manifestei intenção de escrever sobre educação.

É verdade que a maioria de meus escritos versaram sobre esse tema. Com mais frequência do que podia, então, vislumbrar, fui levada a emitir opiniões sobre outros fatos, com ou sem conexão direta com questões educacionais.

O cotidiano é atravessado por uma incontável quantidade de fatos que merecem um olhar atento, tanto para destacar elementos de leveza presentes no dia a dia, como para registrar tristeza ou indignação com agressões diversas à nossa humanidade.

O jornal comporta a veiculação de informações e emoções que costumam estar ausentes de outras formas de redação, a exemplo da escrita acadêmica. A imprensa nesse sentido, é uma tribuna ímpar de expressão.

Em tempos de livre circulação de fake news nas redes sociais, o jornal permanece como um baluarte da busca de informação fidedigna, capaz dar lugar à criação original e inspirar.

(*) Professora do Programa de Pós-Graduação em Educação da Uece e consultora da FGV-RJ.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 17/07/23. Opinião, p.20.

domingo, 13 de novembro de 2022

ADOLFO CAMPOS DE ARAÚJO (Biografia)

Adolfo Campos de Araújo nasceu em 20 de novembro de 1873, na cidade de Serro (MG).

Araújo estudou Ciências Jurídicas e Sociais na Faculdade de Direito Largo de São Francisco, consagrando-se, porém, como poeta simbolista e jornalista.

Alimentando a pretensão de montar um jornal próprio, no qual pudesse se libertar do conservadorismo de sua época, Adolfo Campos Araújo, valendo-se de seus sólidos conhecimentos de português, latim e grego, dedicou-se ao propósito.

Articulando-se com seus amigos poetas, fundou, em 1896, o jornal A Vida de Hoje. Em uma de suas colunas de prestígio, “Cemitério Gaiato”, eram apresentados versos impecáveis de crítica a personalidades e costumes da época.

Sua carreira culminou com a criação de A Gazeta, de São Paulo, um jornal diário vespertino que circulou, pela primeira vez, em 16 maio de 1906. A Gazeta surgiu com o espírito republicano, seguiu os moldes dos jornais do século XIX: poucas imagens e muito texto, trazendo, porém, seções fixas de economia, política, saúde, arte, literatura e um suplemento feminino.

Notável pelos comentários políticos, o jornal paulistano, um dos mais importantes veículos de comunicação do século XX, inovou a imprensa brasileira e a forma de se fazer jornalismo e alcançou grande sucesso nas décadas de 1930 a 1950.

Os primeiros anos do jornal ficaram marcados por crises financeiras, que caracterizavam um período de instabilidade. José Pedro Araújo, João Dente e Antônio Augusto Covello foram os protagonistas que conduziram A Gazeta e tentaram reerguê-la. Mas o difícil começo do vespertino foi apenas o impulso inicial para que, anos mais tarde, A Gazeta alcançasse seu período áureo, sob o comando do jornalista e empreendedor Cásper Líbero.

Araújo morreu, em São Paulo, no início da Primeira Guerra Mundial, em 18 de novembro de 1915.

Fontes: http://fcl.com.br/fundacao/cronologia/ e https://pt.wikipedia.org/wiki/A_Gazeta_(S%C3%A3o_Paulo

http://academiaserranadeletras.com.br/images/Perfil_Patronos/Adolfo_Araujo.pdf

quarta-feira, 19 de outubro de 2022

Solenidade de Outorga da X Comenda do Jornal do Médico

O Jornal do Médico, com apoio da Universidade de Fortaleza, realizou na noite de ontem, 18 de outubro de 2022, na Unifor, a solenidade de outorga da X Comenda do Jornal do Médico.

Fui, dentre os agraciados, distinguido com o “Certificado de Agradecimentos”, conferido como reconhecimento pelo apoio e inestimáveis contribuições na trajetória de 18 anos do Jornal do Médico, na função de conselheiro desse veículo de comunicação médica.

Acad. Marcelo Gurgel Carlos da Silva

Membro do Conselho Editorial do JM


segunda-feira, 13 de junho de 2022

Conselheiro Marcelo Gurgel é eleito membro titular da Academia Cearense de Letras

 

Nosso conselheiro Dr. Marcelo Gurgel acaba de ser eleito Membro Titular da Academia Cearense de Letras. Vai ocupar a cadeira do saudoso poeta Pedro Henrique Saraiva Leão, que também foi conselheiro do Jornal do Médico.

Com a eleição do conselheiro Marcelo Gurgel, a Academia Cearense de Letras volta a contar, entre seus pares, com quatro renomados discípulos de Hipócrates: Murilo Martins, Lúcio Alcântara e Flávio Leitão. Todos são inclusive integrantes da Academia Cearense de Medicina e da Sobrames Ceará, presidida pelo nosso conselheiro Dr. Arruda Bastos.

Nossos parabéns ao distinto conselheiro e amigo Dr. Marcelo Gurgel por mais expressiva conquista!

Os editores do Jornal do Médico®

Fonte: Jornal do Médico, junho de 2022.


sábado, 18 de setembro de 2021

O Anúncio Mais Importante dos Classificados de Jornal

Um determinado anúncio nos classificados de um dos jornais mais populares do país chamou bastante atenção:

"Solteira procura companheiro do sexo masculino. Não importa a raça.

Todos dizem que sou muito linda e eu adoro fazer joguinhos...

Adoro longas caminhadas na mata, passear de carro, caçar, acampar e pescar, passar noites aconchegantes de inverno junto à fogueira.

Jantares pontuais me farão comer na sua mão.

Me faça carinho da maneira certa e veja o que acontece...

Eu te receberei na porta sempre que chegar do trabalho, da maneira como eu vim ao mundo.

Beije-me e serei eternamente sua. Ligue para o número abaixo e peça para falar com Úrsula."

Mais de 15 mil homens entraram em contato com o Serviço de Adoção local a respeito de uma cadelinha da raça Labrador de oito meses de idade.

Fonte: Disponível na home page “Tudoporemail”.

domingo, 20 de agosto de 2017

“ESFOLEAR” JORNAIS


Fotógrafo: desconhecido.
Fonte: Circulando por e-mail (internet) e i-phones. Autoria desconhecida.

domingo, 4 de setembro de 2016

A NOTÍCIA: O crime do Padre Amaro

Meraldo Zisman (*)
Médico-Psicoterapeuta
Padre que dirigia alcoolizado é detido após matar homem (**)
Um padre foi detido na noite deste domingo, 17, após atropelar e matar um homem em Monte Mor (SP). De acordo com a Polícia Militar Rodoviária, o sacerdote estava embriagado e não prestou socorro à vítima. Levado à delegacia, ele foi liberado após pagar R$ 5 mil de fiança. O nome do religioso não foi informado. Ele tem 60 anos e alegou que retornava de uma celebração. Contou ainda que tomou um pouco de vinho durante a missa, antes do atropelamento, ocorrido na Rodovia Jornalista Francisco Aguirre (SP-101).  A vítima, Alexsandro Rodrigues do Amaral, de 39 anos, atravessava a pista com um primo quando foi atingido. Testemunhas contaram que o padre estaria em alta velocidade, situação que será investigada por meio dos laudos a serem emitidos pela Polícia Técnica, que periciou o local.
Amaral trabalhava como ajudante de cozinha e socorristas tentaram reanimá-lo, mas ele não resistiu. O padre não parou para ajudar, tendo pedido ajuda depois em uma praça de pedágio. Com o carro bastante danificado, ele alegou ter acreditado que uma pedra havia sido jogada contra o veículo.
Apuração: - A Polícia Civil investiga o caso e o religioso também pode ser punido internamente pela igreja, caso fique comprovada sua culpa. O exame do bafômetro apontou 0,36 ml de álcool por litro de sangue, quantidade que já é considerada crime de trânsito. A vítima era de Campinas (SP), enquanto o padre é da capital paulista. Ele estava em Monte Mor para realizar celebrações em uma paróquia da cidade.
(*) Professor Titular da Pediatria da Universidade de Pernambuco. Psicoterapeuta. Membro da Sobrames/PE, da União Brasileira de Escritores (UBE) e da Academia Brasileira de Escritores Médicos (ABRAMES).

(**) Notícias | Brasil /São Paulo Publicado em 18/04/2016, às 17h41 Do Estadão Conteúdo.

sábado, 18 de abril de 2015

HOMENAGEM AO JORNAL DO MÉDICO NA CMF


A Câmara Municipal de Fortaleza (CMF) realizou, no Auditório Ademar Arruda, ontem, dia 17 de abril de 2015, às 20h, Sessão Solene em Homenagem aos 10 Anos de Fundação do Jornal do Médico.
Na ocasião, falaram o vereador Iraguassú Teixeira, proponente da homenagem, que presidiu a solenidade, e o publicitário José Argollo, que agradeceu em nome desse veículo de comunicação médica e lembrou aos presentes que seu pai, o jornalista Juvenal Meneses, fundador do JORNAL DO MÉDICO, estava aniversariando, servindo a data para assinalar a chegada dos seus 80 anos de vida.
A mesa diretora dos trabalhos foi composta por: Iraguassú Teixeira, Juvenal Meneses, José Argollo, Celina Côrte Pinheiro (Presidente da Sobrames/CE), Marcelo Gurgel Carlos da Silva (representando a Academia Cearense de Medicina) e Adriana Melo (representando o Sindicato dos Médicos do Estado do Ceará) (vide foto cedida pela Ac. Ana Margarida Rosemberg).
Marcelo Gurgel Carlos da Silva
Da Academia Cearense de Medicina

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

ANTOLOGIA DA SOBRAMES-2012: destaque no DN

As sílabas que se evolam de verso e prosa

Recorte da capa concebida por Isac Furtado

Chega, agora, ao número 29, a antologia que, anualmente, reúne textos da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores
A organização desses escritos coube a Marcelo Gurgel e a Ana Margarida Furtado Arruda. Como introito, os leitores se dão conta de que a Sociedade Brasileira de Médicos Escritores (Sobrames) nasceu, enquanto agremiação nacional, há cerca de trinta anos, possuindo filiais na maioria das unidades da Federação. A Regional do Ceará destaca-se, dentre outros motivos, por ser uma das mais atuantes, dentre as demais do País, por conta das inúmeras atividades que desenvolve, como palestras, lançamentos de livros e reuniões sistemáticas. A sua primeira antologia data de 1981, comportando o seguinte título: Verde Versos. Assim, dava-se início a uma jornada frutífera, através da qual seus integrantes poderiam, por meio de uma expressão impressa, levar ao público diversos gêneros em prosa e verso, com destaque para a crônica, o conto e a poesia.
Detalhe da capa da antologia "Murmúrios Literários", obra que reúne os escritos em pros a e verso (crônica, conto e poesia) dos membros da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores - Regional do Ceará
O prefácio
Coube à acadêmica Regine Limaverde o prefácio a essa obra. A princípio, ela discorre acerca do curioso título Murmúrios Literários: "Murmúrio é um substantivo que pode ter uma interpretação poética. Quando um médico fala de murmúrios pode estar se referindo a murmúrios pulmonares, um barulho, um crepitar, um sopro que indica que o paciente está vivo. E é isto que os médicos escritores estão fazendo: murmurando que estão vivos. Que não são deuses, que são humanos, que se enternecem com a família dos pacientes, que amam como todos os mortais, que escrevem poesias de amor, que sofrem dores e que também sentem saudades. Dizem-nos que podem sorrir de alegria, que gargalham e contam história. Esta antologia faz uma homenagem a dois escritores que morreram recentemente: Hamilton Monteiro e Aírton Monte. Acerca do primeiro, Geraldo Beserra ressalta que Hamilton Monteiro "foi sempre um poeta voltado para o sonho de um mundo socialmente justo, onde todos tivessem igualdade de oportunidades. Sua poesia sempre combateu as injustiças sociais - em um país como o nosso - sempre foi um semeador de utopias. Mas não foi somente o poeta social por excelência. Cantou o mar, cantou o amor, as delícias da noite, da vida boêmia, também a família cantou. Sempre falando de sonhos, sempre a semear utopias".
O acadêmico José Telles, por sua vez, escreve acerca de Airton Monte: "Adeus Airton / hoje morre o canto / morre o conto / morre a palavra poesia / morrem todos os boêmios / em suas epifanias / só não morrem alguns acadêmicos / epidêmicos / endêmicos / com seus olhos avinagrados / fartos do acre silêncio do remorso". Ambos põem em relevo as virtudes da escritura de cada um deles. Mergulham com proficiência nas produções em prosa e verso.
Considerações finais
Comportando textos em prosa e verso, a antologia da Sobrames dá continuidade a uma das mais fortes tradições de Fortaleza: a de costumeiramente reunir em um único volume os escritores das mais variadas tendências e gêneros. O leitor, assim, pode percorrer o universo de crônicas, que, a partir das banalidades do cotidiano, dão brilho ao que poderia passar anônimo por olhos profanos. Os contos, por conta de sua própria natureza, percorrem o perene humano no drama da existência, descortinando almas, pondo o homem diante de seu duplo. A poesia, com seus jogos de armar, desconcertando as palavras, faz surgir a música e, evidentemente, o que nos encanta e nos emociona.
LIVRO
Murmúrios Literários / Sobrames
EXPRESSÃO GRÁFICA / 2012, 296 Páginas R$ 30,00
CARLOS AUGUSTO VIANA / EDITOR
Publicado In: DN, 01.12.2012

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

VIVER PARA CONTAR E LEMBRAR

Paulo Elpídio de Menezes Neto  (*)
Conheci Lustosa da Costa, enfiado em um paletó com a nota grave de uma gravata listrada, à moda da época. Frequentávamos um curso de preparação para o vestibular da Faculdade de Direito, sob as luzes do professor Eleazar Magalhães, ele trazendo entre bens não declarados restos de latim do Seminário; eu com retalhos de declinações mal aprendidas no ginásio, porém forrado das matemáticas que me foram incutidas perversamente durante três anos de internato  em uma escola militar.
Lustosa descobriu o jornalismo, ainda adolescente, lá mesmo em Sobral, por inclinação própria a que muito ajudou um caderno de folhas pautadas, dado pelo pai, transformado, pressentimento paterno, em um “Diário de Repórter”. O suicídio de Vargas e a crise que sobreveio na maré das conspirações de quartel foram o tema do seu primeiro artigo, assinado “L.C”, publicado no “Correio da Semana”, de Sobral, em 1954. Em Fortaleza, retomava, cada dia, seus passos inquietos pela rua Senador Pompeu, espécie de Times Square local, na qual se encontravam as redações dos principais jornais. Como jornalista, foi, na maior parte do seu longo exercício profissional, repórter e comenatrista no “Correio do Ceará” e no “Unitário. Na “Tribuna da Imprensa, no Rio de Janeiro, e como correspondente do Estado de São Paulo, em Brasília, e no “Correio Braziliense” conquistou lugar próprio entre os mais respeitados comentaristas politicos da época. Assistiu de perto aos principais acontecimentos políticos da República, lá em Brasília, como o fizera no Ceará, na condição de repórter na Assembleia Legislativa. Pressentiu o golpe de 1964 nas estranhas da sedição, ainda em Fortaleza, e acompanhou os primeiros lances dos governos biônicos instalados, no Ceará, pela falácia das eleições “indiretas”. Em Brasília, presenciaria o ocaso dos generais e as dores republicanas com novos governos extraídos de velhas lideranças, povoados de “cristãos-novos” convertidos a uma democracia vacilante e vigiada. No auge das ações “revolucionárias”, quando a repressão e a censura se disseminavam pelas universidades e pela imprensa, deixou escapar, em uma de suas crônicas, o desabafo de um irônico desencanto: “se não é possível mudar de governo, mudemos de povo”…
Lustosa da Costa viveu uma vida rica, não tão longeva quanto gostaríamos tivesse levado Deixou-se, entretanto, impregnar, como poucos, no lapso radioso de sua passagem entre nós, pela vontade e a coragem de viver. Foi um jornalista dotado de qualidades, hoje raras, entre os da sua grei, no domínio do vernáculo, na elegância do estilo, na cultura humanística e na justeza dos seus princípios. Enveredou, com acuidade e competência, pela literatura, pela história e pela memorialística, tendo eleito Sobral como a inspiração de seus registros. Foi, por toda a vida, leitor voraz, seletivo e crítico, elegeu a simplicidade na textura da sua escrita, objetivo que poucos ficcionistas e cronistas do real alcançam. A sua obra testemunhará para o futuro, para o deleite de quem o ler pela primeira vez, o traço de uma prosa leve, dosada com as ironias da inteligência - recursos que fixam a vocação do escritor, cronista e memorialista, que foi dos melhores.
(*) Cientista político e membro da Academia Brasileira de Educação
Fonte: O Povo, 17/10/12. Opinião, p.6.

sábado, 9 de abril de 2011

MÁRCIA GURGEL recebe homenagem no Dia Nacional do Jornalista


Os jornalistas Emília Augusta, assessora de imprensa do senador Inácio Arruda (PCdoB/CE), Frederico Fontenele, da editoria internacional do jornal O Povo, o repórter-fotográfico Gumercindo Gomes, e Márcia Gurgel e Paulo Verlaine, ambos ex-repórteres, ex-editores e ex-ombudsman do O Povo foram homenageados em solenidade na Câmara Municipal de Fortaleza, nessa sexta-feira, 8/4/2011, às 9h, em comemoração alusiva ao Dia Nacional do Jornalista, celebrado em 7 de abril.
A solenidade aconteceu numa parceria entre a Câmara Municipal, a Assembléia Legislativa e o Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado do Ceará. A homenagem aos profissionais foi proposta pelo presidente da Câmara, vereador Acrísio Sena (PT), e pelo líder do Governo na AL, deputado Antônio Carlos (PT).
Nossa irmã Márcia Gurgel, durante a sua carreira de jornalismo, foi a profissional que mais acumulou prêmios no Ceará, resultantes de matérias e reportagens produzidas para a mídia impressa local. Hoje, mesmo afastada de suas lides ocupacionais, mercê da aposentadoria por tempo de serviço, ainda é reconhecida pelas qualidades que marcaram a sua atuação: competência, inteligência, apuro literário e ética.
 

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