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quinta-feira, 23 de outubro de 2025

Lições da avaliação do PPSUS no Ceará

Por Roberta Duarte Maia Barakat (*)

Participei como avaliadora da Comissão de Especialistas da Chamada 05/2024 do Programa de Pesquisa para o SUS (PPSUS) no estado do Ceará. Isso provocou importantes reflexões sobre o papel estratégico do PPSUS na consolidação de uma ciência comprometida com os princípios e necessidades do Sistema Único de Saúde (SUS). A experiência foi um exercício de escuta, diálogo e responsabilidade.

Permitiu reconhecer a diversidade de olhares e metodologias do campo da pesquisa em saúde, além de potencializar a valorização de saberes e práticas construídas (no) e para o território. O PPSUS é, sem dúvida, instrumento relevante no fomento à pesquisa aplicado no Brasil.

Promove a descentralização dos investimentos em ciência, tecnologia e inovação em saúde, valoriza as especificidades regionais, amplia o protagonismo de pesquisadores/as e instituições em contextos historicamente subfinanciados.

Essa capilaridade impregnada de justiça social e territorial, orienta o conhecimento científico pelas demandas reais dos serviços de saúde e das populações. O programa estimula pesquisas que dialogam diretamente com os desafios locais, especialmente no âmbito da Saúde Coletiva. Os projetos, para além de sua qualidade técnica, revelaram o compromisso ético-político dos pesquisadores/as com o fortalecimento do SUS.

O PPSUS fortalece a articulação entre instituições, promove redes colaborativas, atua como ferramenta pedagógica e sustenta os princípios da integralidade, equidade e participação social. Seus desdobramentos transcendem o campo acadêmico.

Os produtos e resultados gerados pelas pesquisas financiadas subsidiarão políticas públicas baseadas em evidências, aperfeiçoarão práticas de cuidado e ampliarão a capacidade de resposta dos sistemas de saúde frente às iniquidades.

A iniciativa aproxima ciência e sociedade, reafirma o papel do conhecimento como ferramenta de emancipação. Em tempos de constantes ameaças à ciência, ao SUS e aos direitos sociais, programas como o PPSUS precisam ser defendidos com autonomia científica para edificar uma saúde pública mais justa, plural e democrática.

(*) Doutoranda em Saúde Coletiva da Uece e colaboradora da SESA.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 23/09/2025. Opinião. p.18.

terça-feira, 29 de outubro de 2024

O CEARÁ EM POTENCIAL E A PNAD CONTÍNUA

Por Alexandre Sobreira Cialdini (*)

A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em agosto, investigou não apenas as informações conjunturais sobre as tendências e flutuações da força de trabalho brasileira, mas também diversos indicadores suplementares e módulos temáticos. Os domicílios selecionados foram visitados durante cinco trimestres consecutivos, uma vez a cada trimestre.

O IBGE incluiu, na pesquisa, um módulo temático sobre Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC), que abrangeu o acesso à Internet, televisão, telefone, microcomputadores e tablets em domicílios permanentes, além da posse de telefone móvel celular para uso pessoal entre as pessoas com dez anos ou mais de idade.

A Pnad Contínua é um dos mais importantes levantamentos de informações conjunturais realizados no país e a principal fonte de estatísticas públicas sobre o mercado de trabalho. Seu planejamento amostral utiliza um esquema de rotação, denominado longitudinal, que inclui uma sobreposição parcial da amostra ao longo dos trimestres.

Os estudos longitudinais são extremamente relevantes, pois visam observar as características de indivíduos ou empresas ao longo do tempo. Sua realização depende da disponibilidade de informações sobre as mesmas unidades em repetidas ocasiões. Por exemplo, um domicílio é entrevistado em um mês, retirado da pesquisa por dois meses consecutivos e reinserido no trimestre seguinte. Essa sequência é repetida cinco vezes, e, depois disso, o domicílio é retirado definitivamente da amostra.

Os microdados trimestrais da pesquisa permitem a realização desses estudos longitudinais em dois trimestres consecutivos, com 80% da amostra, e em trimestres idênticos de anos consecutivos, com 20% da amostra. Além de disponibilizar essas informações, o IBGE também divulga microdados anuais referentes à primeira e à última participação do domicílio na pesquisa.

Esses dados, que totalizam cerca de 450 mil registros por trimestre, são uma valiosa base para análises longitudinais sobre as condições socioeconômicas no país. A Pnad Contínua, no módulo temático sobre educação, revelou que 9 milhões de jovens entre 14 e 29 anos não completaram o ensino médio, destacando a necessidade de investimento na Educação Profissional e Tecnológica (EPT) para reduzir o abandono escolar.

No Ceará, há 2,9 milhões de domicílios com acesso à internet, representando um crescimento de 96% em seis anos. Alinhado com a Pnad Contínua, o Governo do Estado está solidificando uma "trinca de hubs" conectados com o mundo por terra, ar e cabos submarinos. Essa iniciativa busca fomentar um sistema de inovação, investimento em pesquisa e desenvolvimento, além de formação profissional, tudo integrado à diretriz do Ceará 2050.

Com isso, o Estado demonstra uma forte capacidade na área de Tecnologia da Informação, com índices acima da média do Nordeste. De acordo com a Rais/Caged (2011 a 2021), o Ceará cresceu 24%, enquanto o Nordeste, 17%. Além disso, o Programa de Bolsas Científicas, liderado pela Secretaria de Ciência, Tecnologia e Educação Superior do Ceará e pela Funcap, já concedeu 5.076 bolsas, das quais 3.614 foram destinadas a projetos de inovação tecnológica.

(*) Mestre em Economia e doutor em Administração Pública e Secretário de Finanças e Planejamento do Eusébio-Ceará.

Fonte: O Povo, de 20/09/24. Opinião. p.23.


terça-feira, 8 de outubro de 2024

AS TORTUOSAS TRILHAS DA CIÊNCIA NO CEARÁ

Por Armênio Aguiar dos Santos (*)

É promissor testemunhar a Universidade Federal do Ceará nos 70 anos restaurar o Colégio de Altos Estudos (CEA), incumbido de repensar sua atividade acadêmica. Ademais, pela palestra do Prof. Renato Janine, Presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), "O papel das Universidades Brasileiras diante dos desafios contemporâneos", organizada pelo CEA e a Pós-Graduação em Sociologia da UFC, que aliás completa 30 anos.

A data marca ainda os 30 anos de efetiva atuação da Funcap, Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (C&T) que concede bolsas para graduandos, pós-graduandos e pós-doutores, além de bolsas BPI à pesquisadores no interior do estado. E este ano inaugurou o processo de internacionalização da C&T cearense. Já o programa Cientista Chefe desperta inovações em C&T nas secretarias mais estratégicas, tendo na pandemia apoiado a criação do capacete Elmo, premiado com a Medalha da Abolição. E agora, o Governador Elmano reativou, enfim, o Conselho Estadual de Ciência e Tecnologia, definidor das estratégias no setor.

Mas para ultrapassarmos a economia de subsistência agro-pastoril e exploração turística, urge novas atitudes. Apoiar PG sediadas no interior, pelo intercâmbio acadêmico do interior com a capital bem como atrair pesquisadores sêniores para o Ceará. Fomentar interação de grupos emergentes no Ceará e grupos de pesquisa já consolidados no Sudeste.

Retomar ações como: i) Programa de Apoio a Núcleos de Excelência, ii) Programa de Apoio a Núcleos Emergentes e iii) Programa Primeiros Projetos para jovens pesquisadores atuantes no Ceará. E fomentar o intercâmbio das Universidades locais com o Instituto Tecnológico da Aeronáutica, em vias de ser aqui instalado. Reconhecendo o notável papel do governo estadual na melhoria do ensino básico, urge agora elevar o nível do ensino médio com a ajuda das Universidades via amplo programa de divulgação científica, ensejando assim a formação cidadã de nossos adolescentes e jovens.

Para tal, basta o Governo do Estado reafirmar o termo de ajuste do firmado em 2018 com o Tribunal de Contas e elevar, progressivamente, a execução financeira da Funcap até atingir os 2% da arrecadação estadual previstos na Constituição Estadual.

(*) Médico. Professor titular da Faculdade de Medicina da UFC. Conselheiro da região Nordeste da SBPC.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 11/09/2024. Opinião. p.23.

sexta-feira, 12 de julho de 2024

Pesquisa cearense sobre uso de canabidiol no tratamento de TEA receberá repasse federal

 

Os professores Valter Filho, Cidianna Nascimento, Gislei Frota, Carla Brandão e Paulo Sávio Magalhães são os pesquisadores responsáveis pela pesquisa. (Foto: Ramó Alcântara/Uece).

Estudo de pesquisadores da Universidade Estadual do Ceará busca compreender nível de efetividade do composto químico no tratamento do Transtorno do Espectro Autista; resultados devem ser divulgados no final do ano.

Pesquisa da Universidade Estadual do Ceará (Uece) sobre o uso de canabidiol no tratamento de Transtorno do Espectro Autista (TEA) receberá financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

O estudo ficou entre os três mais bem avaliados do País no edital publicado em dezembro de 2023 e busca compreender os níveis de eficácia de uso do composto em pacientes diagnosticados com TEA.

A pesquisa será feita por meio da seleção de diversos artigos científicos já publicados sobre o tema, e análise dos diferentes conhecimentos contidos neles. Até o momento, cerca de 500 artigos já foram filtrados para o estudo.

O investimento do CNPq irá auxiliar o custeio de materiais tecnológicos e humanos para o progresso da pesquisa, como compra de softwares, pagamento de bolsas estudantis, além da contratação de bibliotecários e estatísticos que irão auxiliar na análise dos documentos. Ao todo, cerca de R$ 100 mil serão destinados ao projeto.

Existe uma série de demandas que precisam de suporte financeiro. Para a gente fazer uma pesquisa de alta qualidade como a gente propõe, a gente precisa desses recursos”, explica o doutor em farmacologia e coordenador da pesquisa, Gislei Frota.

Iniciada em janeiro deste ano, a pesquisa se divide nas fases de levantamento das informações, que está em andamento, e divulgação dos resultados, que deve ocorrer a partir de agosto. O objetivo é levar as informações atualmente conhecidas sobre o uso da substância, que é proveniente da maconha, no tratamento de TEA a postos de saúde, escolas, universidades e demais locais públicos na Capital e no interior do Estado.

O objetivo do grupo de pesquisadores é de que, já em dezembro deste ano, os primeiros resultados da pesquisa possam ser transformados em publicações acadêmicas e em conteúdo para novas visitas educativas em municípios do Sertão Central e Inhamuns, Vale do Curu e Região Metropolitana de Fortaleza (RMF).

Para Gislei, um dos diferenciais que garante a qualidade do conteúdo a ser levado para a população é a abrangência obtida a partir do método de pesquisa escolhido, que fornece informações sobre diferentes grupos sociais, casos e realidades no tratamento de pacientes com o transtorno.

Digamos assim: aqui no Brasil tem um ensaio clínico de 100 pessoas. O poder estatístico de 100 pessoas é muito pequeno. Mas, nos Estados Unidos, tem três de 200 pessoas, na Europa tem 20, na Austrália tem mais 10 trabalhos… então a gente junta esses pequenos ensaios clínicos e é como se a gente fizesse um grande ensaio clínico com todos eles. Um trabalho só é 100 pessoas, numa metanálise a gente consegue agregar, às vezes, um milhão de pessoas”, explica o professor do curso de medicina da Uece.

Segundo pesquisa do Centro de Prevenção de Transtornos e Doenças, órgão governamental dos Estados Unidos, uma a cada 36 crianças no País foi identificada com transtorno do espectro autista. No início dos anos 2000, o percentual era de uma a cada 150 pacientes.

Segundo o farmacologista, o crescimento no número de diagnósticos pode ser atribuído a um maior número de profissionais na área, melhor disseminação de informações sobre o assunto, bem como inclusão de outras condições em quadros de TEA.

Ainda de acordo com o levantamento, o transtorno é mais comum entre pessoas do sexo masculino, com incidência quatro vezes maior entre meninos.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 12/07/2024. Cidades. p.17.

quinta-feira, 13 de julho de 2023

Professora da Uece Thereza Magalhães é nomeada Diretora Científica da Funcap

A Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Funcap) nomeou, nesta segunda-feira (10), a professora e pesquisadora da Universidade Estadual do Ceará (Uece), Thereza Maria Magalhães Moreira, como Diretora Científica da instituição. A nomeação foi publicada no Diário Oficial do Estado (DOE) que circulou nesta terça-feira (11/6/23).

Professora Thereza Magalhães foi escolhida para a função, tendo em vista toda sua formação, produção e experiências. A docente é enfermeira e advogada, mestre e doutora em Enfermagem, além de pós-doutora em Saúde Pública. É líder do Grupo de Pesquisa Epidemiologia, Cuidado em Cronicidades e Enfermagem (GRUPECCE-CNPq), foi vice-coordenadora do Programa Cuidados Clínicos em Enfermagem e Saúde da Uece, é coordenadora do Mestrado Profissional Gestão em Saúde e docente do curso de graduação em Enfermagem e do Programa de Pós-graduação em Saúde Coletiva da Uece. Thereza Magalhães é bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq - nível 1A e consultora Ad hoc de vários periódicos. Ela também teve importante papel durante a pandemia de Covid-19, como membro do Grupo de Trabalho para Enfrentamento à Pandemia, contribuindo para pesquisa sobre a doença, bem como para a segurança e saúde da comunidade da Uece e de toda a sociedade.

Na Uece vivenciei em plenitude o mundo acadêmico em sua tríade de ensino, pesquisa e extensão, e também em alguns cargos de gestão. Neste novo momento da minha carreira aprimorarei a competência de estar em cargo de gestão política da ciência. Esta conquista tem um peso adicional por ser mulher e advinda dos quadros de uma universidade estadual. Mesmo já sendo pesquisadora 1A do CNPq, sim, ainda é um desafio, pois o mundo da gestão pública científica ainda é muito masculino”, destaca a nova Diretora Científica da Funcap”.

Professora Thereza reconhece a importância de sua função na Funcap. “A relevância do papel de diretora científica da Funcap reside, sobretudo, em exercer a gestão, acompanhamento, supervisão e controle das atividades de fomento, apoio e incentivo à pesquisa e ao desenvolvimento científico no estado do Ceará. Assumir a Diretoria Científica da Funcap é um relevante desafio na minha carreira. Como docente da Uece, como enfermeira, advogada e, sobretudo, como mulher e cientista, reconheço a relevância da representatividade no exercício do cargo”.

A gestora deixa seu agradecimento e espera contar com parceiros. “Só posso ser grata a Deus, minha família e meu grupo de pesquisa, o Grupecce, por esta oportunidade. Espero fazer valer com dedicação a confiança daqueles que apoiaram a escolha do meu nome para o cargo. Para tanto, conto com todos da Funcap, da Secitece e do Estado. Conto também com todos os pesquisadores e seus alunos para, juntos, seguirmos em busca de fazer o melhor pela Ciência do Ceará”.

Além da recém-nomeada Diretora Científica, a Funcap conta também com a professora da Uece, Paula Lenz Costa Lima, que é, desde 2015, Diretora Administrativo-Financeira da Fundação. Antes, em 2014, foi Diretora de Inovação.

Para a gestora e pesquisadora, “estar na Funcap representa a possibilidade de contribuir, a partir da experiência construída na Uece, para a definição e implantação de políticas que visem ao desenvolvimento social e econômico do estado por meio da Ciência”.

Professora Paula Lenz possui graduação e mestrado em Letras, além de doutorado em Linguística. Foi subcoordenadora e coordenadora do Curso de Mestrado em Linguística Aplicada da Uece, secretária executiva do Programa de Pós-graduação em Biotecnologia da Rede Nordeste de Biotecnologia (PPGB-RENORBIO), secretária executiva do PPGB-RENORBIO Ponto Focal Ceará, gestora administrativa da RENORBIO, diretora tesoureira da Sociedade Brasileira de Biotecnologia (SBBiotec), e coordenadora do NIT-UECE. Atualmente, é também professora/orientadora do Programa de Pós-graduação em Linguística Aplicada e do Mestrado Profissional em Biotecnologia em Saúde Humana e Animal.

Assim, atualmente, a Uece ocupa duas das quatro Diretorias da Funcap. Para o reitor da Uece, professor Hidelbrando Soares, “a presença de duas mulheres, professoras e pesquisadoras, vinculadas a uma universidade estadual demonstra o quanto a experiência, a competência e o conhecimento científico no Ceará é diversificado. Esse é um exemplo de que o fortalecimento da C&T no Ceará passa necessariamente pela contribuição de nossas inteligências, que estão espalhadas nas universidades cearenses. Então, parabenizo o governador Elmano de Freitas pela nomeação das duas professoras da UECE e pela sensibilidade dessa compreensão.”. O reitor falou, ainda, “do orgulho de ter duas de nossas competências femininas contribuindo na gestão de um ativo tão estratégico, o desenvolvimento científico e tecnológico do Ceará “

Fonte: Assessoria de Comunicação da Uece em 12/07/23

sábado, 20 de agosto de 2022

O QUE ISSO SIGNIFICA?

Sherlock Holmes e Dr. Watson decidem ir acampar. Depois do jantar e uma garrafa de vinho, eles vão dormir.

Algumas horas depois, Holmes acorda e cutuca seu fiel amigo.

"Watson, olhe para o céu e me diga o que vê."

Watson responde: "Eu vejo milhões de estrelas."

"O que isso significa?"

Watson pondera por um minuto.

"Astronomicamente, significa que há milhões de galáxias e, potencialmente, bilhões de planetas."

"Astrologicamente, observo que Saturno está em Leão."

"Horologicamente, deduzo que são mais ou menos 3:15 da manhã."

"Teologicamente, posso ver que Deus é todo poderoso e nós somos pequenos e insignificantes."

"Meteorologicamente, suspeito que teremos um lindo dia amanhã."

"O que isso significa pra você, Holmes?"

Holmes ficou em silêncio por um minuto, e então falou:

"Watson, seu idiota! Alguém roubou nossa barraca!"

Fonte: Disponível na home page “Tudoporemail”.

terça-feira, 16 de agosto de 2022

O IMPACTO DA PANDEMIA NA PESQUISA CIENTÍFICA

Por Dárcio Ítalo Alves Teixeira (*)

Diante da crise sanitária deflagrada pela Covid-19, causada pelo vírus SARS-CoV-2, vimos como a pesquisa científica foi importante para resolver esse problema mundial. A participação dos cientistas e das suas pesquisas foram fundamentais para a produção de vacinas e de testes em tempo recorde, além de garantir a segurança e orientar a população de forma correta atuando na prevenção da Covid-19.

A pandemia foi um exemplo mais visível do que a ciência faz cotidianamente em prol da sociedade. Aliado ao Sistema Único de Saúde (SUS), os pesquisadores conseguiram diminuir os altos índices de positividade da Covid-19. Porém, apesar de ser reconhecido internacionalmente pela sua importância, o SUS vem sofrendo cortes. Além disso, ficou claro para a população a falta de coordenação da pandemia pelo Governo Federal, causando um retardo no início da vacinação.

A divulgação da pandemia pela grande mídia trouxe, para população em geral, um fascínio pelo conhecimento de vacinas. Apesar disso, o financiamento a pesquisa caiu drasticamente no período de dez anos. Dados da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência) mostram que a Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) e o CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) perderam aproximadamente 51% do orçamento para financiar pesquisa nos últimos 10 anos.

No Brasil, a pesquisa científica é realizada, principalmente, nas universidades públicas, pelos estudantes e professores de pós-graduação financiados com bolsas dessas agências de fomento. A redução atingiu principalmente essas bolsas, que são fundamentais para que os pesquisadores possam se manter durante o desenvolvimento das pesquisas.

Apesar da diminuição no financiamento, a produção científica não foi reduzida durante a pandemia da Covid-19, e várias universidades demonstraram que as publicações científicas continuam sendo realizadas como nos anos anteriores.

Dados da Unesco mostram que o mundo está fazendo um esforço e aumentando o financiamento às pesquisas, principalmente após o surgimento do SARS-CoV-2. Precisamos seguir nesse mesmo horizonte para que tenhamos mais doutores e demais pesquisadores formados fazendo pesquisas para o desenvolvimento tecnológico no nosso país.

(*) Vice-reitor da Universidade Estadual do Ceará (Uece).

Fonte: Publicado In: O Povo, de 13/08/22. Opinião, p.17.

sábado, 13 de novembro de 2021

COMPREENDENDO OS EFEITOS DA COVID-19 NO CEARÁ

Por Marcelo Gurgel Carlos da Silva (*)

O jornal O Estado publicou em 11/02/2021 (Opinião, p.2) o nosso artigo “O livro áureo da Covid-19 no Ceará”, logo após uma sequência de denúncias apresentadas por parlamentares cearenses contra um contrato firmado, com dispensa de licitação, entre o Governo do Ceará e uma empresa privada, estipulando a bagatela de mais de meio milhão de reais, tendo por produto final o livro “Pandemia: a luta contra o Covid-19 no Ceará”, a ser redigido pelo escritor Lira Neto.

A obra teria a precípua intenção de narrar os desfechos e consequências da crise sanitária, social e econômica decorrente da pandemia de Covid-19 no Estado do Ceará; contudo, a proposição estava acometida de graves óbices que motivariam contestar, tecnicamente, a feitura de um projeto de pesquisa envolvendo seres, passando ao largo da apreciação prévia de um Comitê de Ética em Pesquisa (Sistema CEP/Conep) e da obra ter a previsão de vir a público em junho deste ano, quando o Ceará se encontrava ainda no auge da segunda onda do novo coronavírus, com a introdução de variantes virais, e do empenho oficial do Governo local para a obtenção de vacinas a aplicar na população aqui residente.

A quantia acima citada, além de exorbitante para um projeto único, se destinada a um Edital ou Chamada Pública, gerido pela Fundação Cearense de Amparo ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Funcap), com a temática específica da Covid-19, seria suficiente para financiar, talvez, uma dezena de projetos de pesquisas, redundando em trabalhos científicos, metodologicamente consistentes, e em formação de recursos humanos engajados com bolsas de pesquisas.

Nessa época do tal distrato, com a subsequente suspensão das parcelas vincendas e vinculadas à condução do projeto, houve um leve ensaio positivo na comunidade acadêmica, notadamente entre docentes e pesquisadores dos Programas de Pós-Graduação em Saúde Coletiva e dos de Políticas Públicas funcionantes no Ceará, animados com a expectativa de canalizar o empenho intelectual, para lidar com tão ingente problema de saúde pública, dignificando o compromisso social dos pesquisadores e sanitaristas cearenses.

Infelizmente, o cogitado Edital específico não foi lançado, tolhendo o apoio à realização de estudos que monitorassem, em tempo real, a marcha da pandemia entre nós. Ressalte-se que, independentemente dessa lacuna, houve um acúmulo de produção de dados, mantidos em arquivos de pesquisadores que, por meio de aportes financeiros suplementares, poderiam escoar na forma de artigos, capítulos e livros, e assim ajudariam a ter uma melhor compreensão do que foi e tem sido a Covid-19 no Ceará.

Com a palavra o Governo do Ceará e a sua Funcap.

(*) Professor titular de Saúde Pública-Uece

*Publicado In: O Estado. Fortaleza, 10 de novembro de 2021. Opinião. p.2.

terça-feira, 5 de outubro de 2021

70 ANOS DO CNPQ, ANIVERSÁRIO E CRISE

Por Cláudia Linhares Sales (*)

Em 21 de abril de 2021, o Conselho Nacional para o Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) completou 70 anos.

Criado por um movimento que incluía cientistas, militares e empresários desenvolvimentistas, tem por missão apoiar a pesquisa científica no País por meio de bolsas e fomento a projetos de pesquisa.

Ao longo de sete décadas, conhecendo variações para baixo e para cima no orçamento, conseguiu manter capacidade mínima para investimentos no cumprimento de sua missão, bem como para manutenção de sua própria infraestrutura.

A primeira bolsa de milhares de pesquisadores no Brasil foi a de iniciação científica do CNPq, programa exitoso e mundialmente reconhecido, de prospecção de talentos para pesquisa.

Não há, praticamente, laboratório de pesquisa no País que não tenha equipamentos e insumos adquiridos com verbas do CNPq.

Depois de seu melhor período de investimentos, entre os anos de 2002 e 2014, com orçamento que chegou a R$ 2,09 bilhões, em 2014, os recursos do CNPq sofrem queda acentuada a partir de 2016, até chegarmos ao crítico valor R$ 1,21 bilhão, em 2021 (dados do Ministério da Fazenda).

Pela previsão orçamentária deste ano, faltam recursos para cumprir sua função mais básica.

Isto implica que a maioria dos laboratórios brasileiros não terá financiamento suficiente para manter seus equipamentos, e não terá verba para aquisição de insumos.

Outra consequência dos cortes paulatinos vimos recentemente: o CNPq sofreu um apagão de suas plataformas de gestão de pesquisa, por falta de manutenção de sua infraestrutura.

Configurou-se uma ameaça de perda ou corrupção de uma das maiores bases de dados de cientistas do mundo e do histórico dos projetos financiados das últimas décadas. Esses prejuízos seriam irreparáveis.

Em seus 70 anos, o CNPq jamais conheceu uma crise tão profunda.

Desde a aprovação da criminosa Emenda Constitucional 95, que vai contra os maiores interesses da sociedade brasileira, a comunidade acadêmica, muitas vezes mobilizada pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), se manifestou em sua defesa.

E novamente é imperioso que o façamos. Ao apagão do CNPq, pode suceder o apagão da ciência brasileira, e do projeto de um país. Não há soberania e bem-estar social sem ciência, tecnologia e inovação. Defendamos o CNPq!

(*) Professora titular da UFC e secretária geral da SBPC.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 16/08/21. Opinião, p.23.

quarta-feira, 22 de setembro de 2021

O OFÍCIO DA PESQUISA

Por Sofia Lerche Vieira (*)

Em tempos de sequestro do pensamento, assegurar a produção sustentável do conhecimento é tarefa imprescindível. O Diretório dos Grupos de Pesquisa do CNPq, criado em 1995, registra a vitalidade do coletivo nacional de pesquisadores vinculados a instituições de ensino superior, em sua maioria universidades públicas.

Nosso grupo de pesquisa Política Educacional, Gestão e Aprendizagem (GPPEGA), da Universidade Estadual do Ceará (UECE), é um dos integrantes dessa grande árvore do saber. Celebrando seus 26 anos de trajetória, acaba de publicar uma trilogia de livros que compõem a coleção Política Educacional no Ceará, disponível para download na Biblioteca Virtual da Associação Nacional de Política e Administração da Educação (ANPAE) pelo link https://seminariosregionaisanpae.net.br/BibliotecaVirtual/index.html.

Se na seara da terra, há "tempo de plantar" e "tempo de colher" (Eclesiastes, 3:1-8), em pesquisa semeadura e colheita podem ser simultâneas. Estamos sempre preparando o solo, semeando, adubando, podando e colhendo. Se um doutorando conclui seu processo de formação, há um bolsista de iniciação científica começando. Quando uma pesquisa termina, há outra em planejamento. Este eterno recomeçar é parte da fascinante lógica da produção científica coletiva.

Em pesquisa não há improvisos. Tudo é fruto de trabalho pensado, organizado e desenvolvido passo a passo. É uma atividade, ao mesmo tempo, simples e complexa. Dito em poucas palavras, é um processo que envolve pensar, planejar, observar, registrar, organizar, analisar, relatar e disseminar. Conjugar esses verbos de forma articulada é empreitada que requer paciência, constância, clareza de propósitos e vontade política de compartilhar saber e experiência.

É certo que no percurso de construção do conhecimento, por vezes, damos voltas. Retrocedemos e voltamos ao ponto de partida. Vislumbramos novas paisagens, sendo surpreendidos pela necessidade de ver melhor, ir mais longe e continuar pesquisando. Na caminhada, os segredos da realidade a desocultar são desvendados. Este é o desafio da ciência e o ofício do pesquisador. 

(*) Professora do Programa de Pós-Graduação em Educação da Uece e consultora da FGV-RJ.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 19/07/21. Opinião, p.18.

quarta-feira, 26 de junho de 2019

CORTES FEDERAIS EM UNIVERSIDADE ESTADUAL


Por José Jackson Coelho Sampaio (*)
O Brasil tem dois sistemas de educação superior, um federal, com as instituições federais e as privadas, e os estaduais, com as instituições estaduais, municipais e comunitárias de cada estado. O projeto de um sistema nacional, com a corresponsabilidade financeira dos entes fluindo para fundo comum não avançou. Perdeu-se esta oportunidade histórica nos anos 1980.
E se os bens socializados são parcos, os males ocorrem em larga escala. Vejamos os impactos, de modo direto e indireto, da crise atual, na Uece. O custeio, os pequenos equipamentos e as bolsas da pós-graduação stricto sensu apoiados pela Capes/MEC, ao serem contingenciados, provavelmente cortados, prejudicam nossos mestrados e doutorados, pois os órgãos estaduais de fomento não preveem algumas destas ações e não conseguem compensar, por exemplo, a perda de bolsas federais. A redução global dos repasses da União para os estados obriga aos contingenciamentos estaduais que inabilitam as compensações.
O apoio aos projetos de pesquisa, que incluem bolsas de excelência na pesquisa até bolsas de iniciação científica para estudantes de graduação, estimulando a formação de futuros cientistas, é tarefa do CNPq/MCT&I. Tais recursos contingenciados, provavelmente cortados, prejudicam as plataformas estaduais de pesquisa instaladas, sem que os órgãos estaduais de fomento possam compensar. Vide o fato de que a Funcap continua, até agora, sem implantar as 235 bolsas de iniciação científica aprovadas para a Uece.
Ao observarmos os investimentos de vulto, como a infraestrutura de pesquisa, por meio de prédios e grandes equipamentos, responsabilidade da Finep/MCT&I, a gravidade do problema é muito maior, pois nenhum edital novo está colocado no horizonte e não existe órgão equivalente no âmbito estadual, exceto o que, de interesse de empresas, possa ser feito com o Fundo de Inovação Tecnológica/Secitece.
O laço posto no pescoço da pesquisa e da pós-graduação stricto sensu da Uece é devastador sobre o futuro imediato, sobretudo se acrescentarmos a retração dos recursos para educação a distância, aportados pela UAB/MEC, e para extensão tecnológica de apoio à educação básica, aportados por Pronatec/Mediotec, além da pressão que as instituições federais, em busca de sobrevivência, farão sobre os órgãos estaduais de fomento. 
(*) Professor titular de Saúde Coletiva e Reitor da Uece.
Fonte: Publicado In: O Povo, Opinião, de 17/6/19. p.25.

sábado, 24 de março de 2018

SEMINÁRIO DE AVALIAÇÃO FINAL DO PPSUS


Participei ontem, dia 23 de março de 2018, do “Seminário de Avaliação Final do Programa Pesquisa para o SUS: gestão compartilhada em saúde - PPSUS”, promovido pelo Ministério da Saúde e CNPq, e realizado pela FUNCAP, em Fortaleza-CE, em 22 e 23 de março de 2018.
Atuei como Expositor do tema “Custos dos hospitais públicos terciários gerenciados pelo estado do Ceará na perspectiva da alocação de recursos”, apresentando os resultados dessa pesquisa conduzida sob o amparo do Edital 7/2013 do PP-SUS, no Ceará.
Na ocasião, foram distribuídos exemplares do livro “Avaliação da eficiência de hospitais públicos terciários na perspectiva da alocação de recursos”, de Maria Helena Lima Sousa e Marcelo Gurgel Carlos da Silva, produto final dessa pesquisa.
Marcelo Gurgel Carlos da Silva
Professor do PPSAC-UECE

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Brasil X Prêmio Nobel: duas historinhas

Meraldo Zisman (*)
Médico-Psicoterapeuta
Presidente colombiano Juan Manuel Santos ganha Nobel da Paz 2016 e com esta notícia surge a pergunta requentada: “Quando é que o Brasil terá o seu Nobel? Tudo pode acontecer, mas com esta mentalidade será difícil”.
Sei que, em qualquer atividade humana, é necessário investir tempo, dedicação, trabalho, continuidade, determinação e criar um ambiente propício para alcançar metas. O que importa não é o país de nascimento do laureado e sim onde foi realizada a pesquisa. Advirto que o Premio Nobel é apenas, midiaticamente, o mais importante. E como em toda e qualquer atividade humana por mais honesta que seja, o pesquisador comete lá seus enganos. No caso específico do presidente colombiano acredito, como sul-americano, que ele seja merecedor. Muito embora o da Paz seja um dos mais importantes, por suas características, é ofertado em cerimônia separada e até em outro país (Noruega). Não é cientifico, nem de arte. É de quem luta pelo mais escasso bem da humanidade: A PAZ.
Lembro que se os Estados Unidos da América do Norte não tivessem suas universidades, teriam de mostrar aos visitantes, não Universidades, mas o Grande Cânion, as Cataratas de Niágara, além da Quinta Avenida e as gigantescas esculturas, com mais de 18 metros de altura cada uma, no monte Rushmore – Dakota do Sul. É bom que se acentue que essas premiações não levam em conta raça ou nacionalidade, mas decorrem de trabalhos realizados em universidades, academias, centros de pesquisas.
Trabalhos sérios que nada têm a ver com a emissão de borbotões de diplomas de qualidade pra lá de duvidosa. E o pior é que creio que, se algum dia algum brasileiro: nativo, naturalizado ou que tenha aqui feito sua descoberta, ganhar o Nobel, vão dizer por aí: — 'Grande coisa este tal de prêmio Nobel! Até “fulaninho” ganhou um...'. Isto é o que se deve mudar antes de jogar dinheiro fora ou ficar se lamentando.
Vamos às duas historinhas para ilustrar o Nobel. A pronúncia, deixo ao critério do leitor. Uma, envolvendo o láureo.
Primeira historinha:
Trata-se de um fato ocorrido com o único psiquiatra ganhador de Nobel de Medicina, até hoje. O judeu austríaco que vive nos Estados Unidos, Eric Kandel, único vencedor do Prêmio Nobel de Medicina/Fisiologia em 2000, por ter desvendado os mecanismos que permitem ao cérebro formar e armazenar memórias. Foi convidado a ministrar uma palestra em Viena. Presente, a nata da intelectualidade. Quando de sua apresentação agradeceram-lhe pelo fato de, como filho, retornar à Pátria. Ele então, ao tomar a palavra, disse algo mais ou menos assim: 'Saibam que este filho, quando saiu da Pátria, saiu fugido em um trem, faminto, sem a ajuda de nenhum de vocês’. Em seguida, sem mais delongas, deixou o recinto.
*****
E como havia prometido, aí vai uma outra historinha:
Há alguns anos li um artigo de um professor paulista, cujo nome não me recordo, que falava do estado da arte das “pesquisinhas” no Brasil. Ele a apelidava de pesquisinha:
Um biólogo estudava o aprendizado e o comportamento das formigas. Ele pega uma formiguinha, coloca numa bandeja de experimentos e ordena: - Formiguinha, anda - e a formiga anda. Arranca uma das patas da formiga e repete: - Formiguinha anda e, mesmo capenga, a formiguinha anda. Vai então arrancando as patas do inseto uma a uma, até que, quando arranca as seis patas da formiga, repete: - Formiguinha anda; e a formiga não se move.
Pesquisinha: Formigas sem pernas são surdas? Ou, num país onde o caos econômico-financeiro, educacional, e, médico foi perpetrado o esporte perde a sua força?
Deixo o leitor com o livre arbítrio de escolher a sua conclusão.
(*) Professor Titular da Pediatria da Universidade de Pernambuco. Psicoterapeuta. Membro da Sobrames/PE, da União Brasileira de Escritores (UBE) e da Academia Brasileira de Escritores Médicos (ABRAMES). Consultante Honorário da Universidade de Oxford (Grã-Bretanha).

terça-feira, 7 de março de 2017

PALESTRAS SOBRE ÉTICA EM PESQUISA NO BRASIL


Convidado pelo Instituto do Câncer do Ceará (ICC), o Dr. Jorge Alves de Almeida Venâncio, presidente da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (CONEP), órgão vinculado ao Conselho Nacional de Saúde, do Ministério da Saúde, ministrou palestra ontem, dia 6 de março, às 8h, no Auditório do ICC. O presidente abordou o tema “Ética em Pesquisa no Brasil”, como aula inaugural da nova turma do Programa de Residência Médica do ICC. Logo após a explanação, houve um debate aberto aos participantes. A CONEP tem a função de implementar as normas e diretrizes regulamentadoras de pesquisas envolvendo seres humanos no Brasil.
Sempre acompanhado do Coordenador do CEP do ICC, Jorge Venâncio, ainda nessa manhã, fez exposição sobre o tema em apreço aos membros dos Comitês de Ética em Pesquisa (CEP) e pós-graduandos e pesquisadores do Programa de Farmacologia, no Núcleo de Produção e Desenvolvimento de Medicamentos (NPDM) da UFC. À tarde, foi reservada a palestra e debates aos membros dos CEP da UECE e de outras instituições (SESA, HGF, Unichristus etc.), ministrada por Dr. Jorge Venâncio. À noite, o expositor ocupou a sessão plenária do Cremec para discutir o tema com os conselheiros dessa entidade médica.
Um tópico candente, que suscitou acerbas discussões nas distintas plateias, foi a recente aprovação da PL 200, pelo Senado Federal, e enviada para apreciação na Câmara Federal, cujo teor suprime direitos dos participantes de estudos, em consonância com os interesses da indústria farmacêutica.
Marcelo Gurgel Carlos da Silva
Coordenador do CEP/ICC

domingo, 26 de junho de 2016

Fuinha paralisa acelerador de partículas de 27 km de extensão na Suíça


Por ESTADÃO, em São Paulo
Maior, mais complexo e mais caro dos instrumentos científicos já construídos, o Grande Colisor de Hádrons (LHC, na sigla em inglês), foi temporariamente desligado nesta sexta-feira, 29, por causa de uma fuinha.
De acordo com o porta-voz do LHC, Arnaud Marsollier, o animal causou a interrupção das operações após mastigar um cabo de alta tensão de um transformador em uma parte do equipamento localizada perto de Genebra, na Suíça.
O LHC é um acelerador de partículas com 27 quilômetros de extensão, construído no subsolo, entre a França e a Suíça, para realizar pesquisas em física de partículas. Construído pelo Centro Europeu de Pesquisas Nucleares (Cern, na sigla em francês), o LHC levou mais de 10 anos e custou mais de US$ 7,5 bilhões.
Segundo Marsollier, "a fuinha morreu na hora e sobraram poucos restos dela". Um relatório publicado na tarde desta sexta pelo LHC revela que a fuinha foi fulminada com um choque de mais de 66 mil volts.
Marsollier revelou ao jornal britânico The Independent que as operações do LHC foram suspensas porque, ao invadir o transformador, que é um dos componentes de alimentação da máquina, o animal desencadeou um curto-circuito e uma "severa queda de energia elétrica" nas primeiras horas da madrugada desta sexta.
Segundo Marsollier, o LHC estava em pleno funcionamento quando aconteceu o incidente. O acelerador estava coletando novos dados sobre o bóson de Higgs, uma partícula fundamental descoberta em junho de 2012 e apelidada de "partícula de Deus". O equipamento tem a função de colidir partículas no nível mais alto de energia já atingido, a fim de simular as condições presentes na época do nascimento do Universo, há quase 14 bilhões de anos.
Marsollier afirmou, no entanto, que a fuinha não entrou nos túneis que compõem o laboratório, apenas nas instalações elétricas. Segundo o porta-voz, serão necessários alguns dias para que os técnicos do LHC consertem os danos causados pela fuinha, mas o equipamento não teve danos graves e logo as operações poderão ser retomadas.
"O LHC foi desenhado, evidentemente, para lidar com cortes de energia", afirmou.
Pedaço de pão
O incidente remete aos relatos de um corte de energia no LHC em 2009, quando um pássaro em voo deixou cair um pedaço de pão sobre a máquina. O LHC ficou mais de um ano parado por causa de uma grave avaria ocorrida dez dias depois de começar seus trabalhos, em setembro de 2008, e o incidente com a ave quase atrasou a retomada das operações.
Fonte: ESTADÃO, em São Paulo, de 29/04/2016.

segunda-feira, 4 de abril de 2016

INOVAR PARA INOVAR


Jesualdo Farias (*)
Ao longo de mais de 30 anos dedicados à educação, acompanho discussões acaloradas sobre o conceito de Universidade Pública. Especialmente nos últimos anos, a Universidade Pública brasileira cresceu, melhorou a capacitação do seu corpo docente e técnico-administrativo, modernizou a sua infraestrutura laboratorial e acompanhou e adequou-se ao avanço das tecnologias da informação.
As pesquisas básica e aplicada foram qualificando-se a cada década e hoje o Brasil está entre os 15 maiores produtores de artigos científicos no mundo. Paradoxalmente, estes avanços não contribuíram para incluir o Brasil entre os maiores produtores de patentes e de produtos de alta tecnologia. Exemplos como a Petrobras, a Embraer, a Fiocruz e a Embrapa indicam que é possível produzir em nosso país tecnologia de ponta com competitividade internacional. Por que ainda não consolidamos este patamar?
Houve aumento de fontes de financiamento públicas e privadas para a pesquisa e houve avanço na legislação. Temos ainda, o mais importante, que são os recursos humanos em laboratórios qualificados que realizam pesquisa de fronteira. Se fosse diferente, não teríamos tantos artigos de cientistas brasileiros ilustrando capas de cobiçados periódicos internacionais.
Na verdade, falta intensificar um movimento, em curso, para consolidar uma universidade pública que, sem fugir das suas atribuições constitucionais, inove por dentro. As reações de setores da academia, a PEC 395/2014 e a Lei 13.243/2016, que tratam do fim da gratuidade dos cursos de especialização e de mestrado acadêmico e da alteração da lei da inovação, ilustram o estágio em que nos encontramos.
A Universidade não deixará de ser pública se cobrar pelos serviços especializados que está qualificada para prestar ao setor produtivo e da mesma forma, não se distanciará de seus objetivos precípuos se aceitar doações para complementar o seu financiamento. Analisemos o que as 100 melhores universidades do mundo têm em comum e veremos que ainda estamos longe de visitar esta lista.
 (*) Professor titular da UFC e secretário da Educação Superior do Ministério da Educação (MEC).
Publicado In: O Povo, Opinião, de 17/3/16. p.8.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Fosfoetanolamina é uma fantasia que mais fere do que ajuda


Por Noam Pondé

Especial para o UOL
A fosfoetanolamina se tornou nos últimos meses um dos mais frequentes assuntos discutidos entre os profissionais que trabalham com oncologia. Apesar dos avanços no tratamento do câncer e de que pacientes curados tenham se tornado comuns nos consultórios, a triste realidade é que o câncer ainda causa muitas mortes e muito sofrimento. Sofrem os pacientes e todos que os cercam – familiares, amigos e profissionais da saúde. Como oncologista, poucas situações são mais desafiadoras do que lidar com um paciente ou uma família em desespero.
Quando o câncer entra em nossas vidas, queremos bani-lo, temos a esperança que tudo volte a ser como antes e relutamos a aceitar que isso nem sempre é possível. Diante desta realidade, todos nós fazemos uma escolha, consciente ou inconscientemente: aceitamos a realidade – mesmo que aos poucos– e construímos novas formas de esperança ou negamos a realidade e deixamos que a esperança se transforme em fantasia. O câncer é impiedoso com fantasias, e, inevitavelmente, elas são quebradas, para o enorme sofrimento dos que as construíram. Todos os profissionais da oncologia já presenciaram esse triste processo, e, frequentemente, o tratamento do tumor é mais simples do que o tratamento das fantasias que ele provoca.
É da fantasia que gera a profusão de remédios milagrosos e terapias alternativas que prometem a cura do câncer. Todo oncologista aprende a conviver, tolerar e, por vezes, até respeitar práticas alternativas – a ponto de algumas delas, modernamente serem integradas à prática, após estudos sobre sua eficácia e segurança. Mas, em algumas situações, especialmente quando o manto da ciência é usado para encobrir o pensamento mágico, a convivência entre oncologia e terapia alternativa se torna difícil. A fosfoetanolamina é um destes casos.
O problema da comunidade científica não é, como vem sendo alegado pelos "pesquisadores" envolvidos na exposição de seres humanos de maneira irregular a uma substância experimental, em interesses financeiros, falta de apreço pelo português ou pelo Brasil, ou mesmo falta de empatia pelo sofrimento dos pacientes. São questionamentos relevantes de ordem ética, científica e a preocupação com as consequências para pacientes e para o SUS.
Como falar em ética e regras em pesquisa quando pessoas estão sofrendo e morrendo? Será que não deveríamos tomar medidas excepcionais quando pacientes estão desesperados? É especialmente por respeitar a solenidade desta situação tão comum que não devemos tomar medidas excepcionais e sim seguir as regras que garantem que não vamos adicionar mais sofrimento a essa situação. Pacientes e familiares têm o direito de se desesperar, já médicos e pesquisadores, não.
No passado, cientistas inescrupulosos usaram das mais diversas formas o poder que o desespero e a falta de informação de pacientes conferem para realizarem seu desejo por fama, por respeito e até por dinheiro. Escândalos como os experimentos nazistas e o estudo de sífilis em Tuskegee levaram governos e pesquisadores a perceberem que a ciência, descolada do respeito à autonomia do paciente e da honestidade, pode cometer crimes graves. Foi construído um sistema para impedir que isso se repetisse.
Pacientes devem saber exatamente o potencial da substância em estudo. Devem ser livres para entrar e sair de estudos e nunca podem ser forçados ou manipulados. A transparência deve ser total. Dados devem publicados, avaliados, hipóteses testadas repetidamente por diferentes grupos.
Cientistas sérios apresentam suas conclusões e suas dúvidas em congressos na frente de milhares de colegas que estão lá para aprender e para questionar cada detalhe. Dados referentes a centenas ou milhares de pacientes são necessários antes de declarar uma substância eficaz. Apelos emocionais não são lançados para apoiar dados –pois emoções não apoiam dados e sim colocam em questão sua qualidade e até sua própria existência. Do ponto de vista ético, a fosfoetanolamina não pode ser considerada um remédio, pois ainda não passou por todo esse processo.
A prática clínica e a pesquisa em biologia celular nos mostram todos os dias o adversário que enfrentamos. Drogas que no laboratório parecem funcionar e matam células cancerígenas podem não ser eficazes quando aplicadas ao paciente. Drogas que são eficazes, muitas vezes, deixam de ser para um paciente, pois o tumor se adapta, evolui e passa a resistir a elas. A célula cancerígena é flexível e adaptável e pode escapar de um único remédio de muitas maneiras diferentes.
Portanto, do ponto de vista científico, está claro que um remédio nunca será "a cura do câncer". As declarações sobre a polivalência da fosfoetanolamina, que age supostamente sobre qualquer tumor e em qualquer cenário clínico (seja tumor localizado ou disseminado) não fazem sentido do ponto de vista científico. Inibir o crescimento de células em laboratórios é uma coisa, em seres humanos é outra.
Não são só pessoas que auxiliam o progresso da oncologia, mas também instituições – hospitais, universidades, a indústria farmacêutica (que é um aliado fundamental e não um adversário, como muitos imaginam) e agências reguladoras. No Brasil, esta agência se chama Anvisa. Embora muitas vezes seus processos sejam por demais lentos, seu trabalho – em essência declarar uma droga como tratamento para uma doença no Brasil – exige cuidado, aderência absoluta às evidencias e liberdade de ação.
Pressão por autorização de drogas sem as evidências adequadas, ou pior, de liberações "extraordinárias" por pretensas razões humanitárias, seja esta pressão oriunda de setores da sociedade, ou mais grave ainda, de políticos com cargos públicos, é inaceitável. Uma universidade ser obrigada a fornecer uma substância sem valor científico comprovado pode ser o primeiro passo para o SUS ter que custear qualquer forma de terapia alternativa.
Como oncologista, eu rejeito a fosfoetanolamina como forma de tratamento científico para o câncer e não a indicaria em nenhuma situação. Isso pode mudar, se ela for eficaz em testes adequados e conduzidos de maneira ética e sem pressão externa sobre os pesquisadores. Mas não mudará a minha convicção de que fantasias ferem mais do que ajudam e de que, embora os pacientes possam fazer uso de seu livre arbítrio e usar a fosfoetanolamina de maneira independente, médicos, pesquisadores e governantes têm a responsabilidade de agir dentro dos limites da realidade e nunca estimularem fantasias que só podem terminar por causar mais sofrimento.
Fonte: Do UOL Notícias, de 15/12/2015.

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Falecimento do Professor Ronaldo de Albuquerque Ribeiro


É com indizível pesar que anuncio o súbito falecimento do Prof. Dr. Ronaldo de Albuquerque Ribeiro, expoente da medicina cearense, com notáveis contribuições na Oncologia e na Farmacologia, na noite de ontem, dia 30/09/2015.
Nasceu Ronaldo Ribeiro em Fortaleza em 15/08/1956 e deixa quatro filhos. O óbito ocorreu em Águas de Lindoia-SP, quando ele se encontrava participando do Congresso da Sociedade Brasileira de Farmacologia e Terapêutica Experimental. O seu corpo será trasladado para Fortaleza, onde será sepultado.
Era Pesquisador 1A do CNPq, há muitos anos, com uma larga trajetória acadêmica e vasta produção científica, que superava a marca de duzentos artigos publicados, a maioria deles em periódicos de alto impacto, e da qual resultaram várias premiações e distinções.
Possuía graduação em Medicina pela Universidade Federal do Ceará (1980), especialização em Hematologia e Hemoterapia pela Universidade Federal do Ceará (1986), treinamento em Oncologia Clínica no Instituto do Câncer do Ceará e Hospital Batista Memorial (1981-1983), mestrado em Farmacologia pela Universidade Federal do Ceará (1987) e doutorado em Farmacologia pela Universidade de São Paulo (1991).
Atualmente, era Professor Titular concursado de Farmacologia e Oncologia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará e Professor e Médico Oncologista Clínico do Hospital Haroldo Juaçaba do Instituto do Câncer do Ceará (ICC).
Como área de atuação de pesquisa, tinha experiência em Farmacologia do Câncer e do Processo Inflamatório, com ênfase na patogênese das lesões teciduais induzidas pela quimioterapia e radioterapia do câncer.
Ultimamente, vinha participando ativamente como pesquisador em vários ensaios clínicos multicêntricos internacionais (fases I, II e III) com novos fármacos antineoplásicos e em estudos de toxicidade e qualidade de vida com estes fármacos.
Atualmente, coordenava o Núcleo de Estudos da Toxicidade do Tratamento Oncológico (NETTO), apoiado pelo PRONEX, e era coordenador do Centro de Pesquisas Clínicas do Instituto do Câncer do Ceará, integrando o quadro docente do DINTER em Oncologia, realizado em parceria com o Hospital A.C. Camargo.
(texto baseado no resumo do CV Lattes elaborado por Ronaldo Ribeiro).
Marcelo Gurgel Carlos da Silva
Professor do PPSAC-UECE e médico do ICC

 

terça-feira, 4 de agosto de 2015

O APAGÃO DAS PESQUISAS CIENTÍFICAS


Por Camila Brandalise (camila@istoe.com.br)
Governo corta 75% das verbas para a pós-graduação, ameaça o trabalho de pesquisadores e coloca em risco a evolução acadêmica do País

Alan Ambrosi, doutorando em Engenharia Química: "É triste ver que a pós-graduação brasileira tenha entrado nesse colapso" Foto: Marcos Nagelstein/Ag. Istoé 

Até 2014, o Brasil vivia um salto científico. Em 20 anos, passou do 24º para o 13º lugar entre os países com maior número de pesquisas produzidas, tendo passado à frente de nações como Suíça, Suécia e Holanda. Alcançou visibilidade no meio acadêmico internacional e pavimentava um futuro ainda mais animador. Um ano depois, essa perspectiva está abalada. No âmbito do contingenciamento financeiro na pasta da educação, universidades brasileiras têm sofrido com um corte de 75% na verba federal destinada ao custeio das pesquisas em cursos de mestrado e doutorado, chegando ao cúmulo de os próprios pesquisadores precisarem comprar material de laboratório, como luvas e reagentes químicos. Além disso, a diminuição do repasse compromete outras necessidades na formação de mestres e doutores, como subsídio ao trabalho de campo e participação em congressos e verba de convites para formação de bancas. “Os últimos anos foram de incentivos. Mas, hoje, vivemos uma turbulência”, afirma Isac Almeida de Medeiros, presidente do Fórum de Pró-Reitores de Pós-Graduação e Pesquisa (Foprop). A perspectiva é que as consequências sejam sentidas em dois ou três anos, tempo médio de produção de uma pesquisa. “Se o corte persistir, vamos ficar para trás.”
 
O corte no repasse atinge diretamente o Programa de Apoio à Pós-Graduação (Proap), administrado via universidade e subsidiado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). A diminuição de 75% anunciada pela Capes em julho pegou as administrações das federais de surpresa, uma vez que as instituições trabalham com um planejamento financeiro para o ano com base nos gastos e na previsão de repasse do governo. Há, inclusive, casos extremos, como a Universidade Federal da Bahia (UFBA). Lá, o repasse diminuiu de R$ 4,27 milhões para R$ 1,07 milhão. Somente os gastos já empenhados somam R$ 2,02 milhões, o que deixa a instituição no vermelho. Sem encontrar outra saída, a decisão foi paralisar as pesquisas. Em outras universidades, o dinheiro, que normalmente era enviado no mês de fevereiro ou março, nem chegou. “Os programas que obtiveram nota 6 da Capes ainda não receberam recurso algum neste ano”, afirma Edilson Silveira, pró-reitor de pesquisa e pós-graduação da Universidade Federal do Paraná (UFPR).
Na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a contenção é tamanha que as defesas de tese e dissertação não têm mais verba para pagar diárias de professores de fora da instituição para participação em banca, sendo que ter pelo menos um discente externo é item obrigatório na maioria dos cursos. A solução tem sido realizar conferências via Skype. Aluno de doutorado em engenharia química na mesma universidade, Alan Ambrosi, 30 anos, viajou para Boston, nos Estados Unidos, para apresentar um trabalho em um congresso. O auxílio financeiro no valor de R$ 3.822,67 havia sido aprovado para ele e outra colega, mas seria repassado somente após a viagem. “Tivemos a infelicidade de retornar e ouvir que não havia sinais de ressarcimento do valor aprovado. As contas de inscrição, passagens, diárias chegam e nos desdobramos para poder pagá-las”, afirma. A bolsa para um doutorando é de R$ 2,2 mil e, para mestrando, é de R$ 1,5 mil. Mas esses valores são destinados a gastos pessoais básicos, como moradia, alimentação e transporte. Para Guilherme Rollim, coordenador geral da associação de pós-graduandos da UFRGS, uma vez que existe a exigência de apresentar trabalhos em eventos para concluir a formação, o corte de verbas para viagens comprometerá a conclusão de trabalhos, além de impedir pesquisas de campo. “Pagaremos para trabalhar.”
 Em nota, a Capes assegura o repasse de R$ 2,52 bilhões para o fomento do sistema nacional de pós-graduação em 2015. Cerca de R$ 2 bilhões serão destinados às bolsas, que não sofrerão nenhum arrocho. Os 8% a menos no repasse da Capes são referentes justamente ao corte nas verbas de custeio, os 75% a menos que têm tirado o sono de mestrandos e doutorandos, segundo o Foprop. “Entendemos que o governo preferiu manter as bolsas em detrimento do custeio da pós-graduação, mas esses gastos são imprescindíveis”, afirma Gustavo Henrique Rigo Canevazzi, 27 anos, aluno de doutorado em ciências fisiológicas da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar) e diretor da Associação Nacional de Pós-Graduandos.
Fonte: Isto É Edição N°:  2383 | 31.Jul.15 - p.50-2.
 
 

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